Contra capa



Baixar 1.08 Mb.
Página7/23
Encontro15.04.2018
Tamanho1.08 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   23

VII
Fria e vazia, a Emissário girava em órbita em torno do Sistema Solar, a 100 km por detrás da Roda de San Jerónimo. Minúscula no seu afastamento, o Sol apenas lhe dava uma luz pálida, e parecia perdida entre as estrelas. A Roda, essa, era mais impressionante, com 2 km de diâmetro, rodando majestosamente para fornecer peso terrestre às oficinas e apartamentos que se espalhavam pelo seu aro. O cubo, ao meio dos raios que eram vias de passagem, facilmente podia ter albergado a nave na sua doca. Com a sua blindagem de chapa de alumínio contra radiações, toda a estrutura brilhava como se estivesse a arder.

No entanto a Roda era um fracasso. Os homens tinham-na construído um século atrás, para servir de base de operações entre os asteróides. Disseminados como estavam aqueles restos de um mundo nado-morto, podiam ser proveitosamente manobrados por robôs, tal como acontecia às luas jovianas por vezes em torno de uma conjunção inferior. Não tardou que naves espaciais mais perfeitas-tornassem toda aquela idéia obsoleta. Ficava mais barato, e era mais rendoso, que os homens ali fossem em pessoa, lançando-se continuamente a um G ou mais, diretamente entre essas regiões e os satélites industriais da Terra. A Roda ficou então ao abandono. Falou-se de recuperar o metal para sucata, mas o resultado que daí se poderia obter não era compensador. Já então o preço dos vários metais estava a baixar. Por fim, a responsabilidade daquilo passou para o Governo da União, que restaurou tudo e declarou a Roda monumento histórico. Poucos visitantes atraiu.

Quando Ira Quick, ministro da Investigação e Desenvolvimento, autorizou a sua ocupação, ninguém prestou muita atenção ao fato. Declarou ele que a Roda estava muito bem situada para estudos sobre gases interplanetários. Isto seria mero trabalho de pormenor, sem nada de fundamental para descobrir, mas presumivelmente valia a pena tentar. Além disso, uma instituição privada estava a apoiar o projeto. Como as medições a fazer eram delicadas, a Roda e as suas vizinhanças tinham de ser fechadas aos estranhos durante umas semanas ou meses. Isso não trazia praticamente inconveniente nenhum a ninguém, nem sequer ao pessoal de guarda, que ficava com direito depois a licença com vencimentos. O assunto mereceu uma linha ou duas em várias publicações de astronáutica e cerca de trinta segundos em cerca de uma dezena de jornais falados.

Uma janela no apartamento de Joelle Ky permitia-lhe contemplar os céus, e a vista era vertical por meio de uma série de prismas. Eles não rodavam muito depressa, pois uma volta demorava cerca de três horas e o panorama era magnífico. Mas Joelle não tardou a aborrecer-se daquilo e teria passado mais tempo no seu estado holotético se tivesse o equipamento à mão. Até àquele momento, os guardas da prisão haviam recusado retirá-lo da nave ou levar Joelle para lá.

Pediam muita desculpa, explicando que não podiam fazer nada sem ordens. Os vinte homens que guardavam a tripulação da Emissário e os seus passageiros eram gente bastante decente à sua maneira, agentes do serviço secreto norte-americano para missões especiais. Acreditavam sinceramente que aquilo que estavam a fazer era justo e necessário. Haviam sido escolhidos um a um, treinados no culto da disciplina e da obediência tal como elas eram praticadas no antigo regime militar. O seu chefe, que presidia ao interrogatório dos cativos e às exortações que lhes eram feitas, era menos “simpático”. Não era bruto, no entanto, e quando disse a Joelle que o próprio Quick viria ali em pessoa para os ver, prometeu pedir-lhe autorização para lhe ir buscar a aparelhagem.

— Claro, Drª Ky — acrescentou ele —, se a senhora cooperasse um bocadinho mais conosco, se compreendesse melhor qual o seu dever, não há dúvida que teria então total liberdade.

Ela sentia-se demasiado cansada para responder.

