Cyro dos anjos o amanuense belmiro



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CYRO DOS ANJOS

O AMANUENSE BELMIRO



romance

7.a edição

Nota biobibliográfica

Prefácio de Antônio Cândido

LIVRARIA JOSÉ OLYMPIO EDITORA
RIO DE JANEIRO—1971

Anjos, Cyro dos, 1906 -



O Amanuense Belmiro, romance- Prefácio de Antônio Cândido. 7.a ed., Rio de Janeiro, Editora José Olympio, 1971.

Publicado em convênio com o Instituto Nacional do Livro —MEC.

OBRAS DO AUTOR :
O Amanuense Belmiro—Romance—1.ª edição, Editora "Os Amigos do Livro", Belo Horizonte, 1937; 2.", Livraria José Olympio Editora, Rio, 1938; 3.ª, Saraiva S/A.. São Paulo, 1949; 4.º, "Livros do Brasil", Lisboa, 1955; 5.ª. revista (com a 3.ª de Abdias), Livraria José Olympio Editora, Rio, 1957; 6.a, na Coleção Sagarana, Livraria José Olympio Editora, Rio, 1966.
NO ESTRANGEIRO:

El Amanuense Belmiro — Tezontle, México, 1954. Carnevale a Belo Horizonte — Fratelli Bocca Editori, Milão, Itália. 1954.

Abdias — Romance — Livraria José Olympio Editora, Rio, 1945; 2." edição. Saraiva S/A., São Paulo, 1956; 3.\ revista (com a 5.» de O Amanuense Belmiro), Livraria José Olympio Editora, Rio, 1957.
Explorações no Tempo — Crônicas (passou a integrar volume de memórias). — Ministério da Educação, Serviço de Documentação, 1952.
A Criação Literária — Ensaio—Edição da Revista Filosófica, Coimbra, Portugal, 1954; 2.' edição, Ministério da Educação. Serviço de Documentação, 1956: 3.", Livraria Progresso Editora. Bahia, 1959.
Montanha — Romance — 1." edição, Rio de Janeiro, 1956; 2.ª, 1956, ambas da Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro.
O Amanuense BelmiroAbdias—reunidos em um só volume, 1.ª edição, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro. 1957.
Explorações no Tempo—Memórias. Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1963.
Poemas Coronários—Edições de Arte, Universidade de Brasília, 1964.
O AMANUENSE BELMIRO

NOTA DA EDITORA



DADOS BIOBIBLIOGRÁFICOS DO AUTOR
Cyro Versiani dos Anjos, 13.° entre os quatorze filhos do casal Antônio dos Anjos e Carlota Versiani dos Anjos, nasceu em Montes Claros, Minas Gerais, a 5 de outubro de 1906. Reunido em torno da "mesa de pereiro branco", o clã Versiani dos Anjos, malgrado o ambiente rural e as longas distâncias que o separavam dos mundos urbanos mais atingidos pelo progresso, não estava ausente do gosto pela arte e pela literatura. O patriarca da família, fazendeiro e professor, amava a leitura e o debate de idéias, entretendo-se com o- latim tradicional entre mineiros e, ainda mais, com escritores e temas contemporâneos. Dona Carlota, por sua vez, gostava de música e na casa sertaneja não faltavam os acordes de Bach e Beethoven, ouvidos ao piano numa época em que um Pleyel, para alcançar Montes Claros, tinha de fazer acidentada viagem de mais de 30 dias, em carro de bois.

Aos 8 anos, já o futuro romancista deixava entrever visíveis inclinações literárias, rabiscando um jornalzinho manuscrito intitulado Horas Vagas, revelador ao mesmo tempo do embrião de jornalista que se formava e da disciplina infantil a que se submetia na vida cotidiana e familiar. Aos 10, Cyro dos Anjos já editava um jornal chamado O Civilista, estimulado por um amigo da família dono de tipografia, deixando ver a influência política da primeira campanha de Rui Barbosa, de quem seu pai era ardoroso partidário. Iniciando os estudos médios na Escola Normal de Montes Claros, em cuja pequena biblioteca descobriu (aos 15 anos) Machado de Assis, Eça de Queiroz, Alexandre Herculano, Fialho e Camilo Castelo Branco, Cyro dos Anjos transferiu-se em 1924 para Belo Horizonte, onde concluiu o curso secundário e o de Direito, bacharelando-se em 1932.

