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Encontro15.04.2018
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— Tenciono, sim — confirmou Langendijk. — Vamos prosseguir a viagem até às proximidades da Terra, e depois chamamos Lima e pedimos instruções. Que haverá de mal nisso?

— Dá demasiado nas vistas! — exclamou Archer. E poucos segundos depois continuou: — Olhe, não me sinto em condições para adiantar muito na matéria. Mas... os funcionários que eu mencionei querem, veja bem, querem ouvi-lo estritamente em privado. Querem examinar, eles, os vossos materiais, essa tal coisa, antes de deixarem transpirar o mínimo que seja. Está a perceber?

— Hum! ... Eu cá tinha as minhas suspeitas! — resmungou Langendijk. — Continue,

— Ora, nestas circunstâncias, et coetera, eu tenho de interpretar as minhas ordens da maneira seguinte: vamos acompanhá-los pela passagem, para o Sistema Solar. Funcionará a interligação pela rádio dos nossos auto-pilotos, é claro, para nos assegurarmos de que as naves saem peto outro extremo simultaneamente. Vocês não comunicarão com mais ninguém a não ser conosco , em circuito fechado — trataremos de tudo no exterior —, até receberem indicação em contrário. Fica entendido?

— É mais do que explícito!

Por favor, capitão, não temos a mínima intenção de o ofender. Nem por sombras. Deve compreender que se trata de assunto de tremenda importância. Não esqueça: aqueles que têm sobre os seus ombros a responsabilidade por bilhões de vidas humanas precisam de ser cautelosos. A começar logo por mim próprio.

— Sim, concordo que o senhor está a cumprir o seu dever tal como o interpreta, capitão Archer. Além disso, tem a força.

A Emissário trazia umas armas de fogo, mas quase como excentricidade. Os seus oficiais de tiro eram ao mesmo tempo pilotos da nave. Embora esta pudesse atingir velocidades enormes se lhe dessem tempo, a sua aceleração máxima com a carga e a massa de reação de que dispunha não chegava a duas gravidades. E os seus giroscópios ou os reatores laterais só com muita dificuldade lhe permitiam mudar de posição. Ninguém a tinha imaginado como vaso de guerra, nave solitária que era, a lançar-se provavelmente por toda uma galáxia. A Faraday, essa, fora concebida para agüentar uma batalha. (Nunca surgira ocasião para tal, mas quem sabe o que poderia ocorrer de repente ao atravessar uma passagem? Além disso, a sua alta flexibilidade de manobra tornava-a indicada para trabalhos de salvamento e para o transporte de equipas de exploração.)

— Estou a procurar fazer o melhor que posso para o nosso Governo, capitão.

— Gostaria que me dissesse para quem, dentro do Governo.

— Desculpe, mas limito-me a ser oficial de astronáutica. Não seria razoável que me pusesse a discutir política. Deve compreender, não é verdade, que não tem motivo para se preocupar? Trata-se apenas de uma precaução extra, e não passa disso.

— Claro, claro! — suspirou Langendijk. — Faça-se a sua vontade!

A conversa desviou-se para aspetos técnicos. Desligaram depois. Langendijk dirigiu-se à sua tripulação;

Todos ouviram, é evidente. Têm perguntas a fazer? Comentários? Seguiu-se uma onda de indignação e de consternação. Os protestos mais clamorosos vieram de Frieda von Moltke: “Que essa choldra vá toda para o diabo!” O primeiro-mecânico, Dairoku Mitsuküri, foi mais moderado: “Talvez isto seja arbitrário, mas não devemos ficar retidos por muito tempo. O próprio fato da nossa chegada irá suscitar enorme pressão da opinião pública para nos porem em liberdade.”

Carlos Francisco Rueda Suárez, o imediato, acrescentou no seu tom mais altivo:

— Além disso, a minha família há-de ter uma palavra a dizer na matéria. Um temor, que ela esperava fosse ridículo, levantou-se em Joelle, enregelou-lhe os músculos e endureceu-lhe a voz de contralto:

— Você parte do princípio de que a sua família vai saber do que se passa.

— Deus do céu, como podemos nós pôr isso em dúvida? — protestou o segundo-mecânico, Torsten Sverdrup. — Os Ruedas mantidos na ignorância do caso? Impossível!

