De lazarillo a cosme fernandes uma possível releitura do romance picaresco na literatura contemporânea brasileira



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DE LAZARILLO A COSME FERNANDES UMA POSSÍVEL RELEITURA DO ROMANCE PICARESCO NA LITERATURA CONTEMPORÂNEA BRASILEIRA

Adriano Salvi1

Iara de Oliveira2

RESUMO

Este artigo se propõe a analisar o romance Terra Papagalli, de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, procurando identificar no protagonista Cosme Fernandes, a figura do anti-herói pícaro. Para tanto, a análise faz, constantemente, comparações entre o protagonista do romance citado e o protagonista da obra Lazarillo de Tormes, texto gênese da picaresca, revelando que Cosme Fernandes figura na galeria dos neopícaros.


PALAVRAS-CHAVE: anti-herói, pícaro, romance.
RESUMEN

El presente artículo se propone a analisar el romance Terra Papagalli, de José Roberto Torero y Marcus Aurelius Pimenta, en la busqueda por identificar en el protagonista Cosme Fernandes, la figura del antiheroe picaro. Por lo tanto, el analisis hace, constantemente, comparaciones entre el protagonista del romance referido y el protagonista de la obra Lazarillo de Tormes, texto genese de la picaresca, y revela el facto de que Cosme Fernandes se incluye en la galeria de los neopicaros.




PALABRAS CLAVE: antiheroe, picaro, romance

1. INTRODUÇÃO

Ainda é possível, diante da crise estabelecida com a Pós-Moderndiade, encontrar pícaros na literatura contemporânea? Ou esta figura nasceu e morreu nos séculos XVI e XVII? Seria o malandro o pícaro dos “novos tempos”? Essas questões vêm atravessando décadas de discussão e pouco se obteve de respostas.

Na esteira delas convém destacar o fato de que a modernidade vem se valendo cada vez mais da intertextualidade, no campo da produção artística literária. Ou seja, cada vez mais se faz o resgate de textos anteriores, num diálogo contínuo. A exemplo da questão que nos motiva, podemos citar significativas produções como é o caso de Macunaíma, de Mário de Andrade, que revive na rapsódia diversos aspectos do gênero picaresco, incluindo o neopicaresco ao recriar em nosso contexto condições sociais equivalentes “àquelas dos séculos XVI e XVII no murchar do “milagre espanhol” da época, onde os marginais não teriam outra opção para sobreviver a não ser a de subir mediante o pulo astuto e anti-heróico do pícaro” (GONZÁLEZ, 1988, p. 70).

Assim, destcando na obra Terra Papagalli, o mesmo contexto adverso desenhado nos romances picarescos e percebendo nela a representação de uma paródia de notórias características picarescas é que este trabalho se viabiliza no sentido de uma possível confirmação deste fato, que nos permita classificar a obra como pertencente ou não ao gênero aflorado com Lazarrillo de Tormes no ano de 1554.




2. EM QUE O ROMANCE PICARESCO SE DÁ A CONHECER E APRESENTA SUAS MAIS GALHARDAS CARACTERÍSTICAS.

A palavra “pícaro” é oriunda da Língua Espanhola, mas sua origem é bastante enigmática. Segundo VICENTE (on-line):

[...] A interpretação mais antiga se relaciona ao termo latino pica, segundo a qual a palavra teria sentido de miserável uma vez que os romanos impunham a seus prisioneiros a pena de serem vendidos como escravos, atando-os a uma pica ou lança cravada no solo. Outra variante designação viria do verbo picar, visto que os pícaros, tidos aqui como uma espécie de servos, ajudantes de cozinha, picavam os alimentos a serem preparados, como trabalhavam sem pagamento os mesmos também picaban, palavra de origem espanhola que equivale ao termo beliscar, em português, a comida que manuseavam safando-se assim da fome e dando sentido a denominação que os caracteriza [...].

Já Moniz (2007, on-line) afirma que:

Poderá tratar-se de uma derivação do vocabulário “picar”, por analogia com os ofícios ancilares exercidos pelos pícaros: ajudantes de cozinha, picadores de touros, mandaretes, moços de estrebaria, etc. outros cognatos associam-no ao sentido de ralé, de posição rasteira na escala social.

É também Moniz (2007, on-line) que apresenta a definição do termo para a literatura:

No contexto literário, é na acepção adjectivada de astuto, patife, falho de honra e de vergonha, aliada ao sentido pejorativo de vida estroina e vagabunda, que o termo terá surgido pela primeira vez, na Farsa Custódia de Bartolomeu Palau (C. 1545).

Assim, o romance picaresco surge como paródia das idealizantes narrações de epopéias, livros de cavalaria, novelas sentimentais e romances pastoris publicados na Espanha durante o século XVI. O forte contraste com a realidade social gerou uma resposta irônica de caráter denunciativo, na figura do pícaro, substituindo os ideais de um gênero em decadência – a novela de cavalaria - pela exposição de uma nova ordem coletiva, representada por fidalgos empobrecidos, miseráveis deserdados ou servos marginalizados, discriminados por sua malfadada condição social.

Tais personagens caracterizavam dentro da narração picaresca, o estereotipo de um anti-herói que passa por diversas aventuras por conta da própria sobrevivência e ascensão no meio em que vivem, ou seja, o pícaro é o produto de um intenso conflito entre as camadas sociais (GONZÁLEZ, 1988). Portanto, a crítica social representa, sem dúvidas, um dos traços mais marcantes do gênero ao expor os desvios comportamentais de uma sociedade, muitas vezes, injusta e opressora, na qual o pícaro transita numa total subversão dos valores normativos e de degradação moral.

A astúcia passa, então, a ser o artifício de defesa frente à hostilidade do meio em que habita, levando-o fatalmente a reproduzir, desta forma, a hipocrisia com que se depara, para ter vez no mundo em que vive. O Lazarrillo de Tormes (1554), é um exemplo claro da crítica dos valores dominantes da honra e da hipocrisia com que se caracterizava o gênero picaresco.

O romance picaresco é sempre narrado em primeira pessoa. O protagonista narra suas próprias aventuras, começando por sua genealogia, antagônica ao que se supõem ser a estirpe de um cavaleiro. A personagem central se apresenta no romance sob uma dupla perspectiva: como autor e como ator. “Como autor se situa em um tempo presente que olha para o seu passado e narra uma ação, cujo desenlace conhece de antemão” (GONZALÉZ, 1988, p. 11).

Ainda que o pícaro tente continuamente melhorar sua condição de vida, fracassa sempre, eternizando sua característica de pícaro. Por isso, a estrutura do romance picaresco é sempre aberta, as aventuras que se narram poderiam continuar indefinidamente porque não há evolução possível que mude a história.

Cada romance picaresco vem a ser um grande exemplo de conduta repreensível que sistematicamente será castigada. A picaresca esta muito influenciada pela retórica sacra da época, baseada, em muitos casos, na predicação de exemplos, em que se narra a conduta desregrada de um individuo que, finalmente, é castigado ou se arrepende.

A sociedade é criticada em todas as suas camadas, através das quais circula o protagonista, numa estrutura itinerante em que este se põe a serviço de cada uma delas. Deste modo, o pícaro assiste como espectador privilegiado a hipocrisia que representa cada um dos seus opressivos donos, e os critica na sua condição de deserdado, porque não dão exemplo do que devem ser (GONZÁLEZ, 1988, p. 14).

Todas as características já mencionadas representam o modelo literário que marca a constituição do pícaro enquanto elemento central de um discurso contundente e realista acerca do universo periférico de quem esta a margem de uma sociedade excludente.

Quanto à trajetória pode-se afirmar que este gênero surge efetivamente em 1554, na Espanha, com a obra Lazarillo de Tormes, de autoria anônima, e marca o advento de uma nova perspectiva no campo representativo da Literatura da época que se estendeu com sutis modificações até os dias atuais. Obviamente, o elemento picaresco já vinha sendo uma constante nas anteriores produções espanholas e universais como, por exemplo, em: Arcipreste de Hita y su libro de Buen Amor, ou La Celestina, de Fernado Rojas, contudo, ainda não figurava como elemento central da história, o que viria a ocorrem em Lazarrillo e vários outros que o sucederam como, Gusmán de Alfaroche (1599) e Vida del Buscón llamado don Pablos (1603), ícones canônicos, até as representações mais modernas como no caso de Macunaíma de Mário de Andrade, onde se percebe nítidas características, já mencionadas, do gênero.

A partir dos anos 70, um grupo de romances publicados no Brasil, chama a atenção por sua peculiar e inegável vinculação com a picaresca. Destacam-se entre elas Meu tio Atahulpe (1979), de Paulo Carvalho Neto; Galvez o imperador do Acre, de Moacyr Scliar; O grande mentecapto (1979) de Fernado Sabino; e Travessias (1980), de Edward Lopes. Em todos os textos o picaresco aparece como possibilidade de leitura destas obras. No entanto, há que observar que a vinculação ao gênero picaresco não significa necessariamente a repetição fiel e mecânica de um molde, pelo contrário, todas elas rompem o formato e seus protagonistas de uma forma ou de outra apontam para outros caminhos.

Ainda antes de entrarmos numa análise mais criteriosa a respeito das possíveis singularidades entre Lazarillo e Cosme Fernandes, protagonista de Terra Papagalli, convém mencionar que “o “gênero” assim entre aspas, picaresco, não se caracteriza propriamente como gênero visto que se apóia justamente no reflexo do contexto histórico, portanto efetivamente variável, mudando a cada passo de sua trajetória histórico/literária” (GONZALÉZ, 1994, p. 33).

Com base nisso, torna-se perfeitamente cabível o uso da terminologia “neopicaresca” para definirmos as obras escritas após a consolidação da burguesia como modelo social, expondo sob uma nova perspectiva a aventura picaresca e sua busca por espaço no meio em que se insere. E é justamente com a crise dos valores burgueses, encontrada, sobretudo, em países ibero-americanos como o Brasil que se manifesta à proliferação de textos marcados pela característica neopicaresca ou “malandro” como bem definiu o crítico e ensaísta Antônio Cândido em seu memorável ensaio Dialética da Malandragem (1970), no qual nos apresenta suficientes motivos para o emprego de referida terminologia.

Em nosso país, não há dúvidas da pré-existência do elemento “malandro”, parente dos pícaros históricos, que facilita a incorporação literária do anti-herói marginal que, portador de um projeto pessoal, se lança a aventura e ao engano, através de um processo que deixa transpassar uma crítica social e propositalmente intencional. É o que ocorre em Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, analisada pelo ensaio, e nas demais obras já citadas no desenrolar do presente artigo.

Assim sendo, o “malandro” nada mais é do que a reaparição do pícaro na sátira social em que se imprime o modelo brasileiro, forjado na referida crise dos valores burgueses dos tempos atuais, em que o novo pícaro representa a síntese dialética de ordem e desordem em uma sociedade carente de arestas (CÂNDIDO, 1993). Talvez este recente modelo de produção literária venha a representar o comportamento de uma sociedade já muito desacreditada dos princípios éticos e morais, na qual o êxito da ascensão torna-se sinônimo de astúcia e picardia.

Mais recentemente, em 1997, Torero e Pimenta lançam pela editora Objetiva a obra Terra Papagalli, que narrada em tom paródico e satírico, registra pela ótica de um degredado os primórdios da colonização no Brasil. A obra tem como pano de fundo a chegada da esquadra marítima de Pedro Álvares Cabral às terras brasileiras e os primeiros trinta anos de colonização lusitana. Porém, ao contrário dos relatos históricos de teor dominante, como por exemplo: A carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. João IV, o que efetivamente caracteriza o discurso do romance é a fala de uma personagem marginalizada, representada através do diário de bordo e da epístola que esta escreve ao conde de Ourique, na qual relata o descobrimento e a expansão colonial do Brasil por sua ótica periférica que assume vital importância para o desencadeamento dos fatos, ao dar voz aos que foram excluídos pelas versões oficiais dos primeiros relatos.

Neste aspecto, a obra desconstrói certos mitos em relação à versão oficial de marcante fato de nossa vida pátria, como veremos em comparações a seguir, e sustenta um olhar bem mais agudo e irônico no que tange à descrição dos fatos que nela se mesclam entre ficção e realidade.

3. OS ILUSTRÍSSIMOS SENHORES PIMENTA E TORERO SE FAZEM CONHECER E APRESENTAM SUA MUI COMPETENTE PRODUÇÃO

Marcus Aurelius Pimenta nasceu no Brás, na cidade de São Paulo, em 1962. É jornalista e roteirista e escreveu peças de teatro e documentários. Como co-autor, em parceria com José Roberto Torero, escreveu Terra Papagalli, Os Vermes, Futebol é bom pra cachorro; e as peças Omelete e Romeu e Julieta: segunda parte. Atualmente integra, também, a equipe de roteiristas do quadro Retrato Falado, do Fantástico.

José Roberto Torero Fernandes Junior, por sua vez, nasceu em Santos, em 1963, e formou-se em Letras e Jornalismo pela Universidade de São Paulo – USP. Iniciou, sem terminar, os cursos de pós-graduação em Cinema e Roteiro. Sua carreira de cronista começou no Jornal da Tarde, de São Paulo, e, posteriormente, passou a escrever textos sobre futebol para a revista Placar, e o jornal Folha de São Paulo, com a qual colabora desde 1998. É autor das obras: Galantes Memórias e Admiráveis Aventuras do Virtuoso Conselheiro Gomes, O Chalaça (prêmios recebidos: 1992 – Prêmio no Concurso Nascente, da Editora Abril e USP, 1994 – Prêmio Apulb, categoria romance, 1995 – Prêmio Jabuti de Romance e Livro do Ano); Brevissima história das gentes de Santos, Terra Papagalli (com Marcus Aurelius Pimenta); Santos, um time dos céus (com Marcus Aurelius Pimenta), Futebol é bom pra cachorro (com Marcus Aurelius Pimenta), Os cabeças-de-bagre também merecem o paraíso; Ira – Xadrez, truco e outras guerras (série Plenos Pecados); Os Vermes; Dicionário Santista; Pequenos amores. Também é autor dos roteiros: Amor!; Morte; Uma História de Futebol; Amassa que elas gostam; Pequeno Dicionário Amoroso; Um Homem Sério; Memórias Póstumas; O cantor de samba; Oswaldo Cruz; O casamento de Louise. E dos curtas-metragem: O Bolo (Felicidade É...); Morte; A Alma do Negócio; Amor; A Inútil Morte de S. Lira; Nunc et Semper.

Produziu, ainda, os seguintes vídeos: Glauber Rocha – Quando o cinema virou samba; O mundo cabe numa cadeira de barbeiro. De sua incursão pelo teatro surgiram: Sic transit gloria Dei; Romeu e Julieta – Segunda parte (com Marcos Aurelius Pimenta); Omelete (com Marcus Aurelius Pimenta). E para a televisão: Professor Planeta (ESPN-Brasil), estrelado por Marcelo Tas; Retrato Falado (Fantástico-TV Globo), estrelado por Denise Fraga; Manual de Instruções (Fantástico – TV Globo), estrelado por Pedro Cardoso.

Atualmente, é sócio proprietário da Realejo Livros, em Santos.

Tanto Torero quanto Pimenta reproduzem em suas publicações um tom debochado e humorístico que muito caracteriza seus estilos de narração, deste modo, seguem a linha de Luís Fernando Veríssimo e seu discurso inteligente e criativo acerca dos fatos e peculiaridades do ser humano. Parecem inesgotáveis em sua capacidade de utilizar os temas que reproduzem os múltiplos aspectos de nosso comportamento desregrado, provocando-nos o riso e, ao mesmo tempo, a catarsis através da leitura de seus textos.

Em depoimento ao Site releituras.com, José Roberto Torero afirma que as razões que o levaram a escrever podem ser traduzidas entre nobre e plebéias respectivamente. Ainda que esta seja mais uma das muitas brincadeiras do escritor, o fato é que nobres ou plebéias, para nós leitores representam a síntese de um pensamento claro e contundente em relação ao discurso literário de nossos dias.

4. ONDE SE ANALISA O PROCEDER DE COSME FERNANDES NAS TERRAS BRAZILLIS.

Muitas das características presentes no protagonista de Terra Papagalli, exprimem um certo caráter picaresco passível de análise e avaliação devido às condições periféricas em que este se encontra, desde sua origem judia numa sociedade católico-cristã até sua prisão e desterro para as terras de além mar. Situações adversas em que somente a astúcia é capaz de garantir a sobrevivência num mundo de hostilidades, num mundo onde “quem não come é comido” (TORERO; PIMENTA, 1997, p. 187), conforme nos apresenta a literatura picaresca. Portanto, é a partir desta linha de relações, traçada pelos seus autores na descrição deste romance que parte a presente análise literária.

Em geral, o romance picaresco é narrado em primeira pessoa, de modo que o próprio protagonista relata suas aventuras a partir de um ângulo fixo e central. Visto que o relato das aventuras de Cosme Fernandes, o bacharel da Cananéia, é registrado Por ele mesmo sob a forma de epístola ao conde de Ouriques, têm-se a primeira e importante relação entre a obra em questão e o gênero picaresco, marcado pela voz do narrador. A primeira condição para o romance picaresco se cumpre, uma vez que o protagonista é também o narrador de suas façanhas.

Outras relações bastante similares entre o protagonista de Terra Papagalli e o modelo clássico de pícaro são: a origem humilde e o choque áspero com a realidade. Tais traços se percebem logo nas primeiras páginas da introdução, em que o narrador se dedica a relatar as circunstancias de seu próprio nascimento, bem aos moldes da picaresca:

O senhor que tudo governa, fez com que minha boa mãe desse-me à luz, antes de chegarmos ao porto, como que predizendo que meus dias estariam ligados ao mar e seus perigos. Sendo meus pais judeus e sendo aquela gente pouco amável com os filhos de Moisés, tomaram por bem adotar a fé cristã e batizaram-me, ainda no convés, com o nome de Cosme Fernandes (TORERO; PIMENTA, 1997, p.10).

Percebe-se, neste fragmento, um primeiro lastro de discriminação quanto à fé religiosa dos progenitores de Cosme Fernandes, que recebe este nome justamente como uma maneira possível de encontrar aceitação em um ambiente hostil aos costumes que caracterizam a sua origem.

Contudo, o principal choque com a áspera realidade se dá quando o jovem Cosme é preso e, em seguida, degredado sob a alcunha de judeu/fornicador, haja vista que este se encontrava em regime de internato no mosteiro de Bismela, quando descobre os encantos de Lianor, sua primeira paixão.

Porém quando por fim a porta se abriu, vi entrarem por ela não serafins, mas dois soldados do povoado e um deles me disse: ‘ Vai saltando, judeu fornicador, que vamos te emendar agora!’, e o outro: ‘ Má forca que te enforque, filho de uma cornuda! Vais aprender o que fazemos com quem abusa das mulheres!’. Eu me levantei e pedi que se sentassem para escutar minha historia, mas todo o seu ouvir foi esmurrar minha cabeça até que suas mãos doessem. Quando acordei, já estava novamente em Lisboa, mas não na casa de meus pais, como esperava, e sim num calabouço. (TORERO; PIMENTA, 1997, p. 19).


Assim foi até que, ao cabo de dois meses, veio um oficial e disse que eu fora matriculado para um embarque. Mesmo sabendo dos perigos do mar, fiquei contente com a notícia, pois já não suportava a escuridão, a sujidade, os ataques dos ratos e aquela ração do diabo (TORERO; PIMENTA, 1997, p.20).

É outro traço distintivo do romance picaresco narrar as aventuras (e desventuras) do pícaro. Novamente Cosme preenche este quesito, pois narrara suas aventuras desde à juventude.

Percebe-se claramente na passagem destes parágrafos o quanto o desamparo da sorte atinge esse (anti) herói e como as mudanças de ambiente o conduzem a um destino incerto e adverso, bem aos moldes dos pícaros clássicos que vivem ao sabor da sorte, sem planos nem reflexão. Contudo, dentro de uma perspectiva de transformação e evolução que determinam sua própria sobrevivência, pois, aprendem com as experiências ainda que a luz de uma filosofia desencantada, como nas passagens em que Cosme Fernandes relata a importância dos dez mandamentos para se viver bem na Terra dos Papagaios, condensando nestes toda a sabedoria e astúcia adquiridas com suas experiências vivenciadas no degredo.

Também por estes dez mandamentos transcorre toda a crítica social exposta através de um tom irônico em que se evidencia a sordidez das relações interpessoais. Nelas a ética é subjugada por interesses menores e mesquinhos. Neste sentido, os autores contrapõem a ficção à realidade e terminam por denunciar vícios comportamentais que ferem a moral da sociedade desde os primórdios do descobrimento, caracterizando-se, deste modo, como pertencente a outro elemento do romance picaresco que é a sátira social e a denúncia do comportamento desregrado.

Nova proximidade entre Lazarrillo e Cosme está no fato de que ambos fogem dos padrões de conduta e moral, transformando-se em anti-heróis que mudam seus princípios e ideologias conforme o desenrolar da história, agindo sempre em favor do que lhes é conveniente, sem se importar com o peso de sua consciência, e sim com o desafio de sua sobrevivência e ascensão.

Como os gentios e os castelhanos queriam continuar com aquele comércio, o único empecilho era minha consciência, que dizia ser venda de homens contrária à religião, mas até as consciências rendem-se aos argumentos bem armados (TORERO; PIMENTA, 1997, p. 103).


Esta foi, Senhor, a maior encomenda de toda a minha vida e considerei-me abençoado. Pode ser que algum jesuíta condene o orgulho que tenho de meu oficio, por julgar que mais vale se pastor de almas que mercador de escravos. Porém, tenho-me persuadido que nenhuma diferença isso faz e que neste mundo todos os homens são comerciantes, só variando naquilo que mercadejam, pois se as doceiras vendem rosquinha e os merceiros, bacalhaus, os advogados vendem direitos, os físicos saúde; as mulheres pecados e os religiosos perdão (TORERO; PIMENTA, 1997, p. 145).

Esta mesma moral “flexível” está retratada nos vários amos de Lazarrillo e, conseqüentemente, em seu próprio comportamento como uma extensão destes, no momento em que passa a imitar os seus atos, tornando-se o reflexo do meio em que se encontra inserido, reproduzindo a degradante conduta da imoralidade.

A adulação aos superiores também é uma constante no romance picaresco, estando estreitamente relacionada à astúcia e a capacidade de sobrevivência frente à hostilidade das relações hierárquicas em que vive o pícaro. Tal comportamento também se imprime na personagem de Cosme Fernandes como se averigua no seguinte trecho:

- Então este é o Bacharel de quem tanto falam.

Tirei o barete azul da cabeça e o saudei:

- No muito falar, senhor capitão, sempre mora algum engano, porém disseram a verdade os que disseram que sou um obediente servidor do rei.

-Tanto melhor.

- E serei dez vezes mais obediente a vós. (TORERO; PIMENTA, 1997, p. 157-158).

Nesta passagem também se evidencia outra característica fundamental para a sobrevivência e o êxito da personagem, trata-se da astúcia com que ele reage frente aos obstáculos que o destino lhe impõe, servindo-se desta como um escudo protetor perante as adversidades do seu cotidiano, conforme se percebe em mais esta passagem do romance:

Foi aquela, senhor conde, pois se confessasse à verdade, poderia não ser perdoado, e se mentisse poderia se descoberto. Minha cabeça era naquele instante uma arena em que se batiam honestidade e astúcia(TORERO; PIMENTA, 1997, p. 128).

Ora, sendo a astúcia a principal característica do pícaro, seja ele Lazarillo ou Cosme Fernandes pode-se traçar mais um importante paralelo na análise destes romances, pois, ao concatená-los percebe-se que Terra Papagalli segue de perto na mesma esteira do gênero picaresco deixado por Lazarillo de Tormes.

Vimos até aqui, que ambos os protagonistas muito se assemelham, segundo a definição de González, sobre o que vem a ser o gênero picaresco:

Nós o entendemos como sendo a pseudo-autobiografia de um anti-herói que aparece definido como marginal à sociedade; a narração das suas aventuras é a síntese crítica do processo de tentativa de ascensão social pela trapaça; e nessa narração é traçada uma sátira da sociedade contemporânea do pícaro. (GONZÁLEZ, 1988, p. 42).

Contudo, em meio às várias semelhanças existentes entre Lazarillo e Cosme, há um ponto de divergência crucial que distingue o anti-herói brasileiro do anti-herói espanhol, baseada em uma característica que já havia sido explorada por Mário de Andrade em seu clássico romance: Macunaíma - o herói sem nenhum caráter e, posteriormente, por outros escritores brasileiros em publicações do gênero: a capacidade destes personagens de formularem um projeto social alternativo, em lugar de simplesmente procurarem a integração na classe dominante, como efetivamente tenta o pícaro clássico. A exemplo disso, podemos constatar no romance analisado:

Era tal o bom sucesso do porto de Cananéia que já era então cinco vezes maior, pois muitos gentios, ao terem notícia do nosso estado, mudavam-se de São Vicente para lá. Meu viver foi se tornando como o de antes e eu era ainda mais poderoso, sendo conhecido nos portos da Europa como o bacharel da Cananéia (TORERO; PIMENTA, 1997, p. 144).

Como vemos, Cosme cria uma “espécie” de sociedade da qual é líder e representante máximo. Neste estágio não almeja mais fazer parte da sociedade da qual se originou, mas manter ativa aquela que idealizou e construiu.

Com base em tudo que expusemos até o momento é possível constatar que Cosme Fernandes, o bacharel da Cananéia, representa o que se costuma chamar de expansão clássica espanhola ou um neopícaro propriamente dito, visto que a estrutura e o discurso presentes em Terra Papagalli muito se assemelham a picaresca original espanhola, que ressurge pela voz de um degredado com uma releitura satírica do que foi o descobrimento e os primeiros trinta anos de colonização portuguesa no Brasil, um país tão pitoresco quanto picaresco.

5. EM QUE SE DÁ CABO A EMPREITADA DE ANALISAR O MUI PICARESCO COSME FERNANDES

Em síntese, a leitura de Terra Papagalli a luz da picaresca não apenas é possível, mas também permite levar a obra de Torero e Pimenta a dimensões talvez insuspeitadas pelos autores, mas legítimas, como elaboração decorrente de nosso papel de leitores. Essa leitura serviu para filiar Terra Papagalli à picaresca e para perceber que, se a modalidade clássica revive nesta, haverá motivos que, no contexto histórico explicam a retomada.

No romance, retoma-se o fundamental da picaresca: um anti-herói, socialmente marginalizado, protagoniza uma série de aventuras dentro de um certo projeto pessoal. Através dessas aventuras a sociedade e, particularmente, seus mecanismos de ascensão social são satiricamente denunciados, já que a trapaça continua a ser o recurso para não ser comido e poder comer, como resume Cosme Fernandes ao citar o décimo mandamento para viver bem na terra dos papagaios: “E o resumo de meu entendimento é que naquela terra de fomes tantas e lei tão pouca, quem não come é comido” (TORERO; PIMENTA, 1997, p. 189).

Essa perspectiva de “quem não come é comido” indica outra fundamental característica do gênero picaresco, presente no romance em questão, trata-se do conceito de superação do maniqueísmo (doutrina que se apóia na existência de um Mal e um Bem absoluto) e que termina por imprimir a idéia de que os fins justificam os meios e de que vale tudo para conquistar um lugar ao sol.

“Apenas sobe quem pula” (GONZÁLEZ, 1988, p. 72), a expressão que caracteriza a astúcia do pícaro frente a seu projeto social cai feito luva na personagem de Cosme Fernandes, que se tornaria rei em terras distantes, que teria mais mulheres que dedos nas mãos, que mataria tantos homens, que possuiria tantas moedas e viveria tantas aventuras, constituindo-se numa irreverente crítica do comportamento social, onde se espelha a sociedade brasileira desde os primórdios até os dias atuais.



6. REFERÊNCIAS
ANDRADE, Mário de. Macunaíma o herói sem nenhum caráter. São Paulo: Martins, 1928.
CANDIDO, Antonio. Dialética da malandragem. In: O discurso e a cidade. São Paulo: Duas Cidades, 1993.
GONZÁLEZ, Mario. O Romance Picaresco. São Paulo: Ática, 1988.
_______________. A saga do anti-herói: estudo sobre o romance picaresco espanhol e algumas correspondências na literatura brasileira. São Paulo: Nova Alexandria, 1994.
Lazarillo de Tormes. Buenos Aires: Centro Editor de Cultura, 2005.
MONIZ, Isabel Botelho. Notas sobre o Pícaro. Disponível em http://www2.vo.lu/homepages/jfaria/p%C3%Adcaro.htm, acesso em 27 de maio de 2007.
TORERO, José Roberto; PIMENTA, Marcus Aurelius.Terra Papagalli. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997.
VICENTE, Alonzo Zamora. Qué es la novela picaresca. On-line.



1 Acadêmico do 8o período do Curso de Letras – UNIVALI.

2 Orientadora e professora de Literatura Brasileira do Curso de Letras – UNIVALI.


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