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Encontro15.04.2018
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— E como esperavas tu sair com a Chinook pela passagem, estando ali a nave de vigilância?

Brodersen sorriu. Agradava-lhe imenso a perspectiva de dirigir as operações, em vez de ser dirigido. Não que se deliciasse com a embrulhada em que estava agora metido. Mas, nos últimos anos, os acontecimentos tinham-se tornado demasiado monótonos para o seu gosto.

— Vamos pensar nisso. Se não puderes ocupar-te das negociações, minha querida, melhor seria consultarmos ambos o nosso geroclínico. E sem demora ... Hum ... Bem, a Aventureiros — a companhia-mãe da Chehalis — certamente que pode usar outro grande transporte dentro do Sistema Solar. E sem qualquer perspectiva agora de a Chinook ir para as estrelas, vejamos, podíamos também servir-nos dela.

Brodersen deu estalidos com os dedos e continuou:

— Sim, isso lhe forneceria a perfeita justificação oficial para contactar os Ruedas.

Inclinando-se para a frente, foi mais preciso:

— Vamos, de fato, contar com isso. Amanhã conversas com a tripulação. Falas de uma possível viagem a Sol, de um momento para o outro, e convocas toda a gente para uma reunião, aqui, sobre o assunto. Disse-me a Hancock, muito francamente, que as minhas conversas seriam escutadas sempre que tivéssemos visitas. E se cobríssemos as escutas com interferências nesse momento, isso tornava-se suspeito. Mas tu podes preparar sumários escritos para entregares a cada um, e toda a verdadeira conversa pode ser por escrito, embora digamos coisas perfeitamente inofensivas, que também poderás preparar por escrito. Trata-se de espíritos brilhantes que eu selecionei, e com bons estudos. Dali sairá uma exibição convincente.

Lis franziu as sobrancelhas.

— E irão eles concordar com uma aventura assim tão arriscada?

— Bom, alguns podem ser demasiado legalistas ou apegarem-se a qualquer coisa do gênero. No entanto, tenho a certeza de que, se alguém recusar, serão todos suficientemente leais para não irem revelar o que aqui se disse.

Não os escolhi para fazerem parte da minha tripulação numa possível viagem a novos planetas sem os conhecer a todos muito bem. Mesmo assim, Aurélia não é tola nenhuma. Se souber que a Chinook está a preparar-se para largar, pode retê-la sob qualquer pretexto que possa imaginar, a fim de agir pelo seguro.

— E precisa ela de saber? O Governo-Geral não tem, em regra, nada que ver com as idas e vindas das naves espaciais. E estou quase certa de que poderás chegar a uma saída.

Brodersen hesitou antes de acrescentar:

— Mas, com o tempo, ela vai ter a certeza de que me escapei, e muito provavelmente chegará à conclusão de que me meti a bordo. Será a tua vez de suportar o embate, e lamento-o.

— Eu me saberei desvencilhar — assegurou-lhe Lis. Brodersen sorriu.

— Excelente! Bem sei do que és capaz. Não vejo como poderá ela pôr-te em embaraços sem se comprometer, o que não há-de querer fazer. O que pode ela provar legalmente, a não ser talvez que ajudaste o teu marido a ausentar-se de uma residência forçada que lhe foi imposta de modo legalmente muito duvidoso? E se isso chegasse a julgamento, nicles!

— Aurie podia tecer qualquer coisa de pior — observou Lis. — Não que eu pense que o faça de vontade. No fundo, não é uma comissária. Mas podia receber instruções para isso.

— Os nossos advogados podem fazer arrastar qualquer processo no tribunal durante meses — lembrou-lhe ele. — Por essa altura, já eu podia ter posto em frangalhos toda esta manobra, que cheira mal.

Brodersen franziu as sobrancelhas e prosseguiu:

— É claro, se eu falhar...

— Não te preocupes comigo — interrompeu ela. — Sabes que eu cá estou.

De novo Lis ficou calada, de pé ao lado dele.

— Receio, sim, mas por ti — disse ela, por fim.

— Não tenhas medo — volveu Brodersen, mudando o tabaco no cachimbo e passando um braço pelos ombros de Lis.

— Bem, uma vez que tencionas ir, o melhore planearmos as coisas com todo o cuidado. Para começar, como havemos de ficar em contacto?