— Receio bem que não seja impossível — volveu Joelle. — Como sabe, nós estamos inteiramente à mercê daquela nave de vigilância. E o seu comandante não está a proceder como alguém que apenas quer agir com segurança. Não é assim? Não tenho pretensões a ser muito perspicaz no que respeita às pessoas, mas já me vi perante camarilhas, perante cabalas, nas altas esferas políticas. Da última vez que falei com Dan Brodersen na Terra, também ele me preveniu de que não só podíamos suscitar a hostilidade de algumas facções, mas também sofrer dissabores.

— Brodersen? — perguntou Sam Kalahele, o atirador, companheiro de Von Moltke.

— O proprietário das Empresas Chehalis, em De meter — explicou Marie Feuillet, química. — Deve descontar-lhe os exageros. É um capitalista que trabalha por iniciativa própria. Portanto, abertamente desconfiado de tudo quanto sejam organismos do Estado, e talvez mesmo da própria União.

— Temos de começar a acelerar daqui a pouco — preveniu Langendijk. — Todos aos seus postos de voo!

— Por favor, comandante!—gritou Joelle. — Escute um minuto. Não vou pôr-me a contestar. Reconheço que sou lamentavelmente ingênua a respeito de muitas coisas. Mas Dan, o capitão Brodersen, disse-me que mandava um robô para as proximidades da passagem. Um robô programado para olhar por nós, e meramente para o caso de termos qualquer dificuldade. Previa a possibilidade — a probabilidade, disse ele — de voltarmos numa data próxima, em relação à da partida. Ora bem, que outra coisa pode ser aquele segundo aparelho, ali em órbita mais a distância? Ele apareceu-nos no radar, lembra--se? Que outra coisa pode ser senão o observador do capitão Brodersen?

Ouviu-se a voz de Rueda:

— Virgem Santíssima, Joelle! No decorrer de todos estes anos, porque nunca me falou disso?

— Oh! Ele achava que não nos devíamos preocupar com uma coisa que talvez nunca viesse a acontecer. Disse-mo porque somos amigos, e sabendo que eu ficaria com a informação apenas para mim. Gravei-a na minha banda de apontamentos, para vocês a consultarem se eu morresse.

— Mas nesse caso não há problemas! — observou Rueda, satisfeito. — Não nos podem manter incomunicáveis, se é isso o que você receia. Uma vez que o robô informe o capitão Brodersen, ele o anunciará ao mundo. Eu podia ter esperado uma coisa destas da parte dele. Talvez você hão saiba que Brodersen é ainda meu parente pelo primeiro casamento.

Joelle abanou a cabeça. Os cabos do seu capacete em forma de tigela eram flexíveis e permitiam-no, embora o acréscimo de massa a obrigasse a um visível esforço e, na ausência de gravidade, tivesse de imprimir ao busto um ligeiro movimento de compensação.

— Não — respondeu ela. — Observe como aquilo está distante. Nenhum sistema óptico construído até hoje pelo homem tem possibilidade de distinguir & Emissário a uma distância destas, a não serem sete — não é assim? —, sete naves semelhantes. Esta não passa, no fim de contas, de um transporte da classe Reina, modificado.

— Para que serve então colocar um observador aqui? — interrompeu o contramestre Bruno Benedetti.

— Não era de esperar o que aconteceu? — perguntou por sua vez a planetologista Olga Razumovski. — Mas diga-nos lá, Joelle.

A holoteta respirou fundo.

— Eis o que Brodersen planeava fazer — começou ela. — Ele mandaria o robô, na aparência para estudar a máquina T durante alguns anos e conseguir alguns elementos sobre a maneira como ela funciona. As naves de vigilância não têm um programa lá muito satisfatório, de modo que o projeto só dificilmente poderia ser impedido. Além disso, Brodersen não o levaria a cabo em seu próprio nome. Poria à frente a Fundação Demeteriana de Investigação, a cobri-lo. Já espalhou ali em Deméter donativos bastante avultados. De qualquer maneira, o aparelho estaria a fazer observações de boa fé.

