Daniel silva



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Península do Lagarto, Cornualha


Cercas vivas acompanhavam a trilha estreita que partia da ponta da penín­sula em direção ao norte e ocultavam o campo ao redor. Isherwood dirigia bem devagar, o corpo alto curvado sobre o volante, enquanto Gabriel olhava pela janela em silêncio. - Você o conhecia, né? Gabriel assentiu, distraído.

  • Fomos aprendizes de Umberto Conti, em Veneza. Liddell nunca foi com a minha cara.

- Isso é compreensível. Ele deve ter ficado com inveja. Liddell era talentoso, mas não estava à sua altura. Você era a estrela, todo mundo sabia.

Era verdade. Christopher Liddell chegara a Veneza já como um artista ha­bilidoso - mais habilidoso que Gabriel -, mas nunca obteve a aprovação de Umberto. O trabalho de Liddell era metódico e minucioso, mas desprovido da paixão que Umberto via sempre que o pincel de Gabriel tocava a tela. Um­berto tinha um conjunto mágico de chaves que podiam abrir qualquer porta em Veneza. Costumava arrastar Gabriel de seu quarto tarde da noite para observar as obras de arte da cidade. Liddell ficou furioso quando soube dos ensinamen­tos noturnos e pediu que o convidassem. Umberto recusou: o aprendizado de Liddell se limitaria às horas diurnas. As noites pertenciam a Gabriel.



  • Não é todo dia que um restaurador de arte é brutalmente assassinado no Reino Unido - disse Isherwood. - Dadas as circunstâncias, deve ter causado certo impacto.

  • Basta dizer que eu li a história hoje de manhã com um interesse mais do que passageiro. E nenhuma das matérias mencionava um Rembrandt perdido, recém-descoberto ou não.

  • Isso porque o Esquadrão de Artes e Antigüidades da Scotland Yard orien­tou a polícia local a manter o roubo em segredo, pelo menos por enquanto. Esse tipo de publicidade só dificulta a recuperação, pois tende a atrair pessoas que não estão de fato em posse do quadro. Até onde o público sabe, o motivo por trás do assassinato ainda é um mistério.

  • E seria bom que permanecesse assim - completou Gabriel. - Além do mais, a última coisa de que precisamos é anunciar ao mundo que restauradores particulares mantêm quadros tão valiosos em lugares tão pouco seguros.

Esse era um dos muitos segredos sujos do mundo da arte. Gabriel sempre trabalhara em locais isolados, mas em Nova York e Londres não era incomum entrar no estúdio de um restaurador de elite e encontrar dezenas de milhões de dólares em quadros. Se a temporada de leilões estivesse chegando, o valor das obras podia ser estratosférico.

  • Fale mais sobre a pintura, Julian.

Isherwood olhou com expectativa para Gabriel.

  • Isso significa que você vai aceitar o trabalho?

  • Não, Julian. Significa que eu quero saber mais sobre a pintura.

  • Por onde você quer que eu comece?

  • Pelas medidas.

  • Tem 104 por 86 centímetros.

  • Data?

  • 1654.

  • Painel ou tela?

  • Tela. A contagem de fios é consistente com as telas que Rembrandt usava na época.

  • E quando foi a última restauração?

  • Difícil dizer. Cem anos atrás, talvez mais. A pintura estava bem gasta em alguns lugares. Liddell achou que seria necessária uma quantidade substancial de retoques. Estava preocupado com o prazo.

Gabriel perguntou sobre a composição.

  • Em termos de estilo, é similar a outros retratos daquele período. A mo­delo é uma jovem atraente de cerca de 30 anos. Está usando apenas um xale de seda. Existe um elemento de intimidade na pintura que deixa claro que ela era importante para Rembrandt. Ele trabalhou com um pincel bastante carregado, numa velocidade considerável. Em alguns lugares, parece que chegou a pintar alla prima, sem ter feito nenhum tipo de teste antes.

  • Sabemos quem ela é?

  • Não tem nada que a identifique especificamente, mas a Comissão e eu concordamos que se trata da amante dele.

  • Hendrickje Stoffels?

Isherwood assentiu.

  • A data da pintura é significativa, porque é o mesmo ano em que Hendrickje deu à luz a filha de Rembrandt. É claro que a Igreja holandesa não viu isso com bons olhos. Ela foi levada a julgamento e condenada a viver com Rembrandt como uma prostituta. Ele nunca se casou com ela.

Isherwood parecia sinceramente incomodado com isso. Gabriel sorriu.

