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— Eu não afirmei que fosse nada disso — protestou Hancock. — Apenas lhe dei alguns exemplos.

— Sim, sim. Já alguma vez ouviu falar das cortinas de fumo? Conheço-as de pequenino ...

— Escolha então a mais simples explicação para os fatos.

— Tem razão. E neste caso qual é a mais simples? Parto do princípio que a Emissário voltou. Que a história que ela trouxe era de como nós podíamos ir para além destes dois sistemas planetários onde nos encontramos. Que certos políticos na Terra não apreciam essa possibilidade e a querem destruir. E que a senhora, Aurie, recebeu também agora as suas ordens a cumprir, imagino que não há-de concordar em princípio com elas, de uma maneira ou outra. A senhora pertence ao Partido da Ação.

Brodersen dispôs-se a prosseguir nas suas deduções. Podia muito bem fazê-lo, com base numa decisão já tomada. E talvez pudesse extrair dali um pouco de verdade, daquela governadora que se havia tornado sua inimiga.

No entanto, sentiu-se chocado quando ela disse da maneira mais fria:

— Tomo isso por um insulto, capitão Brodersen. Mas deixe lá. Se não quiser cooperar conosco de boamente, teremos de recorrer a medidas severas. O senhor não pode continuar a falar como até aqui.

Brodersen sentiu-se enregelar. Esperava que Hancock exercesse forte pressão sobre ele, mas que não tentasse pôr-lhe a pata em cima.

— Já leu alguma vez a Convenção? — perguntou ele em voz baixa.

— Quero dizer, o artigo sobre a liberdade de expressão?

— E o senhor já leu as disposições relativas a situações de emergência e as leis que daí resultam? — replicou ela, embora visivelmente contrafeita.

— Ah, então é isso? ...

— Eu proclamo uma situação de emergência. Volte daqui a cinco anos e meta o caso no tribunal.

Hancock procurou outro cigarro.

— Dan — prosseguiu ela com ar contristado —, eu pus em campo os bufos, como o senhor lhes chama. Até podermos chegar a acordo sobre esta matéria, o senhor fica sem liberdade de movimentos.

Queria ela dizer que Brodersen ficava detido em casa, com o correio e o telefone sob vigilância. Talvez ela fosse sincera na promessa de que os agentes de vigilância apenas poriam a funcionar os aparelhos eletrônicos de escuta quando ele tivesse visitas. Podia portanto continuar a orientar de casa os seus negócios, como habitualmente — naquela época eles marchavam por si mesmos, de qualquer maneira — e podia alegar o motivo que quisesse, tal como violentos acessos de eólicas, para não sair dali. Se Brodersen dissesse, porém, que era por ordem dela, Hancock diria por sua vez aos órgãos de informação que ele estava com residência fixa enquanto se investigavam as atividades da sua companhia por suspeitas de fraude.

Pensava ela que o poderia provavelmente deixar em paz dentro de um mês ou dois. Isso dependeria daquilo que lhe comunicassem da Terra.

Brodersen não gastou energias a protestar.

— A senhora está a proceder como um governo, Aurie — observou ele. E quando Hancock lhe lançou um olhar inquiridor, Brodersen explicou:

— A mais simples definição de governo que até hoje encontrei e que corresponde às realidades é que se trata de uma organização que proclama o direito de matar as pessoas que não fazem aquilo que ela quer.

Brodersen podia continuar, reconhecendo que estava a simplificar a quês' tão ao extremo, uma vez que Hancock estava, evidentemente, a agirem nome de um grupo cujo comportamento podia ser ele próprio ilegal. Mas pensou que não valia a pena.


IV
Dois corteses polícias à paisana escoltaram Brodersen da residência da governadora e acompanharam-no a casa no carro dele. Nesse momento estava Deméter a completar outro dia, 10% mais curto do que os da Terra. O Sol escondia-se por detrás de Anvil Hill, que se recortava ao longe, de um cinzento-azulado, ao fundo da Avenida dos Pioneiros, com a cúpula do Capitólio a brilhar, dourada, no alto. À esquerda e à direita, estendia-se a cidade, num amplo panorama de casas de habitação, pequenas fábricas, armazéns, empresas de serviços públicos, e muitos prédios rodeados de relvado e flores. Por detrás de Brodersen cintilava o rio Europa, largo, a caminho da baía de Apoio, onde ia desaguar, no mar Hefestiano. A outra margem era de terras aráveis, searas de trigo, milheirais, todos verdejantes nesta estação do ano, rodeados de uns tufos azulados de malvas e de acianos. Via-se no alto uma lua na sua meia fase, pálida e como coberta por um véu, no meio do azul sem nuvens. Cruzavam-se no céu aves, frailes e bucearos à procura dos seus ninho$, estarletas à caça ao lusco-fusco. O ar soprava frio e trazia um perfume selvagem das terras do interior, para leste.



