Dinheiro do céu quem é o autor



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Marcos Rey

DINHEIRO DO CÉU

QUEM É O AUTOR

O verdadeiro nome de Marcos Rey é Edmundo Donato, descendente de imigrantes italianos. Nasceu em São Paulo, cidade-cenário de todos os seus livros, inclusive dos infanto-juvents.

Como seu pai era gráfico e encadernador e seu irmão mais velho, escritor, viveu desde a infância entre livros, começando a escrever muito cedo. Aos dezesseis anos publicou o primeiro conto e, algum tempo depois, o primeiro romance, Um gato no triângulo.

Para adultos, Marcos Rey já lançou oito romances, três livros de contos e dois de divulgação. A Editora Ática, em sua Coleção de Autores Brasileiros, editou quatro romances seus: Malditos Paulistas, um policial de grande sucesso, A última corrida, empolgante história de um rapazinho que adquire um cavalo de corridas e tenta ganhar o Grande Prêmio do turfe, A arca dos marechais, ficção de suspense e intensa ação psicológica, e Esta noite ou nunca, romance humoristico em forma de show.

No gênero infantil, Marcos Rey escreveu Não era uma vez, as aventuras de um menino á procura de sua cadelinha perdida na metrópole. Depois vieram os infanto-juvenis, todos publicados na Série Vaga-Lume: O mistério do Cinco Estrelas, O rapto do Garoto de Ouro (que também virou peça teatral), Um cadáver ouve rádio, Sozinha no mundo, Dinheiro do céu, Bem-vindos ao Rio, Enigma na televisão. Garra de campeão e Quem manda já morreu. Nestes há sempre uma forte trama policial e, para quem prestar mais atenção, o enfoque de problemas sociais.

Marcos Rey recebeu diversos prêmios literários e alguns dos seus livros estão sendo traduzidos no Exterior.



APENAS UM OLÁ, ANTES DE COMEÇAR

Dinheiro do céu não é uma história policial como as anteriores que escrevi para esta coleção — desculpem-me. Mas não pensem que abandonei o gênero. Vou fazer ainda muitas outras e sempre enquadrando um problema social.

Desta vez atendo a uma sugestão feita pessoalmente e por carta por muitos professores e professoras. Pediram-me eles um verdadeiro romance em que o personagem, um rapaz, já começasse a viver no intrincado mundo dos adultos. Um enredo que enfeixasse emoções, conflitos e barreiras próprios da idade. As grandes hesitações, os primeiros empregos, os primeiros amores. Achei que valia a pena tentar. Um segredo: também fui moço e sei como as coisas acontecem.

Dinheiro do céu desenrola-se em 1964, quando houve uma revolução no País. Toda boa história precisa ter um fundo histórico. Mas não se trata de coisa antiga. Pouco muDon de lá para cá, materialmente, e, no íntimo das pessoas. ainda menos.

Aos mestres preocupados em dar uma visão mais real do mundo a seus alunos, pago a promessa.

Aos meus leitores habituais, garanto — não ficarão decepcionados. Há muito suspense, enigmas e surpresas neste atribulado início de vida do personagem Danilo Marino. E também uma boa dose de humor.

Se gostarem, o jovem que fui agradece

M.R.


O SABADO DE ALELUIA

DON FRANCESCO DESAPARECE

Ouvi os passos rápidos e pesados de minha mãe, o girar da maçaneta, a porta abrindo e senti a presença dela já no quarto. “Chegou a hora de fingir”, pensei sob o lençol. Seria capaz?

— Levante-se, seu avô sumiu!

Então ergui a cabeça, despreguei os olhos e fiz a cara de espanto ensaiada madrugada adentro. E a voz, acertaria o tom?

— Vovô sumiu, a senhora disse?

— Ninguém o viu esta manhã. Vá lavar o rosto, tome café e ajude a procurar o velho. Todos estão se mexendo. Até seu tio Salvador!

— Onde devo procurar, mãe?

— Na casa dos Bonelli, na barbearia, no depósito de vinhos, em todos os lugares que ele freqüenta.

A água gelada da pia do banheiro me trouxe de volta a cena da noite passada, quando Don Francesco com um olhar que só usava nos jogos de bisca e três-sete, entrou no meu quarto, sem produzir ruídos, e soprou um psiu com o dedo nos lábios. Contou tudo em dois minutos.

