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O seu sorriso era um tanto amargo. E explicou:

Frieda podia manter-me ocupado, mas está a explorar os novos homens que a rodeiam.

Weisenberg bebeu um pouco. Depois perguntou:

— E não pode pedir ao comandante que lhe dê trabalho?

— Detesto criar-lhe ainda mais preocupações. Além disso, você é o nosso técnico geral. Se me pudesse dar uma sugestão para eu lhe falar... Está a ver? Você e eu podemos comunicar melhor entre nós do que a maior parte dos que nos rodeiam. Disseram-me que você passou anos no Peru, a trabalhar para a Aventureros.

Weisenberg fez que sim com a cabeça e afirmou:

— Estudei engenharia nuclear em Lima. Não havia na altura nenhuma escola da especialidade em Deméter. Depois disso, entrei para a vossa companhia. Foi isso o que me levou a ir para o espaço. Mas gostava da cidade também. É bela e deu-me muitos momentos soberbos. Estava lá quando foi assinada a Convenção!

— E porque regressou, se não é indiscrição da minha parte?

— Olhe, sobretudo por causa dos meus pais. Não era fácil trabalhar em terra, embora o cuidar da família me mantivesse razoavelmente satisfeito. Quando Dan arrancou com a Chehalis, mudei para ir trabalhar com ele.

Rueda olhou para o seu copo, bebeu, e olhou de novo, como se sondasse um presságio.

— O espaço... — murmurou ele. — Sim, cada um de nós deve estar obcecado pelo espaço, não? Por que outro motivo estaríamos nós aqui? Suponho que fui atraído pelo espaço logo na infância, numa noite fria e brilhante em Machu Picchu. As estrelas por cima das ruínas dos Incas eram como uma hoste de anjos.

— Ou de Outros — acrescentou Weisenberg em voz baixa. Rueda voltou para ele uns olhos perscrutadores:

— Você é daqueles que consideram os Outros como fazendo parte de Deus?

— Não, realmente não sou.

A conversa estava rapidamente a tornar-se cordial. Mas restavam apenas quarenta horas de paz. E Weisenberg continuou:

No entanto, fui para a escola neochasídica em Eópolis. Um homem, uma vez ali entrado, pode trazer as marcas daquilo por toda a vida. Mesmo quando tenha perdido a fé.

— Bom, sou vagamente católico, suponho eu. Mas devo reconhecer que aqueles anos em Beta me deixaram um pouco abalado. Até então, eu quase tinha aceitado a existência dos Outros como uma realidade. Porém, quando os Betanos, com as suas capacidades fantásticas, nos apareceram como mortais e perturbados, da mesma maneira que nós — desorientados e receosos dos Outros, tal como nós —, tudo isso provou em mim uma grande reviravolta.

Rueda fez uma careta e prosseguiu:

— Eu era também conservador em política. Vejo agora como certas coisas, com as quais nem sonhava, têm andado a corromper o aparelho do

Estado, e também essa fé vacila. — Acabou o seu uísque e observou: — Continua a ser possível acreditar no poder, cordura e benevolência dos Outros. Oxalá isso continue sempre a ser possível!

Bebido um gole de água, levantou a garrafa de uísque da mesa ao lado dele e fez um gesto a Weisenberg, a oferecer mais um pouco. O mecânico fez que não com a cabeça. Rueda serviu-se a si e começou de novo a beber.

— Não tenho o culto deles — observou Weisenberg.—Por exemplo, não acredito que estejam a trabalhar em segredo para nos dirigirem e ao universo inteiro. Talvez estejam, mas a Voz deles negou-o também aos Betanos. No fim de contas, sinto-me agnóstico a respeito deles, e agnóstico ficarei até conseguirmos algum conhecimento direto, que talvez nunca nos chegue.

— Porém, eles são importantes para a sua alma — observou Rueda. Weisenberg fez de novo um gesto com a cabeça.

— Fundamentais. Em especial quando observo o céu no espaço. Embora eles provavelmente não se divirtam a serem deuses, parece impossível

— bem, impossível para mim aceitar, pelo menos — que estejam indiferentes para conosco ... Que nos deixem utilizar as suas passagens meramente porque não podemos causar dano a nada que seja deles. E a mostrarem-nos o único caminho para um novo planeta por mera bondade, como um homem que dá de comer aos pombos com a sanduíche que, assim, deixa ele próprio de comer. Não, parece-me claro que eles nos estudaram, de qualquer maneira, e de perto, mesmo antes de Fernández-Dávila haver partido da Terra. Terão depois disso perdido o interesse por nós?

