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Encontro15.04.2018
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Caitlín tinha guiado Brodersen para ali, para o fundo de uma pista de caça, depois de arrumarem o carro. Brodersen tinha trazido o seu próprio equipamento de campismo, incluindo um aquecedor com pilha, que deu logo ao abrigo uma temperatura agradável. Sacos de dormir, assentes sobre almofadas de molite, tornaram confortável o chão. Mas não dormiram. Passado um pouco, entregaram-se a uma conversa terna, cozinharam e jantaram. Feito isto, também não dormiram.

Sobre a alba, Caitlín levantou-se apoiando-se num cotovelo, para melhor olhar para Brodersen. A gruta abria-se para ocidente, e os raios de Perséfone estavam agora a entrar por ali dentro, de frente, tão brilhantes que na brancura daquele corpo pôde Brodersen ver como eram rosados os mamilos da sua companheira. Ele ergueu-se, para afastar de si uma grande moleza. Essa moleza pesava-lhe no corpo, enquanto Caitlín se inclinava para o beijar, num beijo que se prolongou.

— Meu amor, meu querido, vida da minha vida! — quase cantou ela. — Tivesse eu palavras para realçar as tuas maravilhas, e os Humanos lembrar--se-iam de mim quando Safo e Catulo já estivessem esquecidos para sempre. Mas não é propriamente Brígida que inspira esta magia.

— Deus meu, quanto eu te amo! — exclama ele, em voz rouca. — Há quantos anos? Três anos que passaram sobre nós?

— Um pouco mais. Eu conto os meses também, quando pela primeira vez descobri o que estás a fazer à minha alma. Até que tive a sorte de me apoderar de ti.

— E eu a pensar que era apenas um divertimento de mocinha. Depressa, porém, me demonstraste que eu estava enganado. Tu, não apenas um corpo delicioso e o diabo desenfreado na cama, mas tudo o mais que és.

— Se não fosse a situação difícil que te pôs agora no meu caminho, eu ficaria numa felicidade isotopicamente pura, Dan, meu querido Dan. E mesmo assim bendigo os teus inimigos por isto que me deram, enquanto faço projetos sobre a maneira de lhes arrancar as entranhas. Não tinha a menor idéia de que te iria voltar a ver antes do Outono.

— Se ficasses em Eópolis...

Os brilhantes anéis de cabelo oscilaram, matizando-lhe as feições, e ela abanou a cabeça.

— Não — e ficou com ar muito sério. — Já não dissemos tudo o que tínhamos a dizer sobre essa questão? Não seria decente para Lis. Nem para ti. Tu amá-la também, como deves. E eu estimo-a. Não lhe queria causar mais amargura do que tenho necessariamente de causar, e espero que a amizade que ela tem por mim não seja apenas convencional. Ela sabe sem dúvida o que existe entre nós, embora nunca mo tenha dito abertamente.

Caitlín sentou-se, com as mãos a unir os joelhos, olhando por cima dele para o ermo cor de prata.

— Também, porque eu não tenho as qualidades de Lis quanto a números e organização e não poderia comparticipar na marcha das tuas empresas — murmurou ela. — Não quero ser parasita. E um emprego estável, seguro, sempre num mesmo lugar, não tardaria a fazer de mim uma taradinha. Ave de arribação, isso sim, aí tens o que eu fui sempre, desde a hora em que nasci.

As suas feições deixavam transparecer plenitude.

— Vês? Sou louca! Como querias que nascesse uma ave? Brodersen ergueu-se para se sentar, pernas cruzadas, ao lado dela.

— Da mesma maneira que é chocada uma idéia — sugeriu ele.

— Tens razão! — respondeu Caitlín, com vivacidade. — Repara nisto; Einstein incubou longamente a sua... Tinham de lhe levar comida, tabaco, onde ele trabalhava... Até que, um belo dia, o ovo fez craque! e saiu dali um pequeno princípio da relatividade especial, ainda húmido e nu, e então o pobre homem deve ter corrido de um lado para o outro à procura de longas e complicadas equações para lhe encher o bico; por fim, aquilo lá cresceu e tornou-se no grande galo da teoria da relatividade generalizada, e a mecânica dos quanta veio a constituir um belo poleiro para ele.