Como isto é belo! -y- meditou Brodersen quando saiu. Vieram-lhe à memória ao mesmo tempo algumas linhas do seu poeta favorito, escritas há mais de duzentos anos:
Deus deu, a todos os homens a Terra inteira para eles amarem,

Mas, como os nossos corações são pequenos,

A cada qual destinou o seu recanto,

O recanto que seria querido acima de todos.
E ao mesmo tempo: Não, com os diabos! Isso não basta! Nós temos um universo inteiro para vivermos nele, se nos pudermos desvencilhar dos que abusam do poder.

Foi assaltado pelas recordações: a Terra vista do espaço, muito pequena, um ponto perdido a brilhar na imensidão, mas um ponto infinitivamente precioso; crateras lunares por baixo de uma camada refulgente de estrelas; um alvorecer marciano, vermelho, vermelho, vermelho, por cima de areias e seixos e cores; o vigoroso aspeto de Júpiter com numerosas cinturas; a primeira vez que viu Febo por entre novas constelações. Que mais poderia ter Joelle visto? E que mais poderia ele ver ainda?

— Tempo magnífico! — disse um dos polícias. — Pelos vistos, não vamos ter os temporais de Verão senão lá para Hetos ou Hebdomos, este ano.

— Ah, sim! — respondeu Brodersen como uma máquina. Uma parte dele notou que o jovem que ia a seu lado tinha nascido ali. Aquela gente usava automaticamente o calendário demeteriano. Poucos eram naqueles homens os átomos que tinham vindo da Terra. Que pensavam eles individualmente sobre a perspectiva de o gênero humano atingir a liberdade de cosmo? Sem dúvida iriam dizer que era uma grande idéia ... até que qualquer neocoletivista lhes desse uma estimativa do custo social que aquilo implicava. E depois? Ele absteve-se de perguntar.

Em vez disso, dirigiu-se para o subúrbio da Igreja de São Miguel. (O tráfego não era tão denso em Eópolis que fossem obrigatórios autopilotos.) A discreta Estrada da Montanha estendia-se à noite com a sua iluminação dourada, vi vendas e jardins largamente separados, campos livres e matas entre eles. Também a residência de Brodersen fora concebida para o clima: um bangalô estilo havaiano em meio hectare de relvado e flores terrestres.

— E como pensam os senhores regressar depois? — perguntou ele enquanto abrandava no acelerador.

— Nós ficamos por aqui nas redondezas até nos virem render — foi a resposta.

— Querem entrar um pouco para tomarem uma chávena de café?

— É preferível não entrarmos. Muito obrigado!

Brodersen sorriu perante o embaraço dos seus passageiros, ò que lhes aliviou um pouco a cólera, e saiu. Eles retiraram-se da propriedade e desapareceram por detrás de uma alta sebe de davísias, sem dúvida para ficarem a vigiar os acessos pela frente e pela retaguarda.

Depois de fazer festas ao seu pastor-alemão, entrou em casa. A sala de estar era ampla e alta, com paredes como as do gabinete onde ele tinha estado. Uma chaminé, toda de pedra, construída por ele próprio, erguia-se, de aspeto sóbrio, em frente de uma larga janela que dava sobre o pátio. Na sala sentia-se o perfume das flores que a sua mulher havia trazido. Esta ouvia música, um trecho do seu querido Sibelius, mas suavemente, sentada num cadeirão com o gato no regaço, e estudava um relatório técnico. (Depois de Brodersen a ter contratado, depressa verificou que Lis merecia rápida promoção. Casaram e fê-la sua sócia em parte inteira. Agora, Elisabet Leino ocupava muito do seu tempo em atividades alheias às Empresas Chehalis: atividades sociais, teatrais, hortícolas, para não mencionar dois endiabrados miúdos, mas a companhia continuava a precisar dela para o seu bom andamento.)

