Desafios do trabalho



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Revisão do horizonte sindical


A transformação do horizonte sindical não poderia deixar de ser profunda. Uma razão importante, é o fato geral que as empresas sofreram um grande processo de concentração econômica, e que isto levou a uma grande expansão do poder empresarial. Do lado dos trabalhadores, pelo contrário, o que se vê é um processo de pulverização de unidades, de diversificação dos vínculos, de diferenciação dos níveis de inserção nos processos produtivos.
Gilberto Dupas resume bem este duplo movimento de concentração de um lado, e de fragmentação de outro: “De um lado, a enorme escala de investimentos necessários à liderança tecnológica de produtos e processos – e a necessidade de networks e mídias globais – continuará forçando um processo de concentração que habilitará como líderes das principais cadeias de produção apenas um conjunto restrito de algumas empresa gigantes mundiais.(...) Simultaneamente, este processo radical em busca da eficiência e conquista de mercados força a criação de uma onda de fragmentação – terceirizações, franquias e informalização – abrindo espaço para uma grande quantidade de empresas menores que alimentam a cadeia produtiva central com custos mais baixos. Tanto na sua tendência de concentrar como na de fragmentar, a competição opera como o motor seletivo desse processo”. 66
Um segundo elemento poderoso de modificação das relações de poder entre empresa e trabalhador é a redução do peso da grande unidade industrial tradicional, relativamente às atrividades extremamente diversificadas deste universo confuso e dinâmico que chamamos de serviços.67
Kuttner argumenta corretamente que as tecnologias em si não definem a priori nenhuma erosão dos salários e dos direitos dos trabalhadores: “A cadeia de causa e efeito parece ser mais complexa e indireta do que a simples associação de uma economia da informação com laissez-faire proposta por teóricos como Gilder. Uma visão mais convincente é que a globalização e a tecnologia da informação levaram à erosão do poder relativo dos dois grandes condutores da economia mista – trabalhadores organizados e o Estado – e aumentaram o poder da empresa de evadir-se dos contratos tácitos com seus empregados”.68
Se o núcleo do problema situa-se nos deslocamentos do poder, parece ser razoável considerar que a redução da jornada de trabalho, como a que foi implementada na França ou mais avançada, pode constituir um eixo estratégico de ação, ao elevar de forma generalizada a demanda de trabalhadores, alterando assim as relações de poder na sociedade.69 É bom lembrar que depois de prognósticos sinistros da área patronal, a França, ao aplicar as medidas de redução generalizada da jornada de trabalho, viveu uma forte redução do desemprego, além de uma dinamização econômica já que se abre espaço de expansão de novos setores econômicos ligados ao lazer, cultura e outros. É importante salientar também, que se trata de uma medida global de reorganização do trabalho que casa perfeitamente com as necessidades de evolução do perfil de produção da sociedade moderna.
A redução da jornada pode ser articulada com outro eixo fundamental de ação sindical, que é a participação na formulação de parcerias para promover a formação e qualificação generalizada dos trabalhadores. Vimos acima o exemplo da Câmara Setorial do Plástico, iniciativa de um grupo de prefeituras do Grande ABC, onde o sindicato dos químicos passou a articular uma parceria com os empresários, as prefeituras, as universidades e outras instituições para requalificar os trabalhadores da região. Trabalhar menos e com mais qualidade, poderia ser um eixo de investimento das atividades sindicais que reforçaria a proposta de redução da jornada, e reforçaria os trabalhadores frente à flexibilização.
Um terceiro eixo de reorientação sindical consiste em reduzir a visão setorial (metalúrgicos, químicos etc.) e expandir a articulação intersetorial por cidades. Como vimos acima, o processo de urbanização mudou o lugar da política, deslocando-o para as cidades, tal como o processo de globalização deslocou outros segmentos de poder para a esfera planetária. Parece essencial tomar por base uma cidade, ou uma região conurbada com identidade própria, fazer o levantamento dos recursos locais sub-utilizados, e organizar programas de desenvolvimento local visando a plena utilização dos recursos humanos existentes. Parece surrealista haver tanta gente desempregada em periferias miseráveis, enquanto existe tanta terra sub-utilizada no “cinturão verde” das cidades, e tantas frentes de trabalho como saneamento, habitação e outras. Mas isto exige uma revisão do corporativismo existente entre sindicatos de “categorias”, e a construção de uma visão de estratégia local de desenvolvimento integrado.
Uma linha de ação a ser considerada, é de uma eventual reorientação da quantidade de fundos que foram se constituindo no país, de amparo, de garantia, de apoio à agricultura familiar e dezenas de outros, que geram políticas de apoio fragmentadas, e que poderiam ser articuladas para financiar políticas integradas de desenvolvimento local, em torno das dinâmicas sociais e de infraestruturas dramaticamente necessárias no país. De certa maneira, seria o caso de se analisar o tipo de alavanca que o conjunto destes fundos dispersos poderiam constituir para uma política ampla de reequilibramento social no país.70
Finalmente, um eixo de reorientação que nos parece essencial, e que está diretamente ligado aos anteriores, é de se considerar, nos sindicatos, o conjunto do mundo do trabalho, reduzindo a prioridade às vezes absoluta à luta dos que estão empregados. Dinamizar a identificação do desemprego, do sub-emprego, do desnível salarial da mão-de-obra feminina, da situação dos aposentados, é essencial para que possam surgir propostas integradas de melhoria das condições. Este ponto é particularmente importante, pois hoje, com a fragmentação do trabalho, organizar-se por setor ou por tipo de empresa já não é suficiente. O mundo sindical deve trazer propostas mais amplas.71




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