  • Se eu não o conhecesse melhor, Julian, acharia que você está com ciúme.

  • Espere até vê-la.

Os dois homens ficaram em silêncio no caminho para o vilarejo do Lagarto. No verão o lugar ficava cheio de turistas. Agora, com as barracas de suvenires e as sorveterias fechadas, pairava uma tristeza no ar.

  • O que me diz sobre a procedência?

  • Tem lacunas aqui e ali. Assim como a sua procedência, Gabriel - acrescen­tou Isherwood, com um olhar de confidência. - Mas não há nenhuma reivindi­cação feita em relação a ela. Pedi que o Registro de Obras Perdidas fizesse uma busca discreta para ter certeza.

  • O escritório de Londres?

Isherwood assentiu.

  • Então eles também sabem sobre a pintura? - perguntou Gabriel, com desconfiança.

  • A função deles é encontrar quadros, querido, não roubá-los.

  • Continue, Julian.

  • Supostamente a tela permaneceu na coleção particular de Rembrandt até sua morte, quando foi vendida pela corte de falências para ajudar a pagar as dívidas dele. De lá, circulou por Haia por um século, mais ou menos. Fez uma breve incursão pela Itália e voltou à Holanda no início do século XIX. O dono atual a comprou em 1964 da Galeria Hoffmann, em Lucerna. Aquela linda jovem passou a vida se escondendo.

Atravessaram um túnel de árvores úmidas cheias de hera e seguiram na dire­ção de um vale profundo, com uma igreja antiga de pedra na parte mais baixa.

  • Quem mais sabia que a pintura estava em Glastonbury?

Isherwood pensou a respeito.

  • O diretor da Galeria Nacional de Arte, em Washington, e minha transpor­tadora. - Hesitou e então acrescentou: - Acho que cheguei a mencionar alguma coisa para Van Berkel.

  • Liddell tinha outras obras no estúdio?

  • Quatro - respondeu Isherwood. - Um Rubens que ele tinha acabado de restaurar para a Christies, um outro que talvez seja um Ticiano, uma paisagem de Cézanne... muito boa, por sinal... e alguns nenúfares caríssimos de Monet.

  • Suponho que também tenham sido roubados.

Isherwood balançou a cabeça.

  • Só o meu Rembrandt.

  • Mais nenhuma obra? Tem certeza?

  • Confie em mim, querido. Tenho certeza.

Saíram do vale e voltaram para o terreno aberto. A distância, dois enormes helicópteros navais flutuavam como zepelins sobre uma base aérea da Marinha. A cabeça de Gabriel, no entanto, estava focada numa única pergunta: por que um ladrão que estivesse com pressa levaria um retrato imenso de Rembrandt em vez de uma obra menor de Cézanne ou Monet?

  • A polícia tem alguma teoria?

  • Suspeitam que Liddell deve ter surpreendido os ladrões no meio do roubo. Quando a coisa ficou feia, o mataram e puseram as mãos na pintura mais próxima, que por acaso era a minha. Depois da onda de roubos deste verão, a Scotland Yard está bastante pessimista a respeito das chances de recuperação. E a morte de Liddell complica as coisas. Agora esta é uma investigação de assassinato.

  • Qual é a previsão de pagamento da seguradora?

Isherwood franziu a testa e tamborilou no volante com um dedo, nervoso.

  • Você acabou de chegar ao cerne do meu dilema.

  • Que dilema?

  • Atualmente, o dono de direito do Rembrandt continua sendo o cliente não identificado de David Cavendish. Mas quando eu tomei posse da pintura, ela deveria ter sido incluída na minha cobertura de seguro.

A voz de Isherwood se perdeu. Tinha uma nota melancólica que Gabriel já ouvira muitas vezes antes. Em geral acontecia quando estava com o cora­ção partido ou quando tinha sido forçado a vender um quadro de que gostava muito. Mas normalmente significava que ele estava com problemas financeiros. De novo.

  • O que você fez desta vez, Julian?

  • Bom, este ano tem sido difícil, não é, queridinho? Quando o mercado de ações cai, o mercado imobiliário quebra e, consequentemente, as vendas de itens de luxo diminuem. O que um pequeno negociante independente como eu deveria ter feito?

  • Você não avisou à seguradora sobre o quadro, avisou?

  • Os prêmios são tão caros... E aqueles corretores são uns parasitas. Você sabe quanto isso teria me custado? Eu achei que poderia...

  • Dar um jeitinho?

  • Algo assim. - Isherwood ficou em silêncio. Quando voltou a falar, sua voz ti­nha uma nota de desespero que não estivera lá antes. - Preciso da sua ajuda, Ga­briel. No momento eu sou pessoalmente responsável por 45 milhões de dólares.

  • Não é esse o meu trabalho, Julian. Sou um...

  • Restaurador? - Isherwood olhou para Gabriel com ceticismo. - Nós dois sabemos que você não é um restaurador de arte comum. Também é excepcionalmente bom em encontrar coisas. E, desde que nos conhecemos, nunca lhe pedi um favor. - Ele fez uma pausa. - Não existe mais ninguém a quem eu possa pedir isso. Se você não me ajudar, estarei arruinado.

Gabriel bateu a mão de leve na janela para avisar a Isherwood que estavam se aproximando da mal sinalizada curva para Gunwalloe. Tinha que admitir que o apelo o comovera. O pouco que sabia sobre o caso lhe dizia que não se tratava de um ladrão de arte comum. Além disso, sentia uma incômoda culpa pela morte de Liddell. Como Shamron, Gabriel fora amaldiçoado com um senso exagerado de certo e errado. Seus maiores triunfos profissionais como agente de segurança não tinham sido conquistados à mão armada, e sim por meio de sua vontade inflexível de expor os erros cometidos e corrigi-los. Ele era um restaurador no sentido mais autêntico da palavra. Para Gabriel, o caso era como uma pintura danificada. Deixá-lo em sua condição atual, escurecido por um verniz amare­lado e com cicatrizes do tempo, não era uma opção. Isherwood, claro, sabia disso. Também sabia que tinha um aliado poderoso: o Rembrandt falava por ele.

Uma escuridão profunda caíra sobre a costa da Cornualha quando chegaram a Gunwalloe. Isherwood não disse mais nada enquanto guiava seu Jaguar ao longo da única rua do vilarejo e se dirigia ao pequeno chalé no final da enseada. Ao virarem na entrada, várias lâmpadas de segurança se acenderam instantaneamente, inundando a paisagem com uma forte luz branca. Parada na va­randa, com o cabelo escuro balançando ao vento, estava Chiara. Isherwood a observou por um instante e depois analisou a paisagem.



  • Alguém já lhe disse que este lugar parece exatamente com uma paisagem de Monet?

  • Talvez a garota do correio tenha mencionado. - Gabriel olhou para Chiara. - Eu gostaria de poder ajudá-lo, Julian...

  • Mas...?

  • Não estou pronto. - Fez uma pausa. - Nem ela.

  • Eu não estaria tão certo a respeito desta última parte.

Chiara entrou no chalé. Isherwood entregou a Gabriel um grande envelope marrom.

  • Ao menos dê uma olhada. Se ainda assim não quiser o trabalho, vou en­contrar alguma pintura bacana para você restaurar. Alguma coisa desafiadora, como um painel italiano do século XIV bastante empenado e com danos sufi­cientes para manter essas suas mãos mágicas ocupadas por vários meses.

  • Restaurar um quadro desses seria mais fácil que encontrar o seu Rembrandt.

  • Sim - concordou Isherwood. - Mas não seria tão interessante.

7

Enseada Gunwalloe, Cornualha


O envelope continha ao todo dez fotografias: uma foto da pintura inteira e nove closes detalhados. Gabriel as espalhou enfileiradas no balcão da cozinha e examinou cada uma com uma lente de aumento. - O que você está vendo? - perguntou Chiara.

  • O modo como ele carregou o pincel.

- E...?

  • Julian estava certo. Ele pintou com muita rapidez e bastante paixão. Mas duvido que tenha trabalhado alla prima. Estou vendo pontos onde ele fez as sombras primeiro, deixando-as secar antes de continuar.

  • Então é mesmo um Rembrandt?

  • Sem dúvida.

  • Como você pode ter tanta certeza só de olhar para uma foto?

  • Trabalho com pinturas há séculos. Sei reconhecer o que vejo. Esse não é apenas um Rembrandt, mas um Rembrandt excepcional. E está dois séculos e meio à frente de seu tempo.

  • Como assim?

  • Dê uma olhada no modo como a tinta foi aplicada. Rembrandt foi um impressionista antes de o termo sequer existir. É uma prova da sua genialidade.

Chiara pegou uma das fotos, um close do rosto da mulher.

  • Linda. E a amante dele?

Gabriel levantou uma sobrancelha, surpreso.

  • Eu fui criada em Veneza e fiz mestrado em história do Império Romano. Entendo um pouco de arte. - Chiara olhou novamente para a fotografia e balançou a cabeça. - Ele a tratava mal. Devia ter se casado com ela.

  • Você parece Julian falando.

  • Julian está certo.

  • A vida de Rembrandt foi complicada.

  • Onde foi que eu já ouvi isso mesmo?

Chiara deu um sorriso malicioso e colocou a foto de volta no balcão. O in­verno da Cornualha tinha suavizado o tom da sua pele mediterrânea e a umi­dade do mar acrescentara cachos a seus cabelos. Estavam presos com uma fivela na altura da nuca e caíam por suas costas na forma de uma grande nuvem casta­nho-avermelhada com mechas acobreadas. Ela era 2 centímetros mais alta que Gabriel e fora abençoada com ombros quadrados, uma cintura fina e as pernas compridas de uma atleta nata. Se tivesse sido criada em outro lugar que não Ve­neza, poderia ter se tornado uma nadadora ou tenista profissional. Mas, como a maioria dos venezianos, Chiara considerava disputas esportivas algo para se ver tomando um café ou aproveitando uma boa refeição. Quando alguém precisava de exercício, era só fazer amor ou caminhar até as balsas para tomar um sorvete. Segundo ela, só os americanos se exercitavam por obrigação, e o resultado disso era uma epidemia de ataques cardíacos e crianças obesas. Descendente de ju­deus espanhóis que fugiram de Veneza no século XV, Chiara acreditava que não havia mal que não pudesse ser curado com um pouco de água mineral ou uma taça de um bom vinho tinto.

Abriu a porta de aço inoxidável do forno e tirou lá de dentro uma panela laranja grande. Quando removeu a tampa, o vapor quente encheu o chalé in­teiro com o cheiro de vitela assada, cebola, erva-doce e vinho doce da Toscana. Ela inspirou profundamente, tocou a superfície da carne com a ponta do dedo e deu um sorriso satisfeito. O descaso de Chiara por exercícios físicos só se igualava à sua enorme paixão por cozinhar. E agora que estava oficialmente aposentada do Escritório, tinha pouco a fazer além de ler e preparar refeições extravagantes. Tudo o que Gabriel precisava fazer era expressar seu apreço de forma apropriada e dar sua atenção completa. Chiara acreditava que comer com pressa era um desperdício. Alimentava-se da mesma forma como fazia amor: lentamente e à luz oscilante de velas. Lambeu a ponta do dedo e colocou a tampa de volta na panela. Depois que fechou o forno, virou-se e viu Gabriel observando-a.



  • Por que você está me olhando assim?

  • Só estou olhando.

  • Algum problema?

Ele sorriu.

  • Não, nenhum.

Ela franziu a testa.

  • Você precisa de alguma coisa para ocupar sua cabeça além do meu corpo.

  • Falar é fácil. Quanto tempo nós temos antes do jantar?

  • Não o suficiente para isso, Gabriel.

  • Eu não estava sugerindo isso.

  • Não? - Ela simulou uma expressão triste. - Estou desapontada.

Abriu uma garrafa de vinho, serviu duas taças e empurrou uma na direção de Gabriel.

  • Que tipo de gente rouba quadros?

  • Ladrões, Chiara.

  • Acho que você quer ir dormir com fome.

  • Deixe-me reformular. O que eu estava tentando dizer é que não importa, realmente, o tipo de gente que rouba quadros. O fato é que eles são roubados todo dia. Literalmente. E as perdas são imensas. De acordo com a Interpol, algo entre 4 e 6 bilhões de dólares por ano. Depois do tráfico de drogas, da lavagem de dinheiro e do tráfico de armas, o roubo de obras de arte é o empreendimento criminoso mais lucrativo que existe. Já foram roubadas pinturas de Ticiano, Rubens, Leonardo, Caravaggio, Rafael, Van Gogh, Monet, Renoir, Degas... Os

ladrões de arte pilharam algumas das criações mais belas da humanidade. E, de forma geral, não fizemos nada para impedi-los.

  • Mas quem são esses ladrões?

  • Alguns são aventureiros incompetentes atrás de emoção. Outros são crimi­nosos comuns tentando ficar famosos por um roubo extraordinário. Mas, infe­lizmente, há alguns que são verdadeiros profissionais. E da perspectiva deles, a relação risco-recompensa está totalmente a seu favor.

  • Recompensas altas e riscos baixos?

  • Riscos extremamente baixos - disse Gabriel. - Um segurança pode atirar num ladrão durante um roubo a banco, mas até onde sei ninguém jamais levou um tiro tentando roubar um quadro. Na verdade, facilitamos bastante a vida dos ladrões.

  • É mesmo?

  • Em 1998, um ladrão entrou na sala 67 do Louvre, cortou O Caminho de Sèvres, de Corot, da moldura e saiu andando. Só uma hora depois alguém se deu conta de que o quadro não estava mais lá. E por que isso aconteceu? Por­que a sala 67 não tinha câmeras de segurança. A autópsia oficial foi ainda mais constrangedora. Responsáveis do museu não conseguiram sequer compilar uma lista completa de funcionários, ou mesmo fazer uma contagem precisa das obras. A análise oficial concluiu que seria mais difícil para um ladrão roubar qualquer loja de departamentos em Paris do que a maioria dos museus famosos de qualquer lugar do mundo.

Chiara balançou a cabeça, surpresa.

  • O que acontece com o quadro depois que ele é roubado?

  • Depende do motivo. Alguns ladrões só querem lucro imediato, e o jeito mais rápido de converter um quadro em dinheiro é devolvendo-o em troca da recompensa. Recompensa não, resgate. Como quase sempre o montante é uma fração pequena do valor real do quadro, os museus e as companhias de seguro ficam mais do que satisfeitos em participar do jogo. E os ladrões sabem disso.

  • E quando o motivo não é o lucro imediato?

  • Existe uma discussão no mundo da arte e das forças da lei a respeito disso. Algumas obras acabam sendo usadas como uma espécie de moeda de troca no mercado negro. Um Vermeer roubado de um museu em Amsterdã, por exem­plo, pode acabar nas mãos de uma gangue de tráfico de drogas na Bélgica ou na França, que por sua vez pode usar o quadro como garantia ou pagamento à vista em troca de um carregamento de heroína na Turquia. Uma única pintura pode circular dessa forma por anos, passando de um criminoso para outro, até alguém decidir trocá-la por dinheiro. Enquanto isso, o quadro sofre danos hor­ríveis. Um Vermeer de 400 anos é um objeto delicado. Não gosta de ser enfiado em malas ou enterrado em buracos.

  • Você concorda com essa hipótese?

  • Em alguns casos ela é incontestável. Em outros... - Gabriel deu de ombros. - Basta dizer que nunca conheci um traficante de drogas que preferisse um qua­dro a dinheiro vivo.

  • Então qual é a outra teoria?

  • Que quadros roubados acabam pendurados nas paredes de homens muito ricos. Um exemplo: cerca de dez anos atrás, Julian estava discutindo os detalhes finais de uma transação com um bilionário japonês na mansão dele, próxima a Tóquio. Em determinado momento, o colecionador pediu licença para atender a uma ligação. Julian, como era de se esperar, se levantou e foi dar uma olhada em volta. No final de um corredor, viu um quadro que lhe parecia familiar e que até hoje ele jura ser o Chez Tortoni.

  • O Manet roubado do Gardner? Por que um bilionário assumiria um risco desses?

  • Porque não se pode comprar o que não está à venda. Lembre-se de que a maioria das obras-primas nunca vai entrar no mercado. E para alguns colecionadores, homens acostumados a conseguir o que querem, o inatingível pode se tornar uma obsessão.

  • E se alguém assim estiver com o Rembrandt de Julian? Quais são as chances de encontrá-lo?

  • Uma em dez, na melhor das hipóteses. E as chances de recuperação caem vertiginosamente se não for encontrado logo. As pessoas estão atrás daquele Manet há duas décadas, por exemplo.

  • Talvez devessem procurar no Japão.

  • Não é má idéia. Mais alguma?

  • Não chega a ser uma idéia - disse Chiara, com cuidado. - Só uma sugestão.

  • E qual é?

  • Seu amigo Julian precisa de você, Gabriel. - Chiara apontou para as foto­grafias espalhadas ao longo do balcão. - E ela também.

Gabriel ficou em silêncio. Chiara pegou a foto que mostrava a tela inteira.

  • Em que ano ele pintou esse quadro?

  • 1654.

  • O mesmo ano em que Hendrickje deu à luz Cornelia?

Gabriel assentiu.

  • Acho que ela parece grávida.

  • É possível.

Chiara examinou a imagem com atenção por um momento.

  • Sabe o que mais eu acho? Que ela está guardando segredo. Acho que sabe que está grávida mas ainda não teve coragem de contar para ele. - Chiara olhou para Gabriel. - Isso soa familiar para você?