— Oh,já voltaste! —disse Lis, ao mesmo tempo que pousava os papéis e se levantava, à espera de um beijo. Era uma mulher esbelta, com pele de marfim, cabelo castanho, voz doce, e trazia um vestido curto que lhe realçava as pernas. As suas feições finas, quase clássicas, breve perderam todo o aspeto de alegria.

— Pelos vistos, ti veste contrariedades. Decorreu mal, não foi?

Primeiro, quero cerveja — rosnou ele, e tirou uma garrafa da geleira por detrás de um pequeno bar. A seguir retomou a sua amabilidade. — Queres também?

Lis foi ao seu encontro para o abraçar ao de leve.

— Aguardo pela hora cio aperitivo. Que aconteceu, querido?

— Uma porção de coisas, e todas elas desagradáveis.

Deitou a cerveja numa caneca de prata de um serviço que havia trazido da Terra da última vez que ali fora, sem olhar a taxas de bagagem, para o nono aniversário do casamento neste ano dimeteriano. Foi reconfortante sentir a caneca na mão e a cerveja gelada na boca.

A sua mulher estudou-o.

— Refletiste bem no que vais fazer? — perguntou ela.

— Estou a analisar o caso. Também estás envolvida nisto, é claro, como principal consultora.

— Diz-me então o que se passa.

Lis pegou-lhe na mão e levou-o para o canapé.

Brodersen deixou-a sentar enquanto ele andava de cá para lá e de lá para cá a falar, bebendo um trago entre as passagens desagradáveis. Por fim, resumiu:

— Parece-me claro. Um grupo de tipos antiestelares formou um conluio. Devem ter gente em vários governos nacionais, e também sem dúvida no Conselho da União, no aparelho burocrático, no corpo espacial. Inteiramente provável que hajam tomado muito mais a sério do que dizem a idéia de a Emissário poder regressar mais cedo do que se esperava, e hajam tomado as suas precauções. Por isso a conservam agora incomunicável, enquanto decidem o que hão-de fazer dela. Entretanto, eu tenho andado a dar demasiado à língua. De modo que a Hancock recebeu instruções para me fazer calar. Duvido que esteja metida em qualquer conspiração, mas é muito dedicada ao Partido da Ação em geral e aos seus dirigentes políticos em particular. Se eles lhe disserem que é seu dever impor o silêncio, ela o imporá sem fazer perguntas indiscretas.

Encolheu os ombros e prosseguiu:

— Suponho que tenho de dar muitas graças por ela não ser do gênero de tomar medidas mais drásticas.

Lis deixou o silêncio pairar sobre eles por um momento, enquanto o crepúsculo descia. Depois murmurou:

— Julgo que não há qualquer possibilidade de eles terem razão.

— E que pensas tu?

— Oh! Temos falado disto tantas, tantas vezes! Sabes que eu concordo contigo. Simplesmente me espanta o que se passa. É penoso para a nossa maneira de ser imaginarmos que exista corrupção nas altas esferas da União. Da União! Não te parece? E tu, que tencionar fazer?

Brodersen deteve-se, olhou para ela e respondeu:

— Que posso fazer, senão ser compreensivo? E tu, compreensiva também. A Hancock sabe muito bem que eu te haveria de contar aquilo que se passa, mas preveniu-me que também tu terias a tua conta se falasses. Diremos que eu ... Bem, “indisposto” durante semanas não é crível... Diremos que eu me fiz eremita para trabalhar numa nova idéia relacionada com os nossos negócios, idéia essa que tem de ficar em segredo até estar bem delineada. Entretanto, tomas a direção da firma por mim.

— O quê? — perguntou ela, estupefata. — Tu, Dan, a aceitares uma coisas destas com tanta mansidão?

Ele abanou a cabeça e levou um dedo aos lábios.

— E que outra solução temos nós? Podia encontrar-me em piores lençóis do que tomar umas férias forçadas. Terei assim a oportunidade, pelo menos, de ler alguns daqueles livros de que tantas vezes me falas. Olha, minha querida, sinto-me cansado, acabrunhado, e se quiseres que aprecie bem o teu jantar deixa-me descansar primeiro um pouco. Está bem?

