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Encontro15.04.2018
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As pessoas das suas relações mais recentes tinham como ponto assente que as loucuras da juventude constituíam nele uma fase muito distante no espaço e talvez, com a idade de cinqüenta anos terrestres, mais afastada ainda no tempo. Ele próprio só raras vezes pensava nelas. Estava sempre muito ocupado.

Aconchegando-se numa cadeira, tirou a saca com o cachimbo e o tabaco.

— Vão para o diabo os torpedos! — murmurou ele. — Para a frente é que é o caminho.

A governadora-geral de Deméter olhou para ele, surpreendida, por cima da secretária.

— Como?

— Uma expressão de meu pai — explicou ele. — Significa que a senhora me pediu para vir ao seu gabinete em pessoa, porque não queria que falássemos disto pelo telefone. E agora está para aí com pezinhos de lã a rodear o assunto, como se tivéssemos de entrar num estábulo que não tivesse sido lavado há semanas.



Esboçou um sorriso forçado para mostrar que não via onde estava a dificuldade. E prosseguiu:

— Não me vai por certo deixar ficar para aqui a grasnar as minhas figuras de retórica mais tempo do que o necessário. A Lis está à minha espera em casa para o jantar, e não me perdoará se o assado ficar queimado por minha causa.

Aurélia Hancock franziu as sobrancelhas. Era uma mulher bastante alta, para o pesado, feições vincadas e cabelo curto, já encanecido. Nos seus dedos amarelados ardia-lhe vagarosamente um cigarro. O fumo tinha-lhe enrouquecido a voz, e dizia-se que ela se submetia agora a uma quantidade invulgar de tratamentos de rádio contra o cancro. Como era seu hábito, usava roupa que seguia a moda da Terra, mas de maneira bastante conservadora: uma túnica verde com decote aberto e franja prateada, por cima de calças à boca de sino, e sandálias douradas.

— Eu estava a tentar ser-lhe agradável — disse ela.

O polegar de Brodersen amassou o tabaco no cachimbo:

— Obrigado — respondeu ele —, mas receio bem que este assunto não se possa tornar interessante, de maneira nenhuma.

Ela levantou a cabeça:

— Como sabe o senhor aquilo de que lhe quero falar?

— Oh, desça desse tosco pedestal, Aurie! De que outro assunto se poderia tratar senão da Emissário?

Hancock levou o cigarro aos lábios, pousou-o e disse:

— Muito bem, Dan! O senhor vai deixar de espalhar essas histórias a respeito do regresso da nave. O fato é que elas não correspondem em nada à verdade. O meu pessoal e eu já temos muito com que nos ocupar com o que se passa no dia-a-dia, sem necessidade de acrescentarmos infundadas suspeitas de que o próprio Conselho ande a mentir ao povo.

Brodersen alçou as suas espessas sobrancelhas:

— Quem disse que eu tenho andado para aí a badalar? Não apareci em emissão nenhuma, nem subi para cima de um caixote e me pus a discursar em Goddard Park, não é verdade? Há quatro ou cinco semanas perguntei-lhe se a senhora tinha notícias da Emissário. Voltei a perguntar-lho outras vezes, em seguida. Disse-me que não. É tudo.

— Não, não é tudo. O senhor tem andado a falar...

— Com amigos, claro. E há quanto tempo andam os seus bufos a escutar as conversas?

— Bufos? Suponho que queira dizer detetives. Agentes da polícia. Não, Dan, pode ter a certeza que não. Que juízo faz de mim? Para que haveria eu de querer que lhe andassem a escutar as conversas, apenas com meio milhão de pessoas em Eópolis e da maneira como elas pairam? O que se diz à esquina de uma rua chega até mim, automaticamente.

Brodersen olhou para ela com renovado respeito. Desempenhava um cargo político de confiança, membro proeminente que era do Partido da Ação da Federação da América do Norte e protegida de Ira Quick. Mas, no fim de contas, não tinha feito mau trabalho em Deméter, servindo de medianeira entre o Conselho da União e um grupo heterogêneo de colonos cada vez mais descontentes. (Uma nota de piedade: o seu marido fora jurisconsultocom altos poderes na Terra, mas pouco se recorria aos seus serviços aqui e, apesar de ele querer salvar as aparências, toda a gente sabia que se tinha afundado no álcool, sem se querer emendar. Isso, porém, só podia tornar Aurélia Hancock ainda mais digna de admiração.) Melhor seria Brodersen jogar jogo franco.

— Eu falei com a senhora, primeiro — disse ele.

— Sim, é verdade que falou. E respondi-lhe que com certeza eu já teria sabido alguma coisa se ...

— Mas nunca me convenceu de que as minhas deduções eram erradas.

— Procurei fazê-lo. O senhor não me quis ouvir. Mas pense um pouco. Aquela distância, como poderia o seu robô dizer-lhe se era a Emissário a passar por ali?

Hancock franziu de novo o sobrolho. E prosseguiu:

— A sua falsa declaração aos Serviços de Controlo Astronáutico quanto ao verdadeiro objetivo daquele aparelho podia afetar a continuação das suas licenças, e o senhor sabe disso.

Brodersen já esperava aquela forma de ataque.

— Aurie — e suspirou calculadamente —, permita-me que lhe reconstitua exatamente o que se passou.

Acendeu o cachimbo e levou-o à boca. Pôs-se a olhar em torno de si. O gabinete e o mobiliário agradavam-lhe, com pouco de sintético, quase tudo feito à mão com os materiais de que se dispunha há uns setenta anos, quando a colônia estabelecida em Deméter tinha cerca de uma geração. (Issofaria meio século da Terra, lembrou-se ele. Realmente mergulhei de vez neste planeta, não há dúvida.) Lambris de dafne creme com nervuras em espiral faziam ressair um jarrão com girassóis sobre a secretária e, numa estante por detrás, um excelente holograma do monte Lorn, com ambas as luas cheias por cima das suas neves. À direita, duas janelas abertas para um jardim. Estendiam-se aí canteiros de roseiras da Terra e relvado até a um gradeamento de ferro forjado, mas restava um enorme carvalho da antiga floresta, com as suas folhas de um verde-azulado a espalharem um leve perfume a gengibre, e cresciam trepadeiras viçosas por cima do metal. O tráfego usual circulava pela rua, com os peões, os ciclistas, o ronronar de um carro e o deslizar de um vagão de mercadorias a toda a velocidade nas suas almofadas de ar. Do outro lado da rua, um prédio moderno erguia a sua massa trapezoidal de cores suaves. Lá no alto, o céu arqueava-se numa abóbada de um azul mais profundo do que em qualquer parte da Terra, e Febo à tarde tinha uma suavidade muito parecida com a do Sol no crepúsculo. Durante meio segundo, lembrou-se Brodersen de que a pressão atmosférica era mais baixa e mais baixa também era a força de gravidade (80%0, mas o seu corpo estava bem habituado e já não sentia as diferenças.

Puxou uma cachimbada, saboreou um pouco o fumo entre a língua e as fossas nasais, e continuou:

— Nunca fiz segredo do que pensava. Diz a teoria que uma máquina T pode levar uma pessoa para qualquer parte no espaço-tempo dentro do seu campo de ação ... o que significa espaço e tempo. A Emissário estava a seguir uma nave desconhecida que fora observada a transpor uma passagem no nosso sistema, evidentemente para fazer o trajeto, entre dois pontos acerca dos quais nada sabemos. Parti do princípio de que tanto a tripulação como os que mandaram aquela nave seriam amigos. E porque não haveriam de ser? Pelo menos, ajudariam a Emissário a regressar, uma vez concluída a sua missão. E, nesse caso, porque não mandar para cá, de volta, a nossa gente muito próximo da data em que havia partido?

— Ouvi falar do seu ponto de vista — disse Hancock —, mas só depois de o senhor se começar a mexer. Se achou que isso era plausível, se achou que isso era importante, porque não mandou um relatório, em primeiro lugar, ao organismo competente?

Brodersen encolheu os ombros:

— E porque o haveria eu de mandar? A idéia não era só minha. Além disso, sou um mero particular.

Ela lançou-lhe um olhar carregado:

— O homem mais rico de Deméter não é, de maneira nenhuma, um mero particular.

— Bem pouco sou em comparação com os ricos da Terra — respondeu em voz macia.

— Como o clã dos Ruedas no Peru, com o qual o senhor está ligado por negócios e por laços de família. Não, o senhor não é propriamente um particular.

Hancock voltou a fixar-lhe os olhos, Brodersen sentou-se, afagando a quenturado seu cachimbo, e deixou que ela o olhasse. Não que tivesse ilusões quanto à sua elegância. Era um homem alto, de um metro e oitenta e oito, corpulento, de ossos resistentes, músculos sólidos, ombros largos, forte de peito. Nos últimos anos, porém, tinha criado um pouco de barriga, até parecer gordo. A cabeça era maciça, mesocefálica, com uma cara quadrada, queixo e boca vincados, nariz romano saliente, largos olhos cinzentos, a descair obliquamente, já com pés-de-galinha, pele tisnada e com rugas. Como a maior parte dos homens em Deméter, tinha o rosto barbeado e o cabelo cortado por cima das orelhas. O cabelo era direito, áspero, preto com algumas madeixas brancas, herança ainda da sua bisavó. Para este encontro, assim como a maior parte das vezes, vestia traje colonial de uso corrente: bolero de pele de orosauro, com a camisa de fora, calças largas enfiadas em meias-botas macias, um largo cinto com pequenas ferramentas e instrumentos a pender-lhe da ilharga, mais uma faca dentro de uma bainha.

— Bem vistas as coisas — disse ele, mantendo o seu tom afável —, não sei que leis tenha eu infringido, e suponho que não me desviei irreparavelmente das normas estabelecidas.

— Não esteja muito seguro de si a esse respeito — preveniu ela.

— Como? Melhor seria retomarmos toda a história desde o princípio e dizer-me de maneira precisa em que ponto cometi eu uma ilegalidade. De contrário, para quê estarmo-nos a ralar?

Brodersen respirou fundo antes de prosseguir:

Eu pensei, e falei disso a várias pessoas, que a Emissário podia regressar em breve. Poucos me deram grande atenção. Sim, como a senhora imaginou, foi de minha iniciativa aquele robô de observação que a Fundação mandou para ali, a fim de estudar a máquina T, mas estava fundamentalmente a levar a cabo autêntico trabalho científico e ainda não recebi uma explicação satisfatória quanto ao motivo por que lhe impuseram uma órbita tão distante.

— Espere um pouco, por favor — pediu ele. — Deixe-me prosseguir mais um momento.

E, embora as pálpebras lhe palpitassem atenuando o tom imperativo, a sua voz suavizou-se:

— Os regulamentos do espaço não prescrevem a obrigatoridade de os planos de investigação serem discriminados em pormenor. E que mal haveria, em todo o caso, em manter um óculo apontado para a Emissário? A senhora acusa-me de fazer as coisas pela calada? Que diabo, Aurie, não foi nada assim!

Depois de breve pausa, Brodersen prosseguiu:

— É claro que, após alguns meses, o observador regressou e lançou uma mensagem à estação a que estava ligado, revelando certos fatos. Eu vim aqui falar consigo e perguntei-lhe — com bastante diplomacia, penso eu — se sabia alguma coisa sobre o assunto. A senhora disse-me que não. Pedi informações para a Terra e todos aqueles a quem me dirigi disseram também que não. Eu não gostaria agora de lhes chamar mentirosos a todos. Especialmente a si, Aurie. No entanto, a senhora convidou-me hoje para uma conversa confidencial, que parece ter por fim fazer-me calar.

Hancock endireitou-se na cadeira, apoiou-se ao tampo da secretária e olhou para ele num desafio.

— O senhor pôs-se logo a tirar ilações desde o princípio. Ilações absurdas.

— Devo ser eu porventura a andar descalço pela estrebaria em vez de si? O tom de paciência que deu às palavras não era espontâneo. Brodersen tinha planeado a sua táctica no caminho, quando se dirigia para aquela entrevista. Continuou:

Direta ou indiretamente, a senhora já conhece o meu raciocínio. Apesar disso, porém, vou-lho delinear de novo.

Hancock encheu os pulmões de fumo e aguardou. Pôs-se a refletir rapidamente quanto o discurso humano era, como nestas circunstâncias, árida repetição, se não mesmo mero ressoar do tanta, e perguntou no seu íntimo se os Outros também estariam sujeitos àquela necessidade ou se podiam falar chegando diretamente a um ponto pleno de significado.

