Corpos de barro: pessoas e objetos em interação



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Associação Brasileira de Antropologia

Prêmio Claude Lévi-Strauss – Modalidade B (artigo)

Marcus Venitius Bonato Filho

Universidade Federal Fluminense UFF / Pólo Universitário de Rio das Ostras PURO / Departamento de Artes e Estudos Culturais RAE / Produção Cultural



Corpos de barro: pessoas e objetos em interação

Orientador: Dr. Gilmar Rocha



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(Marcus Bonato)



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(Dr. Gilmar Rocha)



Corpos de barro: pessoas e objetos em interação

Resumo:

Este artigo tem como objetivo investigar e compreender a relação entre o corpo, a natureza e o artesanato em todo o processo que envolve a fabricação do artesanato na região de Oriximiná/PA. Para tanto, foi realizado um trabalho de campo na comunidade quilombola do Lago do Moura, localizada à margem do Rio Trombetas. Nos moldes de uma antropologia compartilhada, busquei dar voz às reflexões elaboradas pelos próprios sujeitos da pesquisa, na tentativa de compreender como eles pensam a relação entre seu próprio corpo, a natureza que os rodeia e o artesanato que fazem. O corpo, pensado como objeto relacionado à natureza e ao meio em que está inserido, carrega valores simbólicos responsáveis pela construção cultural de um determinado povo e de sua identidade. Já a peça produzida, o artefato, torna-se mediadora entre o corpo e a natureza, fundindo essas dimensões e, por isso, é de fundamental importância para se pensar a tríade corpo-natureza-artesanato ou uma cosmologia quilombola, ou, até mesmo, uma ontologia quilombola.



Palavras-chave: Universo amazônico; Práticas sociais e simbólicas; Artesanato tradicional local; Corporalidade; Natureza.
Introdução:

O homem é feito do pó e do pó ele retorna, né? Ele nasce do pó e retorna pro pó da terra; então aquilo faz parte da vida da gente, tem uma importância muito grande na incorporação do corpo e do artesanato. Então, quando se faz uma peça, com certeza, eu sei que ali tem metade de mim naquela peça, porque é a terra, todos os animais têm vida. As árvores têm vida, você corta uma árvore ela fica escorrendo aquele leite ali, aquilo é o sangue dela, ela tem vida, igualmente a gente. Ninguém pensa por que somos humanos, nós fala, respira, a árvore também respira.

Sr. José Lopes

Qual a importância da cultura do barro? Ou ainda, nessa mesma direção, quais elementos permitem manter a cultura do barro frente às mudanças do mundo contemporâneo? Qual o papel do corpo nessa prática? Quais implicações essa cultura do barro possui para mantê-los conectados à natureza? Que valor simbólico uma peça de barro pode carregar? Estas foram apenas questões iniciais a partir das quais comecei minha investigação sobre a relação entre o corpo, a natureza e o artesanato em todo o processo que envolve a fabricação do artesanato na região de Oriximiná/PA. Em meio à floresta amazônica, em uma comunidade remanescente de quilombolas, fui instigado, por reflexões como a do Sr. José Lopes, descrita acima; sua esposa, Dª Maria do Carmo Colé Viana; e o filho do casal, Rivaldo dos Santos, mais conhecido como “Babado”, pessoas com as quais, durante o trabalho de campo, compartilhei minhas questões e hipóteses de pesquisa. Com base nos relatos desta família – a qual apresentarei mais adiante –, a partir de suas próprias experiências e entendimento de mundo, intercalado com abordagens antropológicas e sociológicas, foram tecidas considerações sobre suas próprias práticas culturais, nesse caso, a cultura do barro. Esta estreita relação entre os campos do ser/fazer e o do pensar sobre, “[...] bombardeado por intensidades específicas (chamemo-las de afetos1)” (FAVRET-SAADA, 2005, p. 159), permite refletir sobre a experiência etnográfica compartilhada2, que desencadeou no percurso metodológico desta pesquisa.

Esse percurso foi o de buscar dar forma a um rico material etnográfico construído ao longo do tempo, a partir de reflexões que elaboramos juntos e de trocas simbólicas (comunicacionais, afetivas, e outras), que excedem o tempo cronológico da minha estada em suas casas. Para consecução da pesquisa, procurei realizar um trabalho em que mapear campos, selecionar informantes, estabelecer relações, manter um diário, transcrever textos e, assim por diante, fossem questões imprescindíveis para uma prática etnográfica. O trabalho de campo consistiu em perceber o que está por detrás do objeto investigado e, para isso, a observação precisou ser detalhada e minuciosa, como sugere Geertz (1973), ao propor a “Descrição Densa”.
Conhecendo o Universo Amazônico

Tudo começou quando ainda estava no primeiro período da graduação em Produção Cultural (em dezembro de 2009), quando tive oportunidade de participar do Programa de Extensão Implicações Socioeducacionais do Artesanato em Oriximiná/PA, coordenado pela professora Dra. Adriana Russi (PURO/UFF), que tinha como um dos objetivos mapear e inventariar in locus o artesanato tradicional produzido pelas comunidades quilombolas, pelos grupos indígenas e pelas populações ribeirinhas. Este programa possibilitou-me três idas ao município de Oriximiná/PA (janeiro de 2010, julho de 2010 e julho/agosto de 2011), onde pude conhecer e desenvolver a pesquisa de extensão em diferentes comunidades quilombolas, todas localizadas às margens do rio Trombetas.

Por meio do mapeamento do artesanato tradicional local foi possível perceber que os vários povos de diferentes matrizes, espalhados pela floresta amazônica no Brasil, compartilham uma maneira singular e tradicional de viver, formando um grande e complexo acervo vivo. Tal complexo forma um patrimônio natural, cultural e humano que faz desse território um lugar privilegiado que, desde então, vem despertando minha atenção e ensejo de continuar pesquisando esse universo mágico que conhecemos como Amazônia.

