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Vista, tirada da nave de vigilância na máquina febiana, de um aparelho desconhecido, subitamente a chegar. Comprido, com a frente achatada, denteado, envolvido numa bruma azul, percebia-se que não era obviamente construído pelo homem. Não há qualquer resposta aos sinais, a altas acelerações o aparelho deixa uma marca entre as balizas, marca essa de que os oficiais de bordo da nave de vigilância tomam nota com todo o cuidado, até que o aparelho acaba por desaparecer.

Cenas de fúria pública e imagens de um debate secreto depois de a notícia ter rebentado. As entidades oficiais atingiram o desespero por causa do elevado custo das sondas-robôs e não mandaram nenhuma durante bastante tempo. Chegou-se à decisão de também não mandar nenhuma agora, mas, em vez disso, lançar uma nave tripulada, que seguiria a mesma rota. Não haveriam de faltar voluntários para a tripulação.

A Emissário lá vai através da passagem desconhecida e acaba por desaparecer.

Espantosamente cedo, a Emissário volta.

Entrevista com uma famosa holoteta, que explica o que aprendeu dos Betanos. Eles têm estado a usar há três séculos aquele aparelho de transporte, que descobriram ao cabo de longas experiências, mas servem-se dele com pouca freqüência de ou para uma parte da galáxia que raras vezes têm ocasião de visitar. Nenhum planeta no sistema os atrai como local para aí estabelecerem uma colônia e, no que respeita a investigação científica, têm mais em curso do que podem utilizar. Precipitadamente de regresso, habituada a empregar neutrinos de preferência a rádio ou a laser para comunicações no espaço, a tripulação deste aparelho não deu pela presença dos recém--chegados.

Esta seqüência difere das anteriores em que a famosa holoteta não se está a dirigir a todo o gênero humano, mas àqueles poucos homens que a mantêm cativa.)

— Bem — perguntou Joelle —, compreende agora melhor?

— Não — confessou Fidélio.

— Nem eu — disse Joelle.

IX
As palavras que Lis pronunciou fizeram Brodersen olhar em torno de si. 0 único telefone público em Novy Mir estava instalado numa parede da sua estalagem. No entanto, a conversa parecia não ter despertado o interesse de ninguém. A luz do Sol entrava pelas janelas e por uma porta aberta ao mesmo tempo que o cheiro a terra e a vegetação, para dar um tom de ícone àquela sombria sala e a iluminar um pouco. Um par já de certa idade bebericava chá e jogava xadrez. Um homem bastante mais novo estava sentado junto do samovar, embora bebesse vodca, e falava despreocupadamente com o dono do estabelecimento. O olhar dos dois vagueava, mas prendia-se mais em Caitlín, sentada sozinha à mesa e que franzia a testa para aquilo que aqueles russos imaginavam ser cerveja. De qualquer modo, pouca gente por aqui sabe inglês, lembrou-se Brodersen. Talvez ninguém.

— Muito bem! — e voltou-se de novo para o écran. — Como vão as coisas por aí, minha querida?

Por um instante, ao ver-lhe o rosto e os sinais de cansaço, sentiu quanto estavam separados. A distância física não era lá muita. Mas não ousava aproximar-se dela, nem ela dele, a ponto de se poderem tocar. Nem mesmo se podiam falar um ao outro diretamente. Dali a voz de Brodersen ia para a cabana no lago Ártemis, onde era misturada e retransmitida para casa, e em casa a aparelhagem de Lis lançava a conversa já gravada entre “ Abner Croft” e o marido — o que devia ajudar a convencer o pessoal de escuta de Hancock de que ele estava em casa — e reconstruía a mensagem. A resposta de Lis devia seguir as mesmas vias.

— Disse eu que apenas cinco dos membros da tripulação estão dispostos a partir — e Lis deu o nome deles. — Os restantes prometeram guardar segredo, e estou convencida de que assim farão. Mas, olha bem, a maneira como Ram Das Gupta pôs a questão foi que tem família, que tem de pensar nela, e que esta aventura não é apenas desesperada mas poderia, além disso, ser ilegal.

— Essa agora! — rosnou Brodersen. — Mas eles estavam prontos a atravessar a passagem, para onde quer que a Emissário fosse, se conseguíssemos ter ordem de marcha e indicação sobre o trajeto a seguir. E sabe Deus o que encontraríamos do lado de lá, à chegada!