  • Acho que você teria dado uma boa historiadora da arte, Chiara.

  • Eu fui criada em Veneza. Eu sou uma historiadora da arte. - Olhou para a foto de novo. - Não posso deixar uma mulher grávida enterrada num buraco, Gabriel. Nem você.

Gabriel pegou seu celular. Ao digitar o número de Isherwood, escutou Chiara cantando suavemente. Ela sempre cantava quando estava feliz. Foi a primeira vez que Gabriel a ouviu cantar em mais de um ano.
8

Rua de Miromesnil, Paris


A placa na vitrine da loja dizia ANTIGÜIDADES CIENTÍFICAS. Embaixo havia diversas fileiras de microscópios antigos, câmeras, barômetros, telescópios, topógrafos e óculos arrumados meticulosamente. Todos os dias, antes de abrir a loja, Maurice Durand passava alguns instantes inspecionando a dispo­sição das peças em busca de qualquer imperfeição. Mas não naquela manhã. O mundinho bem organizado de Durand estava sendo perturbado por um problema, uma crise de proporções gigantescas para um homem que dedicara toda a vida a evitar problemas e crises.

Ele destrancou a porta, mudou a placa de FECHADO para ABERTO e foi para o escritório nos fundos da loja. Assim como o próprio Durand, o cômodo era pequeno e organizado, sem o menor traço de estilo. Depois de pendurar o casaco com cuidado no gancho, esfregou as costas na base da coluna, onde sofria de uma dor crônica, antes de se sentar para ver seus e-mails, o que fez com pouco entusiasmo. Maurice Durand era, em si, uma espécie de antigüi­dade. Aprisionado pelas circunstâncias de uma época sem encantos, tinha se cercado com símbolos de conhecimento. Considerava a correspondência ele­trônica um incômodo desagradável, mas necessário. Preferia papel e caneta à névoa etérea da internet e lia as notícias de vários jornais enquanto tomava café na sua cafeteria favorita. Na opinião de Durand, a internet era uma praga que matava tudo o que tocava. Temia que algum dia ela viesse a destruir a An­tigüidades Científicas.

Durand passou a maior parte da hora seguinte trabalhando na longa fila de pedidos e consultas recebidos do mundo todo. A maioria de seus clientes estava bem consolidada, mas havia alguns relativamente novos. Sempre que Durand lia a correspondência, sua mente se distraía com outras questões. Por exemplo, ao responder ao e-mail de um antigo cliente que vivia na rua P no distrito de Georgetown, em Washington, não pôde deixar de pensar no pequeno museu localizado a alguns quarteirões de distância. Certa vez chegou a receber uma proposta lucrativa para se apropriar do principal quadro da galeria: Almoço na Festa do Barco, de Renoir. Mas, após uma análise minuciosa - Durand era sempre minucioso recusou. O quadro era grande demais e as chances de sucesso eram muito pequenas. Só aventureiros e mafiosos roubavam quadros grandes, e Durand não era nem uma coisa nem outra. Era um profissional, e um verdadeiro profissional nunca aceita um trabalho que não pode realizar. Essa era uma forma de desapontar os clientes, e Maurice Durand nunca desa­pontava os clientes.

Isso explicava seu temperamento ansioso nessa manhã, bem como sua preocupação com a cópia do jornal Le Figaro na mesa. Não importava quantas vezes lesse o artigo marcado por um triângulo vermelho perfeito, os detalhes não mudavam.



Restaurador de arte britânico bastante conhecido... levou dois tiros em sua residência em Glastonbury... motivo do assassinato não está claro... nada foi roubado...

Era a última parte - nada foi roubado - que mais perturbava Durand. Releu o texto, em seguida pegou o celular e discou. O mesmo resultado. Já tinha ligado dez vezes para aquele número. Nas dez vezes, fora condenado ao purgatório da caixa postal.

Durand desligou o telefone e olhou para o jornal. Nada foi roubado... Não ti­nha certeza se acreditara. Mas, dadas as circunstâncias, não tinha escolha a não ser investigar a questão pessoalmente. A parte ruim era que ele seria obrigado a fechar a loja e viajar para uma cidade que era uma afronta a todas as coisas que ele considerava sagradas. Pegou o celular de novo e dessa vez tentou outro número. Uma gravação atendeu. Claro. Durand revirou os olhos e solicitou à máquina uma passagem de primeira classe no vôo matinal para Marselha.



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