Disfarces de amor



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Disfarces de Amor - Relacionamentos Amorosos e Vulnerabilidade Narcísica



Capítulo 1 – Os disfarces de amor

Um dia publicámos que se escrevessemos um livro sobre o amor, ele teria 100 páginas, 99 das quais em branco e na última apenas escreveríamos: a grande vantagem do Amor é que pouco se sabe falar sobre ele e, como tal, andamos sempre dele à procura! Este não é um livro sobre o amor, não tem 99 páginas em branco, é exactamente um livro sobre o que o amor não é, mas não deixa de ser uma procura dele. Resulta de um estudo realizado no âmbito de provas de Doutoramento em Psicologia Clínica, onde se procurou entender algumas modalidades de relacionamento amoroso que se estabelecem mais em função do próprio que do outro, enquandrando-se num tipo de relacionamento designado narcísico, que visa a exaltação do Self do próprio, com pouca consideração pelo outro, com grandes complicações no amor ao próprio e ao outro.

Sabemos que o amor é uma de entre várias emoções intensas mas a de mais difícil definição. Somos capazes de saber porque sentimos ódio, ciúmes ou inveja, mas incapazes de explicar porque sentimos amor por alguém. No entanto, esta deve ser a emoção mais transformadora do mundo interno, criando uma necessidade que se mantém ao longo da vida.

A procura de um objeto de amor parece ser uma característica da condição humana, sendo uma relação amorosa a que mais poderá contribuir para um desenvolvimento do indivíduo, uma vez que o amor fortalece o Self e este, fortalecido, é capaz de estabelecer e desenvolver relações verdadeiras e com profundidade. No entanto, muitas pessoas vivem constantemente numa indecisão sobre se mais valerá só que mal acompanhado ou mais vale mal acompanhado que só.

Assim, procuramos compreender como é que o amor se insere numa sociedade onde o mal-estar abunda, assistindo-se a uma procura incessante de excessivos estímulos externos que visam disfarçar o sofrimento, revelado na adoção de pseudo-vidas, mediadas por pseudo-necessidades, estabelecendo-se pseudo-relações que resultam de uma dificuldade em se estar só e com o seu mundo interno.

Assiste-se nos dias de hoje a um incremento de um pensamento que é da ordem do concreto, onde condutas operatórias consumistas pretendem acalentar as dores e possibilitar um significado ao Self, numa procura de viver tudo freneticamente ainda que com desencantamento, sem veracidade do Eu, visando o alcance de um estado maníaco artificialmente provocado, quer por recurso a álcool e drogas, quer pela compulsão de consumo que mascára o que falta ao Eu transformando-o num deus de posse, dono de uma anestesia afectiva com entorpecimento dos sentidos, aproveitados de modo superficial: toca-se mas não se sente, ouve-se para não se escutar, cheira-se mas não se distingue odores, olha-se para o que está à mostra mas não se vê a essência. Desenrolam-se nestes contextos relações amorosas, pessoais, de trabalho, sem vivacidade nem intimidade, traduzidas numa conduta camaleónica de pseudo-adaptação que não resulta em amor nem em produtividade.

Esta sociedade tem incentivado o surgir de uma espécie de deuses às cegas, que procuram um controle e uma posse do objeto que se possa manipular à mercê das necessidades narcísicas do próprio, sempre em espelho, sem a mínima competência para olhar, ver e sentir o outro na sua essência e diferença do próprio.

Vivemos numa época repleta de pseudo-eus, que afirmam a sua autonomia pelo poder, negando a dependência e a necessidade do outro. Estes procuram incessantemente a admiração externa, essa tão necessária para encobrir as dúvidas sobre as próprias competências reais para despertar o verdadeiro amor. Procura-se admiração pelo que está fora do Eu, este perdido em si próprio e escondido detrás de imitações ao outro idealizado, de forma tal que o verdadeiro Eu ninguém pode encontrar, porque é vivenciado como inerme e frágil.