— Não é a mesma coisa. Quanto a mim, compreende o que ele sente. A União representa muito. Desafiá-la é uma espécie de blasfêmia.

— Os culpados são aqueles que a estão a desafiar, que a estão a subverter.

— Talvez estejas enganado, meu querido. E, estejas ou não, se tentares uma coisa destas e falhares ...

Lis esforçou-se por conter a dor nas suas palavras e nos seus gestos. E continuou:

— Orgulhar-me-ei sempre muito de ti, sabes isso. Mas talvez não consiga convencer a Bárbara e o Mike de que o papá não morreu como criminoso.

Brodersen deu um murro na parede. Os que se encontravam na sala olharam para ele com espanto. Respirou fundo e sentiu a garganta descontrair-se-lhe um pouco.

— Já falamos disto uma noite destas — lembrou ele. — De novo te digo: não é minha intenção cometer imprudências.

Brodersen forçou um sorriso.

— Teria eu agüentado até agora se fosse temerário?

— Desculpa, desculpa — e Lis teve um pestanejar carregado. — Não posso deixar de me sentir preocupada por causa de ti. Se pudesse ir contigo, daria tantos anos da minha vida como àqueles que possa ter de viver sem ti.

Impressionado, Brodersen só pôde murmurar:

— Então, querida? Coragem! .

Mostrando apenas a cabeça de Lis, o écran dizia-lhe no entanto que todo o corpo se revigorava um pouco.

— O apoio que te dou é a minha maneira de te acompanhar — observou ela. — Faz o que tens a fazer, Elisabet Leino, e fá-lo bem!

— Olha, repara, eu nunca quis dizer...

— Sejamos objetivos — atalhou ela com vivacidade. — Podes arranjar--te com cinco tripulantes?

Brodersen recolheu-se à sua espécie de calma:

— No que respeita a irmos com a Chinook ou com a Williwaw, claro, não há problema. Além disso, lembra-te, a primeira coisa que tenciono fazer é contactar o Señor. É muito provável que ele possa tomar o caso inteiramente a seu cargo a partir daí. Talvez tudo venha a ser extremamente simples e fácil.

— E, se assim for, quando regressares haveremos de fazer uma festarola entre nós.

— Isso mesmo!

O sorriso perpassou entre eles e dissipou-se.

— Muito bem — retomou Brodersen —, conseguimos o essencial, de uma tripulação. E quanto a licença para sairmos?

— Estou a tratar disso. Brodersen franziu as sobrancelhas:

— Hum! Quanto calculas tu que demore ainda? A Hancock não tardará a ter as suas suspeitas de que eu me pus a andar.

— Estou a ser o mais discreta possível, para que ela não se lembre de nós. Por outro lado, tenho na mão o Barry Two Eagles.

Como comissário do Conselho de Controlo Astronáutico do Sistema Febiano, Barry Two Eagles tinha poderes sobre o tráfego no espaço.

— A título confidencial, compreendes — continuou ela: — Jantamos ontem à noite, en tête-à-tête, na Apollo House. Ele vinha com o coração a bater por mim, tu sabes ... Ou não sabias? — Lis riu. — Não és assim tão depravado como te proclamas, Dan, meu querido.

— Ah, sim, ele é bom camarada! — volveu Brodersen com uma relutância que o surpreendeu.

— E sou amiga dele. Não gosto de me servir da nossa amizade, pois ele nada tirará satisfacção nenhuma daí, embora não o saiba ainda. De qualquer maneira, nada fará de ilegal, é evidente. Mas estava dentro das suas atribuições dar luz verde à Chinook para Sol, sem necessidade de falar à governadora. Especialmente uma vez que ele não sabe da tua situação de detido em casa.

Expliquei-lhe que te encontravas muito ocupado mas que tiveste conhecimento de que a Aventureiros precisa com urgência de fretar a tua nave e que me pediste para eu tratar do assunto. Para ele isto tem todo o aspeto de uma decisão típica, imprevista, Brodersen-Leino.