— Diriges-te á Abner Croft — propôs ele. Era uma das suas personalidades fictícias. Abner Croft tinha uma cabana no lago Ártemis, a uma centena de quilômetros dali. O seu telefone estava equipado com qualquer coisa mais do que um misturador de freqüências. Tinha um dispositivo militar a respeito do qual Brodersen se havia informado na Terra e que fora adaptado para si próprio, como precaução suplementar durante a crise iliádica. Alguém que estivesse à escuta na linha apenas ouvia uma conversa banal, previamente gravada. Brodersen e Lis tinham-se divertido a criar várias conversas dessas, usando vozes disfarçadas e vozes criadas pelo sistema voder. Ele podia entrar no circuito a partir de qualquer terceiro telefone, pedindo uma chamada. A aparelhagem de interligação não se opunha a isso.

— Hum! — murmurou ela. — Onde esperas ficar realmente?

— No Planalto. Uma zona lógica, não? Lis fez uma pausa e perguntou:

— Com Caitlín?

Desconcertado por a ouvir falar com tal gravidade, Brodersen emaranhou-se:

— Bem, é aí que ela está nesta época do ano. Toda a gente ali há-de saber onde se encontra, e penso que é perfeitamente natural que um visitante estranho queira ouvir umas canções dela. E quem melhor do que Caitlín me poderia esconder ou indicar um local seguro de abrigo ou... outras coisas mais?

Deu umas fortes cachimbadas. Lis tocou-lhe de novo, e agora ela não deixou escapar a ocasião:

— Desculpa por ter perguntado isto — disse, baixo. — Não estou a protestar. Tens razão, ela é uma boa ajuda para nós. Mas, compreendes ... Não, não tenho ciúmes, mas podia nunca mais te voltar a ver a partir desta noite. E Caitlín significa muito mais para ti do que Joelle, não é verdade?

— Oh, minha querida!

Brodersen pôs de lado o cachimbo, para deslizar ao longo do banco e a tomar nos seus braços.

Com a cabeça no peito do marido, dedos espalmados nas suas costas, Lis deixou sair as palavras, embora conservasse um tom suave:

— Dan, querido Dan, é preciso que me compreendas. Sei o amor que tens por mim. E eu, quando o meu maldito casamento se desfez, quando te conheci... Tudo quanto fizeste demonstra que me tens amor. Mas tu, tu e a tua primeira mulher... Nunca foste mais feliz do que com a Antônia, não é verdade?

— Não — confessou ele com veemência. — A não ser a felicidade que me deste ...

— Chuta! Já te disse de maneira bem clara que não me importo e que não é muito para me preocupar se fizeres uma escapada de vez em quando. Encontrarás pessoas de toda a espécie, e eu não te costumo acompanhar nas tuas viagens à Terra. Além disso, és um homem fortemente atrativo. Não to disse já? Não, cala-te um pouco, querido. Deixa-me acabar. Não me preocupo por causa de Joelle. Pelo pouco que me disseste, paira em torno dela uma espécie de bruxaria... Uma holoteta e... Mas tu nunca inventaste. pretextos para voltar para ela. Caitlín, porém...

— Nem para Caitlín ... — procurou Brodersen explicar.

— Não me disseste que era apenas uma amiga e uma companheira ocasional de jogo. Bem, não mo disseste abertamente, a respeito de ninguém. És uma pessoa muito especial à tua maneira, Dan. Mas acabei porte conhecer, apesar disso. Observei-vos aos dois quando ela aqui esteve em casa. Caitlín é muito parecida com Toni, não é?

A única resposta de Brodersen foi apertá-la nos braços.

— Disseste tu que não precisava de ser monógama também — observou Lis. — E talvez não o seja sempre.

Ela abafou o riso.

— Que belo par de anacronismos nós somos, sabendo o que significa a monogamia!... Mas desde que casamos, Dan, ninguém mais valeu a pena. E ninguém mais valerá enquanto estiveres ausente nesta viagem e eu não souber se alguma vez voltarás.

— Hei-de voltar!—protestou ele. —Hei-de voltar, sim, para junto de ti.

— Vais fazer todo o possível, é claro. O que será diabolicamente difícil. Lis levantou a cara para ele. Brodersen viu-lhe lágrimas nos olhos, e tocou-as, saboreou-as.

— Desculpa — prosseguiu ela. — Eu não devia ter falado em Caitlín. A não ser... para que lhe dês lembranças minhas. Não esqueças!

