Disponibilização: Marisa Helena Digitalização



Baixar 1.18 Mb.
Página1/20
Encontro25.01.2018
Tamanho1.18 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   20






A fim de salvar seu meio-irmão, Zara aceita o ajuste proposto por seu tio, o rico financista Francis Markrute. Markrute, um homem calculista, vê em Zara a mulher ideal para seu jovem amigo Tristram, lorde Tancred. Tristram se apaixona por Zara à primeira vista, mas o passado, o orgulho e a discórdia semeada por uma antiga namorada, impede que os dois se entendam.




Disponibilização: Marisa Helena

Digitalização: Marina

Revisão: Bee

Elinor Glyn

POR QUÊ?

(The reason why)

BIBLIOTECA DAS MOÇAS

VOLUME N° 7

Tradução de PAULO DE FREITAS

COMPANHIA EDITORA NACIONAL



SÃO PAULO

Direitos para a língua portuguesa adquiridos pela COMPANHIA EDITORA NACIONAL — São Paulo — que se reserva a propriedade literária desta tradução.

Impresso nos Estados Unidos do Brasil

Printed in the United States of Brazil



CAPÍTULO I

PROPOSTA ABSURDA

NINGUÉM podia atinar com a nacionalidade do grande financista Francis Markrute. Nacionalizado inglês, o seu todo era de um inglês. De compleição fina e cabelos loiros, possuía uma linha impecável, que os melhores criados jamais poderiam dar-lhe. Trajava-se com aquela inconsciente e peculiar elegância dos londrinos, e a sua voz não traia sotaque especial a despeito de um modo todo particular de falar. Entretanto, Markrute! — tal nome deveria provir de algures. Ninguém sabia nada a seu respeito, a não ser que era fabulosamente rico e há dez anos se fixara em Londres, vindo talvez de Paris, de Berlim ou de Viena. Imediatamente se tornou um dos homens mais poderosos da cidade, e dentro de um ano ou pouco mais se alcandorou à onipotência em certas rodas.

Markrute possuía magnífica residência em Park Lane, um dos melhores prédios ali localizados, que se levantava precisamente ao dobrar-se a rua Grosvenor, e onde vivia com um certo recato.

Pessoas que tinham vagar para cuidar de outrem — caso raro hoje em dia — notaram que desde quando chegou a Londres jamais ele fez qualquer amizade desvantajosa. Se sucedia cruzar, em seus negócios, com pessoas indesejáveis, depois de tratá-los deixava-as de um modo seco e rude, e nunca lhes frequentava as casas. Aliás as suas relações de amizade eram cuidadosamente escolhidas e mantinha-os para um definido propósito. Uma das suas sentenças prediletas era que "Somente os tolos cavam para as suas próprias necessidades".

Neste instante, sentado em sua biblioteca que olha para o parque, e fumando excelente charuto, Markrute aparenta uns quarenta e seis anos ou pouco mais. No entanto, se lhe avaliarmos a idade pelos seus olhos, sagazes como os de uma serpente, podemos dar-lhe dez anos de menos.

Na sua frente e defronte da luz, achava-se um rapaz afundado numa grande poltrona de couro. Quase sempre os visitantes de Francis Markrute, quando se encontravam na biblioteca, se sentavam com o rosto voltado para a luz, ao passo que ele sempre lhe dava as costas.

Não havia sombra de duvida quanto à nacionalidade desse visitante. Era um exuberante inglês. Se quiséssemos enviar um espécime da raça à Feira do Mundo com certeza de levantarmos o prêmio não encontraríamos melhor representante. Talvez fosse mais normando do que saxônio, porquanto tinha os cabelos negros, embora os olhos fossem azuis, e todos os traços de sua linhagem se ostentavam tão claramente como os de um vencedor no Derby.

Francis Markrute sempre saboreava os seus charutos até o fim, bastando para isso que o charuto lhe agradasse. Entretanto, lorde Tancred — Tristram Lorrimer Guiscard, 24.° barão Tancred, de Wrayth, no Condado de Suffolk — distraidamente atirava o seu na lareira, se estivesse preocupado, por vezes, depois de algumas fumaçadas. Justamente isso é que agora fez, e riu-se com uma pontinha de amargura, quando tornou ao assunto da palestra.

— Sim, Francis, meu amigo. Nada mais me resta a fazer aqui, em Londres. Com trinta anos sou forçado a emigrar para o Canadá, pelo menos por algum tempo, e ali erguer o meu rancho.

— Por causa da pesada hipoteca sobre Wrayth, não é verdade? — indagou Mr. Markrute, tranquilamente.

