Desafios do trabalho



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OS CAMINHOS

Os caminhos que temos pela frente envolvem indiscutivelmente uma transformação profunda das relações de trabalho em geral. O motor desta transformação é, sem dúvida, a tecnologia, que avança rapidamente. Mas os mecanismos reguladores da transformação, ou os novos pactos sociais que devem emergir, ainda engatinham. O descompasso gerado leva ao caos que enfrentamos. Hoje, resgatar a governabilidade do processo de mudança é essencial, e o desenho de novas políticas, de novos espaços de parcerias e de elaboração de consensos, ou de luta quando necessário, tornou-se muito mais importante do que construir um carro mais veloz, que trafegará na velocidade das carroças do início do século nas caóticas cidades que construímos.


A visão geral que aqui queremos descrever, é que a regulação social do trabalho tornou-se indispensável, mas não será suficiente. Quando a mudança é sistêmica, não basta nos concentrarmos num aspecto. Estamos enfrentando, na realidade, uma mudança da própria sociedade, e o estudo da mudança de trabalho precisará referir-se ao processo mais amplo de que faz parte.

Empregabilidade


Ninguém duvida que necessitamos de qualificação profissional. Mais do que isto, precisamos promover de forma generalizada a educação de base no país. Dos 93 milhões de pessoas economicamente ativas em 2004, 19,6 milhões não tinham nenhuma instrução ou até três anos, entrando portando no nível dos analfabetos funcionais. Mais 25 milhões tinham o ensino fundamental incompleto, até o 7º ano. Como ordem de grandeza, estamos entrando na sociedade do conhecimento com praticamente a metade da PEA sem sequer o ensino fundamental, e quase um quarto de analfabetismo funcional.
A dimensão deste problema deve ser ressaltada. Enquanto em 1868 o Japão se lançava na modernização, investindo prioritariamente em todas as formas possíveis de educação, exatamente um século mais tarde, no Brasil, declarava-se que o social viria depois: primeiro, teríamos que fazer crescer o bolo. É verdade que a nossa taxa de analfabetismo está baixando. É um consolo limitado, quando sabemos que o nível de educação exigido para uma inserção profissional adequada está se deslocando rapidamente para cima. É com a herança que vimos acima, que temos de organizar a nossa transição para a sociedade do conhecimento.
A opção política tem sido, até hoje, tornar os indivíduos responsáveis por sua empregabilidade. De certa forma, se não estão empregados adequadamente, ou simplesmente desempregados, a culpa seria a sua inadequação individual ao mercado do trabalho. Esta visão da empregabilidade tem limitações óbvias. Numa reunião que tivemos sobre o tema, na Assembléia Legislativa de São Paulo, um senhor se queixava que, sendo marceneiro desempregado, tinham lhe conseguido um curso de encanador. No curso, conheceu um encanador desempregado que estava aprendendo marcenaria. Na realidade, os problemas não são individuais.
Estudos de Helena Hirata mostram a que ponto os próprios avanços de anos de estudos na Europa se devem menos à necessidade de preencher postos de trabalho existentes, do que ao objetivo de reduzir a pressão do desemprego jovem, ao retardar a entrada no mercado de trabalho. Inclusive, o desemprego de diplomados já se manifesta de maneira bastante ampla.48
Foi-se o tempo em que seguíamos os passos profissionais dos nossos pais. Hoje, surgem profissões que só a nova geração conhece. Foi-se o tempo em que a vida era dividida numa cronologia clara, estudo primeiro, depois o trabalho e a aposentadoria. Toda pessoa hoje precisa periodicamente voltar a estudar, sob pena de se ver marginalizada, de não saber utilizar novos equipamentos que se desenvolvem em todos os setores. Nossas divisões tradicionais são cada vez menos funcionais.