— Eu disse-to já: a tua pergunta prática lembrou-me o gênero de pessoa que tu és — balbuciou ele. — Daí tudo isto ... És incrivelmente boa.

Lis desprendeu-se dos seus braços, recuou, tirou as mãos das costas dele e pôs-lhas nos quadris. Disse do fundo do coração:

— Obrigado, meu amor. Olha, esta noite vai ser tão curta! ... Hás-de querer apanhar o transporte enquanto os passageiros estão a dormir. E tens ainda um ror de coisas para fazer. Primeiro, contudo ... m-m-m-m?

O calor despertou nele.

— M-m-m-m — repetiu.

V
A 300 km a leste do mar Hefestiano, 2000 km ao norte de Eópolis, estende-se o Planalto. Tinha-se aí fixado uma quantidade de imigrantes vindos do Norte da Europa durante o povoamento no século passado. Como a maior parte dos colonos — uma vez que se tornara possível sobreviver para lá da cidade inicial e do seu apoio tecnológico —, eles tendiam a agrupar-se em conformidade com a sua própria maneira de ser. Fazendeiros, criadores de gado, madeireiros, caçadores, viviam de maneira primitiva por falta de maquinaria. Os custos de transporte de materiais vindos da Terra eram enormes. Mais tarde, quando a indústria demeteriana se começou a desenvolver, adquiriram algum equipamento moderno, mas não muito porque tinham entretanto aperfeiçoado métodos muito apropriados para fazerem face aos problemas que se punham nas regiões em que viviam. Além disso, à maior parte deles não agradava a idéia de se tornarem dependentes de outrem. Esta gente, ou os seus antepassados, tinham vindo para ali para se sentirem livres de governos, de corporações, de sindicatos e de outros monopólios. Esse mesmo espírito persistia ainda.

O povo que o alimentava veio a criar um espírito novo. Em casa, muita daquela gente continuava a falar as suas línguas de origem. Dada, porém, a variedade dessas línguas, era o inglês o mais corrente, num novo dialeto. Fundiram-se as tradições, operou-se nelas uma verdadeira mutação, e formaram-se espontaneamente outras. Por exemplo, no solstício de Inverno — frio, sombrio, coberto de neve naquela zona do continente a que os

Humanos chamavam Jónia — celebrava-se Yule (e não o Natal, que ainda perdurava pelo calendário da Terra) com boa comida, alegria, grinaldas, presentes e reuniões. A meio do ano demeteriano encontravam todos uma outra ocasião para se reunirem, e desta vez era mais francamente à maneira das festas de Baco. Nessa altura, as fogueiras respondiam às fogueiras através de longas distâncias, enquanto em redor das chamas se dançava, bebia, comia, . cantava, gracejava, jogava, praticava desporto ou gozava o amor físico, desde o anoitecer ao clarear do dia.

No decorrer dos últimos três anos, Caitlín Margaret Mulryan tinha levado a sua música naquela estação aos que se reuniam em Trollberg, quando não estava ocupada com outros prazeres. Ia agora de novo a caminho, a pé ao longo de uma estrada de terra batida, uma vez que a viagem fazia parte da festa. Enquanto andava, ia ensaiando a última canção que tinha preparado para o festival, marchando ao ritmo dela e espalhando em redor a sua voz de soprano.
Em azul-prateado, brilha o orvalho.

A noite de Verão

Está repleta de luz.

Venham, enlacem as mãos,

Pois a música despertou Por toda a parte.
Os dedos corriam pelo teclado do sonador que ela apoiava na cova do braço esquerdo. Programado para imitar uma flauta, embora um pouco mais forte, a caixa cor de mogno ressoava a acompanhar o seu cântico.
Contentes vamos a subir, contentes a descer.

A dança a voar, a voar como riso,

Dos campos em flor ao cume das montanhas.

Regozijemo-nos na alegria que vem depois!
A medida que ia andando, levantava-se-lhe poeira dos sapatos. Em tomo de Caitlín erguiam-se as alturas, adormecidas, com Febo a declinar no ocidente, cor de âmbar, próximo do seu ponto mais setentrional, num céu em que branquejavam nuvens esparsas. A estrada acompanhava o rio Astrid, que serpenteava num doce murmúrio, verde com um brilho glacial, à direita, em direção a Aguabranca, onde ia desembocar no caudaloso Europa. Para além do rio estendiam-se terrenos ainda por cultivar, caindo depois a pique num pequeno vale já escuro, coberto de vegetação verde-azulada sempre que os seixos deixassem campo livre — lódix, como uma espécie de relva ou trevo trilobado, tudo isto recamado de pétalas de sagitárias e de girassóis, e entrecortado de bosques de portentoso arvoredo e esguias dafnáceas. Enxameavam insetóides por ali, com as asas chamejantes sumptuosamente coloridas, arbustos a despontar. Um fraile de penas brilhantes cruzava por eles, um minstrel trinou de um ramo, desceu depois um casal de bucearos, e um draque

deixou-se planar, muito por cima. Não eram pássaros, estes, mas hipersauróides, como todos os vertebrados bem desenvolvidos que Deméter havia produzido. Um odor forte que lembrava resina e canela espalhou-se com a brisa do sul que estava rapidamente a arrefecer aquela tarde a cair.

Do lado esquerdo de Caitlín estendia-se uma sebe. Um tanto plano até atingir uma escarpa a 3 km ou 4 km dali, o terreno assim demarcado havia sido transformado em pastagens para o gado vindo da Terra e também em campo de cevada para os humanos. Para os invasores chegados do espaço, a carne e a vegetação de Deméter eram com freqüência comestíveis, por vezes deliciosas. Caitlín tinha estado a colher morangos-da-lua, maçãs-pérola e dulcifrutos desde que saíra do ônibus aéreo em Freidorp. Faltava-lhes, porém, todo o complemento de vitaminas e de aminoácidos, embora contivessem outros componentes que eram inúteis. As plantas importadas eram de um verde intenso, e o gado que as comia tornava-se fantasticamente vermelho.

Por detrás de Caitlín, a estrada perdia-se de vista a contornar uma montanha. À frente, trepava como uma serpente. Para além da primeira lomba que se aproximava, via Trollberg, cheia de árvores e de campinas até ao seu topo. Sombrios como fantasmas, erguiam-se lá em cima os picos feacianos cobertos de neve, com o monte Lorn a dominá-los.


A música desprende-se, lesta e doce.

A donzela desliza ali diante dele,

Apaixonada na sua marcha.

Tão ágil e álacre, e engrinaldada

Com rosas e o fulgor das estrelas

Em torno da sua querida cabeça.

Contentes vamos a subir, contentes a descer.

A dança a voar, a voar como riso ...
Caitlín parou. De um bosque cerrado havia surgido um garmo. De pele cinzenta, focinho redondo, rabo curto, do tamanho de um tigre, avançava com uma graciosidade que lhe arrancou um pequeno grito de espanto. Nenhum deles precisava de ter medo. Os carnívoros de Deméter não gostavam do cheiro dos animais da Terra è nunca os atacavam. Por seu lado, os caçadores humanos procuravam manter o equilíbrio de uma natureza que lhes fornecia peles para os seus mercados, e a Associação de Defesa do Planalto tinha declarado os garmos uma espécie protegida.

Também o animal parou e fitou os olhos nela. Viu uma mulher jovem. (A idade exata de Caitlín era de 34 anos, embora, tendo nascido na Terra, se considerasse de 25 anos.) De estatura média, peito cheio, esbelta, pernas compridas, usava cabeleira frisada, de um castanho-tíronzeado, que lhe caía até aos ombros. A cara era larga de testa, saliente nos zigomas, adelgaçada para o queixo. A boca, essa, era rubicunda, de lábios carnudos. Por baixo de sobrancelhas muito pretas e arqueadas brilhavam uns olhos em esmeralda. O nariz era miúdo e levemente recurvo. O clima tinha-lhe tornado trigueira a pele, acrescentando-lhe um bom número de sardas. A sua túnica e as calças

estavam muito cocadas. Por cima delas trazia um vistoso cinto com as cores do arco-íris. Na mochila vinha a roupa para mudar, um saco de dormir, um pouco de comida fria, os poemas de Yeats e alguns artigos de viagem.

— Louvada seja a Criação! -*- murmurou ela. — És belo, meu bravo! O garmo sumiu-se cara o seu domínio. Caitlín suspirou e prosseguiu o seu caminho.


Ele despreza a gleba que outrora calcorreou.

O seu braço lança um clarão

Em torno da cintura dela.

E num rodopio através do mundo,- ela vê-o

Ligeiro como o vento,

Mais alto do que o arvoredo.