— Bico fechado advertiu, com seu sotaque italiano, no final. — Só conte pro pessoal lá pela hora do grude.

Quando Fúlvio chegou (dormíamos no mesmo quarto), acho que meia-noite, quase digo ao mano o que ia acontecer na família. Mas nem abri os olhos; se abrisse, a boca também se abriria. O segredo não me deixou dormir a noite inteira, zunindo e incomodando como um pernilongo. Por que Don Francesco me escolhera como confidente, sendo eu o caçula, o raspa-de-panela, quando havia o Fúlvio, a Teresa e o Roberto? Que não contasse ao tio Salvador, um boca-mole, sempre puxando, para garantir a cama do quarto dos fundos, tudo bem. O que não entendia era soltar aquela bomba e depois exigir silêncio dum garoto que não piava na casa, não tinha voz pra nada.

Ao tomar o café com leite na cozinha soube que meu pai corria os hospitais, Fúlvio fora à casa dum velho amigo de Don Francesco na Penha, Teresa, na farmácia, telefonava aos necrotérios e Roberto, que se dava com gente de rádio, percorria estações para noticiarem o desaparecimento.

Tio Salvador, o primeiro a voltar das buscas pelas redondezas, trabalhou mais com a cabeça do que com as pernas.

— Veja se ele simplesmente foi dar um passeio ou se sumiu mesmo. O guarda-roupa!

— Por que não lembrei disso antes?! — exclamou minha mãe.

Os dois abriram o guarda-roupa e viram a resposta nos cabides vazios.

— Levou até a boina!

— Diga, ele brigou com alguém? — quis saber tio Salvador.

— Que eu saiba, não. Don Francesco andava até de boa cara. Mas já sei onde está. Foi passar uma temporada com os Malagna, na Penha. Fúlvio logo chega e confirma.

A possibilidade não convenceu tio Salvador.

— Por que não disse nada a ninguém? Por quê?

Não chegara o momento combinado de revelar tudo: sai pela rua, descobrindo que guardar segredo à luz do sol ardia mais que à noite. Mesmo assim, com a maior cara-de-pau, fui procurar o nono na casa dos Bonelli, na barbearia e no depósito de vinhos. Alguém vira, sim, Don Francesco, boina na cabeça, andando ligeiro, às seis da manhã, com uma valise azul.

Ao passar pela Rui Barbosa a sorte apagou as inquietações domésticas: Mafalda chegava com o pai, que dirigia, altivo, seu carro novo. Enquanto lhe fazia sinal, à distância, tive a impressão de que crescera alguns centímetros naquela semana. Seus dezesseis anos estavam com jeito e tamanho de dezoito.

— Vai ao baile de Sábado de Aleluia? — ela perguntou.

— Lá do clube? Vou.

— Mas é à fantasia, você sabe, não?

Seria meu primeiro baile com Mafalda, oportunidade que precisava segurar com unhas e dentes.

— Você tem fantasia, Mafalda?

— Vou mandar fazer uma, e bem bacana. Se você arranjar uma, iremos juntos. Será uma festa de arromba!

Prometi que não faltaria, como se dinheiro não fosse problema e, para dar mais molho à conversa, transmiti à Mafalda uma fração do segredo de ontem, num tom especial de voz.

— Mafalda, acho que vamos ficar ricos...

— Vocês? Mas como? Seu pai está fazendo algum negócio da China?

— Depois eu conto, agora tenho de voltar. — E dando mais uma laçada no compromisso: — Não marque nada com ninguém, Mafalda. A gente vai se divertir muito no baile.

Antes de transpor o portão de sua casa, Mafalda me atirou um beijo, que apanhei no ar e guardei no bolso, O encontro valera pela noite longa e sem sono e dava-me coragem para dizer à família aonde Don Francesco fora e por quê. Sim, nós, os Marino, íamos enriquecer.

Ao dobrar a esquina de minha rua vi Roberto chegando da rádio, aborrecido com a tarefa que lhe haviam encarregado. Mesmo de manhã e em dias de semana vestia um de seus ternos novos, de cores berrantes, sempre bem passados, no capricho, embora alguns despeitados dissessem que se trajava como um cafona. Quebrara o nariz de um desses.

Reunidos na sala, todos falavam ao mesmo tempo, menos Teresa, que detinha as lágrimas com um pequeno lenço. Ninguém trouxera notícia de Don Francesco. Minha mãe e seu irmão Salvador contavam que o nono levara as roupas.

