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DANIEL SILVA
O Caso Rembrandt




arqueiro


2012


Para Jeff Zucker, pela amizade, pelo apoio e pela coragem. E, como sempre, para minha esposa, Jamie, meus filhos, Lily e Nicholas.
"Por trás de toda grande fortuna existe um grande crime."

Honoré de Balzac


Prólogo
Port Navas, Cornualha
Por acaso, Timothy Peel foi o primeiro a saber que o forasteiro tinha vol­tado para a Cornualha. Fez essa descoberta numa quarta-feira chuvosa, pouco antes da meia-noite, em meados de setembro. E só porque recusara edu­cadamente os apelos persistentes dos colegas de trabalho para ir à farra do meio da semana no Godolphin Arms, em Maracaju.

Peel nem imaginava por que ainda se davam o trabalho de convidá-lo. Para falar a verdade, ele nunca fizera muita questão da companhia de gente que bebia. E nessa época, sempre que pisava num pub, havia pelo menos uma pes­soa sob o efeito do álcool que o importunava querendo conversar sobre o "pe­queno Adam Hathaway". Seis meses antes, num dos resgates mais dramáticos da história da Instituição Real Nacional de Botes Salva-Vidas, Peel arrancara o garoto de 6 anos da arrebentação traiçoeira da enseada de Sennen. Os jornais o coroaram como herói nacional, mas ficaram estupefatos quando o homem de 22 anos, de ombros largos e aparência de astro de cinema, se recusou a dar sequer uma entrevista. O silêncio de Peel incomodava seus colegas, pois qualquer um teria aproveitado a oportunidade para ter alguns instantes de glória, mesmo que fosse para recitar velhos clichês a respeito da "importância do trabalho em equipe" e das "grandes tradições de um serviço digno de orgulho". Também não pegou bem com os residentes do Oeste da Cornualha, que estavam sempre atrás de um bom motivo para se vangloriar sobre algum garoto local e esfregar um caso desse tipo na cara dos ingleses nobres da parte chique do país. De Falmouth Bay até Lands End, a simples menção do nome Peel invariavelmente provocava reações de perplexidade. "É um sujeito meio estranho", diziam. "Sempre foi. Deve ter sido o divórcio dos pais. Ele nunca conheceu o pai verdadeiro. E aquela mãe! Sempre andou com os tipos errados. Lembram do Derek, o dramaturgo que vivia enchendo a cara de uísque? Parece que ele costumava bater no rapaz." Esses eram os boatos em Port Navas.

A parte sobre o divórcio era verdade. Sobre as surras, também. De fato, a maior parte das fofocas sobre Peel tinha um pé na realidade. Mas nada daquilo tinha qualquer coisa a ver com sua recusa em aceitar o papel de herói. O silên­cio de Peel era um tributo ao homem que conhecera brevemente muito tempo antes. Um homem que vivia no cais de Port Navas, na velha cabana do capataz próxima à fazenda de ostras. Um homem que lhe ensinara a navegar e a conser­tar carros antigos, que tinha lhe falado sobre o poder da lealdade e a beleza da ópera. Um homem com o qual aprendera que não havia qualquer razão para se vangloriar apenas por fazer o próprio trabalho.

O nome do homem tinha uma sonoridade estrangeira poética, mas Peel sempre pensou nele apenas como o forasteiro. Ele fora o cúmplice de Peel, seu anjo da guarda. E, mesmo tendo partido da Cornualha havia muitos anos, às vezes Peel ainda esperava que retornasse, como quando tinha 11 anos. Ainda guardava o desgastado diário que manteve das idas e vindas do forasteiro, assim como as fotos das misteriosas luzes brancas que costumavam iluminar a cabana dele à noite. Mesmo agora, conseguia visualizá-lo no leme do seu adorado ve­leiro de madeira, vindo de Helford Passage após uma longa noite sozinho no mar. Nessas ocasiões, Peel sempre esperava na janela do quarto, com o braço erguido num cumprimento silencioso. E o forasteiro, ao vê-lo, piscava os faróis duas vezes em resposta.

Havia poucas lembranças dos dias em Port Navas. A mãe de Peel se mudara para Bath com o novo amante. Dizia-se que Derek, o dramaturgo bêbado, estava vivendo em uma choupana numa praia no País de Gales. E a velha cabana do capataz fora completamente reformada e agora pertencia a londrinos ricos que apareciam nos fins de semana, davam festas barulhentas e estavam sempre berrando com os filhos mimados. Tudo o que restou do forasteiro foi seu veleiro, que ele deixou como um legado para Peel na noite em que fugiu da Cornualha com paradeiro desconhecido.

Agora, anos depois, naquela quarta-feira chuvosa em meados de setembro, o barco balançava no ancoradouro com o movimento das marés, as ondas ba­tendo gentilmente no casco, quando um inesperado ruído de motor fez Peel se levantar da cama e ir até seu lugar de sempre na janela. Lá, espreitando a escuri­dão úmida, ele avistou um Range Rover cinza metálico cruzando a rua devagar. O veículo parou na frente da velha cabana do capataz e ficou com o motor em ponto morto por um momento, as lanternas encharcadas e os limpadores de para-brisa se movendo em ritmo constante. Então, de repente, a porta do mo­torista se abriu e surgiu uma figura com uma capa de chuva verde-escura e uma boina impermeável puxada para baixo até as sobrancelhas. Mesmo àquela dis­tância, Peel reconheceu de imediato o forasteiro por causa de seu jeito de andar, com o passo confiante e determinado parecendo impulsioná-lo sem qualquer esforço em direção à beira do cais. Parou ali por um momento, evitando cau­telosamente a iluminação da única lâmpada, e observou o veleiro. Em seguida desceu rápido a escadaria de pedra até o rio e desapareceu de vista.

Primeiro Peel se perguntou se ele tinha voltado para pegar o barco. Mas esse medo passou quando o forasteiro reapareceu segurando um pequeno embrulho na mão esquerda. Tinha o tamanho aproximado de um livro de capa dura e parecia envolto em plástico. A julgar pela camada de limo na superfície, o pacote estava escondido havia um bom tempo. Já tinha ocorrido a Peel uma vez que o homem podia ser contrabandista. Talvez fosse mesmo, afinal.

Foi então que Peel reparou que ele não estava sozinho. Alguém o aguardava no banco do carona do Range Rover. Peel não conseguiu discernir o rosto, ape­nas uma silhueta e o contorno de cabelos rebeldes. Sorriu pela primeira vez. Parecia que o forasteiro tinha afinal arranjado uma mulher.

Ouviu o baque abafado de uma porta se fechando e viu o veículo dar um solavanco brusco para a frente. Se corresse, teria tempo de ir falar com ele. Em vez disso, tomado por um sentimento que não experimentava desde a infância, ficou ali na janela, imóvel, com o braço erguido num cumprimento silencioso. O carro ganhou velocidade e por um momento Peel temeu que o forasteiro não tivesse visto o sinal. Mas de repente o automóvel reduziu a marcha e os faróis piscaram duas vezes antes de passar por baixo da janela de Peel, desaparecendo na noite.

Peel continuou ali por mais um instante, escutando o barulho do motor su­mir no silêncio. Então voltou para a cama e puxou as cobertas até o queixo. Sua mãe havia partido, Derek estava no País de Gales e a velha cabana do capataz tinha sido ocupada por estrangeiros. Mas, naquele momento, ele não estava só. O forasteiro tinha retornado à Cornualha.


PARTE UM

PROCEDÊNCIA


1

Glastonbury, Inglaterra
Embora o forasteiro não soubesse disso, a partir daquela noite duas séries distintas de eventos já conspiravam para atraí-lo de volta ao campo de batalha. Uma delas se desenrolava por trás das portas trancadas dos serviços secretos internacionais de inteligência, enquanto a outra era o assunto da vez da imprensa mundial. Os jornais a chamavam de "verão dos roubos", a pior epidemia de furtos de obras de arte na Europa em muitas décadas. Por todo o continente, pinturas de valor inestimável desapareciam com uma rapidez impressionante. Os angustiados mestres do universo da arte diziam estar chocados com a onda de roubos, embora os verdadeiros profissionais da lei admitissem que era surpreendente que ainda houvesse qualquer quadro para ser roubado. "Se você pendura 100 milhões de dólares numa parede com pouca segurança", disse um oficial da Interpol, "é só uma questão de tempo até que algum ladrão tente levá-los embora."

