Decência e boniteza no aprendizado das primeiras palavras Ludmila Ferreira Guedes de brito resumo



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Decência e boniteza no aprendizado das primeiras palavras

Ludmila Ferreira Guedes de BRITO



Resumo

Depoimento sobre experiência realizada com alunos em sala de alfabetização de escola pública estadual na comunidade Paraisópolis. Após observação do trabalho da professora da turma e elaboração de plano de aula, como parte do processo da disciplina de alfabetização do curso de Pedagogia, foi realizada a aplicação da aula com o tema parlendas.

Palavras- chave: alfabetização, escola pública, parlenda.

“Quando vemos a autenticidade exigida pela prática de ensinar-aprender participamos de uma experiência total, diretiva, política, ideológica, gnosiológica, pedagógica, estética e ética, em que a boniteza deve achar-se de mãos dadas com a decência e com a seriedade.” (FREIRE, 1996, p.24)

Decência e boniteza de mãos dadas foi o que vi no trabalho pedagógico realizado com a turma do primeiro ano C da Escola Estadual Homero Fortes, onde realizei meu estágio da disciplina Metodologia do ensino de português, do curso de Pedagogia da Universidade de São Paulo.

Tudo começou no início do semestre, quando a professora Nilce da Silva nos indicou as leituras para o curso. Foi a primeira vez que li um trabalho da autora Emilia Ferreiro, que mais tarde foi citada, diversas vezes, pela professora Bernadete, como uma importante referência para o trabalho que desenvolve com sua turma de alfabetização.

O próximo passo foi a elaboração de um plano de aula de alfabetização. Escolhi desenvolver essa tarefa com duas colegas, Luana Pereira e Mariana Roquiassi, embora cada uma pretendesse aplicá-lo em uma escola diferente. O tema escolhido foram as parlendas. Além das leituras do curso realizamos uma pesquisa sobre esse tema e o nosso plano de aula, após correções, ficou finalmente pronto.

Paralelo a esse processo, iniciou-se o meu estágio. Escolhi observar o trabalho de uma professora que conheço, pois já sabia de sua postura ética e integridade e, sendo assim, percebi que teria muito a prender com ela.

Após combinar o primeiro dia de minha visita, não sem um pouco de apreensão, fui conhecer a escola na comunidade Paraisópolis. Dalila, uma das coordenadoras pedagógicas, atendeu-me na entrada. Ela me contou sobre os aspectos gerais da escola, número de salas de aula que funcionam nos períodos da manhã e tarde com o ensino fundamental I e, à noite, com salas de Educação de Jovens e Adultos do ensino médio. Falou-me sobre a clientela atendida pela instituição, métodos de ensino e projetos desenvolvidos. Fui então encaminhada até a sala do primeiro C.

Fui recebida por trinta e sete crianças muito entusiasmadas com minha presença. Bernadete já havia conversado com a turma sobre meu estágio e, inclusive, contou a eles sobre minha vivência como bailarina e professora de dança e artes. Surgiu aí o nosso combinado: no início de dezembro irei realizar com eles uma atividade de dança numa tarde especialmente reservada após a finalização dos processos avaliativos.

Para Magda Soares (2010, p.36), a diferença entre ser alfabetizado e letrado, termo de uso recente na literatura sobre o tema, é que a pessoa letrada vive na condição de quem sabe e pratica leitura e escrita: “Há, assim, uma diferença entre saber ler e escrever, ser alfabetizado, e viver na condição ou estado de quem sabe ler e escrever, ser letrado (atribuindo a essa palavra o sentido que tem literate em inglês).”

Ou seja, que utiliza o que aprendeu em suas diferentes práticas diárias, nos diversos meios em que transita. Para que isso aconteça é necessário um aprendizado significativo, seja pra criança que aprende a ler, seja para o adulto que passa por esse processo.

Pude observar nas crianças, durante o estágio, o valor que o aprendizado da leitura tem na vida delas. Cada vitória, cada pequeno ganho é comemorado, por elas e pela professora, que está sempre atenta às necessidades do grupo e às individuais. – e olha que isso não é nada fácil quando se lida sozinha com um grupo de trinta e sete crianças entre seis e sete anos!

Porém, com muita qualificação e dedicação, Bernadete desenvolve seu projeto de “Animais em extinção”, tornando as atividades que envolvem a leitura e a escrita mais significativas para as crianças, contextualizando-as num tema que surgiu do interesse dos pequenos numa conversa sobre animais.

A partir dessa conversa, Bernadete elaborou o projeto com o incentivo do programa de apoio da instituição Crescer Sempre, que realiza vários projetos nas escolas públicas da comunidade. Num deles, os professores são desafiados a criar projetos temáticos para seu trabalho, os quais direcionem as atividades durante todo o ano. Esses professores são acompanhados e avaliados por profissionais da instituição, que observam também o desenvolvimento das crianças. De acordo com o parecer da banca observadora, o professor recebe um prêmio que é entregue na forma de um cartão para compras numa rede de hipermercados. O relatório final do projeto tem formato de trabalho acadêmico e o processo todo exige estudo e aplicação por parte dos professores que abraçam o desafio.

Para a turma do primeiro C, tem sido uma grande aventura! As atividades se diversificam entre leitura, escrita, pesquisas no laboratório de informática, pesquisas em casa e o ápice: a visita ao zoológico, que foi realizada no início de outubro. Tudo isso planejado e estruturado, e ainda conduzido com muito zelo pela professora.

Apesar do grande número de alunos na sala, nas diferentes ocasiões em que pude observar as atividades, em diferentes espaços da escola, as crianças seguem as orientações de Bernadete com atenção. A turma é bastante disciplinada na realização de suas tarefas, escutam o que a professora tem a dizer, esperam a vez para dar sua opinião. Todos aprendem a respeitar porque são respeitados, em primeiro lugar, pela professora. São ouvidos e tem suas necessidades atendidas. Além do respeito, é possível observar que possuem um grande carinho por Bernadete.

A aplicação do plano de aula aconteceu após a visita, o que pode ser percebido nos textos criados pelas crianças, para quem a visita foi muito proveitosa. Muitas delas conheceram o local nesta visita, sendo ainda que muitas delas saiam da comunidade em pouquíssimas ocasiões, sendo essa uma delas.

Na tarde da aplicação do plano de aula a turma tinha uma rotina apertada, contando inclusive com um ensaio da música que criaram sobre o projeto para uma apresentação que seria realizada aos pais dali a três dias. Ainda assim, Bernadete me cedeu parte da tarde para realização da atividade de criação das parlendas.

O momento de exposição dos textos e discussão sobre esse gênero literário foi encurtado mediante ao conhecimento prévio que as crianças já possuíam sobre o assunto. Bernadete distribuíra, anteriormente, o livro texto com as parlendas já trabalhadas em sala. As crianças explicaram o que era e recitaram algumas em grupo: conforme eu começava, elas seguiam até o final.

Passei então ao passo seguinte. Bernadete ajudou-me a separar as crianças em grupo segundo a estratégia que costuma utilizar nessas ocasiões: mesclando num mesmo grupo crianças que se encontram em diferentes hipóteses no processo de alfabetização, ou seja, crianças em diferentes níveis de aquisição da língua. Assim, elas ajudam umas as outras, o que aprenderam a fazer durante o ano com respeito e colaboração.

Sugeri que se inspirassem em temas de acontecimentos recentes, como o Dia das Crianças e o passeio ao zoológico. Uma das crianças sugeriu falar de coisas do coração. Conforme cada grupo ia discutindo, levei o notebook para que digitassem o que haviam criado. Uma criança de cada grupo, que já sabia escrever, anotou o que os colegas diziam no caderno. Esse escrito foi usado no momento da digitação, quando cada aluno registrou uma frase no computador. Quando necessário, os colegas o ajudavam. Conforme cada grupo realizava a digitação de sua Parlenda, recebia folhas para registrar, individualmente, em forma de desenho, o que haviam escrito. Seguem abaixo os textos:

UNI DU NI TE

SALAME MINGUÊ

QUEM VAI SER

A PRINCESA MAIS BONITA

DESSE MUNDO

VAI SER VOCÊ

Ketellen, Camilly, Emmily, Erick Carvalho, Thainara, Marcela

DIA DAS CRIANÇAS

É DIA DE FESTANÇA

DE GANHA PRESENTE

E ENCHER A PANÇA

Kaique, Diego, Cintia, Kethylly, Caue e Murilo

ZOOLOGICO

FUI AO ZOOLOGICO

VER O MACACO ARANHA

QUANDO CHEGEI LÁ

DEI DE CARA COM A ARIRANHA.

Emelly, Tamires, Achily, Eduarda, Elisson, Jouh

ZOOLÓGICO

EU FUI VER O MACACO E A ARANHA

E LOGO DEI DE CARA COM A ARIRANHA

Evelin, Caroline, Joyce, Alan, Julio, Kathellyn

(Observação: esse grupo ouviu o anterior discutindo e achou que podia copiar a idéia deles... quando percebemos, já não havia tempo para intervenção.)

DIA DAS CRIANÇAS

DIA DE COMILANÇA

PRESENTE QUE LEGAL

AJUDA O VARAL

Deborah, Danilo, Yuri, Lucas, Fabricio, Emanoel

FUI AO ZOOLÓGICO

ENCONTREI O BICHO PREGUIÇA

VI O JABUTI COMENDO UMA LINGÜIÇA

Fabiana, Erick Santos, Daniel, Fernando e Caroline

Ao final da digitação dos textos não houve tempo hábil para socialização das produções com o restante da turma. Ficou combinado que levarei os textos impressos para cada um no dia marcado para nossa atividade corporal. Bernadete me contou, inclusive, que eles pretendem organizar uma festa no dia de minha ida para confraternizar a chegada do final das aulas com a minha presença!

Encerro aqui minha narrativa sobre o processo que vivenciei durante a disciplina de Metodologia do ensino de português: a alfabetização, o qual rendeu muitos frutos e satisfação na minha trajetória com professora em formação.



Referências Bibliográficas

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

SOARES, Magda. Letramento. Belo Horizonte: Autêntica, 2010.

Ludmila Ferreira Guedes de Brito

Bacharel e Licenciada em Dança pela Universidade Estadual de Campinas

Graduanda do curso de Pedagogia da Universidade Estadual de São Paulo

Atuou por dez anos como professora de dança em estúdios, academias e escolas

Trabalhou por três anos no ensino municipal de São Paulo como professora de artes



Atualmente trabalha com crianças de dois e dez anos em escola de ensino bilíngüe português-inglês

Contato: ludmila.guedes@usp.br

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