A oportunidade de estar em contato com uma comunidade quilombola – que ainda mantém viva uma forma outra de ser, estar e se relacionar com o mundo –, em um “outro” Brasil, distinto e distante deste que vivemos nas cidades, propõe-nos, de imediato, uma transformação “cosmocorpórea”, ou seja, uma postura corporal que em sua flexibilidade e disponibilidade, dialogue e se comunique com o meio. A tarefa de “descolar-se” até o outro e, a partir de então, pensar outras corporalidades, só foi, e acredito ser possível, por uma disponibilidade e vontade mútua entre o pesquisador e os sujeitos pesquisados. Não podemos deixar de ressaltar que, antes de falarmos de um pesquisador e/ou sujeito de pesquisa, estamos falando de pessoas que, em contato com outros corpos, estabelecem relações sociais, políticas, psicológicas, estéticas etc., capazes de criar e recriar diferentes formas de se relacionar que se adaptam num determinado tempo e espaço. Portanto, nesse estudo “[...] o corpo não é tido por simples suporte de identidades e papéis sociais, mas sim como instrumento, atividade, que articula significações sociais e cosmológicas; o corpo é uma matriz de símbolos e um objeto de pensamento” (SEEGER; DA MATTA; VIVEIROS DE CASTRO, 1979, p. 11)3.

Nesse sentido, como desdobramento e aprofundamento de inquietações que foram surgindo a partir deste projeto e de experiências na iniciação à pesquisa em que participei durante minha trajetória acadêmica, propus um trabalho de conclusão de curso4, aos moldes antropológicos, no qual a etnografia se fez necessária. Para tanto, realizei um trabalho de campo, na comunidade quilombola Lago do Moura, no mês de setembro de 2013, entre os dias 13/09/2013 e 27/09/20135. Mesmo tendo clareza de que existem outras famílias de artesãos que praticam a cultura do barro naquele local, priorizei o diálogo com uma única família, a família Colé Viana, o que se justifica pela possibilidade de obter um aprofundamento analítico das questões que permeiam esta pesquisa.

Sendo assim, neste trabalho, meu esforço é o de, como em um quebra-cabeça, estabelecer uma articulação entre o material produzido pelos próprios sujeitos pesquisados e as abordagens antropológicas que fundamentam uma reflexão sobre o corpo, a natureza e o artesanato.


Da Princesa do Trombetas ao Lago do Moura: as escolhas e os caminhos metodológicos da pesquisa.

Conhecida como princesa do Trombetas, a cidade de Oriximiná está situada no interior do Estado do Pará, à margem do rio Trombetas, um dos afluentes do rio Amazonas, na mesorregião do Baixo Amazonas. Sua demarcação territorial abrange uma área de 107.603.435/km² (IBGE, 2010) e está subdividida em quatorze microrregiões que se destacam pelo rico patrimônio natural, entre eles: parte do Parque Nacional Indígena de Tumucumaque, parte da Reserva Indígena Trombetas-Mapuera, parte da Reserva Indígena Nhamundá-Mapuera e a Reserva Biológica do Trombetas, entre outros. O rio Trombetas percorre o município de norte a sul e deságua no rio Amazonas, exercendo grande importância na vida das pessoas e no desenvolvimento econômico da região, por ser o principal meio de transporte e de deslocamento, tanto de pessoas quanto de mercadorias. Em suas terras, habitam povos indígenas, comunidades remanescentes de quilombos, ribeirinhos e moradores de terra firme, além do núcleo urbano, concentrado em Oriximiná e na vila de Porto Trombetas6.

A comunidade Lago do Moura, está localizada à margem do rio Trombetas que, em sua parte alta, forma um grande lago conhecido como Lago do Moura. Possui aproximadamente 130 (cento e trinta) famílias espalhadas em área de várzea. Sua área territorial está sobreposta à Reserva Biológica do Rio Trombetas, Flona (Floresta Nacional), Saracá-Taquera e Floresta Estadual Trombetas. É uma área composta por uma grande riqueza natural de igarapés, castanhais e ilhas, além da diversidade da flora e da fauna. Sua proximidade com a vila de Porto Trombetas, local onde a Mineração Rio do Norte/MRS está instalada, vem acarretando mudanças significativas na forma de ser e viver desses povos amazônicos. A intensificação das atividades e a expansão da área de exploração em territórios quilombolas e indígenas vem gerando constantes conflitos pelo direito e preservação da terra. Para ganharem “voz” e força política, em 1989 fundaram a Associação dos Remanescentes Quilombolas do Município de Oriximiná (ARQMO), atualmente representada por 36 comunidades que comungam um mesmo querer: defender e lutar pelo direito de titulação da terra e reconhecimento da cultura de seu povo.

A escolha da comunidade do Moura levou em consideração algumas questões que foram imprescindíveis para realização da pesquisa, como: o fato de muitos de seus moradores manterem uma forma tradicional de se relacionarem com o mundo, na qual a natureza é chamada de “mãe natureza”, aquela que gera e dá a vida, que cuida e que alimenta; a relação de confiança e proximidade estabelecida, em outras ocasiões, entre o pesquisador e os sujeitos pesquisados, o que certamente contribuiu não só para um maior aprofundamento analítico das questões levantadas, mas, em especial, para estabelecer verdadeiras trocas simbólicas; e, a proximidade da comunidade com a vila de Porto Trombetas, algo que facilitou o meu acesso e deslocamento até a comunidade, uma vez que todo aceso nessa região se dá, basicamente, por meio da navegação. Vivem em um grande pedaço de terra, cercado pelos igarapés e pela floresta. Ali praticam a pesca, a extração da castanha, o roçado e o trabalho oriundo da cultura do barro – maneira que encontraram para ganhar alguma “prata” (categoria nativa: é como se referem a dinheiro) – e que hoje os representa.