A ousadia dos criminosos só estava à altura da sua competência. A habili­dade deles era inegável. Mas o que a polícia mais admirava em seus oponentes era a disciplina ferrenha. Não havia vazamento de informações, nenhum sinal de intrigas internas, nem sequer um único pedido de resgate, pelo menos ne­nhum pedido verdadeiro. Os ladrões roubavam com freqüência mas com crité­rio, nunca levando mais do que um único quadro por vez. Não eram amadores procurando trabalhos rápidos nem integrantes do crime organizado atrás de uma fonte de dinheiro. Eram ladrões de arte no sentido mais puro da expressão. Um detetive exausto chegou a prever que os quadros roubados naquele longo e quente verão provavelmente permaneceriam desaparecidos por anos, se não décadas. Na verdade, ele achava que havia uma boa probabilidade de nunca mais serem vistos pelo público.

Até a polícia ficava maravilhada com a variedade de técnicas dos ladrões. Eles eram como grandes jogadores de tênis capazes de vencer em vários tipos de quadra na mesma semana. Em junho, os criminosos recrutaram um segurança insatisfeito no Museu Kunsthistorisches, em Viena, e realizaram um furto noturno de David com a Cabeça de Golias, de Caravaggio. Em julho, optaram por um ousado ataque de competência militar em Barcelona e levaram do Museu Picasso o Retrato da Senhora Canais. Apenas uma semana depois, o adorável Maisons à Fenouillet desapareceu tão silenciosamente das paredes do Museu Matisse, em Nice, que a aturdida polícia francesa se perguntou se a pintura tinha criado pernas e saído por conta própria. Em seguida, no último dia de agosto, houve uma operação impecável de arrombamento e furto na Galeria Courtauld, em Londres, que lhes rendeu o Auto-retrato com a Orelha Cortada, de Vincent van Gogh. O tempo total da operação foi de impressionantes 97 segundos - mais impressionantes ainda considerando-se que um dos ladrões parou por um momento, quando saía pela janela do segundo andar, para fazer um gesto obsceno em direção ao voluptuoso Nu Feminino, de Modigliani. Naquela noite, o vídeo da segurança já rodava em toda a internet. Segundo o perturbado diretor da Courtauld, foi um final previsível para um verão absolutamente terrível.

Os roubos geraram uma série de críticas em relação à segurança dos museus internacionais. Uma reportagem do Times relatou que uma análise interna feita havia pouco tempo pela Galeria Courtauld originara uma séria recomendação para que o Van Gogh fosse realocado em um lugar mais seguro. Mas as análises foram rejeitadas, pois o diretor da galeria gostava do quadro onde estava. Na esteira do Times, o Telegraph produziu uma série de ótimos artigos referentes às dificuldades financeiras enfrentadas pelos grandes museus da Grã-Bretanha. Revelou que a Galeria Nacional de Londres e a Tate não tinham sequer se dado o trabalho de fazer seguro para suas coleções, preferindo confiar em câmeras de segurança e vigias mal pagos para proteger as obras. "Não deveríamos nos perguntar como as grandes obras de arte desaparecem das paredes dos museus", declarou o renomado negociante de arte Julian Isherwood, "e sim por que isso não acontece com mais freqüência. Pouco a pouco, nossa herança cultural está sendo saqueada."

Os raros museus com recursos para aumentar a segurança o fizeram rapida­mente, mas os que tinham dinheiro apenas para o essencial só conseguiram ins­talar grades nos portões e rezar para não serem os próximos na lista dos ladrões. Porém, quando setembro chegou ao fim sem qualquer ocorrência, o mundo da arte deu um suspiro coletivo de alívio e se convenceu de que o pior havia pas­sado. Os meros mortais já estavam tratando de questões mais importantes. Com as guerras no Iraque e no Afeganistão ainda em andamento e a economia global indo mal das pernas, poucas pessoas tinham energia para se indignar com o su- miço de quatro retângulos de tela cobertos de tinta. A líder de uma organização beneficente internacional estimou que o valor somado das peças desaparecidas poderia alimentar a África por anos. Não seria melhor se os milionários fizes­sem algo mais útil com sua fortuna do que forrar suas paredes e encher seus cofres secretos com obras de arte?