— Talvez tenham ido para outro lado — observou Rueda. — Lembre-se: ninguém, incluindo os Betanos, ninguém viu até hoje uma nave deles.

— Talvez conservem as suas naves invisíveis. Ou nem precisem de naves. Não faz sentido que houvessem abandonado aquelas máquinas T

— pense no investimento de energia e de meios — ou, estou certo, que nos tivessem abandonado. Posso facilmente imaginar que eles se conservam afastados dos nossos olhos. Podíamo-nos sentir subjugados pela sua presença, esmagados. Mas, com todos os diabos!, eles devem ser bem intencionados. Devem interessar-se por nós.

— Esta é uma grande galáxia. Ao que parece, milhões de raças inteligentes, ou bilhões. Não olharão eles ao tempo?

— Se podem construir por aí máquinas T — quantos sóis? —, podem também seguir o que se passa nos planetas.

— Como Deus? “O seu olhar vela sobre as avezinhas.”

— É improvável que os Outros tenham poderes infinitos. Talvez não possamos dizer qual é a diferença, no entanto.

Rueda mostrou-se apreensivo:

— Não estão a fazer muito no sentido de nos ajudarem, a bordo desta nave, não lhe parece?

— Eles nunca fizeram milagres em benefício individual, que eu saiba — reconheceu Weisenberg. — Experimentei repetidas vezes, e repetidas vezes não consegui saber qual é a atitude deles em relação a nós, como se exprime a sua solicitude. Estou apenas convencido, até à medula, de que eles se interessam por nós, que a Voz não mentiu quando disse que eles nos amavam.
Eram horas de preparar ainda outra refeição. Caitlín entrou na sala comum a caminho da cozinha e estacou.

O estrangeiro... o betano... Fidélio estava ali, dir-se-ia sentado, ou acocorado, ou equilibrado diante de um dos largos écrans, a olhar o infinito. A iluminação interior obscurecia o céu aos olhos de Caitlín, mas ela podia ver a Via Láctea a estender-se para além da cabeça dele. Fidélio estava sozinho.

— Oh! — acudiu ela. — Bom dia!

Sem lançar um olhar em torno de si, Fidélio respondeu com uma entoação rouca que ao mesmo tempo parecia um silvo:

Buenos dias, senora Mulryan. Caitlín mudou para o espanhol:

— Conhece-me então, já, sem mesmo olhar para mim?

— A minha raça tem o ouvido mais apurado do que a sua.

Sem prática, era necessário, em contrapartida, um ouvido bem dotado para apreender a maior parte daquilo que Fidélio dizia. Mas ele falava com fluência, num espanhol gramaticalmente correto. A natureza, porém, não o tinha destinado a emitir sons daquela espécie. Como se compreendesse que talvez houvesse sido demasiado seco, prosseguiu ele:

— Além disso, cada um tem o seu odor próprio. Esta é outra característica de que vocês não conseguiram aperceber-se. No entanto, a vossa visita ao ar é muito mais perfeita do que a minha para longo alcance, e não posso deixar de admirar também a vossa sensibilidade táctil.

Fidélio voltava-se agora, num simples movimento fluido — com a luz a brilhar ao longo da sua pele — a fim de ficar de frente para Caitlín. Esta avançou por sua vez, até ficar diante dele.

— Gosto do seu cheiro — disse Caitlín. — Faz-me lembrar o meu país natal, quando era pequena, a brincar na areia, com o mar a fazer os seixos rolarem uns de encontro aos outros como mós de moinho ... Mas é também bastante diferente, e sinto-me ao mesmo tempo criança a sonhar na praia, vendo o país das fadas nas nuvens ... Desculpe. Você não pode compreender isto.

— Talvez possa. Também o meu povo tem os seus mitos, os seus fantasmas, que são mais fortes na infância.

Caitlín estendeu as mãos através das garras palmípedes de Fidélio, porque as mãos dele estavam um pouco mais para trás. Apertou-lhe as protuberâncias e disse com satisfação:

— Eu estava certa disso. Mas não imaginava que você tivesse tantos conhecimentos a nosso respeito. Por exemplo, para saber o sentido de uma expressão como “país das fadas”.