“Expliquei-lhe, além disso, que a Aurie Hancock vetaria a saída se soubesse qualquer coisa de antemão, pois tanto ela como o marido têm interesses numa empresa rival. Haverias de te deliciar com a história que lhe desfiei. Ele sentiu-se chocado, quis me convencer de que a Hancock não era assim tão venal, mas eu insisti para que me prometesse guardar segredo, e depois falei-lhe de uma lembrança nossa. Ele está a pensar no assunto.

— O quê? Barry não se deixa corromper com luvas.

— Não são exatamente luvas. Mas quando eu observei que, se tudo corresse bem, estávamos dispostos a contribuir com um importante donativo para as investigações sobre os espasmos clónicos do tecido cerebral...

Lis viu o homem contrair-se e contraiu-se também. Two Eagles tinha mandado a um médico desligar a máquina que mantinha em vida o que restava do seu filho, depois de um acidente que lhe fraturara o crânio.

— Dan, haveremos de conseguir. Aconteça o que acontecer!

— Tenho a certeza que sim. Gostava, porém, que não tivesses sido obrigada a uma coisa destas.

— E eu também. Mas teve de sei-. Após um momento, Brodersen perguntou:

— Bem, e esperas que ele concorde?

— E quase certo. Deve vir ver-me esta tarde.

— E quanto a virem-me buscar?

— Também falei do assunto. Disse-lhe que vários dos tripulantes da Chinook tinham ainda assuntos da última hora a tratar e, dada a necessidade de sermos discretos, não podiam ir todos juntos, depois, para a nave. Reunir-se-iam num sítio onde a Williwaw os pudesse ir buscar, se o homem passar a autorização.

Lis fez uma pausa e perguntou:

— Onde deve ser? Brodersen já tinha pensado nisso.

— Na margem leste do lago Spearhorn. Bastante dentro da floresta, deves lembrar-te. Há ali uma espécie de estrada. Fácil local de aterragem. Está bem?

— Muito bem — e Lis lançou um olhar ao relógio. — Aguarda ainda. Brodersen apercebeu-se de que ela estava a tocar num teclado.

— Pronto — retomou Lis. —Era a nossa gravação que estava a chegarão fim. Pus o prolongamento.

— És uma jóia — e ficou com pena de não lhe poder dar um beijo. — Uma jóia, minha querida!

— Não me parece que tenhamos ainda muito de que falar — disse ela com ar triste. — Se a nave não chegar esta noite, melhor será procurares um telefone e falares comigo amanhã de manhã.

— Naturalmente, querida.

— Os pequenos estão bem. e apenas sentem a tua falta. A Bárbara está a dar uma soneca. Eu podia acordá-la.

— Não, não faças isso.

— Disse-me que te desse um beijo e do orosauro dos Pés Revirados.

— Um beijo também para ela e ... e ...

Hesitaram ambos durante um minuto ou dois, até que Brodersen explodiu:

— Diacho! Isto não nos leva a nada, não é verdade?

— Não, a nada. Melhor é tu andares. O lago é ainda longe de Novy Mir.

— Tens razão, Lis. És adorável.

— Adeus, querido.

Ela manobrou os botões, para prolongar a despedida:

— Adeus. Hasta Ia vista. Mas não te preocupes se demorares por lá algum tempo. Eu cá estou!

O écran ficou branco. Não muito à vontade, Brodersen procurou a mesa de Caitlín. A cadeira rangeu com o peso dele. Caitlín aproximou-se para lhe pegar na mão.

— Tudo bem, meu amor? — perguntou ela, em voz baixa.

— Parece que sim — murmurou Brodersen, fixando os olhos no chão.

— E, no fundo, tudo vai mal. Aquela pobre senhora! Foi uma decisão acertada que tomaste ao escolhê-la, Dan. Não há dúvida.

Brodersen contemplou os olhos verdes de Caitlín e esboçou um sorriso:

— Sou bom juiz em mulheres. Bebe e vamo-nos daqui.

— Terei muita satisfacção em ir contigo para qualquer lado, meu bem, mas... — e fez uma carantonha — tenho de beber tudo?

— Não, deixa lá. Fica para os pobres.

— O quê, e não vai isso desencadear uma revolução?