Essas palavras eram uma heresia para Julian Isherwood e sua irmandade, que dependiam da ganância dos ricos para seu sustento. Mas eles tinham um público mais receptivo em Glastonbury, a antiga cidade de peregrinos a oeste de Londres, em Somerset. Na Idade Média, os cristãos formavam verdadeiros rebanhos para ver a famosa abadia de Glastonbury e admirar a sagrada Árvore de Espinhos, que teria brotado quando José de Arimateia, discípulo de Jesus, deitou seu cajado no chão no ano 63 da era cristã. Agora, quase dois milênios depois, a abadia era apenas uma gloriosa ruína, com os restos de sua fachada outrora sublime deixados ao relento num parque como túmulos erguidos para uma fé moribunda. Os novos peregrinos de Glastonbury raramente se davam o trabalho de visitar o local, preferindo subir as encostas da montanha mística conhecida como Tor ou passear pelas lojas do movimento Nova Era que ficavam na High Street. Alguns iam em busca de si mesmos. Outros, atrás de uma mão para guiá-los. E poucos realmente estavam à procura de Deus. Ou ao menos de uma cópia razoável Dele.

Christopher Liddell não tinha ido à cidade por nenhuma dessas razões. Ele chegara ali por causa de uma mulher e permanecera por causa de uma criança. Não era um peregrino. Era um prisioneiro.

Fora Hester quem o arrastara para lá. Hester, seu maior amor, seu pior engano. Cinco anos antes ela tinha exigido que saíssem de Notting Hill para que ela pudesse encontrar a si mesma em Glastonbury. Mas, ao se encontrar, Hester desco­briu que o segredo de sua felicidade era dispensar Liddell. Talvez outros homens tivessem se sentido tentados a partir, mas, embora Liddell fosse capaz de viver sem Hester, não conseguia imaginar a vida sem Emily. Era melhor continuar em Glastonbury e aturar os pagãos e os druidas do que voltar a Londres e se tornar uma lembrança desbotada na memória de sua única filha. Assim, Liddell enter­rou sua tristeza e sua revolta e seguiu em frente. Era dessa forma que ele lidava com todas as coisas. Era um homem confiável. Mas achava que essa não era a melhor coisa que um homem podia ser.

Glastonbury não era completamente desprovida de encanto. Um deles era o café Hundred Monkeys, adepto da culinária vegetariana e sustentável desde 2005, o lugar favorito de Liddell. Ele estava na mesa de sempre, protegido por um exemplar do jornal Evening Standard aberto à sua frente. Na mesa ao lado, uma mulher de meia-idade lia um livro chamado Crianças Crescidas: A Disfunção Secreta. Num canto nos fundos, um profeta calvo vestido de branco fazia um sermão para seis pupilos extasiados sobre alguma coisa relacionada ao espiritualismo zen. Na mesa próxima à porta, um homem de cerca de 30 anos com a barba por fazer tinha as mãos aninhadas embaixo do queixo em um gesto con­templativo. Seus olhos passeavam pelo quadro de avisos, coberto com as boba­gens de sempre - um convite para entrar para o Grupo Viver Positivamente de Glastonbury, um informe de um seminário grátis sobre a dissecação de corujas, um panfleto de sessões de cura tibetanas -, mas ele parecia examinar tudo com uma atenção incomum. Uma xícara de café continuava intocada à sua frente, ao lado de um caderno de anotações aberto, também intocado. Um poeta em busca de inspiração, pensou Liddell. Um polemista esperando pela fúria.

Liddell o examinou com seu olhar experiente. Ele vestia uma calça jeans esfarrapada e uma camisa de flanela, o uniforme de Glastonbury. O cabelo era escuro e puxado para trás num rabo de cavalo curto e espesso, e os olhos, de um castanho bem escuro e com um suave brilho. Usava um relógio com cor­reia de couro grossa no pulso direito e várias pulseiras baratas de prata no esquerdo. Liddell esquadrinhou os braços e antebraços em busca de tatuagens, mas não encontrou nenhuma. Estranho, já que em Glastonbury até mesmo vovós exibiam suas tatuagens com orgulho. Por ali uma pele imaculada era algo raro como o sol no inverno.

A garçonete apareceu e deixou a conta no meio do jornal de Liddell, de forma provocante. Era alta e bastante bonita, com o cabelo claro repartido no meio e um crachá com o nome GRACE preso no suéter justo no corpo. Desde a partida de Hester, Liddell perdera a capacidade de conversar com mulheres desconhecidas. Além do mais, havia outra pessoa em sua vida agora. Era uma garota tranqüila, que perdoava os defeitos dele e sentia-se grata por sua afeição. Acima de tudo, precisava dele tanto quanto ele precisava dela. Era a namorada perfeita. A amante perfeita. E era o segredo de Christopher Liddell.

Pagou a conta em dinheiro - estava em guerra com Hester por conta dos car­tões de crédito; na verdade, por conta de praticamente tudo - e foi em direção à porta. O poeta-polemista rabiscava furiosamente no caderno. Liddell passou por ele e saiu do café. Uma névoa incômoda se formava na rua e de algum lugar a distância ele ouviu a batida de tambores. Então lembrou que era quinta-feira, quando acontecia a noite da terapia xamã com batuques no espaço cultural Assembly Rooms.

Atravessou a rua e passou em frente à entrada da Igreja de St. John, depois da pré-escola da paróquia. No dia seguinte, à uma da tarde, Liddell estaria lá entre mães e responsáveis para buscar Emily. Por ordem judicial, tinha se tornado pouco mais que uma babá. Duas horas por dia era o tempo a que tinha direito, o que quase não dava nem para uma volta no carrossel e um lanche na loja de doces. Era a vingança de Hester.

Entrou na Church Lane. Era um beco estreito, com paredes altas de pedra cinzenta nos dois lados. Como sempre, a única lâmpada estava queimada. Liddell vinha pensando em comprar uma pequena lanterna, como a que seus avós usa­vam durante a guerra. Pensou ter ouvido passos e olhou por cima dos ombros na direção da escuridão. Chegou à conclusão de que não era nada, só coisa de sua cabeça. Você é muito bobo, Christopher, chegou a ouvir Hester dizendo. Você é muito bobo.

No final da viela começava uma área residencial de pequenas casas geminadas de um andar. Henley Close ficava no extremo nordeste, com vista para um campo esportivo. Os quatro chalés eram um pouco mais espaçosos que a maio­ria dos outros na vizinhança e tinham jardins cercados por muros. Na ausência de Hester, o jardim da casa 8 tinha assumido um ar melancólico de descaso que começava a atrair olhares feios do casal de vizinhos. Ele colocou a chave na fechadura e girou. Ao entrar no corredor, foi recebido pelo apito do alarme de segurança. Digitou o código no teclado - a data de nascimento de Emily - e subiu as escadas para o andar de cima. A garota o esperava lá, envolta na escu­ridão. Liddell acendeu a luz.

Ela estava sentada numa cadeira de madeira, com um xale de seda cravejado de pedras cobrindo-lhe os ombros. Brincos de pérolas balançavam em suas ore­lhas e uma corrente de ouro despontava na pele pálida de seus seios. Liddell es­ticou o braço e acariciou sua bochecha. Os anos tinham marcado seu rosto com rugas e amarelado a pele antes branca como cera. Não importava. Liddell tinha o poder de curá-la. Num tubo de ensaio, preparou um líquido incolor - duas porções de acetona, uma de éter metílico e dez de solução mineral - e umedeceu a ponta de um cotonete com ele. Ao passá-lo sobre a curva dos seios, olhou direto em seus olhos. A garota o encarou de volta, seu olhar sedutor, os lábios formando um meio sorriso divertido.

Liddell jogou o cotonete no chão e pegou outro. Foi então que escutou um barulho que soou como o estalido de uma fechadura. Ficou imóvel por um instante, depois virou o rosto em direção à escada e gritou: "Hester? É você?" Sem receber qualquer resposta, mergulhou o novo cotonete na poção e o passou mais uma vez, com cuidado, nos seios da garota. Alguns segundos depois ouviu outro som, dessa vez mais próximo e claro o suficiente para Liddell se dar conta de que não estava mais sozinho.

Virando o corpo com rapidez em cima do banco, vislumbrou uma figura no patamar ocultada pela sombra. A pessoa deu dois passos à frente e entrou com calma no estúdio de Liddell. Calça jeans e camisa de flanela, cabelo escuro preso num rabo de cavalo curto e espesso, olhos escuros: era o homem do café Hundred Monkeys. Obviamente, não era nem poeta nem polemista. Tinha uma arma na mão, apontada para o peito de Liddell. Liddell tentou agarrar o frasco de solvente. Era um homem confiável. E por isso logo estaria morto.