Joelle tinha-se refugiado nos seus livros, na arte visual e na música. O diretor não tinha recusado que se transferisse para ali o enorme banco de conhecimentos da nave, com o seu material de passatempo e os seus elementos de consulta, especialmente porque o mais importante da sua tarefa consistia em descobrir o que os exploradores tinham feito e aprendido nos oito anos que haviam estado ausentes. Salvo para as refeições, Joelle afastou-se praticamente da vida social.

Os seus antigos companheiros, esses, mostravam-se mais dados. Embora o capitão Langendijk fosse friamente correto para com os agentes, Rueda Suárez calculadamente distante e Benedetti por vezes agressivo, os restantes fraternizavam em graus variáveis. Frieda von Moltke encontrou mesmo entre os agentes uma nova satisfacção sexual há muito desejada. As outras mulheres desprezavam aquilo, guardando os seus favores para os amigos, mas não fugiam a um jogo de cartas ou de andebol.

Mais isolado ainda, não propriamente da mesma maneira como se encontraria um humano entre não humanos, Fidélio procurou primeiro uma espécie de consolação junto de Joelle e depois desejou cada vez mais a sua companhia. Pedia que Joelle o esclarecesse sobre coisas que o intrigavam. Tinha estudado espanhol antes de embarcar, mas não as milhares de culturas de uma espécie estrangeira. Joelle podia ajudá-lo melhor do que ninguém, porque se tinha dedicado com afinco a aprender as duas linguagens de Fidélio, servindo-se inicialmente da holotética para ajudar Alexander Vlantis, e tomando depois a seu cargo a marcha das pesquisas quando uma onda na maré alta afogou o lingüista.

Joelle estava a acompanhar Swinburne no écran quando o betano entrou. Muita ficção e poesia deixavam-na impassível, ou mesmo perplexa. Tinha experiência muito limitada das relações emocionais correntes, demasiado larga experiência daquilo que constitui a base do universo. No entanto, as suas vísceras sentiam uma atração pelos sensualistas românticos, tal como o seu cérebro a sentia pelos espíritos matemáticos. Pensava ela que compreendia ...


... O tempo e os deuses estão em conflito; vós estais no meio deles,

Sorvendo um pouco de vida naqueles mamilos quase secos de amor.

Digo-vos: par ai, descansai.

Sim, digo-vos a todos, ficai em paz,

Até que cesse o leite amargo e seque de vez o peito estéril.
Os pensamentos de Joelle desviaram-se do texto, como já se estavam a desviar desde que começara a leitura. O impulso que movia a ambos era o mesmo. Ela tinha mostrado estas palavras a Dan Brodersen, da última vez que estiveram juntos. No seu presente isolamento, a imagem de Dan surgia com muita freqüência, cada vez mais intensamente, até poder sentir o cheiro do seu cachimbo e quase contar as pequenas rugas em torno dos seus olhos. Perguntava a si mesma se aquilo era porque ele estava vivo (oh, deve estar vivo), ao passo que Christine tinha morrido, e porque a virilidade de Dan era um tanto mais forte do que a lembrança dela ou ... Perdoa-me, Chris, era o sentimento que fluía através de Joelle enquanto se conformava com aquilo que pertencia ao passado.

— Belo, na verdade — disse ele. — Não, mais do que isso. O poeta estava a falar de qualquer coisa de real.

Fez uma pausa. Depois continuou:

— Desculpa-me, porém: não haverá nisto um pouco de verbosidade? Kipling poderia ter exprimido o mesmo numa só página, quando muito.

— E talvez por isso que eu nunca consegui apreciar Kipling — respondeu ela.

Ele alçou as sobrancelhas, curioso, para Joelle:

— Nem mesmo os poemas sobre a maquinaria? E no entanto tu, holoteta, com uma alma que deves ser um programa de computador, extasias-te diante de Swinburne?

Com um encolher de ombros, prosseguiu:

— Não há dúvida, as pessoas são um poço de paradoxos. De súbito, inexplicavelmente ferida, Joelle observou:

— Não te compreendo muito bem. Podes ter a certeza disso. Mas supunha eu que vocês, tipos normais, ressoavam uns com os outros. Queres dizer que tu não?