Um pouco mais animado, Brodersen fez um gesto ao dono do estabelecimento — Adiós! — e saiu com Caitlín. Febo estava a aproximar-se do pico, a maior parte dos colonos estavam fora, nos seus campos comunitários de semeadura. As casas estendiam-se umas ao lado das outras ao longo da única estrada poeirenta. O madeiramento dessas casas desprendia um cheiro a pez, ao calor tépido, embora brilhantes imagens adornassem as empenas. Um gato vagueava por ali. Uma babushka estava sentada na sua varanda a fazer renda, enquanto olhava por duas crianças a brincar e cujos gritos eram quase o único som a quebrar o silêncio. Mais além, o vale estendia-se, verde, até às montanhas que o fechavam quase a pique. Dir-se-ia uma cena tirada de um livro de contos infantis, pensou Brodersen.

Mas as naves espaciais acionadas pelo processo de fusão tinham trazido para ali os seus criadores. Agroquímicos orientaram a conversão do solo até nele florescerem plantas da Terra, modificadas pelos genetistas. A tecnologia ecológica, trabalhando sobretudo a nível microbiano, contivera a vida própria do planeta, vida que de outro modo irromperia de novo e reconquistaria todo o terreno. De noite, as constelações tinham nomes como Enéias e Grifo, e só com um poderoso telescópio se podia descobrir a estrela que se chamava Sol.

— Aonde vamos nós? — perguntou Caillín, abrindo a campânula do carro.

— Vamo-nos encontrar com a nave que me há de levar — disse Brodersen. — Queres fazer o favor dc entregar depois este carro à agência que mo alugou?

— O quê? Não tem autopiloto que possas regular para isso?

— Tem, mas será, tu a regressar nele, de qualquer maneira.

— Que queres dizer?

— Espera um pouco, não pensas que...

— Entra — disse ela. — Guia enquanto discutimos o assunto de modo que tudo esteja acabado quando chegarmos, podendo-nos então ocupar de passatempos mais divertidos.

— Pegeen — suspirou Brodersen, desfazendo-se do sentimento dc culpa, pois não lhe invejaria os motivos dc consolação que ele pudesse alcançar — tens idéias fixas.

— Não há dúvida — reconheceu ela. — E não pensas que é uma bela idéia?


A Chinook deslizava em torno de Deméter como uma lua que estivesse muito próxima. Daí a pouco seria como um cometa.

Construída segundo o modelo da Emissário, pois se destinava ao mesmo fim se os deuses fossem propícios a Brodersen. Era uma esfera com 200 m de diâmetro, a cintilar como um espelho. (O seu equipamento motor podia facilmente mantê-la aquecida. Desembaraçar-se do calor era um problema que por vezes se apresentava.) A cauda, o tubo do reator traçava, com a carcaça, um belo desenho em forma de tulipa. A meio da nave estavam instalados os motores auxiliares, tipo de foguetão, de funcionamento químico, dispostos como fusos. À frente encontravam-se as instalações dc comando, as torres, os aposentos para a tripulação, e alguns discos eletrônicos sobressaíam da fuselagem. No pólo oposto ao comando principal, dois guindastes ladeavam uma grande porra circular.

A tripulação estava a bordo. Tinha sido mais fácil do que Leino indicara a Two Eagles. O pessoal havia tomado o ferry regular para Perséfone passando despercebido entre os demais passageiros. No porto alugaram uma nave particular, cujo proprietário-piloto tomara primeiro o rumo de Erion e depois, em vez disso, os levou à outra nave. O tráfego inter-satélites não era controlado com rigor e muitos eram os astronautas dispostos a passarem por cima de uma ou outra prescrição se isso fizesse jeito a um camarada.

Ir buscar o comandante sem dar nas vistas era, porém, problema mais serio.

Foi dada ordem. A porta abriu-se. Um tapete rolante lançou a Williwaw para fora até meio. Os guindastes seguraram a nave. puxaram por ela, fizeram-na deslizar de modo a não tocar na nave-mãe. No seu tamanho, com 75 m de comprido, fazia lembrar um torpedo, planos de deriva atrás, asas retráteis, botaló lanceolado a projetar-se da frente.

Esguichavam dela gases demasiado quentes para serem visíveis. Os guindastes deixaram-na partir, e ela acelerou. Uma parte da água condensou-se quilômetros atrás, formando uma nuvem que ficou a pairar como um espetro, branca, antes de se dissipar. Era um sistema ineficiente comparado com o acionamento por plasma, mas podia suportar a dura passagem por uma atmosfera. Dado todo o seu tamanho e as inimagináveis energias que o seu motor produzia e canalizava, a Chinook era demasiado frágil para aquilo, ou mesmo para pousar em qualquer lado.