“Nestas circunstâncias, por que razão é forçado um equipamento tão dispendioso a ficar a mais de um milhão de quilômetros daquilo que tem de investigar? Presumo que as entidades oficiais hajam dado qualquer justificação quanto a segurança, possível colisão se uma nave aparecesse com vetores errados. Calculo que a probabilidade de isso acontecer seria da ordem de um em dez, com uma décima de aproximação. Mas elas podiam fazer respeitar o regulamento, se estivessem resolvidas a isso. Assim, o fato de o terem feito não revela o seu verdadeiro motivo? Não querem perder o controlo das notícias sobre a passagem — outra nave betana que aparecesse, talvez, ou nós a regressarmos, ou qualquer coisa de anormal. Querem é exercer uma censura. Irão exercer a censura sobre nós? Existe uma forte tendência antiestelar na Terra, em mais de um governo nacional. Essa gente poderia ter-se apoderado das alavancas apropriadas na hierarquia da União. Podia ter planos sobre os quais não consultou os seus colegas.

Do intercomunicador chegaram imprecações, rosnadelas, uma data de objeções. Isoladamente, no meio daquilo tudo, ouviu-se o som aflautado de Fidélio a exprimir a sua desorientação.

— Que se passa? — cantou o betano. — Porque já não estão vocês nada contentes?

Langendijk impôs silêncio.

— Como comandante de uma nave de vigilância, Archer é meu superior — disse ele. — Preparem-se para obedecer às suas instruções.

— Willem, escute — suplicou Joelle. — Eu posso fazer chegar um sinal ao robô, sem que detetem algo a bordo da Faraday. Isso daria a conhecer a Brodersen a verdade ...

Langendijk interrompeu-a:

— Vamos cumprir as ordens que temos. É uma instrução precisa da minha parte, e vou registrá-la no livro de bordo.

A seguir, o seu tom suavizou-se:

— Não nos vamos pôr a discutir uns com os outros, depois de termos feito juntos uma viagem tão longa, tão difícil. Acalmem-se. Pensem em como são grandes as probabilidades de alguns de vocês estarem cansados, levantando agora castelos fantasmagóricos por cima de um mero grão de areia. Archer comunica secretamente, com a conivência secreta do comandante da nave de vigilância no Sistema Solar... Este por sua vez comunica secretamente com os seus chefes secretos, que lhe dizem para nos levar para um lugar secreto. Não será isto um pouco melodramático? Com franqueza! Pensem também que a lei do espaço está por cima das contingências políticas. Tem de estar. Sem isso o homem não vai às estrelas: morre. Cada um de nós prestou juramento solene de cumprir o seu dever.

Após uma pausa, durante a qual apenas se ouvia a deslocação do ar vindo do ventilador, prosseguiu:

— Tomem as vossas posições de voo. Vamos acelerar dentro de dez minutos.

Joelle deixou-se cair. O desespero esmagava-a. Ela podia, de fato, ter mandado a imperceptível mensagem de que havia falado, se a sua ligação com o computador fosse prolongada ao sistema de comunicação exterior. Mas os botões para isso não estavam naquela sala.

E Willem faz uma idéia muito sua a respeito da lei. Talvez também tenha razão, e é possível que todo esse conluio contra nós não passe de pura fantasia. Quem sou eu para julgar? Tenho andado tão afastada da humanidade corrente, durante anos e anos! Como posso eu saber ao certo como se passam estas coisas?

A realidade absoluta é mais fácil de compreender, sim, quando estamos integrados nela. E não é esse o nosso caso. O que chega até nós são apenas reflexos através do Númeno.

— Está pronta, Joelle? — perguntou Langendijk com suavidade, um tudo-nada pesaroso.

— Oh! — replicou ela. — Estou pronta, sempre!

— Vou assinalar à Faraday a nossa intenção de nos lançarmos a um G às 15 h e 35, e eles estão de acordo. Eles nos acompanharão. Estão a manobrar nesse sentido, agora mesmo. A interligação de autopilotos será feita a 100 km da Baliza Charlie. Já tem todos os elementos de que precisa? ... Oh, é claro que sim. Uma pergunta destas da minha parte é idiota.

Joelle, ela também desejosa de reconciliação, esboçou um sorriso que ele não pôde ver, e respondeu:

— Para si é fácil esquecer, Willem. Eu estou a desempenhar as funções de Christine.

Christine Burns, a operadora efetiva de computadores, morrera nos braços de Joelle escassos meses antes de a Emissário empreender a viagem de regresso.

— A marcha está agora portanto em suas mãos — disse Langendijk, em tom formal. — Pode começar quando receber sinal.

— Muito bem!