— S-sim! — concordou Brodersen, passando o braço em torno de Caitlín. — Quanto a lançar um projeto, eu vejo-o assente no estaleiro, pronto a deslizar, e vens tu e quebras-lhe uma garrafa de champanhe no costado, na presença do diretor... Ele é a figura decorativa, claro...

A loucura das palavras prosseguiu. O bom humor de Caitlín era uma parte indivisível daquilo que Brodersen apreciava nela.

— Bem — observou Brodersen, por fim —, ainda não me disseste como descobriste esta gruta. Não que eu tenha perdido tempo também a perguntar. Mas, uma vez que estamos a descansar um pouco, diz-me como foi que vieste parar aqui.

— E que imaginas tu? — perguntou ela, esboçando um sorriso.

— Hum ...

— Com o mais belo caçador, o ano passado ... Sabes, meu tesouro, quase podia desejar — quase — que tivesses partido um dia mais tarde. Eu estava a tecer projetos a respeito daquele moço, quando tu chegaste. Ah, sem dúvida que ele pode esperar um pouco!

Brodersen procurou não se mostrar duro. Ela sentiu-o, abraçou-se a ele e disse:

— Desculpa. Magoei-te? Deploro-o.

— A verdade é que não posso esperar, naturalmente, que faças vida de celibatária durante meses e meses — decidiu-se ele a responder. — Tens demasiada vida em ti.

— É a ti que eu amo, Daniel. Tive, de fato, os meus amores no passado, e eles inflamaram-me também, mas nenhum como o nosso. O vigor do teu corpo, o teu conhecimento perfeito, a maleabilidade das tuas mãos queridas! Sim, és inteiramente um homem. E ao mesmo tempo és amável e generoso e afetuoso. A ti amar-te-ei até que me cerrem os olhos. O resto... alguns mostraram- se maus, a maior parte são bons, nenhum foi monótono. Mas todos eles se queriam divertir. No máximo, uma espécie de camaradagem mais estreita.

— Sim, compreendo — disse ele. — Também eu estou longe de ser monógamo.

Caitlín procurou vencer a barreira que se levantava no seu companheiro.

Eu disse-te, meu amor, que não sou uma gatinha. Um impulso de quando em quando, sim, mas acima de tudo devo fazer um bom juízo do meu par e, depois da minha avaliação, não causo prejuízo a ninguém por dar um beijo. Não é muito grande o número de amantes que tive. Um êxito talvez, uma vez que fiz dezasseis anos na Terra.

— Quanto a mim, nem sempre me dei a grande escolha — concordou Brodersen.

Puxou-a para si e conservou-a nos braços por um momento.

— Desculpa-me — disse ele, a seguir, agitado. — Eu não queria reagir desta maneira a uma simples picadela tua. Mas...

— Mas? — interrogou ela, segundos depois.

— Creio que o que me despertou foi a tua observação. Que eu podia ter saído de casa hoje em vez de ontem. De repente, lembrei-me de que saí realmente de casa, e porquê.

— E deixaste-te cair no ciúme porque a idéia em si te contrariou muito. Ah, meu querido!

Caitlín ajoelhou-se diante dele, acariciou-lhe o rosto, fitou nele os olhos onde lhe nasciam duas lágrimas.

— Pode ser que sim — disse Brodersen. — Não estou habituado a sondar a minha psique.

Fez um movimento com os lábios para cima e continuou:

— Enquanto o diabo da coisa andar, sem emperrar muito, limito-me a mudar-lhe o óleo de vez em quando. Muito bem, e se puséssemos ponto final neste assunto, deixando-o cair como chocho, sem interesse?

Ela permaneceu grave.

— Não, Dan. Tu estás em perigo e em perigo está tudo quanto tens no coração. Lis e as crianças em primeiro lugar. Como mereceria eu ser tua amante se te sentisses na obrigação de me pôr ao abrigo das tuas preocupações? Conta-me o que se passa.

— Já to contei no caminho.

— Não, tu delineaste um mero esqueleto. Insufla nele agora um pouco de alma, para que possa ter vida.

— Olha, no fundo, nem sei bem o que dizer, Pegeen. Pegeen era o nome que usavam entre os dois.

— Deixa-me ajudar-te então.

Caitlín pôs-se de novo ao lado dele. Tocavam-se os dois, braço com braço, flanco com flanco, enquanto olhavam para fora, para os pirilampos, para as árvores, para as estrelas a piscarem no céu. A noite estava silenciosa, cada vez mais silenciosa à medida que o tempo avançava. Só se ouvia a água do regato.