— Melhor assim — comentou meu pai. — Quer dizer que não sofreu nenhum acidente. De acordo?

— Não sofreu, mas aonde foi esse velho? — perguntou tio Salvador, a janela, como se à espera de que alguém no mundo respondesse.

O fato de Don Francesco ter saído com as roupas tornava ainda mais enigmático o desaparecimento.

— Às vezes dizia que era um peso morto, só dava despesas — lembrou minha mãe, provocando em Teresa outra cachoeira de lágrimas.

— Aí pode estar a explicação — considerou meu pai, numa suspeita dramática. — Ele deve ter-se recolhido a um asilo para a velhice desamparada!

Tio Salvador achou a hipótese provável, mas serviriam vinho nos asilos?

— Atílio, você está certo — concluiu minha mãe.

O chefe da casa tomou uma decisão:

— Fúlvio, Roberto, e você também, Salvador, vamos visitar todos os asilos de velhos da cidade. Ordinário, marche!

Quando vi que novos e inúteis esforços seriam feito, falei pela primeira vez como se cuspisse o incômodo segredo.

— Pai, eu sei onde o nono foi.

UMA EXPLICAÇÃO QUE NÃO EXPLICA TUDO

E UM JANTAR NA CANTINA

Não olharam para mim todos ao mesmo tempo, como esperava, mas um por vez, numa graduada escala de curiosidade.

— Brincadeira tem hora, filho.

— Não é brincadeira não, pai. Ele falou comigo ontem à noite.

Aí, sim, me tornei o centro das atenções, rodeado e tocado pelos seis. Os dedos de meu pai quase me quebravam o pulso.

— Ele falou com você ontem à noite?

— Falou.


— Disse que ia embora?

— Disse.


A vez de minha mãe perguntar:

— E por que você não falou até agora? Nem quando pedi para ajudar a procurá-lo?

— Porque ele me pediu pra não contar nada até a hora do almoço.

O cerco estreitou-se ainda mais, porém houve uma pausa que durou a eternidade de alguns segundos. Em cada cara vi uma espécie de sentimento. Em meu pai o receio de ter alguma culpa no sumiço; mamãe me olhava com mágoa de minha cumplicidade na fuga; Roberto queria me castigar por lhe ter feito ir à rádio à toa; Teresa saudava o fim do mistério com um princípio de sorriso; a expressão de Fúlvio significava que só um velho doido e beberrão confiaria seu segredo a um molecote; e no rosto de tio Salvador a imagem do alívio porque não lhe pediriam mais favores.

A pergunta seguinte, formulada por meu pai, só podia ser esta:

— Para onde ele foi?

“Agora que vem o estouro”, pensei.

— Para a Itália.

Então as seis caras, que antes diziam coisas diversas, ficaram todas iguais, moldadas pelo espanto. A máscara mais próxima, de meu pai, pôs uma interrogação enorme e trêmula onde eu apenas pingara um ponto final.

— Para a Itália?

— Foi o que ele disse. Por isso exigiu que não falasse nada. Para dar tempo.

— Para dar tempo de quê? De chegar à Itália?

Aquele interrogatório prometia ser pior que a noite dos pernilongos invisíveis.

— Tempo de apanhar o navio em Santos.

Meu pai afastou-se em direção à porta da rua, derrubando uma cadeira.

— Onde vai, Atílio? — gritou minha mãe.

— A Santos. Não saem navios para a Itália todos os dias.

Eu não terminara tudo que tinha para informar.

— Ele já comprou passagem, pai!

Meu pai interrompeu o passo, quase na rua.

— Comprou? Mas o navio pode não sair hoje.

Os olhares iam de mim para meu pai e de meu pai para mim como se a família assistisse a uma empolgante partida de pingue-pongue.

— Don Francesco disse que o navio partiria às dez e já é meio-dia.

Meu pai lentamente foi voltando para o grupo familiar, a pressa travada pelas últimas informações. Fez então uma pergunta importante, aguardada e sofrida por todos.

— O que foi fazer na Itália?

Minha mãe a essa pergunta acrescentou outra a que ninguém deu atenção:

— Está fazendo frio, na Itália, agora?

Achei que a resposta à pergunta de meu pai iria surpreendê-lo ainda mais e, então, resolvi parcelá-la:

— Foi para Chiaromonte.

