Da educaçÃo das criançAS



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DA EDUCAÇÃO DAS CRIANÇAS

“Quanto aos que, segundo aos costumes, encarregados de instruir vários espíritos naturalmente diferentes uns dos outros pela inteligência e pelo temperamento, a todos ministram igual lição e disciplina, não é de estranhar que dificilmente encontrem em uma multidão de crianças somente duas ou três que tirem do ensino o devido fruto. Que não lhe peça conta apenas das palavras da lição, mas também do seu sentido e subsistência, julgando de proveito, não pelo testemunho da memória e sim pelo da vida. É preciso que o obrigue a expor de mil maneiras e acomodar a outros tantos assuntos o que aprender, a fim de verificar se o aprendeu e assimilou bem, aferindo assim o progresso feito segundo os preceitos pedagógicos de Platão. É indício de azia e indigestão vomitar a carne tal qual foi engolida. O estômago não faz seu trabalho enquanto não mudam o aspecto e a forma daquilo que se lhe deu a digerir.

Tudo se submeterá ao exame da criança e nada se lhe enfiará na cabeça por simples autoridade e crédito. Que nenhum princípio, de Aristóteles, dos estóicos ou dos epicuristas, seja seu princípio. Apresentem-se-lhe todos em sua diversidade e que ela escolha se puder. E se não o puder, fique na dúvida, pois só os loucos têm certeza absoluta em sua opinião.

O proveito de nosso estudo está em nos tomarmos melhores e mais avisados. É a inteligência, dizia Epicarmo, que vê e ouve; é a inteligência que tudo aproveita, tudo dispõe, age, domina e reina. Tudo o mais é cego, surdo e sem alma. Certamente tornaremos a criança servil e tímida se não lhe demos a oportunidade de fazer algo por si. Quem jamais perguntou a seu discípulo que opinião tem da retórica, da gramática ou de tal ou qual sentença de Cícero? Metem-nas em sua memória bem arranjadinhas, como oráculos que devem ser repetidos ao pé da letra. Saber de cor não é saber: é conservar o que se entregou à memória para guardar. Do que sabemos efetivamente, dispomos sem olhar para o modelo, sem voltar os olhos para o livro. Triste ciência a ciência puramente livresca! Que sirva de ornamento mas não de fundamento, como pensa Platão, o qual afirma que a firmeza, a boa-fé, a sinceridade, são a verdadeira filosofia, e que as outras ciências, com outros fins, não são mais do que brilho enganoso.

Admite-se também geralmente que a criança não deve ser educada junto aos pais. A sua afeição natural enternece-os e relaxa-os demasiado, mesmo aos mais precavidos. Não são capazes de lhe castigar as maldades nem de a verem educada algo severamente como convém, preparando-a para as aventuras da vida. Não suportariam vê-la chegar do exercício, em suor e coberta de pó, ou vê-la montada em cavalo bravo ou de florete em punho, contra um hábil esgrimista, ou dar pela primeira vez um tiro de arcabuz. E no entanto não há outro caminho: quem quiser fazer do menino um homem não o deve poupar na juventude nem deixar de infligir amiúde os preceitos dos médicos: “que viva ao ar livre e no meio dos perigos”. Não basta fortalecer-lhe a alma, é preciso também desenvolver-lhe os músculos. Terá de se esforçar demasiado se, sozinha, lhe couber dupla tarefa. Sei quanto custa a mim a companhia do corpo tão frágil, tão sensível e que nela confia excessivamente. E vejo muitas vezes, nas minha leituras, que meus mestres em seus escritos põem em evidência feitos de valentia e firmeza de ânimo que decorrem muito mais da espessura da pele e da dureza dos ossos. Vi homens, mulheres e crianças de tal modo conformados que uma bastonada lhes dói menos do que a mim um piparote; e não tugem nem mugem quando apanham. Quando os atletas imitam os filósofos em paciência, é de atribuir a coisa mais ao vigor dos nervos que ao da alma. O hábito do trabalho leva ao hábito da dor: “O trabalho caleja para a dor”. É preciso acostumar o jovem à fadiga e à aspereza dos exercícios a fim de que se prepare para o que comportam de penoso as dores físicas, a luxação, as cólicas, os cautérios, e até a prisão e a tortura, que nestas ele também pode vir a cair nos tempos que correm, em que tanto atingem os bons como os maus. Estamos arriscados a elas. Todos os que combatem as leis ameaçam os homens de bem com o chicote e a corda. Por outro lado, a presença dos pais é nociva à autoridade do preceptor, a qual deve ser soberana; e o respeito que lhe têm os familiares, o conhecimento da situação e da influência de sua família, são a meu ver de muita inconveniência na infância.

