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1.1 Uma história de amor em crise

"Não podia sair da cela, então lia o tempo todo. E que delícia era o mundo dos livros!"


Memórias de um sobrevivente, Luiz Alberto Mendes

Nas celas da prisão ou nos bancos escolares, sentados nas bibliotecas ou em pé nas livrarias, muitos puderam desenvolver o amor pelos livros. Depositário da memória coletiva, acervo literário, difusor de bens simbólicos, o livro carrega mais que um "conteúdo" porque está recoberto de várias imagens e valores e por isso ultrapassa o estatuto de objeto "neutro". O livro é entendido como uma ponte ou terraço para algo que está além e que se acredita atingir por meio dele: de acordo com a época e o lugar, confere-se ao livro o acesso à verdade, ao saber, ao bom gosto, à sensibilidade, à consciência social, à atuação política, à formação profissional1. Parafraseando o poeta, em certa medida o livro "É como que um terraço/ Sobre outra coisa ainda".


Como decorrência, aqueles que podem adquirir livros, têm tempo para leitura e sabem decifrar os conteúdos que as páginas encerram detêm um poder que é socialmente valorizado. Mais que alfabetizados, esses leitores mostram que são "letrados", termo que, segundo o dicionário Novo Aurélio – século XXI e o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, tem também a conotação de "instruído", "erudito", "culto".
É verdade que em certos momentos históricos alguns livros e algumas leituras são associados à alienação, ao ócio que corrompe, à banalidade. A própria literatura retratou esse pretenso perigo: Emma de Madame Bovary e Luísa de O primo Basílio são personagens que representam as moças envenenadas pelos sonhos da literatura romântica. Mas evidentemente Flaubert e Eça não estavam atacando os livros em geral, até porque deles dependiam para ganhar a vida e divulgar suas obras.
Por mais que o livro tenha em algumas situações históricas representado perigo político, insubordinação religiosa ou afronta moral, sempre houve os que souberam escondê-lo, copiá-lo ou decorar seu conteúdo, livrando-o das fogueiras reais ou simbólicas que pretendiam liqüidá-lo.
Hoje as fogueiras estão apagadas, mas as "ameaças" não cessaram. Outros veículos – o jornal, o rádio, o cinema, a TV, a Internet – cumprem funções semelhantes e os livros, conjuntamente com os formatos "tradicionais" de textos que neles estão contidos, são colocados novamente em estado de alerta. As inovações tecnológicas desautomatizam a estável relação que há muito se estabeleceu entre autores-livros-leitores, obrigando-nos a olhar o livro não mais como um elemento certo do cenário, mas como algo prestes a se transformar e eventualmente desaparecer.
E se o livro está, segundo alguns, sob o risco de extinção, desapareceria lamentavelmente com ele – segundo a mesma lógica – todo um universo de hábitos de leitura que, por hipótese, foram responsáveis pelo progresso da civilização. Então, em reação a essa suposta calamidade, ouvem-se vozes temerosas de que, sem livros, viveríamos o fim da "cultura", a morte da literatura e assistiríamos à vitória da mediocridade e redundância de informação que impera nos outros meios – tidos como menos nobres – como o rádio e a televisão.
A análise da recepção de um novo formato textual – o texto eletrônico – e um novo veículo – a Internet – não pode prescindir do estudo dessa "história de amor" que livros e leitores até agora viveram e frente à qual se formam torcidas mais ou menos uniformizadas: de um lado, os que se mantêm fiéis ao velho e bom livro e rejeitam qualquer alteração no roteiro; de outro, os que apostam na inclusão de novos protagonistas e assistem com entusiasmo às novidades do enredo.
Vamos, então, ao início dessa história.

1.2 Os livros dão suporte aos textos. E agradam

O livro é o melhor amigo,

O livro é nosso companheiro,

O livro participa do nosso dia a dia.

Fica comigo até no banheiro.
"O Livro", Gabriela Levy2

Os livros, com suas páginas numeradas, divididos em capítulos, encadernados entre duas capas, podem ser entendidos como uma fórmula bem-sucedida de organização de textos e de orientação do leitor. Ao menos, no caso daquele leitor que teve a oportunidade de se habituar a esse formato por intermédio de instituições como a escola, onde se adotou o livro como instrumento privilegiado de educação. A paixão pelo objeto livro talvez se explique pela familiaridade com esse tipo de suporte consagrado aos textos. Familiaridade de longa data: já no século IV, aproximadamente três quartos dos textos circulavam no formato do códice3.


Hoje, ainda que compita com outros meios de divulgação de informações e de divertimento, o livro mantém, ao menos no imaginário social, um lugar de respeito. Em pesquisa da Câmara Brasileira do Livro4 efetuada em 2001 em várias cidades do Brasil, 89% dos entrevistados reconhecem que o livro é "uma forma de divulgação do pensamento" e 82% declararam que o livro é uma importante forma de atualização. A mesma pesquisa indica que os que "gostam muito" e os que "gostam" de ler livros computam 78% dos entrevistados (respectivamente 36% e 42%). Quanto aos gêneros, a preferência pelos livros de "Literatura adulta" só perde para os livros de "Religião": 29% contra 39%.
Mantendo sempre uma ponta de desconfiança face às respostas dos entrevistados, que podem ser "politicamente corretas" sem serem necessariamente sinceras, pode-se afirmar que os livros, inclusive os de Literatura, não estão relegados ao total desprezo, apesar da TV, do rádio, do cinema e da Internet. E por diferentes razões.
O livro é primeiramente enaltecido por sua praticidade: fácil de carregar, versátil, adapta-se a diversas circunstâncias, permite que se retome prontamente a leitura a partir de um ponto de interrupção e se abre às intervenções dos leitores por meio das anotações à margem. "Companheiro" que rima até com "banheiro", segundo o poema da jovem Gabriela Levy, que reconhece no livro a versatilidade que permite diversos usos e funções. De modo genérico, o livro é entendido como sinônimo de texto impresso, cuja leitura é apontada usualmente como "agradável", especialmente em comparação com os novos meios eletrônicos. Até mesmo Bill Gates, presidente da empresa Microsoft, confessa que "ler na tela é ainda bastante pior que ler no papel"5.
A materialidade dos livros foi historicamente se delineando para que leitura e escrita se realizassem de maneira satisfatória. Paralelamente, o livro foi ganhando atrativos e foi se transformando em objeto cobiçado:
De todas as formas que os livros assumiram ao longo do tempo, as mais populares foram aquelas que permitiam ao leitor mantê-lo confortavelmente nas mãos. Mesmo na Grécia e em Roma, onde os rolos costumavam ser usados para todos os tipos de texto, as cartas particulares eram em geral escritas em pequenas tabuletas de cera reutilizáveis, protegidas por bordas elevadas e capas decoradas. Com o tempo, as tabuletas cederam lugar a folhas reunidas de pergaminho fino, às vezes de cores diferentes, usadas para rabiscar anotações rápidas ou fazer contas. Em Roma, por volta do século III, esses livretes perderam seu valor prático e passaram a ser estimados em função da aparência das capas. Encadernados em chapas de marfim finamente decoradas, eram oferecidos como presente a altos funcionários, quando de sua nomeação; acabaram se tornando presentes particulares também, e os cidadãos ricos começaram a se presentear com livretes nos quais escreviam um poema ou uma dedicatória. Logo, livreiros empreendedores começaram a fazer pequenas coleções de poemas – pequenos livros de presente cujo mérito estava menos no conteúdo do que na elaborada ornamentação.6
De fato, a apreciação do livro por parte dos consumidores transcende amplamente a dimensão utilitária, relacionada ao "conteúdo". Durante o largo período de sua circulação, o objeto livro – e sua aparência estimada desde a Antiguidade, como indica o trecho acima transcrito – foi se recobrindo de camadas simbólicas que lhe agregaram outros sentidos e afetos, de modo que muito de sua face puramente tecnológica – um aparato a serviço da divulgação de textos – cedeu lugar a outro campo de valores.
Entre o ato da leitura e os apelos sensoriais promovidos pelo livro, estabeleceram-se por exemplo associações de feitio proustiano, muitas vezes estereotipadas, como indicam várias mensagens enviadas por leitores para um fórum do site de uma livraria7. Aqui se transcrevem três desses depoimentos voluntários:
Flores virtuais jamais substituirão o prazer de se tocar as pétalas de uma rosa real ainda com as folhas orvalhadas. É igualmente insubstituivel o prazer do suspiiro emanado após o ato de amor, coisa que o sexo virtual jamais proporcionará. O livro virtual também não conseguirá tirar o prazer de se folhear páginas amarelecidas, sentí-las nas pontas dos dedos, ouvi-las sendo viradas uma a uma e esse som parecendo querer dizer de viva vóz o que se passa no espírito do escritor. Todavia, rendamo-nos ao inevitável. A evolução do homem trouxe o livro virtual para ficar. É questão de tempo (quanto, não sei) para que a leitura seja feita na tela fria de um computador e livros reais passem a fazer parte de museus. Não fosse assim, ainda estaríamos nas cavernas.
Carlos Bruni Fernandes (16/03/2001)