2

St. James, Londres


O primeiro sinal de que algo estava errado aconteceu na tarde seguinte, quando Emily Liddell, de 4 anos e 7 meses, saiu da pré-escola da paróquia St. John e não encontrou ninguém para buscá-la. O corpo foi achado pouco depois e no fim da tarde a morte de Liddell já havia sido oficialmente declarada como homicídio. O boletim inicial da rede de notícias BBC de Somerset infor­mou o nome da vítima, mas não chegou a mencionar sua profissão ou possíveis motivos para o homicídio. A Rádio 4 decidiu ignorar a história, assim como os jornais nacionais "de qualidade". Só o Daily Mail publicou uma descrição do assassinato, um pequeno texto em meio a uma infinidade de notícias sórdidas ao redor do país.

Como resultado, a morte de Christopher Liddell quase passou despercebida pelo mundo artístico de Londres, já que poucos de seus ilustres integrantes se sujeitavam a manchar os dedos com o Daily Mail. Mas esse não era o caso de Oliver Dimbleby, um atarracado negociante de reputação duvidosa da rua Bury que nunca se envergonhara de suas raízes proletárias. Dimbleby leu a respeito do assassinato de Glastonbury durante o café da manhã e à tarde já alardeava a notícia a qualquer possível interessado no bar do Green's Restaurant, um lugar na rua Duke onde os comerciantes se reuniam para celebrar os triunfos e chorar as derrotas.

Uma das pessoas que Dimbleby encurralou foi o próprio Julian Isherwood, proprietário único da Isherwood Fine Arts, localizada no número 7-8 da Mason's Yard, em St. James, Londres, uma galeria que só às vezes dava lucro, mas nunca era monótona. Ele era "Julie" para os amigos e "Julie Suculento" para os parceiros no crime ocasional de bebedeira. Era um homem contraditório. Perspicaz, mas imprudente. Brilhante, mas ingênuo. Reservado como um espião, mas com uma confiança nos outros que beirava a estupidez. De forma geral, porém, era uma pessoa divertida. Na verdade, para a maior parte dos freqüentadores do mundo artístico de Londres, a Isherwood Fine Arts sempre fora considerada uma galeria de qualidade. Passara por altos impressionantes e baixos gravíssi­mos, e parecia que uma conspiração estava sempre ocorrendo por trás de sua fa­chada cintilante. A culpa das constantes turbulências do negócio de Isherwood era seu lema simples e repetido com freqüência: "Pinturas primeiro, negócios depois", ou PPND, para abreviar. A fé indevida de Isherwood no PPND às vezes quase o levava ao colapso financeiro. De fato, alguns anos antes suas limitações econômicas tinham se tornado tão sérias que o próprio Dimbleby fizera uma tentativa grosseira e desajeitada de comprar a galeria. Era um dos muitos inci­dentes que os dois preferiam fingir nunca ter acontecido.

Mas mesmo Dimbleby ficou surpreso com a expressão de choque que domi­nou o rosto de Isherwood no instante em que ele ficou sabendo do assassinato em Glastonbury. Isherwood conseguiu se recompor rapidamente. Então, depois de balbuciar algo absurdo sobre uma tia doente que precisava visitar, engoliu seu gim-tônica e saiu apressado.

Retornou de imediato à galeria e telefonou, agitado, para um contato de confiança no Esquadrão de Artes e Antigüidades da Scotland Yard. Uma hora e meia depois, a pessoa retornou. A notícia era ainda pior do que Isherwood esperava. O Esquadrão de Artes prometeu fazer o melhor possível, mas, ao encarar o abismo dos balanços financeiros da galeria, ele concluiu que não teria escolha a não ser tratar da questão pessoalmente. Sim, já passara por crises antes, mas agora era sério. Poderia perder tudo aquilo pelo que tinha trabalhado e espectadores ino­centes pagariam um preço alto por sua tolice. Isso não era jeito de terminar uma carreira - não depois de tudo o que conquistara. E absolutamente não depois de tudo o que seu pobre pai tinha feito para garantir sua sobrevivência.

Foi essa memória tão inesperada do pai que levou Isherwood a pegar o tele­fone de novo. Começou a discar um número, mas parou no meio. Raciocinou que era melhor não avisar com antecedência. Melhor aparecer de surpresa na porta.

Colocou o fone no gancho e verificou sua agenda do dia seguinte. Só três compromissos pouco promissores, nada que não pudesse ser adiado. Isherwood passou uma linha grossa por cima de cada entrada e escreveu um nome bíblico no topo da página. Encarou o nome por um instante e então, percebendo seu erro, riscou-o com alguns movimentos firmes da caneta. Coloque a cabeça no lugar. No que estava pensando, Julie? No que diabo estava pensando?



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