Desejo proibido craving the forbidden



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DESEJO PROIBIDO

CRAVING THE FORBIDDEN



India Grey

Sofisticação e sensualidade em cenários internacionais.

Seria ele o irmão errado?

Invadindo o vagão de primeira classe não era o modo como Sophie Greenham havia imaginado encontrar Kit Fitzroy, um rico aristocrata, destemido herói do Exército e irmão de Jasper, seu amigo. O calor escaldante entre os dois provocava sensações indesejadas. Especialmente porque ela teria de fingir ser a namorada de Jasper durante o fim de semana! Embora a bravura de Kit fosse lendária, ele não estava feliz por ter de retornar à mansão de sua família. Mas a energia de Sophie era capaz de dissipar as trevas dentro da alma dele, provocando um forte desejo pela mulher que jamais poderia tocar!



Uma família aristocrática marcada por segredos chocantes que precisam ser calados com muita sedução.



Digitalização: Projeto Revisoras

Revisão: Simone Chagas


CONTO HARLEQUINDE PRESENTE!

Cartas de amor, de Barbara McMahon

Stacey se surpreende ao encontrar seu marido... que a abandonara 7 anos atrás!

PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V./S.à.r.l.

Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, b armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte.

Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.


Título original: CRAVING THE FORBIDDEN

Copyright O 2011 by India Grey

Originalmente publicado em 2011 por Mills & Boon Modern Romance
Título original: LOVE LETTERS

Copyright © 2004 by Harlequin Books S.A.

Originalmente publicado em 2004 por Harlequin Internet Titles

Arte-final de capa: Isabelle Paiva

Editoração Eletrônica:

ABREU'S SYSTEM

TeL: (55 XX 21) 2220-3654 / 2524-8037

Impressão:

RR DONNELLEY

TeL: (55 XX 11) 2148-3500



www.rrdonnelley.com.br

Distribuição exclusiva para bancas de jornais e revistas de todo o Brasil:

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Aos cuidados de Virgínia Rivera



Virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

CAPÍTULO UM
— Senhoras e senhores, bem-vindos a bordo do East Coast Main line, das 4h22, de Kings Cròss para Edimburgo...

O coração disparado devido à louca corrida pela plataforma, carregando uma velha mala, Sophie Greenham se encostou à parede interna do trem e deixou escapar um longo suspiro de alívio. Conseguira.

É claro, o alívio talvez fosse prematuro, já que viera diretamente da sessão de casting para um filme de vampiro e ainda estava usando um vestido negro de cetim que mal lhe cobria o traseiro e botas negras de salto alto.

Mas o principal é que havia conseguido pegar o trem e não falharia com Jasper. Apenas precisava ficar com o casaco para não ser presa por atentado ao pudor.

Não que o tiraria de qualquer maneira, pensou. Havia semanas que a neve caía sem parar, e as manchetes dos jornais se referiam ao clima como "O Grande Congelamento". Paris tinha sido tão ruim como Londres, e, quando Sophie saíra de seu pequeno apartamento alugado dois dias antes, havia uma camada grossa de gelo do lado de dentro das janelas. Parecia que estava sentindo frio havia muito, muito tempo.

Escurecia, e as luzes dos prédios de escritórios que margeavam a linha férrea iluminavam a neve. O trem fez um movimento brusco ao trocar de trilho, e ela se desequilibrou sobre os saltos estúpidos das botas. Precisava encontrar um banheiro e se trocar, mas agora que finalmente parara de correr, o cansaço a tomava de forma avassaladora. Pegou a mala e a empurrou desajeitamente para o vagão da frente, já que aquele estava lotado.

Quando conseguiu, desanimou. Todos os assentos estavam ocupados, e o corredor central estava lotado com uma montanha de malas e sacolas de compras e casacos de inverno. Com pedidos de licença, continuou até o vagão seguinte, que estava tão lotado quanto os dois anteriores. Finalmente, chegou ao quarto e percebeu que estava menos lotado.

Os ombros doloridos relaxaram de alívio e então ficaram tensos de novo quando viu o tapete de luxo, as pequenas luzes sobre as mesas junto às poltronas com seus estofados de qualidade superior, tudo dizendo "Primeira Classe".

Droga.

Os passageiros eram principalmente homens de negócios, que não ergueram os olhos dos jornais que liam ou dos laptops em que trabalhavam enquanto passava por eles. Até seu celular tocar um trecho de Je Ne Regrette Rien... Que parecera engraçado e irônico em Paris, mas, na carruagem silenciosa, perdia todo o charme.



Segurou as duas alças da mala numa das mãos e o procurou no bolso do casaco com a outra mão, tentando, ao mesmo tempo, mantê-lo fechado. Percebeu as cabeças se virando e os olhos observando-a acima dos óculos e por trás das telas dos notebooks. Desesperada, jogou a mala sobre a mesa mais próxima, tirou o telefone do bolso e viu o nome de Jean-Claude na tela.

Droga de novo.

Dois meses antes, teria uma reação muito diferente, pensou enquanto pressionava o botão para rejeitar a chamada. Mas então, dois meses antes, a imagem de Jean-Claude como um artístico espírito livre de Paris ainda estava intacta.

Parecia tão distante quando o vira pela prmeira vez, entregando pinturas no set do filme em que atuava. Distante e glamouroso, não alguém que ela imaginaria ser sufocante ou possessivo ou... Não, não pensaria no desastre que fora sua última aventura romântica.

Sentou-se na poltrona mais próxima, subitamente cansada demais para continuar. Não se pode fugir para sempre, disse a si mesma com humor negro. Na poltrona em frente à dela, havia outro homem de negócios, escondido atrás de um jornal que havia dobrado, com a seção de horóscopos voltada para ela.

Na verdade, não estava completamente escondido; podia ver suas mãos segurando o jornal... Mãos bronzeadas, com dedos longos e fortes. Não as mãos de um homem de negócios, pensou, distraída, afastando o olhar delas e procurando Libra.

"Esforce-se para causar uma boa impressão", leu. "A lua cheia no dia 20 é a oportunidade perfeita para deixar que os outros vejam como realmente é."

Inferno, aquele era o dia 20. E, embora estivesse preparada para atuar como se fosse candidata a um Oscar para impressionar a família de Jasper, a última coisa que queria era que descobrissem quem realmente era.

Naquele momento, a canção de Edith Piaf tocou de novo. Ela gemeu... Por que Jean-Claude não conseguia entender um não? Tirou o celular do bolso de novo para desligá-lo, mas, naquele momento, o trem balançou de novo, e o dedo dela apertou acidentalmente o botão "responder". Um segundo depois a voz de Jean-Claude se tornou claramente audível, para ela e mais quinze homens de negócios.

— Sophie? Sophie, onde você está?

Pensou rapidamente e o cortou antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa.

— Alô, aqui é o serviço de voz para madame Sofía, astróloga e leitora de cartas — sussurrou, fixando os olhos no próprio reflexo do vidro da janela. — Se deixar seu nome, número e signo do zodíaco, retornarei com informações sobre o que o destino reserva para você...

Parou abruptamente. Um choque elétrico a abalou ao perceber que olhava diretamente nos olhos refletidos do homem sentado diante dela. Ou melhor, ele olhava diretamente nos olhos dela por trás do jornal. E, por um segundo, não pode fazer nada a não ser retribuir o olhar.

Contra o branco impecável da camisa, a pele dele era bronzeada, o que parecia não combinar com o rosto severo, ascético. Era o rosto de um cavalheiro medieval numa pintura pré-rafaelita... Belo e remoto.

Em outras palavras, nem um pouco o tipo dela.

— Sophie... é você? Não consigo ouvi-la. Está no Eurostar? Me diga a que horas vai chegar, e eu a encontrarei na Gare du Nord.

Ops, esquecera de Jean-Claude. Controlou-se, conseguiu tirar os olhos do reflexo no vidro e voltar a atenção para o telefonema. Melhor abrir logo o jogo, ou ele ficaria ligando durante todo o fim de semana que passaria com a família de Jasper, o que arruinaria sua imagem da doce e apaixonada namorada.

— Não estou no Eurostar e não voltarei esta noite.

Alors, quando? — Exigiu — A pintura... Preciso de você aqui. Preciso ver sua pele, senti-la, capturar o contraste com as pétalas dos lírios.

"Nua com Lírios" era a visão que Jean-Claude alegara ter lhe surgido na mente a primeira vez em que a vira num bar em Marais, perto da locação do filme. Jasper estivera lá naquele fim de semana e achara a idéia hilária, mas Sophie, totalmente lisonjeada por ter sido escolhida e pelos elogios extravagantes de Jean-Claude sobre sua "pele como pétalas" e "cabelos como chamas", pensara que ser pintada seria uma experiência extremamente erótica.

A realidade, porém, se mostrara entediante e fria. Mas, se o olhar de Jean-Claude tivesse lhe despertado uma reação semelhante à provocada pelos olhos do homem no vidro, a história teria sido muito diferente.

— Ah, céus, talvez você possa apenas pintar mais alguns lírios para cobrir a pele? — Engoliu uma risada. — Escute, não sei quando voltarei, mas o que tivemos não era para ser para sempre, era? Foi apenas sexo.

Naquele ponto, o trem entrou num túnel, e o sinal foi perdido. Contra a escuridão do lado de fora, o reflexo do interior do vagão na janela ficou muito claro, e, por um breve instante, Sophie viu os olhos do homem sentado em frente e soube que estava olhando para ela de novo. Não conseguiu perceber a expressão do rosto, mas os olhos não deixaram dúvidas de que a desaprovava.

E, naquela fração de segundo, tinha novamente oito anos de idade, segurava a mão da mãe e sabia que as pessoas as encaravam, julgando-as. Sentiu de novo a humilhação enquanto ouvia a voz da mãe, estridente de indignação. Apenas os ignore, Summer, temos tanto direito de estar aqui como qualquer pessoa...

— Sophie?

— Sim, desculpe, Jean-Claude, não posso falar sobre isto agora. Estou no trem, e o sinal não está bom.

D 'accord. Ligo mais tarde.

— Não! Não pode me ligar de jeito nenhum neste fim de semana. Estou... trabalhando e você sabe que não posso levar meu celular para o set de filmagem. Escute, eu lhe telefonarei quando voltar para Londres na segunda-feira, e então conversaremos.

Aquilo era estupidez, pensou cansada enquanto desligava o celular. Não havia nada para conversar, o que ela e Jean-Claude partilharam fora apenas uma diversão, uma aventura romântica em Paris no inverno. Agora acabara naturalmente e era hora de seguir em frente.

De novo.


Jogou o celular no bolso e se virou para a janela. Nevava de novo e, enquanto passavam por uma cidade desconhecida, imaginou as pessoas que moravam nas fileiras de casas; famílias sentadas juntas em sofás e poltronas diante da televisão, brigando pelo controle remoto, casais abraçados partilhando uma garrafa de vinho....

Uma onda de depressão a tomou diante das imagens mentais de domesticidade confortável, principalmente agora. Ao voltar de Paris, descobrira que, em sua ausência, o namorado de sua colega de apartamento havia se mudado para lá. O ambiente boêmio que ela e Jess haviam partilhado desaparecera. Tudo era muito bem arrumado, havia novos sofás e flores na mesa da cozinha.

O telefonema de Jasper, pedindo-lhe que fosse até a casa da família em Northumberland para fingir que era a namorada dele durante o fim de semana, chegara como um grande alívio. Mas era assim que acontecia, pensou, desolada, todos se transformando em casais até que apenas ela ficasse sozinha, a única que não queria um relacionamento ou compromisso.