— O meu trabalho tem sido com outras espécies sapientes. Isso me ajuda a depreender o que se relaciona com a vossa.

Aquele olhar, perfeitamente azul, concentrou-se atento em Caitlín. Depois, Fidélio comentou:

— Eu tenho de estar surpreendido pela sua imediata compreensão das minhas palavras. O meu acento parecia muito carregado para alguém que não fosse da Emissário.

Caitlín retirou as mãos, encolheu os ombros e explicou:

— É que eu coleciono canções em várias línguas.

Aquele grande vulto castanho ergueu-se. Os pêlos da boca estremeceram.

— Quer dizer então que também canta? E que não é música formal, como aquela que a gente da expedição tocava para mim, mas sim uma música viva, corrente?

— Como? Então eles nunca cantaram?

— Sim, de vez em quando, mas ... — Fidélio hesitou. Prosseguiu por fim: — Observei que a minha raça tem ouvido relativamente fino.

Caitlín deixou transparecer um sorriso:

— Sei que você está a procurar ser diplomata a este respeito. Bem, se na verdade sentiu interesse pela nossa música, pelas nossas gravações ... eu nunca me consideraria uma notável intérprete, mas ...

— Bom dia! — disse uma outra voz.

Fidélio não precisava de ver quem falava. Caitlín, essa precisava. Era Joelle Ky que ali estava, à porta.

— Oh, bom dia, senora — apressou-se Caitlín a cumprimentar com afabilidade. — Posso ser-lhe prestável em qualquer coisa?

— Não. Passei por aqui...

A holoteta mantinha a sua magra figura tão rígida como o seu tom.

— Estávamos a principiar uma conversa ...

— É a primeira pessoa desta tripulação com quem posso falar à vontade — observou Fidélio.

— Não quer entrar, Drª Ky? — perguntou Caitlín, timidamente.

— Não — respondeu a outra mulher. A sua expressão era seca como as suas palavras. —Pouco teria para dizer. Continue, senorita Mulryan. O jantar pode esperar. Sem dúvida que é mais importante alargar a experiência que Fidélio tem da... humanidade.

E Joelle -foi-se embora.

Caitlín ficou a olhar para o espaço vazio, ali ao pé da porta, onde a holoteta tinha estado. A pergunta do betano chamou-lhe de novo a atenção para ele:

— Existe qualquer conflito entre vocês as duas?

— Não. Eu nunca ... Isto é ... — e Caitlín respirou fundo. — No fim de contas, raras vezes nos encontramos, ela e eu. Claro que eu sabia do seu feitio, e estava com receio, e já esperava ...

Caitlín suspirou ao de leve. O suspiro era ao mesmo tempo um estremecimento. Depois encolheu os ombros e disse:

— É possível que haja um conflito, se assim lhe podemos chamar — reconheceu ela. — O capitão Brodersen disse-me umas coisas. Talvez ela esteja ressentida por causa da minha intimidade com o comandante. Mas estou certa de que é assunto completamente estranho para si.

Fidélio arqueou o corpo, como na defensiva.

— Não compreendeu? Nós queremos que as coisas desta espécie não nos sejam estranhas.

— Bom, sim... — balbuciou Caitlín. — Suponho... Ouvi dizer... É profundamente espantoso, mas ...

As lágrimas entreluziram-lhe nos olhos, embora não tivessem passado as pestanas.

— Aquilo que você esperava fosse uma abertura para o amor tornou-se numa abertura para o ódio e o medo. Santo Deus!

Caitlín reuniu as suas forças:

— Nós tentamos o melhor — disse ela. — Dan Brodersen verá isso. Entretanto seria aconselhável que você chegasse a conhecer os humanos, para além dos poucos que foram até ao seu planeta. Somos muito diferentes uns dos outros. Claro que alguns de entre nós o podem ajudar. Também o travar conhecimento nos distrairá um pouco da perda que sofremos e da ação desesperada que vamos tentar daqui a alguns dias.

De novo Caitlín fez um gesto para Fidélio, pegando-lhe desta vez nas mãos, pois ele as tinha estendido.

— Deixe-me ser a sua guia. Posso interpretar-lhe os acontecimentos, combinar pequenos encontros e procurar que as coisas se passem sem grande dificuldade. Todos precisamos disso.

— Muito obrigado — respondeu ele. — Você é amável.

