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Encontro15.04.2018
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(Cenas de excitação, discursos, massas, manifestações, sermões, vigílias de preces, por toda a parte, na Terra e nos satélites. Excerto de uma conferência de imprensa dada por Manuel Fernández-Dávila, Donald Napiere Saburo Tonari, os três homens que vão partir, o grupo internacional mais homogêneo que a situação caótica do mundo permitiu reunir. O lançamento na rampa, uma esteira de gases sobre uma austera cordilheira. Encontro no espaço com a Discover. A nave. A transferência para ela.

Cenas durante o vôo, que naquele tempo levou semanas, a maior parte em queda livre. Vistas tiradas através das aberturas: o cilindro a crescer na imagem até começar a distinguir-se o seu enorme volume e até ficarem visíveis outros corpos reluzentes que aparecem também. Homens vestidos de fatos espaciais vêm para fora, presos à extremidade de cabos, para tirarem fotografias e fazerem medições com vários instrumentos. Falam para Terra por meio de um relê que foi lançado em órbita especialmente para eles. As palavras são habitualmente secas, mas carregadas de medo.)


FERNÁNDEZ-DÁVILA

... não são satélites. Não andam à volta do cilindro. Permanecem no mesmo lugar em relação ao Sol e entre si mesmos. Sabe Deus como isto é feito, mas presumimos que se conservam assim graças a alguma da energia que mantém o corpo principal coeso numa só peça. Contamos dez. Parecem sem características bem definidas, salvo no tocante aos vários comprimentos de onda em que emitem. Estão espaçados em tomo do eixo de rotação do cilindro — eixo que é rigorosamente normal à elíptica —, a várias distâncias e orientações, sendo a mais afastada a cerca de um milhão de quilômetros, a mais próxima a cerca de mil. Quando observamos todo o sistema através do nosso telescópio principal, temos uma vista maravilhosa. Bem, qualquer coisa astronômica é ...

(Em data posterior, quando o objetivo já está a tomar forma.)
TONARI

... os corpos reluzentes são propriamente esferas, de um diâmetro estimado em 10 km. Parecem não ser materiais. Mais como bolas de energia, nexos num campo de forças. Confirmamos que não são absolutamente estáticos. A configuração muda, extremamente devagar mas continuamente, de harmonia com um plano que não conseguimos decifrar...

(Vista exterior tirada por Tonari em EVA: um instantâneo de nave, uma I filmagem direta do cilindro, cujo comprimento enche agora o écran, e um | par das suas luas que não são luas, e por detrás e à volta de tudo as estrelas.) [
NAPIER

(entretanto a bordo)

... satisfatória curva de aproximação. Vamos andar à volta dele a uma distância de 90 500 km, para depois retirarmos para 100 000 km e nos fixarmos numa órbita circular e... Santo Deus, que será isto?

voz

(melodiosa, andrógina, falando apenas espanhol como um habitante de Lima com boa

instrução)

Atenção, por favor. Atenção, por favor. Uma mensagem para vós. Uma mensagem daqueles que construíram a instalação que estais a ver. Damo-vos as boas-vindas. Mas deveis mudar de rota. O trajeto que estais a seguir é perigoso para vós. Preparai-vos para acelerar e aguardai instruções. É favor gravarem. Ireis precisar das informações que vos vamos dar. Daqui a cinco minutos serão repetidas estas palavras para esse efeito, seguidas pelos elementos necessários. São palavras de boas-vindas, de regozijo por vós terdes finalmente chegado até aqui, tão longe. Obrigados.

(Imagem do interior. Fernández-Dávila pôs a funcionar as máquinas de filmar a fim de recolher imagens destinadas aos livros de história.)
NAPIER

Que diabo será isto?


FERNÁNDEZ-DÁVILA

Provavelmente vibrações sônicas fixadas no casco. Nada difícil para eles ... Saburo! Saburo, ponha o seu equipamento de novo a funcionar.