Chiaromonte! Quantas vezes esse nome musical fora pronunciado em casa como se designasse algum lugar perto de São Paulo, Poá ou Cotia, quando ficava muito distante, bem no fim da bota. Nesse vilarejo, Don Francesco nascera no século passado, e daí partira com dezenas de milhares de emigrantes para, como diziam, fazer a América, e depois voltar.

Não enriquecera nem voltara para Chiaromonte, embora tivesse deixado parentes por lá. Chiaromonte! Principalmente ao se abrir em casa uma garrafa de vinho, no lazer dos domingos, o nome saudoso espocava com a rolha.

— Fazer o que em Chiaromonte? — indagou, encostado à janela, tio Salvador, dividindo com a população do Bexiga sua estupefação.

Naquela sala, somente eu e Deus sabíamos a resposta, mas Deus preferiu que eu falasse:

— Buscar a herança.

Roberto soltou uma gargalhada potente demais para uma sala tão pequena. Para o mano o drama matinal terminava ali, e com uma anedota. Voltou à sala, fez como sempre um largo gesto de despedida, partindo depressa para seu mundo, que ninguém sabia onde era e o que se fazia lá.

— Ele disse que foi buscar a herança?

— Disse, pai.

— Com que palavras? Concentre-se, meu filho, e repita uma a uma.

Não lembrava bem as palavras, embora tivesse dormido com elas, mas aquela era uma ordem da qual não podia fugir.

— Vovô disse que só ele podia ir a Chiaromonte, pois conhece o dialeto de lá e sabe como lidar com os parentes sem ser tapeado. Antes de sair me deu um beijo na testa, me apertou nos braços e falou: “— volto com um saco de liras”.

Meu pai levou a mão à cabeça e pôs-se a andar pela sala, em círculos, querendo absorver por ação muscular o baque da fuga e seu motivo.

— Ah, Don Francesco! Don Francesco!

Como se ouvissem o eco da gargalhada de Roberto, e contagiados por ela, Fúlvio e Teresa riram de tudo, num retorno, a partir do saco de liras. Mas mamãe fez cara feia e Teresa levou a mão à boca vedando a passagem agora de seu bom-humor.

— Existe mesmo alguma herança? — perguntou Fúlvio com a zombaria que Roberto lhe emprestara.

— Don Francesco fala dela desde que eu e seu pai casamos — garantiu minha mãe.

— Realmente Don Francesco tem alguma coisa em Chiaromonte — assegurou meu pai. Os parentes nunca responderam nossas cartas, o que para mim prova que estão muito bem. O que diz, comendador?

Tio Salvador, que não era um Marino, evitava meter-se em questões de família. Morando de camaradagem no quartinho do fundo, já que não tínhamos empregada, suportava resignado as freqüentes ironias de meu pai. Parecia ter cera nos ouvidos quando o chamava de comendador, lavoratore ou boa-vida. Mas, num momento como aquele, precisava sofrer com os outros, mostrar ansiedade e dar opinião.

— Querem saber duma coisa? Acho que Don Francesco sabe o que fez. De louco, nunca teve nada. Sou capaz de apostar que vai voltar mesmo com o saco de liras às costas. Dinheiro do céu, minha gente!

Fúlvio, o ponderado da família, fez logo uma pergunta que mamãe aprovou.

— Mas por que o mistério? Ele devia ter nos consultado.

O comendador sacudiu a cabeça negativamente para anular a pergunta.

— Se tivesse contado seus planos, avisado a gente, não permitiríamos que viajasse por causa da idade.

— Correto, comendador, correto — admitiu meu pai, voltando a andar em círculos pela sala, num diálogo com o personagem ausente.

Já se ouviam aqui e ali algumas frases soltas ou incompletas de apoio à atitude do nono, quando minha mãe, sempre com os pés no chão, fez uma pergunta que recônvocou a atenção geral.

— Mas onde Don Franeesco arranjou dinheiro para pagar o navio?

Que enigma! Uma viagem de navio à Itália, mesmo de terceira classe, custava milhares de cruzeiros, importància que o avô nunca vira, provavelmente nem em sonhos, pois sonhava em liras e não em dinheiro nacional.

Surgiram hipóteses:

Meu pai: — Será que pediu emprestado?

Minha mãe: — Teria ganho no jogo do bicho?

Teresa: — Quem sabe achou uma carteira cheia de dinheiro?

Fúlvio: — Ou ajuntado cruzeiro a cruzeiro no colchão.