Nessa escola do comércio dos homens, notei amiúde um defeito: em vez de procurarmos tomar conhecimento dos outros, esforçamo-nos por nos tornarmos conhecidos e mais nos cansamos em colocar a nossa mercadoria do que em adquirir outras novas. O silêncio e a modéstia são qualidades muito apreciáveis na conversação. Educar-se-á o menino a mostrar-se parcimonioso de seu saber, quando o tiver adquirido; a não se formalizar com tolices e mentiras que se digam em sua presença, pois é incrível e impertinente aborrecer-se com o que não agrada. Que se contente com corrigir-se a si próprio e não pareça censurar aos outros o que deixa de fazer; e que não contrarie os usos e costumes: “pode-se ser visado sem arrogância”.

É estranho que em nosso tempo a filosofia não seja, até para gente inteligente, mais do que um nome vão e fantástico, sem utilidade nem valor na teoria como na prática. Creio que isso se deve aso raciocínios capciosos e embrulhados com que lhe atopetaram o caminho. Faz-se muito mal em a pintar como inacessível aos jovens, e em lhe emprestar um fisionomia severa, carrancuda e temível. Quem lhe pôs tal máscara falsa, lívida, hedionda? Pois não há nada mais alegre, mais vivo e diria quase mais divertido. Tem ar de festa e folguedo. Não habita onde haja caras tristes e enrugadas.

É provável que nessas condições nosso jovem ficará menos inútil do que os outros. Mas como os passos que damos quando passeamos numa galeria não nos cansam tanto quanto em um caminho determinado, ainda que sejam três vezes mais, assim também nossas lições, dadas ao acaso do momento e do lugar, e de entremeio com nossas ações, decorrerão se que se sintam. Os exercícios e até os jogos, as corridas, a luta, a música, a dança, a caça, a equitação, a esgrima constituirão boa parte do estudo.

Quero que a delicadeza, a civilidade, as boas maneiras se modelem ao mesmo tempo que o espírito, pois não é uma alma somente que se educa, nem um corpo, é um homem: cabe não separar as duas parcelas do todo. Como diz Platão, é preciso não educar uma sem a outra e sem conduzi-las de par, como uma parelha de cavalos atrelados ao mesmo carro. E parece até dar mais tempo e cuidado aos exercícios do corpo, achando que o espírito se exercita ao mesmo tempo, e não ao contrário.