(Não foi reproduzida de novo a saudação. Este documentário utilizou a repetição que foi prometida, pois o original foi captado apenas ao cabo de um trajeto pela rádio de duzentos e dez milhões de quilômetros, depois do que foi retransmitido por igual distância para a Terra, perdendo qualidade no decorrer de todo este percurso.)

voz


... compreender que não é fácil tornar clara toda a verdade. Agora, enquanto vos acalmais, deveis retirar-vos para aproximadamente 500 000 km e ficar aí em órbita. De contrário, é provável que não vejais de novo os vossos lares. Vamos dar-vos o programa e os vetores ...
(Várias imagens, exteriores e interiores, tomadas durante os dias que se seguiram: a construção titânica, a Via Láctea, Nuvens de Magalhães, a galáxia-irmã de Andrômeda, os homens, que de uma maneira ou outra continuam a sua rotina, agora a conversar ou a jogar, entre graves discussões sobre aquilo que aprendem sempre que lhes chega uma mensagem.

voz (excertos)

Estais a ouvir uma espécie de computador-efetor, um robô, se quiserdes. Nenhum ser vivo tinha possibilidade de permanecer aqui, à espera que vós chegásseis ...

O universo é uma cornucópia de vida ...

Os construtores existiram pelo tempo fora, de idade para idade. Desejam o bem do cosmos, mas por isso mesmo não procuram ser senhores de tudo, para não dizer deuses. Melhor será que cada raça trace o seu próximo destino, por muito trágico que ele possa vir a ser. Só assim lhe será possível crescer em fortaleza, desenvolver a sua mentalidade, o seu espírito. Também os construtores têm as suas próprias vidas para viver, os seus próprios sonhos a realizar. Assim, pouco mais ouvireis do que isto a seu respeito, e para todo o sempre. Para vós, para inúmeros outros seres por entre os sóis, eles devem continuara ser os Outros, desconhecidos ...

No entanto, eles interessam-se por vós. Eles amam-vos. Fácil de ver, eles têm-vos observado desde há muito, em profundidade. Havendo conseguido chegar até aqui, podereis utilizar livremente o que eles construíram, para as vossas viagens interestelares. Sereis guiados para um sistema onde ireis encontrar um planeta muito semelhante ao vosso próprio mundo, salvo que não nasceu ali qualquer ser sensível para o proclamar... Está em vossas mãos avançar, se assim o decidirdes ...


NARRADOR

Quando as transmissões da Discover chegaram à Terra, poucas foram na verdade as pessoas que conservaram uma certa calma. (O gabinete do astrofísico.)


IONESCU

... as especulações que se começaram a ouvir quando chegaram as observações do vôo de reconhecimento parecem agora confirmar-se. Tanto quanto podemos dizer, trata-se de uma máquina Tipler.

Chamo-lhe assim em honra do cientista que, na continuação do trabalho de Kerr e de outros, publicou em 1974 um estudo precisamente sobre esta matéria, estudo esse que desenvolveu mais tarde com imaginação e também, com rigor matemático. Como é evidente, foi forçado a assentar sobre certas proposições, para simplificar. No entanto, fez uso estrito, rigoroso, de princípios bem estabelecidos de Física para demonstrar que o transporte através do espaço-tempo era teoricamente realizável, embora necessitasse, na aparência, de condições impossíveis de reunir no universo real. (Sorrindo.) Receio que a prova seja um tanto exotérica. O que ela representa, em termos correntes, é isto: um cilindro de matéria ultradensa, girando a uma velocidade que exceda metade da velocidade da luz, criará um campo. Não um campo de forças, no sentido em que nós o entendemos, chamemos-lhe antes uma região, na qual algumas quantidades variam conforme a nossa posição. Um corpo que circule através daquele campo pode ser transportado diretamente de acontecimento para acontecimento. Em linguagem mais popular, dependendo do caminho que seguir, pode ir de qualquer ponto no espaço-tempo para qualquer outro ponto dentro do alcance da máquina.