A prática do artesanato sempre esteve presente na vida da família Colé Viana. Quando ainda eram crianças, viam seus ancestrais fazendo potes, vasilhas, panelas e adornos de barro para uso cotidiano. Naquela época, o acesso a produtos industrializados era extremamente restrito. Seus principais meios de vida eram, e ainda são, aqueles ofertados a partir da relação com a natureza e da manipulação desta natureza, para eles “mãe natureza”, que, como um “corpo” em contato com seus próprios corpos, e a partir de trabalho (muitas vezes um sacrifício), uma matéria (corpo) pode ser transformado.

O Sr. Zé Lopes (58) é muito conhecido e respeitado na região e, como um “filho do rio” – maneira como se referem a quem é nascido e criado na região –, estabelece uma relação de parentesco com aqueles que povoam aquele universo. Atua como um líder e, na sua história de vida, carrega um saber singular, dada sua intrínseca relação com a natureza e constante contato com os mais velhos. Dª Maria (54), senhora de poucas palavras, porém precisas, trabalha há muito tempo com a cultura do barro. Já Babado, apesar de jovem (29), me contara que desde criança, acompanhava seu pai e seu avô nas mais diversas atividades. Com eles, aprendeu mais que uma prática cotidiana; compreendeu os segredos, os mistérios e os desafios para conviver “naquele mundão” (Babado).

Ao falarem sobre seu trabalho com a cultura do barro, esses personagens trazem vários aspectos que revelam uma relação única com a natureza. Eles demonstram, por exemplo, uma consciência não só ecológica e religiosa, mas, também, política, na medida em que sabem exatamente as consequências que sofrerão se agirem contrários à natureza. Esta assume em suas vidas um papel protagonista, por ser “[...] investida de forças e energias restauradoras do corpo, da alma e de virtudes éticas para a convivência social” (CARVALHO e STEIL, 2008 p. 291). Segundo Sr. José Lopes, “a vida do barro é a vida da gente, quem faz a vida dele, além da natureza, somos nós, também é cuidar é preservar é se incorporar naquilo e sentir que aquilo é a gente, que ele já sente que a gente é ele” (sic). Tais vidas se misturam, se alimentam e se completam e, parafraseando Mauss (2003), “[...] no fundo, tudo aqui se mistura, corpo, alma, sociedade” (p. 336). Suas vidas são mais que “extensão” da natureza: a natureza é condição de existência e sobrevivência. Assim, a “[...] sintonia com a natureza seria ativa, transcendente, cognitiva: em lugar de natural, seria, por assim dizer, sobrenatural” (VIVEIROS DE CASTRO, 2007, p. 01). Abaixo, Sr. José Lopes coloca a preocupação com a sustentabilidade do meio. Leiamos sua observação:

Então em referência ao respeito à natureza é você agradecer, é você saber usar, é você saber que aquele solo que você tá mexendo também tem uma vida. Aquilo também é uma vida. Não se pode degradar, fazer coisas que não pode, usar de maneiras incorretas. Que Deus deixou tudo no mundo e entregou ao homem, mas pro homem cuidar e não acabar, maltratar. Ninguém quer ser maltratado. Então se eu maltrato do local de onde eu trabalho por exemplo, meu barreiro, onde eu tiro o meu barro pra fazer minhas peças pra minha subsistência, se eu não sei usar eu tô prejudicando quem? Eu tô prejudicando a mim mesmo, porque quando eu for lá eu não vou ter barro de qualidade pra fazer minhas peça pra mim viver. Então eu tenho que preservar. Eu tando preservando a natureza eu tô preservando a minha pessoa. (Sr. José Lopes)

Estava claro que o exercício era pensar para além da função que um objeto – no caso, o artefato de barro – poderia exercer. Seria necessário pensar seu significado como sistema e meio simbólicos, ou seja, seus desdobramentos políticos, estéticos, sociais, econômicos, etc, o que ultrapassa a fronteira de algumas definições que o coloca na condição única e simplesmente de trabalho manual com fins utilitários e/ou de enfeites. Esses artesanatos podem ser vistos como objetos portadores de qualidades mágicas especiais que tecem toda uma forma social de ser, estar e se relacionar com o mundo (ROCHA, 2011). Como se pode perceber, em certo sentido, as observações dos sujeitos pesquisados, atualizam as de Marcel Mauss sobre o “espírito da coisa”, quer dizer, sobre as coisas serem mais que coisas, mais que objetos; elas são “pessoas”, têm vida, têm alma. Nesse caso, toma-se o Manual de etnografia, segundo o qual “[...] todo objecto deve ser estudado: 1º em si mesmo; 2º em relação às pessoas que se servem dele; 3º em relação à totalidade do sistema observado” (MAUSS apud ROCHA, 2011, p. 93).

Em paralelo a estas observações, tornava-se necessário o estudo do corpo, por este ser o canal central em que as subjetividades podem ser construídas, sentidas e reveladas. Algumas áreas do conhecimento, como as artes, a filosofia, a sociologia e, em especial, a antropologia, vêm contribuindo para que o corpo seja estudado não apenas como sinônimo de fisiologia ou de anatomia, mas, também, a partir da compreensão que envolve uma perspectiva cosmológica. A etnografia, ao adentrar em diferentes culturas, com outras “visões de mundo”, tem contribuído para se perceber o papel do corpo e suas inúmeras possibilidades de interpretações, o que o torna um objeto complexo de análise e reflexão. Mauss (2003), em seus estudos, já apontava para a importância de se realizar uma etnografia para compreender como diferentes sociedades “servem-se de seus corpos”. Nessa perspectiva, os estudos de Mauss revelam-se como preciosas formulações teóricas sobre o corpo como operador e receptor de sentidos e significados simbólicos no processo de construção da pessoa e de sua relação com o mundo.

Para o autor, o corpo é o “[...] primeiro e o mais natural instrumento do homem. O mais exatamente, sem falar de instrumento, o primeiro e mais natural objeto técnico, e ao mesmo tempo, o meio técnico do homem é seu corpo” (p. 217). Para ele, técnica não está restrita a algo mecânico e/ou tecnológico, pois implica uma prática, uma ação, que são apreendidas, transmitidas e ensinadas de acordo com a tradição, pois “[...] não há técnica e tampouco transmissão se não há tradição” (p. 217). Ao reforçar a noção de corpo como instrumento técnico do homem, o autor acaba por contribuir com uma nova forma de se pensar o significado do corpo. Ele é pensado como um canal de influências simbólicas, históricas e afetivas que permite pensar o homem como um ser total, o qual atribui sentidos a si mesmo e ao mundo e, portanto, que produz cultura.

Para Mauss, o ‘homem total’ é, antes de tudo, o homem concreto e, como tal, deve ser visto enquanto ser biológico, psíquico e sócio-histórico. Curiosamente, sua produção em torno d’As técnicas corporais, da Expressão obrigatória dos sentimentos e de Uma categoria do espírito humano – a noção de pessoa, a noção do ‘eu’, de certa forma, parece sintetizar essa tridimensionalidade constitutiva do homem enquanto corpo, sentimento e racionalidade. Contudo, não pode esquecer o fato, talvez, mais importante, do homem enquanto ser histórico. Somente à luz de uma abordagem interdisciplinar é que se pode apreender o homem em sua totalidade [...] (ROCHA, 2011, p. 95).

A partir do século XX, especialmente após os anos 1960, importantes sociólogos, filósofos e antropólogos estiveram atentos a uma compreensão rigorosa das diferentes e variadas formas de corporeidade sugeridas por um corpo inserido num tempo-espaço e a seu valor simbólico como fenômeno social e objeto de representação. Em outras palavras, o corpo passou a ser o fio condutor para se tentar compreender a relação do homem e seu envolvimento no mundo, sendo considerado como algo que carrega valores simbólicos responsáveis pela construção cultural de um determinado povo e de sua identidade.

A exemplo disso é possível citar as contribuições de Le Breton (2006) que, em seus estudos sobre a sociologia do corpo, dedica-se à “[...] compreensão da corporeidade humana como fenômeno social e cultural, motivo simbólico, objeto de representações e imaginário” (p. 7). Para o autor, toda e qualquer relação humana é tecida pelo corpo. É por meio da corporeidade que o homem faz a ponte entre si e o mundo e, assim, cria ações, gestos, técnicas, relações, expressões simbólicas etc. Em suas palavras, “O corpo é o vetor semântico pelo qual a evidência da relação com o mundo é construída: [...]. Antes de qualquer coisa, a existência é corporal” (p. 7).

Avançando rumo a outras considerações, nessa mesma direção, é possível recorrer, entre outras, às contribuições do “perspectivismo ameríndio” de Eduardo Viveiros de Castro (1996), em seu ensaio Os pronomes cosmológicos e o perspectivismo ameríndio. Neste, o autor revela, a partir de uma extensa etnografia na região Amazônia, um legado de observações importantes sobre o universo amazônico, e como diferentes seres, humanos e não humanos, se vêem e são vistos a partir de um corpo. Esse “modo de ver” ou “como se vê” diz de um terreno cósmico em que “[...] o mundo é habitado por diferentes espécies de sujeitos ou pessoas, humanas e não humanas, que o apreendem segundo ponto de vista distinto” (p. 115). O corpo é o organismo vivo que nos permite ver o que vemos, fazer o que fazemos, ser o que somos, e, nessa constância, dar os primeiros passos para sentir, experimentar e estabelecer relação com outros corpos presentes no mundo.

Na perspectiva de Carvalho e Steil (2008), o corpo “[...] ao mesmo tempo em que age em direção ao mundo e aos objetos, também é constituído pelo mundo e pelos objetos em direção aos quais ele se move” (p. 292). Babado reforça essa questão ao revelar sua inspiração ao fazer uma réplica de animal.

Tipo uma tartaruga, é fácil de fazer pra mim, pra mim é fácil, porque aí eu já sei os detalhes dela tudinho, e mesmo assim eu penso nela, penso na tartaruga, aí às vezes eu tô fazendo aqui o detalhe, por exemplo, das costas dela, aquelas malhas que tem, aí eu paro, às vezes eu faço aqui, pô, não é assim, eu já olhei nela, não é assim, aí eu apago aquilo ali, aí eu vou, não é assim, aí eu vou faço, borá ver, vou fazer pra ver se vai melhorar, aí melhora, vai buscar o jeito mesmo do bicho mesmo. Aí tem aquelas malha tudinho, as unha, as mão, cabeça, o rabo dela, tudinho, o peito como que é o peito dela, tudo a gente vai buscando. Assim em cima de um pau, por exemplo, um tracajá em cima de um pau, então quando eu tô fazendo um tracajá que ele tá em cima de um pau, aí eu vou buscar assim, quando eu tô pescando, às vezes eu tô pescando, às vezes eu topo bem com o tracajá assim em cima do pau, a gente topa com ele. Quando o sol tá quente ele tá lá enxugando em cima do pau. Aí eu vou buscar o jeito de como é que ele fica, por onde que ele sobe, a forma que o pau tá, não esse pau ele tá assim, então ele não vai subi daqui assim da parte alta, ele vai subi daqui aonde tá meio rampado pra ele subir, aí então tudo isso é forma pra mim fazer o tracajazinho e o pau tudo na forma que tava. Então se ele tá, o pau tá assim, com certeza ele subiu daqui, aí ele vai sobe, tem uns que fica um meio por cima do outro, porque às vezes não sobe só um, sobe mais de um, aí tem os que fica de frente pra cá. Eu já tenho feito uns galho assim de pau com os tracajazinho, fica bacana, mais pequeno assim, aí eu vou lembrando, tal pescaria que eu fui eu vi, é assim (Babado).