Um exemplo de política inovadora pode ser visto no Grande ABC. Os prefeitos, reunidos no Consórcio do Grande ABC, adotaram uma política conjunta de dinamização das atividades econômicas, visando reduzir o impacto da emigração industrial. A forma como estão manejando a dinamização das atividades do setor dos plásticos é exemplar. Contrataram a Unicamp para elaborar um estudo conjunto de estratégia setorial. Trata-se de um setor de pequenas unidades produtivas, encaixadas entre duas áreas de gigantes, a petroquímica que fornece a matéria prima de um lado, e os hipermercados de outro. Sem forte organização própria, iriam sofrer a mesma sorte dos pequenos produtores de tabaco frente à Souza Cruz, ou dos pequenos produtores de tomate frente à Cica etc.
As sucessivas reuniões permitiram traçar o conjunto de iniciativas necessárias para dinamizar o setor. Foi feita uma parceria com a USP, resultando no Prumo, Programa de Unidades Moveis de apoio tecnológico. Para a requalificação dos trabalhadores foi feita uma parceria com o sindicato dos químicos, e a Fiesp entrou disponibilizando a Escola Mario Amato, de Diadema. As prefeituras asseguraram a formação de base através dos programas Mova e Seja de formação de jovens e adultos. Os próprios pequenos empresários passaram a organizar o seu sistema de compra, promoção e venda em conjunto, pois dificilmente um pequeno produtor isolado consegue vantagens comerciais sozinho.
A lógica do processo é que em vez de se assegurar um simples curso para trabalhadores individuais, partiu-se de uma compreensão mais ampla da dinâmica integral de um setor de atividades. E não adiantaria estar apenas formando mais gente, se o setor não consegue expandir o mercado, assimilar novas tecnologias e assim por diante. Entendeu-se que as cadeias produtivas funcionam como ciclos, tendo de desenvolver de maneira equilibrada e articulada o investimento, a renovação tecnológica, a formação da mão de obra, os controles de qualidade, a promoção, a comercialização. Não adianta modernizar um segmento apenas do processo produtivo, e esperar que surjam empregos. Trata-se de dinamizar processos produtivos, e neste processo mais amplo realmente a qualificação profissional torna-se útil.
Esta compreensão, por sua vez, exige uma outra visão das coisas, uma mudança de cultura política. A sinergia de um conjunto de atores sociais, no caso as empresas, os trabalhadores, os sindicatos, as prefeituras, as universidades, entidades de apoio como Sebrae, não vai resultar de uma convergência natural de planos elaborados separadamente. Cada ator deve entender em profundidade os interesses vitais dos outros atores, e procede-se a uma busca em conjunto das soluções que permitam uma elevação geral da produtividade dos esforços.
A cultura herdada por nossas classes dirigentes, com honrosas exceções, é de que se trata de extorquir o máximo de vantagens sempre, para vencer. Qualquer concessão é vista como porta aberta para outras concessões. Com isto, fecha-se as portas à construção de espaços convergentes de interesses, e ao maximizar a produtividade micro-econômica, reduz-se absurdamente a produtividade social.
Veja-se uma experiência concreta de política de emprego: o prefeito David Capistrano, em Santos, organizou um cadastro de desempregados, e organizou um amplo programa de recuperação das praias, envolvendo tanto o controle dos canais, como uma ampla operação de limpeza das praias, com recursos da própria prefeitura. Santos voltou a ser uma cidade atraente para o imenso mercado vizinho de turismo, São Paulo. O aumento de atividades hoteleiras e de restaurantes aumentou fortemente as receitas da prefeitura, mais do que pagando o que foi gasto com os desempregados. Santos reviveu, os comerciantes ganharam mais, os desempregados tiveram trabalho e renda, seus filhos tiveram melhores condições de desenvolvimento. Mas foi preciso ultrapassar a tradicional visão de uma política centrada em contratos com grandes empreiteiras, para realizar grandes obras que se inauguram em fins de mandato. A prefeitura, no caso, foi a articuladora de diversos interesses sociais para melhorar o funcionamento do que já existia.
Esta visão, no entanto, implica numa mudança de visão das coisas, numa mudança de cultura política. A empregabilidade é um processo social.



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