Dedicando-se ao jornalismo, a fim de prover o próprio sustento, Cyro dos Anjos trabalhou nos jornais Diário da Tarde (1927), Diário do Comércio (1929), Diário da Manhã (1929), e Diário de Minas (1930). Em 1933, como redator de A Tribuna, publicou sob o pseudônimo de Belmiro Borba, as crônicas que foram o germe de O Amanuense Belmiro. Malograda tentativa de advocacia na cidade natal fez com que desistisse da profissão, voltando à imprensa e ao serviço público em Belo Horizonte- Em 1931 Cyro dos Anjos já era oficial de gabinete da Secretaria de Finanças de Minas Gerais, cargo que marcou o início de uma carreira pública onde sempre ocupou funções de destaque. Oficial de gabinete do Governo de Minas (1935-1938), Diretor da Imprensa Oficial de Minas (1938-1940), Diretor do IPASE (1946-1951), Professor de Estudos Brasileiros nas Universidades do México e Lisboa (1952-1955), Subchefe do Gabinete Civil da Presidência da República (1957-1960) e, finalmente, Conselheiro do Tribunal de Contas de Brasília, são as etapas que definem a carreira de Cyro dos Anjos no serviço público estadual e federal, a que se acrescentam os títulos de fundador da Faculdade de Filosofia de Minas Gerais e da Universidade de Brasília, sendo nesta última regente do curso Oficina Literária, que exerce juntamente com os deveres de fiscal dos dinheiros públicos na capital do país.

Estreando na literatura em 1937, com o romance O Amanuense Belmiro, muito bem recebido pela crítica, Cyro dos Anjos pertenceu ao grupo de escritores em que se destacavam Carlos Drummond de Andrade, Emílio Moura e João Alphonsus, os dois últimos já falecidos, além de Newton Prates e Guilhermino César, este radicado atualmente em Porto Alegre, de cuja vida intelectual participa com intensidade. Seu segundo livro, também romance, Abdias, saiu em 1945 e o terceiro, ainda no mesmo gênero, Montanha, em 1956, ambos editados por esta Casa. Mas o romancista Cyro dos Anjos, apesar do sucesso conquistado, inclusive no exterior com as versões espanhola e italiana de O Amanuense Belmiro, ambas de 1954 no México e na Itália, revelou-se também ensaísta e memorialista, publicando em 1954 (Coimbra, Portugal) um estudo sobre A Criação Literária e, em 1963, em edição nossa, Explorações no Tempo, volume de memórias. Seu último trabalho, por sinal, data de 1963 e nele o ensaísta e romancista cede lugar ao poeta bissexto dos Poemas Coronários, publicados pela Universidade de Brasília. Cyro dos Anjos pertence à Academia Mineira de Letras e possui várias condecorações nacionais e uma de Portugal. Em 1969 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, cadeira n.° 24, sucedendo a Manuel Bandeira. Casado em 1932 com D. Zelita Costa dos Anjos, o romancista tem seis filhos: Margarida, Márcia Antonieta, Martim Afonso, Antônio Joaquim, Joaquim Carlos e Francisco de Assis.

Rio, outubro de 1971.

ESTRATÉGIA (Prefácio de Antônio Cândido)
O Sr. Almeida Salles publicou certa vez em Planalto um dos rodapés mais inteligentes que têm aparecido na imprensa periódica de S. Paulo, no qual aplica à nossa literatura a distinção de Valéry entre escritores estrategistas e escritores táticos, alargando-se em reflexões muito agudas e muito justas sobre a natureza da criação literária. Os nossos autores, segundo o Sr. Almeida Salles, pertencem quase na totalidade ao segundo grupo, isto é, o composto pelos dotados de talento e habituados a construir segundo o influxo dele, no primeiro movimento da inspiração. Guiando-se quase apenas pelo instinto, opõem-se deste modo aos do primeiro grupo, que vêem na criação o afloramento definitivo de um largo trabalho anterior, baseado em anos de meditação e de progressivo domínio, dos meios técnicos. Confiam. numa palavra, menos na força impulsiva do talento que no domínio vagaroso, mas seguro, dos recursos da sua arte — condição primeira para a plena expressão do seu pensamento; e da sua sensibilidade.

Lendo o artigo, a primeira pessoa em que pensei foi o romancista mineiro Ciro dos Anjos, que. para falar como o Sr. Almeida Salles (ou Valéry, se quiserem), me parece um dos maiores dentre os poucos estrategistas da literatura brasileira contemporânea. Segundo me contam, Ciro dos Anjos anda pela casa dos quarenta. Há mais de cinco anos publicou o seu único livro—O Amanuense Belmiro—uma obra-prima, sem dúvida alguma. A impressão de acabamento, de segurança, de equilíbrio, de realização quase perfeita, revelam o artista profundamente consciente das técnicas e dos meios do seu ofício, possuidor de uma visão pessoal das coisas, lentamente cristalizada no decorrer de longos anos de meditação e estudo. Porque esse romance é o livro de um homem culto. No seu subsolo circulam reminiscências várias de leitura, ecos de Bergson, de Proust, de Amiel, de autores cuidadosamente lidos ou harmoniosamente incorporados ao patrimônio mental. Por isso é que ele ressoa de modo tão diferente no nosso meio, com um som de coisa definitiva e necessária, nem sempre produzido pelas obras dos nossos generosos táticos.



O Amanuense Belmiro é o livro de um burocrata lírico. Um homem sentimental e tolhido, fortemente tolhido pelo excesso de vida interior, escreve o seu diário e conta as suas histórias. Para ele, escrever é, de fato, evadir-se da vida; é a única maneira de suportar a volta às suas decepções, pois escrevendo-as, pensando-as, analisando-as, o amanuense estabelece um movimento de báscule entre a realidade e o sonho. "Quem quiser fale mal da Literatura. Quanto a mim, direi que devo a ela a minha salvação. Venho da rua deprimido, escrevo dez linhas, torno-me olímpico... Em verdade vos digo: quem escreve neste caderno não é o homem fraco que há pouco entrou no escritório. É um homem poderoso, que espia para dentro, sorri e diz: 'Ora bolas'."

O amanuense é infeliz. Chegou quase aos quarenta anos sem nada ter feito de apreciável na vida. Sonha; carrega nas costas a enorme trouxa de um passado de que não pode se desprender, porque dentro dele estão as doces cenas da adolescência. De repente, uma noite de carnaval lhe traz a imagem de uma donzela gentil. O amanuense ama, mas à sua maneira: identificando a moça de carne e osso, que mal enxerga de quando em vez, com a imagem longínqua da namorada da infância, ela própria quase um mito—um mito como o da donzela Arabela. Não é difícil perceber o mal de Belmiro, literato in erba, lírico não realizado, solteirão nostálgico. A sua desadaptação ao meio levou-o à solução intelectual; esta, que falhou como solução vital, permanece como fatalidade, e o amanuense, a fim de encontrar um pouco de calor e de vida, é empurrado para o refúgio que lhe resta—o passado—uma vez que o presente lhe escapa das mãos ("[___] bem noto que vou entrando numa fase da vida em que o espírito abre vôo das suas conquistas e o homem procura a infância, numa comovente pesquisa das remotas origens do ser.") Ora. se fosse só isso, estava tudo muito bem. O drama é que o presente se insinua no passado. Se fosse possível viver integralmente no mundo recriado pela memória, haveria a possibilidade de um modus vivendi, quase normal, a seu jeito, como o do narrador do Temps Perdu. Acontece, porém, que a sensibilidade de Belmiro, jogando-o como uma bola entre o passado e o presente, perturbando este com os arquétipos daquele, desmanchando a pureza daquele com a intromissão das imagens deste, não lhe permite uma existência atual. "[....] depois de uma infância romântica e uma adolescência melancólica, o homem supõe que encontrou a sua expressão definitiva e que sua própria substância já lhe basta para as combustões interiores; crê encerrado o seu ciclo e volta para dentro de si mesmo, à procura de fugitivas imagens do passado, nas quais o espírito se há de comprazer. Mas as forças vitais, que impelem o homem para a frente, ainda estão ativas nele e realizam um sorrateiro trabalho, fazendo-o voltar para a vida, sedento e agitado. Para iludir-lhe o espírito vaidoso, oferecem-lhe o presente sob aspectos enganosos, encarnando formas do passado."

Belmiro, então, se entrega ao presente: mas não o vive. Submeto se, e readquire o equilíbrio pela auto-analise. Sabe que não lhe adianta pensar em como as coisas seriam se não fossem o que são, e. concluindo que "a verdade está na Rua Erê", isto é, na sua casinha modesta e o seu ramerrão cotidiano, recita com o poeta:
"Mundo mundo, vasto mundo

Se eu me chamasse Raimundo...

Seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo, vasto mundo

Mais vasto é o meu coração."
"Mais vasto é o meu coração". Conclusão típica de introvertido, de homem que não lamenta, como Lawrence:
"I was so weary of the world.

I was so sick of it.