Até Jasper mostrava sinais de que trocaria as farras por noites tranqüilas em casa à medida que as coisas entre ele e Sérgio se tornavam sérias. Mas por que precisavam ser sérias quando as pessoas podiam se divertir?

Levantou-se abruptamente, pegou a mala e tentou guardá-la na prateleira acima. Não era fácil e, enquanto empurrava, se tomou consciente de que não apenas o vestido odioso subia, mas que seu casaco se abrira, sem dúvida proporcionando ao homem no assento em frente uma visão total do vestido justo e de uma quantidade indecente de coxas. Completamente envergonhada, olhou para o reflexo dele na janela.

Não estava olhando para ela, lia o jornal com o rosto vazio e remoto. De alguma forma, sua indiferença foi pior do que o olhar desaprovador de antes. Fechando o casaco, ela se sentou, e, sem querer, seu joelho esbarrou na coxa dele debaixo da mesa. Ela congelou ao sentir a atração imediata.

— Desculpe — resmungou, afastando as pernas e dobrando-as sob o próprio corpo.

O jornal foi descido lentamente, e ela se viu olhando diretamente para ele pela primeira vez. O impacto de lhe encontrar o olhar na vidraça tinha sido bem poderoso, mas olhar diretamente para ele foi como tocar um fio elétrico desencapado.

Não eram castanhos, mas cinza escuro dos frios mares do Norte, com as pálpebras pesadas e cílios espessos e escuros, tão atraentes que esqueceu o resto do rosto. Até ele sorrir. Um sorriso leve que não derreteu o gelo do olhar, mas que lhe chamou a atenção para sua boca...

— Sem problema. Para a primeira classe, deveria haver mais espaço para as pernas, não acha? ,

A voz era baixa, rouca e sexy, mas a forma ligeiramente irônica com que enfatizara as palavras "primeira classe" e o modo como a olhava com se fosse um verme que subitamente surgira na salado do chef em algum restaurante de luxo eliminaram qualquer atração física. Não gostava de pessoas que a olhavam daquele jeito.

— Certamente — concordou com uma pose de membro da classe alta. — Na verdade, é chocante. — E então, com o que esperava que fosse total tranqüilidade, virou a lapela do casaco velho e de estilo militar, instalou-se mais confortavelmente na poltrona e fechou os olhos.


Kit Fitzroy abaixou o jornal. Quando estava de licença, evitava ler reportagens sobre as situações que deixara para trás. De alguma forma, o calor, a areia e o desespero jamais eram transmitidos pelas colunas. Comprara o jornal para ficar a par de coisas normais, como resultados de jogos de rugby ou notícias sobre corridas de cavalos, mas acabara lendo tudo na tentativa de apagar a imagem da garota sentada diante dele, que parecia ter penetrado o seu cérebro. Não funcionara. Nada o impedira de se sentir muito consciente dela.

Não era de se surpreender, pensou, irritado. Passara os quatro últimos meses no deserto com um batalhão formado apenas por homens e era humano o bastante para reagir a uma garota usando botas com saltos stiletto e o menor dos vestidos sob um falso casaco do exército. Especialmente quando tinha uma voz rouca de cantora de boate, que informava ao idiota do outro lado da linha telefônica que tudo o que quisera tinha sido sexo casual.

Depois da sombria cerimônia de que acabara de participar, a aparência dela era como uma injeção de alguma coisa muito poderosa. Suprimiu um sorriso. Poderosa, embora não particularmente sofisticada.

Deixou o olhar percorrê-la. Adormecera tão rápido e delicadamente como uma gata, as pernas dobradas debaixo do corpo, um leve sorriso nos lábios rosados, como se estivesse sonhando com alguma coisa divertida. Tinha uma sombra preta nas pálpebras, erguendo-se em direção às sobrancelhas, o que devia ter lhe dado aquela aparência felina.

Franziu as sobrancelhas. Não... Não era apenas isso, era também aquele verde impressionante dos olhos dela. Lembrava-se perfeitamente do tom... O verde claro e frio de folhas novas. Embora não pudesse vê-los agora, quando estava dormindo... Se é que estava dormindo.

O radar de Kit Fitzroy era muito preciso para descobrir fraudes, e esta garota o acendera assim que aparecera. Mas havia alguma coisa sobre ela, naquele instante, que o convencia que não estava fingindo. Não era apenas a imobilidade; a energia que exalava dela havia desaparecido, como o sol se pondo e deixando apenas sombras e frio.

Sono... A recompensa dos inocentes. Dada a maneira como acabara de falar com o namorado, não parecia justo. Mas parecia embrulhada num cobertor de serenidade, e apenas olhar para ela, e para o cacho de cabelo de uma brilhante cor de cobre que lhe cobrira o rosto, o tornava consciente da dor de exaustão em seus ombros.

— Passagens, por favor.

Todos os passageiros despertaram do torpor da viagem e começaram a procurar as passagens. Mas as pálpebras da garota nem mesmo se mexeram. Era mais velha do que pensara a princípio, constatou Kit, mais velha do que a adolescente que a roupa ridícula sugeria. Talvez 25 anos? Mesmo assim, havia alguma coisa curiosamente infantil nela, pelo menos se ignorasse os montes cremosos contra o corpete rendado do vestido. E estava fazendo o melhor que podia para ignorá-los.

O guarda chegou até eles, a expressão vazia se transformando em desconforto quando olhou para baixo e a viu. Estendeu uma das mãos incertas para acordá-la.

Não. — De onde tirara aquela idéia? — Está tudo bem, ela está comigo.

Desculpe, senhor, não tinha percebido. Está com suas passagens?

— Não — Kit abriu a carteira — Eu... Nós... tínhamos planejado viajar para o Norte de avião.

— Ah, compreendo, senhor. Só de ida ou ida e volta?

— Ida e volta — esperava que os aeroportos estivessem abertos no domingo, mas não se arriscaria. A idéia de ficar preso indefinidamente em Alnburgh com sua família era insuportável.

— Dois ida e volta... para Edimburgo?

Kit acenou distraído e, enquanto o guarda cuidava das passagens, olhou para a garota adormecida. Sabia que não tinha uma passagem de primeira classe nem dinheiro, apesar do sotaque de classe alta quase convincente.

Então por que simplesmente não deixara o guarda acordá-la e levá-la para a segunda classe? Isso tornaria o resto da viagem mais confortável para ele, teria mais tranqüilidade, mais espaço para as pernas. Kit Fitzroy acreditava que tinha o dever de cuidar de pessoas menos privilegiadas do que ele, mas geralmente não o induzia a comprar passagens de primeira classe para estranhos num trem. E, de qualquer maneira, aquela garota parecia muito capaz de cuidar de si mesma. Mas, com suas roupas escandalosas, seu cabelo de fogo e o ligeiro ar de moleca, ela tornara sua viagem mais brilhante. Tirara-o da depressão causada pela cerimônia que acabara de assistir, além de lhe fornecer uma distração dos pensamentos sobre o horrível fim de semana que passaria.

Isto tudo valia bem o preço de uma passagem de primeira classe de Londres para Edimburgo. Mesmo sem a visão do vale entre os seios e o roçar de pernas que o lembravam que, embora muitos dos homens com quem servia não tivessem tido sua sorte, pelo menos ainda estava vivo...

Aquilo tinha sido apenas um bônus.



CAPÍTULO DOIS

Sophie acordou assustada e com a terrível sensação de que alguma coisa estava errada. Sentou-se, piscando sob as luzes fortes, enquanto tentava se situar. A poltrona diante dela estava vazia. O homem de olhos prateados devia ter saído enquanto ela dormia, e estava se perguntando por que diabos se sentia desapontada. Então o viu.