— O robô descobriu um transporte da classe Reina a sair de uma passagem — disse ele. — É claro, a distância era muito grande para que fosse possível identificar a nave, mas nós, Humanos, não construímos nada de maior, e a configuração era a usual. Ou se tratava de uma Reina ou então de uma nave de não humanos, da mesma espécie geral. O robô descobriu nessa altura a Faraday a rodear a nave recém-chegada, e depois assinalou-as a ambas quando seguiam de Febo para Sol. Era o bastante para o seu programa o mandar regressar à base, dar conhecimento do que se passava.

“Ainda não mergulhei, Aurie, até tocar no fundo das coisas. Comecei por pedir aos meus agentes na Terra que me informassem do paradeiro exato das várias Reinas nessa ocasião. Ficou demonstrado que nenhuma delas podia ser a que o meu observador viu. Todas se encontravam no Sistema Solar ou neste aqui.

“Entretanto a Füraday voltava para Febo e retomava as suas atividades. Pedi a um diretor da Fundação que dirigisse ao capitão Archer um pedido muito polido, para saber o que se havia passado. Respondeu ele que não fora nada de extraordinário. Que uma nave de carga tivera certas dificuldades quando fazia a viagem ida de Sol e que a havia escoltado, como medida de precaução. Que não era uma Reina, nem uma Princesa, e que se isso não coincidia com os elementos fornecidos pelo nosso robô, melhor seria que lhe mandássemos fazer uma revisão à aparelhagem.

“Agora* veja, Aurie: -eu sei que o observador está em perfeita forma. Nestes termos, que diabo quer a senhora que eu pense? Ou que se trata de uma nave de não humanos ou que era a Emissário, o que, imagino eu, e a senhora concordará, é mais provável, sem dúvida nenhuma. De qualquer modo, é a maior história desde ... veja bem ... e ninguém de responsabilidade tem uma simples palavra a dizer sobre isto!

Brodersen inclinou-se para a frente. Com a ponta do cachimbo riscou uma curva no ar. E prosseguiu:

— Reconheço que, provavelmente, a maior parte daqueles a quem me dirigi, ou a quem os meus agentes se dirigiram, são pessoas honestas. Não tinham realmente qualquer conhecimento do que se estava a passar. Em alguns casos, deram-se ao trabalho de fazer diligências de sua própria iniciativa, e não obtiveram resultados positivos. É compreensível que não tenham então aprofundado mais a questão. Entendem que o seu tempo é valioso, e eu já ganhei a reputação de ser importuno. Por que razão haveriam eles de aceitar que as minhas informações fossem de confiança? Sem dúvida que alguns deles devem ter pensado que eu estava a mentir, por qualquer motivo não muito claro.

“Bem, a senhor está em Deméter há bastante tempo para me conhecer melhor do que isso, não lhe parece? E, pela minha parte, quando entrei em contacto consigo pela primeira vez a este respeito e a senhora me disse que não sabia de nada, eu acreditei. Quando mais tarde lhe pedi de novo notícias e me respondeu que estava a investigar, acreditei também. A partir de então, contudo — e francamente —, tornei-me cada vez mais céptico. Para que me pediu então para vir hoje aqui?

Hancock amassou a ponta do cigarro no cinzeiro, tirou outro cigarro de uma caixa e acendeu-o num gesto vivo.

— Pretende o senhor que eu lhe quero tapar a boca — observou ela. — Chame-lhe o que muito bem entender. É isso mesmo que eu procuro fazer.

Estas palavras não foram totalmente uma surpresa para Brodersen. Este fez um esforço para que os músculos do ventre se descontraíssem e para que a sua resposta fosse envolvida num tom delicado.

— E porquê? Com que direito? Hancock enfrentou o seu olhar, sem fletir:

— Recebi uma resposta às minhas consultas sobre o assunto. Resposta vinda de uma entidade altamente colocada. O interesse público exige que, por tempo ainda indeterminado, não se dêem notícias sobre o que se está a passar, isso abrange as ilações que o senhor tem andado a tirar.

— Interesse público? Ari, sim?

— Sim. Desejo...

A mão de Hancock, ao levar o cigarro à boca, perdera bastante da sua firmeza.