Por um momento Joelle imaginou que se encerrava dentro de si um antigo mito. Dir-se-ia, em verdade, que era como se o demônio daquele lugar a possuísse. Estavam a passar juntos os poucos dias que haviam podido conseguir, numa ilha do arquipélago de Tuamotu, ilha que ele conhecia há muito (sim, com outra mulher, reconheceu ele sem embaraços). Da varanda onde se encontravam, Joelle via passar um conjunto vermelho e verde de hibiscos, a descer um regato para a baía que se desenhava em torno de uma lagoa. Uma álea de palmeiras agitava-se num doce murmúrio, com as folhas embaladas por suave brisa. A água era um espelho lápis-lazúli, semeado de estrelas, salvo nos recifes, onde era creme e se desfazia em espuma. As únicas nuvens estendiam-se do lado oposto ao Sol, desdobrando-se como uma cortina que tivesse o arco-íris como pórtico. Joelle não encontrava nomes para a suavidade e para as sensações que o ar fazia nascer no seu íntimo. Durante aquela manhã ela e Brodersen tinham errado de mãos dadas pela praia fora, sem uma peça de roupa em cima do corpo (a não ser as sandálias para caminharem por cima dos belos corais que feriam os pés). Foram nadar e depois disso ficaram a preguiçar. A luz infiltrava-se-lhes através da pele até à medula, e por fim Brodersen falou do risco de queimaduras e vestiram-se. No regresso encontraram um homem trigueiro que sorriu. Pôs-se a cavaquear em mau espanhol, convidou-os para irem a sua casa,* mesmo ao lado, comer uma bucha, e depois sacou do violão e tocou algumas músicas com Brodersen. A chuva que então começou a cair parecia o céu e a Terra num duelo de amor.

Agora aquele que tinha vindo para junto dela de Deméter dava a entender que também estava confinado para sempre entre paredes. Um horror! A dor subia.

— Oh, bem, não sei! Nunca me preocupei em falar disso. Deteve-se. Depois prosseguiu:

— Então, que se passa? De repente pareces couraçada. Joelle sacudiu a cabeça, olhos bem fechados:

— Não é nada — conseguiu a sua língua formar.

Brodersen avançou, pegou-lhe com os dois braços, com as mãos a tremerem um pouco, e rosnou:

— Com que então não é nada! Qualquer coisa que te possa perturbar, Joelle...

— Não sei, não sei — respondeu ela antes de se poder deter. Dominou-se depois. — Eu ... Também eu tenho os meus ... momentos irracionais.

Observando a estupefacção de Brodersen, perguntou:

— Não te apercebeste disso?

Brodersen sentiu um nó na garganta, o que a fez espantar. Sem dúvida que tinha bastante experiência de mulheres e dos seus caprichos. Passado um momento, disse vagarosamente:

— Bem, deve agradar-te a minha companhia, independentemente da cama, é claro. O que não faz muito sentido...

Joelle viu que, por baixo da familiaridade que Brodersen tinha adquirido com ela no decorrer dos anos, ele se sentia ainda fascinado pelo seu intelecto.

— Mas se tens também um verdadeiro fraco...

Brodersen deixou sumirem-se as palavras à medida que Joelle se lançava contra ele.

— Aperta-me bem, Dan — suplicou ela, e, como não queria lembrar-se da desprezível psique que estava por baixo da sua mente bem consciente ordenou: — Vamos para dentro. Vamos apaziguar a parte animal.

Mas desta vez Joelle já não conseguiu que o seu corpo funcionasse em pleno. Brodersen era amável, forte como sempre, mas havia qualquer coisa de vazio em tudo aquilo, e depois mais ainda ao assegurar-lhe que estava apenas mal disposta e que tudo voltaria ao normal em breve. O que era sem dúvida verdade.

Todavia ... Nenhum de nós escapa ao fato de que é com freqüência difícil, muitas vezes impossível — pensava Joelle na Roda. Pior para os betanos, é claro. Como será isto de termos de depositar as nossas esperanças de amor numa raça estranha e apenas meio civilizada? Essa é uma das razões, fora a holotese que compartilhamos, porque me sinto tão próximo de Fidélio?


Tocaram à porta.

— Entre! — disse ela, e ficou muito contente por ver que era ele. Não apenas tinha estado a pensar nele. No meio daquele frio quarto funcional que a tinta de tom pastel nada fazia para alegrar, ali estava ele como sólida afirmação de que a realidade não era só aquilo.