Tio Salvador: — Ele era formidável na bisca e no três-sete. Pode ter limpado os bolsos de muita gente, nas cantinas.

Todos se voltaram para mim, o confidente do velho, na esperança de que tivesse a chave do problema.

— Sobre isso Don Francesco não me disse nada. Ele apenas falou que já comprara a passagem do navio.

O dia, antes uma quarta-feira qualquer, assumiu o vagar e a cor dos feriados. Meu pai não foi à tarde à sua oficina gráfica. Que Mandrake, seu empregado, cuidasse das impressõ es. Fúlvio chegaria atrasado ao escritório, minha mãe e Teresa esqueceriam o serviço de casa e eu repetiria mil vezes meu sussurrado diálogo com o nono. Apenas tio Salvador não se abalaria de sua rotina, isto é, também não fez nada aquele dia.

Apesar daquela pergunta — onde Don Francesco arranjou dinheiro para pagar o navio? — que incomodava e nos acompanhava a todos os cômodos da casa, meu pai, com uma generosidade que guardava para ocasiões especiais, levou a família à noite para a Cantina do Afonso, em moda no Bexiga por causa da carne de cabrito. Somente mano Roberto não apareceu, mas tio Salvador não faltou e foi de todos o mais animado.

Aquele jantar, com muita comida, vinhos e sonhos, foi o inicio de uma seqüência de esperanças para os Marino. Aliás, começara pela manhã, quando eu dissera: Mafalda, acho que vamos ficar ricos . . . Enriquecer era uma obrigação que atravessara o Atlântico com meus avós. Três deles morreram sem alcançar essa graça, porém, o pequeno Don Francesco, com sua boina e sua valise azul, ainda estava na luta. Muito antes da sobremesa, chegaram os projetos. O que fazer com o saco de liras que o nono traria? Meu pai, embora anticapitalista, opinava que deveríamos viver de juros. Tio Salvador confessou seu grande desejo: ter uma cantina com músicos, onde, além de se comer bem, se pudesse dançar. Viriam turistas do País todo. Boa idéia, todos concordaram. Fúlvio, desde a infância, quando assistia Dr. Kildare, decidira ser médico, o que as liras do vovô talvez tornassem possível. Minha mãe queria ser rica para fazer o bem; a prática da caridade era o que havia de mais bonito para ela. E Teresa, a que menos falou e a que menos comeu, sintetizava seus desejos num sorrizinho umedecido pelo vinho; o pequeno sorriso, espelho de bolso de sua alma, significava que, mesmo aos vinte e seis anos, não ficaria para tia, solteirona, se os Marino enriquecessem.

A noite foi longa e boa, mas, todos já em casa, encerrou-se com a terrível pergunta-enigma:

— Onde Don Francesco arranjou dinheiro para pegar o navio, onde?

A resposta estava lá dentro, dentro de casa, quero dizer.

SOLUCIONADO O MISTÉRIO DE CHIAROMONTE

Fazia cinco dias da partida do avô, quando minha mãe, para rever guardados, por intuição ou por nada abriu o arcaico baú, enfiado debaixo do tanque do quintal, móvel histórico da família. Foi só abrir e a resposta tão procurada para o “mistério de Chiaromonte”, como chamava Roberto, voou pela casa toda, como um pássaro:

— Os castiçais não estão no baú!

Meu pai, perto, estranhou:

— Os castiçais não estão no baú?

— Venha ver, Atílio!

Era domingo cedo e todos estavam em casa para ferverem com a revelação, Corremos para o baú com sua tampa em corcova aberta. Lá estavam o álbum de família, com suas fotografias amareladas, diplomas de primário e ginásio, velhos documentos amarrados com barbante, um antiquíssimo método de costura de Chiquinha del’Oso, um livro científico com retratos de mulheres nuas, que minha mãe já arrancara de minhas mãos violentamente, bijuterias de outras décadas, maços de contas já pagas, uma palheta, a última que meu pai usara nos anos trinta, e mais coisas, velhas e mofadas. Menos os castiçais.

— Estariam guardados noutro lugar?

— Os castiçais nunca saíram do baú garantiu minha mãe — a não ser nas vezes em que você os levou para o prego.

Os castiçais, um belo par em prata ramada, eram o único bem material que os Marino possuíam, nossa salvação para as épocas de dinheiro curto. Meu avô os empenhara nas revoluções de 24, 30 e 32, e meu pai, mesmo sem revolução, não sei quantas vezes.