Desta perda do Eu verdadeiro resulta a perda da proximidade entre o Eu e o outro, e a aproximação a existir estará sob o desígnio do poder e do domínio de um face ao outro, em que os desejos de intimidade são silenciados com todo o esforço, à custa de um “nada me falta” colorido com bens materiais, os quais ilusoriamente preenchem um vazio no qual o Eu se vai afundando cada vez mais. A vivência bipolar - dominador/dominado - não deixa espaço para a igualdade entre seres humanos nem sequer dá lugar à diferença porque também essa põe a nu os sentimentos de menor valia dos quais o próprio se tenta despojar, e porque acorda a inveja, é o funcionamento narcísico. O que está esquecido é que o Eu não se pode constituir/desenvolver sem ser numa relação de intimidade e profundidade com o outro, desde cedo e ao longo da vida, porque fica sub-nutrido e sub-desenvolvido, consequentemente, estas partes do Eu ainda em gestação, tornam-se vulneráveis e têm de ser protegidas, são clivadas, e ficam encapotadas pelo Eu megalômano, narcísico, este poderoso, envolto em brilho fosco mas que desperta admiração de uma sociedade que ainda considera que frágil é quem sofre e demonstra o seu sentir. Anestesia-se então o sentir, calam-se lágrimas com antidepressivos, drogas, álcool ou consumismo desenfreado, dança-se freneticamente não ao sabor da música, mas como se da expulsão de demónios internos se tratasse. Não é possível saborear a vida, os sentidos estão entorpecidos e treinados para se redimirem ao cognitivo, ao racional.

Daqui resulta a procura de actividades mega-excitantes que intensifiquem o sentimento de vivacidade sensorial, procurada através de agitações radicais que afirmam a própria omnipotência de controle sobre a vida e um desafio omnisciente à morte.

Assim, desenrola-se uma vivência que prima pelo afastamento de tudo o que desponte intimidade: lêem-se revistas que falam de futilidades e vidas efêmeras, que alimentam o desejo voyeurista sobre a vida alheia, filmes que impedem o pensar e que refletem um afastamento da realidade com argumentos repletos de elementos bizarros, inúteis e sem profundidade. Compram-se livros de auto-ajuda, que padronizam como lidar com os problemas, incutindo funcionamentos enquanto reagentes e não agentes de mudança interna.

A liberdade do Eu é confundida com a liberdade face a sentimentos dolorosos, vive-se uma vida inebriante, numa projecção maciça de elementos beta (Bion, 1961) que não tendo encontrado um meio contentor não se puderam transformar em pensamentos, tendo de ser evacuados. Vive-se, mas em superficialidade, em estado maníaco artificialmente provocado, num divórcio constante face ao íntimo e genuíno, ao afectuoso e realmente humano. Esta alienação do Eu e do humano conduz precisamente à desumanização, determinando a impossibilidade de ajudar o mais fraco porque esse nos coloca em confronto com as fragilidades pessoais - essas odiadas e mantidas à distancia da mente e do sentir.

Há que silenciar o sentir nos outros, nas crianças também, não nos façam elas recuar a recordações de vivências conflituosas e a mexer em feridas não saradas. O que se pede aos filhos é que aprendam cognitivamente, transformem-se em deuses do saber idolatrados pelos pais e pela sociedade, mas silencie-se o seu choro para não despertar o nosso. Os pais vivem a vida dos filhos e assim numa cadeia transgeracional se vai vivendo a vida dos outros, mas com exigências e compensações próprias, sem se dar possibilidade à liberdade e autonomização do pensamento, emudecendo a expressão da realidade interna e da essência verdadeira de cada um.

E assim se criam deuses às cegas, porque cegos na visão do seu sentir e na capacidade de olhar para a sua interioridade, sem competências de mentalização (Fonagy, 2010) julgam-se de tal forma idolatrados que se vêem no direito de tudo, sem qualquer obrigação, denunciando uma ausência de um supereu saudável que dite regras de funcionamento e respeito pelo outro, e pelo próprio. Daqui resulta uma impossibilidade de empatia e compaixão, e uma procura incessante de amor precisamente nos lugares onde ele não se encontra!

Deuses esses, impreparados para o sofrimento, vivem num medo fervilhante de serem magoados pela rejeição, por isso convém estabelecer relações com uma distancia mínima de segurança, nem muito próximas porque a intimidade assusta, desgoverna e desorienta, nem muito distantes porque o sentimento de abandono é insuportável, e o “viver só comigo” é deveras assustador.

E assim se vai substituindo o amor pela admiração - vicariância narcísica - (Coimbra de Matos, 2011) esta decorrente de uma alucinação do poder do outro e do próprio. Este poder alucinado no próprio e no outro faz aumentar o desrespeito mútuo, de forma que é valorizado tudo quanto não se possui, pois a partir do momento em que pertence ao próprio é automaticamente desvalorizado, à semelhança da verdadeira imagem que tem de si. O outro é investido apenas como objeto parcial e naquilo que possibilita ao próprio, numa lógica explorador/explorado.

A verdade é que estamos num tempo onde se estabelecem ligações com pessoas de qualquer parte do mundo através da internet, mas não se cumprimenta sequer o vizinho do lado. Estes meios proporcionam o excesso de estímulos, de informação em massa que impede o pensamento, o homem apenas funciona como receptáculo, sem espaço para processar tão variada informação, sendo que no meio de tanta estimulação surge o risco da perda da própria individualidade de um Eu fragilmente edificado.

A fragilidade do Eu leva a que se anseie pela aprovação daqueles que na verdade negam o nosso verdadeiro ser e as verdadeiras necessidades, escravizando-o face às necessidades artificiais, gerando um mal-estar do desejo, que leva a uma busca constante de algo que sirva de provisão a este pseudo-eu, criado em função da admiração alheia, que deseja tudo e qualquer coisa e para já, sem alguma capacidade de adiamento da satisfação, numa necessidade succionadora intensa e permanente à espera de encontrar algo que realmente satisfaça. Talvez daqui derivem problemas de obesidade crescente, resultado de uma insaciedade constante e uma procura de encher com comida um vazio deixado pela fome de afecto.

É assim que se vive sem vida, sem objetos contentores, numa sociedade do espetáculo, do teatro de marionetes, manipuladas pelos supostos desejos alheios dos deuses idolatrados, sem qualquer profundidade ou interioridade, numa hiperactividade permanente que permita pôr-se a fugir de si próprio, mas que sem este motor externo se despenham num precipício de inferioridade e vergonha, de apatia e desânimo. Dizia António Variações na sua canção: “Tenho pressa de sair, quero sentir ao chegar vontade de partir para outro lugar. Não sei de que é que eu fujo, será desta solidão? Mas porque é que eu recuso a quem quer dar-me a mão?”

Nesta decorrência surge uma expansão cada vez maior da parte psicótica da mente que Bion descrevera, caracterizada pela inveja excessiva, intolerância às frustrações, uso exagerado de identificações projectivas que resultam de um ódio excessivo às realidades internas e externas, dando lugar à omnipotência no lugar do pensar (Sanchéz, 2003), com um supereu que tudo sabe, tudo pode, que condena e produz leis próprias a instituir aos outros. Daqui o desrespeito até pela natureza e o seu uso abusador, a diminuição da capacidade de se preocupar (Winnicott, 1960) com o outro e com a Natureza em geral. Desta falta de capacidade de se preocupar com o outro resulta uma impossibilidade de transformar as relações em suficientemente boas de modo a serem transformadoras do Eu e do outro, permitindo um bem estar e uma diminuição do recurso a actividades compensatórias.

Sabemos hoje, que as relações significativas que se estabelecem ao longo da vida são essenciais para o desenvolvimento do Self, mas existem evidências de que quando falhas graves no seu desenvolvimento são sentidas precocemente, estas podem condicionar todo o desenvolvimento posterior, impedindo que o individuo consiga mudar o seu percurso e encontrar objetos que possam ser usáveis (não somente objetos da projecção) no sentido da evolução psíquica em que o indivíduo seja capaz de usar esses objetos enquanto objetos transformacionais, esses diferentes dos objetos da infância, evidenciando assim um crescimento psíquico que decorre da capacidade de separação e autonomização psicológica face a esses objetos de relação precoce.

No entanto, encontramos na investigação clínica situações de relacionamento amoroso em que o que é procurado é um objeto (ou objetos) que empregue funções que não foram possíveis de desenvolver com os objetos da infância.

Deste modo, quando com os objetos da infância não foi possível o desenvolvimento de estruturas psíquicas que possibilitem uma regulação da auto-estima, ou até mesmo a formação de uma espécie de pele psíquica que defina o Self possibilitando a sua individualidade, facilitadores de uma autonomia de pensamento e crescimento emocional, toda a vida se procurará uma ligação a objetos que possam servir essas funções, implicando muitas vezes a decepção porque o objeto não realiza as funcionalidades que lhe são designadas. Isto, acrescente-se, quando o próprio Self não desenvolveu plasticidade suficiente para integrar outras experiências transformadoras e capazes de colmatar as falhas anteriores. Assim, estas relações e padrões de interacção que se estabelecem precocemente irão determinar um conjunto de percepções sobre o Self, o objeto e as relações com esse, que serão determinantes na constituição das representações acerca do Self a saber – representação de um Self coeso, desvalido, incompleto e indefinido.

