Deus de Aristóteles, dos estoicos e de Tomás de Aquino: Possíveis fusões



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Deus de Aristóteles, dos estoicos e de Tomás de Aquino: Possíveis fusões
Resumo
A finalidade do artigo é descrever e articular as concepções de Deus de Aristóteles, dos estoicos e de Tomás de Aquino, estabelecendo possíveis aproximações e fusões, considerando as épocas históricas distintas. A concepção do Inteligível de Aristóteles como uma substância incorruptível, imutável, imóvel, ato puro e pensamento de pensamento, influenciou a visão estoica de um Deus providente, eterno, criador, ordenador do cosmos, perfeito, inteligente, sumamente feliz e onipotente a qualquer mal. Essas duas fusões acabam influenciando a teologia racional medieval, principalmente o Deus filosófico de Tomás de Aquino, mas foi ampliado para horizontes desconhecidos do mundo grego. Assim, Deus é causa de si mesmo, capaz de criar o mundo do nada, portador de sentido do ser das criaturas, summum bonum. É o Deus pessoal bíblico-cristão, conosco, presente no mundo. Do seu ato de ser, procede a realidade, o pensamento, o conhecimento, a verdade, a bondade, a beleza, a liberdade, enfim, a beatitude. Pela contemplação filosófica, é possível alcançar a beatitude dessas três visões de Deus e a felicidade verdadeira.
Palavras-chave: Deus; contemplação; beatitude.
Abstract

God of Aristotle, of the Stoics and Thomas Aquinas: Possible fusions

The purpose of the article is to describe and articulate the conceptions of God of Aristotle, of the Stoics and Aquinas, establishing possible approximations and fusions, considering the different historical epochs. The conception of Aristotle's Intelligible as an incorruptible, immovable, immovable, immovable, pure act, and thought-of-thought, influenced the stoic vision of a provident, eternal, creative creator of the cosmos, perfect, intelligent, exceedingly happy and omnipotent to any evil . These two merges end up influencing medieval rational theology, especially the philosophical God of Thomas Aquinas, but has been enlarged to horizons unknown in the Greek world. Thus, God is the cause of himself, capable of creating the world out of nothingness, bearer of the sense of being of creatures, summum bonum. It is the personal biblical-Christian God, with us, present in the world. From his act of being, reality proceeds, thought, knowledge, truth, goodness, beauty, freedom, finally, beatitude. By philosophical contemplation, it is possible to attain the beatitude of these three visions of God and true happiness.
Keywords: God; contemplation; beauty.
Introdução
De acordo com a concepção cosmocêntrica do mundo antigo, o homem, a natureza e o divino se fundem num horizonte de totalidade teleológica, ainda que em diversos planos e com fins subordinados, sendo o fim último ou o bem supremo do homem a eudaimonía ou a felicidade. O próprio movimento da vida, desde seus graus mais inferiores, como o mundo inorgânico, vai harmonizando-se teleologicamente cada vez em formas superiores e mais perfeitas, até chegar ao homem, horizonte último, que, pelo conhecimento, toma posse do universo e lhe dá sentido. Em realidade, é o homem o fim, coroa e cumprimento de todo o mundo sensível. O cosmos sem o homem ficaria sem razão teleológica de ser e existir. É o homem que dá sentido, conteúdo e unidade ao universo. E o homem, devido a sua capacidade intelectiva, procura compreender as diferentes manifestações do real, do ser. Assim, nessa concepção, a finalidade, a teleologia é o fio condutor e interpretativo de toda a realidade. E conhecer a natureza da realidade divina, é o objeto mais nobre teologia racional do mundo grego.

Assim, Aristóteles relaciona a felicidade perfeita, por meio da atividade contemplativa, com as atividades dos deuses que representam o Inteligível ou o Motor Imóvel, “comumente identificado com Deus” (BERTI, 2002, p. 23), razão de ser e de existir de todos os seres, principalmente do homem. O filósofo, que ama a sabedoria, mesmo sabendo da distância que separa o homem do Inteligível, deseja conhecer sua natureza divina para contemplá-la. E a filosofia, seguindo a tradição socrático-platônica, é o caminho para alcançar essa função nobre, divina e perfeita.

Essa visão de Deus influenciou as concepções de Deus desenvolvidas pela tradição posterior, principalmente a estoica e a síntese tomista na época medieval.

Para os estoicos, o universo é ordenado por Zeus ou Deus e todas as criaturas, principalmente a humana, possuem sua especificidade com o Grande Todo. Como num organismo, onde cada orgão possui seu lugar e tem uma função, na ordenação divina do cosmos, também cada ser desempenha uma função elevada. E tudo isso se realiza de forma justa, harmonisosa e bela. “Isso quer dizer que o mundo, longe de ser um simples acidente, um acaso desordenado, é na verdade subordinado a um ordenamento prévio, ou seja, a um fim”. (SANGALLI, 1998, p. 102).

Tomás de Aquino, para constituir sua síntese filosófico-teológica, amplia, critica, ultrapassa e endossa várias teses ou princípios da tradição filosófica e teológica antiga e medieval. Deus é o princípio do ser, o princípio de tudo o que existe, porque Deus é. Todos os seres refletem, pela doutrina da participação e da analogia, o ato puro do ser, principalmente o homem, pela sua capacidade volitiva e cognoscitiva. Todavia, mesmo que o ser primeiro se manifeste nas criaturas, de acordo com a tese aristotélica, ele permanece como princípio supremo e imutável, totalmente diferente das mesmas, porque ele é ato puro.

O objetivo deste texto é caracterizar as concepções de Deus de Aristóteles, dos estoicos e de Tomás de Aquino, estabelecendo possíveis aproximações e fusões.

Inicialmente abordaremos as três concepções de Deus. Depois, estabeleceremos as possíveis relações e fusões entre as visões.

O Inteligível, o Deus de Aristóteles


Para Aristóteles, o ramo mais elevado da atividade contemplativa é a teologia ou metafísica (Met. E (V) 1, 1026 a, 19-22), pois há uma estreita ligação entre ambas (RUSSELL, 1982). Assim, o filósofo aproxima-se do Inteligível “e nisso Aristóteles indicou a máxima felicidade do homem” (REALE, 1994, p. 339).

Por meio da contemplação do Inteligível, que é sumamente bem-aventurado e feliz, o homem realiza também uma atividade bem-aventurada, porque há uma imbricação ontológica entre o homem e a divindade. Os animais, por sua vez, não participam da felicidade e são completamente destituídos de possibilidade contemplativa.

Os homens que se dedicam às atividades da razão e da contemplação são os mais queridos pelos deuses, os mais honrados, porque cultivam o que é mais nobilitante e peculiar da natureza divina - a atividade contemplativa. “Quem estiver nestas condições será provavelmente mais feliz. Sendo assim, o sábio é o homem mais feliz” (EN X 8, 1179 a, 38-39, p. 206). Por isso que Aristóteles identifica a atividade do filósofo como análoga, em certos instantes privilegiados de contemplação, à do Inteligível, que é pensamento de pensamento, ser dos seres, estabelecendo-se uma espécie de tangência e simetria com o Inteligível.

O Inteligível é causa e princípio de todas as coisas, sendo substância ou a ousía eterna. Causa e princípio, é “o que funda, o que condiciona, o que estrutura” (REALE, 1994, p. 340). Consequentemente, a substância é o fundamento último de toda realidade, sendo todas as outras categorias (qualidade, quantidade, relação, ação, etc.), propriedades e movimentos ou afecções da substância.

Para Aristóteles, três são os gêneros de substâncias, hierarquicamente ordenadas, constituídas pelas substâncias sensíveis corruptíveis (água, ar, terra e fogo), substâncias sensíveis incorruptíveis (céus, planetas e estrelas) e a substância imóvel (Met.  (XII) I, 1069 a, 30-34). A imóvel é o Inteligível, objeto peculiar da investigação metafísica, pois não necessita de nenhum outro ser para ser movido.

Se o Inteligível é uma substância eterna, eterno é seu movimento e sua causa. Se houvesse movimento, o Motor Imóvel seria movido por outro, depois por outro, de motor em motor, processo de movimento que jamais chegaria ao fim. Consequentemente, o Inteligível é ato puro, sem potencialidade, necessário, subsistente por si, existindo como Verdade, Bondade e Beleza. O viver do Inteligível é perenemente prazer e felicidade total, absoluta, condição, logicamente, impossível ao homem. Por isso,


a felicidade chega apenas até onde há contemplação, e as pessoas mais capazes de exercerem a atividade contemplativa fruem mais intensamente a felicidade, não como um acessório da contemplação, mas como algo inerente a ela, pois a contemplação é preciosa por si mesma. (EN X 8, 1178 b, 49-54, p. 205).
Contemplar o Inteligível é atingir a atividade autocontemplativa e a coincidência da inteligência e Inteligível, porque o Inteligível é essencialmente pensamento de pensamento, pensamento daquilo que é mais excelente ao homem. Conhecendo-O, o homem se conhece. Para Hadot (2008, p. 131), Aristóteles indica um “interesse desinteressado”, que “corresponde ao afastamento de si, pelo qual o indivíduo se eleva ao nível do espírito, do intelecto, que é seu verdadeiro eu, e toma consciência da atração que exerce sobre ele o princípio supremo, desejável supremo e inteligível supremo”.

Russell (1982, p. 192) interpreta a concepção do Inteligível de Aristóteles, um tanto livremente, da seguinte maneira:


Deus existe eternamente, como pensamento puro, felicidade, autorrealização completa, sem quaisquer propósitos não realizados. O mundo sensível, ao contrário, é imperfeito, mas têm vida, desejo, pensamento de uma espécie imperfeita, e aspiração. Todas as coisas vivas têm consciência, em maior ou menor grau, de Deus, sendo levadas à ação por admiração e amor a Deus. Assim é a causa final de toda atividade.
Enfim, a pesquisa de Aristóteles sobre a natureza do Inteligível, no dizer de Reale (1994, p. 337), não é só um momento da investigação metafísica, “mas é o momento essencial e definidor”. O saber especulativo, racionalmente alcançável, desemboca estruturalmente na teologia. Com o conhecimento da teologia ou filosofia primeira, é possível caracterizar o Inteligível e contemplá-lo, porque o seu viver é o mais excelente.
Deus dos estoicos
A doutrina sobre Deus dos estoicos é discutida por Zenão de Cítio, o fundador do estoicismo, na obra Da substância, por Cleantes, na Dos átomos, por Crisipo, na Física e por Posidônio, também na Física. Por isso, “Deus é uma substância única, quer se chame mente, ou destino, ou Zeus, mas é designada ainda por muitos outros nomes” (LAÉRTIOS, 2008, p. 212), como Atena, Hera, Poseidon e Dêmetra.

Para os estoicos, de acordo com a tradição filosófica precedente, principalmente platônico-aristotélica, Deus é eterno e criador demiurgo de todas as coisas que existem no cosmos. Estes dois princípios não foram gerados. São incorruptíveis e incorpóreos, logo, sem formas. Já os elementos, como a água, o ar, terra e fogo são gerados, logo, corruptíveis, porque possuem movimento e uma forma determinada.

Porém, convém destacar, que o Logos dos estoicos não é essencialmente espiritual, mas material, porque o que não tem corpo, não é capaz de produzir ação, de agir. Entretanto, a matéria do Logos é especial e sutilíssima, capaz de penetrar em qualquer matéria. Seguindo a tradição de Heráclito, esse Logos foi identificado com o fogo ou o éter.

No princípio, Deus estava só em seu ser. Depois criou os quatro elementos: fogo, ar, água e terra, que formam a matéria do cosmos. (LAÉRTIOS, 2008, p. 212).

Convém destacar ainda que, para os estoicos, o termo cosmos possui três significados distintos. Primeiro, o cosmos é o próprio Deus ou Logos, sendo incriado e autor da ordem universal; é o autor da ordem cósmica das estrelas e, por fim, é uma substância universal.

Segundo Posidônio, na obra Elementos de meteorologia, o cosmos é um sistema formado pelo céu e a terra e suas naturezas intrínsecas, isto é, um sistema de deuses e homens e todas as suas coisas criadas. E a sede de Deus, da divindade, é o céu, na circunferência extrema.