Joelle ficou então muito ocupada. Chegavam-lhe informações de todos os lados: vetores de posição, vetores de velocidade, momentos de forças, pressões exercidas, valores do campo gravitacional, derivadas no tempo e no espaço, a modificarem-se de instante para instante, de forma ligeira mas permanente. Aquela avalancha de dados provinha de vários instrumentos e transformava-se em dígitos. E, entretanto, o banco de memória fornecia-lhe não só todos os fatos concretos do passado e as constantes naturais de que ela precisava, mas também uma visão de toda a grandiosa estrutura analítica da mecânica celeste e os tensores das tensões. Ela tinha ao seu imediato dispor os conhecimentos físicos de séculos e também o conhecimento preciso do ponto em que se encontrava naquele momento, no espaço-tempo.

Os elementos de informação passavam das várias fontes através de uma unidade que, em nanossegundos, os traduzia em sinais apropriados. Daí seguiam para o cérebro de Joelle. A ligação, aqui, não era feita por fios fixados no crânio nem por qualquer outro sistema do gênero. Bastava a indução eletromagnética. Joelle, por sua vez, consultava o potente computador a que estava ligada, à medida que os problemas surgiam, de momento a momento.

A harmonia era perfeita. Joelle tinha adicionado ao seu sistema nervoso a imensa capacidade de recepção e armazenamento e a velocidade de pesquisa do conjunto eletrônico, assim como a imensa capacidade lógico-matemática necessária ao volume e velocidade de operações que resultavam da outra metade desse conjunto. Por seu lado, Joelle contribuía com a sua qualidade humana de se aperceber do inesperado, com o seu pensamento criador, que lhe permitia modificar os pontos de vista. Era a parte mais maleável de todo o sistema, o programa que continuamente se reajustava a si mesmo. Regia uma vasta orquestra muda, que podia começar a tocar jazz sem aviso prévio ou compor toda uma sinfonia perfeitamente nova.

Os números e as operações não desfilavam diante dela como elementos isolados. (Da mesma maneira que ela não planeava as inúmeras decisões cinestéticas que o seu corpo ia tomando ao andar.) Joelle sentia-os, mas como parte do seu âmago, como um reflexo sensorial de equilíbrio, uma função. A sua consciência do que se passava ia para além da tessitura mecânica dos símbolos. Ela moldava os contornos da ação, tal como o escultor dá forma à argila com mãos que sabem por si mesmas o que devem fazer.

Artista, cientista, atleta, no fugidio pináculo do sucesso ... Fora isso o que sentira Christine Burns.

Não se passava o mesmo com Joelle. Christine fora uma operadora normal, uma linker. Joelle, essa, era holoteta. Uma holoteta que tinha transcendido a mera experiência de ligação ao computador. Talvez a diferença se pudesse comparar à que existe entre um leigo católico a desfiar o seu terço e São João da Cruz.

Além disso, o trabalho agora a fazer era de pura rotina. Joelle tinha meramente de dirigir, pelos seus pensamentos, o equipamento que guiava a nave, por meio de um conjunto estabelecido de curvas através de uma série conhecida de configurações. O computador só por si poderia no fundo fazer o mesmo, sem a ajuda de ninguém, se se dessem ao trabalho de reajustar certo número de circuitos. Era assim que funcionava o robô de Brodersen.

Christine, a linker, tinha sido contratada porque a Emissário ia partir para um destino totalmente desconhecido, podendo a sobrevivência depender de uma decisão a tomar de maneira rapidíssima, e que ninguém poderia prever e programar. A própria Christine, se ainda fosse viva, teria achado fácil agora esta manobra.

Joelle achava-a repousante. Reclinou-se na cadeira, consciente de ter reganhado peso, e saboreou o prazer de formar um todo, indivisível, com a nave. Não podia ouvir nem lhe chegavam os movimentos, mas sentia o murmúrio da marcha. Células migma estavam a gerar gigawatts de potência de fusão, a decompor a água, a ionizar-lhe os átomos e a lançar o plasma através do concentrador de jacto a uma velocidade que se aproximava da velocidade da própria luz. Mas a eficiência era magnífica. Um triunfo tão perfeito como o da catedral de Chartres. Tudo quanto se via era uma leve esteira de luz difusa a ficar para trás durante alguns quilômetros e o movimento do casco a avançar no espaço.