Concordo com o que disse que o livro de papel, pode conviver pacificamente com o virtual. Quando surgiu a televisão provavelmente se tenha dito que o rádio desapareceria, e o tempo se incumbiu de nos mostrar que tal não aconteceu, hoje ambos coexistem pacificamente e até se beneficiam mutuamente. Assim como o telefone ou a internet não acabaram com a carta social, pois essa trás em se toda uma afetividade que jamais será substituida.Com o livro de papel se dá a mesma coisa, nada substitui o prazer visual, tátil, etc., que este proporciona É um objeto prazeroso, em que se pode colocar uma belíssima encadernação em pleno morroquim, com belos florões. Por fim nada é mais interativo que um livro de papel.


Marco Antônio Pedrosa (10/03/2001)
Os e-books são como os livros tradicionais, podem ser bem ou mal escritos, podem apresentar um conteúdo bom ou ruim, e o prazer que proporcionam ao leitor virtual pode ser o mesmo de um livro encadernado. Entretanto, não há relação afetiva com o livro virtual. Sinto falta dos odores, do toque na folha de papel, as páginas não amarelecem, eles não podem ficar espalhados pela casa, nem vão nos acompanhar na fila do banco. Não possuem vida. Não são acompanhados pelas marcas do tempo. Não tem dedicatórias, nem anotações nas margens rabiscadas a lápis. Não há envolvimento na leitura de um livro virtual.

Ana Marques (30/09/2000)


Tais confissões, como se nota, evocam clichês do universo material do livro (a folha amarelecida, belos florões, encadernação em marroquim, encarnação da voz do escritor). E não se limitam aos leitores: igualmente escritores manifestam seu apego ao livro tradicional e às memórias afetivas que ele suscita. Fanny Abramovich lembra da coleção de Monteiro Lobato recebida na infância: "Foi o presente mais cobiçado da minha infância: a coleção inteira, de capa marrom, com letras douradas, com desenhos do Le Blanc, que estão aí na minha estante até hoje, me divertindo e me surpreendendo sempre."8 Ziraldo, outro escritor dedicado à literatura infanto-juvenil, posicionou-se em debate promovido pela Academia Brasileira de Letras em 2000 contra a possibilidade de no futuro haver apenas um livro eletrônico, capaz de conter todos os textos: "Só se esse único livro tiver cheiro de tinta." Recusa semelhante expressou João Ubaldo Ribeiro, autor de Miséria e Grandeza do Amor de Benedita, uma das primeiras obras brasileiras lançadas originalmente em formato eletrônico. Declara o escritor baiano:
Ler no monitor eu não acredito não! Existe até um belo artigo de Isaac Asimov sobre isso. Você vai lendo e imagina que ele está falando sobre uma máquina fantástica ligada ao cérebro por eletrodos, no fim ele tá falando é de um livro. Dos vários prazeres sensoriais que você pode ter com um livro. Eu, por exemplo, gosto de sentir o cheiro de um livro. Há livros com cheiro bom, outros que me enjoam. Eu não seria um usuário do livro eletrônico.9
O narrador de Borges declara em "La biblioteca de Babel" que conhecia jovens que "se prosternam diante dos livros e beijam com barbárie as páginas, mas que não sabem decifrar uma só letra"10. Essa extravagante adoração pode ser apenas uma parábola, mas é fato que o poder de sedução do objeto livro é tamanho, que pode transcender o uso mais óbvio para o qual foram projetados: a leitura. O livro, nas palavras do jornalista e escritor cubano Carlos Alberto Montaner, "dão vida aos cômodos e corredores", mesmo que jamais sejam reutilizados. O livro, em certa medida, assume um valor independente do texto que nele está contido:
Nasci, cresci e envelheci entre livros. Poucos meses atrás, ao mudar de escritório, vi-me obrigado a doar uns 8 mil títulos a diversas bibliotecas. Não foi um ato de generosidade, mas de desespero: não tinha onde colocá-los. Mas não foi fácil. Gosto do cheiro dos livros, do contato com o papel e da estranha vida que eles dão aos cômodos e corredores. Sabia que jamais voltaria a abrir 95% desses livros, mas estavam ali, nas prateleiras, dispostos a servir-me a qualquer momento, e isso sempre conforta.11
As experiências pessoais de leitura, incluindo aí até acidentes com bebidas derramadas, aliam-se intimamente ao formato do livro e agregam valor emocional à manipulação do códice, conforme se pode depreender de outra participação no fórum acima mencionado12:

Creio que a digitalização de livros seja semelhante à que já é comumente feita com outras formas de arte. Podemos ver Tarsila do Amatal e ouvir Villa Lobos com auxílio da internet. Isso não supera, substitui ou elimina exposições em galerias ou execuções de orquestras. O mesmo se passa com os livros, continuarão existindo, como forma primeira de materialização da arte literária. Sempre será mais agradável ler diretamente no papel (aliás, o advento da informática apenas aumentou o consumo de papel no mundo inteiro: usa-se o computador, mas lê-se no papel). No mais, não me vejo balançando em minha rede com um e-book, deixando cair sobre ele um pouco de capuccino ou fazendo anotações e sublinhados tortos. Contudo, acho espetacular a distribuições de clássicos imortais (nunca encontráveis nas – argh! – mega stores) pela internet. Onde moro, jamais poderia ler alguém falecido há mais de cinco décadas sem o auxílio da informática, pois se não são os e-books, são as e-bookstores que me ajudam...



