Direito de amar



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DIREITO DE AMAR

Laying Down The Law

Susan Stephens

A tímida e ingênua estudante de Direito Carly Tate mal chegou a Londres e já vive um dilema. O sombrio e arrogante advogado Lorenzo Domenico não é apenas o seu orientador, mas também o primeiro homem a fazer seu coração disparar. E, para Carly, o charmoso italiano jamais veria nada nela além das roupas modestas, do jeito desastrado e da constrangedora inocência.

Mal sabe Carly o quanto está enganada! Lorenzo logo percebe que existe uma mulher linda e sensual sob aquela aparência acanhada, esperando apenas pelo homem certo para descobri-la doce e lentamente. Agora, ele deseja possuí-la! Para ele, Carly é como uma ninfa capaz de enlouquecer qualquer homem - e ele pretende ser o único a desfrutar disso...
Digitalização: Ana Cris

Revisão: Crysty
Se quer tanto um beijo, eu beijo você — ofereceu Lorenzo.

Será que existia outra pessoa no mundo que se meteria num encontro de solteiros desesperados por acidente? Ele achava que não. E isso só tornava Carly ainda mais adorável a seus olhos. Como devia se sentir solitária para ir àquele lugar... E a culpa era de quem?

Hora de fazer as pazes.

Carly engoliu em seco quando Lorenzo a puxou para si. O que aconteceu em seguida foi menos um beijo e mais um prêmio para a toda a vida, e continuou até as pessoas começarem a aplaudir...



Querida leitora,

Pegar uma garota do interior e colocá-la no meio da cidade grande. Essa é uma história que prometi a vocês. E aqui está ela! Carly Tate, a heroína de Direito de amar, vai trabalhar em um grande escritório de advocacia em Londres. Ao ser apresentada ao refinado advogado Lorenzo Domenico, o clima entre os dois esquenta! Ele é um sexy ítalo-americano que orienta jovens estudantes de Direito em seu programa de estágio. Eu disse programa de estágio, Lorenzo, seu atrevido!

Minha inspiração para esse livro foi um legítimo figurão do Direito, que me confidenciou algumas experiências de arrepiar. E quem seria melhor do que minhas leitoras para apreciar tais relatos?

Visitem meu site: www.susanstephens.net, onde poderão encontrar muitas novidades!

Boa leitura a todas!

PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V./S.à.r.l.

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte.

Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.


Copyright © 2008 by Susan Stephens

Título original: LAYING DOWN THE.LAW

Originalmente publicado em 2008 por Mills & Boon Modern Heat
Arte-final de capa: Isabelle Paiva

Editoração eletrônica:

Esteio editora

Tel.: (55 XX 21) 4128-0458


Impressão:

RR DONNELLEY MOORE

Tel.: (55 XX 11) 2148-3500

www.rrdonnelley.com.br
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Aos cuidados de Virginia Rivera

virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

PRÓLOGO

Ele detestava festas. Principalmente, festas de escritório. Mas desde que chegou no país para chefiar um programa de intercâmbio para advogados jovens e promissores do Reino Unido e dos EUA, ficou tão ocupado na correria do fórum que não conheceu ninguém. Esta seria a oportunidade para se apresentar e, de quebra, conferir o material.

Parou na entrada do salão. Era uma recepção em homenagem a um juiz da região que foi promovido à Câmara dos Lordes. Um silêncio constrangedor se abateu e ele logo percebeu que havia algo errado. A sala estava repleta de figurões do legislativo, além de inúmeros estagiários de Direito, todos ansiosos para serem notados. Seu olhar foi atraído para a tribuna, onde uma moça suava frio para fazer a apresentação enquanto o juiz Deadfast de Dearing, o convidado de honra, aguardava parado ao lado dela. O lorde não se mostrou muito satisfeito pelo fato de a moça parecer ter esquecido o seu nome.

Prendeu a respiração quando ela cometeu outra gafe. Juiz Dredd? Hora de intervir...

Impaciente, o senhor ao lado de Carly revirou-se quando ela recomeçou o discurso.

— Esta noite, é com grande prazer que apresento o juiz...

Por que a memória resolveu falhar justo agora? Porque o homem mais lindo que ela já viu acabara de entrar no salão? Alto e forte, com olhos negros brilhantes; de um golpe de vista ele captou a cena toda. Inclusive a sua expressão de surpresa, sem dúvida. Bronzeado, com porte atlético e espesso cabelo castanho, era o típico amante latino. Enquanto ela era a típica moça gorda, em apuros para apresentar um juiz senil, cujas sobrancelhas precisavam muito ser aparadas.

Não é de admirar que perdesse a atenção da platéia! Quem não iria preferir olhar para aquele homem maravilhoso?

Sairia derrotada? Tomou fôlego e tentou outra vez.

— Senhoras e senhores...

Reação: zero. Humilhação: um abismo sem fundo.

Ela trabalhava nos bastidores, não era nenhuma apresentadora. Mas se pretendia seguir a carreira jurídica e tornar-se uma advogada de verdade, precisava superar o medo de falar em público. Só que era tarde demais! A cavalaria chegou sob a forma de um homem que liberava testosterona aos montes.

À medida que ele atravessava o salão, as pessoas abriam caminho.

— Senhoras e senhores — disse ele, sorrindo confiante para o público ao tomar o microfone. — Minhas desculpas por chegar atrasado... — É claro que não estava atrasado, mas ninguém sabia disso, certo? Em seguida, cumprimentou o juiz, mantendo o microfone próximo aos lábios. Podia ouvir o burburinho de curiosidade no salão, sentir o ar carregado de excitação. Também podia notar a tristeza inconsolável da moça frustrada, mas cuidaria dela depois.

— Vossa Excelência, que honra...

Continuou nesse tom até a expressão perplexa no rosto de Sua Excelência dar lugar à palidez contumaz de sempre.

Quando o implacável juiz deixou a tribuna sorridente para ser bajulado pelos colegas, ele recuou, satisfeito com a própria atuação. Conquistar juizes era a sua especialidade; conquistar mulheres, uma paixão. A espirituosa mãe italiana ensinou-lhe que, na vida, satisfazer as mulheres era fundamental. Desde então, descobriu que isso era essencial para a sanidade. O próximo passo era oferecer uma palavra de carinho à moça cabisbaixa, mas não antes de reconquistar o interesse do público.

— Milordes, senhoras e senhores... Alguma consideração, por favor, pela nobre colega. — Enquanto falava, pousou um dos braços nos ombros da moça numa atitude protetora, trazendo-a para frente. — Quem dentre nós faria a comparação entre o nosso digníssimo convidado, o juiz Deadfast de Dearing, e o lendário personagem das histórias em quadrinhos juiz Joe Dredd, o paladino das forças da lei? — Calou-se para permitir que o humor da jovem protegida melhorasse. Naquele momento ele tinha a atenção de Sua Excelência. — E não devemos esquecer — acrescentou, erguendo as mãos para silenciar as exclamações de consenso que assolaram a platéia — que o juiz Joe Dredd prende, condena e até executa os criminosos no ato. Portanto, aconselho que sejam prudentes hoje... — Quando o lorde soltou uma gargalhada, ele relaxou. Missão cumprida. — Aproveitem o resto da noite, todos vocês!

Virou-se para resgatar a protegida e viu que ela havia desaparecido. Franziu os lábios ao avistá-la no bar.

Carly virou uma segunda taça de vinho, mas não adiantou. Estava perdida, acabada. Não era nenhuma presença constante em festas, sequer uma oradora nata. Talvez por isso os outros estagiários de Direito tramaram para que fosse a apresentadora...

Quando ela apanhou a garrafa de vinho para tornar a encher o copo, ele decidiu abordá-la. Percebendo que ele se aproximava, Carly ficou ruborizada e virou de costas, mas não antes de permitir que ele admirasse sua silhueta voluptuosa. O nariz empinado e a cabeleira abundante, como uma pintura de Ticiano, agradaram a sua alma latina. Esses eram os pontos favoráveis. Em compensação, tinha a elegância de uma...

De uma inglesa, corrigiu-se, logo que olhou em volta para conferir se ele havia chegado mais perto.

Carly engasgou ao vê-lo ao seu lado.

—Sou muito, muito grata—desabafou, atraindo a atenção dele para os lábios úmidos de vinho. — Não sei o que deu em mim... — Engoliu em seco quando ele lhe tomou o copo da mão. — Obrigada por contornar a situação. Não consigo imaginar por que fez isso — concluiu acanhada.

Cavalheirismo soaria antiquado aos ouvidos dela e, em todo o caso, ele anteciparia anseios e fantasias que poderia explorar mais tarde. O corpo, como a mente, foi feito para ser usado. Anos de estudo não apagaram sua necessidade de se expressar fisicamente, daí tanto exercícios, jogging, a academia e o boxe, que ele praticava duas vezes por semana.

— Não foi nada — retrucou, oferecendo-lhe um copo de água. — Tome, beba isso. Vai se sentir melhor num minuto.

— Obrigada — disse Carly, aceitando com timidez.

Dio! Ela era um paradoxo. Nos momentos de distração, os olhos verdes brilhavam, revelando os pensamentos incendiados sob aquela aparência pacata. E agora ele estava perto o bastante para ver que a pele reluzia como porcelana fina. Comparada à sofisticação das outras moças no salão, ela podia ser considerada antiquada e deselegante, mas chamou a atenção dele. Apanhou a garrafa de vinho que Carly julgou ter escondido tão bem atrás da tigela de ponche e colocou-a de volta no balde de gelo.

— Acho que já bebeu o bastante. Entorpecer os sentidos não vai adiantar nada...

A voz grave deixou-a arrepiada. Ele era tão lindo! Ela não conhecia nenhuma tática para enfrentar um homem com o corpo de um boxeador com roupas da Savile Row. O que pouco importava. Com aquele rosto sombreado pela barba por fazer, e o jeito imponente, ele poderia ter qualquer mulher do salão. Tomaria um drinque, daria um sorriso irresistível e iria embora. Mas como ela sabia disso? Porque preferiu vestir-se com discrição, justo como todas as outras mulheres presentes vestiram-se para impressionar. E agora devia deixá-lo à vontade e poupar-se da humilhação de ser dispensada. Infelizmente, os pés se recusaram a obedecer e permaneceram grudados no chão. Ao fuzilá-los com os olhos, reparou nos sapatos dele: tamanho grande. Ignorou a óbvia correlação com outras partes da anatomia. Quando ele colocou a mão no bolso, ergueu a bainha da calça o suficiente para deixar à mostra meias muito estranhas. Um homem num terno tradicional usando meias espalhafatosas? O que ele tinha na cabeça?

— Sente-se melhor agora?

Os olhos escuros eram penetrantes e o sotaque irresistível parecia estrangeiro: leste americano com uma pitada de sensualidade. Ele esperava que ela dissesse algo, mas a agilidade mental — o único atributo vantajoso que Carly possuía — deixou-a na mão. Tudo o que lhe ocorreu foi que normalmente não olhava para os dentes de alguém e pedia para ser mordida. Porém, os dele eram branquíssimos e fortes, e algo naquela expressão maliciosa prometia uma mordiscada bastante prazerosa. Ele tinha os lábios mais sensuais que já vira e olhos expressivos... duas poças de pensamentos impuros e humor ácido. Perfeito.

Mas quem era ele? Carly era uma estagiária de Direito no agitado fórum municipal, uma interiorana sardenta com uma imaginação fértil. Contudo, o homem diante dela era um verdadeiro astro de cinema.

— Você é italiano? — Foi o melhor que ela conseguiu inventar sem atinar com nada além de que ele era bonito.

— ítalo-americano. Acho que, como eu, você não gosta muito de festas. Acertei?

Não esperou que ela respondesse. Tomando-a pelo braço, levou Carly para o fundo do salão, conduzindo-a em meio à turba alcoolizada com um braço estendido diante do seu rosto. Para protegê-la?

Ninguém nunca fez isso. Todos imaginavam que era capaz de se cuidar sozinha. E estavam certos. Era adulta e responsável, mas foi ótimo para variar.

Conforme caminhavam, Carly presumiu que, já que era um estrangeiro na cidade, ele devia querer que lhe indicasse o ponto de táxi mais próximo. Porém, ele anulou essa hipótese ao conduzi-la em direção aos elevadores, rumando para os gabinetes. Carly esgotou as teorias plausíveis quanto ao que aconteceria a seguir. E talvez se arrependesse de tudo quando acordasse. Mas amanhã será outro dia...

— Estão usando esse gabinete para guardar os casacos, acho. — Ele girou a maçaneta e abriu a porta.

Carly fitou-o, perplexa.

— Você trouxe um casaco, não é? Faz frio lá fora... Ele só queria ajudá-la a pegar o casaco? Dessa vez

a própria imaginação a decepcionou muito!

— Você pensou que eu já ia embora...

— E não vai?

É claro que sim, mas isso foi um convite para saírem juntos? Embora Carly duvidasse muito, o coração acelerou.

— Quer que eu chame um táxi para você? Convite, coisa nenhuma!

— Posso voltar para casa a pé.

— Tem certeza?

Ele baixou a cabeça para encará-la com o mesmo olhar que um médico daria a um boxeador sob suspeita de estar lutando bêbado.

— Absoluta...

Para falar a verdade, até que o ponche ficou gostoso. Ela mesma preparou uma antiga receita de família. Mas, pensando bem, as taças de vinho branco foram um erro. Começou a mexer os pés, sentindo-se incomodada pelo escrutínio de um homem que elevava a sofisticação a um novo patamar — mais ou menos 1,90m de altura, calculou.

— Algum problema? — Carly apanhou o casaco.

— De jeito nenhum. Só acho que você bebeu um pouco demais.

— Está me criticando?

A sobrancelha erguida e o meio sorriso foram os sinais para o coração dela bater forte.

— Bem, caso não se importe... — Carly olhava fixo para a porta. Ele era perfeito demais para ela, portanto seria inútil prolongar a agonia.

— Claro... — Saiu da frente com uma saudação irreverente.

Quem era aquele homem? Esmagando o gelo sob as botas, Carly concluiu que as meias eram a única pista que conseguiu. Eram estranhíssimas: verde chamativo, com estampa de luvas de boxe vermelhas e escudo de alguma associação a qual ele devia pertencer... O que fazia sentido, já que ele não tinha nada de frágil. Portanto, talvez não passasse de um lutador de kickboxe particularmente charmoso, com um belo senso de estilo. De qualquer maneira, andava ocupada demais cuidando da carreira para pensar em homens. O corpo discordou, pois necessitava de algo que a mente nunca aceitaria. Felizmente, a razão prevaleceu. Se ele estivesse mal-intencionado quando a levou pela mão até o gabinete escuro, ela recuaria. Jamais se entregaria à luxúria.

Jamais.


Jamais!

Ah, certo, talvez se entregasse.

Por sorte, a oportunidade de testar a própria força de vontade nunca surgiria. Ela podia não ser o maior gênio da Inglaterra, mas era inteligente o bastante para saber que o patinho feio jamais termina com o príncipe encantado.

CAPÍTULO UM

Podia-se ouvir um alfinete cair no auditório. Qualquer um notaria que o professor de legislação só podia ser italiano. E uma coisa era certa. Com aquela sedutora beleza latina, o olhar autoritário e o terno impecável, Lorenzo Domenico deixava a platéia hipnotizada. As mulheres invadiram a faculdade de Direito para garantir uma vaga na turma dele e, naquela primeira manhã, os homens se encontravam em desvantagem de 10 para 1. Lorenzo Domenico podia ser novo na cidade, mas já era um mito.

Lorenzo andava enquanto falava, parando às vezes para encarar a platéia de admiradores com impaciência. Queria conferir se estavam prestando atenção. Queria que o seu padrão de exigência fosse o mais alto da faculdade, pois trabalhara arduamente e agora esperava o mesmo dos alunos. Testava-os constantemente, sempre da maneira mais inesperada. Na opinião de Lorenzo, qualquer um que possuísse memória fotográfica poderia passar numa prova. Mas poderia compreender as sutilezas da lei e obter o melhor resultado possível para o cliente? Chamava isso de pensamento lateral. Alguns estudantes chamavam de incoerência, justo aqueles que não conseguiam terminar o curso.

Além de chefiar o programa de intercâmbio, Lorenzo aceitou supervisionar um estagiário de Direito no elegante gabinete no centro da cidade onde se instalou. Era especialista em fazer várias coisas ao mesmo tempo e não desculpar o seu único defeito: a intolerância, embora a querida mãe italiana discordasse, convencendo-o de que não tinha defeitos. Lorenzo sorriu. A mama sempre tinha razão.

Parou de andar e conferiu a chamada. Faltava alguém. Por instinto, olhou pela janela. Lorenzo ficou tenso.

— Podem me dar licença? Isso não foi uma pergunta — acrescentou quando um coro de desapontamento varreu o auditório.

Já estava quase no corredor. A aluna atrasada acabara de bater no seu imaculado Alfa Romeo com uma velha bicicleta enferrujada.

— Nem adianta tentar limpar — bradou, atravessando a porta principal com agilidade, bem a tempo de ver a moça umedecendo o dedo na língua rosada.

— Foi só um arranhãozinho — minimizou ela, os olhos verdes plenos de sinceridade. — Oh... — O rosto perdeu a cor. — Olá...

Ele ficou parado, analisando os fatos. Sob todos os ângulos possíveis, a situação era péssima.

Quando a mente assimilou a informação, Carly empalideceu: na primeira manhã de aula, Carly Tate bateu no carro de Lorenzo Domenico, seu orientador. Como se não bastasse, acabara de receber uma carta avisando que ele foi escolhido para supervisioná-la np estágio do fórum, além de nomeado para o comitê dais Bolsas Unicorn, a bolsa de estudo que ela prometeu aos pais. Sua situação não poderia ser pior.

Carly sequer podia fingir que o fiasco da noite anterior passou despercebido. E agora essa! Para distraí-lo, apontou para o estrago no carro.

— Veja como é pequeno... — Mas agora que olhou novamente, o arranhão parecia maior.

— Pequeno? — repetiu ele, zangado.

Não era de admirar não tê-lo reconhecido na noite passada. Desde que chegou à Inglaterra, Lorenzo Domenico andava tão ocupado que mal passeou. Ganhar um caso quase perdido no primeiro mês na cidade tornou-o tão conhecido que agora a lista de espera na agenda dele era de um ano. Lorenzo não voltaria para casa tão cedo — se voltasse. Portanto, era hora de contornar a situação. E depressa.

— Lamento muito pelo carro...

— Lamentará mesmo.

Não o apelidaram de "carrasco da lei" à toa. Que belo início para a campanha pela bolsa de estudos! Todos os colegas estagiários ficaram com algum professor idoso que os orientava naquele clima pachorrento da universidade, enquanto ela foi parar nas mãos de Torquemada, o Grande Inquisidor.

Assim que leu a carta, Carly acreditou que lidaria bem com um homem como Lorenzo Domenico. Na verdade, ficou muito animada, mas havia uma grande diferença entre as palavras no papel e o homem parado diante dela agora. E, num sinal de mal-agouro, ele usava meias xadrez como se estivesse pronto para pisotear a sua ambição. Mas ela não cairia sem lutar.

— Acho que o arranhão sairá com um polimento...

— Não ouse praticar a sua lábia de advogada comigo, srta. Tate. Dê uma espiada no meu carro.

— Muito bonito...

— Refiro-me ao estrago, srta. Tate. Olhe bem. Se examinar de perto, verá que o arranhão não sairá com um polimento.

Carly balançou a cabeça com teimosia, agitando os cachos ruivos brilhantes na altura dos ombros. Lorenzo admirou-lhe o cabelo e isso o perturbou. Ela era uma aluna e o único propósito da vida dele era corrigi-la com mãos de ferro.

— Eu mal consigo enxergar — protestou Carly.

A disposição para a luta o agradou. Ele adorava uma briga.

— E como um arranhão tão pequeno num carro alugado afetará o meu bolso, srta. Tate?

Seria implacável com ela, como com os demais alunos. O tempo era curto e eles precisavam aprender mais do que o abecedário do Direito. Deviam assimilar a gigantesca gramática das sutilezas de interpretação. E caso não estivessem dispostos a isso, era melhor descobrir logo.

— Vamos, vamos — encorajou. — Você não é advogada?

— Eu sou advogada — retorquiu, fitando-o nos olhos.

Outra onda de satisfação o inundou. Não queria que os alunos fracassassem, queria que todos sobressaíssem — até essa patética apresentadora.

— Um dia, será advogada, mas não é ainda. E caso chegue atrasada de novo na minha aula, jamais será.

Acabará reprovada na disciplina e perdendo a chance de ser indicada para a bolsa de estudos.

— Eu lamento mesmo...

— Lamentações não me comovem, srta. Tate.

— Lamento muito...

Carly ergueu a cabeça para encará-lo de um modo que quase compensou tantas trapalhadas, porque Lorenzo vislumbrou um espírito forte. Ela precisaria disso perante o tribunal. Era simpática também. Embora não fosse belíssima, possuía uma aparência jovial cativante. Depois de todas as mulheres extravagantes que conheceu na alta sociedade, Carly era uma novidade animadora.

E ainda restavam os alunos. Até aquele momento, a impressão era de que as mulheres não eram tão bonitas quanto os homens, o que, como heterossexual compulsivo, era uma grave preocupação.

Lera o relatório sobre Carly Tate, como lia os relatórios sobre qualquer estudante. Ela era a mais inteligente de todos, mas seria capaz de advogar? Era o que ele pretendia descobrir. Todavia Carly precisava melhorar a aparência. Que roupa era aquela? Um paletó com punhos amarrotados, combinado com um jeans puído e desbotado. E nos pés, uma coisa que parecia feita a mão com peles de animais e barbante. Carly não fez o menor esforço para impressioná-lo, o que o insultou. Parecia que havia acabado de sair da cama e isso o enfureceu. As mulheres deveriam ser castas e disponíveis e esperar que ele as notasse. Seus olhos nublaram quando imaginou a mulher ideal caminhando lânguida e lentamente, com as lembranças da noite anterior ainda vividas no olhar e nos lábios carnudos, perfeitos...

Por que ele olhava fixo para os lábios dela? Será que estava com marca de leite? Carly pigarreou para disfarçar e passar a mão na boca.

Encantadora! Quanta graça e estilo têm as inglesas.

— Então — disse ele, virando-se para olhar a única coisa pela qual os italianos se interessam além de família, futebol, moda e fornicação: o carro. — O que pretende fazer a respeito do estrago e do meu pedido de indenização?

Carly recitou os parágrafos relevantes da lei com perfeição. Relembrando os apontamentos que Lorenzo distribuiu antes das aulas, percebeu que ótimo professor ele era.

— Vejo que leu os apontamentos.

— É claro que sim — replicou.

— Nesse caso, deixarei que informe o estrago — avisou impassível. — Marque o conserto e mantenha-me informado...

Ficou satisfeito ao ver como ela reagiu bem à instrução. Mas ao virar-se para ir embora, pôde jurar que Carly deu um pulinho de alegria. Quase voltou para censurá-la, entretanto, contentou-se com a idéia de que se superava ao lidar com encrenqueiros. Lorenzo adorava uma confusão e construiu uma carreira à base disso.

Próximo à entrada do prédio, parou e virou-se bruscamente. Carly ficou ruborizada quando ele lançou-lhe um olhar fulminante. Contente com o efeito, deu o golpe fatal.

— Já que você acabou perdendo o ponto principal da aula, quero que volte para casa e se arrume para ir ao tribunal.

O semblante de Carly se iluminou.

— Tribunal?

Não havia um estudante de Direito consciente que não ansiasse aliviar o tédio dos estudos com o drama da vida real nos julgamentos.

— Sim, tribunal. Deixei a peruca e a beca lá. Você pode apanhá-las para mim.

Divertiu-se vendo Carly fuzilá-lo com os olhos enquanto mantinha o rosto inexpressivo. Reconsiderou a sua opinião sobre ela, Carly seria uma advogada competente se possuísse a determinação necessária. Mas não ainda não estava satisfeito.

— Você não pode ir ao tribunal como minha representante vestida desse jeito.

— Ah, não se preocupe comigo — retrucou, recolhendo os pertences espalhados pelo chão. — Esse blazer vai servir direitinho. — Sacudiu um trapo que havia caído na sarjeta.

— Caso não tenha reparado, srta. Tate, esse blazer está coberto de lama e você agora trabalha sob o meu tacão. — Uma metáfora infeliz, talvez, mas era tarde demais para retirar o que disse. — Proíbo que vá ao tribunal vestida assim. O que as pessoas vão pensar?

— Que não posso pagar a conta da lavanderia...? Havia uma expressão tão inocente no rosto dela que

Lorenzo pensou duas vezes antes de repreendê-la. Todo mundo sabe que a maioria dos universitários vivem da caridade dos pais. Entretanto, Carly ficou ruborizada de vergonha e ele jamais pretendera humilhá-la. Enquanto Lorenzo pensava nisso, Carly se recompôs e permaneceu quieta, como se esperasse um afago por dar a resposta certa. Lorenzo reconheceu o tipo imediatamente. Ela era a aluna que sempre sabia a resposta certa e que levantava a mão antes de todo mundo, ignorando o quanto isso a tornava impopular. Só lhe restou fazer uma comparação com a própria infância, quando precisava apenas arrotar para que todos aplaudissem, pasmos de admiração. Mesmo assim, precisava corrigi-la.

— Não, srta. Tate. Ninguém pensará isso. Pensarão que saiu afobada demais para se olhar no espelho. Quer passar uma impressão de incompetência? Não, creio que não.

Carly quis jogar o maldito blazer no chão e saltar em cima. Lorenzo achava que paletós sob medida iguais ao dele cresciam em árvores? Que estacionar na calçada da ciclovia era boa idéia? Mas esses pensamentos logo cederam lugar aos rostos ansiosos dos pais. Não podia decepcioná-los e enquanto restasse a esperança da bolsa, ela não pretendia agir daquela maneira.




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