O movimento, esse, iria durar várias horas, com orientações e configurações constantemente a variarem à medida que a Emissário prosseguia o seu caminho através da passagem estelar entre Febo e Sol. No entanto, só havia por agora um avanço em linha reta para a primeira das balizas. Joelle agitou-se e franziu a testa. Com menos de metade da sua atenção em atividade, não podia durante muito tempo afastar o seu receio de ficar presa ali em frente.

Mas aconteceu então que o écran apanhou a própria máquina T, e Joelle viu-se em presença de um milagre que nunca perdia o seu encanto.

À distância, o cilindro surgia como um fio de luz no meio dos corpos celestes, de nuvens de estrelas. Joelle ampliou a imagem, e a forma da máquina tornou-se mais nítida, embora as dimensões permanecessem uma abstração: cerca de um milhar de quilômetros de extensão, diâmetro ligeiramente superior a dois. Girava em torno do seu longo eixo a tal velocidade que um ponto na periferia se deslocava a três quartos da velocidade da luz. Nada na sua superfície brilhante, cor da prata, revelava isso à vista desarmada. No entanto, a verdade é que um tremular contínuo, quase imperceptível, de cores a mudar, dava uma idéia do turbilhão de energia ali contida. Os Humanos pensavam que aquela claridade provinha de campos de força que mantinham coesa a matéria comprimida às maiores densidades. Luas havia que tinham menos massa do que aquele engenho destinado a abrir passagens através das estrelas.

Como pano de fundo, cintilavam mais duas balizas que o rodeavam: uma púrpura e outra dourada. E, através dos instrumentos, Joelle espiou uma terceira, cor de rádio.

Era uma coisa que os Outros haviam concebido e posto a circular em torno de Febo, tal como haviam instalado uma em Sol e outra em Centrum e outra em... quem se atrevia a dizer em quantas outras estrelas, por quantos e quantos anos-luz? Qual o número de raças sensíveis que tinham encontrado aqueles engenhos no espaço, obtido a mesma licença impessoal para os utilizar e ansiado depois por saber quem haviam sido os construtores de tudo aquilo?

Além desses, quantos mais se abalançaram pelo caminho que estamos agora a percorrer? — perguntava Joelle num acesso de amargura. Oh, Dan, Dan! De nada valeu teres procurado descobrir a mensagem que nos pudesse libertar...

E então, tal como o Sol a irromper de repente por detrás das nuvens, Joelle viu aquilo que ele já devia ter visto antes. Brodersen devia ter pensado naquilo mesmo. Joelle lembrou-se de o ouvir dizer: “Cada raposa tem dois covis para se acolher.” A esperança reacendeu-se nela. Não deixou de ver como essa esperança era fraca, como era fácil ser destruída de novo. Por agora, a centelha bastava.


III
Daniel Brodersen nasceu naquilo que então se designava por Estado de Washington e que ainda se não havia, na verdade, separado dos Estados Unidos da América durante as guerras civis, como várias regiões haviam tentado e a Santa República do Ocidente conseguira fazer. No entanto, durante três gerações antes dele, o chefe da família tinha usado o título de capitão-geral do Domínio Olímpico e exercido a liderança sobre aquela península, incluindo .a cidade de Tacoma, liderança que era real, ao passo que as pretensões do Governo Federal não passavam de palavras.

Aqueles barões não se haviam considerado como nobreza. Mike era pescador, casado com uma indiana quinault, e havia investido o seu dinheiro em vários navios. Quando as Perturbações atingiram a América, ele e os seus homens tornaram-se no núcleo de um grupo que repôs a ordem na região, principalmente no intuito de protegerem famílias e bens. À medida que a situação ia piorando, chegaram-lhe pedidos de ajuda vindos de um círculo sempre crescente de fazendas e de pequenas cidades, até que, um tanto para surpresa sua, se viu senhor de muitas montanhas, florestas, vales e costas, com todas as populações que aí habitavam. Qualquer pessoa se podia fazer ouvir por ele. Não era homem que se distanciasse de ninguém.