Fábio Pachêco, Quixadá (27/01/2001)
O mesmo apego parece ocorrer em relação a outros formatos impressos consagrados por uma longa tradição capaz de desenvolver hábitos e estereótipos de leitura. É o caso do jornal diário, consumido "no banco de praça" e descartável assim que acaba o dia. Compreende-se assim o depoimento do editor chefe de O Globo, Ali Kamel, no 3o. Congresso Internacional do Jornalismo de Língua Portuguesa, realizado em Lisboa entre 21 e 24 de abril de 200113. Excetuando-se a qualidade "descartável" do jornal, que contraria os hábitos de conservação que normalmente se devotam aos livros, Kamel reforça no geral os elogios aplicados aos livros: portabilidade, versatilidade, adequação entre formato/função/situação de uso:
A primeira questão é a praticidade do jornal impresso e a mobilidade e o conforto que ele permite. Os senhores conseguem imaginar um idoso sentando no banco da praça para tomar sol enquanto lê as últimas em seu laptop moderno, por menor e mais leve que seja? Já imaginaram o desconforto de ler uma tela iluminada pelo sol (sei que os tecnólogos logo vão inventar, se já não o fizeram, uma espécie de óculos rayban para telas, mas o incômodo será o mesmo)? Sim, eu sei que a tecnologia avançará dia após dia, mas ainda não encontrei nenhum tecnólogo que me garantisse que uma maquininha dessas fosse tão amigável, tão suave, tão fácil de manusear e tão descartável como o bom e velho jornal impresso.
Em relação a essas considerações sobre os suportes materiais da leitura, caberia perguntar: quantas vezes se derruba cappucino em um livro? que cheiro é mesmo esse que tantos leitores alegam encontrar nos livros impressos? quantos hoje de fato lêem jornal no banco da praça? a praia é a situação mais típica de leitura de jornal? Como se vê, a apreciação do livro e de outros suportes não está ancorada apenas em dados objetivos, mas denota forte idealização. Tudo indica mesmo que se trate de um caso de amor.
As imagens que vinculam o suporte material à memória afetiva foram também promovidas pela literatura, que nos habituou a ver nos livros um objeto de culto, de uma felicidade que, no caso de uma personagem de Clarice Lispector, chega a ser clandestina: "Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o."14 Mais adiante, o narrador-personagem ressalta o prazer do objeto livro em substituição ao próprio prazer da leitura: "Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo."15
Frente a essa "memória afetiva" em relação ao livro, os novos suportes textuais eletrônicos fatalmente frustram as expectativas dos leitores, baseadas em associações simbólicas e em hábitos arraigados. Para além dos dilemas mais complexos que o texto digitalizado propõe e que serão discutidos mais à frente, como a de exigir novos procedimentos retóricos de escrita e leitura, a substituição do livro pelo monitor do computador, pela tela do aparelho celular ou pelos e-books esbarrará nos hábitos e imagens consagrados de leitura.
O cuidado necessário é o de não confundir suporte impresso e texto, como se este, como um peixe em um aquário, não vivesse fora daquele. Como muitos pisicultores poderiam atestar, o aquário foi apenas uma forma de o homem se aproximar dos peixes ornamentais, que viveriam certamente bem em outro ambiente, caso lhes fosse dada a oportunidade. Gostar de aquários e preferi-los aos rios, já é outra questão.

1.3 Seguindo as linhas do texto impresso

"Ali está ele,

cobrando, animal,

nossas mãos no dorso,

dedos em cada página-veludo,

lida, amarelesquecida,

letras postas sempre

prontas nos seus signos

para novo contato,

para outra busca,

para a nossa volta"
"Aquele livro", Sérgio Augusto Silveira16

O amor aos livros decorre não somente de um certo fetichismo pelo aspecto mais palpável – o formato, a capa, o cheiro do papel, o amarelecido das folhas dos velhos exemplares ou a textura intacta do livro recém-comprado – mas também da familiaridade com os protocolos de leitura que o suporte condicionou. Por "protocolos" entenda-se desde as formas de manipulação do objeto – onde se encontra o início, onde está o título, em que direção se empreende a leitura – até as questões intrinsecamente textuais – como as referentes a grafia, paragrafação, pontuação, elementos de coesão. No trecho do poema de Sérgio Augusto Silveira transcrito acima, o leitor reconhece naquele "livro-animal" que as letras estão "postas/sempre prontas". Essa "prontidão" – que é do texto que espera um novo contato mas não menos do leitor que sabe como estabelecer esse contato – baseia-se em convenções lingüísticas e estilísticas que, se não dependeram exclusivamente da história do códex e é inclusive anterior a ela, estiveram de qualquer modo bastante ligadas ao trabalho de impressores e livreiros.


Seria difícil que o livro conquistasse lugar de destaque caso sua funcionalidade variasse radical e constantemente, se, por exemplo, alguns livros devessem ser folheados de trás para frente, como as obras em japonês, enquanto outros começassem pelo meio e outros ainda apresentassem, a cada tantas páginas, textos impressos de ponta-cabeça, como ocorre com as respostas das palavras-cruzadas. Mais ainda, seria impensável que a escrita e a leitura servissem como instrumentos de informação e divertimento em larga escala, caso não se padronizassem os sinais de pontuação e diacríticos, a indicação de paragrafação, a capitulação, as convenções de abreviação, a ortografia e a acentuação. Escritores, editores e leitores teriam de adaptar-se constantemente ao texto que se lhes apresentasse, sendo compelidos a decisões inéditas, o que comprometeria por fim a legibilidade e, talvez, a aceitação maciça do suporte.
Esse caráter convencional do livro, partilhado pela massa de autores e leitores, é que permite inclusive que se percebam como inovações quaisquer experiências, como as das vanguarda literárias, que tentem romper com a estrutura familiar do objeto. Sem o reconhecimento coletivo de um formato tradicional, nenhuma utilização do livro seria percebida como ruptura. Até mesmo a insubordinação e a criatividade artísticas no campo da literatura dependem em parte dos protocolos de legibilidade que o livro consagrou.
Assim, um primeiro elemento "a favor" da tecnologia do livro é sua discreta variabilidade, que possibilitou automatismo no manuseio do objeto. Em um dossiê sobre o livro eletrônico produzido pelo jornal francês Libération, Hugo, um jovem leitor de 12 anos, atesta a naturalidade com que se lê um livro, em um movimento automático que dispensa reflexão: "O livro eletrônico é um pouco complicado (...). Em um livro de papel a gente vira a página sem precisar pensar"17.
Hoje, face à novidade dos textos virtuais e dos suportes eletrônicos, percebe-se com mais nitidez, como faz Hugo, o quanto os livros representam uma tecnologia "transparente", que é utilizada com a segurança com que percorremos cotidiana e automaticamente as ruas de nosso bairro. E, da mesma forma que andamos sem sobressaltos em um bairro conhecido, nós, que a eles tivemos acesso no ambiente familiar e escolar, abrimos os livros e sabemos sem hesitação como proceder à leitura do texto que lá se encontra.
Ao ser registrado nas páginas manuscritas e mais tarde nos volumes impressos, o texto, para o bem ou para o mal, foi ganhando certo feitio. Esse processo compreende perdas e ganhos, injunções e benefícios, e engendrou escolhas e decisões que ao longo da história foram consolidando um formato característico para a grande maioria dos textos impressos. Como indica Emanuel Araújo, "o que se verifica, em verdade, é um esforço milenar, na cultura ocidental, pela preservação e transmissão de textos, mas de forma sistemática e padronizada, a fim de que seus exemplares aparecessem tanto quanto possível iguais entre si"18.
O desejo de se produzirem cópias idênticas de uma obra derivou primeiramente de uma ação em favor da censura religiosa. A preocupação principal com a fidelidade dos textos aos seus originais manifestava-se na vigilância contra desvios, acréscimos ou supressões que comprometessem a "verdade" do texto, especialmente daqueles de cunho religioso.
Mas o crivo religioso rendeu frutos técnicos. Para atingir o objetivo da uniformização das cópias, foram sendo estipuladas regras e tendências gráficas que determinaram a aparência e a funcionalidade do livro tais como prevalecem hoje.
Uma das conseqüências dessa padronização foi o fortalecimento da noção de autoria. Segundo o historiador Peter Burke, quando as muitas cópias de um texto passaram a circular de forma idêntica, evitando-se o livre acréscimo de comentários e de alterações decorrentes da "interpretação" de copistas, "as pessoas começaram a desenvolver um sentido mais preciso de propriedade intelectual e a pensar nos livros como o trabalho de 'autores' individuais, mais que a voz de uma tradição anônima"19. As alterações técnicas, portanto, reconfiguram vários aspectos do campo literário, o que justifica que sobre elas se detenha um olhar atento.
A padronização do texto impresso, que inclui desde elementos gráficos até questões gramaticais e estilísticas, conta com esforços que datam de há muito. Aristarco de Samotrácia, diretor da Biblioteca da Alexandria por volta de 145 a.C., pretendeu uniformizar os textos em uma época em que prevaleciam as variantes geradas pelo trabalho de copistas. No entanto, mesmo muito depois, já na era cristã, Cícero queixava-se de que não confiava nas cópias das obras latinas, "incorretamente escritas e vendidas"20. Liberto da efemeridade e instabilidade da transmissão oral, os textos manuscritos na Roma antiga ressentiam-se ainda de saberes e recursos pouco sofisticados, que davam margem à arbitrariedade das várias convenções escritas. As línguas românicas complicaram ainda mais a questão do registro escrito: a uniformização ortográfica, já instável no latim, dependeu no caso das "novas e variadas línguas" de um lento processo. Vandendorpe indica que, até o começo do século XVII, a idéia de uma ortografia uniforme do francês ainda não se havia imposto21.
Na Idade Média ganharam impulso, no ambiente dos monastérios, os esforços de elaboração de cópias mais perfeitas, em um processo de produção que contava com funções especializadas, como a do notarius ou bibliothecarius, responsável por supervisionar o trabalho dos scriptorii, os copistas. No século XV, as técnicas de impressão intensificaram a padronização de regras de formatação textual, o que favoreceu a consolidação de protocolos de leitura. Ou ao menos de uma certa prática de leitura que precedeu e preparou terreno para o consumo do livro impresso: a leitura individual e silenciosa, que Santo Agostinho comenta como atitude surpreendente de Ambrósio: "sempre o via ler em silêncio e nunca de outro modo"22. Essa leitura desvinculada da vocalização, instituída no Ocidente por volta do século X23, era prejudicada pela escrita contínua dos romanos, em que não se grafavam as palavras separadamente, mas em um fluxo ininterrupto de letras que só na leitura em voz alta encontraria a adequada escansão. Sem vocalização, era preferível, pois, que as palavras fossem registradas como unidades distintas. Esta foi apenas uma das normas de legibilidade que o texto impresso mais tarde consagrou, em função de uma leitura fácil e rápida. Christian Vandendorpe aponta alguns outros padrões gráficos que se tornaram habituais graças à mecanização, como a regularidade dos caracteres e dos espaçamentos, a padronização do intervalo das

entrelinhas, a justificação das linhas, as marcas indicativas de parágrafos e capítulos, a