Buenos dias! — saudou ele na voz áspera, gutural, da sua raça quando em solo firme. Tonalidades sibilantes tornavam as palavras difíceis de seguir.

Bienvertido! — replicou Joelle, e sugeriu que ele falasse a sua própria língua, aquela que devia usar no ar. Quanto a ela, ficaria com o espanhol. Sem equipamento voder computorizado, não podia Joelle exprimir-se em vocábulos betanos, e não tinha vontade de o levar para o laboratório para ali falarem os dois sob o olhar do guarda que estava na antecâmara e que se podia aproximar. Se a conversa precisasse de frases dele, podia Joelle escrevê-las. O fato é que, faltando-lhe o equipamento holotético, Joelle tinha apenas um limitado conhecimento. As línguas apresentavam para ela mais subtilezas estranhas do que um cérebro podia dominar, sem os seus aparelhos auxiliares. (A “língua” submarina era pior, tanto do ponto de vista de pronúncia como de compreensão.) Contudo, se as coisas não se complicassem hoje, podiam compreender-se um ao outro.

— Está você comprometida, fêmea de intelecto? — perguntou ele polidamente. — Eu não queria interromper um sonho lógico.

Era a sua tradução de um certo conceito, tradução não muito satisfatória mas sem dúvida melhor do que “meditação” ou “pensamento filosófico” ou “devaneio refletido”.

— Não, não tenho que fazer, e até gostava de conversar — assegurou-lhe ela. —Como está você? Não o vi desde ... Nem sei! O tempo não tem sentido num lugar diabólico como este.

— Eu estava no banho — disse ele.

Logo de início, os biólogos da Emissário haviam prevenido que Fidélio não tardaria a adoecer e a morrer se não pudesse passar várias horas por semana em água como a do seu próprio mar de origem. A composição não era a mesma dos oceanos da Terra, mas não era também difícil de reproduzir. Qualquer laboratório químico podia fornecer os ingredientes necessários. Eles tinham sido trazidos da nave para a Roda e construíra-se ali uma pequena piscina. O comércio de sal entre as comunidades do litoral e do interior.tinha moldado em grande parte a história de Beta.

— Excelente! — exclamou Joelle, e pensou em quão inadequado era aquilo. Que tragédia não seria perdê-lo! Para ambas as espécies, e talvez para muitas mais. Além disso, Fidélio era brilhante e amável. Valia um milhão de Ira Quicks.



Mas vamos perdê-lo se o seu alimento se acabar — lembrou-se ela. Fidélio não podia consumir alimento nenhum extraído dos tecidos nascidos da Terra. A maior parte eram venenosos para ele. A expedição, ao regressar, tinha-lhe trazido mantimentos para um ano, principalmente sob a forma de gêneros secos e congelados. Tinham partido do princípio de que, muito antes de um ano, a União poria a funcionar carreiras regulares com Beta.

Joelle não se deixava dominar pela raiva, mas de repente sentiu-a subir dentro de si. Procurando acalmar-se, olhou para Fidélio, ali sentado sobre os pés e a cauda, diante da sua cadeira. Joelle descobria-lhe sempre qualquer coisa de novo, uma nova particularidade de forma ou de movimento ou então uma subtileza menos facilmente identificável e de que se não tinha apercebido ainda.



Não há dúvida: nós os dois somos produtos de quatro bilhões de anos de evolução separada, a partir dos tecidos primitivos que foram parar aos nossos planetas tão diferentes um do outro. São necessários nomes, mas eles \ apenas conduzem a engano. Dão-nos a impressão de que estamos de posse de j um conhecimento que realmente não temos.

O caráter arbitrário dos nomes tornou-os duplamente decepcionantes. Os exploradores chamaram “Centrum” ao sol a que a passagem através das. estrelas os levou. Isto por falta de termo mais adequado. E aos seus planetas chamaram Alfa, Beta, Gama ... por ordem, de dentro para fora. “Fidélio” foi o nome dado por Torsten Sverdrup, que adorava Beethoven, e ficou. Entre eles, o ser era chamado qualquer coisa como “K'thrru'u” em terra, “Gaoung Ro Mm” na água. Mas nenhum alfabeto da Terra poderia reproduzir com rigor qualquer destas designações.

