Desenvolvimento diferenciado no noroeste gaúcho subproduto elaborado a partir de estudos realizados para a produção da Tese de Doutoramento junto ao Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da pucrs



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DESENVOLVIMENTO DIFERENCIADO NO NOROESTE GAÚCHO
Edemar Rotta

Carlos Nelson dos Reis



Resumo

Este artigo analisa o desenvolvimento diferenciado das microrregiões do Noroeste gaúcho na década de 1990. Entende-se que esta região experimentou, a partir do final da década de 1980, uma grave crise do modelo da modernização da agricultura e foi forçada a redefinir sua forma de inserção na economia estadual, nacional e internacional. Nesta redefinição foram essenciais algumas opções feitas pelos municípios de Cruz Alta, Santo Ângelo, Ijuí e Santa Rosa, que funcionam como pólos microrregionais. Entre as opções, este estudo se detém naquelas relacionadas às políticas sociais (educação, saúde, habitação, assistência social e trabalho), pois entende que as mesmas foram essenciais para redefinir as perspectivas de desenvolvimento para os referidos municípios e para a região como um todo. A referência empírica centrou-se nos Planos Plurianuais e nas execuções orçamentárias dos referidos municípios durante a década. Na análise dos dados buscou-se estabelecer possíveis relações entre as opções feitas e os investimentos realizados com resultados obtidos nos indicadores de desenvolvimento, em especial no Índice de Desenvolvimento Socioeconômico (IDESE) e no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M).


Palavras chave: desenvolvimento diferenciado, políticas sociais, noroeste gaúcho.
Considerações iniciais

A preocupação em compreender as razões do desenvolvimento diferenciado das nações e de sociedades específicas acompanhou a própria constituição e afirmação das ciências sociais. Porém, em nenhuma fase da sua história recente esta temática tem despertado o interesse de tantos pesquisadores quanto no momento atual. A crise dos dois modelos hegemônicos de desenvolvimento do pós 2ª Guerra Mundial e o conseqüente processo de reestruturação do capitalismo têm desencadeado um intenso embate em torno de explicações para a realidade e projeções para o futuro das diferentes sociedades.

A retomada das principais teorias construídas ao longo da trajetória das ciências sociais para explicar o desenvolvimento diferenciado das sociedades se faz necessária para possibilitar a elaboração de novas abordagens capazes de compreender o momento presente e produzir novas interpretações. Nesta reflexão, tem crescido a importância que se atribui às políticas sociais na dinâmica de desenvolvimento das diferentes sociedades.

Este artigo se propõe a fazer uma reflexão sobre o desenvolvimento diferenciado do Noroeste gaúcho, considerando as abordagens teóricas existentes e a realidade prática vivenciada nesta região. Dá atenção especial à reflexão sobre o desenvolvimento a partir do enfoque regional e da importância das políticas sociais na dinâmica de desenvolvimento de uma sociedade.

Para tanto, inicia com uma reflexão a respeito do desenvolvimento, com especial atenção ao regional. Sendo assim, na perspectiva deste, procura demonstrar as abordagens que destacam o protagonismo dos atores locais e a relevância das políticas sociais. Na seqüência se faz uma análise das políticas sociais de educação, saúde, habitação, assistência social e trabalho, implementadas nos municípios pólo (Cruz Alta, Santo Ângelo, Ijuí e Santa Rosa) da região Noroeste do Rio Grande do Sul, tendo como referência o estudo dos seus Planos Plurianuais, projetados e executados na década de 1990, e as suas execuções orçamentárias na referida década.

As prioridades e investimentos realizados são comparados aos resultados obtidos nos indicadores oficiais de desenvolvimento, IDH-M1 e IDESE2, no sentido de perceber se as mesmas traduziram-se em resultados concretos na promoção do desenvolvimento. O estudo comparativo entre os municípios permite situar diferenças e semelhanças no estabelecimento de prioridades e na destinação de recursos em seus orçamentos. Também permite visualizar os resultados diferenciados apresentados nos diversos aspectos que compõem os indicadores de desenvolvimento utilizados pelo IDESE e pelo IDH-M.