— Porque estás tu em rebelião? — perguntou Caitlín. —Claro, também eu estou ansiosa por explorar sóis longínquos. Mas tens a Chinook, que mandaste remodelar e hoje com uma tripulação para esse fim.

— Realmente, depois de a nave estrangeira haver atravessado a passagem de Febo. Esqueceste isto porventura? Só havia ali uma nave de vigilância, para observar o caminho preciso que ela seguia — o que, em verdade, só um par de especialistas fez. Mas o diabo foi que eles só forneceram informações ao seu alto-comando, e o Governo da União declarou logo que era assunto do mais estrito segredo. O próprio Don Pedro — o Sehor, o chefe do clã dos Ruedas e do consórcio — nunca conseguiu o mínimo elemento que o esclarecesse. Se o resto da tripulação não tivesse dado à língua, talvez nem tu nem eu soubéssemos ainda que tinha chegado uma nave vinda do mundo exterior.

Depois Brodersen continuou com acrimônia no seu tom de voz:

— Ah, sim! Eu podia compreender o raciocínio. Mas, vejamos, podia eu concordar? Acreditarias tu? Não tínhamos qualquer idéia de que espécie de seres estavam para além da passagem. Não podíamos deixar qualquer grupo ao acaso irromper por aí, para levar a cabo a devastação, fosse de que espécie fosse. Isso tinha de me incluir a mim e à minha companhia. Quando equipei a Chinook fi-lo na pura esperança de que a expedição oficial voltasse trazendo boas notícias, de modo que o Governo deixasse partir livremente os outros grupos, de particulares. Ou então, se a expedição não voltasse, que o Conselho da União me deixasse num dos anos mais próximos empreender uma nova tentativa. Por isso mantive a nave em ordem de marcha, de modo que eu pudesse descolar com suficiente rapidez antes de qualquer político ou de qualquer manga-de-alpaca me cancelar a autorização. E — com mil demônios! — a Emissário voltou! E eles estão a esconder o fato! Querem-nos impedir de ir...

Mudou de tom:

— Diabo com isto! Tu ouviste-me a lengalenga, e eu a repeti-la, sobre aquilo que toda a gente sabe. Da última vez que nos encontramos, ouviste-me falar das minhas suspeitas. Hoje ouviste-me discorrer sobre o que se passou depois disso. Porque queres tu que eu repita todas estas coisas?

Caitlín encostou a cabeça ao ombro dele.

Porque tu precisas disso, meu amor, meu querido — respondeu ela. E um momento depois prosseguiu: — Mas, diz-me agora: que necessidade tinhas tu de uma arremetida destas, assim tão furibundo? Tu dominas-te muito bem. Porque não pudeste ser paciente e astuto, até teres pelo menos a verdade entre os teus dedos e para que um nó corredio fizesse então a justiça do carrasco?

Mais do que as palavras, foi o tom que acalmou Brodersen.

— Bem — disse ele —, já me tinha comprometido, até certo ponto. Depois confiei demasiado em Aurélia Hancock, e vê o que aconteceu.

— Podias esperar adiar isso. Quantos anos, ou milhões de anos, passaram desde que os Outros estão a espalhar-se pela galáxia, e nós postados, cegos, no nosso pequeno globo? Que mal haveria em aguardar alguns anos mais?

— Mas está em causa a tripulação da Emissário — rosnou ele. — Sabes que o imediato, se estiver vivo, é ainda da minha família? E outro tripulante há ali por quem eu tenho muita amizade. Para não mencionar os restantes. Também eles têm os seus direitos.

— Ah, sim! No entanto, por outro lado, naturalmente que tomaste em conta o bem-estar de Lis, de Bárbara e Mike, para não falar de centenas de pessoas que têm o seu ganha-pão na Chehalis.

Caitlín pegou-lhe na mão.

— Dan, meu querido, há qualquer coisa mais por detrás de tudo isto. Qualquer coisa mais que te fez agir. Que será? Sim, muitas vezes me disseste que seria maravilhoso que os humanos tivessem a liberdade de andar pelas estrelas. Mais maravilhoso ainda do que o fogo ou a escrita ou o domínio da doença. E discordei eu de ti? Mas porquê agora esta pressa, essa decisão a todo o custo? Nós haveremos de morrer, meu bem, haveremos de morrer velhos e renitentes, se assim o entendo, antes de chegarmos a conhecer tudo quanto há para conhecer aqui mesmo, em Deméter.