Como eu disse, este efeito parecia exigir condições impossíveis de reunir. Por exemplo, requeria á existência de densidades da matéria com ordens de grandeza superiores às dos próprios núcleos, e tais como poderiam teoricamente existir dentro de um buraco negro mas em mais lado nenhum. Suspeito, portanto, que a densidade que medimos para aquele cilindro, por muito elevada que seja, constitua apenas uma média. Que ela aumente no interior, até ao ponto de ocorrerem os fenômenos típicos de um buraco negro. Que precisamente no centro se encontra uma verdadeira particularidade. Como conseguiram isto os Outros? Esta uma pergunta a que não podemos dar resposta precisa. Podemos, sim, especular e dizer que o estado de mais fraca energia pode, no fim de contas, em determinadas circunstâncias, ser violado, e muito provavelmente até mesmo as nossas suposições são totalmente erradas. Com um pouco mais de confiança, pensamos que a extensão finita deste objeto do mundo real limita o âmbito do seu efeito, embora obviamente esse âmbito seja interestelar e talvez interepocal.

Começamos também agora a entrever como pôde o cilindro permanecer na sua posição em relação à Terra. Essa posição não é estável. As perturbações planetárias levariam um corpo que estivesse ali a afastar-se, relativamente em pouco tempo. No entanto, é de supor que aquele engenho se encontre ali há séculos, pelo menos. O que lhe dá a possibilidade de se manter naquela posição? Analisando os elementos de que dispomos, achamos provável que haja uma contínua interação com os campos magnéticos interplanetários e galácticos, embora também isto se deva realizar através de distâncias impressionantes.

Espero viver o suficiente para nos ver adquirir um pouco mais de conhecimento sobre a criação que os Outros acrescentaram à Criação. Podemos mesmo, por fim, encontrar meios de tornar as nossas descobertas compreensíveis para os leigos... ou para nós próprios.

(Acentua-se neste ponto a expressão professoral daquele rosto.) Mas isso não importa agora. O que hoje importa, acima de tudo, isso sim, é que nos foi dada a possibilidade de iniciarmos uma nova caminhada!
NARRADOR

Antes de a Discover regressar, a Voz ofereceu-se para a conduzir através da passagem pelas estrelas e trazê-la de volta. Lembremos o que Fernández-Dávila disse mais tarde: “Como poderíamos nós ter recusado?”

(Imagens de uma nave que posteriormente traçou a rota, fotografada de uma outra nave irmã. Estão entremeadas com esboços e esquemas, assim como com fotografias tiradas durante a viagem inicial. Isto e a narração tornam claro o que se passa. O aparelho espacial desloca-se de esfera para esfera, numa ordem precisa.)

voz


Os globos são simplesmente balizas, auxiliares de navegação. Com a sua ajuda, podeis seguir o caminho exato através do campo de transporte que vos levará ao local para vós preparado.

Cuidado! Qualquer caminho diferente vos levará a um destino completamente diferente. Pode muito bem acontecer que não exista ali nenhuma máquina. Vós acabaríeis por perecer, perdidos, naqueles anos-luz. Quando os construtores desejam estabelecer um novo ponto de apoio, devem mandar para lá todos os materiais necessários e todo o equipamento, por meio de um engenho já existente, e preparar outro no novo local, antes de poderem regressar.

Mesmo se vós emergísseis numa máquina, nunca mais encontraríeis o caminho de regresso. Vede bem: dez globos, tomados nas suas várias seqüências, definem 3 628 800 trajetos diferentes. Na realidade, as combinações são muito mais numerosas ainda, pois nem todos os trajetos passam obrigatoriamente por todas as balizas. Se não entrarmos em linha de conta apenas com as balizas, o número de caminhos a seguir tornar-se-á praticamente infinito. Vós erraríeis pelo espaço, cegos, até morrer, ou mais provavelmente até chegar a um lugar qualquer onde não encontraríeis máquina nenhuma.

Deveis ter notado que a configuração das esferas não é sempre a mesma, mas muda gradualmente. Sem dúvida haveis deduzido que isso se destina a compensar as mudanças de posição das estrelas. Não vos apoquenteis a tal respeito. Segui simplesmente a mesma ordem, bem estrita, na passagem por cada uma delas, conforme vos foi indicado. Da mesma maneira, se tomardes a ordem devida ao cabo dessa vossa viagem, isso vos trará sempre de lá para cá. Havereis de notar que é inteiramente diferente do trajeto que vos levou de cá para lá.