Como se observou municípios pólo, pode-se inferir daí que sua influência tenha se propagado para os que gravitam em seu entorno, atingindo, assim, as quatro microrregiões do Noroeste gaúcho (Alto Jacuí, Missões, Noroeste Colonial e Fronteira Noroeste) e definindo perfis diversos em seu “modelo” de desenvolvimento.
1 A abordagem do desenvolvimento a partir do regional

O tratado de Alfred Marshall3, Princípios de economia, publicado em 1890, sobre os distritos industriais ingleses é reconhecido como o primeiro estudo clássico sobre desenvolvimento regional. Ele procura explicar as causas que levam a localização das indústrias em alguns espaços específicos que ele atribui a denominação de ‘distritos industriais’. Esses distritos industriais constituiriam processos de aglomeração econômica que os punham em vantagem em relação a outras regiões.

Praticamente na mesma época, no final do século XIX, Lênin, ao estudar a situação da Rússia constata que o capitalismo desenvolvia-se de forma desigual. Ele reproduzia-se intensamente num espaço limitado, o seu centro, e extensivamente no amplo espaço de sua dominação, a sua periferia. Esse descompasso é da essência do Modo de Produção Capitalista, pois a indústria, por suas características tecnológicas, avança mais rápido do que a agricultura, e os ramos de cada setor obedecem a ritmos diferentes, consolidando o desenvolvimento desigual (TAVARES, 2002).

A expansão do capitalismo, no início do século vinte, parecia comprovar a tese de Lênin, porém as explicações para a desigualdade nem sempre eram atribuídas a critérios estruturais do desenvolvimento do Modo de Produção Capitalista. A partir dos Estados Unidos desenvolveu-se a teoria da modernização que difundia a idéia de que as desigualdades regionais estavam ligadas às características psicossociais e institucionais da população da periferia. Ou seja, centrava a explicação em aspectos culturais. Na Europa, desenvolveram-se as teorias de François Perroux (pólos de crescimento) e Gunnard Myrdal (causação circular e cumulativa)4. Enquanto na América Latina as teorias produzidas a partir da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina) tiveram maior influência nas interpretações das desigualdades regionais (FGV, 2003). Porém, no início da década de 1960, as interpretações da CEPAL começaram a ser questionadas, tanto por integrantes da própria comissão (no caso de Celso Furtado, Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faleto), quanto por pesquisadores da América Latina (como no caso de André Gunder Frank e Francisco de Oliveira). A implantação de regimes militares na América Latina vai consolidar visões centralizadoras e tecnocráticas que acentuam o papel do Estado na condução das políticas de desenvolvimento, praticamente relegando os estudos regionais para a periferia dos debates acadêmicos e sociais. Estes estudos eram considerados na medida em que buscavam explicar os ‘entraves’ presentes nas diferentes regiões e que dificultavam a implantação de um projeto nacional integrado e funcionalizado (VAINER, 1995; BOISIER, 1999).

A crise dos modelos hegemônicos do pós 2ª Guerra Mundial provocou o questionamento das teorias que sustentavam as explicações dominantes a respeito do desenvolvimento. O processo de reestruturação produtiva contribuiu para a retomada dos estudos sobre o papel representado pelas regiões nas dinâmicas de desenvolvimento das sociedades. Esses novos estudos emergiram de contextos diferenciados e a partir de múltiplas visões teóricas, podendo ser agrupados em duas grandes linhas teóricas: a regionalista e a globalista5. A globalista sustenta-se na tese da homogeneização do espaço em decorrência do processo de globalização e das transformações produtivas e tecnológicas que ocorreram no mundo no final do século XX. A regionalista ressalta a perspectiva da territorialização do desenvolvimento, afirmando a especificidade dos espaços locais na definição das condições do desenvolvimento e apontando para os problemas decorrentes das opções globalizadoras (KLINK, 2001; DALLABRIDA, SIEDENBERG e FERNÁNDEZ, 2004).