Lis olhou para ele, desta vez a compreendê-lo melhor.

— Muito bem — disse ela.

Deste modo, entregaram-se em seguida à rotina familiar. Depois da segunda cerveja, Brodersen levou as crianças para a sala de jogos, para a meia hora com o Papá, que lhes pertencia por direito. Mike, nos três anos (dois, pelo calendário da Terra), sentia-se radiante, a chilrear e a rir, a saltar ao pé-coxinho, e a participar sem palavras em algumas canções. Tinha melhor ouvido do que o pai, embora não fosse lá muito. Bárbara, de sete anos, pedia que ele desenhasse um retrato e lhe contasse a parte final do seu conto do orosauro dos Pés Revirados. (Na infância, Brodersen ouvira do capitão-geral John a história do urso dos Pés Revirados, mas isso tinha sido na Terra.) Acabou a aventura um tanto abruptamente, com o regresso a salvo ao Castelo de Queets.

A filha pressentiu-lhe a pressa.

— Vais sair de novo, pai? — perguntou ela.

— Ainda não sei, minha filha — e dentro dele travava-se um conflito. — Talvez tenha de me ausentar.

Ela sentou-se com afeto entre as suas mãos.

— Muito tempo?

— Espero que não. Tu sabes que eu tenho de viajar às vezes, para ganhar dinheiro. Se tiver de partir, bem, hei-de voltar para casa logo que puder, com um carregamento de brinquedos e uma nova série de histórias.

Apertou-a nos braços e perguntou-lhe:

— E tu ajudas a Mãe, como das outras vezes, não é verdade? É assim a minha filhinha!

Ela passou-lhe também os braços em torno do pescoço.

Supunha Brodersen que os agentes de escuta pudessem estar a ouvir pelos auscultadores, apesar da promessa de Hancock, mas que não ligassem qualquer importância a uma conversa daquelas. No entanto, depois de as crianças regressarem aos seus quartos e de ele se sentar com Lis para tomar uma bebida, teve a precaução de observar:

— A propósito da minha detenção no domicílio, gostaria de saber se não me deixariam visitar a Chinook. Há ali diversas coisas que precisam de ser vistas. Até a Bárbara pôde sentir que eu estava ansioso por causa daquilo. Eles podem mandar comigo um par desses malditos guardas, para terem a certeza de que não ando a dar à língua.

— Bem, é experimentares — respondeu Lis.

— Daqui a uns dias, quando os ânimos serenarem.

Conhecedora do estado de espírito de Brodersen como a filha, Lis mudou de assunto. Tinham sempre os dois muito de que falar. Os negócios eram só por si um tema inesgotável. A Chehalis tinha muitas naves no Sistema Febiano e desenvolvia a maior parte da sua atividade fora de Deméter, por conta própria ou por empreitada, no campo dos transportes, da prospecção, das minas, das indústrias, da exploração, da investigação pura. Isto envolvia-a inevitavelmente em variados aspetos da economia da colônia, da sua política, e também cada vez mais em questões relacionadas com a Terra. Para além disso, sem alimentar ambições a cargos oficiais, ambos se interessavam muito pelo andamento dos assuntos públicos. Iam navegar à vela juntos ou viajavam por regiões desérticas, esquiavam, patinavam, jogavam tênis e divertiam-se com o xadrez e o pôquer, trabalhavam na casa e nos terrenos à volta. Com freqüência deambulavam a observar as estrelas e perguntavam um ao outro o que estaria para além delas. Naquela noite entregaram-se a algumas recentes descobertas a respeito de uma singular relação entre os dominantes hipersauróides e os primitivos teróides ao longo do litoral do golfo Jónico, e quase esqueceram as suas preocupações. Depois disso, as crianças tornaram muito aprazível o jantar.

Mas quando os dois ficaram outra vez sozinhos, Brodersen disse:

— Sinto-me inquieto. Tenho de reparar aquele gravador de monofilme. Queres vir ajudar-me?

Coisas daquelas não estavam dentro dos passatempos prediletos de Lis, mas ela percebeu o sentido das palavras e respondeu:

— Vamos lá!

Dirigiram-se para a oficina. Em meia hora Brodersen consertou o aparelho, recorrendo a uma larga provisão de sobresselentes, e pô-lo a funcionar. Uma espécie de lamento encheu aquela dependência atulhada de aparelhagem. Brodersen fez estalar a língua.

