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Deep Memory Process – Liberação de Trauma e o Corpo

Dr. Roger J. Woolger, Ph. D.
Tradução de Jussara A. Serpa & Lila Rosana
Índice página
Introdução 02
Regressão a Vidas Passadas e Psicoterapia 02
O Corpo na Terapia de Vidas Passadas 03
O Corpo como Sujeito da Experiência 05
Resíduos Físicos de Vidas Passadas 06
Os Problemas de Transmissão Não-Física 07
O Corpo Sutil na Teoria e na Prática 08

Os Traços de Memórias nos Três Corpos Sutis 10

Limpando os Corpos Sutis das Vidas Atual e Passadas 14
Estratégias Terapêuticas no Trabalho Corporal de Vidas Passadas 15
O Caso de Mike: Ansiedade de Falar em Público 16
O Lugar do Trabalho de Regressão em Psicoterapia 18
O Caso de Dorothy: Resposta Sexual Bloqueada 19
Conclusão 22
Bibliografia em português 22

Bibliografia em ingles 22

(Este artigo foi publicado primeiramente em Body Psychotherapy

Editado por Tree Staunton. Brunner-Routlege, Londres 2002)

Pensadores, escutem, digam-me o que vocês conhecem que não está dentro da alma?



Peguem um jarro cheio de água e afundem-no na água

Agora há água por dentro por fora.

Não devemos dar um nome a isso,

Senão pessoas tolas começarão a falar de novo sobre o corpo alma.”

Kabir

Dentro do corpo denso, que sofre dissolução após a morte, cada ser vivo possui um corpo sutil interno, que é formado das faculdades sensoriais vitais, respiração e órgãos internos. Este é o corpo que continua e continua, de nascimento a nascimento, como base do veículo da personalidade reencarnada. Ele sai do abrigo do corpo denso na hora da morte e então determina a natureza da nova existência; pois dentro dele ficam os traços dos movimentos das vontades do passado, todas as propensões e tendências, a herança de hábitos e inclinações, toda a prontidão peculiar a reagir dessa ou daquela maneira, ou a de não reagir.”



Heinrich Zimmer

Introdução

 A Terapia de Regressão a vidas passadas, como aqui descrita, é uma técnica terapêutica que usa estratégias e comandos semelhantes aos da regressão hipnótica de idade (seguindo a linha do tempo para trás, falando com a persona regredida etc) mas também utiliza grandemente a técnica de sonho acordado da imaginação ativa de Jung, e o re-encenar no corpo eventos passados, denominado ‘psicodrama’ por J.L Moreno (Woolger, 1996). Como na regressão hipnótica e no psicodrama, o cliente é guiado e encorajado a reviver cenas traumáticas ou conflitos não resolvidos do passado que, até, então estavam inacessíveis à consciência, mas os quais aparentemente estão influenciando ou distorcendo o equilíbrio mental e emocional atual do cliente. Porém, em vez de se conduzir a regressão apenas à infância do cliente, dá-se uma forte sugestão para “ir até a origem do problema em uma vida anterior”. Em outras palavras, a noção de linha de tempo é estendida para o passado e supõe a continuidade da alma com existências prévias por meio do que alguns chamam de memória da alma ou de memória antiga. Em muitos aspectos o raciocínio da terapia de vidas passadas é semelhante ao das terapias de estresse pós-traumático, assim como ao da abordagem catártica ou de ab-reação que foi abandonada pelos psicanalistas (Hermann, 1992).



Regressão a vidas Passadas e Psicoterapia

O status ontológico das memórias de “vida-passada” é inevitavelmente controverso devido à adesão da psicologia ocidental e da psicanálise freudiana a uma visão tabula rasa da psique infantil no nascimento, mas isso vem a tempos sendo desafiado pela teoria de Jung de um inconsciente coletivo que transcende o tempo histórico (Jung, 1935, Assagioli, 1965) e pela escola largamente conhecida que se denomina “psicologia transpessoal” (Tart, 1975, Grof, 1985, Rowan, 1993, Boorstein, 1996). Além do mais, existe também a obra monumental do Dr. Ian Stevenson da Universidade da Virginia, no passado presidente da Sociedade Britânica de Pesquisa Psíquica. Por mais de 40 anos, Stevenson e seus colegas de trabalho colearam casos de memórias espontâneas de “vidas passadas” de várias partes do mundo, em sua maioria de crianças. Esses casos, que ele chamou de “sugestivas de reencarnação”, e às quais verificou meticulosamente, foram publicadas em cinco volumes. Suas descobertas nunca foram seriamente contestadas. Seu livro mais recente, “Reencarnação e Biologia” (Stevenson, 1997), foi descrito pelo revisor e crítico da Rede Científica e Médica Britânica como “um dos grandes clássicos da pesquisa psi do século XX” (Lorimer, 1997:53). Não obstante, o trabalho de Stevenson continua a ser ignorado pela corrente principal da psicologia. (Para uma revisão detalhada das interpretações parapsicológicas, religiosas e metafísicas de “vidas passadas” veja Woolger, 1987).

Quanto ao valor terapêutico do lembrar-se de “vidas passadas”, um número crescente de terapeutas de diferentes países tem convicção de sua eficácia (Lucas 1993). Muitos terapeutas contemporâneos se viram diante de cenários de “vidas passadas” ao instruir clientes durante sessões de regressão hipnótica a “voltar no tempo até a origem do problema”, embora nem terapeuta nem cliente acreditassem em “vidas passadas”. Foi este o caso ocorrido com o iminente neuropsiquiatra Dr. Brian Weiss da Universidade de Miami, que arriscou sua reputação e carreira ao publicar o caso de uma cliente que se recuperou rapidamente quando uma “vida passada” não solicitada emergiu espontaneamente durante uma sessão de hipnose (Weiss, 1990). Como ambos Weiss e o autor deste concluíram após revisar centenas de casos semelhantes “não importa se você acredita ou não em reencarnação, o inconsciente quase sempre irá produzir uma história de vida passada quando solicitado da maneira certa” (Woolger, 1987, pg. 40).

O notável sobre essa técnica, empregada pela primeira vez na virada do século vinte, por um hipnoterapeuta e seguidor de Freud chamado Colonel de Rochas, é que o cliente não precisa acreditar em reencarnação ou em vidas passadas para que ela seja eficaz. (Por analogia, poder-se-ia também dizer que não é necessário que a pessoa acredite em uma teoria dos sonhos para que o trabalho com sonhos seja eficaz na terapia). A pessoa é simplesmente encorajada a reviver uma cena perturbadora de alguma outra época histórica como se fosse real e temporariamente assumir a personalidade da “outra vida” assim como as imagens e sensações corporais da “outra” personalidade pelo tempo de duração da “regressão”. O efeito terapêutico de reviver um trauma de “vida passada” na imaginação, seja a história de um acidente, abandono, traição, morte violenta, estupro ou abuso físico, é semelhante às liberações emocionais experienciadas com as terapias de estresse pós-traumático usadas para os traumas da vida atual (Herman, 1992, Van der Kolk et al 1996). O reviver é como um psicodrama fictício que leva, como Moreno desejava, a uma liberação catártica intensa de sentimentos bloqueados, em geral de medo, pesar, ira, vergonha ou culpa congelados.



O Corpo na Terapia de Vidas Passadas

Assim como as liberações corporais pesquisadas por Wilhelm Reich, a terapia de vidas passadas, muito freqüentemente, ocasiona a dissolução espontânea de couraças físicas e a recuperação da libido física bloqueada. De fato, um aspecto marcante da terapia de vidas passadas, quando vista pela primeira vez por um observador, é o óbvio envolvimento físico do cliente na história que está sendo revivida. Em várias sessões, o cliente não se limita a ficar apenas sentado ou deitado passivamente recontando uma visão interna de uma vida passada com os olhos fechados. Pelo contrário, ele ou ela pode estar sujeito às mais dramáticas convulsões, contorções, saltos, movimentos voluntários e involuntários. Um cliente pode apertar o peito aparentando sentir dor enquanto fala de uma ferida de espada, outro pode ficar quase roxo por asfixia ao relembrar de um estrangulamento, enquanto ainda outro pode ficar rigidamente congelado com os braços acima da cabeça ao relembrar estar amarrado a uma árvore durante um tortura.

Vários terapeutas corporais têm relatado o surgimento de imagens de “vidas passadas” durante uma sessão de massagem ou de Rolfing quando partes tensas, sensíveis ou contraídas do corpo são tocadas ou trabalhadas. Além disso, às vezes é o massagista que tem a visão da imagem, como se estivesse “sintonizando” algo nos campos de energia em torno do corpo do paciente. Um exemplo: um paciente masculino, durante uma sessão em que seus pulsos estavam sendo profundamente massageados, viu-se em um outro corpo, o de um escravo que fazia muita força cona um enorme remo em um galeão romano; na mesma sessão, o terapeuta também percebeu imagens do corpo remando enquanto estava trabalhando nas pernas do cliente. Em um outro caso, quando foi solicitado a uma paciente que explorasse a dor em sua nuca e ombros movimentando os braços e a cabeça em diversas direções, suas mãos subitamente congelaram na altura das orelhas, sua cabeça caiu para frente e ela gritou horrorizada: - Estou num pelourinho! Estão atirando coisas em mim! – Ela havia, momentaneamente, experienciado a persona de uma adúltera do século XVII que estava sendo castigada por uma comunidade enfurecida de Puritanos da Nova Inglaterra.

Ocasionalmente um tratamento médico ou dentário invasivo ativará respostas de medo extremo e o que parecem ser retrospectos de tortura ou de abuso de "uma vida passada". Durante uma cirurgia oral, uma mulher reagiu com terror quando um pano de cobertura cirúrgica foi posto sobre seu rosto para iniciar o procedimento. Em uma regressão subseqüente ela sentiu que colocavam um capuz sobre sua cabeça e em seguida foi guilhotinada durante a Revolução francesa; após ter revivido a morte e aparentemente ter saído do corpo para ver seu ego da "vida passada, lá embaixo" todo o seu medo sumiu.

Em outro caso muito notável, uma cliente buscou terapia porque sua resposta sexual sempre fora tão bloqueada que ela resistia a qualquer penetração. Durante uma sessão ela foi regredida a uma cena de infância desta vida em que lhe introduziram uma sonda na uretra em um hospital. Este procedimento em si foi extremamente traumático, mas durante o re-viver emergiu uma imagem mais horrível e dolorosa ainda quando ela disse: - Está queimando! - Ela se viu como uma mulher que engravidou fora do casamento, em uma aldeia medieval; ela foi castigada cruelmente pela inserção de um ferro em brasa para cauterizar seu útero. Quando estas e outras visões e sensações semelhantes de trauma físico emergem na regressão, no psicodrama ou em trabalhos corporais, eles podem ser resolvidos pela terapia de vidas passadas e liberados energicamente do corpo com notável remissão da dor e de outros sintomas físicos crônicos.

Ao observador inexperiente, isso pode parecer aflitivo, se não perigoso. Até mesmo terapeutas treinados (mais freqüentemente aqueles que usam técnicas freudianas, cognitivas, ou puramente verbais) me procuram após uma demonstração particularmente violenta da técnica de vidas passadas e me advertem dos perigos de provocar um colapso psicótico. Porém, para muitos terapeutas que praticam a terapia de vidas passadas, as fortes liberações físicas assim como emocionais, são lugar comum em nosso trabalho, em muitos casos são parte essencial dele. Cada vez mais terapeutas estão descobrindo que vários tipos de problemas de comportamento e complexos têm camadas subjacentes de traumas de vidas passadas, que são claramente físicas como também emocionais. Como resultado, nos vemos naturalmente usando métodos catárticos para libertar o trauma antigo. Visto de uma perspectiva histórica, esse tipo de ênfase no reviver eventos traumáticos e tratá-los com métodos de ab-reação ou catarse, marca um retorno às mesmas abordagens que Freud abandonou, há noventa anos atrás, a favor de sua psicologia posterior, a do ego e de seus mecanismos de defesa.

Como Stanislav Grof observou em sua visão geral da história da psicoterapia em ‘Além do Cérebro’ (1985), muitas das terapias mais recentes, Gestalt, Renascimento, Terapia com LSD, por exemplo, atualmente enfatizam o componente experiencial em reação à ênfase puramente cognitiva e interpretativa de grande parte da psicoterapia neofreudiana. Em outras palavras, do ponto de vista de Grof, com o qual estou totalmente de acordo, grande parte das terapias pós-freudianas, e até mesmo junguiana, sofreram um desvio intelectual ineficaz na evolução de métodos práticos da psicoterapia.

Eu levanto a questão dessas estratégias terapêuticas fundamentalmente diferentes (podemos chamá-las de catártica versus cognitiva) não por razões polêmicas, mas porque elas afetam radicalmente como procedemos em relação à terapia em geral e à terapia de vidas passadas em particular. Uma conseqüência óbvia dessas visões discrepantes é que quando objetivamos a compreensão cognitiva tendemos a negligenciar o corpo. Em contraste, quando como terapeutas enfatizamos a catarse, temos inevitavelmente que permanecer focados no corpo, pelo simples motivo de que é no corpo que a violência física e emocional são mais vividamente experienciadas. Recentemente, isso foi apontado pelo inovador trabalho com terapia de trauma pelo grupo de pesquisadores psiquiátricos de Harvard, encabeçado por Bessel van der Kolk e Judith Herman. Eles enfatizam que é o sistema límbico do cérebro e as vias sensório-motoras que são responsáveis pelo armazenamento das recordações traumáticas e não as regiões verbais do córtex, como ocorre na memória normal. Uma publicação fundamental de van der Kolk tem o título de "O Corpo Mantém a Contagem" (van der Kolk, 1996). As implicações para terapia de trauma dizem claramente que a lembrança e a liberação efetivas de resíduos traumáticos tem que envolver o corpo.



O Corpo como Sujeito da Experiência

Do ponto de vista da terapia catártica ou experiencial o corpo em si se torna o que chamarei de um sujeito experienciador, por fala de termo mais apropriado, ou mais estritamente, de uma multiplicidade de sujeitos experienciadores. Minha cabeça pode pensar isso, meu coração pode sentir aquilo, minhas entranhas podem sentir outra coisa, e daí por diante. Cada parte do corpo tem algo a dizer ou expressar. Foi isto que Fritz Pearls, inspirado por Wilhelm Reich e pelo psicodrama de J. L. Moreno, viu de forma tão clara: que há toda sorte de conversas, monólogos e diálogos inacabados em atividade nas diversas e, muitas vezes, opostas partes ou segmentos de nossos corpos. Os complexos, mudando para a terminologia junguiana, falam em e através de nossos corpos, se estivermos preparados para escutá-los; nós somos a corporificação da totalidade de nossos complexos.

Devemos em particular a Wilhelm Reich por ter lutado de forma prática com o problema mais disseminado entre os homens e mulheres ocidentais, ocidentalizados e “civilizados”, isso é a cisão Cartesiana entre cabaça e corpo, mente e matéria, espírito e natureza. Exatamente na época em que Freud se afastava das implicações fisiológicas de sua teoria da repressão sexual e do represamento da libido, Reich estava explorando a questão das estruturas rígidas de caráter e de como elas eram expressas pelo corpo. Reich cunhou o termo couraça de caráter para descrever aqueles padrões rígidos de tensões musculares inconscientes encontrados na cabeça, mandíbula, nuca, ombros, tórax, diafragma, pelve, pernas, braços, mãos e pés (Reich, 1949, Dychtwald, 1977). Ele nos mostrou que essas estruturas rígidas não resultavam de estresse físico ou traumático, mas que eram expressões de traumas psíquicos, emoções profundamente reprimidas, e uma inconsciente negação básica da vida. Toda a libido que deveria estar fluindo para fora do organismo e para a vida, não importa o quão conflituoso isso possa ser, permanece presa sob a musculatura. Isso por sua vez deprime a função autonômica, afeta o funcionamento orgânico negativamente, e geralmente distorce toda a postura do esqueleto (Reich, 1949, Alexander, 1971).

Para citar alguns exemplos: se uma criança vive com medo de ser espancado por um pai/mãe brutal, ele aprende a se contrair e a elevar os ombros para proteger a cabeça. Se não houver libertação desse medo, a couraça dos ombros defensivos nunca relaxa, correspondentemente, tampouco relaxam seu estômago “nervoso” ou sua respiração superficial apreensiva. Após a criança adaptar-se a estar permanentemente “em alerta”, o medo fica preso em seu organismo, na forma de ombros cronicamente elevados, coluna curva e, peito e estômago contraídos. Com o passar dos anos, esse tipo de padrão defensivo pode degenerar ainda mais, se tornando num tipo característico de postura fixa (Kurtz 1976).

Ou suponhamos que uma menina tenha sido sujeitada a abuso sexual regular pelo pai. Nesse caso, são os genitais dela que estarão contraídos, sua pelve presa numa postura congelada, e suas pernas mantidas rígidas por um misto de medo e raiva. Além disso, pode haver repulsa presa em seu estômago e respiração superficial. Mais tarde ele pode sofrer de infecções no trato urogenital, resposta sexual profundamente inibida e dificuldades ginecológicas, todos resultantes da couraça psíquica, profundamente enraizada, que se tornou crônica.

Estes exemplos são típicos da forma em que Reich (1949) e seus seguidores contemporâneos (principalmente Keleman 1975, Kurtz 1976, Lowen 1977, Boadella 1985, Pierrakos 1987) seguiram a rota psicanalítica tradicional de procurar pela origem causal das queixas orgânicas posteriores e couraça de caráter nas deformações físicas e traumas da infância. No mundo moderno não há falta de negligência, brutalidade ou abuso sexual perpetrados pelos pais. Assim, na maior parte das vezes, não é necessário que os terapeutas continuem buscando a causa e a liberação dos sintomas incorporados que descrevemos. Mas como números crescentes de terapeutas estão descobrindo, há todo tipo de queixas neuróticas, de natureza tanto física como emocional, que simplesmente se recusam a uma resolução através da exploração das histórias de infância, não importando até o quão cedo na vida investiguemos. Agora está sendo admitido que muitas crianças já nascem obviamente medrosas, deprimidas, enraivecidas, retraídas, incapazes de comer (i.e. morrendo de fome), dessensibilizadas, etc. É justamente em tais casos que a exploração de vidas passadas está provando ser particularmente eficaz, agora que estamos livres para fazer as perguntas que o freudianismo e a doutrina da tabula rasa do desenvolvimento proscreveram por tanto tempo. (1 - Veja notas no final)



Resíduos Físicos de Vidas Passadas

Permitam-me a referência a um caso mencionado em meu livro, ‘As Várias Vidas da Alma’ (Woolger 1987). Uma mulher jovem a quem chamarei de Heather, sofria desde a adolescência de colite ulcerativa. Obviamente que todos os tipos de terapias dietéticas haviam sido tentados, e mais recentemente a psicoterapia. Seu psicoterapeuta, que a referiu a mim, admitiu que era incapaz de encontrar qualquer causa de ansiedade que explicasse as úlceras na vida atual de Heather, apesar dos vários meses de tentativa. Assim, concordamos em tentar uma sessão de vidas-passadas.

A história que emergiu imediatamente nos levou à Holanda durante a 2ª Guerra Mundial, na época da invasão nazista. Heather viu-se como uma menina de oito anos de idade, em uma família judia, morando no bairro judeu de uma pequena cidade holandesa. Na primeira cena que emergiu ela estava alegremente ajudando a mãe a fazer pão quando o som de explosões lhes chegou aos ouvidos. Os Nazistas estavam constantemente explodindo e incendiando as casas para forçar os habitantes a saírem às ruas. A mãe, em pânico, empurra as crianças para a rua, mandando que corressem. A rua está cheia de pessoas da cidade correndo em todas as direções. Há carros e jipes de guerra seguindo-os e o som de artilharia. A menininha corre para uma ruela, pensando que seria mais seguro, e por um tempo observa, por trás de um muro, vendo alguns vizinhos e amigos sendo mortos, mas em sua maioria eram agrupados pelos nazistas. Fugindo para mais longe da fumaça e das explosões, ela vira uma esquina e dá de frente com um carro comandado por soldados. Eles a pegam e jogam na parte de trás do carro onde já há outros cativos.

Em pouco tempo, ela e os outros são tirados do carro e postos em fila à frente de trincheiras que foram cavadas para servir de sepulturas em massa. De pé, assistindo filas de pessoas serem metralhadas enquanto aguarda sua vez, ela dia que seu estômago faz nós de terror. Chega sua vez e ela cai para trás, com o impacto das balas, sobre uma pilha de vítimas mortas e outras morrendo. Ela não morre imediatamente; outros corpos caem por cima dela e ela finalmente morre por sufocamento e perda de sangue. Seu estômago fica cheio de nós de terror durante o acontecimento apavorante.

Minha abordagem durante a sessão foi a de direcioná-la a respirar profundamente e a liberar o máximo possível de medo e angústia. Recebendo essa permissão, ela entrou em convulsão de choro, gritos e lamentações. Como a jovem judia, ela morrera, pelo que parecia, impossibilitada de expressar o terrível choque de perder seus pais, de assistir à chacina em massa, e de encarar sua própria morte prematura. Frases como “Nunca mais vou vê-los”, “Me ajude”, “Não consigo sair daqui”, “É tarde demais”, vieram à tona espontaneamente, e seu corpo fez convulsões violentas e tentativas de vomitar.

Quando tudo terminou, Heather estava exausta e sem energia, porém já não sentia o peso do medo que sempre estivera com ela e o qual agora compreendia. A condição do seu estômago melhorou radicalmente após esta e algumas sessões de manutenção que se seguiram.

Em mitos dos casos, quando desviamos o foco de supostos traumas de infância na vida atual e damos permissão ao inconsciente profundo para se expressar, descobrimos que o sintoma apresentado parece ser derivado de uma memória de vida passada. Não houvera qualquer acontecimento na experiência de vida atual de Heather remotamente grave o suficiente para induzir sintomas de medo tão pesados que somatizassem úlceras; na realidade, sua queixa era muito desproporcional ao curso relativamente tranqüilo de sua vida atual. Contudo, a vida passada da menina judia veio à tona imediatamente e encontramos imagens traumáticas que estavam em concordância com seus sintomas. No caso de Heather, assim como em vários outros, fui levado a concluir que o medo inconsciente, que se manifestava em seu estômago na forma de úlceras, não era um resíduo dessa vida, mas de outra.

Parece que cada parte do corpo, de algumas pessoas, revela acidentes ou feridas antigas. Mas os traumas de vidas passadas sempre têm uma relação específica e não geral com o problema físico atual. Nem todas as enxaquecas têm origem em golpes na cabeça, nem todos os problemas de garganta derivam de estrangulamentos. Uma dor de garganta semelhante em várias pessoas pode encerrar em si histórias bem distintas: em uma pessoa pode vir de uma morte por decapitação, em outra uma morte por asfixia, enquanto ainda outra pessoa pode se lembrar de ter sido enforcada. Em diferentes pessoas uma dor no peito ou dores na região do coração trará traços de memórias de vários tipos de apunhaladas, tiros, lanças, flechas, estilhaço, etc. Braços e pernas doloridas lembram-se de terem sido quebradas em acidentes de guerra, esmagadas por árvores que caíram, despedaçadas por tortura, crucificação ou pau de arara, ou então de ter sido rasgadas por animais selvagens. Uma região abdominal fraca ou sensível pode se lembrar de cortes, talhos e estripação, ou então de fome ou envenenamento. Pés e mãos sensíveis foram submetidos, em vidas passadas, a toda sorte de acidentes e mutilações, para não falar de haver infligido atos horríveis a outras pessoas.

Como isso pode ser verdade? Pode perguntar o cético que não conhece a regressão a vidas-passadas. Como podem traços de memórias e reações somáticas serem ocasionadas por experiências vivenciadas por um outro corpo totalmente diferente?

Os Problemas de Transmissão Não-Física
Algumas teorias têm tentado responder à pergunta, às vezes chamada de “o problema da memória extra-cerebral”, recorrendo à herança genética. Entretanto, minha descoberta é a de que em centenas de casos envolvendo vidas passadas, pode-se contar na mão aqueles em que um determinado problema possa ter sido passado geneticamente. A grande maioria das histórias que gravei não tem explicação genética, ou seja, não seria possível a transmissão genética. Na maioria, as discrepâncias e descontinuidades culturais são muito extremas.

Em um outro texto (Woolger, 1987), propus que falamos de conteúdos psíquicos herdados como sendo “complexos de vidas passadas”, uma extensão da descrição de complexo feita por Jung (Jung, 1934), já que agora está muito claro que as impressões psíquicas, emocionais e físicas ocorridas em uma vida são de alguma forma transmitidas a vidas futuras.

Contudo, não importando como nomeemos, como exatamente são transmitidos os complexos de vidas passadas? Existe algum veículo ou substrato psíquico para essa transmissão de uma vida a outra, de um corpo a outro? A teoria do próprio Jung, do inconsciente coletivo, que é um repositório dos resíduos de toda a história humana, pareceria uma proposta atraente, porém, nessa formulação, seus conteúdos, os arquétipos, não têm memórias pessoais, apenas formas impessoais.

Acredito que aqui, mais uma vez, precisamos nos voltar ao oriente na busca de idéias mais compatíveis com nossos dados, a teorias enraizadas em culturas que sempre estiveram abertas à idéia de transmigração, diferentemente do ocidente com seus dogmas e perseguições religiosas. O ensinamento iogue, de fato, oferece conceitos altamente sofisticados, tanto sobre um substrato psíquico universal denominado akasha, que grava impressões de todos os eventos mentais e físicos, quanto sobre um veículo, o corpo sutil, que transmite resíduos psíquicos individuais.

Está além do escopo deste artigo adentrar na doutrina tradicional do akasha (traduzido como ‘espaço’ ou ‘éter’ cósmico ou psíquico), uma doutrina que vai para bem além da imagem dos “registros akáshicos” popularizados por Edgar Cayce e a Teosofia. É suficiente dizer que se nós no ocidente realmente o compreendêssemos, o conceito de akasha poderia alterar radicalmente as idéias fixas sobre matéria, transformação e cura que apenas recentemente estão sendo desafiadas no ocidente. (2) Mais útil, da perspectiva da prática da terapia de vidas passadas, é o conceito de corpo sutil. Segue abaixo um resumo do assunto, feito por uma autoridade em religião Indiana, Heinrich Zimmer:

Dentro do corpo denso, que sofre dissolução após a morte, cada ser vivo possui um corpo sutil interno, que é formado das faculdades sensoriais vitais, respiração e órgãos internos. Este é o corpo que continua e continua, de nascimento a nascimento, como base do veículo da personalidade reencarnada. Ele sai do abrigo do corpo denso na hora da morte e então determina a natureza da nova existência; pois dentro dele ficam os traços dos movimentos das vontades do passado, todas as propensões e tendências, a herança de hábitos e inclinações, toda a prontidão peculiar a reagir dessa ou daquela maneira, ou a de não reagir. (Zimmer, 1951: 324)



O Corpo Sutil na Teoria e na Prática

A investigação científica dos campos de energia em volta do corpo humano tem, até agora, sido muito limitada no ocidente. Como a parapsicologia ainda é desacreditada pela psicologia acadêmica (a American Psychological Association tem consistentemente rejeitado a formação de uma Escola de Parapsicologia, por exemplo) ainda não temos base de apoio. Contudo, Krippner e Rubin fizeram relatórios sobre a pesquisa russa do fenômeno Kirlian, de descargas de energia em volta de plantas, animais e humanos, em seu livro Galaxies of Life (1973). Essas emanações de energia, difíceis de não se descrever como auras, podem ser registradas por um processo semelhante ao da fotografia.

Nessa coleção de ensaios, Moss e Johnson relatam sobre a pouco conhecida porém revolucionária teoria do ‘bioplasma’, caracterizada pelo pesquisador soviético V.M. Inyushin como ‘o quinto estado da matéria’. (3) Segue seu resumo sobre essas descobertas:

V.M. Inyushin ... optou pelo termo ‘corpo de bioplasma’ para descrever as emanações e estruturas internas dos objetos fotografados, citando autoridades em bioenergética e bioeletrônica como Szent-Gyorgy e Presman. Conversando com Inyushin, Moss aprendeu que ele concebe o ‘corpo bioplasmático’ como semelhante, se não idêntico à ‘aura’ ou ‘corpo astral’ conforme é definido na literatura iogue. (Krippner e


Rubin, 1973).

Infelizmente, o termo russo é obviamente uma metáfora física, derivado de ‘plasma’, o que tende a torná-lo em uma redução do campo psíquico ao físico. Isso se encaixa bem à filosofia russa de materialismo dialético, mas é um tanto ou quanto desajeitado para aqueles que pensam diferentemente. Por outro lado, nós mesmos no ocidente estamos presos em nossos dualismos corpo/mente e natureza/espírito, gerados pela teologia cristã e a tradição filosófica predominante após Descartes. G.R.S. Mead pesquisou alternativas tais como ‘alma’ e ‘espírito’ em seu valioso livro ‘A Doutrina do Corpo Sutil na Tradição Ocidental (1919), mas ele não faz qualquer tentativa de abranger a psicologia moderna. (4)

Um grande problema de termos como ‘bioplasma’ e outros termos ainda mais gerais como ‘campo de energia’, no que tange à psicologia, é que eles não definem a interface crucial entre ‘energia’ e padrões de pensamento e sentimentos específicos. É possível que a teoria de Reich sobre o ‘orgone’ seja a única tentativa ocidental de fazer isso. Enfatizando a idéia de que energia emocional reprimida também é energia orgone ou vital reprimida, ele pôde demonstrar como padrões neuróticos fixados levam à degeneração de sistemas orgânicos. Alguns seguidores de Reich que tentaram estender sua perspectiva radical, como Inyushin, ficaram impressionados por sua semelhança à ioga e fenômenos de corpo sutil tais como ‘auras’ perceptíveis. O método de John Pierrakos, ‘Core Energetics’ (1987), trabalha com o campo áurico na psicoterapia, assim como o sistema de cura denominado ‘radiônica’ de David Tansley (1977). O trabalho mais recente de Bárbara Brennan (1988), com cura do corpo sutil, também merece menção. Estes três pesquisadores usam conceitos iogues sobre os chakras e as camadas sutis de energia em volta do corpo. Brennan admite ‘ver’ vidas passadas na aura através da clarividência.

O uso feito por Tansley da versão de Alice Bailey sobre a teoria iogue do corpo sutil (1953) me parece especialmente valorosa, principalmente por definir de maneira muito clara três níveis distintos da energia sutil e demonstrar como eles se interpenetram. Bailey utilizou os termos iogues para esses corpos sutis, mas de maneira não muito abordável. Em resumo e em ordem descendente, contendo um ao outro como ovos russos, eles são:




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