Como podemos observar, essa fala lembra também as observações de Lévi-Strauss (1997), em sua teoria sobre o pensamento selvagem quanto à capacidade de os nativos observarem a natureza. Eles são verdadeiros “etnógrafos”, como sugere o antropólogo francês:

Não basta identificar com exatidão cada animal, cada planta, pedra, corpo celeste ou fenômeno natural evocado nos mitos e no ritual – tarefas múltiplas para as quais o etnólogo raramente está preparado – é preciso saber também que papel cada cultura lhe atribui no interior de um sistema de significações. Certamente, é útil ilustrar a riqueza e a finura da observação indígena e descrever seus métodos: atenção prolongada e repetida, exercício assíduo de todos os sentidos, engenhosidade que não rejeita a análise metódica dos dejetos dos animais, para conhecer melhor seus hábitos alimentares etc. Dentre todos esses mínimos detalhes pacientemente acumulados ao longo de séculos e fielmente transmitidos de geração à outra, somente alguns são retidos para destinar ao animal ou à planta uma função significante num sistema. Ora, é necessário saber quais, pois essas relações não são constantes de uma sociedade para outra e para a mesma espécie (LÉVI-STRAUSS, 1997, p. 70).

Nesse universo, realidade e mitos se misturam; humanos e “não humanos” – personagens que ganham humanidade ao longo de uma tradição oral e passam a estar vivos no cotidiano – convivem, e esses últimos são, ao mesmo tempo, temidos e despertam curiosidade e sensações. Representam corpos que se relacionam e reagem à ação de outro corpo, mesmo que esse outro corpo seja algo mais imaginário do que real. Entretanto, às vezes são mais reais do que elucubrações da imaginação. Os mitos7 aparecem ao humano como um outro humano e, ao mesmo tempo, possuem uma natureza distinta, ou seja, não são um humano em si, mas um animal, uma planta ou um outro ser que tem um outro corpo e ganha vida.. Eis o que narra Babado:

Eu não sei se é esse Valdemar...que a jibóia ia comendo ele...mas tem um Valdemar daí da Cachoeira Porteira. A mamãe sabe, o papai sabe dessa história que esse Valdemar saiu pro Castanhal, aí foi só ele caçar, pro Castanhal, tirar castanha. Aí ele tinha um rife, aí foi embora, andou, andou, juntó um cado de castanha por lá, aí lá ele viu um pau lá e disse:‘Bora descansar ali, descansar em cima desse pau’. Aí ele sentou em cima do pau, aí pô... quando ele se deu aquela moça, muito bonita, muito bonita, diz que ela tava assim, na frente dele, a moça, só de sutiã e calcinha, muito, muito, muito bonita mesmo, parece uma princesa memo; a hora que ele viu, diz que ela chamava ele, venha Valdemar, venha aqui comigo. Aí, puta merda, ele pegou tirou a roupa dele, tirou a roupa dele tudinho. Aí ele logo antes disso, ele sentiu um remorso no corpo dele, aí ele pegou engatilhou o rife aí saiu, foi embora na direção da mulher, disse: ‘Meu Deus eu nunca vi isso que mulher é essa, eu não sei se eu atiro será que eu mato essa mulher? Vamo que seja uma pessoa humana que esteja me procurando?’ E foi indo pro rumo dela, aí era a jibóia que tava lá, o chamado dela era a língua dela [da jibóia], ela fazia: ‘Venha Valdemar, venha aqui comigo, me abrace’, falava pra ele. Aí o Valdemar foi foi foi... Ele aqui assim oh, com o rife aqui, desse jeito com o rife e foi andando foi andando. Aí quando a jibóia abriu a boca aqui abriu a boca aqui, abriu a boca pra engoli o Valdemar, o dedo dele aqui, triscou aqui no gatilho, aqui, aqui, aí disparou..pauuu... aí ele se recordou, jogou o rife pra ali e só escutou aquele estrondo grande bounnnn... que a bala entrou dentro da boca da jibóia, era uma monstra. O pau que ele sentou em cima era a jibóia, aí essa jibóia começou a quebrar terra lá, quebrar, baubaubau, morrendo, aí esse Valdemar se desesperou, saiu no mundo afora, aí se salvou dessa jibóia. A mamãe, ela sabe dessa história, é caso real mesmo (Babado).

Corpo-homem, corpo-artefato: narrativas do barro

Mais uma vez, cabe retomar os saberes produzidos pelos sujeitos pesquisados sobre como pensam a relação corpo, natureza e artesanato, e expor suas visões de mundo ao tentarem explicar como estes “corpos” se completam num sistema cosmológico. Era cedo, o galo ainda cantava, e o Sr. Zé Lopes já rodeava a casa em que eu dormia. Enquanto me levantava, ele se aproximou e começou a dizer o que havia pensado sobre o corpo, a natureza e o artesanato e, mais que isso, como ele pensava a incorporação do artesanato no corpo e do corpo no artesanato. Sempre absorto em suas formulações, parecia pensar em voz alta e não ter claro ainda todas as questões. Colocava-as como se, ao falar, pudesse elaborá-las melhor. Remetia a questões importantes sobre como percebia o mundo ao seu redor, ao retratar, por exemplo, a crença na religião e a relação do homem com a natureza, ambas inter-relacionadas. Foi assim que ele começou a descrever a “fabricação” do artesanato, desde o momento da retirada da matéria-prima, o barro, até o processo de transformação dessa matéria em um corpo, o artefato.