— Deus meu! Não serve.

— É para cobrir as nossas vozes? — perguntou ela.

Lis tinha compreendido o que o preocupava. Falava-se finlandês na fazenda dos pais de Lis, na região de Trollberg, e Brodersen tinha aprendido algumas outras línguas nos seus anos de andanças pela Terra. Mas tudo quanto os dois tinham de comum era o inglês — a língua que falavam todos os dias — e o espanhol, ambos conhecidos de qualquer detetive.

— Não — explicou ele. — A parte sonora não trabalha, pelo menos sem uma complicada aparelhagem heteródina. Isto não passa de um gerador de ruídos de larga banda e alta potência, mas que serviria quando muito para interferir em comunicações eletrônicas num raio de escassas centenas de metros, e com aspeto de acidental. Parto do princípio de que aqueles amigos semearam aparelhos de escuta pelas nossas paredes, para ouvirem o que se diz na nossa casa e levarem as conversas para um receptor. Fácil de fazer. Coisa de pouca monta. Podia-se neutralizar aquilo também com meios primitivos.

Lis sentiu medo:

— Pensas realmente que Aurie Hancock pudesse dar ordens dessas ou que a polícia obedecesse? Parte-se do princípio de que em Deméter se vive numa sociedade livre.

— Parte-se do princípio, não há dúvida. Mas trata-se de um aglomerado de comunidades, e tu sabes isso. E algumas das mães-pátrias não são propriamente modelos de liberdade. Se eu fosse governador, conservaria no exército alguns homens com passado sem escrúpulos para com a vida privada de cada um. Poderia precisar deles de um dia para o outro para fazer face a criminosos que quisessem tornar este planeta numa espécie de fácil coutada.

Brodersen sentou-se no banco de trabalho e pôs-se a balouçar as pernas.

— De qualquer maneira, Lis — continuou ele —, não me limito a supor que tenham instalado um sistema de escuta. Tenho a certeza de que montaram. É assunto demasiado importante para otimismos. Amanhã há-de vir aqui Mamoru Saigo com um detetor e há-de procurar aparelhos de escuta, escondidos. Se encontrar algum, sugiro que tu os destruas, mas primeiro transmite uma mensagem bem vincada a dizer que se uma coisa destas se repetir pões o caso no tribunal e dás conhecimento dele, ao mesmo tempo, aos órgãos de informação.

Lis não dizia palavra, absorta entre as ferramentas. Apenas o sondava com o olhar. A janela por detrás dela estava fechada, com a cortina corrida, mas vinha dali uma ponta de frio, como uma sensação do escuro que estava lá fora.

— Mas então não estarás aqui — conjeturou ela.

Brodersen remexeu os bolsos à procura do cachimbo e do tabaco.

— Receio que não, minha querida. Não podemos deixar que esta canalha faça pouco de nós, não é assim? Com mil diabos, está em causa o futuro de todo o programa espacial do homem! Além disso — e não esqueceste, pois não? —, o imediato que anda na Emissário é Carlos Rueda Suárez, um amigo meu, primo da Toni. Não me esqueço da família.

— Também lá anda Joelle Ky, se estiver viva — lembrou Lis, discretamente.

Brodersen não pôde esconder um movimento de contrariedade, suscitado pela dor que se lia na cara de Lis.

— Sim, é claro, uma velha amiga igualmente.

— Mais do que amiga — e Lis levantou a palma da mão. — Não, não tentes fingir. Eu nunca pus entraves às tuas pequenas folias, não achas? Gostava também de conhecer Joelle. Deve ser muito especial, para significar assim tanto para ti. Nunca me falaste dela tão desprendidamente como imaginas.

— Tens razão — reconheceu Brodersen, com as faces a arder. — Não que tenhamos tecido um romance, compreenda-se. Ela é tão... tão estranha para isso! Mas ... De qualquer maneira, o que me preocupa mais é que vejo como pode aquela cambada deixar agora sair a Emissário. O conhecimento do que se passou iria destruir todos os objetivos daquela gente, e as suas carreiras pessoais ainda por cima. Ao mesmo tempo, é perigoso manter prisioneira a tripulação. E se se decidissem por uma carnificina?