— Esses castiçais não valiam o suficiente para uma viagem de ida e volta à Itália ponderou Fúlvio.

— Quem vai buscar uma herança não se preocupa com o dinheiro da volta — replicou meu pai com uma lógica incontestável.

Tio Salvador lembrou:

— Um dia desses entrei na cozinha e vi Don Francesco mexendo no armário. “O que está procurando, maestro?”, perguntei. “Alguma coisa que lustre”, respondeu, sem dizer o que pretendia lustrar.

— Ora, os castiçais! — exclamou minha mãe.

— Devem ter ficado bonitos, Romilda! Quando Don Francesco voltar da Itália vou pedir que os compre outra vez. Mas não voltarão ao baú. Quero-os aqui na sala e sempre bem lustrosos.

Roberto, que nem acreditava que o nono fora para a Itália, pela primeira vez deixou-se envolver pelo entusiasmo geral. Mencionou até o caso de um conhecido seu que enriquecera graças a uma herança que veio rolando através dos tempos. Esse moço, imaginem, estava desempregado e quase passava fome quando a bolada chegou. Então, deu uma enorme festa, mudou-se do Bexiga e ninguém mais o viu.

— Vai ficar para o almoço, Robertino? — perguntou minha mãe.

Para surpresa de todos, o primogênito tirou seu charmoso paletó e respondeu:

— Fico, sim, mãe. — E abrindo a carteira de dinheiro, dirigiu-se a tio Salvador: — Podia ir ao bar comprar bebida?

Decidi acompanhar tio Salvador. No caminho ele me olhou com ar malicioso.

— O que anda fazendo, artista?

Ele chamava a todos de artista e aos mais velhos de maestro.

Nada de novo, tio.

— Digo com a filha do Vitório, aquela mocinha bonita. Vi vocês outra tarde.

— Mafalda? A gente se conhece.

Tio Salvador, o mais distante de mim pelos laços sangüíneos, e o mais afastado do centro de casa por morar no quarto dos fundos, era realmente a pessoa ideal para servir de confidente. Todo apaixonado precisa de um, como nos romances e nos filmes, não importando a idade que tenham.

— Aquilo não parecia simples amizade. Conheço as pessoas, artista. E tenho um aparelho que mede a intensidade dos olhares.

Joguei um sorriso ao chão e confessei:

— Estamos namorando.

— Qual de vocês é mais velho?

— Mafalda, apenas um mes.

— Vocês se encontram sempre?

— Não muito, mas no Sábado de Aleluia vamos ao baile do clube.

— Isso é bom, é nos bailes que os namoros se afirmam ou acabam duma vez.

Os confidentes devem também dividir com a gente as preocupações.

— O baile é à fantasia e não tenho dinheiro para comprar uma.

Chegamos ao bar, tio Salvador pensando no meu problema. Pediu dois copos de vinho.

— Beba, o amor fica melhor cem vinho.

Levei o copo à boca. O gosto que senti, amargo, foi o daquela preocupação.

— Sem fantasia não posso ir ao baile. Me barram.

— Fantasia não exige dinheiro, basta imaginação. Esqueça, por enquanto. Vou pensar no assunto e talvez o ajude. Bom esse vinho daqui, não?

O HÓSPEDE DO QUARTO DO FUNDO

Tio Salvador, irmão de minha mãe, já quarentão quando Don Francesco foi buscar a herança dos Marino na Itália, vivia conosco há oito anos sem pagar cama nem comida. Quando lhe perguntavam se era nosso inquilino, respondia: sou um visitante. Verdade. Ele viera fazer uma visita no dia de aniversário de mamãe e, como choveu na hora de sair, ficou em casa. No dia seguinte, saiu mesmo com chuva. Voltou em quinze minutos, todo molhado e espirrando. Minha mãe desalojou Don Francesco, que passou a dormir no sofá da sala e meteu tio Salvador no quarto do fundo. Foi a gripe mais comprida de que tive notícia: quinze dias sob os cobertores. Curado, levantou-se, despediu-se agradecido, e foi embora. Voltava uma hora depois, deprimido. Por causa das faltas no emprego recebera o bilhete azul e não tinha dinheiro para continuar pagando a pensão. Minha mãe deu um jeito convencendo meu pai a deixar tio Salvador permanecer em casa até que arranjasse outro serviço.



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