Eu vou falar um pouco de mim, porque eu falando de mim eu tô falando dos outros. Então como é que eu acho essa incorporação do artesanato no corpo e o corpo no artesanato. Então eu acho que é assim, principalmente quando começa desde lá do barreiro por exemplo. Então quando eu chego no barreiro, a nossa cultura é assim, a gente chega lá, faz uma oração e pede um pouco daquela matéria prima pra mãe natureza, pra que a gente possa fazer, modelar as peças da gente, fazer o trabalho da gente, viver daquilo ali. Então quando a gente chega lá, aquilo ali ta normal, não ta mexido, ta inteiro, ta super natural ali, então pra que se transforme por exemplo num corpo, ou seja um artesanato a gente tem que mexer e transformar ela numa outra coisa. Então a partir que eu tire aquele barro dali eu vou transformar ela num corpo, vou fazer uma peça por exemplo. Então ali ela já não está mais quando eu antes de retirar aquele barro dali, então aquele barro pra ser transformado em um corpo, ele precisa do outro corpo, no caso seria o meu corpo se movimentar, agradecer, e retirar aquele barro dali, então ele tá precisando do meu corpo pra fazer todos esses movimento, então eu já to começando a integrar o meu corpo no corpo da natureza, inverter o meu sacrifício todo que possui dentro de mim pra inverter com a natureza (Sr. José Lopes).

Muitas são as fases e misturas que o barro precisa sofrer até ser transformado em um corpo-artesanato pronto para servir àquele que o fez. Nesse caso, é preciso respeitar o tempo de transformação da matéria e dedicar-se de “corpo e alma”. Passam-se dias nessa função, de modo a estabelecer verdadeiras trocas simbólicas com essa matéria, a qual, aos poucos, vai ganhando uma forma. Pode-se perceber que todo esse processo pode ser visto como um ritual, pois é carregado por atos simbólicos que vai desde as rezas à beira do barreiro, ao reconhecimento da peça (artefato) como “gente”. Vejamos como Sr. José Lopes se enxerga nessa prática.

Porque o artesanato, tudo que você faz é o que a gente já conversou, é um corpo também, é assim é um corpo fazendo outro corpo, é como se você fazesse um filho, você é um ser humano, se tua esposa ficou grávida de ti tu vai esperar ela dar luz a um ser humano, ta me entendendo? Um corpo fazendo outro corpo. Meu filho é a metade de mim, minha esposa é metade de mim, porque ela é uma pessoa integrada em mim, uma pessoa que te amou, te tirou, travou dentro da gente, um corpo no outro, você se incorpora no que faz e o que você faz se incorpora em você. Aí chega na questão da Tradição, se você tem um bom exemplo para o seu filho, seu filho tem um bom exemplo porque ele vive da tradição. (Sr. José Lopes)

Em sua fala ressalta a integração desse corpo com a natureza e o sacrifício a ser empregado pelo seu próprio corpo ao transformar aquela matéria em outro corpo. Nessa perspectiva, os corpos se misturam, se corporificam e se incorporam. Revela sua integração com a natureza e a importância do seu corpo para a fabricação de uma peça de barro. Seu corpo é a sua existência, ou seja, ele existe por meio do seu corpo e, através dele, em uma espécie de simbiose com a natureza, transforma-a em um objeto: artesanato, que contém parte dele e parte da natureza. Sendo assim, o corpo traz a possibilidade de sentir, experimentar e descobrir o mundo, além de transformar o que é natural em um objeto predominantemente caracterizado por seu valor simbólico.

Então é o corpo, é a relação do meu corpo inteiro ao barro, tudo que você tem no corpo de membro possui na fábrica de qualquer uma peça que você for fazer, você usa a unha, você usa o pé, usa a mão, o pé porque conduz, a mão porque modela, eu corto lenha, eu corto pau seco prá fazer a cuivara [sic] pra queimar minha peça, então ela tá integrada na minha peça. [...] você se entrega quando vai fazer uma peça, você se entrega de corpo e alma, é aqui, se você não concentrar você acaba não fazendo nada (Sr. José Lopes).

Como é possível perceber, em todas as suas falas, destaca-se a dimensão coletiva, cósmica e ecológica do artesanato. A todo tempo ressalta certa “consubstancialidade” entre corpo, natureza e artesanato, em que “[...] essas relações estão envolvidas intrinsecamente umas com as outras. Elas interagem e estruturam, assim, a totalidade do campo social” (PFEFFERKORN apud KERGOAT, 2010, p. 100). O corpo-artesanato é tão vivo para aquele que o dá à “vida”, que imprime e exprime, simultaneamente, traços mútuos que os identificam e os completam nessa teia de significados complexos.

Eu digo isso porque ele vai se reconhecer naquela peça, essa peça aqui é minha, não precisa nem dobrar o fundo dela pra ver o nome dele, essa peça é minha, fui eu que fiz; eu digo isso, porque eu tenho integração e conheço a minha obra, conheço o que eu sei fazer, como a minha esposa, minha velha, meu filho. (Sr. José Lopes)
Estabelecem entre si relações de reciprocidade, na medida em que aquele corpo transformado (o artefato) passa, então, a servir a seu próprio corpo. É o objeto formando pessoas: se ele faz o objeto de barro, também o barro tem agência e o fabrica. Essa é a reciprocidade deste fazer e ser feito entre corpo, natureza, artesanato e pessoa visto que está presente tanto em contextos cotidianos coletivos quanto em contextos específicos restritos, que dizem de uma maneira de conceber o “eu” e o mundo.

[...] nós usamos objetos para fazer declarações sobre nossa identidade, nossos objetivos, e mesmo nossas fantasias. Através dessa tendência humana a atribuir significação aos objetos, aprendemos desde tenra idade que as coisas que usamos veiculam mensagens sobre quem somos e sobre o que buscamos ser. [...] Através dos objetos fabricamos nossa auto-imagem, cultivamos e intensificamos relacionamentos. Os objetos guardam ainda o que no passado é vital para nós [...] não apenas nos fazem retroceder no tempo como também tornam-se os tijolos que ligam o passado ao futuro. (Weiner apud Gonçalves 2007, p. 26).

Para dialogar com os autores mencionados acima, convido então, Dona Maria do Carmo, que permaneceu durante dias de minha permanência só ouvindo e escutando o que conversávamos. Já próximo de minha partida, eis que ela me chamou para acompanhá-la até a sala de casa. Ela recolheu com cuidado uma peça de barro exposta sob o centro da mesa e, por alguns minutos, ficou a alisar aquele artefato, como se estivesse fazendo-lhe um carinho. Com os olhos fixados na peça, ela se apresentou e começou a contar como foi seu processo de iniciação, aprendizagem e envolvimento com a cultura do barro. Sua memória parecia estar contida naquele objeto e, por meio dele, ela evocava lembranças e revivia o passado.

Eu sou uma artesã, meu nome é Maria do Carmo Colé Viana, eu moro na comunidade do Moura e estou apresentando aqui uma peça que é de uma mestra, nossa primeira artesã que trabalhou pelo projeto. Ela foi a minha mestra. [...] Ela me ensinava tudo, ela me dizia: ‘Olha Dona Maria, quando a senhora for fazer uma peça a senhora dê três alisadas nela pra ela ficar bem lisinha, igualmente como esta aqui’. [...] Eu passei mais de 60 dias trabalhando junto com ela, eu ia daqui pra casa dela, aí daqui eu já levava a minha alimentação, eu passava o dia todo lá com ela, tomava pinho de açaí, ela fazia mingau de crueira e a gente ficava lá conversando, era duas parceira. [...] O dia que ela fez essa peça pra mim tava uma chuva muito grande, ela pegou o caroço do babaçu e saía pregando assim [...]. Isso aqui é amassado com o caroço do babaçu, aí ela pegava o caroço do babaçu e ficava assim, e eu junto dela. Ela fazia e dizia assim: ‘Faz Dona Maria’... Eu dizia: ‘Mas eu não sei Dona Filica’. Ela disse: ‘Ah a senhora não sabe que essas peças modernas eu não sei fazer’, ela dizia. Aí eu dizia: ‘Mas tá Dona Filica, tá bom’. Aí ela fazia, ela disse: ‘Ainda faço mais uma?’ Eu disse: ‘Faz’. Então eu acompanhei ela nessa peça aqui, ajudando ela.

Dona Maria ganhou aquela peça de presente de sua mestra, a falecida Rosa Serrão, mais conhecida como Dona Filica, com quem trabalhou durante muito tempo. Ela era conhecida como uma das artesãs mais antigas e respeitadas da região. No processo de queima do artesanato, uma de suas peças trincou; foi quando Dona Filica perguntou a Dona Maria se ela aceitava aquela peça de presente.

“Dona Maria a senhora aceita essa peça, me desculpe ela está trincada e a senhora sabe que a gente não pode vender peça trincada, mas eu vou lhe dar essa peça pra senhora, a senhora aceita?” Eu disse: “Eu aceito Dona Filica, de bom coração”

Um dos processos mais complicados durante a “fabricação” de uma peça de barro é o momento de sua queima, pois os riscos de uma peça não resistir e trincar se faz presente. Quando isso acontecia, Dona Filica dizia que não podia ficar triste, “porque atrás daquela alma (ao se referir ao artefato) vinha outra, aí com certeza, você vai conseguir”. As palavras dela, são recordadas por Dona Maria: “Não fica assim, porque fica pior tu ficar triste, porque assim como tu fica triste a peça também entristece, por isso que quebra’. Ela dizia: “Quando a gente fica triste a peça também fica triste”. Como podemos perceber, uma peça de barro parece significar muito mais que um simples objeto. A ela, se atribuí alma, sua forma ganha um corpo, uma vida, capaz de sentir e de se relacionar com aquele corpo que o transformou.

Essa peça me traz muita lembrança do nosso trabalho e representa muita coisa [...] minha lembrança mais forte pra mim é a Dona Filica, porque quando eu enxergo essa peça eu tô representando ela, eu tô enxergando ela e é tudo pra mim. [...] Pra mim representa ela, a mente dela, a fala dela, representa ela comigo essa peça. É como se ela estivesse viva comigo (Informação verbal).

Nesse momento, marcado de grande comoção, era como se Dona Filica, estivesse incorporada àquele corpo-artesanato. Por meio dele, elas estabeleciam contato e rememoravam uma vida. A sensação era que ele, o corpo-artesanato, dizia por si só. Em outras palavras, era como se aquele artesanato estivesse tomado de uma vida. Sendo assim, alguns objetos são portadores de qualidades mágicas e/ou muito especiais e, por isso, nunca são negociados ou trocados (GONÇALVES, 2007). É o que se percebe quando Dona Maria nos fala da importância e do significado daquela peça em sua vida.

Essa peça aqui eu não faço negócio nenhum é uma herança para os meus filhos, para meus netos, bisnetos, eu não faço negócio nenhum com ela. Pra mim é um troféu da minha casa, da minha loja, aqui do meu trabalho, eu não faço negócio. [...] vai ser uma recordação para sempre, então eu falei isso pra ela em vida e jamais depois dela morta, eu, ah não, isso aqui eu vou vender a troco de nada ou a troco de um pouquinho de farinha, a troco do...? Não, não tem amizade que faça eu vender essa peça aqui, nada, nada, nada (Informação verbal).