Fidélio era um exemplo típico da sua espécie, tal como Joelle o era da sua, que se estendia dos Chineses aos Papuas, dos Celtas aos Pigmeus, dos Negros aos Esquimós, e assim por diante. Concretamente, vinha ele da orla marítima a leste do principal continente no hemisfério norte, a uma latitude média, e pertencia àquela sociedade que havia tomado a cabeça de uma revolução industrial um milênio atrás. As civilizações pareciam não se formarem e declinarem em Beta da mesma maneira do que na Terra. No entanto, hoje todo aquele mundo, e as suas colônias em torno de outras estrelas, se debatiam numa crise bem especial...

Fidélio era um bípede de seis membros. O seu corpo era do tamanho de um homem alto, mas sem forte corpulência, terminando numa espécie de barbatanas horizontais que lhe aumentavam ainda de metade o comprimento. Por causa da sua posição inclinada para a frente, ficava com uma altura de cerca de metro e meio, e a gordura escondia-lhe os formidáveis músculos. As pernas, que a Joelle faziam lembrar o Tyrannosaurus Rex, terminavam em pés palmípedes, os braços superiores em longas garras com membranas a uni-los, os braços inferiores, mais pequenos, em mãos com três dedos mais um polegar, que estavam longe de se parecer com os humanos. A anatomia do esqueleto tornava os membros e os dedos, mais o torso, a cauda e o esbelto nariz, tão flexíveis que quase pareciam sem ossos. A cabeça era estreita, formando bojo para trás para conter o cérebro. Um focinho pequeno, pontiagudo, rodeado de duras sedas, apresentava uma única venta fechável e uma boca com uma variedade onívora de dentes que incluíam um par de caninos de alarme. As duas orelhas eram pequenas. Os dois olhos, grandes e de um azul uniforme. As suas propriedades ópticas podiam ser modificadas por membranas nictantes, para verem debaixo de água. Uma pele lustrosa, castanho-escura, cobria por inteiro o seu corpo, e tornava-se mais ligeira no ventre. Desprendia-se dele um cheiro intenso, como a iodo. Como roupa, usava uma espécie de camisa e calças com alças e bolsos. Como os seus órgãos de reprodução eram retráteis e de qualquer modo pouco semelhantes aos do homem, não era evidentemente macho... salvo no seu mundo, onde, para principiar, tinha dois terços do tamanho da fêmea média...

A sua visão ao longo do ar não era igual, à dos humanos, embora visse muito melhor quando submerso ou no escuro, e razoavelmente bem a curta distância. O seu ouvido era superior. Além disso, possuía uma quimiossensibilidade que Joelle havia decidido não designar por “gosto” nem por “olfato”. Por sua parte, Fidélio ficava espantado a todo o momento com as distinções que Joelle podia fazer com as pontas dos dedos.

Aqui está, pensou Joelle, o embaixador de boa vontade, confiante, do seu povo, atirado para a cadeia. E eu nem mesmo sei como encara ele tudo isto. Tentou dizer-mo, mas não lhe é possível exprimir-se com clareza a não ser quando eu estou a funcionar como holoteta, e talvez nem mesmo então o consiga muito bem.

Em que o posso ajudar, Fidélio? — perguntou ela em voz macia.

— Estou a tentar reunir as minhas correntes de sonho [saber com todo o seu ser?] sobre a maneira como a vossa espécie chegou pela primeira vez aos engenhos de transporte e ao conhecimento a respeito dos Outros.

— Mas você já sabe! — exclamou ela, surpreendida. — Encontramos simplesmente a máquina no Sistema Solar, da mesma maneira que os vossos exploradores interplanetários encontraram antes aquela que está em órbita em Centrum.



Antes? — perguntou ela a si própria. Que significa isso? A simultaneidade não é conceito que se aplique através das distâncias interestelares. Por outro lado, acontece que o “T” na “máquina T” não designa apenas “Tipíer” e “Transporte”, mas também “Tempo”. Os próprios Betanos estão curiosos de saber se, circulando através de um sistema diferente, não irão deparar com o seu próprio futuro ou com o seu passado. Nesse campo, não ignoramos qual é a nossa situação temporal relativamente à nossa colônia em De meter. Tudo quanto os astrônomos podem determinar é que as três passagens dão para a mesma era geral desta galáxia.