Cuidado, repetimos! Deveis ter cuidado, não vos desviardes de qualquer destes dois modos de proceder. Mandai sondas não tripuladas, escolhendo trajetórias ao acaso se assim quiserdes, mas nunca uma nave com gente a bordo, pois poderia dar-se o caso de jamais voltar.

(A sala de trabalho de um famoso filósofo.)


SAMUELSON

... Não creio que qualquer humano esteja preparado para compreender os Outros. Eles devem ter o que é infinitamente mais importante do que uma ciência e uma tecnologia superiores à nossa, talvez em milhões de anos. Estou convencido de que têm espíritos superiores... E, sim, suponho eu, almas superiores também, e mais nobres. Não acredito que tenham existido durante tão vastas extensões de tempo, com tais poderes como os deles, e que não hajam evoluído.

No entanto, no caso das máquinas T, arriscarei uma hipótese sobre os seus motivos. Por que razão não nos descreveu a sua Voz nenhumas vias de acesso a não ser a que vai do Sol àquela única estrela distante? Por que razão não deu [ sequer uma indicação de qual é a relação matemática entre um determinado trajeto e dois pontos escolhidos no espaço-tempo, de modo a podermos ; calcular como ir de A, onde nos encontramos, para um ponto B que gostávamos de visitar? Por que razão, vejamos, não disse mais nada a Voz desde a chegada dos primeiros humanos?

Em meu entender, isso faz parte da sua doutrina de não interferência.

Reflitamos: eles instalaram a máquina do Sistema Solar em posição oposta à Terra, e nós nem sequer sonhávamos que ela existisse, antes de aperfeiçoarmos uma técnica notável que nos permitiu andar no espaço. Mas a máquina no outro sistema gira em órbita muito mais à mão, numa rota estável, 60° à frente do planeta que nós vamos provavelmente colonizar, e nitidamente Visível de qualquer astrônomo que ali estivesse. No entanto, e ao que parece, não há astrônomo nenhum naquele planeta, nem nasceram ali criaturas verdadeiramente pensantes. Ninguém que pudesse ser levado por aquela visão a empreender com afinco esforços desmedidos ou uma luta de vida ou de morte j pelo domínio.

Disse a Voz que os Outros nos amam. Podem amar-nos. Deram-nos todo , um mundo novo. Mas devem amar todas as raças sensíveis. Suspeito que uma casta como a nossa, com a sua história de guerras, de opressão, de pilhagem, levaria consigo o desastre se irrompesse de súbito pela galáxia dentro. Suspeito também que não somos excepcionalmente maus, nem de vistas curtas. Que muitas espécies se tornariam em igual ameaça se lhes fosse dada a oportunidade.

Ao mesmo tempo, os Outros recusam-se, ao que parece, a tomarem-nos, a nós ou a quem quer que seja, sob a sua tutela. Estou seguro de que, do seu ponto de vista, têm coisas muito mais interessantes para fazer. E do ponto de vista do nosso bem-estar, podem sentir que seria um erro domesticarem-nos.

Por isso nos deixam em liberdade. Permitem que utilizemos as suas passagens por entre as estrelas, mas não nos oferecem mais do que isso. Temos de suportar a frustração, vendo a Alfa do Centauro e Sirius a brilhar sem ainda as podermos atingir, nos nossos céus, a não ser que tacteemos o nosso próprio caminho para o cosmos. Espero que eles esperem que o longo esforço de cooperação que isto exige nos amadureça um pouco ...

(Imagens de um engenho espacial a completar o seu trajeto. De súbito, desaparece. Imagens da máquina T e do Sistema Febiano. De súbito aparece o engenho espacial, a cerca de 500 000 km do cilindro.

Série de imagens da viagem inicial. Fernández-Dávila, Tonari e Napier observam, da sua estreita cabina. Murmuram. Dois deles rezam. Depois dominam-se e olham para fora com olhos experimentados. Um leigo não consegue distinguir constelações no espaço: são demasiadas as estrelas visíveis. Um astronauta, sim. Aqui, nenhuma é familiar. Ao cabo de um momento, os homens pensam que podem designar algumas, modificado como está o seu aspeto. E os objetos extragalácticos não parecem diferentes. Calculam grosseiramente que se deslocaram mais de cem e menos de quinhentos anos-luz para noroeste do Sol.)


VOZ

... O planeta que mais vos irá interessar está no céu muito próximo da nebulosa Caranguejo ...

(A imagem fixa-se num ponto cor de safira, infinitamente belo.)

NARRADOR


O mundo que a partir de então chamamos Deméter... (Fotografia de Febo. Vista da cabina da Discover e de três homens cobertos de glória.)

voz


A vossa nave não tem reservas para ir ali. Melhor será regressardes ao Sistema Solar imediatamente. Por certo que outras naves, equipadas para trabalhos de exploração, virão depois. Vós próprios podeis vir a bordo...

(Cenas do regresso através da passagem, cenas a seguirem-se umas às outras de maneira inteiramente diferente à seqüência anterior. Cenas de preparativos ao cabo da viagem, e de júbilo, de solenidade, no longo percurso para aterrar. Cenas de tumulto, cortejos, cerimônias, festas, predições extravagantes, e no meio de tudo isto uma ou outra palavra de mau agouro.)


NARRADOR

... estamos preparados, finalmente, para mandar os nossos primeiros colonos. Antes disso, tivemos de passar anos em investigação, a aprender as coisas mais elementares acerca de Deméter. Os Outros asseguram-nos que o nosso esforço seria compensado, mas que aquilo não seria o Éden...

(O lar de um famoso astronauta.)
FERNÁNDEZ-DÁVILA

E elevado o preço por pessoa que mandamos, e não sabemos ainda o que nos poderão trazer depois estes homens para compensar o dispêndio feito. Ouvimos por isso protestos, ouvimos pedidos para que se ponha de parte todo o projeto. Quanto a mim, continuo a pensar que o estímulo que ele imprimiu à tecnologia espacial, o aperfeiçoamento substancial que trouxe às naves e aos instrumentos, já nos compensaram pela totalidade do custo de tudo isto e já nos deram um elevado lucro. Depois, há a revolução científica, especialmente em biologia, que proveio de Deméter. Um conjunto inteiramente independente de formas de vida! Necessitamos de décadas, talvez de séculos, para as examinar melhor, com todas as implicações que daí resultam para a medicina, para a genética, para a agricultura, para a maricultura, e nem sabemos que mais. Isso exige uma fixação permanente.

Por outro lado, nos termos econômicos mais rudimentares, posso afirmar que dentro de uma geração os humanos em Deméter estarão a compensar o investimento feito pela Terra, mandando para a Terra mil vezes mais do que isso. Lembrem-se do que a América representou para a Europa. Lembrem-se do que a Lua e os satélites representam para nós, hoje.

Muito para além disto, pensem no imponderável, no imprevisível: desafio, oportunidade, desenvolvimento intelectual, liberdade... O início do nosso crescimento em relação aos Outros...


Joelle viu que tinha sido acrescentado um seguimento. Pensou que era igualmente honesto, mas a honestidade era agora de uma geração posterior.

Entrava pela história de Deméter. Apenas escassos milhares de indivíduos por ano podiam ser lançados pela passagem e mandados para o planeta. A capacidade de transporte ampliou-se à medida que a colônia ia começando a assegurar dividendos ... mas lentamente, por causa das pretensões divergentes que se levantavam sobre aquela riqueza. Os emigrantes partiam sob os auspícios das suas nações, de harmonia com um sistema de contingentes prefixados. Contudo, por meio de corrupção ou de acordos legais, muitos deles viajavam sob bandeiras diferentes das suas.

As razões que os levavam a partir eram tão variadas como as pessoas que partiam. Ambição, aventura, esperanças utópicas, eram algumas delas. Mas certos governos subsidiavam a ida de cidadãos dissidentes, e faziam pressão sobre eles para que aceitassem emigrar. Alguns tinham em mente estabelecer postos avançados que ficassem depois em suas próprias mãos; outros tinham motivos mais obscuros, como era o caso de certas organizações não oficiais e de certos indivíduos.

De início, toda a gente devia viver em Eópolis ou nas vizinhanças, e para sobreviver era essencial uma estreita cooperação entre todos. A solidariedade que existia era reforçada pelo pressentimento de que os Outros pudessem estar ali por perto a observar. Isto foi desaparecendo com o andar do tempo, e entretanto crescia a população, desenvolvia-se a economia. A par disso, aumentavam os conhecimentos. As pessoas aprendiam a viver sem dependerem da cidade. As regiões no campo tornaram-se uma verdadeira manta de retalhos de grupos étnicos, e foram-se tecendo as ligações sociais entre estes grupos.

Por fim começou a sentir-se a necessidade de um corpo legislativo demeteriano. Ficou subordinado à Terra, representada pelo governador-geral, e a sua autoridade permaneceu ainda mais limitada pelo fato de a maior parte das comunidades resolverem os seus próprios problemas sem recorrerem a ele.

Por outro lado, os tempos também haviam mudado. A ordem precária que ainda se mantinha na Terra acabou por ruir, e começaram as Perturbações. Não foram poucos os retóricos a proclamar que haviam sido os Outros os causadores daquilo tudo. Deparava-se uma situação demasiado confusa, a suscitar heresias. Coisas havia, diziam alguns, que melhor seria o homem não conhecer. Na opinião de Joelle — opinião resultante em grande parte de conversas com Dan Brodersen, que tinha uma maneira de ver muito sua —, aquilo era um disparate. Se algum milagre havia, consistia ele em que o equilíbrio se tinha mantido, sempre oscilante, até aí. E o fato da existência dos Outros deu bastante motivo para reflexão, permitindo que a insensatez não tivesse assolado o mundo inteiro. Fosse como fosse, era incontestável que, embora tivessem morrido milhões de homens e tivessem desaparecido nações inteiras, o mundo sobrevivia. A civilização sobrevivia em mais zonas do que aquelas donde tinha desaparecido. Os empreendimentos no espaço sobreviviam. Não havia dissonâncias importantes para além da Terra, nem na indústria, nem na exploração, nem ainda no povoamento de Deméter.

Um esforço houve que foi considerado mais importante até do que o envio de sondas não tripuladas para as estrelas próximas. Foi o lançamento de tais aparelhos através das passagens, seguindo rotas arbitrárias, programados para regressarem donde quer que fossem, tomando igualmente rotas arbitrárias. Nenhum regressou.

Lentamente, o gênero humano parecia reajustar-se à nova situação. Em Lima foi assinada a Convenção.

(O gabinete de um famoso astrofísico ainda vivo.)
ROSSET

... a teoria que temos estado a desenvolver diz que uma máquina T tem um campo de ação limitado. Estimamo-lo em quinhentos anos-luz no espaço, talvez mais, talvez menos. A questão é que, se quisermos vencer uma distância maior do que esta, teremos de passar por uma máquina intermédia, a funcionar como relê.

Até agora não tivemos sorte, assim tão longe, com as nossas sondas. Mas deixem-nos prosseguir o tempo necessário, e as próprias estatísticas garantem que por fim uma dessas sondas há-de acabar por encontrar o caminho do regresso, trazendo um registro das rotas que seguiu. Deixemos que isso aconteça certo número de vezes, e teremos por fim os elementos de que precisamos para chegar a essas muitas estrelas. Podemos também começar a ter uma ligeira indicação dos princípios fundamentais, de como estabelecer urna rota por nós mesmos.

Isto acontecerá, especialmente se encontrarmos outra raça que esteja também a fazer as mesmas tentativas. Podemos então comparar notas ...


A apresentação findou neste ponto, vinte e tal anos atrás. Joelle perguntava a si própria como é que aquela gravação tinha chegado ali. Talvez um conservador meticuloso tivesse decidido que, uma vez considerada a Roda de San Jerónimo um monumento, se deviam guardar também testemunhos históricos no seu banco de dados.

Durante um minuto Joelle imaginou outra data, anterior, começando quatro anos atrás pelo tempo de Sol ou de Febo, doze anos atrás na sua própria vida.



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