Contentes vamos a subir...
Caitlín parou de cantar. Tinha parado ali perto um homem, à beira de um grande rochedo, por detrás da sebe, à frente dela. Igualmente surpreendido, passado um instante o homem ergueu a mão e saudou-a. Caitlín dirigiu-se para ele. Era jovem também, como ela viu. Espadaúdo e loiro. Vestia fato-macaco e trazia um corno para chamar as vacas.

— Boa tarde, menina! — disse o homem, com o seu acento cantante, quando Caitlín chegou ao pé dele. Uma aproximação que era cortês. —Como está?

— Bem, obrigada. E desejo-lhe também a si uma boa tarde — respondeu ela, no afável inglês da sua região, que de há muito tinha adotado o acento dos seus conquistadores, apropriando-se dele.

— Posso perguntar-lhe para onde vai?

Para Trollberg, para as festas do solstício de Verão. Os olhos dele abriram-se muito:

— Ah, era o que eu pensava. O seu nome é Cathleen, não é? Eu devia chamar-lhe Miz, como pessoa bem educada, mas não sei o seu último nome. Parece que ninguém o usa.

Ela percebia sem esforço a pronúncia daquele homem. Poucos saxões ou escandinavos tinham ali atingido melhor do que aquilo.

— Ah, sim! Porque estou para aqui sozinha ao pôr do Sol, quando toda a gente na região só pensa em se divertir e beber. É uma bela terra a sua, povo agradável, mas há muito mais ainda que ver no planeta. Quem é você, agora?

— Elias Daukantas. Da Fazenda Vilnyus.

O homem apontou o polegar para trás. Por cima de uma fila de alamos subia aquilo que devia ser o fumo de uma chaminé. Timidamente, ele continuou:

— Ouvi falar muito de si, e desejava que Trollberg fosse aqui nas redondezas. Ou, pelo menos, que eu tivesse a felicidade de a ver de passagem. Hum! ... Anda sempre a pé?

Ela sacudiu a cabeça:

— Para que haveria eu de andar de carro, sem nunca chegar a conhecer aquilo por onde passo?

— Mas onde dorme à* noite? Nunca ouvi que visitasse as nossas raras estalagens, embora alguns senhores da terra digam que lhe pagariam bem por uma noite de festa.

Ela sorriu, a mostrar que não tomava aquilo por uma ofensa, e respondeu:

— Os bardos não cantam por dinheiro, agricultor Daukantas, e eu orgulho-me de ser um dos bardos. Pelo menos, como um Brian Merriman. Podemos receber pequenas lembranças, mas quando cantamos é por amor ou pela hospitalidade. Eu vou aonde me acolhem bem. De contrário, estendo o meu saco no lódix.

À sua maneira desajeitada, exclamou ele:

— Mas de que vive então?

Saída a pergunta, sentiu as faces a arder com a tolice.

— Sente-se embaraçado, não? — observou ela, prazenteira, batendo-lhe ao de leve na mão com que ele se apoiava à sebe. — Vejamos, toda a gente me pergunta isso.

Ela mudou deliberadamente para a língua eopolitana corrente:

— Tenho uma preparação médica, embora não seja formada em Medicina . No Inverno, trabalho na cidade e nas regiões próximas, a partir do Hospital de Santo Henoch. A falta de médicos permite-me fixar à vontade as condições que pretendo. Claro, se eu fosse uma pessoa decente, trabalhava a tempo inteiro. Mas a duração da minha vida não chegaria para explorar Deméter...

Pôs-se muito direita. E acrescentou:

— E quando tenho de ver gente a sofrer... Deteve-se, descontraiu-se e riu.

— Mas tenha piedade! Estive a falar a meu respeito, e já basta. Podemos agora falar de si?

— Não há nada para contar, minha senhora. Isto aqui é de meu pai, e sou o terceiro filho.

Caitlín sondou-lhe a fisionomia.

— Solteiro, então?

Ele fez que sim com a cabeça e confirmou:

— Solteiro. Sabe os nossos costumes no Planalto. Quando me casar, podemos ficar na casa grande, em sociedade, ou podemos pedir auxílio para desmatar terreno e levantar uma casa para nós. Quanto a mim, é isto que vou escolher. Repartir do zero.

— E não tem rapariga nenhuma a quem possa contar os seus desejos?

— Não, ninguém. Um dia será ... Mas também já é falar muito a meu respeito, Cathleen — disse ele, de súbito. — Quer passar a noite conosco ? Asseguro-lhe que todos ali ficavam radiantes.