— Dan — reatou Hancock quase com tristeza —, temos andado em conflito um com o outro. Compreendo quanto o senhor se opõe a certas medidas políticas da União e, por isso, se está a tornar um porta-voz de uma certa atitude entre os Demeterianos. No entanto, estimo-o e ousei esperar que acreditasse que também eu anseio pelo melhor futuro deste planeta. Trabalhamos juntos mesmo, não é verdade? Como quando eu pedi ao Conselho que se fizesse a apropriação extra para a Universidade que o senhor pretendia, ou quando o senhor fez pressão sobre o seu intratável parlamento colonial para aprovar a Lei Ecológica que, conforme eu o persuadi, se tinha tornado uma necessidade. Posso esperar hoje de si um pouco mais de confiança?

— Claro que pode — rosnou ele —, se me disser as razões que estão por detrás disto tudo.

Ela abanou a cabeça.

— Não posso. E o senhor compreende: também não me deram pormenores. É assunto espinhoso. Mas, no que se refere àqueles que solicitaram o meu auxílio, eu confio neles.

— Sobretudo em Ira Uuick — volveu Brodersen, sem poder neutralizar o tom ácido do remoque.

Hancock empertigou-se.

— Como quiser. Ele é ministro da Investigação e do Desenvolvimento.

— E uma roda motora do Partido da Ação, que manobra todas essas facções na Terra que bem queriam não nos verem andar pelas galáxias — replicou Brodersen, refreando os seus impulsos. — Não, hão nos vamos pôr agora a discutir política. Que é que lhe é permitido dizer-me? Presumo que me possa dar alguma justificação, que me possa apontar algum motivo para andar a vigiar-me.

Hancock lançou o fumo para o ar enquanto fixava os olhos na ponta do cigarro a arder, que segurava em cima da mesa.

— Eles sugeriram-me uma situação hipotética. Imagine que o senhor tem razão, que a Emissário voltou, mas que trazia consigo qualquer coisa de terrível?

— Uma praga? Uma horda de vampiros? Valha-nos Santo André, Aurie! E valham-nos os quatro evangelistas!

— Podia simplesmente trazer más notícias. Nós admitimos como ponto assente uma porção de coisas. Por exemplo, que todas as civilizações tecnologicamente avançadas para além da nossa são civilizações pacíficas. Que de outro modo não se poderiam ter mantido. O que é um non sequitur lógico, no fim de contas. Suponha que a Emissário descobriu uma raça conquistadora de hunos interestelares.

— Se é essa a questão, duvido que os Outros continuassem tranqüilos nesse campo. No entanto, supondo que sim, eu haveria de querer alertar a minha espécie para podermos preparar, todos, a nossa defesa.

Hancock dirigiu a Brodersen um pálido sorriso.

— Este foi um exemplo que as circunstâncias me sugeriram. Reconheço que não é muito plausível.

— Então dê-me outro que o seja. Ela teve um sobressalto.

— Muito bem. Uma vez que o senhor mencionou os Outros, suponha que não há Outros.

— Como? Mas alguém construiu as máquinas T e nos deixa utilizá-las.

Robôs. Quando os primeiros exploradores chegaram à máquina no Sistema Solar, a coisa que lhes falou não escondeu que era apenas um robô. Nós assentamos toda a concepção dos Outros apenas sobre a base daquilo que ele nos disse. O que é espantosamente pouco, Dan, se pensar bem. Suponha que a Emissário nos trouxe a prova de que estávamos enganados. Que os Outros se extinguiram. Ou que nunca existiram. Ou que são fundamentalmente um perigo. Ou tudo o mais que o senhor possa imaginar. O senhor é um herético nato. Não acha nada disto inconcebível, ou acha?

— N... não. Acho-o extremamente improvável. Mas suponhamos que é verdade, para termos uma base de raciocínio. E daí?

— O senhor podia ver as coisas a frio. É um espírito excepcional. Mas aconteceria porventura o mesmo com a humanidade no seu conjunto?

— Aonde quer a senhora chegar?

Uma vez mais Hancock levantou a cabeça, atormentada, para lhe fazer frente.

— O senhor gosta de ler a História — disse ela — e como homem empreendedor é uma espécie de político pragmático. Será preciso que eu lhe diga a si o que significaria isso? O esfrangalhar da nossa imagem dos Outros?