— Se forem celerados a esse ponto. Se houver um conluio. Brodersen fez que sim com a cabeça.

— Um risco que eu tomo, e posso estar enganado.

— Assim como os riscos com a tua vida, Dan.

— Não muito graves. Realmente. Tenho amor à pele. É o que me resta.

— Que pretendes fazer, no fim de contas?

— Ir à Terra. Ir ver o que se passa. Agir. Principalmente, suponho, alertar o clã dos Ruedas. Quando muito, devem-lhes ter chegado vagos rumores. Não lhes escrevi diretamente, como sabes, porque de início não estava seguro dos fatos. E depois, quando fiquei seguro deles, pedi confiadamente à Aurie que levasse por diante os seus pedidos de informação com mais vigor. E a seguir, hoje, ela atirou com este balde de água fria sobre mim. A nossa correspondência está sujeita a ser interceptada e retida, se disser qualquer coisa de inconveniente. Não sei de ninguém em Deméter a quem possa de qualquer modo passar palavra. Ninguém com possibilidade de ir à Terra ou com as relações que ali tenho. Não, é preciso que eu mesmo vá a Lima, falar aos Ruedas.

— Como?

Brodersen fez uma pausa, atestando o cachimbo, e lançou a Lis um olhar de viés.



— Lis, essa singela pergunta, bem prática, precisamente numa hora destas, faria que eu te amasse.

Havia muito tempo que Brodersen não a via corar e desviar o olhar. Ela apertou-lhe a coxa.

— Somos sócios, lembras-te? — murmurou Lis.

— Descansa, que não esqueço.

Brodersen pousou os seus apetrechos de fumador para assentar a mão em cima das dela.

— Olha, não temos lá muito tempo. Melhor será irmos andando. A verdade é que não tenho ainda um plano exato. Sobretudo, entendo que é indispensável sair daqui, sem me poderem deitar a mão em cima. E já. Se não virem nem ouvirem nada de mim durante os próximos dois, três dias, Aurie suporá que eu estou para aqui a rabujar na minha tenda. Depois disso, porém, haveria de parecer estranho se eu não fizesse pelo menos uma ou outra chamada telefônica a alguém. Por isso, vou-me pôr a andar esta noite.

Lis não perguntou pormenores. Ninguém mais, a não serem eles os dois, sabia do túnel. Alguns anos atrás, Brodersen tinha contratado um perfurador para acrescentar uma cave para o vinho ao seu abrigo contra as tempestades. Enquanto se efetuavam os trabalhos, escavou uma saída para o meio da floresta a norte do seu terreno, consolidando-a depois com uma camada de protecção a pulverizador. Passou-se isso durante o mais duro da disputa na Terra e à volta dela quanto a jurisdição e a direitos de propriedade entre os asteróides, quando durante algum tempo tudo parecia indicar que a Liga Iliádica se ia desconjuntar. Se aquela federação das colônias orbitais e lunares saísse da União e a União decidisse pegar em armas para manter ali a sua autoridade, sabe Deus o que sucederia também em Deméter! A crise foi ultrapassada por meio de um compromisso que não agradou a todos, mas Brodersen ainda se censurava a si mesmo por não ter construído uma saída secreta da casa antes disso. Já tinha visto bastantes desastres, muitos deles devidos aos governos, e a prudência aconselhava-o a que tomasse tal medida de precaução logo de início.

Da floresta podia andar a pé 5 km até uma paragem isolada dos ônibus aéreos, voar até uma cidade distante e alugar ali um carro. Tinha preparado uma série de identidades falsas, completadas com excelentes documentos de crédito, para proteger a sua identidade quando ele e os seus viajassem. No pequeno mundo que era Deméter, com uma população de menos de três milhões, havia-se tornado uma figura notável. Mais notável do que desejaria.

— E depois? — perguntou bis.

— Vamos pensar — volveu ele, acendendo o cachimbo e aspirando o fumo. — É claro, necessitarei de transporte para o Sol, transporte que me fará algum bem merecido depois de eu tomar. A Chinook — o quê mais? —, a tripulação que ela pode levar, os mantimentos a bordo, a nave auxiliar. Além disso, a Williwaw foi praticamente concebida para tarefas como levar-me no mais perfeito incógnito de qualquer parte onde eu esteja neste planeta.



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