Estava em pé, de costas para ela, tirando uma mala de couro de aparência cara da prateleira de bagagem, dando-lhe uma excelente vista de ombros muito largos e quadris estreitos vestidos em calça preta feita sob medida.

Humm... Aquele era o motivo, pensou sonolenta. Não via todos os dias uma perfeição física como aquela. E, embora viesse num pacote que continha também grande arrogância, certamente era bom de olhar.

— Com licença... Pode me dizer onde estamos, por favor?

Maldição... Esquecera de usar o sotaque elegante. Não que isto importasse, já que nunca mais o veria.

Ele deu de ombros.

— Alnburgh.

A palavra despertou o cérebro adormecido de Sophie com um choque. Praguejando, levantou-se e começou a pegar a mala. Naquele momento, o trem parou de repente, ela perdeu o equilíbrio e caiu diretamente nos braços dele.

Pelo menos, era assim que as coisas aconteciam em qualquer um dos filmes românticos em que atuara. Na verdade, ela não caiu nos braços que a esperavam ansiosos, mas contra o peito rijo. Ele a segurou antes que ricocheteasse, e um braço lhe circulou a cintura como uma faixa de aço. Tentando se equilibrar, Sophie colocou a mão aberta contra o peito dele.

O reconhecimento sexual despertou em sua pélvis. Ele podia parecer magro, mas não havia dúvida sobre os músculos rijos e esculturais sob a camisa Savile Row. Ergueu os olhos arregalados de choque para ele, a boca se abrindo para pedir desculpas. Mas seu cérebro se tornou um vazio, e o único pensamento coerente foi como eram assombrosos os olhos dele, tão perto. O brilho prateado das íris, cercadas por um cinza mais escuro.

— Preciso descer agora — gaguejou.

Não era exatamente a fala de um épico romântico. Ele a soltou de repente e virou a cabeça.

— Está tudo bem, ainda não estamos na estação. Enquanto ele falava, o trem se moveu para a frente, e ela quase perdeu o equilíbrio de novo enquanto tentava puxar a mala cheia da prateleira. Olhou pela janela e, um pouco à frente, viu o nome "Alnburgh" meio encoberto pela neve. Deu outro puxão inútil e ouviu um som impaciente atrás dela.

— Eu tiro.

Num movimento ágil, ele se debruçou sobre ela e pegou a alça da mala.

— Não, espere... O zíper... — Mas era tarde demais. Houve o som de alguma coisa se rasgando, o zíper barato se abriu, e Sophie observou, com um horror gelado, enquanto uma massa de vestidos, meias e sapatos caíram. E lingerie, é claro.

Foi horrível, tenebroso, mas também muito engraçado. Sophie cobriu a boca com uma das mãos, mas não conseguiu impedir que uma risada meio histérica lhe escapasse.

— Você pode levar isto de volta à loja — observou o homem com sarcasmo enquanto estendia a mão para soltar um sutiã verde esmeralda de cetim que ficara preso na prateleira de bagagem. — Sei que malas Gucci têm uma garantia permanente.

Sophie se ajoelhou para recuperar o resto de suas coisas. Possivelmente, mas falsificações certamente não tinham, como ele devia saber muito bem. Enquanto se levantava, observou a extensão das pernas dele e precisou se controlar para se impedir de estender a mão e se segurar nelas enquanto o trem finalmente parava na estação.

— Obrigada pela ajuda — usou toda a altivez possível com os braços cheios de meias e calcinhas. — Por favor, não me deixe atrasá-lo ainda mais.

— Não deixaria, mas você está bloqueando a passagem para a porta.

Sophie sentiu o rosto em chamas e, pressionando-se o mais que pôde contra a mesa, tentou abrir espaço para ele passar. Mas ele apenas segurou uma das alças da mala rasgada e ergueu-a com facilidade, ao mesmo tempo em que levantava uma sobrancelha sardônica.

