Curso de Especialização – Gestão Holística Abordagem Transdisciplinar



Baixar 17.84 Kb.
Encontro17.01.2018
Tamanho17.84 Kb.

Psicóloga - Rosilde Ap. C. Sitniki Xavier

Seminário: “O Desencantamento das Imagens do Mundo”:
Retomando ao 1º Seminário “O Desencantamento das Imagens do Mundo”, no qual de quanto brilho foi transmitido o aprendizado; me pus a pensar, observar, e repensar no registro proposto.

Aprendizado este que fez-me olhar para dentro, com um olhar diferente, ou seja; até então não visto, em questionar, perceber e sentir a minha estória de vida, experiências até então fragmentadas, racionalizadas e não percebidas globalmente com sensibilidades.

Assim meus pensamentos se vão em ondas que remetem ao passado-presente-futuro; multiplicidade de tempos vividos; e perguntam-me a que momento, a que universo do meu ser sofri toda a repercussão da ciência clássica e do processo de modo capitalista e de como questões existenciais não foram preenchidas e necessidades fizeram-me buscar um novo referencial com mudanças de percepção.

Faço então um paralelo ...! ‘ De um espaço – tempo de minha existência... Rosilde... “O desencantamento da dança clássica e o reencantamento com a dança contemporânea.



Dança clássica x Dança contemporânea :”

Desde meus onze anos de idade, tive a oportunidade de fazer o Curso de Danças Clássicas e Formação de Dança a Nível Superior.

Estudar, praticar e viver a Dança era, é, meu existir.

A dança – ballet clássico, nasce na Itália no séc. XV e se desenvolve na França no final do séc. XVI e começo do séc. XVIII. Se codifica pela academia da Dança, levando ao campo do “academicismo” e à esclerose; a perfeição técnica dos passos torna-se um fim em si mesmo, o essencial a partir daí era a clareza, o equilíbrio e a ordem, mesmo que isto levasse a uma rigidez. Segundo Roger Garaudy “a arte se separa da vida e de sua expressão”.

Então o artista volta-se para uma técnica brilhante (com seus passos codificados) sendo um virtuosismo puro sem significação humana.

Levado para a Rússia, exercendo, uma verdadeira ditadura coreográfica sobre os balés imperiais de czares, um ornamento do regime aristocrático, uma arte eclética, sem raízes nacionais do povo, sem caráter nacional.

Dos teatros Imperiais russos atingiu alto grau de perfeição técnica, esclerosou-se em um academicismo que correspondia às necessidades de um público muito especial: reservados aos soberanos, a sua corte, altos funcionários. Os bilhetes eram vendidos em assinaturas à aristocracia de sangue e do dinheiro, passadas de geração a geração, público então conservador exigindo uma arte cristalizada numa perfeição imutável, sem nada dizer ao homem.

A dança que sempre falou do amor, da luta, da morte e das coisas depois da morte, degenerou, num academicismo, sem nenhum significado humano.



“O desencantamento” da dança aconteceu como o resultado do processo técnico e codificado da dança clássica e a dominação da sua expressão. Chegando a um grau de decadência e futilidade do ballet clássico no início do séc. XX.

Estes com seus passos e seus encadeamentos obedeciam a uma ordem pré-fabricada, ao imitar e não criar.

Arte dominadora e manipuladora para manter um controle social, com neutralidade advindo do conhecimento técnico exigente e determinismo exagerado diante das exigências da ordem e reversibilidade; o observado e o observador estão separados. O bailarino ele sabe, ele tem o conhecimento, a técnica e o espectador vê algo desconhecido de longe alcance, não participa, existindo a distância entre palco-platéia...

“Trazendo para minha experiência... dos anos de prática e estudo do ballet clássico; a rigidez do ensino era evidente, haviam horas e horas de ensaios exaustivos e repetitivos quando marcados espetáculos. Rigidez com o fim de uma técnica perfeita dos passos, sem erros. Dores no corpo e pés; pés com calos, que não podiam parar; afim de obter uma técnica imperdoável. Se apenas um braço, uma mão, um virar de cabeça era desarmônico, se repetia toda a seqüência, quantas vezes fosse necessário buscando a perfeição.

Os espetáculos eram baseados em ballets de repertório, escritos como estórias pré-estabelecidas, a copiar; “exemplo: “A Bela Adormecida”, “O Lago dos Cisnes”, “Gisele”, “La Sylphide” e vários outros. O bailado era baseado em formas estáveis, círculos, filas, retas; quadrados, semi-círculos, triângulos, a não variar, homogeneamente.