Além disso, o cosmos é ordenado pela razão e pela providência. Por isso, o cosmos é um ser vivo, racional, animado e inteligente. O homem é parte desse cosmos, assim como todos os seres, todas as criaturas. (SANTOS, 2011). A liberdade do homem, seu destino, consiste em conformar-se às leis do cosmos, da natureza, e segui-las de forma irrestrita, porque o cosmos é anterior à humanidade. (SÊNECA, 2004). Dizer que o homem é parte do cosmos é o mesmo que ser parte de Deus, pois, de certa forma, assim como em Tomás de Aquino, cosmos e Deus se identificam. Logo, Deus exerce uma providência, um amparo especial sobre o homem e todas as suas criaturas. Logo, no estoicismo, há uma imbricação ontológica entre cosmos, Deus, natureza, providência e razão.

Enfim, o Deus estoico é racional, imortal, eterno, perfeito, inteligente, sumamente feliz, onipotente a qualquer mal, solícito em sua providência em relação ao mundo e tudo o que existe, porém, não possui forma humana. (SANTOS, 2011). É o demiurgo do universo que tudo plasma, deixando sua marca benevolente e indelével. É o pai de todas as coisas e está em todas as partes, de forma total ou parcial.

Para ilustrar o Deus estoico, vejamos, em parte, o poema Hino a Zeus, de Cleantes de Assos, discípulo de Zenão de Cítio, em homenagem à divindade estoica, do qual procede o cosmos, o homem e todas as criaturas:
Tu, que és o mais glorioso dos imortais, eternamente todo-poderoso e com múltiplos nomes, Zeus autor da natureza, que governas todas as coisas segundo a tua lei,
Eu saúdo-te, porque é permitido a todos os mortais dirigir-te a palavra.
[...].

Nada se produz na terra sem ti, nem na divina e etérea abóbada celeste nem sobre o mar, salvo os atos, na loucura que lhes é própria, os criminosos executam.


[...].

Outros desejam imoderadamente ganhos fraudulentos,


Outros ainda a licença e os prazeres do corpo
[...]. Eles são levados de um objeto para o outro,
E embora o façam com grande zelo, atingem exatamente o inverso daquilo que pretendiam.
Mas tu, ó Zeus, que dás todo o bem, tu que envolves as nuvens, mestre do raio,
Livra os homens da miserável ignorância,
[...]. (RHB, 2016).

O Deus de Tomás de Aquino


A análise filosófica das cinco vias, isto é, do movimento, da causalidade eficiente, do necessário e do contingente, dos graus de perfeição e da finalidade ou teleologia (S.Th I, q. 2, 3, c; SCG I, c. 13 ), é uma demonstração dos efeitos de Deus, de sua manifestação e presença no mundo e nos seres pelo ato da criação, trilhando os caminhos percorridos pela tradição metafísica grega, romana, judaica e árabe ao ser absoluto.

Para Tomás de Aquino, de acordo com a tradição precedente, principalmente a platônica, aristotélica, estoica, neoplatônica, bíblico-cristão e a agostiniana, Deus também é o princípio de todo movimento e é absolutamente imóvel. Se ele é princípio, ele existe. Assim, faz-se necessária a existência de um primeiro motor imóvel no mundo da natureza, supremo na sucessão dos movimentos das coisas que se movem umas às outras.

E essa eternidade é uma propriedade de sua natureza. Dessa forma, é eterno por propriedade da natureza aquilo que sempre existiu e cuja existência está toda simultaneamente realizada, estando toda em ato. Por isso, Boécio definiu a eternidade como “sendo ‘total possessão, simultânea e perfeita, de uma vida interminável” (C.Th I, c. 8, 3, p. 38).

Se for eterno, tem necessariamente existência por si mesmo, constituindo-se intrinsecamente, sem sucessão, logo, sem movimento, onde nada pode desaparecer, nem ser acrescentado, porque o seu ser é todo simultâneo. Assim, Deus é o único ser necessário por si mesmo. Caso não fosse, de acordo com o argumento de Aristóteles, haveria o regresso ao infinito. Mas a substância divina é a causa primeira.

Deus é simples, sendo sua própria essência, onde essência é seu próprio ser, pois essência e existência se identificam, exceto nas criaturas. Se em Deus não há gênero, consequentemente, nem acidente, somente o conhecemos por meio de negações, de conceitos negativos. Se é subsistente, é imaterial, incorpóreo, sem figuras e similares.

Por isso, perquirir que é Deus?, tem a seguinte resposta: Ele é seu próprio ato de ser, o puro ato de ser, sem potência, porque em Deus não há composição, pelo fato de ele ser o ato último. Consequentemente, nas criaturas, uma coisa é a essência, aquilo que o ser é, porque a essência mostra o que uma coisa é, ou seja, o homem é um ser racional. A essência define, dá significado ao objeto. Outro é o ser, aquilo que é, porque pelo ser se deduz o que uma coisa é, isto é, um homem, uma árvore. Na substância divina, o ser de Deus não é um acidente, mas causa permanente, verdade subsistente, seu próprio ser (SCG I, c. 22, 8).

Ora, se Deus é o primeiro agente, ele é absolutamente imutável e impassível, sendo a causa eficiente primeira. Por causa disso, em Deus não há corpo, porque não há partes, composição, nem quantidade, porque não há potência. Se houvesse corpo, logicamente, seria finito, retilíneo e esférico.

Sendo assim, se a essência divina é simples e perfeita, ela não se encontra nas criaturas como parte delas, mas sim como causa. Se fosse parte, seria potência. E se Deus é causa de si mesmo, possui em plenitude seu ser. Logo, Deus é bom, e o que é bom move-se por si mesmo, sendo sua própria bondade. E se Deus é bom, contemplá-lo na sua bondade infinita, por meio da atividade contemplativa, pela virtude da sabedoria, é o ômega da beatitude alcançável nesta vida.

Se Deus é o summum bonum, ele é uno, porque seu movimento é contínuo. E se ele é uno, é infinito. Mas não é um infinito quantitativo, numérico, que implique imperfeição, mas no sentido negativo, espiritual, como algo sumamente perfeito. Por isso, de nenhum modo é possível o intelecto humano pensar em algo maior que a plenitude infinita do ato puro.

Na substância divina encontram-se todas as perfeições em plenitude absoluta. Logo, dentre todas as perfeições almejadas pelo homem nesta vida, uma delas é conhecer a Deus pelos seus efeitos, em forma de atributos, de propriedades e de perfeições. Deus tem a intelecção perfeita de si mesmo, porque a perfeição está na intelecção. E “a sabedoria consiste no conhecimento das altíssimas causas” (C.Th I, c. 33, 2, p. 54), que é Deus, de acordo com Aristóteles.

Além disso, o ser primeiro, conhecendo a si mesmo, conhece todas as coisas. E conhecer todas as coisas, significa conhecer pelas causas primeiras e últimas e, por conseguinte, pelos seus efeitos. Por isso, a essência divina é perfeitíssima, e a operação própria do homem em busca do bem supremo é aperfeiçoada pela potência e pelo hábito. Assim, “a beatitude e felicidade última de toda substância intelectual é conhecer a Deus” (SCG III, c. 25, 13, p. 422 ).

De acordo com essa forma de pensar, o homem, parte constituinte do universo, deve procurar ultrapassar os limites do cosmos e, de certa forma, os seus próprios limites.

Para Vaz, o cosmocentrismo antigo possui um caráter de natureza essencialmente teológico. Devido a essa característica, ele entrou em confronto com o teocentrismo da revelação bíblica cristã. O frade dominicano, com maestria, fundiu essa visão de mundo, oriunda, sobretudo, do aristotelismo e do neoplatonismo, com a essência da mensagem cristã, portadora de esperança. Entretanto,
o cosmo como totalidade perfeita tem como predicado fundamental a divindade. É o theion por excelência. Sendo assim, sua contemplação assume, necessariamente, a forma de uma teologia. De resto, a teologia cristã constitui-se em grande parte utilizando as estruturas conceptuais dessa teologia cósmica, embora criticando-a nas suas expressões panteístas (VAZ, 1993, p. 42).
Na esteira do neoplatonismo, Tomás tem como princípio que tudo provém de Deus e tudo retorna a Deus. Daí a necessidade humana de conhecer a Deus. (JOSAPHAT, 2014).
Possíveis relações entre o Deus de Aristóteles, dos estoicos e de Tomás de Aquino
Se os gregos desenvolveram na metafísica um conceito de Deus como o ser mais universal, abstrato e distante, sem relação direta com o cosmos, o homem e a natureza (PEGORARO, 2007), os estoicos procuraram, a exemplo do cristianismo, mesmo mantendo sua transcendência absoluta, aproximá-lo à vida humana. Para eles, a divindade torna-se também imanente, sendo, inclusive, pela meditação, um dos caminhos da vida boa, da felicidade. (SÊNECA, 2004).

Na visão dos estoicos, Zeus, como pai eterno, criador do universo e das leis da natureza, dispõe toda obra da criação a serviço da humanidade. Ele conhece as vicissitudes dos homens e é conclamado por Cleantes, como vimos no poema acima, a intervir nas ações imorais dos homens, para que eles se tornem melhores, livrando-os da miserável ignorância, expulsando-a de suas almas, para que possam contemplar e praticar a justiça, a arte de viver bem, a vida boa.

Essa proximidade tem alguma semelhança com o Deus bíblico do cristianismo. Com a fusão da filosofia grega com o cristianismo, sobretudo do platonismo, do neoplatonismo e no século XII e XIII do aristotelismo, além da influência dos judeus e dos árabes, engendrada pelos apologistas e pelos padres da Igreja, desde os primeiros séculos até o século XV, o Deus da metafísica grega assume as propriedades de ser supremo, Deus único, Deus pessoal, verdadeiro e bom. (JOSAPHAT, 2014).

Tomás de Aquino apropria-se das premissas das categorias noético-metafísicas desenvolvidas por Platão e Aristóteles, ampliando-as profundamente na perspectiva de um novo contexto teológico, antropológico e ético, que é a revelação cristã, estabelecendo fusões.

Assim, para Tomás de Aquino, se, na filosofia primeira de Aristóteles, o Inteligível é a substância, a causa e o princípio de todas as coisas, sendo a substância eterna, aquilo que condiciona, estrutura e dá fundamento a tudo, na visão do Aquinate, na ciência divina, esse Inteligível, com as devidas distinções de contextos diferentes, se transforma no ser de Deus. (PEGORARO, 2007). Além disso, do ato puro, do ato de ser, procedem o pensamento, o conhecimento, a verdade, a bondade, a beleza, a liberdade, enfim, a beatitude ou a vida boa.

Essa fusão entre o Deus ato puro aristotélico e todas as coisas do mundo e as coisas humanas de Tomás de Aquino, possui resquícios estoicos. “Este [estoicismo] vem em parte diluído nos escritos de pensadores romanos, como Cícero e Sêneca”. (JOSAPHAT, 2014, p.21).

Ainda, Tomás de Aquino remodela e incorpora os pressupostos das éticas teleológicas antiga, de matriz cosmocêntrica, partindo de uma visão radicalmente teocêntrica, cristã. Esses atributos, objeto de investigação da metafísica, alcançados pelo sábio por meio da virtude suprema da sabedoria, são a contemplação da ordem, da harmonia e da perenidade do cosmo e da natureza do Inteligível e do Zeus providente estoico. (JOSAPHAT, 2014). Logicamente, o Inteligível passa a constituir-se também como princípio, ato puro, eterno, imóvel, sem movimento e gênero, simples, ser imutável e necessário.

Para Gilson (1962), em Tomás de Aquino, essa visão do Deus de Aristóteles e dos estoicos é explícita na sua teologia racional. É nesse sentido que toda a sua síntese filosófica, antropológica e teológica está ancorada e estruturada na busca pelos atributos da unidade do ser, ou seja, na busca teleológica do ser primeiro e último, criador e portador de sentido para todos os seres criados. Afinal, Deus é o princípio do ser, o princípio de tudo o que existe, porque Deus é. Todos os seres refletem, pela doutrina da participação e da analogia, o ato puro do ser, principalmente o homem, pela sua capacidade volitiva e cognoscitiva. Todavia, mesmo que o ser primeiro se manifeste nas criaturas, ele permanece como princípio supremo e imutável, totalmente diferente das mesmas, porque ele é ato puro.