Everything was tainted with myself",
porque a sua evasão consiste justamente em introjetar o mundo e banhá-lo todo nas próprias águas. Belmiro é o homem que chegou ao estado de paralisia por excesso de análise "[....] já lhes contei o que se passa dentro de mim quando começo a meditar: perco-me num labirinto de antinomias." Isto significa que é um candidato ao cepticismo integral e à imobilidade através do relativismo. Sempre a tomar consciência plena das suas variações e dos seus aspecto:; múltiplos, Belmiro é o contrário do homem forte de que fala Balzac. o homem que não se lembra, que cresce num impulso vegetal, sem a peia do passado. Há uma circunstância, porém, que o salva, que o liberta das redes do analista: o senso lírico da vida, que restabelece o equilíbrio vital.

Falou-se muito em Machado de Assis a propósito de Ciro dos Anjos, insistindo-se sobre o que há de semelhante no estilo e no humorismo de ambos. O que não se falou, porém, foi da diferença radical que existe entre eles: enquanto Machado de Assis tinha uma visão que se poderia chamar dramática, no sentido próprio, da vida, Ciro dos Anjos possui, além dessa, e dando-lhe um cunho muito especial, um maravilhoso sentido poético das coisas e dos homens. 0 que é admirável, no seu livro, é o diálogo entre o lírico, que quer se abandonar, e o analista, dotado de humour, que o chama à ordem; ou, ao contrário, o analista querendo dar aos fatos e aos sentimentos um valor quase de pura constatação, e o lírico chamando-o à vida. envolvendo uns e outros em piedosa ternura. Esta alternância, que ele emprega também como um processo literário, encontramo-la de capítulo a capítulo, de cena a cena. na própria construção do estilo. E a certa altura, o amanuense a torna explícita: "Tais desnivelamentos é que compõem minha vida e lhe sustentam o equilíbrio. A um Belmiro patético que se expandiu, enorme, na atmosfera caraibana—contemplando a destruição das suas paisagens—sempre sucede um Belmiro sofisticado, que compensa o primeiro e o retifica, ajustando-o aos quadros cotidianos. Chegado à sua toca da Rua Erê, o Belmiro egresso de Caraíbas se apalpa, se reajusta e assobia a fantasia do hino nacional de Gottschalk."

Esta disposição excepcional, que dá uma dignidade humana tão grande à poesia de Manuel Bandeira e de Carlos Drummond de Andrade, é o fundamento da arte de Ciro dos Anjos, e empresta ao seu romance uma qualidade de vida que é superior à de Machado de Assis. Para conhecer este psicólogo lírico é preciso ler todo o admirável § 33 d'O Amanuense Belmiro, quando ele descobre que o passado que evoca não existe em si, mas é uma criação da sua saudade e da sua imaginação deformadora. O amanuense. pela primeira vez, sofre ao perceber que "ali is tainted with myself", e considera tristemente: "Não voltarei a Vila Caraíbas. As coisas não estão no espaço, leitor; as coisas estão é no tempo. Há, nelas, ilusórias permanências de forma, que escondem uma desagregação constante, ainda que infinitesimal."

Se assim é, por que escrever sobre um passado que realmente não existe e um presente que cede ante a ponta aguda da análise? Belmiro escreve porque precisa abrir uma janela na consciência a fim de se equilibrar na vida, o que não importa em ilusão quanto ao verdadeiro significado deste trabalho: "Grande coisa é encontrarmos um nome imponente, para definir certos estados de espírito. Não se resolve nada, mas ficamos satisfeitos. O homem é um animal definidor."

Numa ordem mais geral de idéias, pode-se dizer que o amanuense é uma ilustração do gravíssimo problema dos efeitos da inteligência, através do seu poder de análise, sobre o curso normal das relações humanas. Encarando assim o livro, o seu núcleo significativo vai ser encontrado numa página do diário de Silviano, indiscretamente lida por Belmiro: "Problema:—O eterno, o Fáustico.—O amor (vida) estrangulado pelo conhecimento."

