Desventuras em Série Mau Começo



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Caro Leitor,
Sinto muito dizer que o livro que você tem nas mãos é bastante desagradável. Conta a infeliz história de três crianças muito sem sorte. Apesar de encantadores e inteligentes, os irmãos Baudelaire levam uma vida esmagada por aflições e infortúnios. Logo no primeiro capítulo as crianças estão na praia e recebem uma trágica notícia. A infelicidade segue os seus passos, como se eles fossem ímãs que atraíssem desgraças.

Neste pequeno volume, os três jovens têm que lidar com um repulsivo vilão dominado pela cobiça, com roupas que pinicam o corpo, um incêndio calamitoso, um plano para roubar a fortuna deles e mingau frio servido como café da manhã.

É meu triste dever pôr no papel essas histórias lamentáveis. Mas não há nada que o impeça de largar o livro imediatamente e sair para outra leitura sobre coisas alegres, se é isso que você prefere.

Respeitosamente,



Lemony Snicket

Na classificação das pessoas mais infelizes do mundo — e você sabe que elas não são poucas — os irmãos Baudelaire ocupam sem dúvida o primei­ro lugar. Eles viveram mais coisas hor­ríveis que qualquer pessoa. Mas quem são esses desafortunados?



Violet Baudelaire tem catorze anos e é uma das maiores inventoras do seu tempo. As engrenagens e alavancas de seu cérebro funcionam a to­do o vapor.



Klaus Baudelaire, o irmão do meio, usa óculos, o que pode dar a impressão de que seja amante dos livros. Im­pressão absolutamente correta. Ele emprega todo o seu conhecimento em decifrar os planos do pérfido con­de Olaf.



Sunny Baudelaire, a mais nova dos três, é ainda um bebê. Seus quatro afiados den­tes entram em ação na pri­meira oportunidade.

E este é o arquiinimigo dos irmãos Baudelaire: o CONDE Olaf. Homem revoltante, gos­mento, pérfido, sobre ele é melhor dizer o menos possível.


Eu, Lemony Snicket, nasci antes de você e provavelmente morrerei antes de você. Nasci numa pequena vila que hoje está submersa. Um povoado aparentemente pacato, mas cercado de segredos. Hoje vivo na cidade. Para escrever essas desventuras dos irmãos Baudelaire fui obrigado a conhecer a fundo as artimanhas de vilões como o conde Olaf. Passei anos mergulhado no mundo do crime, não dos crimes reais, é claro. Minha formação é estritamente teórica.

Veja mais informações no meu site: www.lemonysnicket.com (em inglês).

Meu ilustrador, Brett Helquist, nasceu no Arizona, cresceu em Utah e atualmente vive em Nova York. Formou-se em belas-artes na Brigham Young University e desde então trabalha como ilustrador. Colabora em diversas publicações, como Cricket Magazine e The New York Times.


Desventuras em Série

Livro primeiro Mau começo

Livro segundo A Sala dos Répteis

Livro terceiro O lago das sanguessugas

Livro quarto Serraria Baixo-Astral

Livro quinto Inferno no colégio interno

Livro sexto O elevador ersatz

Livro sétimo A Cidade Sinistra dos Corvos

Livro oitavo O hospital hostil

Livro nono O espetáculo carnívoro

Livro décimo O escorregador de gelo

Livro undécimo A Gruta Gorgônea
Desventuras em Série

Livro primeiro


MAU COMEÇO

de LEMONY SNICKET
Ilustrações de Brett Helquist

Tradução de Carlos Sussekind

1999 by Lemony Snicket

1999 Ilustrações by Brett Helquist

Publicado mediante acordo com HarperCollins Children's Books,

divisão da HarperCollins Publishers, Inc.

Título original: The Reptile Room

Preparação: Cristina Yamazaki

Revisão: Carmen S. da Costa Claudia Cantarin


Para Beatrice —

querida, adorada, morta



CAPÍTULO

UM
Se vocês se interessam por histórias com final feliz, é melhor ler algum outro livro. Vou avisando, porque este é um livro que não tem de jeito nenhum um final feliz, como também não tem de jeito nenhum um começo feliz, e em que os acontecimentos felizes no miolo da história são pouquíssimos. E isso porque momentos felizes não são o que mais encontramos na vida dos três jovens Baudelaire* cuja história está aqui contada. Violet, Klaus e Sunny Baudelaire eram crianças inteligentes, encantadoras e desembaraçadas, com feições bonitas, mas com uma falta de sorte fora do comum, que atraía toda espécie de infortúnio, sofrimento e desespero: Lamento ter que dizer isso a vocês, mas o enredo é assim, fazer o quê?
(*) Pronuncia-se "Bodler", com e tônico e aberto como em "mulher". (N. T.)
A infelicidade deles começou certo dia na Praia de Sal. Os três Baudelaire filhos moravam com seus pais numa enorme mansão no centro de uma cidade muito movimentada e muito poluída, e vez por outra os pais permitiam que pegassem sozinhos um bonde um tanto precário - a palavra precário, que vocês provavelmente conhecem, está sendo usada aqui com o sentido de "inseguro" - até a praia, a fim de passarem o dia como se estivessem em férias, contanto que voltassem antes da hora do jantar.

Nessa manhã de que estamos falando, o dia se mostrava cinzento e nublado, o que não importava nem um pouco aos jovens Baudelaire. Quando fazia sol e calor, a Praia de Sal se enchia de turistas, e era impossível encontrar um bom lugar para estender a esteira. Nos dias cinzentos e nublados, os Baudelaire tinham a praia à sua disposição para fazer o que bem entendessem.

Violet Baudelaire, a mais velha dos três, gostava de atirar pedras bem longe para vê-Ias deslizar na superfície do mar antes de afundarem. Como a maioria dos jovens de catorze anos, era destra – ou seja, estava acostumada a usar a mão direita, ao contrário dos canhotos - de modo que as pedras deslizavam mais tempo e avançavam mais longe nas águas turvas quando a mão com que as arremessava era a direita e não a esquerda. Enquanto atirava as pedras, tinha os olhos postos no horizonte e o pensamento absorvido numa invenção que desejava montar. Quem conhecesse bem Violet logo perceberia que ela estava firmemente concentrada em suas reflexões, porque havia amarrado os cabelos com uma fita para afastá-los dos olhos. Violet tinha uma forte inclinação para inventar e montar aparelhos estranhos, por isso o seu cérebro volta e meia se via tomado por imagens de roldanas, alavancas e engrenagens, e ela fazia questão de nessas horas não ser distraída por algo tão banal como seus cabelos.

Nessa manhã ela estava pensando em como construir um aparelho que permitisse recuperar as pedras depois de serem atiradas no mar.

Klaus Baudelaire, o irmão do meio, e o único menino, gostava de examinar os seres minúsculos que pululavam nas piscininhas formadas à beira d'água. Klaus tinha pouco mais que doze anos e usava óculos, o que lhe dava um ar inteligente. E ele era inteligente. Os Baudelaire pais possuíam uma enorme biblioteca em sua mansão, uma sala com milhares de livros sobre todos os assuntos imagináveis. Aos doze anos, é claro que Klaus não poderia ter lido todos os livros da biblioteca dos Baudelaire, mas lera uma porção deles, e era impressionante como retinha na memória a quantidade de informações assim obtidas. Sabia distinguir perfeitamente o aligátor, crocodilo do Mississipi, dos crocodilos de outras partes do mundo. Sabia o nome de quem matou Júlio César. E sabia milhões de coisas sobre as esquivas criaturinhas de beira-mar encontradas na Praia de Sal que atraíam naquele momento sua atenção.

Sunny Baudelaire, a mais nova da trinca, gostava de morder coisas. Era ainda quase um bebê e muito pequena para sua idade, pouco maior que uma bota. A pouca altura era compensada, no entanto, pelos quatro dentes bem grandes e afiados.

Sunny estava numa idade em que a maior parte do tempo a criança fala por uma série de gritos ininteligíveis. A não ser quando ela usava as poucas palavras de verdade que constavam de seu vocabulário, como mamã, mamá e dá!, a maioria das pessoas tinha dificuldade para entender o que Sunny estava dizendo. Por exemplo, nessa manhã ela disse "Gá!" muitas e muitas vezes, o que provavelmente era para se entender como: "Vejam só essa figura misteriosa surgindo do nevoeiro!”

De fato, ao longe, em meio à névoa que pairava sobre todo o recorte da Praia de Sal, podia-se ver um vulto alto que caminhava na direção dos Baudelaire filhos. Sunny já vinha olhando e gritando para o vulto havia algum tempo quando Klaus ergueu os olhos acima do caranguejo que examinava e também notou a figura. Voltou-se para Violet e a puxou pelo braço, tirando-a de seus pensamentos de inventora.

“Veja”, disse Klaus, e apontou para o vulto. Como este estivesse chegando mais perto, as crianças puderam enxergar alguns detalhes. Tinha o tamanho mais ou menos de um adulto, a não ser pela cabeça, que era desproporcionadamente alta e meio quadrada.

"O que você acha que pode ser? , perguntou Violet.

"Não sei", disse Klaus, e com olhos semicerrados acompanhou disfarçadamente a aproximação da criatura, "mas parece que está vindo na nossa direção.”

"Estamos sozinhos na praia”, disse Violet, um pouco nervosa. "Não há ninguém mais de quem possa estar querendo se aproximar." Sentiu em sua mão esquerda o contato da pedra lisa ali aninhada, que pretendera atirar e fazer deslizar nas águas o mais longe possível. Teve um ímpeto de atirar a pedra na criatura, tão assustadora esta lhe parecia.

"É só a aparência que é assustadora", disse Klaus, como se estivesse lendo os pensamentos da irmã, "por causa desse nevoeiro todo."

Verdade. Quando a figura chegou onde estavam, as crianças viram com alívio que não era ninguém que lhes causasse medo, e sim uma pessoa que eles conheciam: o sr. Poe. O sr. Poe era um amigo do sr. e da sra. Baudelaire que as crianças haviam encontrado em muitos jantares festivos. Uma das coisas que Violet, Klaus e Sunny realmente apreciavam em seus pais era que não excluíam os filhos quando recebiam para jantar, deixando que eles sentassem à mesa com os adultos e participassem das conversas contanto que ajudassem depois a tirar os pratos e travessas. Os meninos se lembravam do sr. Poe porque ele estava sempre resfriado e constantemente se desculpava de se retirar da mesa a fim de ter um acesso de tosse na sala ao lado.

O sr. Poe tirou a cartola, que havia feito sua cabeça exageradamente alta e quadrada em meio à névoa, e por um momento ficou parado diante deles, tossindo com estrondo dentro de um lenço branco. Violet e Klaus avançaram para lhe estender a mão e cumprimentá-lo.

"Como vai o senhor?", disse Violet. "Como vai o senhor?", disse Klaus. "

“Omoá”, disse Sunny.

"Vou bem, obrigado", disse o sr. Poe, mas parecia muito triste. Por alguns instantes ninguém disse nada, e os meninos ficaram imaginando o que o sr. Poe poderia estar fazendo na Praia de Sal quando deveria estar no banco, no centro da cidade, onde trabalhava. Não estava com roupas de ir à praia.

"Está um lindo dia", disse Violet finalmente, puxando conversa. Sunny fez um barulho que soava como a voz de uma ave enfurecida, e Klaus a pegou no colo.

"Sim, está um lindo dia", disse o sr. Poe com ar meio distraído, olhando para a praia vazia. "Lamento, mas tenho más notícias para vocês, crianças."

Os três irmãos Baudelaire olharam para ele. Violet, um pouco envergonhada, sentiu o contato da pedra em sua mão esquerda e deu graças a Deus por não a ter atirado no sr. Poe.

"Seus pais", disse o sr. Poe, "faleceram num terrível incêndio."

Os meninos não disseram nada.

"Eles faleceram", disse o sr. Poe, "num incêndio que destruiu a casa toda. Lamento muito, muitíssimo, ter que contar isso para vocês, meus queridos."

Violet desviou os olhos, que estavam fixos no sr. Poe, e os deslocou para longe no mar. O sr. Poe nunca antes havia chamado os Baudelaire filhos de "meus queridos". Ela entendeu as palavras que ele estava dizendo, mas achou que devia ser brincadeira, uma horrível brincadeira que ele resolvera fazer com ela, o irmão e a irmã.

"Faleceram", disse o sr. Poe:, "significa foram mortos.”

"Nós sabemos o que significa a palavra faleceram", disse Klaus, com irritação. Com efeito, ele sabia o que a palavra faleceram significava, mas continuava tendo dificuldade para entender exatamente o que o sr. Poe tinha dito. A impressão que teve foi que o sr. Poe de algum modo havia se expressado mal.

"Os bombeiros vieram, é claro", disse o sr. Poe,"mas chegaram tarde demais. A casa inteira foi devorada pelo fogo. Não sobrou nada."

Klaus viu na imaginação todos os livros da biblioteca pegando fogo. Agora nunca mais poderia lê-los todos.

O sr. Poe tossiu várias vezes no seu lenço antes de prosseguir. "Fui mandado com o objetivo de vir buscá-los aqui e levá-los para minha casa, onde vocês ficarão algum tempo enquanto estudamos a situação. Sou o executor testamentário da herança de seus pais. Isso significa que estarei lidando com a enorme fortuna deles e resolvendo para onde vocês vão. Quando Violet atingir a maioridade, a fortuna será de vocês, mas até que isso aconteça, os bens estarão sob os cuidados do banco."

Quando ele disse a palavra executor, Violet entendeu que o sr. Poe era o carrasco que chegava para decidir sobre o seu futuro e o de seus irmãos. Simplesmente veio andando pela praia em sua direção e mudou a vida deles para sempre.

"Venham comigo", disse o sr. Poe, e estendeu sua mão. Para pegá-la, Violet teve que jogar fora a pedra que estava segurando. Klaus pegou a outra mão de Violet, Sunny pegou a outra mão de Klaus, e desse modo os três Baudelaire filhos - agora Baudelaire órfãos - foram retirados da praia e da vida que levavam antes.





CAPÍTULO

DOIS
Não adianta tentar transmitir como foi duro para os sentimentos de Violet, Klaus e Sunny o período que se seguiu em sua vida. Se alguma vez vocês perderam uma pessoa que tinha grande importância para vocês, então sabem como é que nos sentimos nessas horas, e, se nunca perderam, não dá nem para imaginar. Para os jovens Baudelaire, é claro, foi uma experiência especialmente terrível, porque perderam pai e mãe de uma só vez, e durante muitos e muitos dias se sentiram tão arrasados que mal tinham ânimo para sair da cama. Klaus não conseguia achar interesse nos livros. Os mecanismos que punham em ação o cérebro inventivo de Violet pareciam estar travados. E até mesmo Sunny, que evidentemente era jovem demais para entender de fato o que estava acontecendo, dava suas mordidas com menos entusiasmo.

Naturalmente, não melhorou nada a situação o fat de eles terem ficado também sem a casa e sem tudo o que possuíam. Vocês devem saber muito bem que basta estarmos em nosso próprio quarto, em nossa própria cama, para os momentos mais horríveis perderem um pouquinho do seu peso esmagador. Mas as camas dos Baudelaire órfãos haviam sido reduzidas a escombros carbonizados. O sr. Poe os levara para dar uma olhada no que restava da mansão, para ver se sobrara algo que se pudesse aproveitar, e a impressão foi terrível: o microscópio de Violet se fundira por completo no calor do fogo.A caneta preferida de Klaus estava transformada em cinzas, e todas as argolas de Sunny pôr na boca para morder tinham se derretido. Num e noutro canto, as crianças podiam notar os vestígios do que outrora fora o casarão tão amado por elas: pedaços do seu piano de cauda, uma elegante garrafa em que o sr. Baudelaire guardava o conhaque, o estofamento esturricado da poltrona que ficava junto à janela e em que a mãe deles gostava de sentar e ler.

Com seu lar destruído, os Baudelaire tiveram que se recuperar da terrível perda transferindo-se para a casa da família Poe, cujo ambiente não era agradável. O sr. Poe raras vezes estava em casa, porque ficava muito ocupado cuidando dos interesses dos Baudelaire, e quando estava, tossia tanto que mal conseguia manter uma conversa. A sra. Poe comprou para os órfãos roupas em cores grotescas e que pinicavam o corpo. E os dois filhos de Poe - Edgar e Alberto - eram meninos barulhentos, agitados, muito antipáticos, com quem os Baudelaire tiveram que partilhar um quarto minúsculo em que predominava um cheiro de flor dos mais enjoativos.

Mas, apesar desse ambiente pouco convidativo, os jovens Baudelaire afundaram em dúvidas quando, durante um jantar de galinha cozida com batatas cozidas e vagem escaldada - a palavra escaldada que estou usando aqui significa "cozida" -, o sr. Poe avisou que no dia seguinte eles se mudariam de sua casa.

“Ainda bem", disse Alberto, com um pedaço de batata entre os dentes. "Assim recuperamos o quarto. Não agüento mais dividir o espaço. Violet e Klaus passam o tempo todo sem fazer nada, e não têm a menor graça.”

E o bebê morde", disse Edgar, jogando um osso de galinha no chão como se ele fosse um bicho no Jardim zoológico e não o filho de um respeitável membro da comunidade financeira.

“Para onde iremos?", perguntou Violet, nervosa.

O sr. Poe abriu a boca para dizer algo, mas rompeu num breve acesso de tosse. "Tomei providências" disse finalmente, "para que sejam criados por um parente afastado de vocês que mora no outro lado da cidade. Chama-se conde Olaf."

Violet, Klaus e Sunny se entreolharam, sem saber o que pensar. Por um lado, eles não queriam continuar morando com os Poe. Por outro, nunca tinham ouvido falar no conde Olaf e não faziam Idéia de como ele pudesse ser.

"O testamento de seus pais", disse o sr. Poe, "estabelece que vocês sejam criados nas melhores condições possíveis. Vocês já se acostumaram a morar na cidade, e esse conde Olaf é o único parente que vive dentro dos limites urbanos."

Klaus refletiu um minuto sobre o assunto, enquanto mastigava longamente um pedaço de vagem que estava custando a engolir. "Mas nossos pais nunca mencionaram para nós o conde Olaf. Qual é exatamente o grau de parentesco que ele tem conosco?"

O sr. Poe suspirou e baixou os olhos na direção de Sunny, que mordia um garfo e escutava, atenta. "Ele é primo em terceiro ou quarto grau de vocês. Não é o seu parente mais próximo na árvore genealógica, mas é o mais próximo geograficamente. É por isso que...

"Se ele mora na cidade", disse Violet, "como é que nossos pais nunca o convidaram para ir lá em casa?"

"Talvez por ele estar sempre muito ocupado", disse o sr. Poe. "É um ator profissional, e viaja muito pelo mundo com as mais diversas companhias teatrais.”

"Pensei que ele fosse um conde", disse Klaus.

“Ele é um conde e um ator, disse o sr. Poe. Bom, lamento interromper a refeição, mas vocês precisam arrumar as malas, e eu tenho que voltar ao banco para continuar meu trabalho. Na condição de seu novo tutor legal, eu tenho muitos afazeres."

Os três irmãos Baudelaire tinham muitas outras perguntas para fazer ao sr. Poe, mas ele já se levantara da mesa e, com um leve aceno de mão, retirou-se da sala. Ainda ouviram quando tossiu no seu lenço, até que finalmente a porta da frente rangeu ao fechar quando ele saiu para a rua.

"Bom", disse a sra. Poe, "vocês tratem de ir arrumando as malas. Edgar, Alberto, por favor, venham me ajudar a tirar a mesa."

Os órfãos Baudelaire foram para o quarto e melancolicamente arrumaram as malas com seus poucos pertences. Klaus olhava desgostoso para cada uma das camisas feiosas e ordinárias que a sra. Poe havia comprado para ele, à medida que as dobrava, ia pondo numa maleta. Violet observava à sua volta e colhia uma impressão geral do cômodo malcheiroso e atravancado em que tinham estado morando. E Sunny engatinhava em todas as direções e mordia solenemente cada um dos sapatos de Edgar e Alberto, deixando marcas de seus dentinhos para que não fossem esquecidos. De quando em quando, os jovens Baudelaire se entreolhavam, mas, com o futuro sendo um tal mistério, não conseguiam imaginar nada para dizer. Deitados para dormir, viraram-se e se agitaram na cama a noite toda, mal conseguindo um farrapo de sono entre os roncos pesados de Edgar e Alberto e a perturbação que os seus próprios pensamentos aflitivos lhes causavam. Até que, por fim, o sr. Poe bateu à porta e pôs a cabeça dentro do quarto.

"Bom dia, vamos começar o grande dia", disse ele. "Está na hora de vocês irem para a casa do conde Olaf."

Violet olhou para o quarto atravancado em torno dela e, apesar de não gostar dali, sentiu-se muito aflita por ter que ir embora. "Temos que ir neste exato momento?” perguntou.

O sr. Poe abriu a boca para falar, mas primeiro tossiu algumas vezes. "Têm, sim. Vou deixá-los no meu caminho para o banco, de forma que precisamos ir o mais rápido possível. Por favor, saiam da cama e vistam-se", disse ele, num tom de absoluta determinação. "De absoluta determinação" aqui significa "que não dava margem a dúvidas quanto à urgência dos jovens Baudelaire irem para a rua.

Os órfãos Baudelaire deixaram a casa. O automóvel do sr. Poe seguiu, lento e ofegante, pelas ruas calçadas com paralelepípedos em direção ao bairro da cidade onde morava o conde Olaf. Passaram por carruagens puxadas por cavalos, passaram por motocicletas ao longo da Passagem da Calmaria. Passaram pela Fonte Volúvel, um monumento lindamente esculpido de que às vezes jorrava água, fazendo a diversão da criançada. Atravessaram um vasto espaço de terra batida onde outrora ficavam os Jardins Reais. Após algum tempo, o sr. Poe desceu com seu carro uma viela ladeada por casas de tijolos e parou a meio caminho do final do quarteirão.

“Cá estamos" , disse o sr. Poe, num tom de voz que tinha a intenção de ser animador. "Eis o novo lar de vocês."

Os jovens Baudelaire olharam para fora e se depararam com a casa mais bonita do quarteirão. Os tijolos haviam recebido uma limpeza para valer, e pelas amplas janelas abertas dava para ver uma coleção de plantas bem tratadas. Diante da entrada da casa, com uma das mãos segurando a reluzente maçaneta de metal da porta, uma senhora de certa idade, elegantemente vestida, sorria para os Baudelaire. Na outra mão tinha um vaso de flores.

"Olá!", cumprimentou com muita simpatia. "Vocês devem ser as crianças que o conde Olaf está adotando.”

Violet abriu a porta do automóvel e saiu para cumprimentar a mulher com um aperto de mão. Sentiu um contato firme e caloroso, e pela primeira vez desde um tempo razoavelmente longo sentiu que sua vida e a de seus irmãos poderiam enfim tomar um rumo feliz. "Sim", disse. "Somos nós, sim. Eu sou Violet Baudelaire, e este é meu irmão Klaus, e esta é minha irmã Sunny. E este é o sr. Poe, que tem se encarregado de resolver tudo para nós desde a morte de nossos pais."

"Soube do acidente", disse a mulher, enquanto todos terminavam de dizer "como vai?". "Sou Justice* Strauss."

"Um prenome meio fora do comum", observou Klaus.

"É meu título", ela explicou, "não meu prenome. Sou juíza na Suprema Corte."

"Fascinante!", disse Violet. "E é casada com o conde Olaf?"

''Ah, não, imagine!", disse a juíza Strauss. "Na verdade, eu nem o conheço muito bem. Ele é apenas meu vizinho."

Os meninos deslocaram o olhar, transferindo-o da casa lindamente conservada da juíza Strauss para a casa deploravelmente dilapidada que ficava ao lado. Os tijolos estavam encardidos e ensebados. Na fachada, só duas pequenas janelas, mantidas fechadas apesar de o dia estar muito bonito. Acima das janelas se erguia uma torre alta e suja, um pouco tombada para a esquerda. A porta da frente estava precisando ser repintada, e entalhada em seu centro havia a imagem de um olho. A construção inteira caía para um dos lados, como um dente torto.
(*) Justice pode, de fato, ser "Justiça” (como Klaus achou que fosse). Mas é também o título usado na Inglaterra e nos Estados Unidos para designar."juiz da Suprema Corte". (N. T)
“Oh!", disse Sunny, e todo mundo entendeu o que ela quis dizer. Ela quis dizer: "Que lugar mais terrível! Não quero ir morar lá de jeito nenhum!".

"Bem, foi um prazer conhecer a senhora", disse Violet para a juíza Strauss.

“Sim", disse a juíza, e indicou com um gesto o seu vaso de flores. "Quem sabe vocês não aparecem qualquer dia desses para me ajudar na jardinagem?"

“Isso seria muito agradável", disse Violet muito tristemente. Sem dúvida, seria muito agradável ajudar ajuíza Strauss em sua jardinagem, mas Violet não pôde deixar de pensar que seria bem mais agradável morar na casa da juíza Strauss, e não na casa do conde Olaf. Que tipo de homem seria aquele, perguntou-se Violet, capaz de entalhar a imagem de um olho na sua porta da rua?