— Depois de você... Já pegou tudo?

A estação de Alnburgh consistia de um só edifício vitoriano que, no passado, devia ter sido lindo. Estava nevando de novo quando Sophie desceu do trem e o ar parecia vir diretamente da Sibéria. Devia ter mudado de roupa. Não só parecia totalmente inadequado para encontrar a família de Jasper como provavelmente lhe causaria uma hipotermia.

— Escute, vai ficar bem a partir daqui.

Sophie foi obrigada a olhar para ele.

— S... Sim, obrigada mesmo...

— Pelo quê?

— Ah, você sabe, por carregar minha mala e me ajudar a pegar minhas... coisas.

— Foi um prazer.

Os olhos se encontraram e se prenderam por um momento. E, a despeito do frio que lhe cortava a pele, Sophie sentiu uma onda de calor se espalhar pelo corpo. Então o momento terminou, e ele começou a se virar exatamente quando o guarda apitou para o trem sair.

E isto lembrou a ela que não havia comprado a passagem. Com um grito e um palavrão, Sophie correu em direção ao guarda, que estava com a cabeça para fora de um dos vagões.

— Não... Espere... Por favor! Eu não...

Mas já era tarde demais. O trem ganhava velocidade e a voz dela se perdeu sob os sons pesados do motor e dos guinchos das rodas de metal sobre os trilhos. Enquanto observava o trem se afastar na escuridão, o coração de Sophie batia com força diante do que havia feito sem querer: roubado alguma coisa. Porque viajar sem comprar uma passagem era um ato criminoso e desonesto, um roubo. E isso era uma coisa que jamais faria.

O som do trem desapareceu na distância, e Sophie se conscientizou do silêncio em torno dela. Voltou-se lentamente para pegar sua bagagem.

— Algum problema?

E tudo piorou. O "capitão Desaprovação" devia tê-la ouvido gritar e pensara que estava falando com ele. Olhou-a em meio às sombras da estação, o que o fazia parecer mais remoto do que nunca.

— Não, não, nada — disse rija —, mas, antes de ir embora, talvez possa me dizer onde encontro um táxi.

Kit não conseguiu se impedir de dar uma risada. Não era gentil, mas a idéia de um táxi esperando na estação Alnburgh era absurda.

— Você não está em Londres agora. — Olhou pela plataforma, para onde o Bentley esperava, com Jensen sentado, impassível, atrás do volante. Por algum motivo, sentiu-se responsável... quase comovido... por esta garota em sua roupa escandalosa, com os flocos de neve se acumulando nos cabelos brilhantes. — Escute, talvez seja melhor você vir comigo.

O queixo se ergueu dois centímetros, os olhos brilharam à luz da estação... O mesmo verde do vitral da capela da família Fitzroy quando iluminado pela luz do sol.

— Não, obrigada — havia uma cortesia fria no tom de voz. — Acho que prefiro andar.

Realmente era engraçado.

— Com estas botas?

— Sim — e começou a andar pela plataforma congelada. Olhou em torno e apertou mais o longo casaco contra o corpo.

Kit a alcançou.

— Não me diga que vai se juntar ao seu regimento.

— Não — a resposta agora era furiosa. — Vou ficar com meu namorado, que vive no castelo Alnburgh. Se puder me indicar a direção certa...

Kit parou. A risada de um momento atrás desapareceu.

— E qual é o nome do seu... namorado?

Alguma coisa no tom da voz dele a fez parar também e se virar.

— Jasper — A voz era trêmula e desafiadora. — Jasper Fitzroy, embora isso não seja da sua conta.

Kit sorriu de novo, mas desta vez não havia divertimento nos olhos dele.

— Bem, já que Jasper Fitzroy é meu irmão, diria que é muito da minha conta — A suavidade da voz era sinistra. — É melhor você entrar no carro.



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