De onde surge a filosofia



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III
Tecnologia



Os primórdios da técnica científica1

Não podemos estabelecer uma linha divisória nítida entre a técnica científica e as artes e os ofícios tradicionais. A característica essencial da técnica científica é a utilização das forças naturais de um modo não evidente para os totalmente destituídos de instrução. Supomos, de início, que o homem tenha algumas necessidades: precisa de alimentos, quer ter filhos, vestir-se, morar, divertir-se e obter glória. Os homens não instruídos só podem satisfazer parcialmente essas necessidades, ao passo que o homem que dispõe de conhecimentos científicos pode conseguir muito mais. Comparemos o rei Ciro com um milionário americano atual. O rei Ciro talvez sobrepujasse o moderno magnata em dois pontos: usava uma indumentária mais imponente, e tinha mais mulheres do que este. Por outro lado, é provável que as roupas das suas esposas não fossem tão ricas quanto as da mulher do nosso milionário. Constitui uma superioridade do milionário moderno o fato de que ele não precisa vestir-se com esplendor para demonstrar a sua importância: os jornais encarregam-se disso. Eu suponho que uma estrela de Hollywood seja cem vezes mais conhecida hoje do que Ciro o era, no seu tempo. A técnica científica é a responsável por esta maior possibilidade de fama, que existe atualmente. Da mesma forma, a técnica moderna fez com que crescesse imensamente o número de pessoas em condições de satisfazer em certo grau as necessidades humanas que mencionamos até agora. O número de indivíduos que, hoje, podem ter o seu próprio automóvel excede em muito o número de indivíduos que há cento e cinquenta anos tinham condições de comer razoavelmente. Por meio de cuidados médicos e higiênicos, os povos cientificamente adiantados liquidaram com o tifo, com a peste e com uma multidão de outras doenças que ainda grassam no Oriente e que há tempos atrás afligiam a Europa ocidental.

A julgar pelas aparências, uma das coisas mais desejadas pela espécie humana, ou, pelo menos, mais desejadas pelos seus membros mais enérgicos, foi até há bem pouco tempo o simples aumento em número. E, nesse sentido, a ciência mostrou-se muito capaz. Comparemos a população europeia de 1700 com a atual. Em 1700, a Inglaterra tinha cerca de 5 milhões de habitantes, em comparação com os quase 400 milhões atuais. A população dos outros países europeus, exceção feita para a França, provavelmente aumentou na mesma proporção.
Os primórdios da técnica científica podem ser encontrados na pré-história. Não sabemos nada de certo a respeito da origem do uso do fogo, por exemplo, mas os cuidados que cercavam o fogo sagrado em Roma e em outras comunidades sugerem o quanto seria difícil a sua obtenção. A agricultura também tem as suas origens nos tempos pré-históricos, mas, provavelmente, o seu início não é muito anterior ao dos tempos históricos propriamente ditos.

A domesticação dos animais iniciou-se também durante a pré-história, mas só se completou posteriormente; de acordo com a 0pinião de certos entendidos, o cavalo foi introduzido na Ásia Ocidental ao tempo dos sumerianos e essa inovação fez com que os povos que o empregavam obtivessem vitórias militares sobre os que usavam o burro. Nos países de clima seco, os começos da escrita praticamente coincidem com os começos da história, uma vez que os primitivos documentos escritos sobrevivem mais no Egito e em Babilônia, do que em regiões de clima menos seco.

O próximo grande estágio na técnica científica pode ser encontrado no emprego dos metais, o que já aconteceu em plena época histórica. Não há dúvida de que a razão de certas passagens da Bíblia proibirem o uso do ferro na construção dos altares reside no fato de ele ser, na época, uma descoberta recente. As estradas, desde os tempos primitivos, até a queda de Napoleão, foram construídas principalmente com finalidades militares. O papel desempenhado pelas estradas na manutenção da unidade dos grandes impérios é muito grande; os persas foram os primeiros a compreendê-lo, mas foram os romanos que tiraram o máximo partido possível desse fato. A Idade Média contribuiu com a invenção da pólvora e da bússola e também, já no fim, com a da imprensa.

Para quem está acostumado com a complicada técnica da vida moderna, tudo isso pode parecer pouco, mas é o que diferencia o homem primitivo do homem que pertence a uma civilização intelectual e artística do mais alto nível. Estamos acostumados atualmente a ouvir protestos contra o domínio da máquina e eloquentes apelos para um retorno a dias mais simples. Isso não encerra nada de novo. Lao-Tsé, anterior a Confúcio, e que viveu (se é que ele existiu) no sexto século a.C., mostra-se tão eloquente quanto Ruskin, quando fala da destruição da antiga beleza pelas modernas invenções mecânicas. As estradas, as pontes e as embarcações o horrorizavam por serem não-naturais; falava da música nos mesmos termos em que os intransigentes atuais falam do cinema; achava que a correria da vida moderna era um inimigo mortal da vida contemplativa. E, quando ele não mais pôde suportar tudo isso, abandonou a China e desapareceu entre os bárbaros do Ocidente. Lao-tsé acreditava que o homem deveria viver de acordo com a natureza, uma ideia que é retomada continuamente de tempos em tempos, ainda que sob novas roupagens. Rousseau também acreditava numa volta à natureza, mas já não levantava objeções contra estradas, pontes e embarcações. O que despertava a sua ira eram as cortes, o deitar-se tarde, e os sofisticados prazeres dos ricos.

O tipo de homem que Rousseau consideraria como um verdadeiro filho da natureza não coincide absolutamente com o que Lao-Tsé chamava “o homem puro da velha estirpe”. Lao-Tsé era contra a domesticação do cavalo, a cerâmica e a carpintaria, ao passo que, para Rousseau, a carpintaria seria o exemplo da profissão honesta. Na prática, “volta à natureza” significa um retorno àquelas condições a que o escritor em questão estava acostumado na sua juventude. Se levarmos a sério essa ideia de volta à natureza, estaremos condenando à morte por inanição 90% da população dos países civilizados. O industrialismo atual envolve, sem dúvida, graves dificuldades, mas estas não podem ser resolvidas por um retorno ao passado, da mesma forma que o não podiam ser as dificuldades da China de Lao-Tsé, ou da França de Rousseau.

Enquanto puro conhecimento, a ciência avançou rapidamente durante os séculos XVII e XVIII, mas só nos fins deste último é que ela começou a afetar a técnica de produção. Desde o Egito antigo, até cerca de 1750, os métodos de produção mudaram menos do que dessa data para cá. Alguns progressos fundamentais foram conseguidos lentamente: a linguagem, o fogo, a escrita, a agricultura, a domesticação dos animais, o trabalho com os metais, a pólvora, a imprensa, a arte de governar um extenso império a partir de um centro, se bem que esta última só pudesse alcançar a sua atual perfeição depois da invenção do telégrafo e da locomoção a vapor.

Cada um desses progressos foi assimilado sem grandes dificuldades porque eles foram sendo conseguidos lentamente, a tal ponto que o homem não tomava consciência de que estavam provocando uma revolução nos seus hábitos cotidianos. Quase todas as coisas conhecidas por um homem adulto, já lhe eram familiares desde criança, e já tinham sido familiares aos seus pais e aos seus avós. Isto tinha certamente alguns bons efeitos, mas estes desapareceram por causa do rápido progresso técnico dos tempos modernos. Naquela época, o poeta podia discorrer a respeito da vida daqueles dias, empregando palavras que se haviam enriquecido mercê de um longo uso, ao mesmo tempo que se mostravam cheias de colorido, por causa das emoções das épocas passadas, que carregavam consigo. Atualmente, o poeta necessita ignorar a vida contemporânea ou, então, escrever os seus poemas empregando palavras frias e secas. Podemos, numa poesia, escrever uma carta, mas não falar pelo telefone; é possível ouvir os cantos lídios, mas não o rádio; é possível falar-se em cavalgar mais rápido do que o vento, montado num corcel fogoso, mas não dizer que corremos num automóvel a 120km/h. O poeta gostaria de ser alado, para ir mais depressa ao encontro do seu amor, mas acharia isso extremamente ridículo se se lembrasse de que, para tanto, seria suficiente tomar um avião no aeroporto mais próximo.

Os efeitos estéticos da ciência têm sido, em geral, de tristes consequências, não por causa de alguma qualidade essencial da ciência, mas por causa da rápida mudança que vem sofrendo o ambiente em que o homem moderno vive. Em outros campos, todavia, os efeitos da ciência têm sido mais felizes.

É curioso que as dúvidas lançadas a respeito do valor metafísico último do conhecimento científico não tenham nenhum efeito sobre a utilidade desse conhecimento, em relação à técnica da produção. O método científico está estreitamente relacionado com a virtude social da imparcialidade.

Da técnica à tecnologia2
O termo técnica tem diversos sentidos e alguns destes se superpõem com o uso que fazemos do termo tecnologia, embora possamos considerar que esta última seja mais especializada e se refira, mais restritamente, a estágios mais avançados da técnica. Com a curiosa exceção da língua inglesa em que technology passou a ter o sentido geral que as línguas latinas guardam para técnica3, esta palavra serve tanto para falar de uma habilidade ou instrumento específico quanto de um conjunto dessas habilidades, instrumentos, procedimentos e, também, de um gênero de conhecimento, em oposição ao religioso, científico e até mesmo artístico. Este último, embora tenha em sua raiz a tradução latina (ars) da téchne grega, teve o seu sentido restringido ao âmbito da estética.
A historiografia da técnica
Em geral a técnica costuma figurar como algo mais básico e rudimentar que a tecnologia, que é comumente entendida como uma sofisticação, científica, resultante da evolução da técnica. Esta perspectiva evolutiva é em parte caudatária da ideia de que, diferentemente das histórias das artes e da política, a história das técnicas seria fundamentalmente a descrição de uma evolução, assim como durante muito tempo se concebeu a história das ciências.4

O desenvolvimento das técnicas é um processo visivelmente dinâmico e cumulativo. Dinâmico no sentido de que sempre pode ser aprimorado, e cumulativo na medida em que avanços abrem caminhos para novos avanços, ou seja, a técnica atual fornece os materiais, as ferramentas e o conhecimento que, afora em casos de revoluções tecnológicas, servem de base para o próximo estágio. Todavia, nos parece equivocado crer que conteúdos, práticas e estratégias cognitivas mais antigas são simplesmente suplantadas e abandonadas com o passar do tempo, como sugerem os grandes esquemas que, ao apresentarem as inovações desenvolvidas ao longo da história, costumam ocultar a permanência das técnicas primitivas. Procedimentos de tentativa e erro, de conhecimento tácito e artesanal podem ser facilmente encontrados, não só nos recônditos distantes da vida urbana ou da economia globalizada, mas até mesmo em centros avançados de pesquisa e desenvolvimento tecnológicos e científicos.

Uma vez que, pela característica desse conhecimento, os registros históricos são mais materiais do que procedimentais ou discursivos, as histórias da técnica centram-se geralmente na evolução dos artefatos e instrumentos, e se encontram geralmente organizadas por temas, como agricultura e transportes, construção, ou por paradigmas tecnológicos, como as transformações na utilização de energia (força animal, energia hidráulica, energia por combustão, elétrica, eletrônica, eletricidade), como a que Munford (Technique et civilization) propõe como chave para a compreensão da evolução da técnica.

Outra característica comum dessa historiografia é enfocar as técnicas e descrever suas inovações como um fenômeno interno, e como algo progressivo e inerentemente benéfico, sem maiores ligações dessas inovações com as mudanças sociais e culturais. Há notadamente importantes exceções em obras como as de Ellul (A técnica e o desafio do século), que mostra, por exemplo, como o grande fenômeno da revolução industrial não foi o uso do carvão, mas a mudança de atitude em relação às técnicas, bem como as instigantes reflexões de Munford, Gehlen e Spengler. Estas, no entanto, podem ser consideradas mais apropriadamente como críticas socioculturais que se valem da história, mas sem a preocupação com o desenvolvimento de uma historiografia, digamos, profissional. O que justamente era sentido como uma lacuna por historiadores como Daumas que, visando atender às sugestões de Febvre e da Escola dos Anais de que as sínteses histórica econômicas e sociais demandavam o subsídio de história técnicas da técnica, buscou desenvolver uma historiografia interna e especializada, com descrições mais objetivas e detalhadas dos instrumentos, aparatos, artifícios e suas transformações, como uma forma de evitar as imprecisões, lacunas e generalizações sem muito fundamento histórico.
Contudo, consideramos que persistem nessas abordagens problemas equivalentes aos da história da ciência. Os exames detalhados de contextos particulares facilitam a visualização do desenvolvimento histórico de uma determinada técnica como fruto de processos sociais específicos, mas não permitem uma abordagem mais ampla das transformações que presidem as grandes mudanças nas noções pressupostas nas práticas discursivas dos agentes em cena. Nesse sentido, parece-nos válida a observação de Mitcham de que a fabricação de artefatos – que coisas são feitas, como são feitas e usadas – não é sempre o resultado de alguma linha direta de acumulação de conhecimento ou poder técnico. “Ela é condicionada não apenas pelas necessidades sociais e valores (como defendem os historiadores sociais da técnica), mas também, e talvez de maneira mais significante, por ideias filosóficas.”5

Dessa forma, entendemos que certas histórias das ideias (natureza, trabalho e progresso) são indispensáveis para uma melhor compreensão da história da técnica, pois são fundamentais para entender como em função destas ideias o conhecimento técnico teve, em diferentes períodos, não só diversos significados, mas diferentes funções e desdobramentos.

Um destes desdobramentos, com o qual quase todos historiadores da técnica concordam, é o surgimento da tecnologia, pois o impacto que sua potencialização da produção material traz na organização social e na cultura, comparável ao advento da língua e da escrita, faz desse evento um dos mais importantes na história da técnica. Todavia, não há muito acordo quanto às suas origens e sua relação com a ciência.
A tecnologia e sua identidade com a ciência moderna

O acréscimo do sufixo logia dá um sentido consciente, discursivo e sistemático a um saber-fazer que, embora já fosse conhecimento, não era necessariamente algo articulado, podendo perfeitamente ser um conhecimento tácito, uma habilidade não expressa em palavras. Embora, obviamente, não possa ser reduzido a isso, o puro e simples fazer, sem qualquer reflexão ou explicação para tal, é certamente o terreno básico da técnica. Não se precisa saber o porquê de algo para se saber como fazê-la de maneira eficiente. Tampouco se precisa saber justificar as razões de se fazer de um jeito ou de outro, para ter domínio de tal ou qual técnica. É nesse sentido que Certeau fala das artes e ofícios como um território selvagem que vem ser colonizado pelo saber discursivo. Em vez de fragilidade ou incompletude, como a técnica é geralmente percebida do ponto de vista teorético, quase sempre há por parte dos técnicos um relativo desinteresse pela busca de teorizações excessivas, um ceticismo acerca da validade das tentativas de compreensões que não possam ser revertidas na efetivação da prática.6 Um ceticismo que, diga-se de passagem, quase nunca é justificado com argumentos, mas que pode ser facilmente entrevisto nas práticas não discursivas, seja como descaso, seja como respeitoso distanciamento.

Contudo, é razoável supor que, em meio ao processo de racionalização da civilização moderna, tendências semelhantes repercutissem no âmbito da técnica, seja como organização dos conhecimentos para sua transmissão, como sistematização dos aperfeiçoamentos ou como busca de regras mais amplas, a partir das quais pudessem ser derivadas as características especiais de casos particulares. Todavia, uma vez que o conhecimento técnico se voltava para a realização ou produção, a busca de padronização, aprimoramento e regras mais gerais estivesse geralmente limitada àqueles que poderiam ser úteis, tornava a operação mais eficiente. De qualquer maneira, o aparecimento de tratados, de tentativas de sistematização e discussões de princípios reguladores para o que antes eram apenas receitas de atuação pode ser visto como a afloração de novas características da técnica, o que, como propõe Agazzi (“From technique to technology: the role of modern science”), representaria uma bifurcação no conhecimento técnico7.

A noção de bifurcação ajuda a pensar as especificidades históricas e epistemológicas do processo e evita a ideia de um progresso evolutivo, como a representação tão comum de que a tecnologia é uma evolução da técnica. Todavia, tal noção sugere também um progressivo distanciamento, que consideramos inconveniente para representação da emersão da tecnologia e, por essa razão, julgamos que a noção de estilo de conhecimento, como a que apresentamos no capítulo anterior para representar a estabilização de determinadas tendências na história das ciências, é a mais conveniente para se pensar as especificidades da tecnologia em relação à técnica e seus desenvolvimentos paralelos mas intercambiantes.

Nesse sentido, estamos considerando a tecnologia como um estilo de conhecimento técnico que, se não surge, ao menos se afirma de maneira crescente a partir dos séculos XVI e XVII. Embora a junção dos termos lógos com téchne tenha se manifestado na Antiguidade8, o uso do termo torna-se corrente somente no século XIX. É controverso o significado que tecnologia tinha no contexto da retórica no qual ele se apresentava na Antiguidade. mas na Renascença, em obras como as de Ramus e Ames, já começa a conotar, mais claramente, ordenação sistemática das artes e ciências. No Preliminary discourse of philosophy de Wolf (1728), o termo tecnologia é definido como a ciência das artes e dos produtos das artes, e, no artigo “catálogo” da Encyclopédie (1751-1772), designa um ramo particular da divisão do saber: o que se refere à totalidade das artes. Jacob Bigelow é o autor do primeiro título em inglês que se vale da palavra tecnologia. Seu Elements of technology (1831) afirma, no entanto, ter tomado o termo de antigos dicionários, e o apresenta com o significado de “princípios, processos, nomenclaturas das mais distintas artes, particularmente daquelas que envolvem a aplicação da ciência”.9

A história do termo reflete, mas não explica de onde ou como teria ocorrido esse impulso de teorização e sistematização da técnica. Para esta questão existem diversas hipóteses explicativas como a emergência do capitalismo, intensificação da vida urbana e das atividades comerciais e artesanais, quebra de algumas barreiras sociais e culturais, e a dessacralização do mundo.

Sem dúvida, é temerário recusar a influência de qualquer uma dessas hipóteses. Contudo, diversos historiadores têm buscado entender como o conjunto desses fatores se conjugou com determinadas tradições e grupos, propiciando o aparecimento da tecnologia. Isto é, sem perder de vista a análise das condições do desenvolvimento tecnológico, certos autores têm focalizado as transformações de suas práticas e concepções. Assim, por exemplo, Guilherme e Sebestik (“Les commencements de la technologie”) identificam nas artes militares a origem da coordenação de uma variedade de gestos e procedimentos especializados. Segundo eles, são nesses círculos militares que, antes da indústria, aparece a organização de diferentes forças, visando assegurar uma melhor economia dos meios.

Por sua vez, Layton (“Technology as knowledge”), que considera a tecnologia como engenharia num sentido amplo, advoga que esta tenha derivado diretamente das antigas artes práticas e compartilhado de aspectos da ciência emergente como a organização sistemática, a confiança nos experimentos e uso crescente da matemática. Dessa forma, a tecnologia seria irmã gêmea da ciência moderna ou, como escreve Ortega-e-Gasset (Meditação da técnica, 93), filhas da mesma matriz histórica.

Estes autores são, no entanto, como que vozes dissonantes no coro da grande maioria dos historiadores, que interpretam o surgimento da tecnologia como um desdobramento da ciência moderna, seja pela demanda de instrumentos de precisão dos cientistas experimentais, seja pela aplicação de seus métodos de investigação, pelo olhar matematizante ou pelos seus conhecimentos das leis naturais.10 Estas interpretações tendem a tratar a tecnologia como uma ciência aplicada ou a considerar ter havido uma fusão entre ambas.

Antes de apresentarmos o estado da discussão acerca da controversa relação histórica entre a ciência e a técnica, convém examinarmos alguns aspectos da identidade da ciência com a tecnologia, pois, de fato, uma vez que se trata do nascimento da ciência moderna como a substituição de uma indagação de “o que é” (qual o significado) para “como é” (como funciona), a ciência passa a ser um know-how (saber como) e torna-se difícil distinguir a nova ciência, operativa, da tecnologia emergente. Assim, a transformação da filosofia da natureza ou, de acordo com o mapeamento da seção anterior, a criação de certos estilos científicos na modernidade seria correlata a uma transformação no conhecimento técnico, ambas se fundindo no que vem se chamando de tecnociência.

Todavia, considerando que esta ideia e a fusão terminológica que a representa encobrem uma incompreensão acerca das especificidades e dinâmicas de cada uma dessas formas de conhecimento, filósofos da técnica, como Skolimiwski, Rapp e Lenk, têm buscado dissipar a confusão entre ciência e tecnologia, analisando comparativamente os seus pressupostos, critérios de validação e formas de desenvolvimento.11

Conforme ressaltam esses autores, enquanto a ciência busca expressar o conhecimento da natureza, na perspectiva tecnológica o que mais interessa é a eficácia de determinado conhecimento. A eficácia, e não a verdade, seria o principal critério de validação da tecnologia e, portanto, a ideia de que conhecimentos (objetos e procedimentos) seriam abandonados por deixarem de ser válidos (falsos ou equivocados) não faz sentido na história das técnicas como faz na da ciência.


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