O sr. Poe tocou com os dedos respeitosamente aba do seu chapéu para se despedir da juíza Strauss, que sorriu para as crianças e em seguida desapareceu dentro de sua adorável casa. Klaus deu dois passos para a frente e bateu à porta do conde Olaf, com os nós dos dedos fazendo pontaria bem no centro do olho entalhado. Houve uma pausa, e logo a porta se abriu com um rangido, e as crianças viram o conde Olaf pela primeira vez.

"Olá, olá, olá", disse o conde Olaf num murmúrio ofegante. Ele era muito alto e muito magro, e vestia um terno cinzento com várias manchas escuras. O rosto estava sem barbear e, no lugar das duas sobrancelhas que a maioria dos seres humanos possui, tinha uma única, bem comprida. Seus olhos brilhavam intensamente, o que lhe dava uma aparência de faminto e zangado ao mesmo tempo. "Olá, meus filhos. Entrem em seu novo lar, mas antes esfreguem a sola dos sapatos ai fora, para não trazerem lama para dentro de casa."

Quando entraram na casa, com o sr. Poe atrás, os órfãos Baudelaire perceberam o ridículo das palavras que o conde Olaf acabara de dizer. A sala em que se encontravam era o lugar mais sujo que já tinham visto, e um pouco de lama que trouxessem da rua não teria feito a menor diferença. Mesmo à luz fraca de uma única lâmpada presa num fio que pendia do teto, as três crianças podiam ver que tudo naquela sala estava na maior imundície, desde a cabeça empalhada de um leão pregada na parede até a tigela com pedaços de maçã sem casca sobre uma mesinha de madeira. Klaus fez força para não chorar quando passou os olhos à sua volta.

“Parece que esta sala está precisando de uma limpeza", disse o sr. Poe, tentando enxergar na penumbra reinante.

"Sei muito bem que minha humilde morada não se compara à mansão dos Baudelaire", disse o conde Olaf, "mas talvez com um pouco do seu dinheiro possamos lhe dar um aspecto melhor."

Os olhos do sr. Poe cresceram, tomados de surpresa, e sua tosse ecoou pela sala escura antes de ele falar. ''A fortuna dos Baudelaire", disse com firmeza, não será usada para finalidades como essa. Na verdade, não será usada de forma nenhuma antes de Violet atingir a maioridade."

O conde Olaf se virou para o sr. Poe com um piscar de olhos semelhante ao de um cão enfurecido. Por um instante Violet pensou que ele ia esbofetear o sr. Poe. Mas ele engoliu em seco - as crianças viram o seu pomo-de-adão se mexendo para cima e para baixo dentro da garganta magrela - e deu de ombros.

"Tudo bem", disse, "para mim tanto faz. Muito obrigado, sr. Poe, por tê-los trazido até aqui. Meus filhos, agora deixem-me mostrar o seu quarto."

''Adeus, Violet, Klaus e Sunny", disse o sr. Poe, encaminhando-se para a porta da rua. "Espero que sejam muito felizes aqui. Continuarei a visitá-los ocasionalmente, e vocês podem me procurar no banco se tiverem perguntas a fazer."

"Mas nem sequer sabemos onde fica o banco",disse Klaus.

"Tenho um mapa da cidade", disse o conde Olaf.

“Adeus, sr. Poe. O conde se inclinou depressa para a frente a fim de fechar a porta, e os órfãos Baudelaire estavam mergulhados demais em seu desespero para querer se despedir do sr. Poe ainda uma última vez. Naquele momento teriam desejado mais que tudo continuar na casa do sr. Poe, apesar do mau cheiro. Em vez de olhar para a porta, os órfãos olharam foi para baixo, e viram que, embora o conde Olaf estivesse calçado com sapatos, não estava usando meias. E dava para eles verem, no intervalo de pele muito branca situado entre a surrada bainha da calça e o seu sapato preto, que o conde Olaf tinha tatuada a imagem de um olho em seu tornozelo, igual à do olho em sua porta da rua. Ficaram imaginando quantos outros olhos não haveria na casa do conde Olaf, e veio-lhes um pressentimento de que, para o resto de sua vida, estariam sempre se sentindo sob a estreita vigilância do conde Olaf, mesmo quando ele não estivesse por perto.



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