numeração das páginas24.
A invenção da imprensa, para além da questão de incremento da produtividade, está relacionada também à busca de soluções para o problema das variantes textuais e da legibilidade do texto. Consolidou, pela difusão em larga escala, as regras do "escrever bem", de acordo com os parâmetros impostos pelo espaço e pela organização seqüencial das páginas. Paralelamente aos problemas filológicos e gramaticais relacionados à correção, clareza e fidedignidade do documento impresso, ocupou-se o impressor e mais tarde o editor com os aspectos da apresentação visual: "No âmbito restrito do original destinado à impressão tipográfica, o editor passou a ter cuidados especiais com as variações tipológicas indicativas da feição original do escrito e com a programação visual (forma material) sob a qual se apresentará o texto, de modo a produzir uma leitura cômoda."25
Em nome da legibilidade selecionaram-se certos modelos de registro textual e se descartaram outros. O texto, em algumas épocas disposto em forma de colunas paralelas em uma mesma página, acabou conquistando a largura da folha, para que não se confundisse a leitura; os comentários paralelos e notas, que já disputaram com o texto "principal" o espaço central da folha, como nos manuscritos medievais, ocupam hoje com discrição o pé da página ou uma seção à parte; as citações, quando não são deslocadas igualmente para o campo reservado às notas, conservaram-se muitas vezes no fluxo do texto, mas normalmente merecem algum tipo de diferenciação: margens maiores, corpo de texto menor, de modo a distinguir-se do texto para o qual servem de apoio. O texto impresso e especialmente aquele publicado em forma de livro pretendeu estabelecer, evitando dúvidas, uma noção bastante rígida de centralidade que disciplina a leitura em uma hierarquia que hoje parece "natural": é aceitável que se leia um livro ignorando as notas de rodapé e citações; o que soaria raro é ler apenas os comentários, notas e citações, desprezando o texto que ocupa a parte principal de um livro.
Essa centralidade apóia-se igualmente no fato de que o texto encerrado em um livro quase sempre almeja parecer completo. Seja no caso de uma narrativa, seja no caso de um estudo ou tratado, o livro, circunscrito pelas capas, é materialmente um objeto autônomo. O texto poderá fazer referências a outras obras, como no caso das citações, mas tende a incorporá-las na medida do necessário, ao fluxo das frases, do raciocínio, do enredo. A grosso modo, pode-se concluir que, em sua missão de ordenar, manter coesão e difundir uma obra materializada em objeto, não é próprio do livro explicitar a interconexão entre textos, ainda que o possa fazer.
O "bloco" central e "auto-suficiente" do texto encontra no padrão gráfico a representação visual de sua "integridade", mas essa imagem íntegra costuma também refletir-se na organização propriamente textual, como se depreende da explicação de Edouard Rouveyre que, em 1880, escreveu: "O corpo de um livro consiste dos assuntos nele tratados – é obra do autor. Entre todos, subsiste o assunto principal; o que gira a seu redor é meramente acessório."26
Assim, no processo de sedimentação do texto como produto manuscrito e impresso, fixaram-se características lingüísticas e estilísticas que resultaram nos padrões cultos de linguagem verbal escrita. Prevaleceu um modelo de texto pautado por princípios de coerência e coesão, de modo que o leitor seja conduzido, por associações lógicas e por conectivos expressos, a uma leitura sem tropeços. Da mesma forma, a sintaxe recomendou uma ordenação lógica, de modo que se evitassem ambigüidades, não pretendidas, que atrapalhassem o leitor. As contradições são evitadas e, nesse processo, ignora-se muito das idéias que podem chocar-se com as do autor. As noções de "coesão", de "coerência" e de "concisão", tão caras aos estudos contemporâneos de análise do discurso, são instrumentos que buscam organizar um texto que já não precisa apelar para a memória do leitor (como no caso dos textos orais) e que se propõem como um fluxo que, chegando ao fim, cumpre o efeito de "completude", sem que seja possível ou necessária a interferência do autor para explicações, esclarecimentos ou acréscimos. O texto impresso deve falar por si.
Retomando, seja pela dimensão propriamente textual – condensação de assunto, organização unívoca das frases, estrutura do parágrafo – seja pela estrutura material, o texto impresso e encadernado em volume reforça a noção de um todo seqüencial e orgânico. Formando cadernos que se juntam para compor o exemplar, as páginas ganharam numeração, o que indica uma seqüência contínua, a despeito de leituras que eventualmente descumpram tal indicação. As frases que se lêem ininterruptamente da esquerda para a direita, os parágrafos que se seguem uns aos outros, os capítulos ordenados numericamente, tudo contribui para que a noção de "livro" e a experiência da leitura se dê de forma linear, de acordo com estratégias que a criança desenvolve principalmente na escola, conforme aponta Kazumi Munakata:
Esse leitor infanto-juvenil deve também habilitar-se para executar certos movimentos do olho que correspondam à atividade de leitura, o que, na cultura ocidental, consiste em disciplinar o olhar segundo uma linearidade cartesiana – lê-se horizontalmente e, depois, verticalmente – e a abstrair as eventuais informações extratextuais (como a numeração da página). Isso pode não ser muito complicado se o livro contiver apenas texto, disposto em uma única coluna (...).27
Foi assim que aprendemos a ler, passando seqüencialmente do primeiro até o último texto das cartilhas primárias, acompanhando da primeira à última linha o desdobramento das histórias infantis, sofrendo talvez do primeiro ao último capítulo de uma leitura obrigatória na escola. Está certo que o leitor pode sempre tripudiar e espiar o fim de O caso dos dez negrinhos, de Agatha Christie, para saber quem de fato é o criminoso ou, deixando-se levar pela curiosidade, pode consultar o índice de uma obra qualquer, saltar a introdução e iniciar a leitura por uma página localizada no meio do volume. Há também obras que pedem ou facultam uma leitura não linear, como as enciclopédias, os dicionários, o catálogo de uma editora, uma coletânea de poesias ou O jogo da amarelinha, de Julio Cortázar, romance que propõe ao leitor algumas maneiras (previamente planejadas) de ordenar a seqüência dos capítulos. Pode-se ainda lembrar que os materiais impressos ultrapassam o formato livro e que há outros exemplos de leituras menos "disciplinadas", mas igualmente canônicas, como as da páginas de um jornal diário. Mesmo no campo literário, a leitura do poema por exemplo depende, segundo os modelos de análise consagrados, em romper com a linearidade – de resto sempre menos rígida em comparação com a prosa – do texto, para que se depreendam recursos entendidos como característicos da linguagem poética, como rimas, anáforas, paralelismos.
De qualquer modo, não se pode negar o fato básico de que o texto impresso e o formato do códice, por sua configuração material, ordenada e fixa, privilegiou a linearidade e determinou um modo de escrita e leitura que pressupõe um fluxo unidirecional. É o que aponta Regina Zilberman, em Fim dos livros, fim dos leitores?: "O livro, enquanto objeto material, contudo, não se restringe ao estado de peça indiferente, soma de papel, tinta e cola. A adoção dessa forma na posição de suporte da escrita prescreveu determinados modos de leitura: no Ocidente, onde se expandiu em escala industrial desde o século XV, incrementando-se a produção, depois do século XIX, obriga a que se leia da esquerda para a direita, de cima para baixo e sempre para a frente."28
É de fato como linearidade que até recentemente se costumou imaginar um "texto acabado", por mais que sua composição possa ter sido um amálgama de reflexões e notas dispersas e até divergentes. Mesmo quando se escreve um artigo para um jornal, que disporá a matéria em forma de blocos cuja continuação nem sempre se encontra na mesma página, o autor do texto provavelmente visualiza como produto de seu processo de escrita um texto sobretudo contínuo, linear. É o editor, talvez por razões de espaço ou estilo de editoração do veículo, e não necessariamente por exigências intrínsecas ao próprio texto, quem costuma decidir como será a disposição do artigo.
Mesmo no campo dos textos literários, menos afeitos à padronização dos artifícios de estilo, diversas marcas textuais se consagraram. Poderíamos dizer, junto com João Cabral, que muito do que se escreveu para o formato "livro" pretende que o leitor deslize suavemente por trilhos previamente estudados:
"O prosador tenta evitar

a quem o percorre esses trancos

da dicção da frase de pedras:

escreve-a em trilhos, alisando-a"29


Não é à toa que escritores que romperam com as expectativas dos leitores habituados às narrativas destinadas à impressão tenderam, por meio de comentários metalingüísticos, a alertar os incautos para quaisquer novidades de um texto que não condissessem com a linearidade da enunciação. Como se sabe, é o que faz Machado de Assis em Memórias póstumas de Brás Cubas, alertando os leitores para a surpresa das digressões que compõem a narrativa, cinicamente prevendo a reação adversa que tal estilo errante pudesse causar e sugerindo uma imagem ironicamente negativa de sua obra:
"Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem..."30
Só no século XX é que se consagrou a fragmentação, a polifonia, os múltiplos narradores, o fluxo contrapontístico de consciência, a mistura de tons e níveis de linguagem, enfim, toda uma gama de traços estilísticos que subvertem a coerência, a previsibilidade e a linearidade características do texto impresso tradicional. Essas experiências mais arrojadas de romper com a linearidade da leitura, como as propostas por Cortázar31 em O jogo da amarelinha, Calvino em Se um viajante numa noite de inverno32 e Queneau33 em Cent mille milliards de poèmes, provavelmente não pretendiam, e de toda maneira não lograram, subverter de uma vez por todas os hábitos de escritores e leitores de dedicar-se à obra "do começo ao fim", quando determinado gênero textual não exige diferentemente. O fato é que tais obras constituem ainda hoje leitura de um grupo restrito de leitores e, face ao conjunto das produções literárias, com certeza não correspondem à regra, mas à exceção, mantendo-se de modo geral sob a rubrica "literatura de vanguarda", a despeito das várias décadas que fazem já a sua história.
Portanto, o texto impresso, especialmente quando confiado ao suporte livro, pode ser resumidamente caracterizado como um elemento lingüístico confinado em um espaço bidimensional (página/seqüência de páginas) e que se quer "completo", encerrado em si mesmo, planejado pelo autor e que não pressupõe interferências substanciais da parte do leitor em sua organização material. Este, em termos gerais, se submete à linearidade estilisticamente programada e visualmente organizada do texto. Do ponto de vista da apresentação, o texto impresso se serve de elementos cuja padronização permitiu uma leitura mais eficiente, que não confunda o leitor e que, sobretudo, privilegie e oriente a leitura seqüencial, do início ao fim da obra. Conseqüentemente, sendo o resultado de um trabalho de estabelecimento de coerência, unidade e totalidade, que se repete identicamente em cada exemplar, o texto impresso fortalece a idéia de autoria de um ser – o escritor – que preparou previamente uma obra completa, acabada e estável "para todo o sempre".
O registro manuscrito ou impresso resultaram na noção de estabilidade do texto – porto seguro onde por muito tempo os estudos literários se ancoraram sem questionamento. Mas se a estabilidade é algum tipo de "solução", produz também novos "problemas". Como nota Christian Vandendorpe, "diferentemente do oral, que pratica espontaneamente a ruptura semântica, o texto supostamente está centrado em torno de um único eixo".34 Para esse autor, a escrita introduziu a ordem, a continuidade e a coerência onde reinava a fluidez e o caos do pensamento: "no estado natural, de fato, nada é mais volátil que o pensamento: as associações se fazem e se desfazem constantemente, impulsionadas por percepções sempre novas e pela pressão das redes de associações"35. Para Landow e Delany36 o texto tradicional não só se distingue do fluxo mental de idéias, como na verdade tornou-se na sociedade letrada um molde formal que, assim como as estruturas primárias da linguagem, determina o pensamento. O controle da escrita sobre essa profusão mental informe, enaltecida por Vandendorpe e criticada por Landow e Delany, foi compreendido por muitos como uma limitação do texto verbal e justificou a busca por novos meios de produção e leitura de textos, processo que teve, entre outros resultados, a criação do hipertexto eletrônico.
A partir do advento dos suportes textuais eletrônicos, a definição de texto impresso como um bloco monolítico e estável foi enfatizada, em contraste com a alegada flexibilidade detectada nos hipertextos computacionais. Mas essas comparações ressentem-se de exageros que por um lado fazem uma ingênua apologia dos novos formatos textuais e por outro desconsideram importantes debates, anteriores mesmo ao aparecimento dos computadores, sobre a noção de texto e sobre as prerrogativas de autor e de leitor. Esses debates no campo dos estudos literários e lingüísticos questionaram a estabilidade e fechamento do texto e propuseram a idéia de que a leitura é mais que um simples ato de obediência de um leitor aos desígnios de um autor todo-poderoso.

1.4 O texto nas mãos do leitor

"Quero ou não quero", Estela Dias 37

Há que se reconhecer entretanto que existe certa porosidade no bloco aparentemente maciço do livro impresso. Segundo Regina Zilberman, "a linearidade com que as palavras se apresentam [nos livros] é enganadora (...). O tecido literário é fino e delicado, mas não maciço: contém orifícios, mimetizando a porosidade constitutiva do papel, e por essa superfície propensa à absorção do outro penetra o leitor."38
Na ponta da produção textual, o recurso das citações, que hoje parecerá banal, é uma tentativa por parte do autor de romper com o isolamento dos textos nos códices encadernados. Evidentemente essa técnica encontra limites: deve se manter dentro de patamares aceitáveis, dadas as dimensões do exemplar impresso ou manuscrito: deixaria de ser citação caso se incluísse toda uma obra em outra, o que infringiria inclusive direitos defendidos pela legislação autoral. De qualquer forma, a citação testemunha que, na cultura letrada tradicional, os textos, por mais isolados que estejam sob o formato de livros, estão em comunicação com um sistema de referências textuais.
Na ponta da recepção, o livro tradicional tecnicamente não favorece, mas é óbvio que tampouco inibe o leitor na busca de fontes, na checagem de informações. Haverá sempre aqueles leitores que, por prazer ou ofício, passam de uma leitura a outra, comparando, verificando vínculos e oposições. Ademais, os leitores podem ter o desejo ou necessidade de alternarem a leitura e a escrita, sublinhando, compondo comentários e perguntas. Assim, encontram nas margens e nas entrelinhas algum campo de manifestação, de modo que dois textos – o do autor e o do leitor – estabeleçam diálogo.
Essas eventuais anotações do leitor parecem normalmente menos importantes que o texto disposto centralmente na página e que justificou a impressão e encadernação do volume, conforme assinala Chartier:
No livro em rolo, como no códex, é certo que o leitor pode intervir. Sempre lhe é possível insinuar sua escrita nos espaços deixados em branco, mas permanece uma clara divisão, que se marca tanto no rolo antigo quanto no códex medieval e moderno, entre a autoridade do texto, oferecido pela cópia manuscrita ou pela composição tipográfica, e as intervenções do leitor, indicadas nas margens, como um lugar periférico com relação à autoridade.39
No entanto, nem sempre a participação do leitor é tão desprezada. No caso de "leitores ilustres" que conservaram anotações em seus exemplares particulares, o texto original que detém a "autoridade" e os comentários marginais do leitor podem, em conjunto, constituir um "novo documento", que desperta interesse justamente pela "margem" e não tanto pelo "centro". O exemplar de Teoria do Socialismo, de Oliveira Martins, anotado a mão por

Euclides da Cunha40, ou o Tableaux parisiens de Baudelaire41 com as observações manuscritas de Mário de Andrade podem, na esteira do que propõem os estudos genéticos de Literatura, inverter a posição de "autoridade" ou de "centralidade" do texto e dos comentários de leitura registrados nas páginas do volume.