Os relatos indicam que, por meio dos objetos, é possível estabelecer laços, apreender significados, fazer contatos, evocar lembranças; é reviver o passado e pensar o futuro. Nesse sentido, certos objetos não se trocam, não se dão, não se vende, não se empresta tornando-os bens inalienáveis (GODELIER, 2001). A presença dos objetos vai muito além de simples coisas; nos fala de pessoas, de maneiras, de costumes e de tradição e, sendo assim, nos abre a possibilidade de serem vistos como um fenômeno social total. O artefato oriundo da cultura do barro, pensado como operador simbólico, funciona como mediador entre corpo e meio, natureza e cultura. Sendo assim, funde essas dimensões e, por isso, é de fundamental importância para se pensar a tríade (corpo-natureza-artesanato), ou uma cosmologia quilombola ou, até mesmo, uma ontologia quilombola. O artesanato perpassa a fronteira de algo tangível, pois diz de uma construção cultural, de um modo particular de se relacionar com o mundo. Por meio dele, é possível identificar não só seu povo, como seus costumes, seus hábitos, seu modo de vida etc. Talvez por isso, Rocha (2011), inspirado por Mauss, traz em suas reflexões a importância dos objetos para pensar a vida social “Afinal, a observação de uma simples cerâmica pode nos revelar que muitas vezes, o pote tem uma alma, o pote é uma pessoa” (MAUSS apud ROCHA, 2011, p. 93).
Referências

ALMEIDA, M. V. de. O corpo na teoria antropológica. Revista de comunicação e linguagens, Lisboa, 33, p. 49-66, 2004.


BARBOSA NETO, E. R. O quem das coisas: etnografia e feitiçaria em LesMots, La Mort, LesSorts. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, UFRGS, v. 37, p. 235-260, 2012.
CARVALHO, I. C. M; STEIL, C. A. A sacralização da natureza e a “naturalização” do sagrado: aportes teóricos para a compreensão dos entrecruzamentos entre saúde, ecologia e espiritualidade. Ambiente & Sociedade, Campinas, v. XI, n. 2, p. 289-305, jul-dez 2008.
FAVRET-SAADA, J. Ser afetado (Tradução de Paula de Siqueira Lopes). Cadernos de Campo, São Paulo, USP, n. 13, p. 155-161, 2005.
GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.
GONÇALVES, J. R. Antropologia dos objetos: coleções, museus e patrimônios. Rio de Janeiro: IPHAN, 2007, 256p.
GONÇALVES, M. A. O real imaginado – Etnografia, cinema e surrealismo em Jean Rouch. Rio de Janeiro: Topbooks, 2008.
INGOLD, T. Da transmissão de representações à educação da atenção. Educação, Porto Alegre, v. 33, n. 01, p. 06-25, 2010.
KERGOAT, D. Dinâmica e consubstancialidade das relações sociais. Novos Estudos (Cebrap), São Paulo, Edição 86, março 2010.
LE BRETON, D. Sociologia do corpo. 2ª Ed. Petrópolis: Vozes, 2006.
MAUSS, M. Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.
ROCHA, G. Mauss & a educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2011. (Coleção Pensadores & Educação).
______. SEEGER, A.; DAMATTA, R.; VIVEIROS DE CASTRO, E. B. A Construção da Pessoa nas Sociedades Indígenas Brasileiras. Boletim do Museu Nacional, v. 32, n. 1-2, p. 2-19, 1979.
VIVEIROS DE CASTRO, E. A natureza em pessoa: sobre outras práticas de conhecimento. In: ENCONTRO “VISÕES DO RIO BABEL. CONVERSAS SOBRE O FUTURO DA BACIA DO RIO NEGRO”, 22 a 25 de maio de 2007, Manaus. Instituto Socioambiental e a Fundação Vitória Amazônica. Disponível em: <http://www.socioambiental.org/banco_imagens/pdfs/visesdoriobabel.pdf>. Acesso em: set./out. 2014.
______. Os pronomes cosmológicos e o perspectivismo ameríndio. Mana. Rio de Janeiro, 2(2): 115-144, 1996.

1 Ser afetado’ concerne a ‘uma dimensão central do trabalho de campo’, à experiência de habitar um ‘outro lugar’, de ser ‘tomado’ pelas suas ‘intensidades específicas’, as quais, em geral, ‘não são significáveis” (FAVRET-SAADA, 2005, p. 155 apud BARBOSA NETO, 2012, p. 236).

2 A ideia de antropologia compartilhada encontra-se em GONÇALVES (2014), para o autor [...] essa percepção de “fazer de conta” que se é outro, para mudar sua percepção e poder ver o mundo de outro ponto de vista” (p.160).

3 Mesmo que tais autores se refiram à questão corporal a partir do universo indígena, nesta passagem, parecem também fazer alusão a algo que se faz presente no universo dos quilombolas, como veremos mais adiante.

4 Intitulado A simbiose entre o corpo, a natureza e o artesanato no processo de fabricação do artesanato do barro em uma comunidade quilombola à margem do rio Trombetas/PA, sob orientação do professor Dr. Gilmar Rocha, a quem agradeço pelas preciosas contribuições teóricas, amizade e importância em minha formação como pesquisador e profissional.

5 Ressalto que, apesar de o trabalho ter se concentrado em uma quinzena, meu contato com essa comunidade e, em especial, com a família Colé Viana, foco de minhas observações, já tinha acontecido durante minhas três idas anteriores à Oriximiná.

6 Complexo urbano-industrial onde funciona a Mineração Rio do Norte/MRN, maior produtora de bauxita do Brasil que, desde a década de 1970, vem intensificando suas atividades operacionais na região. Atualmente, é uma das principais rotas trafegadas da região, saindo barcos praticamente todos os dias de Oriximiná/PA e Santarém.

7 Para Viveiros de Castro (1996) o mito “[...] fala de um estado do ser onde os corpos e os nomes, as almas e as afecções, o eu e o outro se interpenetram, mergulhado em um mesmo meio pré-subjetivo e pré-objetivo [...]”, p. 135),



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