No decurso destas representações, surge a urgência de tratar dessas feridas internas, as lesões sofridas no Self, que justificam muitas vezes o desenrolar de relações envoltas na necessidade de acabamento do Self e não de partilha e de desenvolvimento mútuo, com objetos semi-novos (porque não aproveitados na sua essência), responsáveis por muitos dos desapontamentos amorosos e pela desistência de estabelecimento de novas relações ou então, uma procura incessante de relações ilusoriamente reparadoras das falhas do Self, na esperança de que o que não foi bom nas relações mais precoces, se transforme num ideal, onde idealizações mais ou menos arcaicas (consoante as fragilidades do Self) transportam a esperança a um Self nas trevas.

Assim, em face da vulnerabilidade do Self, da sua vulnerabilidade narcísica, consideramos que se estabelecem tipos de relacionamento amoroso cuja funcionalidade é apenas a de completação, embora rodeada pelo conflito, sendo primordial a satisfação das falhas que ocorreram no desenvolvimento do Self na tentativa de colorir e estabilizar a sua representação. A ligação é mediada pela funcionalidade do objeto e não pela necessidade de um outro complementar, em que a troca afectiva e o crescimento emocional é preterido em relação à função que o outro deve realizar.

Deste modo é importante conhecer estas modalidades de relacionamento amoroso que se estabelecem em ordem à criação de estruturas que o Self não desenvolveu. Considera-se que, nesta situação, o Self tenderá a estabelecer relações que possam constituir-se como aprovisionamentos, no sentido de possibilitar o colmatar de falhas, penhorando no entanto todo o desenvolvimento saudável da relação.

À medida que se tem avançado nas investigações sobre a vinculação maior compreensão se vai tendo sobre a importância da segurança e da dependência face ao objeto, o que nos conduz à hipótese de que os problemas relacionados com a dependência são mais frequentes na vida emocional, sendo que a patologia pré-edipiana está mais presente e prende-se essencialmente com problemas precoces de dependência e confiança básica, o que interfere de uma forma prejudicial nos relacionamentos amorosos da vida adulta.

Por outro lado, assistimos a um crescendo de mal-estar do desejo denunciando uma grande dificuldade em integrar o desejo com o Amor, o que conduz à adopção de condutas sexualizadas desprovidas de afecto, numa preocupação exibicionista com o desempenho envolto numa anestesia afectiva, são estas relações plenas de entusiasmo estéril, fugaz, e sem contacto emocional íntimo. O que se deseja não é um outro, mas a própria imagem idealizada ou uma reparação do narcisismo falhado do próprio. Consideramos que este mal estar do desejo tem subjacente um forte mal estar vincular, que se repete ao longo da história relacional do indivíduo, e que vai minando de maneira nefasta toda a relação supostamente amorosa.

O que defendemos é que a falta de confiança no outro e na validade do próprio contamina de forma negativa as relações amorosas adultas, conduzindo ao estabelecimento de relações que não se constroem mediadas pela troca mas sim pela urgência do outro para reconstrução da validade e estabilidade própria. Nestas condições, a dependência em relação ao outro não é uma dependência madura, própria do desenvolvimento, que implica a necessidade que temos uns dos outros para enriquecimento emocional e crescimento afectivo, mas trata-se de uma dependência funcional, operatória, uma dependência da função vital que o outro desempenha, e como tal é uma dependência mais assustadora, porque remete para necessidades infantis, para necessidades de desenvolvimento de estruturas não formadas na infância, acarretando por isso, fantasias mais avassaladoras.

Saliente-se que já Fairbairn (1946, cit. Greenberg & Mitchell, 2003) definia o pleno desenvolvimento da saúde emocional como o estádio da dependência madura cuja tónica passa a ser na troca em vez do receber, uma vez que o indivíduo passa a ser capaz de estabelecer relações cooperativas com os objetos diferenciados. Mas, para o autor, esta passagem para a dependência madura envolverá uma renúncia a vínculos compulsivos com os objetos, que se alicerçam na fusão e identificação primária, seguindo-se o estabelecimento de relações baseadas na troca e na diferenciação.

No entanto, em face da vulnerabilidade narcísica do Self, a qual poderá ser maior ou menor, desenvolvem-se estratégias defensivas de forma a poder contornar a dependência (de cunho infantil), determinando o estabelecimento de relações que permitem pôr em evidência o Self grandioso, arcaico, patológico, expresso na exaltação do próprio, pela depreciação do outro e pela negação da dependência organizadora proporcionada pela ligação, ou então, através de mecanismos de submissão em que se ilude uma imagem mais valorizada do próprio, o qual se coloca numa subserviência idealizadora, em que o outro é tão somente um prolongamento do Self que possibilita uma imagem ao próprio que propicia uma funcionalidade mais válida.

Constatámos a existência de relacionamentos amorosos que se estabelecem de acordo com as necessidades de diferentes objetos do Self ou, por outro lado, pela negação defensiva dessas mesmas necessidades. Deste modo, encontrámos no nosso estudo, diferentes tipos de relacionamento amoroso em ordem ao restabelecimento do Self, no que respeita às suas necessidades narcísicas e ainda que estes tipos de relacionamento da ordem da vulnerabilidade narcísica estão na base dos estilos de vinculação mais inseguros.

De acordo com Kohut (1988, a,b) o Self coeso desenvolve-se a partir de três eixos: grandiosidade, idealização e de ligação ao alter-ego. Da falha sentida na realização destes aspectos do Self, resultarão necessidades de objetos que desempenhem no Self funções que deveriam ser realizadas por estruturas psíquicas internas. Consideramos que ao longo da vida a ligação será em direcção aos objetos que possibilitem o colmatar de falhas sentidas ao longo desses eixos. Claro está, que quanto maior a coesão do Self, menor será a necessidade de objetos do Self.

Destarte, consideramos que quando o que falta ao Self é uma estrutura capaz de regular adequadamente a auto-estima e proporcionar uma representação mais valorizada do próprio, surge a necessidade de objetos do Self que possam desempenhar essas funções, a procura será no sentido de restabelecer uma imagem mais idealizada do próprio, através da ligação a um outro mais valorizado e que possibilite, através de uma ligação transfusional, uma reparação da imagem do próprio. O investimento no outro é feito em ordem a proporcionar um sentimento de maior valor próprio, e uma satisfação que será sempre superficial e condicionada pela resposta do outro, sem consolidação interna, e como tal fugaz e que se deteriora na ausência do objeto o qual funciona como elemento protésico, que traz o que falta ao próprio mas em que não preenche a falha, ficando-se assim, sempre à mercê da imagem proporcionada por outro!

De acordo com Kohut (idem), nestes casos a necessidades de objetos do Self são de idealização, isto é, de estabelecimento de ligação com objetos admirados de forma a se sentir parte desse e a construir uma imagem mais valorada do próprio, que em nossa opinião será mais característico de relacionamentos tipo submisso – idealizadores (descritos no capítulo 5), em que a idealidade do próprio está dependente da idealização do outro. Em outros casos, surge, também na linha da ideia de Kohut (idem) a procura de um objeto gémeo, em relação ao qual o indivíduo se sente ligado, um objeto que não sendo diferente não acentua a falta, e ao impedir a constatação da falha possibilita a ilusão de uma união em espelho, paradisíaca na medida em que é uma união pelo reflexo do próprio no outro.

Por outro lado, quando as falhas na estrutura do Self são mais profundas, e a urgência do outro é da ordem da organização e contenção de aspectos do Self que não foram passíveis de serem integrados no funcionamento, o outro surge como uma espécie de invólucro contentor, o que possibilita uma organização funcional, a dependência é maior, mas também é maior o receio dela e a sua negação defensiva. Desenvolvem-se condutas evitantes, que refreiam o medo e estabelecem-se mecanismos reguladores da proximidade, que conduzem a modelo relacional caracterizado por: nem com, nem sem o objeto.

Estas são relações do tipo eufórico - idealizantes que se estabelecem sem profundidade ou intimidade mas que possibilitam um sentimento de pertença sem que seja despoletada a angústia confusional de dissolução no outro, permitindo uma pseudo-funcionalidade do Self, amparado por um outro que substitui uma estrutura fulcral não construída precocemente, e, como tal, este Self mantém-se de forma camaleónica à custa dos outros.

Nestes casos surge a negação das necessidades do objeto do Self, é de tal forma imperativa a necessidade do objeto que tem de ser negada, muitas vezes de modo maniforme, revelando a não necessidade de ninguém ou desvalorizando o outro e o envolvimento, através de condutas reveladoras de que não se está nem dentro nem fora da relação, mantendo a distância emocional de segurança que permite que o frágil Self não se sinta dissolvido e possibilitando a manutenção das suas frágeis fronteiras.