Acabou por cair numa batalha com bandidos. O seu filho mais velho, Bob, vingou-o de maneira terrível, anexou o território sem lei, para evitar que aquilo se repetisse, e decidiu-se a assegurar a defesa e a fazer justiça na sua própria terra, a fim de toda a gente poder prosseguir o seu trabalho. Bob cultivava a lealdade para com os Estados Unidos e por duas vezes formou regimentos de voluntários para lutarem pela sua integridade. Foi desse modo que perdeu dois dos filhos, e veio a morrer quando defendia Seattle, atacada por uma esquadra que a Santa República tinha mandado para o Norte.

No decorrer da sua vida passaram-se acontecimentos semelhantes na Colômbia Britânica. O nacionalismo americano e canadiano significava muito menos do que a necessidade de cooperação local. Bob casou John, o filho que lhe restava, com Bárbara, filha do capitão-geral do Fraser Valley. Essa aliança selou uma estreita amizade entre as duas famílias. Após a morte de Bob, uma eleição especial deu a maioria esmagadora a Joim para lhe suceder. “Temo-nos dado muito bem com os Brodersens, não é verdade?” — foram as palavras que saíram dos cais e das docas, das choupanas e das vivendas, dos pomares, dos campos, das florestas, das oficinas, dos bares, desde Cape Flattery até Puget Sound e de Tatoosh até Hoquiam.

Os primeiros anos de governo de John foram agitados, mas deve-se isso a acontecimentos que se desenrolaram fora da Península Olímpica, e também, aos poucos, estes vieram a perder a virulência. Com a paz estendeu--se a prosperidade e um renascer de civilização. Os barões sempre tinham sido gente instruída, mas homens rudes na ação. John dotou as escolas, mandou vir professores, ouviu-os com atenção e lia livros sempre que lhe restava tempo disponível.

Dessa maneira veio a compreender, melhor ainda do que o espírito nacional permitia, que a época feudal estava em declínio. Primeiro, o comando militar federal pôs o conjunto dos Estados Unidos sob seu controlo, tal como o general McDonough havia feito no Canadá. A seguir, peça por peça, instituiu um novo aparelho do Estado, chegou a acordo precário com a Santa República do Ocidente e com o Império Mexicano, e iniciou negociações para se unir ao seu vizinho do Norte. Nesse meio tempo estava a expandir-se a União Mundial, criada pela Convenção de Lima. A Federação Norte -- Americana aderiu a ela dentro de três anos após haver sido proclamada, nos termos de um compromisso que tomara antes. Este exemplo arrastou as últimas nações ainda hesitantes, e tornou-se então realidade o governo constitucional sobre toda a raça humana — durante algum tempo pelo menos.

No início destes acontecimentos, John decidiu que o seu apelo fosse no sentido de preservar ao seu povo suficiente independência interna para que ele pudesse viver mais ou menos de harmonia com as suas tradições e desejos.

Com o volver dos anos caminhou-se para a centralização, passo a passo, negociando cada ponto concreto, e conseguiu o que desejava. Por fim, era nominalmente um verdadeiro senhor, possuidor de consideráveis propriedades, com direito a várias honras e benefícios, e não um cidadão comum. Na prática, contava-se entre os magnates, retirando a força do respeito e do afeto de todo o Noroeste do Pacífico.

Daniel era o seu terceiro filho, que pouca riqueza iria herdar e nenhuma posição social. Isso, aliás, adaptava-se bem ao feitio de Daniel. Ele gozou da sua infância — bosques, montanhas, rios caudalosos, o mar, cavalos, carros, barcos, aviões, armas de fogo, amigos, cerimônias da guarda, severo esplendor de casa senhorial até ela se tornar numa mansão, visitas aos parentes de sua mãe e a cidades mais próximas onde prazer e cultura se renovavam sem cessar, tornando-se cada vez mais refinados. Mas a inquietação permanecia nele, herança de uma casa de guerreiros, e na sua adolescência com freqüência entrava em brigas, quando não andava na pândega com amigos das camadas mais baixas ou a meter-se com as criadas. Finalmente, alistou-se no Corpo de Emergência do Comando de Paz da União Mundial, logo após a formação desse corpo. A própria União estava ainda a ensaiar os primeiros passos, que muitos procuravam impedir. Os homens que faziam parte do Corpo de Emergência andavam sempre de um lado para o outro pelas várias regiões da Terra — e mais tarde fora dela também. A maior parte destes homens iam carregados de armas, que mostravam freqüente uso. Para Brodersen começou aqui uma série de andanças que por fim o levaram a Deméter.



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