Durante o curso, severas avaliações eram praticadas, diante de testes de aptidão física e aptidão técnica. Todos os dias aulas práticas para alcançar perfeição técnica da dança clássica. Notas e médias estabelecidas para aprovação à elevação dos níveis.

Hoje por conseqüências, tenho joanetes nos dois pés, e certa instabilidade nas articulações.

Sinto que enfrentei um regime rígido, incontestável, onde não se podia errar e a busca de perfeição sufocava; porém o lado da disciplina e a necessidade do exercer da técnica clássica, serviram como base e ou ponto de partida para outras visões e práticas futuras da dança.”

Não se implica um repúdio total da dança clássica: o aprendizado do ballet em si, não era equivocado, mas incompleto, porque baseado unilateralmente no trabalho das pernas e inadequado às exigências de nossa época. Não se reduz a dança em um sistema de passos e figuras codificadas, como processo de intelectualização, racionalização e domínio pela técnica.

“E em certo dia resolveram colocar na grade de ensino: a dança contemporânea”...

Chegou uma professora nova trazendo esta novidade, que todos estavam curiosos em saber e aprender.

“O novo estava presente; nesta aula podia-se vascilar, errar; a técnica já não era exigida como perfeição e ou como fim; a criatividade é essencialmente estimulada.

As relações dos bailarinos no contexto da dança é estimulada e trabalhada e o improviso é exercido.

O ritmo é percebido e podido criar e sentir; o imitar já não cabe.

Os espetáculos são ricos em emoções, percepção e experiências vividas no cotidiano das pessoas, trazendo emoções e conflitos revividos no corpo e exprimidos pela dança.

O observado está junto do observador; do palco se transmite ligações ao espectador e na platéia é permitido envolver-se numa mesma sintonia, sincronicidade e relações.

A música se atreve a ter outros ritmos, assim como nos espetáculos as formas irregulares, de círculos, triângulos, filas se fundamentam.

Os pés já não doem e a rigidez é substituída por construções e integrações.

Conexões são estabelecidas dentro de todo um sistema.

Aqui a aptidão física não é eliminatória, e sim acolhedora diante das diferenças”.

Segundo Maurice Béjart “ o dançar nasce da necessidade de dizer o indizível, de conhecer o desconhecido, de estar em relação com o outro.”

As artes tiveram que descobrir uma nova linguagem para expressar as necessidades e sentimentos do séc. XX.

Desde o início do séc. XX que os homens vivem num mundo de máquinas. O problema não é somente fazê-las funcionar, mas viver com elas.

Segundo Roger Garaudy, “do momento em que esta mecanização do trabalho e da vida como um todo tende a fazer do homem um apêndice de carne numa maquinaria de aço, a manipulá-los de fora e a aliená-lo cada vez mais é o primeiro problema para a dança moderna, uma vez que ela quisesse realmente participar da humanização da vida.”

Assim como a ciência da complexidade, que nos dá um referencial para mudanças de percepção.

O “reencantamento” da dança aflora e estimula toda a arte nova que conecta. No qual traz a dança moderna que somente pode ser aferida por uma visão sistemática, que represente na criação de uma harmonia global entre o homem e a natureza, entre o homem e o homem, entre o homem e a sociedade.

Roger Garaudy diz que a “ primeira grande inversão da história da dança é em vez de fazer os movimentos partirem de fora, dirigidos por uma etiqueta, um protocolo estabelecido de um modo definitivo, como o ballet clássico tinha aceito, recriar, ao contrário, os movimentos do corpo partindo de dentro.”

A dança moderna afirmou o poder do corpo de se mover de dentro, como um centro autônomo de forças de decisão.

Ao contrário do ballet clássico, onde os passos e seus encadeamentos obedeciam a uma ordem pré-fabricada; a dança moderna procurou compor a forma do movimento como expressão de um significado interno. Contra o exclusivo virtuosismo mecânico das pernas, pôs o corpo para trabalhar, privilegiando, em lugar dos membros periféricos, o centro gerador de todo movimento, o tronco a partir do qual a energia interna se expande em ondas sucessivas de explosão.

Esta dança não podia se cristalizar num sistema, mas um ponto de vista novo sobre a vida, um modo novo de abordar o mundo.

Assim o reencantamento se fez presente-futuro.

A arte liberta, a dança cria, improvisa e envolve pelo amor, com amor para o amor na sensibilidade da humanidade.

Obrigada, por esta experiência!...


Rosilde Sitniki Xavier.



©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal