Desafios de recuperaçÃo subaquática do concreto



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Comitê Brasileiro de Barragens

XXVI Seminário Nacional de Grandes Barragens

Goiânia – GO, 11 a 15 de Abril de 2005

T.96 A15


DESAFIOS DE RECUPERAÇÃO SUBAQUÁTICA DO CONCRETO
Walton PACELLI de Andrade
Consultor Independente - Engeconsol Engenharia de Concreto e Solos Ltda

RESUMO
Neste trabalho é feita uma abordagem sobre os desafios de recuperação de concretagem subaquática de estruturas de concreto em grandes profundidades.


Para a simulação de concretagens subaquáticas a grandes profundidades foi desenvolvido um equipamento no Laboratório de Concreto de Furnas em Goiânia, que possibilitou o conhecimento do comportamento do concreto lançado com coluna de água de até 90m de profundidade, até o presente.
Algumas recuperações de concreto são abordadas para situações desafiadoras como: 1) guias de comporta a grandes profundidades e 2) fissuras que atravessam o corpo da barragem.

ABSTRACT


This paper presents an approach toward the challenges for underwater concrete repair in deep water.
Laboratory equipment was developed by the engineering team of Furnas Concrete Laboratory, located in Goiânia, to simulate underwater concrete placement in deep water. This device has enabled the research of concrete behavior under water pressure equivalent of a water column up to 90 m.
Some concrete rehabilitations are discussed for challenge situations such as 1) second stage of the intake guides, in deep water; 2) high pressure seepage in cracking in the dam body.


  1. INTRODUÇÃO

A recuperação das guias de comporta da Tomada de Água da UHE Porto Colômbia, realizada em 2000, foi executada com concreto subaquático com muito sucesso. Em decorrência deste trabalho foram realizadas pesquisas no Laboratório de Concreto de Furnas Centrais Elétricas, localizado em Goiânia, que além de subsidiarem esta obra, possibilitaram o conhecimento das propriedades do concreto quando lançado a grandes profundidades [1;2;3].


A impermeabilização da Barragem do Rio Descoberto da CAESB de Brasília foi outro exemplo bem sucedido de recuperação subaquática, só que, realizada a seco, através de uma cortina de vedação feita com furos secantes do coroamento até a rocha da fundação, próxima ao paramento de montante da barragem. Os furos da cortina foram preenchidos com aplicação de argamassa de alto desempenho, pelo processo de tremonha (tremie) [4].

O desafio de estender estes tipos de recuperação subaquática para outras obras é abordado juntamente com o da recuperação de fissuras que transpassam o corpo da barragem apresentando grandes percolações de água.


Nesta última situação além de se utilizar a tecnologia de concreto subaquático, na sua composição são utilizados aditivos hiperplastificantes, associados com antidirpersantes subaquáticos e fibra de aço.
O desenvolvimento de aditivos hiperplastificantes associados a aditivos andispersantes subaquáticos (antiwhashout admixture) abriu novo horizonte para que a recuperação de concreto subaquático, por propiciar maior plasticidade bem como grande coesão as misturas empregadas nestas recuperações.
São sumarizados os estudos de laboratório que foram apresentados em outros Congressos e Seminários [5;6;7], complementados com estudos posteriores visando sua aplicação para as duas situações em pauta.
Nestes estudos foi utilizado um equipamento para a simulação de concretagem subaquática, com concretos fabricados com estes aditivos de ultima geração e complementados, neste Trabalho, com os resultados obtidos com adição de fibras de aço para produzir um concreto com alta tenacidade para ser aplicado em cortina de impermeabilização de fissuras.



  1. EQUIPAMENTO PARA SIMULAR CONCRETAGEM SUBAQUÁTICA EM LABORATÓRIO

Um equipamento de laboratório foi construído pela equipe de engenheiros do Laboratório de Concreto de Furnas, para simular o lançamento do concreto em águas profundas.


O projeto e a construção deste equipamento foi desenvolvido compartilhadamente, a partir de uma concepção deste relator, com a parceria do Técnico Especializado Guilherme Leroy (in memorian), para simular concretagens subaquáticas em laboratório. A evolução deste projeto foi feita gradualmente, tendo sido iniciada com a moldagem de corpos de prova submersos sem pressão. Posteriormente, foi feita a aplicação de água com pressão, através do aparelho de estudo de permeabilidade (modelo do Bureau of Reclamation), em uma mistura de concreto fresco, para se avaliar a influencia da pressão exercida pela água na resistência do concreto. Na seqüência das pesquisas, utilizou-se um protótipo do equipamento com duas campânulas que se comunicavam através da abertura de uma válvula. Na campânula superior se colocava o concreto fresco e na inferior, água. A campânula superior com o concreto fresco era vedada e nela aplicada uma pressão equivalente à coluna de água pretendida. A abertura da válvula entre as duas campânulas forçava o concreto a penetrar na campânula inferior e expulsar a água através de uma tubulação provida de uma válvula. Na expulsão da água o concreto sofria um pequeno turbilhonamento antes da sua saída pela válvula na extremidade do tubo.
O equipamento foi sendo ajustado e aperfeiçoado, de modo a simular um lançamento subaquático sem o turbilhonamento da água na campânula inferior, e sua retirada garantindo que a pressão estipulada fosse mantida durante esta operação. A sua configuração final é mostrada nas Figuras 1 e 2.
Resumidamente o equipamento ficou com a seguinte configuração: duas câmaras sendo a superior onde o concreto fresco é colocado para receber pressão (equivalente aquela da coluna de água onde os reparos serão efetuados) e a inferior que é preenchida com água e submetida à mesma pressão. Entre estas duas câmaras há um tubo metálico de 10cm de diâmetro e 2 m de comprimento, com duas válvulas. Quando estas estão abertas, todo o sistema fica sob a mesma pressão. A altura da coluna de concreto fresco no tubo entre as campânulas é suficiente para preencher, com a ação da gravidade, a câmara inferior simulando a colocação do concreto por tremonha (tremie).
O equipamento pode trabalhar com qualquer pressão, e já foi utilizado para simular a pressão subaquática equivalente a uma coluna de água de 90m.
Na simulação da concretagem é produzido um cilindro de concreto submerso de 31cm de diâmetro por 71cm de altura. Quando se pretende estudar a aderência entre o concreto novo e o velho o corpo de prova é moldado em uma forma prismática, onde é colocada uma laje de concreto envelhecido, para verificar a aderência entre eles.
A simulação da concretagem permite que se ajuste dosagens com diferentes combinações de aditivos, visando um concreto adequado para aplicação subaquática.
Para caracterização das propriedades do concreto endurecido são extraídos testemunhos do cilindro concretado, com diâmetro de 7,6cm com altura de 15,2cm, após o concreto ter sido submetido à cura na câmara úmida.




Equipamento para Simulação de Lançamento Subaquático de Concreto
1 – Câmara superior para concreto fresco (Volume de 85 dm³)

2 – Câmara inferior para água pressurizada

(Volume de 24 dm³) para estudos de aderência

(Volume de 58 dm³) para testemunhos de sondagem

3 – Tubo com diâmetro de 10 cm com 2 m de comprimento(Vol. de 14 dm³)

4 – Válvulas de controle

5 – Tubo de ar e pulmão a alta pressão

6 – Escada



FIGURA 1: Equipamento para Simulação de Lançamento Submerso do Concreto




FIGURA 2: Seção do Aparelho Simulador
O procedimento de moldagem do ensaio de simulação de concretagem submersa sob pressão se resume a:


  • Encher a campânula inferior (5) com água, aplicar pressão e fechar os registros;

  • Colocar o concreto na campânula superior (3) e fechá-la;

  • Aplicar a mesma pressão nas campânulas superior e inferior;

  • Abrir a chave de saída d’água (6);

  • Fechar a chave após a água ser expulsa da campânula inferior pelo concreto, na mesma pressão do ensaio. A câmara fica cheia de concreto;

  • Abrir o registro de pressurização na campânula superior.

Para estudar a aderência entre o concreto novo e velho foi desenvolvida uma câmara adicional onde pudesse colocar uma laje de concreto velho na qual se procedia a um jateamento de areia úmida, para simular o tratamento do substrato antes de receber o concreto do reparo.


Depois de concluída a construção deste equipamento, foram simuladas concretagens subaquáticas para a verificação da aderência entre o concreto velho e o novo.
Uma pesquisa complementar foi conduzida posteriormente, para simular a concretagem de uma cortina de concreto com fibra para vedação de percolação do concreto em fissura transpassante no corpo de uma barragem. A pressão utilizada neste experimento foi a equivalente a uma coluna de água de 70m de altura.
Alguns trabalhos apresentados em Congressos e Seminários [5;6;8] já mostraram este equipamento.



  1. ESTUDOS DE LABORATÓRIO

3.1. Aditivos para Lançamento e Reparos Subaquáticos




  1. De acordo com KHAYAT [9;10;11], o lançamento subaquático é a associação de aditivos modificadores de reologia (Rheology-modifying - RMAs), que são polímeros solúveis em água, que aumentam a viscosidade da água da mistura e aumentam a habilidade da pasta do cimento em reter seus constituintes em suspensão. Os aditivos são também conhecidos como aditivos anti-dispersantes ou anti-exsudação;




  1. Aditivos modificados reologicamente, comumente usados em materiais à base de cimento, incluem: polisacarídeos de fontes microbiais, como goma welan; derivados de celulose, como metil celulose; polímeros acrílicos, como produtos de hidrólise parcial de poliacrilamida, copolímero de acrilamida; acrilato de sódio, que contém acrilamida como componente principal.

Derivados de celulose são normalmente utilizados em conjunto com redutor de água de faixa ampla à base de melamina.


Tais aditivos já foram incorporados ao concreto destinado à colocação e reparos subaquáticos, e implementado na produção de concreto muito fluido, extremamente trabalhável.

3.2. Pesquisas da Qualidade do Concreto Subaquático de sua Aderência ao Substrato, Quando Lançado a 90m de Profundidade


As pesquisas subseqüentes ao trabalho de recuperação da UHE Porto Colômbia feitas pelo Laboratório de Concreto de Furnas [5;6] visaram o conhecimento das propriedades do concreto lançado a profundidade de 90m.
Além do ajuste das dosagens do concreto para lançamento subaquático, foram estudados aditivos de concreto para lançamento subaquático (antiwashout admixtures – aditivo antidispersante para lançamento subaquático, associado a hiperplastificantes de última geração).
Após o ajuste da dosagem foram pesquisadas as propriedades do concreto.
Os principais resultados obtidos nesta pesquisa foram enfatizados pelos autores e transcritos a seguir [5]:
Todos os concretos atingiram abatimentos superiores a 20 cm, apresentando características adequadas para o auto-adensamento. Soma-se a isso, o fato de que o emprego de aditivos antidispersantes subaquáticos, reduziu significativamente a exsudação e a separação dos constituintes do concreto, além de aumentar a sua viscosidade.
O equipamento de simulação de concretagem subaquática funciona eficientemente, e através dele foram investigados diferentes fatores que podem influenciar o comportamento do concreto nessas condições.
Inicialmente, foi utilizada tubulação de 150 mm para aplicação do concreto no aparelho de simulação obtendo-se resultados satisfatórios. Quando se utilizou tubulação de diâmetro de 76 mm, foi necessário aumentar o teor de argamassa do concreto de dimensão máxima característica (Dmáx) 19 mm para evitar a segregação da mistura durante o ensaio. Na seqüência dos estudos contatou-se que a Dmáx de 9,5 ou 12,5mm era a mais indicada para concretagens subaquáticas.
Através de análise microscópica, constatou-se verificar maior compacidade dos concretos mantidos sob pressão em relação aos mantidos sem pressão.
Observou-se que houve um expressivo ganho de resistência do concreto submerso mantido sob pressão em relação aos demais concretos.
No prosseguimento das pesquisas [6] obteve-se o concreto que atendeu às premissas pretendidas, ou seja, as dosagens atingiram os valores de resistência previstos de fc28 = 25 a 30 MPa com relação A/C = 0,44.
O uso de aditivos especiais, tais como hiperplastificantes e antidispersantes foi fundamental para o sucesso da pesquisa.

Foram realizadas intensivas simulações de concretagens com o equipamento durante a pesquisa, o que garantiu e respaldou tecnicamente o processo, utilizando para isto a melhor dosagem estudada, a qual foi baseada nos teores ótimos estudados para os aditivos.


Foram feitas extrações do concreto subaquático (campânula prismática), tendo como parâmetro diferentes orientações de junta da placa de concreto com o concreto submerso lançado para que, com os dados dos ensaios triaxiais e uniaxiais, se obtivesse a coesão e o ângulo de atrito entre as juntas destes concretos de diferentes idades. Estes ensaios juntamente com os ensaios de tração simples mostram que a aderência entre os dois concretos pode ser garantida quando adequadamente aplicado.

3.3. Pesquisas Complementares de Laboratório Utilizando Concreto com Fibra de Aço


A utilização de técnica de concretagem subaquática utilizando microconcreto com fibra de aço, é uma alternativa atraente e ainda não utilizada no Brasil para recuperar fissuras que atravessam o corpo da barragem.
A idéia de utilizar a associação do lançamento subaquático de concreto com fibra é de se poder lançar o concreto submerso pelo coroamento da barragem, utilizando o processo da tremonha (tremie) uma vez que a fissura transpassa o corpo da barragem.
A fissura transpassante, cria uma junta de contração, provocando abertura e fechamento das partes do bloco de concreto formados, de acordo com as variações sazonais da temperatura. Esta movimentação das partes fissuradas exige que se utilize um concreto que possa resistir aos esforços resultantes destas variações sazonais e na eventualidade de se fissurar novamente o concreto utilizado na vedação e não sofra nova separação, daí a utilização de fibra de aço para aumentar a sua tenacidade.
Os estudos complementares efetuados foram conduzidos em laboratório e apresentados no trabalho da Referência [12], para demonstrar que o concreto com fibra além de resistir melhor aos esforços, depois fissurado, ainda apresenta resistências significativas com aberturas de fissuras de 1,5, 3 e 5mm, para um microconcreto reforçado com 40 kg/m³ de fibra de aço. Os valores obtidos podem ser sumarizados:
As resistências à flexão equivalentes aos deslocamentos de 1,5 mm, 3mm e 5mm do microconcreto com 40 kg/m3, foram de 105%, 93% e 67% respectivamente, em relação ao microconcreto de referência (sem fibra de aço).

3.4. A Simulação da Concretagem Submersa com Fibra de Aço em Laboratório


Para simular a concretagem subaquática com fibra de aço para vedação de fissura em barragem, foi feita uma simulação em Laboratório utilizando o equipamento mostrado no item 2. Foi preparado um corpo-de-prova prismático na pista experimental de CCR do Laboratório de Furnas que pode ser visualizada na seqüência de Figuras 3 a 8.


FIGURA 3: Furos ø de 76mm

FIGURA 4: Montagem da campânula







FIGURA 5: Base da campânula preenchida com argamassa

FIGURA 6: Topo do CP prismático preenchido com argamassa







FIGURA 7: Extração do microconcreto do substrato

FIGURA 8: Aspecto da aderência do microconcreto ao substrato

4. EXPERIÊNCIAS BRASILEIRAS DE CONCRETO SUBAQUÁTICO


4.1. Da Recuperação Subaquática da UHE Porto Colômbia
A recuperação das guias dos stop logs com concreto subaquático na UHE Porto Colômbia executada entre 3 de julho a 12 de setembro de 2000, já foi relatada em congressos [1;2;3].
Alguns pontos desta experiência merecem ser enfatizados:

A recuperação subaquática com mergulhadores, foi feita utilizando uma equipe de mergulhadores altamente experiente. A supervisão e a segurança dos mergulhadores foi feita em tempo integral, durante a execução.




  • Estudos de Laboratório

O concreto utilizado na recuperação foi dosado minuciosamente utilizando aditivos hiperplastificantes de última geração.




  • Lançamento do Concreto com Tremonha

A experiência demonstrou que uma profundidade de 20m, era possível lançar o concreto com tubulação de 10cm de diãmetro, transportando o concreto de superfície até a forma. Para a aludida demonstração foi decisiva a simulação levada a cabo na UHE Funil pelos signatários dos Trabalhos referenciados acima.




  • Lançamento do Concreto com Dispositivo Especial

O procedimento mais comum para o lançamento do concreto subaquático é lançar o concreto usando uma tremonha e um tubo de aço. Quando a profundidade é maior do que 20 m e o volume a ser recuperado é relativamente pequeno, como em guias de comportas, a coluna de concreto no tubo é maior do que aquela necessária para encher a forma do concreto a ser restaurado.


Quando a profundidade ultrapassou 20m, a velocidade do concreto ao atingir a forma e o volume necessário para o enchimento do reparo, ficava difícil de ser controlado.
Para resolver este problema, um dispositivo foi desenvolvido para transportar o concreto da superfície até o local de sua colocação. A Figura 9 mostra este dispositivo, construído durante as obras de reparos de Porto Colômbia.

FIGURA 9: Dispositivo Especial para Lançamento de Concreto

4.2. Impermeabilização da Barragem do Rio Descoberto
O trabalho [4], apresentado no 21º Congresso Internacional de Grandes Barragens, relata a experiência bem sucedida do tratamento da percolação na Barragem do Rio Descoberto, propriedade da CAESB de Brasília.
Este trabalho foi relatado também na revista TÉCHNE 66 em setembro de 2002.
Na recuperação desta barragem foi empregada uma parede diafragma, feita com furos secantes como mostra a Figura 10.
As Figuras 11 e 12 ilustram a execução da perfuração da parede diafragma.

FIGURA 10: Furos na Parede Diafragma









FIGURA 11: Gabarito para alinhamento usado na perfuração

FIGURA 12: Vista da Perfuração no Coroamento da Barragem

5. RECUPERAÇÃO A GRANDES PROFUNDIDADES


A recuperação a grandes profundidades revela-se altamente complexa, onerosa e difícil, devido ao alto grau de dificuldade de execução. No caso específico de guias de comporta existe a possibilidade de recuperação a seco, podendo-se recorrer a dois tipos de ensecamento.
O primeiro é o da utilização de comporta flutuante tipo Batel, que tem que ser apoiada no concreto da guia das grades. Além do alto risco de acidente, a vedação da comporta é altamente complexa.
A segunda alternativa para trabalhar a seco, seria a da utilização de uma campânula metálica de seção semi-circular, que teria que ser fixada no concreto de 1º estágio nos rasgos das comportas. Esta alternativa também é de difícil execução.
Resta a alternativa de se executar o reparo com mergulhadores. Os trabalhos bem sucedidos de recuperação das guias das comportas da UHE Porto Colômbia [1;2;3;7] encorajaram as pesquisas para a execução deste tipo de recuperação a grandes profundidades.
F. BLÁZQUEZ PRIETO [13] descreve a tecnologia para obras subaquáticas utilizando a tecnologia do mergulho saturado.
O método denominado “saturação” é baseado no fato de que chega uma hora em que o gás inerte não é mais assimilado. Então, o período de descompressão não aumenta, embora aumente a duração das condições de compressão; dessa forma, a tarefa pode consumir muito tempo, desde que os mergulhadores mantenham-se adequadamente pressurizados, seguindo esse método. Eles entram na câmara hiperbárica, onde são pressurizados à pressão equivalente à da profundidade de trabalho.
Os reparos duraram dois meses e foram extremamente complexos, pois foram realizados pelo método de mergulho saturado, com a profundidade da zona de trabalho de 80m, aproximadamente, em uma altitude de quase 900m acima do nível do mar. Os aspectos a serem levados em conta para reparos subaquáticos foram enfatizados por este autor:

Aspectos a serem considerados no projeto:




  • A importância de se possuir bastante informação sobre o trabalho e seus arredores;

  • A conveniência de se filmar ou fotografar as zonas;

  • As condições prévias devem estar estabelecidas, para serem aceitas no custo de reparos.

Aspectos a serem considerados no contrato:




  • A necessidade de se ter custos independentes para as diferentes operações;

  • A conveniência de se determinar os preços para período de espera;

  • A importância de incluir, no contrato, o trabalho final das obras.

Aspectos a serem considerados na execução das obras:




  • Se possível, é aconselhável adiantar ou adiar os trabalhos, de modo a ter o nível mínimo do reservatório como vantagem;

  • A necessidade da presença de alguém que se encarregue das obras, com capacidade e experiência suficientes para resolver quaisquer problemas que possam surgir durante as operações.

  • A importância de se ter um VOD (veículo operado a distância), para a supervisão do trabalho em tempo real.

Miachon et al [2;3] apresentam um lançamento de concreto muito bem sucedido para a restauração das guias de comportas da tomada d’água da Usina Hidrelétrica de Porto Colômbia, no Brasil.


O desenvolvimento de pesquisas avançadas em Laboratório, possibilitou o conhecimento das propriedades do concreto subaquático e de sua aderência ao substrato.
Na concretagem subaquática de uma guia, todo o trabalho de remoção do concreto deteriorado, preparação do substrato, execução da fôrma e seu preenchimento com concreto é feito por mergulhadores.
O transporte do concreto através do dispositivo mostrado na Figura 4, permite que se programe a concretagem como na técnica da tremie. A fôrma deverá ter válvula para receber o concreto pela sua extremidade inferior e uma tubulação na sua extremidade superior para remover o concreto excedente.
A utilização de técnicas de mergulho saturado, de alta tecnologia, aliada ao emprego de concreto com aditivos de última geração, conferem a esta alternativa, riscos menores do que as anteriores. O risco envolvido é o inerente ao mergulho de grande profundidade.


  1. RECUPERAÇÃO DE FISSURAS QUE ATRAVESSAM O CORPO DA BARRAGEM

A recuperação de fissuras quando há percolação de águas, por sua complexidade, exige a aplicação de técnicas especiais com minucioso planejamento. Quando a vazão de percolação é relativamente baixa ou com baixa pressão, o emprego de injeção de produtos químicos revela-se satisfatória para estancar a passagem da água. Quando a vazão e a pressão da água são altas, a solução para a vedação da percolação exige técnicas não convencionais, entre elas a colocação de geomembrana no paramento de montante. A colocação de geomembrana, se feita a seco, é uma técnica consagrada e de fácil execução, Se a colocação tiver que ser feita subaquática, há que se associar à colocação da membrana, técnicas de mergulho, inclusive o de mergulho com saturação.


A execução da cortina de vedação executada na Barragem do Rio Descoberto mostrou ser possível a impermeabilização do corpo da barragem através de uma cortina de concreto executada desde o coroamento até a rocha de fundação.
A execução de uma cortina de impermeabilização, é feita no corpo da barragem, a uma distância de 1,0m do paramento de montante. O rasgo para a cortina deverá ser feito a 1,5m de cada lado da fissura, para abranger com segurança a sua trajetória uma vez que ela não é vertical. A trajetória da fissura pode ser melhor avaliada pelos dois paramentos. A execução desta cortina, tem que ser feita associando a técnica de concreto submerso (tremie) e o emprego de micro-concreto ou argamassa de alto desempenho, com dosagem empregando aditivos de última geração de hiperplastificante e antidispersante subaquático, e fibra de aço.

