Diferença pela repetição das imagens comuns



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Encontro02.05.2018
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Diferença pela repetição das imagens comuns:

pensamentos pelo filme Janela da Alma

Alik Wunder

Faculdade de Educação – Unicamp

alik@unicamp.br
Resumo:
Muitas das imagens de escolas que acompanharam minhas conversas com educadores(as) na disciplina "Escola, Gestão e Cultura" podem ser consideradas comuns, imagens da repetição cotidiana das escolas. Para estas fotografias, pergunto: onde está a repetição e onde está a diferença nas imagens? É possível estas imagens comuns agirem? Envolvida por estas perguntas, escolhi (fui escolhida) a percorrer os beirais das janelas do filme "Janela da Alma", pelas repetições de suas paisagens comuns, pelas diferenças que se produzem por/com/através delas. Olhares em trânsito, visão em constante escape, desterritorização por diferentes umidades, velocidades, luminosidades, aproximações e focos. Produção de sentidos nômades na repetição de paisagens comuns, a diferença/acontecimento que se faz pelo comum da repetição.
Palavras-Chave: Imagens cotidianas – acontecimento – “Janela da Alma”

Um fotógrafo, um músico, uma criança, uma atriz, um professor, cineastas, escritores, poetas – personagens, ora bastante conhecidos do público, ora desconhecidos, preenchem o documentário brasileiro Janela da Alma (João Jardim e Walter Carvalho) com suas experiências de olhar o mundo e olhar-se. A escolha dos entrevistados parece ter sido guiada por suas formas diferenciadas de ver, moldadas por limites, como a cegueira, a miopia e o estrabismo e por suas experiências com as linguagens artísticas, que aparecem entremeadas por suas memórias de amores, tristezas, incômodos e descobertas.

Na justaposição das falas, parece haver, em alguns momentos, uma busca de que elas se complementem, que construam um sentido de entendimento sobre o tema. Ao mesmo tempo em que isso ocorre, as curtas seqüências de imagens e sons que entremeiam as entrevistas - cidades, campos, corpos e elementos da natureza – parecem quebrar as rédeas do sentido discursivo, implodem a previsibilidade e impõe o desconcerto (Ribas, 2003, p.10). Seqüências acompanhadas por sons - vozes, melodias, ruídos - vão adensando outras imagens às palavras. Os sonsi não esgotam os vazios, a melodia cria pausas. Os barulhos e as palavras por várias vezes não se traduzem, não se legendam reciprocamente. A correspondência entre som e imagem não é decodificável apenas pela visão, mas submete o espectador à experiência de ver por outros sentidos, a vivenciar a sinestesia mais próxima do míope, do cego, do ler em braille: tatear objetos e articular respostas (Ribas, 2003, p.07).

As seqüências alteram, em som e imagem, variáveis que acompanham o ato de olhar. As luminosidades do amanhecer, anoitecer, sol a pino e escuridão. As umidades dos solos secos, trepidar do fogo, prelúdios de uma tempestade, pele úmida, gotas de chuva escorrendo pelos vidros. As velocidades de um olhar lento pela noite da cidade, a rapidez das pernas das crianças no pátio da escola e do som ritmado de um trem. As várias aproximações pelos poros da pessoa amada e pelo horizonte no cume da montanha. As diferentes direções do olhar pelos ladrilhos do piso de um hospital, pela dança dos galhos de árvore em contraste com o céu. Os focos improváveis que criam formas abstratas pelas luzes da cidade e pelos reflexos do sol na superfície das águas do mar. O encontro com algumas destas seqüências tomou-me pela poesia, como se abrissem no filme momentos de sem-sentido. Por estes vazios de entendimento desejei percorrer, buscando outros adensamentos de sentidos ao ato de olhar.

Escolhi (fui escolhida) a percorrer os beirais das janelas do filme Janela da Alma pelas repetições de suas paisagens comuns, as diferenças que se produzem por/com/através delas. As imagens através de janelas em movimento – de trens, de carros, de avião - compõem mais da metade das 26 seqüências que entremeiam os depoimentos. Nos próprios depoimentos as janelas invadem as cenas de forma silenciosa. Há sempre uma abertura que acompanha os entrevistados: ao lado, atrás, em cima, por vezes visíveis apenas pela luz oblíqua que atravessa os rostos. O filme, com sutileza, leva-nos a pensar sobre o olhar por meio de suas imagens quase invisíveis. A janela aparece como uma metáfora do cinema e do olhar - o olhar dentro do olhar, o cinema dentro do cinema - e forma mais contidaii, ao fato de que todo olhar é um limite.

Entre as minhas inúmeras investidas em Janela da Alma, um amigo ensinou-me a fotografar filmes. Entrei mais uma vez nas cenas como uma viajante percorrendo e fotografando paisagens conhecidas. E nesta nova viagem, os instantâneos das paisagens compuseram outras. Vieram outras imagens, diferentes repetições.

Nas cenas iniciais do documentário, pela janela lateral de um trem passamos pelos sulcos horizontais de uma plantação que formam linhas em perspectiva. Sol a pino, luz que tudo ilumina, terra arada, solo seco, montanhas ao fundo passam rapidamente em repetição. Uma imagem monótona. Passamos por ela, rapidamente. Na música, o ritmo rápido e repetitivo também leva-nos a uma viagem de trem. A música vai sendo cortada por um ruído. Rodas raspando nos trilhos? Um desejo de parar, de percorrer devagar pelas paisagens? Minutos depois outra viagem de trem interrompe as entrevistas, uma paisagem diferente e o mesmo ruído. Na terceira interrupção, já ao final do filme, outras paisagens pelas janelas do trem aparecem-nos lentas e silenciosas.

Olhares em trânsito, um movimento nômade, uma visão em constante escape, imagens que não param. Desterritorização - nomadologia do sentido (Vilela, 2001) - por diferentes umidades, velocidades, luminosidades, aproximações e focos, variáveis que não se fixam, mudam a cada instante. Passagens contemplativas pelo campo e pela cidade, horizontes fechados e abertos, produção de sentidos nômades na repetição de paisagens comuns. A diferença – acontecimento que se faz pelo comum da repetição.



Para um filme sobre o olhar, Janela da Alma é excessivamente dependente da palavra. Li, em um texto. Para o crítico, pelas experiências anteriores dos diretores João Jardim e Walter Carvalho (principalmente este último em Abril Despedaçado e Lavoura Arcaica), esperava-se um show de virtuosismo visual:
No entanto, isto não acontece. Comedidas, as imagens estão menos preocupadas em ser belas do que demonstrar sua presença como tal. As imagens acabam por se repetir e em conjunção com os depoimentos, se tornam meras ilustrações dos mesmos. Aquilo que deveria ser o próprio cerne do filme (a imagem) é sub-utilizada na discussão de si própria (Hirata, 2002, p.2).
As paisagens deste filme não possuem um apelo espetacular, são imagens que nos remetem aos nossos olhares cotidianos, como quando andamos de carro à noite pela cidade. A repetição de cenas comuns são para o crítico o avesso do cinema belo. Por este pensamento, a imagem no filme torna-se invisível. Penso que é (quase) invisibilidades. É assim que o filme incomoda, nos violenta (Deleuze, 2006-b) e faz nos pensar. Pelo menos foi assim que a mim aconteceu.

Faço uma aproximação com os estudos de cinema e memória de Milton de Almeida. Suas belas aproximações imaginativas que recompõe tempos: os afrescos renascentistas e as imagens de cinema e televisão como imagens agentes:


Imagens agentes. Imagens de catástrofes imagens fantásticas, imagens violentas e ensangüentadas, imagens de ambientes aristocráticos, nobres, burgueses, plenos de decoração maravilhosa, imagens de extraterrestres, afrescos em movimento do cinema. Não somente essas, mas todas as imagens que vemos no cinema, devido ao tamanho enormecido e os planos de aproximação, o close, por exemplo, em que aparecem na tela são também formas fantásticas. Em todos os gêneros, mesmo em seu gênero ‘cult, artístico, intelectual’, o cinema, e, também a televisão, revelam-se uma arte da memória. [...] Ritualizam, em imagens agentes, visuais e sonoras, as imagens e locais que o espectador-fiel deve recordar ao cogitar o passado, o presente e o futuro da sua vida (Almeida, 1999, p.56).


As imagens fantásticas do cinema e da televisão, e porque não das fotografias, que rompem nossos cotidianos e marcam-nos pela diferença, criam políticas visuais e educam nossas almas. Ao ler estas palavras e pensar nas imagens comuns geralmente esquecidas pelos espectadores de Janela da Alma, fico a imaginar se não seria possível pensar a ação das imagens pelo mesmo e não pela diferença. Pergunto-me sobre o que faz as imagens serem agentes? O ativo, a diferença, estaria nas imagens, no olhar do fotógrafo/cineasta, no observador?


Nós nos acostumamos a só ver aquilo que é dinâmico, que se agita ante nossos olhos, que acontece. Mas e quando nada, aparentemente, está acontecendo? Cenas praticamente imperceptíveis, a expressão num olhar, um jeito de andar ou uma luz particular incidindo obre as montanhas. Rostos, gestos e paisagens exigem contemplação. A fotografia atual, porém, só consegue ver a paisagem como palco, só consegue olhar para um rosto em busca de uma história, e em determinadas imagens de hoje há aquilo que muitas vezes nos escapa. Essas imagens têm a beleza dos pequenos gestos e das grandes paisagens (Peixoto, 1992, p. 304).
Acostumamo-nos conceber o acontecimento pela diferença, nas coisas que saltam aos nossos olhos, nos fatos impactantes que fragmentam nossos cotidianos comuns. As cenas de Janela da Alma – e suas narrativas (a história da contada pela cineasta Agnes Warda de uma filmagem que fez de seu companheiro vestindo lentamente um suéter) parecem ir à busca de imagens do dia-a-dia, destes nadas aparentes, que, no filme pela justaposição sutil e poética, simplesmente acontecem. Trago aqui o acontecimento para Deleuze:




É neste sentido que é um acontecimento: com a condição de não confundir o acontecimento com sua efetuação espaço-temporal em um estado de coisas. Não perguntaremos, pois, qual o sentido de um acontecimento: o acontecimento é o próprio sentido. O acontecimento pertence essencialmente à linguagem; mas a linguagem é o que se diz das coisas (Deleuze, p.23, 2003).
O acontecimento é o próprio sentido. É este percorrer nômade pelas coisas/seres, e os sentidos que se fazem dentro da linguagem. O acontecimento não é a história em si, a coisa em si que rompe o habitual, parece ser estes sentidos sempre em escape que se fazem no tempo presente. Neste condensamento de passados e futuros, que se faz e desfaz a cada instante, nestas contrações que partejam e abortam sempre as possibilidades de entendimentos e desentendimentos.

Muitas das imagens de escolas que escolho para acompanhar as conversas com educadores(as) na disciplina “Escola, Gestão e Cultura”, no curso de especialização para gestores escolares, podem ser consideradas comuns, são imagens da repetição cotidiana das escolas, não preocupadas com os artifícios fotográficos que transformam uma imagem comum – repetição - em fantástica - diferença: jogos de perspectiva, de luz e sombra, de linhas paralelas, da composição em ¾... Para estas fotografias produzidas cotidianamente nas escolas retorno a pergunta: onde está a repetição e onde está a diferença nas imagens? É possível estas imagens comuns agirem?

Ensaio respostas. Cair pelos abismos que a fotografia cria na sua condição de fragmento de um tempo e de um espaço. Entrar pelas invisibilidades, pelos cortes, pelas fendas abertas no tempo e no espaço. Entrar por esse vazio de sentidos. Como estas fotografias poderiam continuar no tempo e no espaço? Imaginar o que está ao lado, a cima, atrás, a frente delas. O que ocorreu no instante seguinte ao clique da fotografia? Que sons ela emana? Que cheiros ela produz? Sair na perseguição daquilo que escapa a expressão... respeitando o que as coisas comunicam sem o recurso das palavras (Peixoto, 1992, p.315). Percorrer profundidades imaginárias. As fotografias como janelas, aberturas nas superfícies, rasgos fictícios Nelson Brissac Peixoto, a partir de leituras deleuzianas, insiste que vejamos as paisagens nas imagens contemporâneas que estão nos encarando, que percebamos aquilo que faz as coisas falarem, a sua luz, o seu rio subterrâneo. Não se trata de procurar cenas naturais, mas de um modo de ver. Ver rostos e cidades como paisagens. Uma ética do olhar (Peixoto, 1992, p.309). Pensamentos que me inspiram a debruçar um olhar lento sobre estas imagens corriqueiras. Ver as imagens das escolas como paisagens, sem que necessitemos tirar delas uma história verdadeira, sem fazer seus personagens encenarem textos escritos anteriormente por nós, sem necessitarem compor um cenário maior, simplesmente entrar por estas janelas em movimento, por estas paisagens fragmentadas e repetitivas, comuns e invisíveis que passam por nós como em nossas miradas oblíquas e despretensiosas durante uma viagem de trem...


i Composições de José Miguel Wisnik.

ii no depoimento de Win Wenders em Janela da Alma.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ALMEIDA, Milton de. Cinema: arte da memória. Campinas: Autores Associados, 1999.

DELEUZE, Gilles. Lógica do sentido. 4ª ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 2003.

_____________. Diferença e Repetição. Rio de Janeiro: Graal. 2006(a).

HIRATA, Maurício. Janela da Alma vê apenas através de palavras, 2002. Disponível em: www.bibvirt.futuro.usp.br/textos/hemeroteca/sin/sin09/sino9_pdt

Acesso: 23/09/2005.

RIBAS, Maria Cristina. Depoimentos à meia luz: a Janela da Alma ou um breve tratado sobre a miopia. v.3 – nº 6, jan-jul 2003, p.65-78.

VILELA, Eugénia. Corpos inabitáveis: Errância, Filosofia e memória. In: LARROSA, Jorge; Skliar (org.) Habitantes de Babel: políticas e poéticas da diferença. Belo Horizonte: Autêntica, 2001, p.233-253.

Peixoto, Nelson Brissac. Ver o invisível: a ética das imagens. In: Novaes, Adauto (org). Ética. SãoPaulo: Companhia das Letras: Secretaria Municipal de Cultura, 1992, p.301-320.





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