O cachimbo de Brodersen acabara por se apagar. Ele reacendeu-o.

— Talvez convenha dizê-lo.

— Bem, olhe, homem. (Ele ficou singularmente sensibilizado pelo americanismo. Partilhavam ambos da mesma origem, embora Hancock viesse do Médio Oeste. E Joelle tinha nascido na Pensilvânia, recordou-se Brodersen. Onde estarás tu agora, Joelle?) Quando os homens descobriram o que era aquele estranho objeto, uma verdadeira máquina T, e ouviram o que o robô tinha para lhes dizer, devem ter sentido o mais violento choque que a raça humana sofreu até hoje. Toda a raça humana. Em Jesus ou Buda tinha-se de acreditar pela fé, e a fé propagou-se lentamente. Mas aqui, de um momento para o outro, encontrávamo-nos perante a prova direta de que existiam seres superiores a nós. Superiores não meramente em ciência e tecnologia. O que a Voz dizia mostrava que estavam para além de nós na sua própria essência. Anjos, deuses, demos-lhes o nome que quisermos. E na aparência inofensivos, mas indiferentes. Ensinaram-nos como irmos de Sol a Febo e volta. Tínhamos liberdade de nos estabelecermos em Deméter, se quiséssemos. O resto ficou à nossa decisão, incluindo como irmos mais para a frente a partir daqui.

— Sim, é claro — encorajou-a ele.

— Provavelmente isso representou uma larga parte do choque: a indiferença. De súbito, os Humanos aperceberam-se de que, na realidade, não são nada de especial no universo. Mas ao mesmo tempo há também qualquer coisa a que aspirar. Não nos admiremos, por conseguinte, que se tenha espalhado um milhão de cultos, de teorias, de verdades feitas, de autênticas idiotices. Nada de espantar que daí a pouco a Terra explodisse.

— Hum, eu não atiraria inteiramente a culpa das Perturbações sobre a revelação — disse Brodersen. — O equilíbrio a que se tinha chegado-antes disso era terrivelmente precário. Pelo menos, creio que o pensar nos Outros contribuiu para impedir que toda a gente ficasse tresloucada, contribuiu para que as armas autenticamente destruidoras de planetas não tivessem demasiado uso. É por isso que a Terra é ainda habitável.

— Como quiser — respondeu Hancock. — A verdade é que essa idéia suscitou uma tremenda divisão, talvez maior do que qualquer das religiões tradicionais, até aos nossos dias.

Hancock armou-se de coragem e continuou:

— Ouça bem: suponhamos que a expedição da Emissário descobriu que aquilo era uma falsa idéia. Como sugeri, talvez os Outros estejam mortos ou se tenham mudado para outro lado. Ou menos do que nós pensamos, ou pior do que nós pensamos. Ponhamos essa notícia a circular sem qualquer preparação prévia. Deixemos comentadores histéricos atacar os alicerces mal seguros em que se apoiam centenas de milhões de pessoas. E que acontece? A União não ganhou ainda suficiente firmeza para sobreviver a um delírio à escala mundial. E da próxima vez os assassinos planetários podiam ter o campo livre diante deles. — Ela suplicou: — Dan, está a ver por que motivo temos de guardar silêncio durante algum tempo?

Brodersen puxou pelo cachimbo.

— A verdade é que preciso dos pormenores — respondeu ele.

— Mas ...

— A senhora admitiu que isto é uma hipótese, não é assim? Pois bem, eu não me conformo com tal hipótese. Se os Outros fossem monstros, não estávamos agora sentados aqui. Já tínhamos sido eliminados. Ou então não passaríamos hoje de animais domésticos deles, ou outra coisa do gênero. Se se extinguiram, diga-me então como é que uma espécie com inteligência e meios para construir máquinas T se deixa extinguir. Não imagino também que sejam inferiores a nós. Com uma tecnologia daquelas não melhoraria a senhora a sua própria raça, supondo que a evolução já não o tivesse feito antes? E quanto a eles irem coletivamente viver em qualquer espécie de universo paralelo, porque haveriam eles de o fazer, quando este a que chegamos está cheio de atrativos que ninguém pode esgotar até que se extinga a derradeira estrela?



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