É este, com efeito, o problema central da obra. A atitude belmiriana resulta de uma aplicação do conhecimento aos atos da vida— entendendo-se neste caso por conhecimento a atitude mental que subordina a aceitação direta da vida a um processo prévio de reflexão. E assim, Ciro dos Anjos nos leva a pensar no destino do intelectual na sociedade, que até aqui tem movido uma conspiração geral para belmirizá-lo, para confiná-lo nas esferas em que o seu pensamento, absorto nas donzelas Arabelas, nas Vilas Caraíbas do passado, na autocontemplação, não apresenta virulência alguma que possa pôr diretamente em xeque a ela, sociedade organizada. Criando-lhe condições de vida mais ou menos abafantes, explorando metodicamente os seus complexos e cacoetes, os poderosos deste mundo só o deixam em paz quando ele se expande nos campos geralmente inofensivos da literatura personalista, ou quando entra reverente no seu séquito. Coisas em que a gente se põe a matutar, quando vê aquele Belmiro tão inteligente e tão sensível, sòlidamente mantido em paz pela magreza do seu ordenado de amanuense, e perfeitamente desfibrado pela prática cotidiana da introspecção (costume muito estimável, segundo os cânones). Ou aquele Silviano cheio de seiva, que é reduzido a não deixar transbordar senão a sua retórica, uma vez que aceitou como valor eterno uma filosofia que lhe aconselha a blague, cômoda para os negócios públicos, da autoperfeição pela ascese intelectual.

Mas não é esta a impressão final que fica do livro de Ciro dos Anjos, cuja releitura faço pela quinta ou sexta vez, o que é um deleitoso consolo, como diria o Eça, para a ficção mais ou menos frouxa com que o crítico tem não raro de se defrontar.

Na página 27. Belmiro fala de um tocador de sanfona da sua Vila

Caraíbas, que "[....] tocava apenas por amor à arte, ou talvez para chorar as mágoas. E chorava-as tão bem que cada um que o cercava, sentia suas mágoas igualmente choradas. O artista se revelava, por esta forma, perfeito, extraindo dos seus motivos individuais melodias ajustadas às necessidades da alma dos circunstantes, que ali iam buscar expressão para sentimentos indefiníveis que os povoavam s só se traduziriam por frases musicais. Esse traço da generosidade inconsciente dos grandes artistas se encontrava no sanfonista da Ladeira da Conceição".

E assim é esse livro, como são em geral os livros dos escritores de Minas.

Livros que lidam com os problemas do homem num tom de tal modo penetrante que autor e leitor se identificam, num admirável movimento de afinação. Não são livros que se imponham de fora para dentro, vibrantes, cheios de força. Insinuam-se lentamente na sensibilidade, até se identificarem com a nossa própria experiência.*


* O estudo que se acaba de ler do grande crítico paulista foi reproduzido de seu livro Brigada Ligeira, editado pela Livraria Martins Editora, São Paulo, s/d. [1945]. N. da E.
"Les Souvenirs que j'ai de ma vie réelle ne

sont ni pius coloria ni plus vibrants que

eeux de mes viés imaginaires."

................................................

"Pour éerire 1'histoire d'un autre, je collabore avec ma propre vie. Qu'on ne cherehe pás à savoir ee qui, dans cette fiction, est indubitablement moi. On s'y tromperait. Et mes proches s'y tromperaient autant et plus que les autres."
(Georges DuhamelRemarques sur les

Mémoires Imaginaires—Paris—Mercure de

France—Sixième édition.)

A o s B o r b a s,

da linha tronco,

desde Porfírio

até Belarmino.

§ 1. MERRY CHRISTMAS!

ALI pelo oitavo chope, chegamos à conclusão de que todos os problemas eram insolúveis. Florêncio propôs, então, o nono, argumentando que esse talvez trouxesse uma solução geral.

Éramos quatro ou cinco, em torno de pequena mesa de ferro, no bar do Parque. Alegre véspera de Natal! As mulatas iam e vinham, com requebros, sorrindo dengosamente para os soldados do Regimento de Cavalaria. No caramanchão, outras dançavam maxixe com pretos reforçados, enquanto um cabra gordo, de melenas, fazia a vitrola funcionar.

O proletariado negro se expandia, comemorando o Natal. Satisfeito, o alemão do bar se multiplicava em chopes, expedindo, para aqui e para ali, garçons urgentes.

—A solução é a conduta católica, afirmou o amigo Silviano, meio vago, como que atendendo a uma ordem interior de reflexões, que não era bem a de nossa conversação.

Redelvim convidou-me, com um olhar malicioso, a prestar atenção ao filósofo.

—Hein? indaguei, voltando-me para este.

—A conduta católica! Isto é, fugir da vida, no que ela tem de excitante, continuou, como que a falar para si mesmo.—Jerônimo anda mergulhado na teologia. É a solução. Sublimou-se nos doutores.

Só pelo gosto de vê-lo dissertar, objetei-lhe que, nesse caso, não haveria solução. O que haveria é supressão da vida. Sem perceber que eu apenas puxava a língua ao Silviano e supondo contar com o meu apoio, o jovem Glicério ousou enfrentá-lo. Imprudentemente apanhou a minha deixa e entrou em cena com entusiasmo, dizendo que o católico destrói a vida pelo modo mais violento. Introduz, em nosso cotidiano, a preocupação da vida eterna, sacrificando, a esta, aquela.