Brodersen cerrou os punhos, enquanto o seu espírito procurava um pouco de clareza naquilo tudo.

— Pegeen, vi muito bem na Terra o que as grandes convicções, as convicções apaixonadas, fazem do povo, especialmente quando são os governos a usar delas. Comecei então a ler a História e vi os horrores que daí tinham advindo no passado. Isso me fez jurar que ficaria objetivo. Pelo menos, calculei que podia'abster-me de andar a catequizar aqueles a quem encontrasse no meu caminho. Excepto ... Creio que quando vamos diretamente ao fundo das coisas já não posso guardar numa prateleira as minhas certezas mais fortes e ficar à espera que surja um momento mais conveniente do que outro.

Em resumo, uma parte dele perguntava a si mesma se Caitlín dava por aquela metáfora intrincada. Mas ela beijou-o e pediu-lhe:

— Diz-me quais são elas, as tuas certezas. Como eu desejaria que o tivesses já feito.

Brodersen apercebeu-se de como era tensa a voz de Caitlín, mas não podia apaziguá-la.

— É disto que estou receoso: se a raça humana não partirem breve para as estrelas, vai morrer. A União está a debater-se em sérias dificuldades. Pensei, quando saí do Comando de Paz — era eu jovem ainda —, que conseguiríamos nós próprios fazer o nosso caminho por meio do trabalho. A Terra parecia ordeira e sã. Pois estava enganado. Acotovelavam-se no planeta muitos animais de duas pernas. Estão em ebulição cada vez mais idiotices. Religiões como o transdeísmo. Heresias como o Novo Islão. Fés políticas como o asianismo. Nações onde turbas ou ministros uivam por secessão se não

puderem atingir aquilo que querem, quando querem, sem mesmo se darem ao esforço de saber se é praticavel. E o pior ainda é que uma boa quantidade dessas animosidades contra a União são justificadas. Cada vez mais o Governo mundial está a procurar tudo dominar, tudo dirigir, a partir de um único centro de decisão. Como se um maricultor dos oceanos, um cavaleiro do Himalaia, um mercador de Nairobi e um astronauta a trabalhar ao largo de uma base iliádica não conhecessem melhor os seus próprios problemas e a maneira de resolvê-los. Com milhentos demônios! Sabes porventura que se está a falar muito a sério no Conselho em ressuscitar a política fiscal keynesiana? Espero que te tenham poupado o trabalho de saber em que consiste essa política.

“A questão é esta: sempre que visito a Terra, encontro-a em estado ainda mais lastimável. Uma série de sociólogos defende que a revelação a respeito dos Outros, uma raça de seres autenticamente superiores, teve considerável influência nos acontecimentos que levaram às Perturbações. Não sei, talvez ... Mas, se assim foi, a Convenção nada nos trouxe de bom a não ser uma pausa para respirar. Ainda não chegamos a harmonizar os nossos pontos de vista sobre a existência dos Outros. De resto, nunca chegaremos a isso a não ser que consigamos dar um passo em frente. Não, estou certo de que, pela maneira como as coisas estão a andar, a Terra irá acabar por explodir muito em breve. O melhor que poderíamos esperar de tudo isto seria o aparecimento de uma espécie de César. E os Césares não tiveram lá grande duração. O pior que pode acontecer... E preferível não pensarmos nele, Caitlín.

“E não julgues que nos podemos livrar do desastre, aqui. A minha experiência pessoal, nestas últimas semanas, diz-me o contrário. Deméter pode encontrar-se a duzentos e vinte anos-luz da Terra. É o mais recente cálculo dos astrônomos, que conheço. Mas isso não passa de um salto através da passagem, para uma nave armada com mísseis de fusão.

Brodersen acrescentou, a concluir:

— Sim, talvez eu esteja a ser demasiado apocalíptico. Disse-te que procuro manter o meu raciocínio frio, sem fanatismo. Talvez eles se desvencilhem de qualquer maneira. Mas tenho a certeza, pelo menos, de que a Terra não vai adquirir novas idéias a não ser que elas vão das estrelas. E, entretanto, as velhas idéias estão a matar as pessoas. Tal como mataram a minha primeira mulher.

Deteve-se, exausto.

— Dan, tens o coração a sangrar — murmurou Caitlín, quase com as lágrimas nos olhos, e estreitou-o bem contra si.

— Nunca realmente me disseste o que se tinha passado com Antónia — exclamou ela, por fim. — Tu amava-la, casaste com ela, e teve uma morte deplorável. Queres contar-me toda a história, esta noite?

Brodersen olhou fixamente para diante de si.

— E para quê atormentar-te?

— Para que eu possa compreender, meu querido. Compreender-te a ti e ao que se passa contigo. Claro que me apercebi de que esse é o golpe mais

profundo da tua vida, e ele explica porque não podes ficar quieto quanto à Emissário.

— Talvez — resmungou Brodersen. — Vê bem: foi um assassínio político, e casos destes não teriam existido se não estivéssemos para aqui agarrados a estes dois miseráveis sistemas planetários.

— Conta, Dan. Conta a respeito da tua Antónia. Eu poderia fazer uma canção à sua memória, se isso te agradasse.

— Agradava, agradava sim.

— Então primeiro tenho de saber. Brodersen não se sentia muito senhor de si, atormentado pela dor. Hesitou

e resmungou:

— Pois seja! Para começar, vou dizer-te como nos conhecemos. Depois de eu sair do Comando de Paz, quis ir para engenharia espacial e tive a felicidade de ser aceite na academia, na Confederação dos Andes. Quando cheguei ao fim do curso, fui trabalhar para a Aventureros Planetários — a grande companhia, tu sabes, que é controlada pelo clã dos Ruedas. Fiz bom trabalho, fui convidado para algumas recepções que eles deram, e aí encontrei a Toni. Também ela disse que estaria perdida se nos puséssemos simplesmente a sugar a chupeta da timocracia. Toni estava em astrografia, e era uma autoridade na matéria. Conseguimos lugares para ambos em Nueva Cíbola. Trata-se de um satélite iliádico, como te deves lembrar, mas há ali uma agência da Aventureiros e também um Observatório Arp.

“Seis anos da Terra ... Viajei um pedaço, como não podia deixar de ser, e fui mesmo até Júpiter. Mas tu compreendes, Pegeen; embora trabalhassem conosco algumas mulheres, fui realmente monógamo durante esse tempo todo. Não que Toni me censurasse. Mas ela existia, e era tudo.

Calou-se, enquanto Caitlín o animava.

— Por fim — retomou ele —, por fim decidimos fundar família. Toni gostava de crianças. E de animais e ... de tudo quanto vivia. Quis ter o filho em casa, na mansão Rueda, por causa dos avós. Eles já não sentiam muitas forças para saírem da Terra, más seria maravilhoso verem chegar a nova geração.

“E porque não? Eu tinha trabalho a fazer na Lua, trabalho esse que me iria levar umas semanas. Toni podia, por sua vez, regressar ao clã imediatamente, e isso lhes daria imenso prazer. São gente muito respeitada ali. Eu esperava acabar o trabalho antes de a criança nascer, pedir uma licença e ir para junto de Toni.

“Aconteceu porém que, logo depois de ela chegar, rebentou uma bomba na residência. Bomba posta por terroristas. Deixaram uma declaração anônima a dizer que queriam protestar assim contra os Ruedas, por estes gozarem de benefícios resultantes do progresso no espaço, em detrimento das massas. Foi um incidente numa vaga de violência revolucionária que se desencadeou por toda a América do Sul. Isso abrandou, temporariamente, mas de novo se está agora a levantar. Os Ruedas são mais uma vez o objetivo. Claro, são ricos porque os seus antepassados tiveram a visão de instalar uma empresa espacial privada no Peru. Mas apoderarem-se da riqueza? Essa agora! Supõe tu que aquele dinheiro era repartido por igual pelos “oprimidos”. Quanto caberia a cada pessoa? E donde viria depois o capital para o investimento seguinte? Pegeen, Pegeen, quando é que os tipos que pretendem salvar o mundo aprenderão umas noções de economia?

“De qualquer maneira ... aquela bomba não fez lá muito. Destruiu uma ala da casa e matou três criadas que ali haviam trabalhado quase toda a vida. E — ai de mim! — morreu Toni e o nosso filho. Toni não morreu logo. Levaram-na à pressa para o hospital. Ela pediu que a deixassem ver a Lua no céu. Foi a última coisa que pediu. Mas a Lua não estava em fase propícia. E eu andava longe, no Extremo, num carro lunar, com a chama solar a perturbar as comunicações...