Ficou ainda curvado, e as palavras saíam-lhe mecanicamente. Caitlín observou-o com atenção, a destacar-se sobre um fundo de estrelas impiedosas.

— Você sentiu-se contente por um momento — murmurou ela por fim —, mas a satisfação já lhe fugiu.

Ele fez um ruído que podia corresponder a um suspiro.

— É uma coisa a respeito da qual você nada pode fazer, senorita. E, se conseguirmos libertar-nos, não vai tardar a passar.

— Importa-se de me dizer o quê?

— Eu sou holoteta, como Joelle Ky, e há muito fora do... do estado de comunhão. Você sabe que ele se torna essencial para nós, ou pelos menos para a nossa felicidade. — Fidélio levantou a cabeça e prosseguiu: — Mas não se preocupe. Não é pior para mim do que para ela.

— Mas você está entre estrangeiros! — exclamou Caitlín. — E temos equipamento a bordo, mas não se adapta a si, não é verdade? Compreendo quanto deve sentir-se infeliz!

Caitlín avançou para aquele corpo pesado, quente, apertou-o nos braços.. Ele tocou-lhe em tímida resposta.

— Escute, Fidélio — disse-lhe ela quando se separaram. — Você tem a lucidez de ver que de nada serve lamentar-se. O melhor é pôr de lado a sua tristeza por um pedaço. Era o que estava a fazer quando fomos interrompidos. Voltemos ao ponto em que nos encontrávamos nesse momento. Música. Você haveria de gostar de ouvir as nossas canções e, por meu lado, sentiria verdadeiro prazer em ouvir as vossas. — Com vivacidade, acrescentou:

— Agora tenho de ir preparar a comida, mas não há motivo nenhum para não podermos cantar ao mesmo tempo.

Fidélio mexeu-se, endireitando-se. A vida retornou à sua voz:

— Sim, faça favor, vamos. Posso ajudá-la no seu trabalho? Pela primeira vez desde que haviam saído da Roda, Caitlín riu.

— De que ri? — perguntou ele.

— Oh!... Obrigada ... Talvez você pudesse levar algumas coisas. Mas estava a lembrar-me era de uma casita primitiva, na Irlanda, e a vê-lo assim na cozinha a cantar, com o pano dos pratos na mão.

Como se se tivesse libertado de um peso, Caitlín dançava para a cozinha. Enquanto avançava, ia desfiando a primeira canção para Fidélio:
La cucaracha,

la cucaracha,

Ya no quiere caminar ...
— Ah! — e a respiração de Frieda von Moltke chegava quente e desordenada. — Foi bom. És estupendo!

Martti Leino abriu os olhos para aquela cara redonda, de nariz largo, boca cheia, ali por baixo dele. Leino não era alto; ela era. Frieda fora realmente capaz de o beijar nos lábios e dentro deles, até começar a crescer o desejo nela. Então rugiu, e foi como se estivesse a cavalgar num tremor de terra. Depois, os seus braços e as suas coxas ainda se quedaram entrelaçados a ele. O suor colava-lhe as loiras trancas à testa ligeiramente corada e às maçãs do rosto Leino sentia aquela mesma humidade contra o ventre.

— E tu também — disse ele. — Foi excelente, e não há dúvida de que precisava disto. Obrigado!

Ela riu.


— Mas ainda não estamos arrumados, meu amigo. Que dizes tu a uma cerveja, primeiro? E importas-te que fume?

— De maneira nenhuma. Eu, por mim, não fumo.

Leino desprendeu-se e encostou-se ao travesseiro, à cabeceira da cama .Os pés dela tamborilavam de encontro à barra. Frieda era pesada: não gorda salvo os vastos seios; sólida. Cruzando a sua cabina, tirou um charuto de uma caixa — a nave estava abastecida com o necessário para uma quantidade de pequenos vícios — e pô-lo entre os dentes, antes de se ocupar das garrafas. Ao voltar, deteve-se à beira da cama. Olhou para Leino com ar interrogativo:

— Martti, porque foi que fechaste os olhos quando começamos? O olhar de Leino desviou-se dela.

— Hábito! — murmurou Leino.

— Não é bem essa a minha opinião. Podíamos ter apagado a luz, se quisesses. Estavas a servir-te de todos os sentidos, até ... Resolveste imaginar que o meu corpo fosse de alguém mais?