Silviano olhou-o da cabeça aos pés. Glicério é novo na roda, e nosso amigo não lhe permite tais intimidades.

—Não discuto com menores, disse majestosamente.

E, voltando-se para mim:

—Você não sabe o que está dizendo, mas, ainda que fosse uma supressão, por que não havíamos de realizá-la para encontrar tranqüilidade? A grande estupidez é vivermos num conflito constante. Já que não se possui a vida com plenitude, o melhor é renunciar, de vez.

Florêncio pôs a mão sobre o ombro dele e disse maliciosamente:

—Estamos ruinzinhos hoje, hein? A pequena deu o fora?

—Recolha-se, alimária! respondeu, irritado. Não me dirijo a primários.

Florêncio deu uma gargalhada e assentou-se de novo. Redelvim devia estar de bom humor, pois apenas sorria, sem nada dizer. Sempre que se encontra com Silviano, trava discussões acaloradas. Aproximei-os um dia, tentando fazê-los amigos, mas desde o primeiro encontro se repeliram.

Para serenar a roda, propus novo chope, no que fui aplaudido calorosamente por Florêncio. Aqui escreverei que a razão estava com este último. Silviano anda em crise aguda. Jandira, que de tudo sabe, contou-me que o filósofo, já à beira dos quarenta, retrocedeu aos vinte: está amando as moças em flor. O pior é que a mulher, em vez de irritar-se, vive a ridicularizá-lo. Às voltas com os filhos, Joana diz não ter tempo para se ocupar dele. É uma sólida filha de fazendeiro, raça teimosa e viril. A princípio, andou tendo ciúmes e fazia cenas. Depois, fincou pé e deliberou não tomar conhecimento desses descaminhos que, se arranham a fé conjugai, mais arranham ainda as veleidades do quarentão. Pois Jandira acrescentou que, de suas sortidas, o nosso Dom Juan traz mais baldões do que troféus.

—Cidade besta, Belo Horizonte! exclamou Redelvim, consultando o relógio. A gente não tem para onde ir...

—Não acho! retrucou Silviano. Em Paris é a mesma coisa.

—Em Paris? perguntou Florêncio. Não sabia que você andou por Paris... É boa!

—Ó parvo, quero dizer que o problema é puramente interior, entende? Não está fora de nós, no espaço!

Florêncio, já meio alegre, levou as mãos ao ventre, num riso convulsivo. Redelvim e Glicério também desataram a rir. Silviano, indignado, quis retirar-se. Disfarçando o mau epílogo da festa, alvitrei uma retirada em conjunto. Já era hora de jantar e o Parque ia ficando vazio. Sem que percebêssemos, as mulatas e os soldados tinham saído, e as sombras de um crepúsculo avermelhado desciam sobre as árvores.

Separamo-nos, no portão do Parque, e, a caminho de casa, fui ruminando a tese do Silviano. Mas o chope me faz versátil, e minha atenção logo se desviou para outras coisas.

A euforia que o chope traz! A vida se torna fácil, fácil.

Todos os passageiros do bonde Calafate me sorriam. Certamente sorriam, desejando-me um largo "saúde e fraternidade". Como se mostravam ansiosos, rápidos, denunciando pressa de chegar a casa, carregados de embrulhos, onde adivinhei variada matéria-prima para as comemorações domésticas do Natal! A humanidade se transfigura de súbito, neste dia extraordinário. Que elemento se introduzirá na essência das coisas para que tudo venha, assim, apresentar uma face nova e desconhecida, e para que todos os seres ganhem uma expressão especial, quase graciosa, de agitada felicidade? As árvores se fazem mais verdes, e os pardais, como cantam! Será o poder de criar e de transfigurar, que possui a alma humana, ou haverá uma efetiva transformação no tecido íntimo das coisas? Afinal, pouco importa. A realidade é a aparência, e o que é—no fundo—não o é para nós, como diz Silviano.

Um Merry Christmas, que me foi dito com uma palmadinha nas costas, por alguém que ia descer do bonde, fez-me lembrar de que o próximo poste de parada era o da Rua Erê.

Dei o sinal, e voltei-me para saudar o homem. Deveria ser o Prudêncio Gouveia, vizinho de quarteirão. Bom sujeito o Prudêncio. É chefe de Seção e pessoa muito conceituada. Em moço, estudou inglês, e seu único vício é cumprimentar-nos diariamente com um how do you do. A mulher, Juliana Gouveia, toma ar aborrecido e chama-lhe antipático. Mas, lá dentro, fica vaidosa, pois acha o marido erudito: "Sempre é uma vantagem, não acha, seu Belmiro? Vem um dia, ele tirará o seu proveito de saber outras línguas." Na verdade, só fala inglês, mas Juliana lhe encarece as habilidades, aludindo a "outras línguas".

—Merry Christmas, Prudêncio amigo! Merry Christmas!

§ 2. O "EXCOMUNGADO".


PARA surpreender as velhas, entrei pé ante pé, mas a porta, impelida pelo vento, fechou-se atrás de mim com estrépito.

— O Excomungado já vem! resmungou Emília. Estava com Francisquinha no quarto grande, onde costumam passar, juntas, as horas em que a máquina doméstica tem seu funcionamento restrito a uma ou duas peças. Terminado o jantar e arrumada a cozinha, as duas se entregam ao bilro segundo a tradição da casa, até à hora de se deitar. Francisquinha não faz coisa que aproveite e apenas embaraça os fios, mas Emília dá-lhe essa ocupação para a ter quieta. Notei que, anunciando minha chegada, Emília não levantou os olhos da almofada, nem interrompeu o complicado trabalho. É um hábito das rendeiras, mas, no caso, o fato deveria ter significação particular, pois estava com a fisionomia carregada. Como de costume, talvez não desejasse que Francisquinha, animada com esse princípio de conversa, começasse a tagarelar. A necessidade de falar a alguém, na solidão da casa, obriga-a a conversar com a outra, mas procura, pelo melhor modo, reduzir o efeito dessa concessão. Fala dirigindo-se a si mesma, como quem está pensando em voz alta, e, por essa forma, suprime a presença minha ou da mana.

Não resisti ao desejo de provocá-las:

—Boa noite, meninas! Trouxe aqui umas lembrancinhas de Papai Noel para vocês. Ou de Vovô Índio, conforme preferem os nacionalistas.

—Olha o doido, olha o doido, disse Emília, irritada.

Francisquinha deu uma risadinha feroz, pousando em mim os olhinhos brilhantes e fixos.

"Decididamente, as velhas estão bravas hoje", pensei. Pus os pacotes na mesa e fui ao quarto, trocar o jaquetão pelo pijama. No corredor, Tome pregou-me o susto de costume. Aprendeu a dizer, como as velhas: "Excomungado! Excomungado!" e arrepia-se todo ao ver-me, ensaiando uma agressão. Ainda me arranjará uma psitacose. E, na verdade, é só o que me falta.

Curioso pressentimento, o de Emília: na sua meia-luz, bem que percebe em mim certa dissolução de espírito. Encontrou na língua familiar de Vila Caraíbas a expressão própria para traduzir a inquietação que minha presença, às vezes, lhe desperta.

Rio-me sempre, quando exclama "Excomungado! Excomungado!" Mas o epíteto, no bico do papagaio, assume um sentido trágico, faz-me estremecer.

Pobres manas. Emília é apenas uma esquisita, mas Francisquinha, perturbada de nascença, vai de mal a pior. Foi este o grande desgosto que ensombrou os dias do velho Borba e da velha Maia. Desde cedo, viram que seria impossível dar-lhes educação condigna, mandando-as ao Colégio de Diamantina. Tiveram de viver sempre na fazenda, como bicho-do-mato, entre o pessoal de serviço. Quando o Borba morreu (a velha Maia partiu bem antes) e a fazenda foi à praça, recebi-as como herança. Emília não tinha, então, os cabelos grisalhos, e Francisquinha andava pelos trinta. Que custo trazê-las em viagem a cavalo e, depois, no comboio da Central! Vieram iludidas, pensando que iam para São Paulo, ficar na companhia do tio Firmino. Não lhes foi fácil habituarem-se à minha pessoa e modo de vida. Tanto tempo andei afastado delas, que lhes pareci um estranho.

Ainda assim, tão distantes de mim, encheram minha vida, e Emília é, nesta casa, uma presença vigorosa e viril, que restabelece a atmosfera moral da fazenda.
§ 3. O BORBA ERRADO.
DO ALPENDRE da casa, na velha cadeira austríaca, fiquei a olhar os transeuntes. A Rua Erê não é atrativa, neste particular, com sua reduzida fauna humana. Talvez seja isso o que sempre me leva a passear o pensamento por outras ruas e por outros tempos. Como o Natal me fez saudosista! Eu fechava os olhos, e a Ladeira da Conceição surgia, diante de mim, com a nitidez de um acontecimento matinal. Vila Caraíbas e seu cortejo de doces fantasmas. A garganta se me apertava, e eu sentia os olhos se umedecerem comovidos. Que diria o Glicério, com sua suficiência? Rir-se-ia de mim: "Você é um homem errado, Belmiro!"

Se Glicério tivesse conhecido os Borbas, diria, em vez disso, que sou um Borba errado. Onde estão em mim a força, o poder de expansão, a vitalidade, afinal, dos de minha raça? O pai tinha razão, do ponto de vista genealógico: como Borba, fali. Na fazenda, na Vila, no curso. Meu consolo é que sou um grande amanuense. Um burocrata! exclamava com desprezo. Coitado do velho. Queria fazer-me agrônomo. Ou, então, agrimensor. Vila Caraíbas não tinha, ainda, o seu agrimensor formado, e andava, por lá, a febre das divisões de terras. Era contra os princípios paternos o bacharelato em qualquer ramo de ciências ou letras. "Temos .doutores demais, dizia ele. Precisamos é de braços para a lavoura." Mas dei em droga na fazenda e andei zanzando pela Vila, metido em serenatas e noutras relaxações. Coitado do velho. Neguei as virtudes da estirpe. Sou um fruto chôcho do ramo vigoroso dos Borbas, que teve seu brilho rural. Em face do código da família (cinco avós, pelo menos, estão-me dizendo—ilustres sombras!) foi um crime gastar as vitaminas do tronco em serenatas e pagodes. Lá estava a fazenda, grande, poderosa como um estabelecimento público, com suas lavouras à espera de cuidados moços. Sinto muito, avós. Eu não podia ouvir uma sanfona. Tocavam a Varsoviana e eu me dissolvia (lá na Vila lhe chamavam Valsa Viana...).

Coitado do velho. Por fim, declarou que o que não tem remédio, remediado está. Como a minha mãe tivesse o secreto desejo de me ver na carreira das letras (dizia que eu saíra aos Maias e não aos Borbas), acabou pensando num acordo. "Se o menino não se ajeitava na fazenda, que, pelo menos, não se distanciasse dela —poderia tirar uma carta de agrônomo. Ficará nas letras agrícolas", repetia, satisfeito, por um lado com a associação verbal que descobrira, e, por outro, com o parcial deferimento às aspirações da velha.

Abandonei, porém, as letras agrícolas e entreguei-me a outra sorte de letras, nada rendosas. Pus-me a andar na companhia de literatos e a sofrer imaginárias inquietações. Tive amores infelizes, fiz sonetos. Até chegar ao Silviano e ao Redelvim, percorri muitos caminhos. E a mesada paterna se consumia em livros que as necessidades sentimentais e espirituais do mancebo ardentemente reclamavam. Quando, num fim de ano, o pai veio a Belo Horizonte e verificou o logro, houve cena pesada. Uma dessas discussões em que nós, Borbas, nos dizemos coisas duras, para, depois, num desfecho melodramático, nos abraçarmos. Voltou com uma grande dor no coração, para gravame de sua insuficiência mitral, e mais tarde um deputado me introduziu na burocracia.

"Um burocrata, um burocrata!" lamentava nas suas cartas. Em que fora dar sua longa doutrinação, nas colunas da Gazeta Caraibense, em propaganda da vida rural? Seus cinqüenta artigos, em série, sob a epígrafe geral de Rumo à Gleba?

Mas, ao cabo de contas, foi nele que começou o desvio da linhagem rural. Não citavas o teu Vergílio, pai Belarmino? Na verdade, estavas mais próximo dos clássicos (lembro-me de tua predileção, um tanto tendenciosa, para o Horácio...) do que dos currais e das roças. Words... Words... como diria Prudêncio, esclarecendo que a exclamação foi do Hamlet. Bem me recordo de que, a rigor, não funcionavas na fazenda. Por qualquer pretexto, lá ias, na tua besta, rumo à Vila, para trocar dois dedos de prosa com o provisionado Loiola. Confessa, Borba, data de ti a traição à gleba...

Natal! Fiquei até tarde no alpendre. Com a saída dos vizinhos para a missa do galo, recolhi-me. Outras missas, noutros tempos... Como esta vida vai correndo, vai correndo... Um dia sentiremos uma sacudidela, tal como no poema:
Stop.

A vida parou

ou foi o automóvel?

§ 4. QUESTÃO DE OBSTETRÍCIA.



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