“Bem, esta é a história. Andei à deriva, amargurado, durante um ano, mas os Ruedas ampararam-me, reconfortaram-me, apoiaram-me quando decidi vir para Deméter e lançar um negócio como o deles. Estás a ver agora porque me preocupo com Carlos, a bordo da Emissário?

Brodersen e Caitlín permaneceram em silêncio algum tempo. A manhã já não vinha longe.

— Toni parecia-se muito contigo — disse ele, finalmente.

Como bardo, ela sabia quando não devia falar. Apenas lhe deu o que lhe podia dar. De início Brodersen ficou passivo, depois procurou responder e Caitlín deu-lhe a entender que não era necessário. Em seguida ele percebeu lentamente com todo o seu ser que o passado acabara para sempre, mas que ela estava ali.

Mais tarde dormiram um bom pedaço.

Foi Caitlín quem primeiro acordou. Ao despertar, Brodersen viu-a sentada à entrada da gruta, contra o azul misterioso que nos planetas parecidos com a Terra se espalha logo antes do alvorecer. Caitlín tinha programado o seu sonador para guitarra sem acompanhamento, e fez soar o instrumento. Muito serenamente, cantou para Brodersen as últimas estâncias da sua canção para o festival:
Os picos levantam-se dourados, o oriente embranquece.

Uma brisa suave anuncia o fim

Da noite de Verão,

E ao longo de um vasto campo

Os pares voltam para casa

De mãos dadas.

Contentes vamos a subir, contentes a descer.

A dança a voar, a voar como riso,

Dos campos em flor ao cume das montanhas.

Regozijemo-nos na alegria que vem depois!
Eu era uma lagarta que se arrasta, uma crisálida que dormita, uma borboleta da noite que voa à procura da Lua. Tão profundas eram as transformações, que o meu corpo não se podia lembrar daquilo que havia sido antes. Era como renascida para ter asas. Nem tinha meios para me maravilhar disso. Simplesmente existia. No entanto, quão brilhante era o meu ser!

Mesmo ao despontar, bichito peludo e esfomeado, vivia no meio das riquezas: o suco e a ondeada suavidade numa folha, a luz tépida do sol ou o frio do orvalho ou as brisas a levantarem-se sobre a pele, odores sem fim, trazendo cada um deles a sua subtil mensagem. Então, por último, os dias já a minguarem falaram à sua intimidade. Ele encontrou um ramo abrigado e espalhou seda das suas entranhas para tecer para si próprio um casulo, e enroscou-se na obscuridade, e morreu de morte lenta. Durante uma estação a sua carne trabalhou na sua própria transformação, até que aquilo que rompeu o casulo e saiu dali pertencia a um mundo completamente novo. Não tardou que a minha pele exterior se desprendesse de mim. As minhas asas, agora libertas, cresceram, secas e fortes, e eu lancei-me pelos céus fora.

Minha era a noite. Nos meus olhos a noite reluzia e cintilava, repleta de formas vagas, que eu reconhecia melhor pela sua fragrância. O meu alimento era o néctar das flores, colhido enquanto eu pairava no ar num trêmulo bater de asas, embora por vezes a seiva fermentada de uma árvore me pusesse, a mim e a um milhar como eu, a dançar vertiginosamente em torno dela. Mais penoso era lutar com toda a tenacidade depois da lua cheia, mais perdido no seu brilho do que no meio de uma grande bátega de água. E quando o odor de uma fêmea pronta para a cópula flutuava à minha volta, todo eu me tornava Desejo alado.

Outro instinto cego lançava o nosso bando numa viagem por aí fora. Noite após noite, passávamos por cima de montanhas, de vales, de cursos de água, de florestas, de prados, com as luzes dos homens a tremular como estrelas perdidas atrás de nós. Dia após dia, ficávamos em alguma árvore, enfeitando-a, numerosos como éramos. Enquanto eu estava assim a enfrentar ventos estranhos, Um recolheu-me, fazendo-me retornar à Unidade, e agora Nós sabemos o que tinha sido toda a minha vida desde que estou no ovo. Muitas foram as suas maravilhas. Eu era Inseto.



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