Caitlín voltou os olhos para ocidente. Embora as nuvens se estivessem a alongar e as montanhas a tomar uma cor púrpura, Febo tinha ainda diante de si uma hora ou mais antes de mergulhar no horizonte.

— Muito, muito obrigada, a si e à sua família — respondeu ela. — Mas tenho de estar em Trollberg dentro de três dias, e o meu plano era continuar a caminhar depois do pôr do Sol, pois não tarda a levantar-se Perséfone, toda brilhante, radiosa e cheia de luz, como a Lua sobre a Terra.

Erion, com metade daquele tamanho aparente, já se tinha levantado, desenhando uma curva de marfim sobre anil.

— Eu levo-a amanhã de carro até onde quiser — ofereceu ele.

Na expressão de Caitlín transparecia relutância. Ele tornava-se mais insinuante:

— Sim, a senhora quer estar mais próximo das coisas simples. Pois bem, aqui tem uma família como a senhora não conhece outra. A nossa casa, as nossas maneiras, tudo isto lhe deve interessar. São fora do usual, juro-lhe. Não somos suecos, nem britânicos, nem ... Por favor! Seria maravilhoso para nós. Nunca mais,esqueceríamos.

— B-bem ... —e Caitlín descontraiu-se mais, sorriu, aproximou-se dele, e acabou por ceder. — É muito amável da sua parte, Elias Daukantas, e vou ter com toda a certeza uma bela noite, ficando aqui. De modo que se você tivera certeza de que seu pai não levanta objeções...

Ouviu-se um zumbido. Voltando a cabeça, viram aproximar-se um pequeno carro. A sua almofada de ar lançava poeira para a direita e para a esquerda, como espuma à proa de um barco a grande velocidade. O carro chegou ao pé deles e fez uma travagem seca. Viram descer os tripés. O cimo da campânula dilatou-se. Saiu um homem alto.

— Caitlín! — gritou ele. Caitlín pousou o sonador.

— Dan! Oh, Dan! — e lançou-se para ele.

Estreitaram-se nos braços. Depois os lábios de Dan separaram-se dos lábios dela e falou-lhe ao ouvido:

— Escuta, macushla — segredou ele. — Estou de fugida. Perseguido. O meu nome é Dan Smith. Entendido?

— Entendido! — e Caitlín retomou o fôlego. Ele enlaçou-lhe a cintura fina, flexível, sorveu-lhe o odor soalheiro do cabelo e a fragrância quente da pele.

— E que procuras tu, meu amor?

— Sair daqui para fora, para qualquer abrigo seguro. Depois falamos. Brodersen fez um esforço para se mostrar discreto, mas o seu desejo era

sentir-lhe o corpo contra o seu.

O mesmo desejo crescia nela, mais forte ainda do que em Brodersen. Soltou-se, porém, dos seus braços, afastou-se e disse com voz vacilante ao agricultor, que assistia àquilo perplexo:

— Elias, meu amigo, foi uma grande surpresa que tive. Este é o meu noivo, Daniel Smith. Não esperávamos encontrar-nos senão no festival. Vinha pela estrada fora. Mas, uma vez que os deuses são tão amáveis... Você perdoa-me, não perdoa? Hei-de voltar aqui, se os Fados me deixarem, e então cantarei para vocês.

Os dois homens apertaram a mão e trocaram palavras convencionais. Caitlín apanhou o sonador e puxou pela manga de Brodersen. Meteram-se os dois no carro e este pôs-se em movimento. Daukantas ficou por longo tempo a olhar para o lado onde eles tinham desaparecido. Em seguida levantou o corno, levou-o à boca e chamou pelo gado.

Uma lua e uma meia-lua a brilhar, com Febo desaparecido ainda há pouco, tornavam o céu violeta, mais do que escuro. Nele cintilavam raras estrelas. Das constelações, só Medeia e Ariadne apareciam completas. Afrodite e Zeus, planetas irmãos, permaneciam com uma luz viva. Reluziam três pequenas nuvens. Um tom prateado inundava a paisagem por cima das árvores e prolongava-se pela campina abaixo, que se estendia num crepúsculo translúcido. Por uma abertura da floresta via-se a distância o monte Lorn. Zigueza-gueavam pirilampos como minúsculas lanternas. Dezenas de milhares de coristas trinavam a chamar pelos machos por entre a folhagem. Cantava ao longe uma estarleta. Perto da gruta corria uma nascente com um murmúrio cristalino.



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