7. CONCLUSÕES


As experiências bem sucedidas de recuperação das guias de comporta da UHE Porto Colômbia e da impermeabilização da Barragem do Rio Descoberto, mostraram que os resultados obtidos nestas obras, ao lado de pesquisas de laboratório, tornam viáveis e confiáveis a execução de obras subaquáticas.
O desafio de executar concretagem subaquática em situações inusuais, como em guias de comporta a grandes profundidades e a vedação de percolação em fissuras transpassantes no corpo da barragem, foi pesquisado em laboratório com resultados muito satisfatórios.
O lançamento do concreto subaquático com mergulho saturado, possibilita a recuperação de guias de comporta a grandes profundidades. O concreto lançado nestas condições terá qualidade garantida, conforme comprovado em estudos de laboratório.
No caso específico de vedação de fissuras com percolação intensa, a utilização de argamassa reforçada com fibra de aço em uma cortina de impermeabilização, com lançamento subaquático, através de tremonha (tremie), pode ser uma alternativa viável para estancar a percolação pelo corpo da barragem, executada a seco.

8. AGRADECIMENTOS


Queria manifestar meus agradecimentos a Furnas Centrais Elétricas pela oportunidade de viabilizar as pesquisas que comprovaram a possibilidade de utilizar ensaios de laboratório para lançamento do concreto subaquático.
Aproveito esta oportunidade para prestar uma homenagem póstuma ao grande Técnico Guilherme Leroy, companheiro de mais de três décadas de profícuos trabalhos no ramo de engenharia de barragens.
Ao meu amigo Élcio Antonio Guerra pela continuidade dos trabalhos do Guilherme Leroy e pelo seu inestimável empenho na realização destas importantes pesquisas para o concreto subaquático com fibra de aço.
No trabalho de digitação contei com a prestimosa colaboração de Vilmar Alves de Souza ao qual manifesto além do apreço meus agradecimentos.

9. PALAVRAS-CHAVE


Recuperação subaquática, microconcreto, fibra de aço, fissuras transpassantes

10. BIBLIOGRAFIA


[1] FARAGE DO NASCIMENTO J. F., MIACHON FILHO G., PACELLI DE ANDRADE W., ANDRADE C., MATOS C., (2001) - “Concreto Submerso do 2o Estágio das Guias dos Stop Logs na UHE Porto Colômbia”, 43O Congresso Brasileiro de Concreto, Foz do Iguaçu-PR.

[2] MIACHON FILHO G., GUERRA M., DIAS SOBRINHO C. A., FARAGE DO NASCIMENTO J. F., PACELLI DE ANDRADE W., ANDRADE C., MATOS C. G. – “Recuperação das Guias dos Stop-Logs da Tomada D'Água nas Unidades Geradoras 1 e 2 da UHE de Porto Colômbia”


[3] Miachon FILHO G., Sales Goz R., Dias SOBRINHO C. A., Bittencourt R. M., Pacelli de Andrade W. (2003) – “Underwater Concrete Restoration of the Water Inlet Stop Log Guides at Generation Units 1 and 2 of the Porto Colômbia Hydroelectric Plant”, 21st ICOLD Congress - Montréal.
[4] SOARES A. M., VIANA M., CORRÊA N. L. A., CORRÊA S. F., CORRÊA M. F., ANDRIOLO F. R. (2003) - “Rio Descoberto Dam: Water Supply System for Brasília City - Brazil – Rehabilitation and Performance”, 21st ICOLD Congress - Montréal.
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[9] KHAYAT K. H. (1995) – “Effect of Anti Washout Admixtures on Fresh Concrete Properties”, ACI Materials Journal, v.92, n.2, pág. 164-171.
[10] KHAYAT K. H. (1996) – “Effect of Antiwashout Admixtures on Properties of Hardened Concrete”, ACI Materials Journal, v.93, n.2, pág. 134-146.
[11] KHAYAT K. H.; YAHIA, A. (1997) – “Effect of Welan Gum-high-range Water Reducer Combinations on Rheology of Cement Grout - ACI Materials Journal, v.94, n.5, pág. 365-372.
[12] ANDRADE M. A. S., FONSECA A. C., GUERRA E. A. (2005) – “Microconcreto com Fibra de Aço para Recuperação de Fissuras” – XXVI SNGB – Goiânia.
[13] F. BLÁZQUEZ PRIETO, (2003) – “Algumas Experiências e Conclusões sobre Tarefas Subaquáticas para Reabilitação de Barragens”, 21st ICOLD Congress - Montréal.

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