Seja como for, a essa educação deve proceder-se com firmeza e brandura e não como é de praxe. Pois como o fazem atualmente, em lugar de interessarem os jovens nas letras, desgostam-nos pela tolice e a crueldade. Deixem-se de lado a violência e a força: nada a meu ver abastarda mais e mais embrutece uma natureza generosa. Se quereis que o jovem tema a vergonha e o castigo não o calejais nele. Habituai-o ao suor e ao frio, ao vento, ao sol, aos acasos que precisa desprezar; tirai-lhe a moleza e o requinte no vestir, no dormir, no comer e no beber: acostumai-o a tudo. Que não seja rapaz bonito e efeminado, mas sadio e vigoroso. Menino, homem velho, sempre tive a mesma maneira de pensar a esse respeito. A disciplina rigorosa da maior parte de nossos colégios sempre me desagradou. Menos prejudiciais seriam talvez se a inclinassem para a indulgência. São verdadeiras prisões para cativeiro da juventude, e a tornam cínica e debochada antes de o ser. Ide ver esses colégios nas horas de estudo: só ouvireis gritos de crianças martirizadas e de mestres furibundos. Linda maneira de acordar o interesse pelas lições nessas almas tenras e tímidas, essa de ministrá-las carrancudo e de chicote nas mãos! Que método iníquo e pernicioso! E observa muito bem Quintiliano que uma autoridade que se exerce de modo tão tirânico comporta as mais nefastas conseqüências, em particular pelos castigos. Como seriam melhores as classes se juncadas de flores e folhas e não de varas sanguinolentas! Gostaria que fossem atapetadas de imagens da alegria, do júbilo, de Filola e das Graças, como mandou fazer em sua escola o filósofo Espeusipo. Onde esteja o proveito esteja também a diversão. Há que pôr açúcar nos alimentos úteis à criança e fel nos nocivos. É admirável como Platão se mostra atento em suas “Leis” à alegria e aos divertimentos da juventude da cidade e como se atarda na recomendação das corridas, dos jogos, das canções, dos saltos e das danças cujo patrocínio e orientação se confiaram aos próprios deuses: Apolo, as Musas, Minerva. Alonga-se em mil preceitos sobre os ginásios, enquanto pouco discorre acerca das letras e parece não recomendar particularmente a poesia, a não ser musicada.

Ao fim de quinze e dezesseis anos compare-se o nosso jovem a um desses latinistas de colégio que terá levado o mesmo tempo a aprender a falar! O mundo é apenas tagarelice e nunca e nunca vi homem que não dissesse antes mais do que menos do que devia. E nisto gastamos metade da vida. Obrigam-nos durante quatro ou cinco anos a aprender palavras e a juntá-las em frases, e outros tantos a compor um longo discurso em quatro ou cinco partes; e mais cinco pelo menos a aprender a misturá-las e a combiná-las de maneira rápida e mais ou menos sutil. Deixe-se isso a quem o faz por profissão.

Se nosso jovem estiver bem provido de conhecimentos reais, não lhe faltarão palavras; e virão por mal se não quiserem vir por bem. Há quem se desculpe por não poder exprimir as coisas belas que pretender ter na cabeça e lastime sua falta de eloquência para se revelar: é mistificação. Quereis saber o que isso significa, a meu ver? É que entrevê algumas vagas concepções que não tomaram corpo, que não pode destrinçar, e esclarecer, e por conseguinte expressar. Não se compreende a si próprio. Contemplai-o a gaguejar, incapaz de parir, vereis logo que sua dificuldade não está no parto mas na concepção, e anda ainda a lamber um embrião. acredito, e Sócrates o diz formalmente, que quem tem no espírito uma idéia clara e precisa sempre a pode exprimir, quer de um modo quer de outro, por mímica até, se for mudo: “Não falham as palavras para o que se concebe bem”. Ora, como diz um outro, de modo igualmente poético embora em prosa: “Quando as coisas se assenhoram do espírito as palavras ocorrem”; ou ainda: “As coisas atraem as palavras”. Pode ignorar ablativos, conjuntivos, substantivos e gramáticas, quem é dono de sua idéia; é o que se verifica com um lacaio qualquer ou rapariga do “Petit Pont”, que são capazes de nos entreter do que quisermos sem se desviarem muito mais das regras da língua que um bacharel de França. Não sabem retórica nem começam por captar a benevolência do leitor ingênuo e nem se preocupam com isso. Em verdade, todos esses belos adornos se apagam ante o brilho de uma verdade simples e natural. Esses requebro servem apenas para divertir o vulvo incapaz de escolher alimento mais substancial e fino, com Afer o demonstra claramente em Tácito.


MONTAIGNE, Michel. “Ensaios”, in Os Pensadores. Trad. de Sérgio Milliet. São Paulo, Abril, 1972. Livro Primeiro, Capítulo XXVI. - GADOTTI, MOACIR. História das Idéias Pedagógicas, São Paulo, Ática, 1993.

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