Em obediência a um plano de vôo oficialmente aprovado, a Williwaw passou algumas horas a fletir para o planeta antes de atingir as proximidades da sua estratosfera. Muita velocidade restava ainda a dissipar. Lentamente, a nave deixou perdê-la. As curtas asas estenderam-se então. Os mecanismos de propulsão ficaram silenciosos: as válvulas desligaram-nos. Durante algum tempo o piloto e o seu computador deixaram a nave planar. Por fim ela atingiu um nível em que os motores de propulsão nas asas podiam entrarem funcionamento. Imprimiu-se-lhes aceleração. Um gemido crescente encheu a cabina. Ainda a desacelerar fortemente, a Williwaw era agora um avião. Transmissores ópticos de estados sólidos revelaram ao piloto um mar de nuvens iluminadas pela luz solar, muito e muito abaixo. Tinha ainda de dar a volta a metade do globo para pousar.
As luas de Deméter circulam nas suas órbitas a mais velocidade do que a Lua da Terra. Naquela noite, Erion não aparecia e Perséfone só se levantaria quase ao alvorecer. Via-se assim maior número de estrelas do que habitualmente, mergulhadas numa obscuridade azul-violeta. Tinha passado a hora dos pirilampos e das coristas. Por toda a parte reinava a quietude. Cercado por massas sombrias de floresta, o lago resplandecia cor de zibelina. Pelo meio dele, Zeus desenhava uma perfeita clareira. Porque o vale que o envolvia ficava muito menos alto do que a gruta, espalhava-se um calor moderado, levantando fantasmas de nevoeiro, com um agradável aroma que vinha dos girassóis por entre o lódix do descampado em que Brodersen e Caitlín estavam sentados.

Brodersen pôs-se a andar de um lado para o outro, por cima de um relvado macio. Estava a espalhar-se a umidade.

— Vê bem, Pegeen — disse Brodersen —, não podes ir conosco, e é tudo.

No fundo de si mesmo, sentia que aquele tom categórico de voz profanava a paz que os rodeava.

Caitlín sentou-se, as pernas cruzadas, apoiou-se contra ele, despenteou-lhe o cabelo, mordiscou-lhe a orelha.

— Gosto muito de ti quando és firme — murmurou ela. — Podes tomar isto no sentido que mais te agrade.

— É ridículo! Quantas, quantas vezes tenho eu de repetir a mesma coisa? Tu não estás preparada para ...

— Mas prometeste-me que me ensinavas. É fácil de aprender, e não há nada que iguale as lições práticas.

— Falemos a sério, está bem? Eu referia-me a uma pequena viagem, a uma viagem de recreio, a Afrodite ou Ares quando muito.

Caitlín assentou a mão para nela repousar o peso do corpo. O antebraço, o quadril e a coxa continuavam a fazer pressão com suavidade sobre Brodersen. Este sentia-lhe a respiração contra a sua face à medida que o tom daquela voz perdia a alacridade.

— Fica combinado, e a sério que eu vou, meu bem-amado. Confessaste í que não tens contramestre a bordo e, o que é pior, que não tens médico. Porque

não posso eu fazer o trabalho dos dois? Hei-de deixar-te partir para o perigo sem mim, quando te posso ajudar? Pensa também na tua tripulação, capitão

Brodersen. Ir-lhe-ás porventura negar aquilo que pode salvar uma vida, e isso apenas para não teres de te preocupar comigo?

— Mas a viagem não será perigosa.

— Nesse caso, porque me hás-de recusar a experiência? Sabes perfeitamente que as naves de emigrantes não passam de casernas voadoras. Tenha mais a noção de um universo à minha volta aqui, ou quando estou a ver uma reportagem sobre o espaço, do que quando viajei a bordo da Isabella.

— Olha, não vamos falar do que irá acontecer. Estamos a aproximar-nos muito da borrasca e ...

— E a tua amante não deve estar a teu lado, não é? Daniel, Daniel, tens de reconhecer que eu iria contigo se tivesse mais qualidades.

— Não digas uma coisa dessas, Pegeen! — e fez um movimento para a puxar ainda mais contra si.