Entretanto, a ontologia do Aquinate não se resume a um conjunto de princípios e enunciações verbais, lógicas e abstratas. Sua concepção de ser funda-se na compreensão ontológica de actus essendi, isto é, no ato de ser, no ato de existir, onde o ser é ato de todos os atos, a perfeição de todas as perfeições, o ato puro, a atividade primeira. Em outras palavras, Deus. Portanto, “como Deus é Ato Puro de Ser, toda participação na perfeição da natureza divina será, antes de mais nada, uma participação daquele ato supremo”. (GILSON, 1962, p. 41).

Já o ente, a criatura, ou seja, todo o ser criado exerce o ser e participa do ser, porque é criatura do ser primeiro. Consequentemente, o ente ou coisa é portador de sentido do ser, porque carrega o ser intrínseco à sua natureza. De forma semelhante, na visão estoica de Deus, a teologia cósmica ou racional de Cleantes pressupõe a presença imanente da divindade no cosmos, num mundo ordenado, harmônico e imutável, de acordo com os pressupostos ontológicos em voga. O Deus ou o Zeus dos estoicos, com múltiplos nomes, situa-se na esfera humana, na antroposfera, permeando em toda a dimensão da contingência humana. Estabelece-se, assim, uma relação mais próxima entre o homem e a divindade.

Na síntese tomista, ainda, no horizonte do teocentrismo cristão, com a noção de criação ex nihilo (do nada), do Deus pessoal, da providência, do amor e da bondade divina infinita, conceitos desconhecidos em Aristóteles e nos estoicos, Tomás consegue transcendê-las. Uma delas, é a interpretação e fusão da passagem do Ex 3, 4, onde o Deus pessoal se apresenta como “Eu sou aquele que é”. O ser, isto é, o Bem em Platão, o Inteligível em Aristóteles, o Uno em Plotino, torna-se o conceito mais universal intuído pela razão discursiva e demonstrativa. Para os pensadores medievais, esse ser assume o estatuto de Deus único, pessoal, bom e verdadeiro.

De certa forma, essa visão de mundo e da posição do homem no cosmos aparece no poema de Cleantes, nas seguintes passagens: Pelo reconhecimento das obras de Zeus, já que não há maior privilégio, tanto aos homens como aos deuses, de cantar sua a lei universal.


Considerações finais
De acordo com as três concepções de Deus, há uma busca para estabelecer uma relação intrínseca entre o conhecimento de Deus e a concretização da felicidade ou beatitude pela atividade contemplativa. Essa raiz e busca de fusão encontra-se na pergunta socrática de como convém viver ou o fim último do homem, a felicidade, que era uma questão central nas éticas teleológicas antigas e medievais. E se existem várias formas para alcançar e beatitude, a mais elevada é pela atividade da meditação e da contemplação do divino, identificado como Zeus, Bem, Inteligível ou Primeiro Motor, Deus. Inclusive, os grandes sistemas filosóficos de Aristóteles, dos estoicos e de Tomás de Aquino, desembocam estruturalmente e teleologicamente nas respectivas noções de Deus. E os pressupostos que asseguram essa simetria entre Deus e o homem, é a metafísica de Aristóteles, a ética dos estoicos e a filosofia primeira de Tomás de Aquino.

Dessa forma, Tomás de Aquino, apropria-se das teses aristotélicas dos atributos de Deus como uno, imóvel, ato puro, etc., e das teses estoicas acerca de Deus e do cosmos, principalmente as categorias da criação, providência, eternidade, portador de sentido, o homem como parte do cosmos, etc., mas amplia-as e efetua uma fusão profunda com as noções do Deus pessoal bíblico-cristão.

Assim, o Deus de Aristóteles é um ser distante, impessoal e totalmente transcendente. Ele não conhece o mundo nem o indivíduo. Já o Deus dos estoicos sustenta uma certa relação com o mundo pela via da providência, pois conhece as vicissitudes dos homens, mas ainda permanece distante do mundo. Porém, o Deus de Tomás de Aquino é um Deus pessoal, conosco, pois conhece o mundo e a criatura, mas mantêm sua transcendência, porque é criador do universo e portador de sentido último à criatura.
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