A necessidade de que o outro funcione como um continente determina algumas condutas que neguem essa mesma necessidade, muitas vezes através de um enaltecimento do próprio denegrindo o outro e desmentindo a dependência, em que a exaltação do Self incompleto se realiza muitas vezes à custa do menosprezo pelo outro ou então do estabelecimento de relações mediadas pela admiração do outro, de características exteriores e superficiais, compensatórias de fragilidades internas, mas que parecem poder conferir ao próprio um sentimento de existência distinta. Em todo o caso, este tipo de relacionamento é mais frio e mediado, não pela cumplicidade, mas sim pelo desprezo mútuo. Como já havia sido referido anteriormente, de acordo com Fabião (2007), quando a fragilidade do Self é grande desenvolvem-se estratégias compensatórias ou através da idealização e idolatração do próprio ou de um outro.

Em casos mais graves, de funcionamento onde está mais ativa a parte psicótica da mente, estabelecem-se relações tipo evitantes - desnarcisantes que se caracterizam essencialmente pelo desligamento, tal é a exaltação do Self grandioso compensatório que encobre a vulnerabilidade - impeditiva de um funcionamento válido - que é fundamental o evitamento da necessidade do outro, porque esta gera um estado confusional pela ausência de uma pele psíquica que estabelece o sentimento de coesão e individualidade do Self. Nestes casos a ligação ao outro estabelece-se somente pela via do menosprezo, o Self grandioso narcísico goza de mestria da desvalorização (do próprio, disfarçada) do outro de forma a manter-se num trono narcisicamente edificado e assente em fragilidades ao nível da identidade primária, estabilidade e coesão, que na ligação ao outro se precipita num fosso de desorganização mental.

Em todos estes tipos de relacionamento amoroso, o que se almeja é a manutenção de uma imagem irrealista do próprio, às expensas do outro, que será tanto mais exigente consoante a fragilidade narcísica do Self.

Nestes tipos de relacionamento, fica prejudicada a descoberta do Eu e do outro na relação, são pseudo-relacionamentos porque não cumprem a sua função desenvolvimentista do Self. Uma relação é tanto mais válida quanto mais possibilita a descoberta do outro e do próprio na relação com esse outro, de modo que se revelem aspectos do verdadeiro Self e seja possível o crescimento e evolução desse.

A relação madura implica, nas palavras de Coimbra de Matos (2009) a comunhão de projectos e de sonhos conjuntos que se possam concretizar, uma relação que seja de “complementaridade desejante e aberta à inovação – o sistema amoroso é um sistema aberto, ao contrário do sadomasoquista que é fechado.” (p.171). Trata-se de um sistema aberto pois há uma necessidade de renovação permanente dos afectos e uma constante afinação da partilha dos afectos amorosos, já que ambos (pressupõe-se) estão em constante desenvolvimento. Haverá, então, uma satisfação pela complementaridade da diferença, gosta-se do outro pelo que complementa o próprio na sua diferença, sem que a diferença seja sentida como ameaçadora para o Self, o que não se passa nestas modalidades relacionais que apresentamos.

A relação saudável é a relação de conjugação, de aceitação mútua e serena que define o par distinto mas complementar. Esta é uma relação de constância, em que a partilha amorosa se renova a cada interacção e que por isso perdura com vivacidade e não desfalece com o tempo, porque não há rotina interna, pois os dois elementos da relação estão em interacção e desenvolvimento contínuo em dança sintonizada com ritmos criativos e promissores do crescimento do Self, ou melhor, da possibilidade de nessa relação o Self se poder manifestar o mais verdadeiramente possível.

O relacionamento amoroso, tal como o relacionamento pais-filhos, terapeuta-paciente deverá ser um relacionamento essencialmente lúdico, no sentido de um encontro criativo de desenvolvimento de ambos os elementos. Os pais devem desenvolver-se na relação com os seus filhos, os terapeutas na relação com os seus pacientes, de forma a que se estabeleçam relações securizantes e não manipuladoras, afectivas e não instrumentais, sem visões binoculares que restrinjam a expansão do Self.

Nestas relações de cariz narcísico a valorização do outro é sempre parcial e na medida em que serve a valorização do próprio indivíduo, nem sequer é uma valorização muito consciente das características do outro mas assente num conjunto de ilusões sobre as qualidades e competências que o próprio julga faltarem em si. O outro é como que um objeto ilusoriamente construído sobre o qual se deposita a expectativa de amparo da necessidade, mantendo-se estas relações em “banho narcísico” que funcionam como que bálsamos para o Self, acalentando a falha, mas sem resolução efectiva.

Por oposição, numa relação de amor verdadeiro, os parceiros enriquecem-se mutuamente com bem-estar narcísico, há um prazer recíproco na valorização e reconhecimento das competências amáveis do objeto, num ajuste de funcionamentos e remodelações internas baseadas na compreensão do funcionamento do próprio e do outro. Acima de tudo, considera-se que numa relação madura há a vivência do outro enquanto objeto amável, no sentido de ser capaz de despertar amor, o que não acontece nas relações que visam o reparo narcísico, porque a ideia do outro enquanto objeto digno de amor, remete para a inveja, para a auto-desvalorização e para a realidade insuportável da constatação de que o próprio não é o único, o desejável, o mais digno de ser amado! Até porque se o objeto for desvalorizado no sentido de não conseguir despertar afecto e desejo, facilita a ilusão de que ficará mais agarrado ao indivíduo, possibilitando uma confiança ilusória.

Quando não há desenvolvimento do par amoroso, não se trata de relação, poder-se-á chamar de acordo, contrato, algo que se cinja a uma função, mas não de desenvolvimento amoroso. O amor de casal tem implicada uma capacidade de autonomia conciliada com uma competência para se deixar depender.

Em muitos casos o que se passa é a procura de relações em simultâneo, ou a transição imperativa de um objeto para outro de forma a minimizar o sentimento de perda e de dependência face ao objeto, aludindo assim à independência e autonomia, maniacamente alicerçada numa pseudo-sexualidade encobrindo a vulnerabilidade narcísica.

Em suma, desde as relações mais precoces que se formam percepções e representações sobre o Self, sobre o objeto e sobre as interacções relacionais, originando um sentimento de Self coeso, de um Self incompleto ou um Self diminuído. O problema surge quando ao longo da vida se repetem estas percepções, impedindo que se estabeleçam visões mais saudáveis e verdadeiras acerca do próprio e das suas competências para gerar amor no objeto, encriptando-se toda a vida relacional e emocional do sujeito. Nos casos em que há uma representação diminuída do Self, o obstáculo à mudança reside numa culpabilidade em contrariar e em abandonar os objetos internalizados e em conquistar uma visão mais autónoma e positiva do Self que permita o estabelecimento de relações mais salutares regeneradoras do Self e geradoras de saúde, de bem-estar emocional e vincular. Nos casos em que ocorre a formação de um Self incompleto, a dificuldade reside em abandonar as figuras interiorizadas na medida em que isso acarreta um sentimento de vazio e de perda da identidade, o que restringe a evolução do Self e aprisiona todo o desenvolvimento.

Não obstante, o estudo efectuado permitiu-nos confirmar que nos funcionamentos amorosos que apontámos, o que está subjacente é a procura de uma ligação a um semi-objeto porque parcial, admirado ou admirador, que possa trazer a ilusão de completar o Self frustrado, um objeto que cumpre uma funcionalidade que na relação com o objeto precoce não foi possível firmar, traçando-se assim relações que se edificam com funções de parentalidade e não de desenvolvimento de relação de casal sexual e de trocas maduras. Com frequência se prende com a dificuldade de ambos os elementos do casal se colocarem num papel de homens e mulheres por oposição ao de crianças em formação.

O problema é que nestas situações, o parceiro que parecia compatível por estar em posse de atributos que escasseiam no Self do próprio, revela-se o mais incompatível, precisamente pelo emergir permanente dessas inseguranças pelo facto de se estabelecer uma relação em que ambos - cujo Self reclama afirmação - se acusam mutuamente e incidem particularmente no cerne da ferida narcísica. São sempre objetos frustrantes, que desiludem e fazem um ataque ao bem-estar narcísico. São aquelas relações referidas por Robins (1982) em que um é o possuidor, porque munido de supostos atributos que faltam ao outro e - o possuído, aquele que se coloca na posição submissa de admirador, muitas vezes sem desejo, sendo o envolvimento da ordem da pré-genitalidade, em que a relação é mantida pela dependência estéril de ambos, mas supostamente com ganho mútuo, o que é admirado ganha na sua necessidade de ter um objeto do Self espelhante, que denuncie a admiração tão ansiada e o outro, ganha no seu narcisismo por se sentir ligado a um objeto valorizado, como se simbolicamente ocorresse uma transfusão narcísica, em que o valor atribuído a um é passado ao outro, é a tentativa de recuperar a idealidade do próprio através da idealização do outro, segundo os ensinamentos de Coimbra de Matos.

O que se passa é que quando as ligações se estabelecem por idealizações parciais do próprio e do objeto, elas ficam fechadas ao desenvolvimento do todo, cerram-se em ciclos de compensação narcísica que cristalizam a relação em que por vezes se penhora todo um desenvolvimento afectivo-emocional, e um crescimento do Self, sem que se esteja preparado para a evolução de um e de outro na relação. As relações ficam como que sufocadas e não é possível a plasticidade adaptativa e transformadora, porque o que se visa é o alimento do vazio deixado pelo desenvolvimento do Self que não se processou.

Muitas vezes estas relações mantêm-se no tempo, são duradouras no sentido em que o par não se consegue desprender, e a acusação mútua transforma-se num alimento narcísico, mas a relação em si está submersa numa névoa depressiva, anulando a vida do par, em que não se cresce nem se aproveita a vida, aprisionados pela depressividade e pela debilitação narcísica que impede que se soltem e procurem uma vida relacional mais saudável e verdadeiramente amorosa.

Estas são relações em que, tipicamente, para que um se distinga é necessário que o outro permaneça na opacidade, em que se desenvolvem acordos de restabelecimento da imagem danificada e desvalida que cada um tem de si, numa dependência consumidora impeditiva da criatividade e da liberdade do Self, em que um dos elementos do casal se coloca numa posição mais passiva e submissa e o outro, mais activo, aquele que suga a admiração muitas vezes utilizando estratégias depreciativas da conduta do outro, em que de modo tantalisante o aprisiona cada vez mais ao objeto digno de admiração.

São estes circuitos fechados que cancelam todo o desenvolvimento, que conduzem a relações estagnadas e enredadas num cerco narcisante, protésicas e sem possibilidade de enriquecimento, comprometendo todo o desenvolvimento do Self, porque não são transformadoras, apenas funcionam como um curativo rápido para um Self ferido. Trata-se de relações que se mantêm no tempo num continuo “lamber de feridas” antigas, sem que haja um sarar definitivo e uma reparação que permita o retomar do desenvolvimento que ficou retido.



Capítulo 2 – Narcisismo e Relações Amorosas

O termo narcisismo começou por ser utilizado de modo pejorativo dizendo respeito à preocupação excessiva com o próprio, sendo com o texto de Freud de 1914 que este passa a ser relacionado com a patologia (esquizofrenia, perversão, homossexualidade e hipocondria), com a regulação da auto-estima, com o amor, com o desenvolvimento normal e com o Ideal do Eu (Kernberg, 1991 b), Grinberg, 1991).

De acordo com Baranger (1991) o conceito de narcisismo tornou-se o mais obscuro e problemático de toda a teoria psicanalítica, acrescentando Grinberg (1991) que este se tornou mesmo confuso e controverso. A confusão, de acordo com Rothstein (1979) terá a ver com o facto da pesquisa ser realizada num contexto de várias perspectivas e tendo por base diferentes referenciais teóricos.

No entanto, de acordo com Baranger & cols. (1980), este conceito conjuntamente com o de identificação conduziram a reestruturações profundas na teoria psicanalítica.

Segundo Jones, Freud terá utilizado o termo pela primeira vez no trabalho sobre Leonardo e mais tarde para explicar a megalomania do Presidente Schreber. Em 1909 na Sociedade Psicanalítica de Viena terá dito que o narcisismo corresponderia a um estádio de desenvolvimento intermediário necessário na passagem do auto-erotismo para o alo-erotismo (Etchegoyen, 1991).

Não obstante, de acordo com Rothstein (1979), os escritos de Freud revelam muitos aspectos ainda hoje considerados importantes, uma vez que já na altura Freud estava ciente da ligação entre narcisismo e as experiências de frustração, a percepção dos limites da realidade e a sua relação com a perda do objeto, real ou imaginada.

As compreensões sobre o narcisismo que surgem após as ideias de Freud estão relacionadas com as diferentes correntes de pensamento que foram surgindo, levando a que se tornasse num dos conceitos mais confusos do campo teórico psicanalítico (Rothstein, 1979; Pulver, 1986). As mudanças surgidas ao nível de determinados conceitos psicanalíticos conduziram a alterações nas teorizações sobre o narcisismo.

Para Kernberg (2004), a dificuldade relativamente à clarificação do conceito de narcisismo prende-se com o facto de haver dois níveis paralelos e complementares de definição, um que tem a ver com a definição em termos metapsicológicos, sendo definido como o investimento libidinal do Self, e um outro que tem a ver com o narcisismo enquanto síndrome clínico que caracteriza pacientes com deficiente regulação da auto-estima.



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