A linha teórica globalista tem como referência básica comum os estudos de Charles Tiebout, “A pure theory of local expenditures”, publicado em 1956. A partir dessa visão, os governos locais variam os serviços públicos e os impostos locais de acordo com as preferências de seus habitantes e quando são bem sucedidos acabam atraindo mais habitantes e empresas. A partir da concorrência global, capital e trabalho se tornam altamente voláteis e mudam de uma cidade para outra à procura de maximização de suas preferências. Como os fatores de produção se deslocam de acordo com as melhores condições, as cidades acabam tendo que competir entre si para atrair mão-de-obra qualificada e capital. Num mundo em que as preferências se tornam cada vez mais homogêneas, as cidades tendem também a se tornar cada vez mais semelhantes e homogêneas, pois qualquer tentativa de diferenciação pode significar a perda de capital e de mão-de-obra qualificada para outra cidade. Isso leva a uma homogeneização do espaço local, uma vez que o poder local não teria a capacidade de escolher um nível de tributação e de serviços que se diferenciasse em muito da média de preferência dos cidadãos e do capital volátil (KLINK, 2001).

Os argumentos de Tiebout sustentam-se no tripé formado pela idéia da homogeneização do espaço, da mobilidade dos fatores de produção e da concorrência entre os lugares. A partir desse tripé, os adeptos da vertente globalista procuram articulá-los de forma diferenciada, gerando construções teóricas diversas que podem ser agrupadas em quatro posições básicas: a Escola da “Nova Política Urbana”, a centrada em estratégias de City Marketing, a que destaca a formação de “redes de cidades e regiões” conectadas entre si numa sociedade global baseada no fluxo de informações e a que proclama o surgimento de uma “ordem internacional sem fronteiras nacionais” (ROTTA, 2007)6.

Analisando as quatro abordagens da vertente globalista, para além das diversidades internas, percebe-se a compreensão da política social como um duplo mecanismo. Por um lado, ela é vista como um mecanismo compensatório para os efeitos negativos da inserção na sociedade global de fluxos. Por outro, ela é compreendida como uma estratégia de competição entre as regiões. No primeiro caso, os adeptos dessa concepção entendem que a cidade global é uma cidade dual, pois as exigências da concorrência acabam excluindo uma parcela da população. Para que essa parcela excluída não prejudique a produtividade dos demais e crie um ambiente desagradável à concorrência e à imagem da cidade, faz-se necessário acionar mecanismos compensatórios com base em serviços sociais de educação, habitação, saúde e assistência. Esses serviços contribuiriam para que as pessoas buscassem a inclusão em novas etapas da concorrência, superando a situação anterior.

No segundo caso, as políticas sociais são entendidas como um dos eixos estruturantes da competitividade, ao lado da política econômica, da rede de infra-estrutura de comunicação, da qualidade dos serviços urbanos e tecnológicos, da mão-de-obra e do meio ambiente. Faz-se necessário criar um ‘entorno’ social, cultural e estético capaz de atrair os agentes econômicos. A cidade competitiva não pode ter índices de pobreza, marginalização e violência que influenciem negativamente as decisões dos agentes econômicos. As políticas sociais funcionariam como mecanismos capazes de viabilizar esse ‘entorno’ social atrativo à instalação dos agentes econômicos, propagando uma imagem positiva da cidade na rede de concorrência global.

Percebe-se que o objetivo principal da criação deste ‘entorno’ social não é com a qualidade de vida dos cidadãos, mas sim com a decisão dos agentes econômicos. Que as cidades funcionem adequadamente e possuam serviços eficientes para possibilitar a valorização do capital e não o bem-estar dos cidadãos que nela residem. A preocupação central dos autores da vertente globalista é que os espaços locais procurem se adequar à dinâmica de desenvolvimento global, produzindo as externalidades necessárias para inserirem-se de forma a otimizar seus recursos e potencialidades. Essa compreensão é considerada equivocada pelos adeptos da linha teórica regionalista, pois os espaços locais perderiam completamente sua função de agentes e assumiriam uma posição passiva diante da dinâmica global do capital.

A linha teórica regionalista ressalta a perspectiva da territorialização do desenvolvimento, afirmando a especificidade dos espaços locais na definição das condições do desenvolvimento e apontando para os problemas decorrentes das opções globalizadoras. Os espaços locais podem desenvolver certas condições econômicas, sociais, políticas, culturais e ambientais capazes de interagir ativamente com as dinâmicas globais de desenvolvimento.

A maior parte dos estudos realizados nessa perspectiva retoma o clássico trabalho de Marshall acerca dos distritos industriais e procura avançar para o entendimento da situação decorrente do processo de reestruturação produtiva. Entre as principais abordagens dessa linha teórica destacam-se a compreensão do desenvolvimento como um processo endógeno de mudança estrutural, os estudos centrados nos ‘sistemas produtivos locais tipo distrito industrial’, os centrados nos ‘distritos tecnológicos’, os centrados na idéia de ‘tecnopólos’, os centrados nos ‘meios inovadores’, os estudos centrados na crise do fordismo (Escola da Regulação Francesa), a perspectiva do empoderamento das sociedades locais, a centrada na idéia de globalização e a perspectiva da geração alternativa de trabalho e renda ao modo de produção capitalista7.

Na linha teórica regionalista, apesar de suas diversidades, percebe-se uma maior valorização das políticas sociais. Elas são vistas como elementos ativos e integrantes do processo de desenvolvimento e não como mecanismos compensatórios ou como estratégias de competição. Ao entender o desenvolvimento como um processo social localizado capaz de conjugar crescimento econômico e melhoria das condições de vida da população, a vertente regionalista entende que as políticas sociais são fundamentais tanto para auxiliar na criação das condições para o crescimento econômico quanto para efetivar mecanismos que possibilitem ampliar, gradativamente, a qualidade de vida da população.

A definição das políticas sociais, em grande parte, está sujeita à dinâmica das relações estabelecidas entre os diversos atores da sociedade local, a partir das particularidades e necessidades locais. Os atores organizados possibilitam tornar público, efetivo e democrático o debate dos interesses individuais, dos interesses dos agentes econômicos e dos interesses da coletividade, avançando para a constituição de espaços de consenso político para além das contradições existentes na relação capital-trabalho (POCHMANN, 2004). Pensando dessa forma, é possível avançar na superação do centralismo, do autoritarismo e do clientelismo que marcam a gestão e a implementação das políticas sociais na maioria dos países, inclusive o Brasil.

Ao relacionar as possibilidades de desenvolvimento de uma região com a necessidade de articular o potencial sócio-econômico e o potencial cívico, os regionalistas demonstram a importância dos aspectos sócio-culturais nas dinâmicas de desenvolvimento. Evidenciam que o estabelecimento de redes de cooperação e de solidariedade, construídas a partir das instituições, da cultura e das características históricas locais é fundamental para desenvolver mecanismos capazes de evitar processos de exclusão ou de predomínio dos interesses particulares acima dos interesses da coletividade.


  1. O desenvolvimento diferenciado no Noroeste gaúcho

Para compreender o desenvolvimento diferenciado no Noroeste gaúcho tomam-se como referência os quatro municípios pólo da região: Cruz Alta, Santo Ângelo, Ijuí e Santa Rosa. Estabelece-se como referência temporal a década de 1990, entendendo que a mesma representou o estabelecimento de diferenciais importantes em termos de propostas de desenvolvimento para os referidos municípios. Para identificar estes diferenciais centra-se a análise nas políticas sociais de educação, saúde, habitação e urbanismo, trabalho e assistência e previdência social, explicitadas nos Planos Plurianuais elaborados para o período (1991 a 1993, 1994 a 1997 e 1998 a 2001) e nas execuções orçamentárias realizadas durante a década. Na seqüência busca-se relacionar as opções e os investimentos realizados com os resultados obtidos pelos municípios em termos de indicadores de desenvolvimento.

Na análise dos Planos Plurianuais percebe-se um acréscimo de quantidade e de qualidade na definição de prioridades para as cinco áreas de políticas sociais estudadas. A redação se tornou mais clara e a definição de prioridades mais articulada com as outras áreas e mais voltada para uma tentativa de superar os entraves enfrentados pela sociedade local, especialmente os decorrentes da crise do modelo de desenvolvimento fundado na modernização da agricultura e da agroindústria (ROTTA, 2007).

As políticas sociais foram, aos poucos, superando um viés centrado no assistencialismo e na realização de obras materiais, para ingressarem na perspectiva do direito e do investimento nas pessoas. A compreensão de desenvolvimento foi se deslocando de uma mera reprodução, na esfera local, daquilo que ocorria em nível nacional, para uma postura mais ativa e propositiva, em termos de elaboração de projetos a partir das necessidades e demandas locais, com a participação dos atores locais (ROTTA, 2007).