E, por aquilo que valha, e que pode não ser nada, temos o fato de os Betanos terem atrás de si alguns séculos mais de científico-civilizados do que nós na Terra... Se é que nós já somos civilizados.

— Essa é a verdade lançada para um recife e deixada secar ao sol — disse Fidélio. — Eu ando à procura do coral vivo. [Claro, Beta não tem corais, mas tinha um celenterado que se comportava de modo semelhante.] Disse-me você, Joelle [pronúncia indescritível], que não havia previsto esta detenção. Começo a perguntar se aquilo que aconteceu não é o resultado de um desvio [Malvadez? Desencaminhamento? Desajustamento? A palavra continha a possibilidade de Quick e os seus apaniguados terem razão.] O impacte desta original revelação foi tremendo em Beta. Deve ter sido comparável na Terra. No entanto, a onda que ela levantou produziu um aspeto peculiar na vossa espécie, fosse qual fosse o estado em que se encontrava a humanidade contemporânea. E as repercussões não se podem ainda ter extinguido... Tenho andado a ler histórias, Joelle, mas elas estão atulhadas de referências a acontecimentos e personalidades que nada significam para mim.

I see — respondeu ela lentamente. (Compreendo = apreendo. As línguas inglesa e espanhola não são equivalentes. A este respeito, no mar Fidélio teria dito: “Os meus dentes fecham-se sobre isso.” Em terra teria dito: “Sinto-o nas minhas vibrissas.”)

— Olhe, Fidélio — prosseguiu ela —, penso que será difícil dar-lhe uma resposta completa, pois também eu estou um pouco perdida. Mas vamos fazer uma tentativa.

Joelle afagou o queixo, a meditar:

— Sim, lembro-me agora de um documentário sobre todo este assunto. Um documentário preparado para as escolas e que contém muito material original. Vou tentar descobri-lo.

Como todos os outros apartamentos na Roda, o de Joelle dispunha de um terminal de computadores, com painel e saída de dados impressos. O documento que ela tinha em mente era um clássico, e foi procurá-lo um certo número de anos atrás, à época em que todos esperavam que se fixasse ali uma população permanente, incluindo crianças. Supôs que estivesse nó banco de dados. Acionou o teclado e pediu o que pretendia.

O documento lá estava.


VIII
(Vista da máquina, tomada de longe, com um milhar de quilômetros de extensão, semelhante a uma agulha a flutuar no espaço, dominada pela Via Láctea.)


NARRADOR

... sondas sem tripulação trouxeram indicações de qualquer coisa de curioso, em órbita à volta do Sol, com o mesmo circuito da Terra mas distanciada dela 180°, de modo a situar-se sempre no lado oposto. Um vôo rápido confirmou que aquilo era de fato estranho. Asteróide nenhum podia ter uma forma perfeitamente cilíndrica. Não havia dúvida: nenhum podia ser tão maciço, nem girar a tal velocidade ...

(Um astrofísico, famoso na época, fala sentado à secretária, mostrando uma vez ou outra um diagrama animado, para apoiar as suas palavras.)
IONESCU

... não seria possível. Essa coisa é tão densa como um colapsar, praticamente sem existir nela o buraco negro. Os seus átomos devem ter sido comprimidos a ponto de já não serem verdadeiros átomos, mas sim matéria nuclear quase contínua, aquilo a que chamamos neutrônio. Apenas o campo gravitacional de uma estrela maior do que o Sol, abatendo-se sobre si mesma depois de os seus focos de calor estarem extintos, os pode levar a tal estado. O cilindro não. Embora seja gigantesco, a sua massa é muitíssimo pequena.

Na realidade, não é suficiente para perturbar os planetas de maneira perceptível. Além disso, um corpo natural formaria um esferóide.

No entanto, a coisa existe. Forças de uma natureza sobre a qual nada conhecemos deram-lhe forma, deram-lhe a sua inimaginável energia rotacional e mantêm-na coesa. Não tenho dúvida nenhuma de que se trata do produto de uma tecnologia mais avançada em relação à Idade da Pedra...



Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   23


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal