Da arte de se tornar judeu: cotidianos, ritos e outras estratégias identitárias vivenciadas pelas comunidades judaicas em Campina Grande/PB



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Da arte de se tornar judeu: cotidianos, ritos e outras estratégias identitárias vivenciadas pelas comunidades judaicas em Campina Grande/PB

Mirella de Almeida Braga1



Emanuel Oliveira Braga2
Resumo: O presente artigo abre um debate acerca do processo de formação de fronteiras étnicas em/entre três comunidades judaicas atuantes no município de Campina Grande/PB, chamando atenção para determinados elementos do cotidiano, ritos e estratégias que operam como verdadeiros marcos de diferenciação e afirmação identitária. Por meio da descrição de rituais como o Yom Kipur e da reconstrução narrativa de determinadas histórias de vida de indivíduos em suas interações sociais no espaço familiar e comunitário, o texto procura analisar como a histórica resistência cultural judaica se traduz em pequenas atividades cotidianas que revelam uma certa “arte de se tornar judeu”.
Palavras-chave: Comunidades judaicas. Fronteiras étnicas. Identidades culturais.
Dez anos atrás Alessandro Magno visitou a Sinagoga Kahal Zur3 no Recife, Pernambuco, e pôde constatar, aliviado, a sua aproximação genealógica com o judaísmo. Alessandro, por sua própria conta, já havia feito e detalhado a reconstrução de sua árvore genealógica materna, requisito considerado básico para a confirmação da sonhada consanguinidade com o povo judeu. No mesmo período, Davi André de Meneses pagou uma boa quantia de dinheiro para facilitar a aquisição do título de “cidadão judeu” pelo sistema liberal4 nos Estados Unidos e ainda hoje é questionado por muitos adeptos do judaísmo em Campina Grande/PB e no Brasil. Antonio Ribeiro, jornalista campinense, ex-participante da comunidade Beit Teshuva, liderada por Davi André, e da comunidade Magen Davi, liderada por Alessandro Magno, hoje crê que encontrou o judaísmo mais puro ao praticá-lo dentro de sua residência e de sua espiritualidade individual, sem ligação direta com alguma coletividade religiosa específica. Ana Elya, de família assembleiana e católica, em determinado momento da sua vida de “busca pela verdade”, se interessou fortemente pelas tradições hebraicas. Ela foi quem primeiro afirmou o judaísmo em sua família. Começou a pesquisar os costumes, celebrações e a tradição judaica e, aos poucos, convenceu o esposo Jessé que já andava desconfiado com as pregações do pastor da Assembleia de Deus. Há doze anos Ana, Jessé e seus dois filhos professam o judaísmo em Campina Grande. Enquanto isso, Alberto, amigo do Alessandro Magno, um dia disse: “eu vou para Israel”, vou fazer meu processo de conversão. Ele já conhecia alguns judeus em Recife que deram uma carta de recomendação e um belo dia foi. Estudou, se converteu, e atualmente é casado com uma “judia pura”, tem dois filhos e trabalha em Israel com seu novo nome: Kaleb. Joaquim, formado em Física e atuante na mesma área de formação na empresa Proton - Produtos Eletrônicos do Nordeste. Joaquim entrou em contato com os rabinos sefarditas5 de Belém do Pará e está em processo de conversão. Ele afirma ser descendente de judeus marranos6 e sente, cada vez com mais convicção, que é judeu sim; e a melhor forma de resolver isso é trabalhando por sua conversão. Pedro, professor de História na rede municipal de Campina Grande, assim como Ana Elya, conheceu o judaísmo quando estava “em busca da verdade” na Bíblia. Questionava-se sobre o conceito de “salvação” e sobre a interpretação cristã sobre o “verdadeiro messias”. Assim, Pedro encontrou no judaísmo a explicação de muitas de suas escolhas alimentares e iniciou o estudo da língua hebraica e da Torá. Hoje segue de forma solitária o judaísmo, se denominando seguidor do judaísmo caraíta7. Pedro estudou na Universidade Israelita de São Paulo, onde foi aprovado e terá em breve que apresentar um trabalho final de curso, uma monografia. Em seguida ele poderá participar da cerimônia de conversão e ir até aos Estados Unidos a fim de obter o almejado “título de judeu” pelo sistema liberal8.

O que essas trajetórias narradas, tão particulares e tão ansiosas por reconhecimento, têm em comum? Há um frisson, uma (se assim posso me expressar) “pequena odisseia” produzida por cada sujeito na busca incansável pela identidade judaica nos cotidianos e ritos presentes nas experiências de vida dos judeus das comunidades Magen David e Beit Teshuva, e entre aqueles que, de forma individual, a exemplo de Pedro, seguem a tradição judaica caraíta, todos atuantes em Campina Grande/PB. O entrelaçamento de tais lampejos de histórias de vida, construídas por meio de uma recente imersão etnográfica9 na intimidade de algumas famílias e indivíduos que se declaram adeptos do judaísmo, permite que interpretemos o processo de constituição das fronteiras étnicas e identitárias em conformidade com o que conforme nos indica Fredrik Barth (2000): “grupos étnicos são categorias atributivas e identificadoras empregadas pelos próprios atores: consequentemente têm como característica organizar as interações entre as pessoas”.

O entrelaçamento de trajetórias individuais, familiares e sociais mostra-se uma boa estratégia para se pensar a construção de identidades culturais e fronteiras étnicas por compreender dentro de um grande conjunto de escolhas pessoais, em meio à miríade aparentemente caótica de possibilidades de vidas, certas regularidades sociais que podem caracterizar grupos, movimentos e agenciamentos coletivos.

Diante do emaranhado de pontos de vista locais e do entrelaçar de informações da pesquisa, procuro analisar os processos sociais que dão plausibilidade à construção identitária judaica em Campina Grande, na esteira do que Rosaldo ponderou em seu trabalho de campo: “así, comencé a desentrañar, por medio de mi propia pérdida, lo quelos ilongotes me decían sobre sus pérdidas, y no mediante una preparación sistemática para la investigación de campo” (1991, p. 21).

Clifford Geertz (2008) mostra que em qualquer discurso o código não determina a conduta, e o que foi dito explicitamente ao interlocutor não precisava sê-lo, na verdade. A análise descritiva do etnógrafo a partir de um determinado discurso não deixa de ser uma interpretação de segunda ou terceira mão. Isso não desautoriza a validade do trabalho etnográfico, pois interagindo ou não com a fala do nativo, ele não expõe os dados em si, mas uma visão sobre eles. Para compreender os processos de construção das identidades judaicas em Campina Grande foi necessário um esforço diário de alteridade, tendo em vista que a pesquisadora que elabora o presente artigo é alguém que pertence a uma “cultura diversa” do seu objeto-sujeito de estudo, apesar de saber que o fato de serem judeus não os torna completamente diferentes do meu “eu”. Muitos dos aspectos dos cotidianos dos grupos e famílias ora descritos são bastante semelhantes à vida de adeptos de outros sistemas religiosos e de outras dinâmicas cotidianas.

Minha experiência como etnógrafa em Campina Grande tem sido intensa, compartilhando boas experiências com todas as comunidades judaicas visitadas, em constante diálogo com pessoas dispostas a contribuir com a aventura antropológica proposta. Devo a eles não apenas um rico conjunto de informações que me disponibilizaram, mas também a oportunidade de experienciar a diferença, permitindo-me lidar com uma nova vivência religiosa. Os diálogos constantes e o convívio com estas pessoas cumpriram um importante papel, pois me inseriram no rico contexto da experiência judaica, ensinando-me, assim, a complexidade e a diversidade cultural desse sistema filosófico.


Uma família de judeus em Campina Grande/PB

Ana Elya é uma jovem senhora de aproximadamente 45 anos, nascida no Rio Grande do Norte, dona de casa, mãe de dois filhos, o Júnior, de 19 anos que atualmente serve ao quartel no Recife, e o Davi, de onze anos. Uma criança que “já nasceu na fé judaica”, fala sobre Davi. Antes de conhecer o judaísmo, Ana professava a fé protestante, era frequentadora da igreja Assembleia de Deus em Alagoas, Maceió, onde morava com seu esposo Jessé e o filho mais velho. Ana tem sua origem religiosa em uma família de pai católico, “mas não praticante”, e mãe assembleiana convicta. Casou com Jessé quando o mesmo servia ao exército em Natal/RN. Anos depois Jessé foi transferido e foram morar em Alagoas onde eram frequentadores da Assembleia de Deus. Ana Elya é uma seguidora fiel das celebrações, costumes e tradições judaicas, afirmando categoricamente que a mulher é a coluna do judaísmo, é a fonte segura da educação dos filhos, é a redentora do lar. Defende que a mulher possui três preceitos no judaísmo, desde a educação dos filhos, passando pelo acendimento das velas, até a separação dos alimentos, incluindo a preparação dos pães para a Challah10. Observei que Ana Elya busca se dedicar “com naturalidade” aos preceitos judaicos da mulher no seu trato cotidiano. Em uma conversa que tivemos em sua casa, assim fala do jejum e da celebração do dia do Yom Kipur:


Eu fiquei até oito horas da noite. Cumpri meu jejum. Muitos não aguentaram e saíram. Porque assim não é fácil você passar 25 horas sem comer e sem beber, você não pode tomar banho. Você não pode passar perfume. Eu tiro tudo que é de jóias, porque não pode ter vaidade, porque é um dia em que sua alma sente né. Então é o dia que o eterno volta, ele vem a terra pra julgar seus atos de bom e de mau, então nós somos pesados na balança, onde Deus pesa nossas atitudes o que a gente fez o ano todinho de bom e de mau.
Jessé, esposo da Ana Elya, um senhor de aparência calma e bastante comunicativo, é tenente do exército, onde trabalha há 34 anos. Já viajou muito pelo país e morou em muitos lugares. De forma bastante animada, diz que o melhor lugar que morou foi em Fortaleza na década de 1980, onde trabalhou distribuindo alimentos e água às populações carentes, “afinal era o período de seca no Nordeste brasileiro”. Jessé, assim como Ana, professava na infância, adolescência e fase adulta a fé evangélica. Jessé é filho de mãe e pai assembleianos. Veio conhecer o judaísmo através do irmão e por insistência da esposa Ana Elya. Um dia, ainda quando morava em Maceió, Jessé questionou o pastor da igreja acerca do messias cristão ser Jesus: “por que Jesus era o salvador já que existia o judaísmo e ele não cria naquele homem como salvador e era algo das escrituras?”. O pastor desconversou, não respondeu ao questionamento e apenas falou ao Jessé: “desde que o mundo é mundo é assim. Me ensinaram assim, não posso dizer o contrário para igreja”. Deste dia em diante, Jessé decidiu buscar o judaísmo como fé. “Convicto da enganação que vivia”, Jessé decidiu estudar e praticar o judaísmo. Assim, Ana e Jessé que conheceram o judaísmo através da insistência do irmão do Jessé, cerca de doze anos atrás. Hoje afirmam categoricamente que encontraram no judaísmo a “leveza da vida religiosa”, seguem os rituais e são frequentadores assíduos da comunidade Magen David, no bairro do Catolé, em Campina Grande.

Há doze anos atrás, a família de Ana estava em processo de reestruturação de seus próprios códigos de interpretação do mundo e da vida como ela é e deve ser. Estavam em uma “fase” de liminaridade, que nas palavras de Victor Turner tende a escapar da “rede de classificações que normalmente determinam a localização de estados e posições num espaço cultural. As entidades liminares não se situam aqui nem lá” (1974, p. 117).

O filho caçula Davi, que está com onze anos, diferente do irmão Junior, já nasceu em lar judaico. “Quando fiquei grávida pela segunda vez e soube que era um menino, fui orar e pedi ao eterno que mandasse o nome da criança, na primeira página que abri vi o nome Davi”, afirma Ana.

Jessé e sua família passaram a constituir dentro do lar novos códigos de comportamento e de vida doméstica, evidenciados especialmente em regras de alimentação. Na hora de fazer as compras de supermercado, Ana tem o cuidado de verificar o rótulo dos alimentos e, ao constatar que os mesmos possuem o certificado casher11, efetua a compra, garantindo assim a dieta alimentar judaica em sua casa. É o que ocorre com outros adeptos das comunidades judaicas pesquisadas em Campina Grande, a exemplo de Alessandro Magno. Sobre as obrigações do processo ritual, Victor Turner nos diz: “o sujeito ritual tem direitos e obrigações perante os outros de tipo claramente definido e estrutural, esperando-se que se comporte com certas normas costumeiras e padrões éticos” (1974, p. 117).

Ana Elya confirma as dificuldades que muitos enfrentam em comer carne casher12, para compor a lei dietética judaica, não sendo uma realidade apenas encontrada na família dela, e sim na de muitos das comunidades Magen David e Beit Teshuva. Não há um controle central por parte do líder e das pessoas mais fervorosas da comunidade de fiscalizar o cotidiano do grupo para observar quais membros obedecem ou não a dieta alimentar, verificando se os mesmos cuidam de comprar e consumir alimentos casher, a exemplo da compra de peixes que possuem escamas e nadadeiras que podem ser consumidos.

Em relação às regras religiosas de proibição ou restrição alimentar, é preciso levar em consideração que elas normalmente estão relacionadas a representações de pureza e impureza, considerando-se como “puro” o que se possa ser oferecido em sacrifício a Deus. Ao discutir a noção de impureza ou poluição presente no Levítico, Mary Douglas nos diz que:


Todo ser vivo que fica fora desta classificação não deve ser tocado ou consumido. Tocar implica ser contaminado e nenhum tipo de poluição pode entrar no templo. Assim, pode se resumir de forma razoável dizendo que as criaturas anômalas são impróprias tanto para o altar quanto para a mesa. (Douglas, 2006, p. 266)
Uma educação alimentar identificada com a comunidade é uma preocupação constante de muitos frequentadores de comunidades judaicas, seja da Magen Davi, da Beit Teshuva ou mesmo da ordem caraíta, embora a imensa maioria não esteja em boas condições socioeconômicas para consumo da carne casher. Apenas Alessandro consegue importar carne casher de São Paulo. Os códigos de pureza e perigo podem variar muito e os consensos em torno das regras alimentares é quase impossível. Pedro, declaradamente caraíta, nos diz:
Existe um mandamento para não comer sangue, certo? Nós podemos comer a carne do animal, mas não o sangue, e também a Torá ela nos mostra e aponta aqueles animais que não devem ser consumidos e usados como alimento. Por exemplo, os quadrupedes que ruminam e tem casco fendido ou rachado nós podemos nos alimentar. Aqueles que não ruminam não devem ser usados como alimento, então existem essas questões. É a questão do peixe e dos animais aquáticos, aqueles que tem escamas e barbatanas, então nós só devemos comer esses animais, que podem ser consumidos. Agora no caso dos crustáceos, nós não podemos, camarão, e outros animais do mar que são proibidos mediante a Torá não nos permite comer. Então existe uma proibição, não é só apenas o porco, o pessoal fala do porco, mas são todos os animais que não ruminam e não tem casco fendido. Na questão das aves, isso é uma questão mais profunda porque existem nomes de animais que estão na Torá que até se desconhecem a raiz do nome, aí não se sabe a ave realmente. Existe uma questão, se a galinha, a ave deve ou não ser consumida, existem rabinos que na dúvida diz: não, não devemos comer. Não consomem. Certo? Então existem essas questões, nós não comemos o sangue do animal, o animal tem que ser abatido da maneira correta, como determina a torá e como deve ser feito, que todo sangue deve ser derramado na terra, abatido corretamente, o animal tem que ter o menor sofrimento possível, certo? Então nesse período a maioria dos caraítas no mundo eles evitam a carne nos países ocidentais porque muitas vezes eles não são abatidos, os animais não são abatidos corretamente e as questões de higiene também nos abatedouros não é, não são ideais.
Mesmo que certos costumes e tradições judaicas possam sofrer determinadas “adaptações”, a família de Ana está constantemente em vigilância em relação aos preceitos considerados corretos e “mais tradicionais” na concepção de sua comunidade. Esta vigilância é intensa por se tratar de um processo de iniciação. Eles precisam ser aceitos ritualmente por uma comunidade mais ampla e legitimada de judeus. Como observa Barth, “os elementos de uma iniciação são compostos por objetos e atos fundamentais do ritual e da religião da comunidade, ou seja, o conhecimento sagrado essencial da cultura” (2000, p. 146). Jessé, em sua narrativa sobre a participação dos membros da comunidade Magen David nas comemorações festivas judaicas, é enfático:
Nem todos que frequentam a nossa comunidade participam, mas nós participamos, estamos fazendo a nossa parte, podemos até errar em algo dentro do ritual, e já erramos. Mas aí quando recebemos a visita de um rabino, nós perguntamos, e ele nos corrige, então, aprendemos o certo.
Ana Elya, Jessé e seus dois filhos procuram organizar a família de modo a estabelecer “aos olhos de todos” um claro processo de reconhecimento identitário, recolhendo pistas, métodos, teorias comportamentais, inspiração em lideres, iniciadores, na confiança da descoberta prática do verdadeiro e correto procedimento do “ser judeu”. Enquanto Turner escreve que “os neófitos tendem a criar entre si uma intensa camaradagem e igualitarismo” (1974, p. 118), Joaquim, membro da Magen David, não deixa de fragilizar essa homogeneidade no interior de um sistema cultural aparentemente coeso, afirmando: “a identidade judaica em Campina é muito diversa, rica e curiosa”.

Por meio da narrativa da família de Ana, podemos perceber que a identidade religiosa não se traduz em uma fronteira conceitual estanque; é, sobretudo, um processo, uma vontade de fazer acontecer e um conjunto de ações individuais e coletivas que mobilizam concretamente valores, códigos de conduta, princípios éticos e morais dentro e fora de uma dada comunidade religiosa.



Conforme Ana Elya, “a mulher é a coluna do lar judaico”. As atividades desenvolvidas dentro do lar (e relacionadas a ele) devem e são desempenhadas por mulheres. Na Magen David, e isso eu mesma pude observar participando de um Yom Kipur13, Ana é a mais observadora e critica das atitudes dos demais membros, especialmente dos neófitos e das mulheres. Em uma comunidade extremamente sexista, ela, “de forma espontânea”, chega mais cedo para preparar a estrutura alimentícia e logística do Shabat14. Assim percebemos a figura da “mulher/mãe judia” muito presente na experiência coletiva de judeus campinenses contemporâneos. Ana Elya é a figura que nos dá a ideia do “ser prudente” na observância dos deveres religiosos. Se os princípios são abstratos e idealizados, é ela quem trata de concretizá-los em vivência real, atualizando na comunidade religiosa os compromissos éticos e morais no exercício de socialização do judaísmo. A mulher no judaísmo é o “timoneiro do barco”, sendo atribuída a ela a responsabilidade total em relação à atmosfera de piedade do lar e à preservação dos ideais judaicos. Ela reúne os filhos em torno de si na véspera do sábado para ouvirem-na pronunciar a bênção das velas, prepara a casa para cada festa judaica. Ana nos fala:
A mulher é a coluna do judaísmo, então, a criação dos filhos, tudo! Tem os três preceitos da mulher no judaísmo, o acendimento das velas, o shabat, a pureza do lar, tudo o que acontece a gente separa os utensílios de leite, de gado, tudo e a separação da Challah. Então tem que fazer.
A mulher é a responsável direta pela dieta alimentar do marido e de toda família. Uma das funções a ela delegada é a de “vigilância alimentar” e isto é percebido por meio da fala de Ana quanto ao “sucesso” da experiência vivida pelo filho Júnior que está fora de casa no serviço militar e leva o “lar judaico” para sua nova realidade.
Mesmo estando em serviço militar e longe de meus olhos, meu filho mais velho, o Júnior, me telefona dizendo toda alimentação consumida, daí eu suspiro aliviada porque vejo que tudo o que ensinei pra ele desde pequeno, ele cumpre né, mesmo estando longe dos meus olhos.
O ato de comer tem uma função estruturante para a identidade judaica, pois permite a construção de um território físico e semântico que fará a ligação entre o mundo externo e interno. A isto soma-se também a tradição das dietas alimentares (a chamada “comida casher”) que é repassada de geração em geração, bem como o sentimento de pertença e diferença. Mary Douglas, sabiamente, nos ensina:
A impureza nunca é um fenômeno único, isolado. Onde houver impureza, há sistema. Ela é o subproduto de uma organização e de uma classificação da matéria, na medida em que ordenar pressupõe repelir os elementos não apropriados. Esta interpretação da impureza conduz-nos diretamente ao domínio do simbólico. Pressentimos assim a existência de uma relação mais evidente com os sistemas simbólicos de pureza. (Douglas, 2006, p. 50)
Observando um Yom Kipur

Segundo Turner (1974) e eu tendo a concordar, “o rito é a interrupção da vida rotineira. É a teatralização e a dramatização daquilo que é contínuo na sociedade, segundo uma vontade e uma simbologia que não está inscrita em um ‘manual cultural’”. Como o autor observa, é como se as coisas fossem reduzidas ou comprimidas até uma condição uniforme, para serem modeladas de novo, dotadas de outros poderes, e assim serem capacitadas para enfrentarem sua nova condição de vida.

Quando fui convidada a participar de um Yom Kipur por Alessandro Magno, líder da comunidade Magen David, estava com esta assertiva de Turner na cabeça e esperava encontrar na celebração algo que pudesse evidenciar como funciona o cotidiano daquela comunidade, agora interrompido por um rito tão importante. Nesse intento, fui “participar” com meu esposo Emanuel do Yom Kipur na sede da Magen Davi em Campina Grande/PB. Estávamos no mês de outubro de 2014, especificamente no dia 3, uma “sexta-feira de Yom Kipur”, o dia considerado mais importante do ano para muitos judeus, “o dia do perdão”. Este é um dia de arrependimento para todos, para o indivíduo e para a comunidade. É o tempo do perdão para Israel. Por isso, todos são obrigados a se arrepender e a confessar os seus erros nesse momento.

A comunidade judaica Magen David tem sede em frente ao Bar da Curva, no bairro do Catolé, em uma casa comum, de muro alto, portão cinza ondulado e automático. A casa serve de apoio aos encontros dos membros. É uma casa alugada, de propriedade de um frequentador da Magen David, o senhor Inézio, homem de aproximadamente sessenta anos, apaixonado por política, principalmente a política campinense. Na casa, havia, inclusive, um grande painel com fotos de políticos locais.

O Yom Kipur, por excelência como dito, é considerado a mais importante celebração do calendário judaico e eu, particularmente, estava muito feliz em poder compartilhar daquele momento com toda aquela gente e sendo a convidada do próprio líder do grupo, Alessandro Magno. Este certamente era um momento especial de minha pesquisa. Chegamos ao local, eu e o Emanuel, aproximadamente às seis da noite. Percebemos que a casa estava sem campainha, também não havia interfone, decidimos chamar. Mas não obtivemos resposta. Foi então que percebemos o portão aberto na lateral, puxamos e entramos no local.

No local, o que antes era a garagem da casa agora servia como a sala de reunião dos encontros da Magen David. Alguns homens já estavam sentados ao redor de uma enorme mesa. Apresentei-me e disse que sou pesquisadora, mestranda em antropologia pela UFPB e que tenho como cerne de minhas discussões acadêmicas a formação da identidade judaica em Campina Grande. Todos nos cumprimentam de forma simpática e bastante receptiva. Estavam no local, três homens, sendo dois deles mais jovens, um aparentando ter vinte anos e o outro quarenta, e o terceiro um senhor de aproximadamente sessenta anos. Fomos convidados a sentar. Eu deveria ficar do lado esquerdo da mesa, e o meu esposo, bem como os demais homens, do lado direito. A necessidade de separação física entre homens e mulheres na ritualística judaica é logo evidenciada. Além da mesa e cadeiras arrumadas neste ambiente da casa, havia uma pequena estrela de Davi pequena no centro da parede e, em lugar mais alto, um relógio marcando de forma atrasada o passar das horas.

Suspirei aliviada por chegar antes do Alessandro. Iniciei uma conversa com um homem de nome Kiko, franzino e com rugas na pele, falante e bastante simpático. Kiko usava um kipá15 diferente dos demais homens, colorido com imagens arabescas. Os demais utilizavam kipás de tom escuro (preto) ou cinza, ou em tom claro (branco ou bege). Kiko começou a contar a sua origem e me interrogava acerca de minha pesquisa, mostrando-se bastante curioso sobre a minha escolha. Pouco tempo depois, chega Alessandro, com um casal e uma criança (um menino loiro que tinha por volta de seus dez anos). Todos se cumprimentaram com o “shabat shalom”16 e se sentaram. Alessandro se sentou na cabaceira da mesa. O casal era os nossos conhecidos Ana Elya e Jessé que vinham para o Yom Kipur com o filho caçula Davi. Ana sentou-se do meu lado. Ela estava de saia preta, uma sapatilha da mesma cor17, e uma blusa bastante fechada e branca. Na cabeça usava uma boina preta que escondia todo o seu cabelo. Ela tinha um sorriso franco e um olhar concentrado, firme. O esposo da Ana, Jessé, sentou-se, como não poderia deixar de ser, do lado direito da grande mesa retangular.

Cumprimentei o Alessandro e ele falou um pouco aos demais presentes sobre minha pesquisa. Seguiu falando da importância do Yom Kipur, o “dia do perdão” para os judeus, e das homenagens devidas a Deus neste dia. Depois explicou que era um dia de expiação dos pecados, um dia de jejum, de reflexões e orações. Iniciado no final da tarde, no crepúsculo, a exemplo dos Shabats, o Yom Kipur deve ser realizado no décimo dia do calendário judaico e vai até o anoitecer do dia seguinte. Em horas, seriam mais ou menos vinte e cinco horas de jejum e cumprimento de determinados e longos ritos. Após as explicações iniciais do Yom Kipur, o Alessandro pediu para a Ana colocar o lenço nos meus cabelos. Eu tinha que cobri-lo todo. Para o Emanuel, o Jessé entregou um kipá prateado.

Alessandro entregou exemplares de um mesmo livro para todos os presentes, inclusive para mim e para meu esposo. Munidos dele iríamos seguir o ritual do Yom Kipur. Fiquei tentando achar uma forma (e percebi que o Emanuel também) de descobrir qual era, na verdade, a frente do livro. O livro abria do lado inverso (de trás pra frente na lógica em que estamos habituados). Com a voz enfática, Alessandro deixou claro que havia trazido o livro de Israel em 2011, “quando viajou para terra santa”. Durante a fala do Alessandro, mais judeus e judias chegavam, alguns deles jovens, iam se acomodando nos lugares em volta da grande mesa retangular. Não eram muitos. Ao todo, uns quinze estavam ali, entre homens e mulheres.

Alessandro, percebendo a hora e o número de membros que estavam presentes, convidou a todos da mesa para o acompanharem até o recinto das orações. Na antessala, mais livros encadernados sobre uma mesa singela de cor branca. Defronte à antessala, pudemos ver uma entrada com acesso a dois compartimentos vasados por uma divisória onde, por meio de aberturas de uns trinta centímetros de altura por dois metros de largura na parte mais alta da parede, poderíamos ver o outro compartimento. Os homens ficariam do lado direito e as mulheres do esquerdo. Nessa hora, vi que o fato de estarmos ali em casal, eu e o Emanuel, me ajudaria a descrever em detalhes o que ocorria durante a celebração do Yom Kipur no “lado masculino”.

Do lado esquerdo, o lado destinado às orações e louvores das mulheres, cadeiras brancas e outras de tom mais escuro estavam distribuídas em duas fileiras. O recinto era singelo, livre de ornamentos. Não havia a presença de candelabro, nem da Torá, nem de outro símbolo judaico, elementos que, segundo o que meu esposo descreveu com riqueza de detalhes, estavam presentes na parte masculina. No lado dos homens, havia uma mesa com um candelabro dourado de sete pontas e dois castiçais em forma retorcida de estrela de Davi com duas velas postas e não acesas. No meio dos castiçais, um livro grosso, preto e encadernado. E outro mais fino também encadernado e com inscrições em hebraico. Eram exemplares da Torá. Cadeiras de plástico de cores variadas encostadas na divisória eram os assentos do público e do ministro da cerimônia. Mesmo dentro da diversidade que o compõe, podemos perceber que o judaísmo, procura claramente definir os papéis de cada gênero. A mulher no judaísmo se expressa diferente desde as rezas da liturgia até a divisão das tarefas no âmbito público e particular. Vimos esse fenômeno desde a divisão colocada no lugar onde são realizadas as orações e celebrações, até o comportamento no âmbito privado.

A celebração ia começar. Segundo a descrição feita por Emanuel, o Alessandro e outros homens pegam seus talit, brancos ou cor de algodão cru, adornados com azul brilhante, ajeitam sobre os ombros, em volta da cabeça, procedem aos gestuais no ato de vestir. Todos permanecem de kipá na cabeça. Alguns possuem o kipá mais escuro, outros claro como o dele, e o de Kiko é colorido com figuras arabescas. Por volta de dez homens estão presentes na celebração. Alessandro conclama todos ao início da cerimônia, pede para as mulheres se levantarem e olharem pelas brechas da divisória e, assim, ele informa como vai ser o procedimento correto em todo o momento do Yom Kipur.

Alessandro pediu para que todos procurassem em seus livros a “página tal”, que seria o início da recitação do Yom Kipur. Todos procuraram, acharam e começamos a leitura. O Yom Kipur é um capítulo do ritual judaico presente neste livro emprestado a todos para compartilhamento de uma extensa leitura ministrada por Alessandro. A leitura é rápida e os erros da leitura não impedem que o orador líder continue lendo as frases e orações presentes no livro. Alessandro tem uma voz poderosa e precisou dela na leitura. Do lado direito do livro, que deve ser lido “de trás pra frente”, há a escrita em hebraico com todas aquelas letras diferenciadas em relação ao alfabeto convencional. Do lado esquerdo superior, a “tradução” para o alfabeto convencional, imitando nossa fonética, e inferior à tradução do significado da mensagem para o português. São três formas de apresentação da mesma mensagem. Alessandro começou a ler em português e ficava revezando entre a leitura no português e na fonética hebraica. Ana do meu lado acompanhava toda leitura, recitando baixinho e gesticulando. Fiquei maravilhada com tamanha dedicação. As demais mulheres, duas senhoras e outras duas bastante jovens (dava uns 18 anos para ambas), acompanhavam de forma mais lenta e sem seguir muito as regras do “levantar e sentar”, “levantar e inclinar o corpo”. Apenas a Ana fazia tudo de forma rápida.

A leitura é praticada de forma muito rápida e intensa com breves pausas para respiração. A voz mais alta deve ser sempre a do líder. O público deve ora responder algumas mensagens do orador, ora ler em voz baixa ou pensamento. As passagens de obrigatória leitura do público são exíguas, de modo que o orador é o grande guia daquela recitação que parece que nunca vai acabar de tão extensa. São páginas e mais páginas de recitação, alguns trechos são cantados com muito vigor, em um coral relativamente simétrico de vozes mais masculinas do que femininas. As mulheres tem que cantar sempre em um tom menor do que os homens. Do mesmo modo recitar as orações. Os cânticos são belos, mas a leitura é enfadonha e repetitiva. São mantras ditos rapidamente por diversas vezes, falando de passagens históricas do povo judeu, frases de expiação dos pecados, súplicas, humilhação do homem perante Deus, mensagens teológicas e morais. Em alguns momentos, Alessandro pediu para que todos se levantassem, quando percebeu que o acompanhamento estava fraco. Ele estimulou a participação de todos e, sempre que pôde, corrigiu a pronúncia das palavras.

Estava tentando a todo tempo seguir os cânticos e fazer a leitura, mas o revezamento hebraico/português não permitiu por muito tempo a minha concentração. O Emanuel confessou que estava com o mesmo sentimento, desejo de entender e acompanhar todo aquele ritual, mas, sem a devida concentração, não tinha ido longe na leitura.

Indago-me: por que estas pessoas querem ser judeus/judias diante de uma extensa prateleira de identidades religiosas contemporâneas? Por que ser judeu/judia ali, com aquela comunidade, faz sentido para aquelas pessoas? No Yom Kipur, parava para observar aqueles corpos em pé, firmes, serenos, obedecendo todas as indicações daquele livro, por vezes, inclinando-se, dobrando joelhos e voltando à posição vertical. Foram exatas três horas de cânticos e orações do Yom Kippur. Era próximo das dez da noite, quando o Alessandro deu por encerrada as orações noturnas. Saímos do local onde fizemos as orações e louvores e sentamos todos ao redor da mesa retangular, tendo no centro o Alessandro, ouvimos as explicações sobre o dia do Yom Kippur, e foi dito o horário da oração da manhã, às nove horas do dia 4 de outubro, bem como o dever de seguir das regras individuais quando todos retornassem às suas casas. Alessandro, ao que parece, inspira confiança e fé naquelas pessoas, pois ele não só pregava com palavras, mas agia, colocando o próprio corpo em sacrifício de exaustão, conforme as regras judaicas.

Alessandro estava com a blusa molhada de suor e continuava a falar e insistir sobre a seriedade do Yom Kipur, tirando dúvidas dos presentes quanto às prescrições daquele dia e do próximo. Falava apontando com o dedo a leitura de outro livro, um livro sobre as tradições da fé judaica. Dedicou especial atenção às proibições relativas ao comportamento das mulheres. Ana olhava fixo para Alessandro como se estivesse gravando cada palavra pronunciada pelo mesmo. As demais mulheres não davam tanta importância aos dizeres do Alessandro. Ele continuava sua fala dedicando a importância da abstinência naqueles dias, falava dos desejos sexuais e seus riscos para aquele momento religioso. Falou também da obrigação de sempre perdoar aqueles que pedem perdão. Um judeu não pode negar o perdão solicitado. “Mas e em caso da pessoa morrer antes de ser perdoada”, questionou Alessandro a ele mesmo. “Aí você se dirige ao túmulo dela acompanhado de dez homens e em voz alta, se os fatos narrados não humilharem o falecido, dirá quais foram os pecados cometidos por ele, concluindo ‘peço perdão’. Os dez homens devem responder em uníssono: ‘está perdoado’”.

Depois lembrou que o Yom Kipur fala muito em abundância para incentivar que os judeus sempre se preocupem com a não dependência da doação de outrem. Só devemos depender dos donativos de Deus, não dos homens. E falou que quando sua filha nasceu precisava de um leite muito caro por conta de problemas de saúde e não conseguia naquela época comprar esse leite. Um amigo fez uma grande compra de sete latas desse leite especial, ele aceitou, pois precisava. Mas quando chegou à sua casa, chorou. Pois não deveria ser assim, ele lutaria pela independência e pela abundância. Noto que o Alessandro exercia uma liderança por meio da recorrência ao discurso do “venci na vida”. Sempre que pode, ele relembra: “já trabalhei de tudo nessa vida”.

No final da noite, as crianças brincavam no pátio e o barulho aumentava cada vez mais. Estavam fazendo estripulias. Isto foi o suficiente para Alessandro olhar para todos da mesa e solicitar que alguém fosse lá ver o que era e agisse com autoridade, com reprimendas, para que não se repetisse mais: “afinal, estas crianças precisam entender desde já a seriedade de um Yom Kipur”. Um homem se prontificou a ir e alguém soltou uma piada: “vai lá cara, bota moral”.

Uma outra passagem do momento em que o Alessandro palestrava na mesa retangular chamou a nossa atenção e é importante registrar no presente artigo. Uma moça, com seus vinte anos de idade, saiu por duas vezes para atender o celular que tocava uma música de “forró de plástico” em alto volume. Nas duas oportunidades, Ana, a esposa de Jessé, olhou com reprovação para a moça e para os presentes. Talvez o silêncio da Ana e sua face irritada dissesse mais do que algumas palavras proferidas por conta de tal ato. Pouco tempo depois dos telefonemas, chegou alguém em uma moto para buscá-la, provavelmente esposo ou namorado. Acenou do terraço para Alessandro que respondeu educadamente.

Conforme combinado com Alessandro, retornamos, eu e Emanuel, às nove horas da manhã para assistir a oração da manhã do Yom Kipur. Entramos para celebração da manhã do mesmo modo que na noite anterior. Eram entoados cânticos e orações. Estava presente no lado feminino a Ana e mais três mulheres. Havia ausência de duas jovens. Os homens eram os mesmos da noite passada. Isso pode demonstrar certa dificuldade que a comunidade encontra em cultivar a resistência e a fé das mulheres.

O Yom Kipur seguia sem pausa. A oração da tarde encerraria o ritual, de exaustão e entrega física e espiritual. A figura do Alessandro me faz recordar o que Barth (2000) nos diz a respeito da figura dos iniciadores em seu estudo etnográfico na Melanésia. Eles são pessoas, arquétipos sociais, que transacionam os conhecimentos para cima, com os deuses, e para baixo, com os neófitos, manifestando-se apenas por performances. Segundo Barth “o iniciador deve ter domínio sobre esse corpo de conhecimentos e saber quais os itens indicados para cada etapa do processo de iniciação que realiza” (2000, p. 146).

O prestigio do Alessandro perante a comunidade Magen David estaria ligado às emoções transmitidas durante os rituais, numa atmosfera de eficácia performática do saber falar em hebraico e saber ensinar aos demais os cânticos e as leituras da Torá. Alessandro faz o que o Barth afirma como tarefa precípua do iniciador: “revelar segredos da manipulação de símbolos concretos” (2000, p. 146).

Quando analisamos o ritual do Yom Kipur, podemos perceber que o envolvimento emocional dos membros da comunidade com o Alessandro vai além da performance das sessões do ritual. Os membros são transformados pela entonação dos cânticos, pelo jejum das vinte e cinco horas seguidas do Yom Kipur, pela busca de refinamento do hebraico entonado pelo Alessandro, e, por fim, pela leitura e valores transmitidos na hora em que os ritos ocorrem.



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