Os municípios de Santa Rosa e de Ijuí foram os que assumiram, de forma mais clara e consistente, os princípios da descentralização e da participação da sociedade na gestão das políticas sociais. As áreas de educação e de saúde foram as que receberam maior atenção dos municípios, seguidas pelas de habitação, assistência social e trabalho. A área de trabalho foi a que menos recebeu importância, sendo quase que inexistente em termos de estabelecimento de prioridades, nos quatro municípios e nos três Planos Plurianuais. Esta situação contrasta com a importância do trabalho em termos de viabilização do acesso à renda e aos instrumentos para a conquista da cidadania (ROTTA, 2007).

Na análise dos investimentos realizados, constata-se que as políticas sociais de educação e saúda também foram as que receberam o maior contingente de recursos ao longo de toda a década e nos quatro municípios. Na seqüência vem a assistência e previdência, a habitação e urbanismo e, por último, a área do trabalho. Na área do trabalho percebe-se que os recursos investidos foram irrisórios, encontrando-se, no município de Ijuí, nenhum investimento ao longo de toda a década. Os dados podem ser observados na tabela a seguir.
Tabela 01: Montante8 dos investimentos realizados segundo as áreas de políticas sociais selecionadas, tendo presente os períodos dos três Planos Plurianuais analisados.

Continua ...

Continuação





Fonte: ROTTA, 2007. Reorganizada pelos autores.
Realizando-se um comparativo entre o primeiro e o último ano da década, podem-se observar as principais mudanças ocorridas nos respectivos municípios e as principais tendências observadas (Tabela 02).

Tabela 02: Montante dos investimentos realizados segundo as áreas de políticas sociais selecionadas. Período 1991 a 2000.



Fonte: ROTTA, 2007, p. 269.
Comparando-se o total de recursos investidos nas cinco áreas em 1991 com o total de recursos investidos em 2000, constata-se que o município de Santa Rosa é o que apresenta o maior crescimento, tanto em valores totais (de R$ 9.474.778,78 para R$ 38.854.474,34) quanto em percentuais (310,08%). Na seqüência vem o município de Ijuí, que também apresenta um expressivo aumento dos valores totais (de R$ 9.604.992,23 para R$ 32.588,519, 65) e dos percentuais (239,28%) investidos. O município de Santo Ângelo apresenta um aumento um pouco menor dos valores totais (de R$ 11.141.175,86 para R$ 28.017.173,31) e dos percentuais (151,47%). O município de Cruz Alta é o que apresenta o menor valor investido (de R$ 8.458.028,45 para R$ 25.245.102,27), porém supera Santo Ângelo em termos de aumento de percentuais investidos (198,47% contra 151,47%). Essa situação apresentada por Santa Rosa e Ijuí, na comparação com Santo Ângelo e Cruz Alta, está sustentada nas prioridades e opções feitas na elaboração dos seus Planos Plurianuais (ROTTA, 2007).

Na análise geral percebe-se que o aumento dos investimentos em políticas sociais é significativo para o período, pois em todos os municípios ultrapassam a ordem de 150%, sendo mais expressivo em Santa Rosa, com um aumento de 310,08%. Esse crescimento dos investimentos torna-se ainda mais significativo ao considerar-se que se trata de uma década de crise do Estado, de ajuste fiscal e de implantação de políticas de recorte neoliberal. Aspectos que provocaram um refluxo na compreensão dos direitos conquistados ao longo da década de 1980.

Esse crescimento significativo dos investimentos em políticas sociais pode ter sido uma forma que os municípios da região encontraram para impulsionar uma economia que se encontrava num momento de crise, pois, nos países em desenvolvimento, as políticas sociais podem funcionar como impulsionadoras do processo de desenvolvimento na medida em que ampliam as oportunidades, expandem as capacidades humanas, melhoram as habilidades produtivas das pessoas, melhoram a qualidade de vida e proporcionam um ambiente favorável ao crescimento econômico com maior eqüidade social (SEN, 2000). Esta inferência pode ser evidenciada ao se analisar as possibilidades dos investimentos se traduzirem em melhoria da qualidade de vida e em crescimento econômico para os municípios da região. Para verificar esta relação utilizaram-se os indicadores do IDH-M9 e do IDESE10, especialmente no quesito renda e na composição total dos indicadores11.

Nos aspectos relacionados à renda, o IDH-M trabalha com os indicadores de renda per capita, pobreza e desigualdade e a porcentagem de renda apropriada pelos diferentes estratos da população. A tabela abaixo indica os três primeiros.