— Claro — acrescentou ela com uma ponta de malícia —, se receias escândalo, eu posso guardar as aparências contigo. Não há dúvida: qualquer parceiro a bordo se encarregaria de me consolar.

— E se acabasses com isso, minha tonta?

Brodersen sabia que era a última escaramuça de uma batalha que Caitlín tinha ganhado com as suas armas muito especiais, pouco depois de eles terem chegado àquele local.

— Está bem, vais.

Aquela rendição fê-la rejubilar. Caitlín selou a vitória esperando que Brodersen a beijasse — trinta segundos? —, embora imediatamente depois ninguém soubesse ao certo qual havia perdido.

Ficaram- se por ali, poi s a nave podia surgir de um momento para o outro, e sentaram-se um pouco deixando serenar a alma. Daí a nada Caitlín levantou-se:

— Vou fazer as minhas despedidas — disse ela.

Brodersen viu-a avançar no crepúsculo. Transformou-se numa sombra um pouco irreal, com as cores da Via Láctea, a deslizar num prado. Caitlín mergulhou uma das mãos no lago e bebeu. Colheu uma pétala de girassol e esmagou-a amorosamente entre os lábios e os dentes. Enlaçou um arbusto do tamanho de um homem e apertou os ramos contra si, enterrando a cara pela folhagem dentro... Por fim voltou para o pé de Brodersen.

— Procuras realmente fazer parte de tudo isto, não é verdade? — perguntou ele, quase num murmúrio.

— Não. Eu faço parte.

A mão de Caitlín traçou um arco das estrelas até à água e através da floresta.

— E tu também, Dan. Participamos de tudo. Porque não podem as pessoas sentir isso?

— Porque não podemos ser diferentes, suponho. Disseste qualquer coisa uma vez a respeito de termos talvez sangue de fada. Pensei que fosse mera figura de retórica, da tua parte. Esta noite, nem sei.

Caitlín olhava fixamente para o vazio, diante dela.

— E eu também não. Surpreende-me o meu próprio eu.

— Pensas isso? Eu quase podia acreditar, velho agnóstico que sou.

— Ah, não! Não te dei nenhuma água milagrosa. Nem mesmo a Yeats lhe tolero a metafísica.

Caitlín olhou para o firmamento e continuou:

— Na verdade, este é um estranho cosmos. Mais estranho do que podemos imaginar. Não é assim, meu bem?

Ele fez que sim com a cabeça e discorreu:

— Só a extensão dele! Tentei e voltei a tentar imaginar um ano-luz, um simples ano-luz, mas não consigo. Depois procurei imaginar a pequenez do átomo, e não consigo também. Mecânica ondulatória. Radiação de fundo que ficou do Princípio. Expansão contínua — para onde? Buracos negros. Quasares. Máquinas T. Os Outros. Sim, tudo isso.

Após um silêncio, prosseguiu, tocando nela ao de leve.

— Julgo, no entanto, que nos estávamos a aproximar de um mistério muito particular.

— Sim, é verdade. Era de uma história verdadeiramente estranha que minha mãe me contou, e minha mãe era católica praticante.

— Queres contá-la?

— Conto, mas olha, nem sei como começar. Porque não é realmente um história. Não é qualquer coisa que tenha realmente acontecido, mas também não é nada de inventado. Não, tudo está na maneira e no tempo de a contar.; de quem a contou. Gostavas, na verdade, de a ouvir?

Brodersen estreitou o braço em torno dela:

— Porque me perguntas isso?

— Obrigada, meu amorzinho — respondeu Caitlín. — Deves primei” saber que minha mãe era de Lahinch, em County Clare. É uma das regiões da Irlanda que empobreceram durante as Perturbações, e empobreceram a tal ponto que no fim só lá ficaram uns pequenos rendeiros, e muitos deles quase analfabetos. Acreditavam de novo ali no Side, se é que alguma vez tinham deixado de acreditar, embora eu suponha que Lady Gregory não reconheceria as suas histórias. E, ouvindo falar dos Outros, porque é que sob as estrelas, no Inverno, não haviam de acreditar?

Lá fora, no lago, o enorme vulto negro de um monstro marinho emergia à superfície, lançava o seu uivo horrendo e mergulhava para as profundezas.



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