— Por favor!

— Podes crer que não me sentia ofendida nesse caso. Não vamos discutir a esse respeito. Eu não quero também ser indiscreta. É apenas por curiosidade

Leino não disse palavra. Ela passou-lhe uma garrafa ainda húmida do gelo, e acendeu o charuto. O fumo redemoinhou, espalhando um cheiro intenso. Frieda foi para junto de Leino e sentou-se na cama, flanco contra flanco.

— Gosto muito de ti, acredita, Martti — disse-lhe ela. E com uma ponta de malícia: — Espero que faças boa figura, em comparação com os teus companheiros de bordo. Stefan Dozsa é interessante mas ... apressado? Talvez não deva esperar muito dele. Quanto aos outros dois, não alimento grandes esperanças. Weisenberg comporta-se perfeitamente como homem casado quando falamos, e Brodersen tem a sua amante, que é de longe mais bonita do que eu.

— Sim, tem — concordou Leino, franzindo a testa. Uma vez mais o olhar de Frieda se tornou apreensivo:

— Ela é uma pessoa encantadora. Prendada. Estava a cantar algumas das suas próprias baladas enquanto tomava medidas para me fazer umas roupas decentes. E, além disso, faz uma excelente cozinha. E parece desempenhar o resto das suas tarefas de contramestre com esmero. Que mais?

— Não sei — observou Leino, apressadamente. — Não a conheço bem, mas é moça interessante.

Súbito, voltando-se para a olhar de frente, pediu:

— Fala-me de ti, Frieda. Toda a gente se ocupa a falar, da política de Beta e da Terra e de coisas desse gênero. Agora resta-nos já pouco tempo antes de... Olha, que tens feito na vida?

Frieda encolheu os ombros e atirou para o ar um anel de fumo.

— Já passei o cabo dos trabalhos.

— Conta-me.

— Se me contares depois também a tua história.

— A minha resume-se a pouco — disse Leino. — Sou ainda muito novo ... Estou agora a ver como tenho tanto para aprender ... Viste muito mais do que eu.

Frieda recolheu a garrafa e o charuto na mão direita, para que a esquerda pudesse desalinhar o cabelo a Leino.

— És simpático, Martti.

Depois, espreguiçando-se de encontro ao travesseiro:

— Pois aí tens, em traços gerais, se quiseres. Nasci na Prússia Oriental há trinta anos, salvo que para mim foi há trinta e oito. A minha família não era rica, mas tínhamos sempre presente que através de séculos havíamos sido junkers, e mais tarde fornecemos oficiais para o Império Soviético, e depois de ele se desfazer ... A mansão que pertencera aos nossos antepassados via-se de nossa casa. O meu pai foi guerrilheiro durante as Perturbações. Eu ingressei na Freiheit Jugend. Nunca tivemos de combater, mas estávamos a todo o momento preparados para isso. Por fim aproveitei de um Wanderjahr8 antes de me alistar no Comando de Paz. Treinaram-me para o espaço. Quando a Emissário começou a recrutar pessoal, ofereci-me e fui aceite:

— Não, não se pode dizer que sejas gata-borralheira — observou Leino. Prepassou nela um sorriso desencantado.

— Gostava de me casar, de acabar com a vida que levo, de ter filhos enquanto os meus pais ainda puderem gozar do prazer de serem avós. Se eles forem vivos ... E, afinal, podemos nós também estar neste momento a voar para a morte.

— É duro, na verdade, aguardar sem esperança, não é?

— Mas não é outra, em regra, a sorte reservada aos seres humanos. Aguardamos pelos resultados de uma análise médica, ou aguardamos pelo veredicto de um júri ou por saber a que distância de nós vai cair a próxima granada num campo de batalha ou por coisas deste gênero.

Frieda sorveu o charuto, avivando-lhe uma chama vermelha como Aldebaran. E seguiu os seus pensamentos:

— O que é terrível, agora, é que podemos ser a derradeira esperança do gênero humano para se chegar verdadeiramente às estrelas. Os nossos inimigos não se deterão se se desfizerem de nós, spurlos versenkt9. Hão-de recear que cheguem os Betanos ou alguém mais e, por essa razão, não param até conseguirem controlar bem a situação, até poderem instalar abertamente armas nas máquinas T em Sol e Febo, no intuito de conservarem bem fechado um reino isolado em si mesmo. É muito possível. O meu povo lembra-se dos Soviéticos.