Tabela 03: Indicadores de renda, pobreza e desigualdade, 1991 e 2000.



Fonte: PNUD apud ROTTA, 2007, p. 279.
Percebe-se que os quatro municípios conseguiram aumentar sua renda per capita média, em mais de 40% no período. Os maiores acréscimos ficaram por conta de Ijuí, com 47,99% e Cruz Alta, com 47,68%. Os menores ficaram por conta de Santa Rosa, com 41,73% e Santo Ângelo, com 42,21%. Comparando-se com a situação verificada no estado do RS, percebe-se que o aumento, em percentual, ocorrido na região foi maior (no estado verificou-se um aumento médio de 36,89%), porém a renda per capita média da mesma (329,1) fica um pouco abaixo da média estadual (357,7) e nenhum dos municípios atinge a média estadual. Isso demonstra que a região cresceu economicamente mais que a média estadual, mas não o suficiente para superar a diferença12 entre a sua média de renda per capita e a média estadual. Esse crescimento econômico aponta para uma perspectiva de retomada do desenvolvimento após a profunda crise da década de 1980.

Em relação à proporção de pobres (percentual sobre a população total), tem-se uma redução significativa nos quatro municípios. A maior redução ficou por conta de Santa Rosa, com 14,7 pontos percentuais, vindo na seqüência Ijuí, com 12, Cruz Alta, com 11,9, e Santo Ângelo, com 9,8. Santa Rosa, que apresentava a maior proporção de pobres, em 1991 (34,1%), passa a apresentar a menor em 2000 (19,4%). Santo Ângelo, que apresentava a menor proporção de pobres em 1991 (32,2%), passa a apresentar a maior em 2000 (22,4%). Comparando-se com a situação estadual constata-se que a redução média regional (12,1 pontos percentuais) foi maior que a estadual (9,1 pontos percentuais), porém somente o município de Santa Rosa consegue ter menos pobres do que a média estadual (que ficou em 19,7% da sua população em 2000). Esse desempenho apresentado por Santa Rosa evidencia que a estratégia de priorização das políticas sociais na elaboração dos Planos Plurianuais e na execução orçamentária apresentou resultados importantes.

Em relação ao Índice de Gini, verifica-se que Ijuí e Santo Ângelo permanecem com o mesmo índice de 1991, respectivamente, 0,57 e 0,58. O município de Cruz Alta piora seu indicador, ao passar de 0,59 para 0,6. Santa Rosa melhora seu indicador, ao passar de 0,57 para 0,56. Essa melhora do Índice de Gini obtida por Santa Rosa tem referência direta com a priorização das políticas sociais, aspecto já destacado no parágrafo anterior. Porém, para Cruz Alta, não se pode fazer a mesma afirmação. Mesmo aumentando seus investimentos orçamentários em políticas sociais, os resultados em termos de Índice de Gini pioram, no período analisado. Essa situação remete à busca de outros termos de comparação que podem estar relacionados à forma como os investimentos são realizados. Ao se analisar a diferença entre os Planos Plurianuais desses dois municípios, estabelecidos para a década, pode-se sentir maior clareza e consistência nos apresentados por Santa Rosa. Sabe-se que não é um argumento suficiente e os recursos para depurá-lo são precários, mas trata-se de um aspecto que deve ser considerado na busca de uma explicação para essa diferença.

Ao se comparar o desempenho demonstrado pelos quatro municípios com a situação estadual, percebe-se que apenas Cruz Alta fica com um Índice de Gini pior do que a média estadual, que permaneceu em 0,59 durante a década analisada. Isso demonstra que a região possui uma renda melhor distribuída entre seus estratos de população do que a média estadual. Também evidencia que a região apresentou avanços significativos durante a década de 1990, em termos de crescimento da renda per capita e da diminuição da proporção de pobres. Pelo menos, esse segundo aspecto possui uma relação direta com a priorização das políticas sociais analisadas. Entre os mecanismos de distribuição de renda, o acesso à educação, à saúde e ao saneamento, à habitação e urbanização, ao trabalho e à assistência e previdência, constituem-se em ferramentas fundamentais. A análise dos percentuais da renda apropriada pelos diferentes estratos da população pode trazer novos elementos para a análise.



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