É verdade que para a maior parte dos leitores o discreto espaço de interferência que o livro lhes reserva não é motivo de queixas. Uma hipótese é a de que, obedientes ao poder "inquestionável" da palavra impressa, muitos leitores não teriam motivos para se rebelarem contra a rigidez do livro: satisfazem-se com a leitura de "um texto por vez" e não almejam (ou não foram ensinados a) imprimir rastros de sua leitura. Como ironiza Anja Rau ao comentar as noções textuais de Barthes, "é possível alegar, com assumida segurança, que sem a experiência de escrita, não se pode apreciar o que outro escreveu, mas tanto para autores como para não-autores é lícito decidir que o que eles querem fazer exatamente agora não é escrever, mas desfrutar o texto que alguém tenha escrito" 42.
O erro está no pressuposto de que "apenas ler" signifique estar condenado a uma passividade irreparável, ao mero papel de "testemunha ocular". Esse engano é o que se depreende, por exemplo, do ensaio da pesquisadora da NUPILL (Núcleo de pesquisa em informática, língua e literatura da UFSC), Raquel Wandelli Loth: "o hipertexto é ao mesmo tempo o que ameaça e liberta o cânon de uma lógica linear de leitura e do livro enquanto aparelho ideológico que lhe dá a consagração acomodada pela prática de uma leitura passiva como instrumento de ilusão e identificação do leitor" 43.
Em nome da oposição ao livro e ao texto convencionais, muitos confundem a dimensão material do suporte com o trabalho de leitura que qualquer texto pressupõe. Assim, transferem automaticamente as características do suporte – mono-seqüencialidade, autonomia, isolamento, completude – para o processo de leitura e chegam à conclusão de que se o leitor não pode "remontar" o texto impresso e encadernado do ponto de vista material, a leitura se transformaria em um trabalho mecânico e bastante restrito.
Espen Aarseth criou uma série de imagens bastante sugestivas, mas questionáveis, para tratar do texto impresso e das prerrogativas e limitações do leitor "tradicional":
Um leitor, ainda que fortemente engajado no desenrolar de uma narrativa, é impotente. Como um espectador em um jogo de futebol, ele pode especular, conjeturar, extrapolar, até mesmo reclamar de uma falta, mas ele não é um jogador. Como um passageiro em um trem, ele pode observar e interpretar a cambiante paisagem, ele pode repousar seus olhos onde lhe agradar, até mesmo acionar o botão de emergência e cair fora, mas ele não tem o poder de deslocar os trilhos em outra direção. Ele não pode ter o prazer ou a influência do jogador: "Vejamos o que acontece quando eu faço isto". O prazer do leitor é o prazer do voyeur. Seguro, mas impotente. 44
De fato, no texto impresso o conjunto de signos lingüísticos assim como sua organização estão inapelavelmente cristalizados quando o livro chega às mãos do leitor. Nesse sentido, o leitor não pode mesmo recompor "os trilhos" da escritura. Mas o texto, por mais linear que seja, jamais será lido sem contribuições do leitor, como se a leitura fosse uma tarefa mecânica de decodificação de uma mensagem unívoca, que estivesse de uma vez por todas pronta para a "colheita".
Na verdade, uma vez iniciada a leitura, o texto converte-se em um elemento permeável a adições e recomposições mentais engendradas pelo leitor, que, se não "cair fora", se vê forçosamente envolvido em um trabalho intelectualmente ativo. Assim, a liberdade do leitor não precisou esperar a chegada do hipertexto para se efetivar, porque ler é em grande medida uma atividade de subversão da linearidade e do "fechamento" textual.
Os estudos lingüísticos têm insistido em que o processo de leitura depende de uma série de atividades cognitivas que ultrapassam a mera decodificação dos signos verbais e põe em ação o conhecimento do mundo e as experiências prévias de leitura45. Essa "revitalização" do papel do leitor conta com uma larga história no campo dos estudos literários.
No final dos anos 60, a chamada "Estética da Recepção", inaugurada por Hans Robert Jauss, valorizou o pólo do leitor na determinação da obra literária e roubou o caráter central que a figura do autor mantinha em relação ao controle exercido na produção de sentido de uma obra. Nas décadas de 70 e 80, Jauss dá continuidade aos seus estudos e propõe que o sentido de um texto não está completamente pré-determinado. No ato de leitura, o sujeito estabelece associações, conjecturas, hipóteses de sentido que vão sendo confirmadas, alteradas ou rejeitadas46.
Jauss teria se apoiado em parte nas propostas de seu contemporâneo Wolfgang Iser, que na década de 70 também insiste na idéia de que o texto – que apresenta pontos de indeterminação e lacunas - só se cumpre mediante a efetiva participação do leitor47. Mas Iser evita cair no absoluto relativismo das interpretações, ao localizar no texto estruturas de apelo, marcas textuais que balizam as reações do leitor. Para explicar o conceito, recorre a uma metáfora: duas pessoas olhando o mesmo céu ligam de modo diferente as estrelas e compõem a partir daí desenhos distintos. O próprio Iser interpreta a imagem: "as 'estrelas' em um texto literário são fixas; as linhas que as ligam são variáveis. O autor do texto pode, é claro, exercer muita influência na imaginação do leitor – ele tem todo o arsenal de técnicas narrativas à sua disposição – mas nenhum autor que mereça esse nome tentará expor tudo diante dos olhos do leitor"48.
Em Is there a text in this class?, lançado no início dos anos 80, o crítico norte-americano Stanley Fish propõe que um texto é formado pelas estratégias de interpretação a ele aplicadas. Diferentemente de Jauss e Iser, para Fish tais estratégias não são condicionadas pelo texto, não são um resultado, mas adviriam de comunidades interpretativas, centros de poder do discurso sobre os textos que consolidam certos modos de leitura. O leitor, com mais ou menos consciência, filia-se a essas comunidades interpretativas, adota-lhes as estratégias de interpretação e acaba percebendo um certo texto a partir do que lê:
Comunidades interpretativas são formadas por aqueles que compartilham estratégias interpretativas não para ler (no sentido convencional) mas para escrever textos, para constituir suas propriedades e assinalar suas intenções. Em outras palavras, essas estratégias existem antes do ato de leitura e portanto determinam a forma do que é lido ao invés do contrário, como se costuma presumir.49
O resultado é que a "objetividade", "estabilidade" ou "universalidade" do texto desaparece,