— A menos que os Outros intervenham — observou Leino. — Será isso apenas sonhar no vazio? Conseguiram vocês alguma indicação na Emissário?

Os traços de Frieda vincaram-se.

— Não. Que outros sinais além da Voz nos deixaram entrever os Outros... ou os Betanos, ou qualquer outra dessas raças que os Betanos conhecem?

Frieda despejou a garrafa, pousou-a com um tinido e bateu com o punho no joelho.

— Martti, não gosto de pensar nos Outros. Pensamos neles durante oito anos. Eles trazem os Betanos obcecados, mais obcecados do que Jesus Cristo trouxe a Europa... Pude senti-lo quando comecei a aprender a língua e a ajudar nos nossos estudos. Pude sentir. Disse-te que vinha de um país repleto de sonhos e de pesadelos que não se esquecem. — E concluiu, com violência: — Esquece os sanguinários Outros! Somos nós que fazemos o nosso próprio destino!

— Bem, talvez — e a resposta de Leino era evasiva. — Também eu tinha as minha dúvidas. Sou cristão, embora não milito praticante, reconheço-o. Isso fez que eu me interrogasse quanto ao efeito que eles terão sobre nós. Sem dúvida que não passam de uma espécie bastante evoluída em relação à nossa, no campo da ciência e da tecnologia. São bons cérebros, suponho eu, mas contarão muito aqui os cérebros? Não me surpreenderia nada se os nossos holotetas fossem tão inteligentes como eles. Ou mais, até. Se eles são anjos como pretendia o pastor da minha terra natal, ou se ficaram simplesmente isentos do pecado original, então porque deixaram eles que as Perturbações caíssem sobre nós? E as heresias, os cultos selvagens que se centram neles. Podiam realmente ser réprobos, ou ser puros demônios? Não sei. Não sei Surpreendida, Frieda propôs:

— Deixemos os assuntos religiosos.

Quedou-se em silêncio um minuto ou dois. A seguir perguntou:

— Posso ligar música, Martti? Beethoven. Gosto da Primeira Sinfonia, quando ele era ainda perfeitamente feliz, a aprender de Haydn e Mozart. Quero ouvir felicidade.

— Claro! — respondeu Leino, e acariciou-a.

Frieda voltou para junto dele, envolvidos os dois numa girândola de harmonias. Pôs de lado o charuto e aninhou-se-lhe nos braços.

— É maravilhoso um fundo musical assim, para uma hora de amor na cama — disse ela.

— Mas, espera ... — objetou Leino. — Preciso de descansar. Frieda lançou-se sobre ele.

— Tenho a certeza de que vais encontrar recursos como pessoa nenhuma descobriu em ti até agora.

Pausa; cálculo; arremetida:

— Caitlín Mulryan pode fazer o mesmo, ou engano-me muito. Vendo-lhe um gesto de contrariedade:

— Não te apoquentes, que eu estava a brincar. És um homem maravilhoso. Vamos aproveitar deste pouco tempo que nos resta antes de entrarmos na passagem.

De novo Leino fechou os olhos.



A seguir:

O AVATAR**

A coragem e a determinação de Brodersen tinham salvo a tripulação da Emissário. Mas o grande problema continuava por resolver. Com a sua nave, Brodersen vai forçar a passagem e lançar-se, através do espaço e do tempo na demanda louca dos Outros, já que são eles a única esperança que a todos resta...

Este livro é distribuído GRATUITAMENTE pela equipe DIGITAL SOURCE e VICIADOS EM LIVROS com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de apreciar mais uma manifestação do pensamento humano.


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Se quiser outros títulos nos procure.
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1 Italiano: tolice. (N. do T.)

2 Linguagem deformada, como, por exemplo, o inglês que era falado entre chineses e europeus. (N. do T.)


3 Na Irlanda: rapariga. (N. do T.)


4 Professor da Ucrânia, fundador de um movimento religioso; o movimento chasidim. (N.doT.)


5 Irlandês: ai de nós, ai de nós! (N. do T.)


6 Nos computadores, hardware é o material, software os programas. (N. do T.)


7 Alemão: imagem do mundo. (N. do T.)


8 Alemão: ano de viagem. (N. do T.)

9 Alemão: desaparecidos sem deixarem rasto. (N. do T.)



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