Nessa mesma linha, Roland Barthes já havia proposto em 1970, no estudo intitulado S/Z, uma concepção de texto "escrevível" (writerly) que faria do leitor "não mais um consumidor, mas um produtor do texto"50. Ao empreender a análise da novela Sarrasine, de Balzac, Barthes fragmenta o texto em unidades de sentido a que chama lexias. Acaba por mostrar como esses pedaços recortados e relacionados pelo leitor é que põem em relevo os múltiplos significados da obra e, em última instância, constroem o texto, que "não existiria" sem esse lento e minucioso trabalho de remontagem. Por isso, chega a dizer que "quanto mais plural é o texto, menos está escrito antes que eu o leia" (p. 43) e "o trabalho do comentário (...) consiste precisamente em maltratar o texto, em cortar-lhe a palavra" (p. 48).


Se o leitor ganha assim um estatuto bastante autônomo em relação à linearidade imposta ao texto por sua materialidade impressa, a figura do autor, em igual proporção, perde seu poder.
Em "A morte do autor", Barthes contesta a "tirânica" posição reservada ao autor pela historiografia e crítica literárias, que tradicionalmente tentaram explicar uma obra em função da figura biográfica de quem a produziu. Para Barthes, a noção de autor (e suas hipóstases, como sociedade, história, psiquê) é uma forma de limitar o texto, conceber um significado final, fechar a escrita. Segundo o crítico, um texto não é feito para ser decifrado, mas para ser trilhado nos limites de seu "espaço", sem que se pretenda ver algo que esteja além do próprio texto: "a estrutura pode ser seguida, 'desfiada' (como se diz de uma malha de meia que escapa) em todas as suas retomadas e em todos os seus estágios, mas não há fundo; a estrutura propõe sentido sem parar, mas é para evaporá-lo"51. O autor, que evidentemente se dedicou a um trabalho de seleção e organização lingüística e estilística e submeteu seu texto à composição linear, teria produzido tão-somente uma espécie de partitura ou script que encontraria no leitor o instrumentista ou ator que daria vida à obra.
O "impeachment" do autor declarado por Barthes decorre também da noção de que nenhum texto é em absoluto original. Ao produzir um texto, o autor emprega, consciente ou inconscientemente, inúmeras referências textuais de modo que a literatura é um discurso em grande medida auto-referente, uma vez que as obras explícita ou implicitamente dialogam entre si52. Para Barthes, "um texto não é feito de uma linha de palavras a produzir um sentido único, de certa maneira teológico (que seria a 'mensagem' do Autor-Deus), mas um espaço de dimensões múltiplas, onde se casam e se encontram e se contestam escrituras, das quais nenhuma é original: o texto é um tecido de citações, saídas dos mil focos da cultura"53.
Um determinado texto, portanto, jamais está isolado, por mais que seja essa a impressão quando o indivíduo está sozinho, com a caneta sobre o papel no ato da escritura ou com o volume nas mãos na situação de leitura. No conto "Ex-Cathedra", Machado de Assis já anunciava o esforço do protagonista de incorporar a seu texto uma vastíssima gama de saberes e leituras:
"Estava atordoado, deslumbrado, delirante. Foi às estantes, desceu alguns tomos, astronomia, geologia, fisiologia, anatomia, jurisprudência, política, lingüística, abriu-os, folheou-os, comparou-os, extratou daqui e dali, até formular um programa de ensino. Compunha-se este de vinte capítulos, nos quais entravam as noções gerais do universo, uma definição da vida, demonstração da existência do homem e da mulher, organização das sociedades, definição e análise das paixões, definição e análise do amor, suas causas, necessidades e efeitos." 54
As inúmeras referências que deram origem ao "programa de ensino" do protagonista amalgamam-se num fluxo contínuo de escritura, uma escritura que esconde sob a capa da clausura (completude) e da ordem (linearidade) os mil poros que comunicam a obra com a constelação de obras que nela estão explícita ou implicitamente referenciadas. Essa percepção de Machado de Assis antecede as teorias que no século XX fizeram da intertextualidade um recurso estilístico de vanguarda. Para dizer como Umberto Eco, toda obra é em certa medida uma "obra aberta".
Enfim, seja porque o texto reserva "buracos" que devem ser preenchidos pelos horizontes de expectativa dos leitores, seja porque a leitura é um trabalho de reescritura do texto, seja ainda porque os textos nascem das múltiplas referências intertextuais que autores e leitores são capazes de articular, o fato é que não se pode confundir o texto em suporte impresso com um fatal empobrecimento dos processos de escrita e leitura. Muitos, empolgados com as novidades do texto eletrônico, seguem esse raciocínio e reduzem o texto verbal registrado pela escrita a um apertado calabouço. Arlindo Machado por exemplo defende que a complexidade de raciocínio de pensadores como Saussure, Lacan, Marx, Benjamin explicaria por que eles teriam publicado tão pouco: "é possível que, em última instância, o pensamento de tais homens fosse complexo demais para ser reduzido à camisa-de-força do texto impresso. É possível que o pensamento desses mestres resistisse ao controle de qualidade da escrita seqüencial, com sua lógica de inferências demasiado simplista, e se adequasse melhor a uma forma de registro não-linear, de que o arquivo de anotações era a única opção disponível em suas épocas" 55. O contra-exemplo de pensadores importantes como Freud, Foucault, Barthes, que produziram uma quantidade significativa de "escrita seqüencial", basta para refutar um tal raciocínio.
O livro, como qualquer tecnologia, procurou responder a certas necessidades, consolidou certas propriedades textuais e paratextuais, prestou-se a certos usos. Conhecer esse velho companheiro nos ajuda a prosseguir a história e perceber com mais nitidez o que se altera com textos, autores e leitores quando os livros disputam com outras mídias a missão de veicular produtos culturais e quando as palavras e frases encontram nos monitores do computador uma nova morada. A história, pois, continua.

1 Segundo relatório da Câmara Brasileira do Livro, que analisou vários aspectos da comercialização e recepção do livro no Brasil, 30% dos que compram livros o fazem para "obtenção de conhecimento", 22% para "ter momentos de distração e lazer", 17% para "evoluir espiritualmente", 8% para "evoluir profissionalmente", 8% para "estar atualizado" e 4% para "buscar aprimoramento pessoal". "Dar de presente" e "interesse pelo título/assunto" são outros motivos de compra detectados na pesquisa. Cf. Relatório "Retrato da Leitura do Brasil", Câmara Brasileira do Livro, 2001. Cópia em CD- ROM.

2 Gabriela Levy, 8 anos, publicou seu poema no site "Salão de poesia" [online].


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