— Isso mesmo. E também por causa da propriedade do norte. Quando se verificar a partilha, e minha mãe entrar na posse dos seus bens parafernais, este ano, creio que nada me restará, uma vez que aqueles radicais bestas tornaram as coisas tão difíceis…

O financista sacudiu a cabeça, e o rapaz prosseguiu:

— Meus antepassados "meteram o pau" no que puderam. Não ha muito dinheiro liquido para recebermos e a gente precisa viver…

Francis Markrute, com ar pensativo, continuou a puxar fumaçadas do seu charuto. Um minuto depois, observou:

— Naturalmente. A questão resume-se em saber quanto vai durar esse estado de coisas. Compreendo o seu embaraço se você conseguir fixar-lhe a duração. O que me parece desagradável é você assumir esse risco e depois assistir ao gradual desmoronamento de tudo. Já leu o Rolla, de Musset?

— A historia daquele rapaz que chegou à sua última noite, e para quem a sua garota era tão carinhosa? Sim. O que tem isso?

— Você me faz lembrar Jacques Rolla.

— Ora essa! O que se passa comigo não é assim tão mau! — exclamou lorde Tancred, rindo-se — Ainda posso conseguir, aqui, algumas libras, e depois abalar para o Canadá. Palpita-me que lá se possa fazer uma fortuna, mediante o emprego de pequeno capital. Além disso, a vida ao ar livre é simplesmente adorável. Justamente vim procurá-lo esta tarde, de volta da Escócia, para avisá-lo de que pretendo partir em fins de novembro, de sorte que não posso fazer-lhe companhia na caça aos seus faisões no dia 20, para a qual tão gentilmente me convidou.

Os olhos do financista estavam semi-cerrados. Quando isso lhe sucedia, alguma coisa de importância lhe preocupava os pensamentos.

— Você, Tancred, não é um rapaz viciado. Não é um afeiçoado ao jogo, quer no Jóquei, quer nas cartas. Nem vive a sustentar mulheres de luxo. Para um desportista, é um rapaz ilustrado, e pronunciou um ou dois honestos discursos na Câmara dos lordees. Realmente, é um dos finos ornamentos de sua classe. Causa-me pena vê-lo encerrar, assim, a sua carreira e abalar para as colônias.

— Qual! E nem vou encerrar a minha carreira. O que sei é que as coisas aqui me estão cheirando mal. Deixamos a escoria, os mais incapazes e ignorantes com o voto de desempate, e a máquina governamental hoje em dia esmaga qualquer homem. Conservei-me afastado da politica tanto quanto pude, e não me arrependo disso.

Francis Markrute levantou-se e cerrou um bocadinho as venezianas, porquanto um miserável sol de setembro cuidava de penetrar no aposento. Se lorde Tancred não estivesse tão preocupado com os seus próprios pensamentos, teria notado a inquietação do seu hóspede. O inglês não era um tolo, mas tinha o pensamento além. Despertou de sua divagação quando aquela voz fria, deliberada, continuou a falar-lhe:

— Tenho uma proposta a fazer-lhe, Tancred, caso lhe convenha aceitá-la. Talvez não saiba que possuo uma sobrinha. É viúva e, pode-se dizer, atraente. Se você desposá-la, pagarei todas as suas hipotecas e a dotarei quase que com uma fortuna de princesa.

— Valha-me Deus! — exclamou lorde Tancred.

O financista avermelhou um bocadinho, na altura da testa, e os seus olhos despediram um brilho de aço. Aquela exclamação encerrava um mundo de coisas, o que não o impediu de indagar com toda a delicadeza:

— Que ponto de minha proposta o levou a exclamar ˝Valha-me Deus˝?

O sangue frio de lorde Tancred jamais o abandonava.

— Que ponto? Mas toda a proposta, Francis. Primeiro, casar-me. E casar-me com uma desconhecida. Depois, ter as minhas dividas todas pagas, o que é uma coisa sobremodo importante.

— Nem por isso. Uma ocorrência das mais comuns. Pense no numero dos seus pares que foram à América pura e simplesmente à cata de esposas.

— Mas não se esqueça que alguns deles são uns canalhas de marca! Não pretendo passar por um bom administrador dos meus bens; entretanto, possuo um dos mais antigos nomes e títulos da Inglaterra, e até agora em nossa família não tivemos nenhum canalha ou covarde. Por Deus, Francis, onde você quer chegar? Não me fale mais disso, homem! Não estou morrendo de fome, e se chegar a esse ponto ainda tenho o recurso de poder trabalhar.

Mr. Markrute alisava as mãos. Geralmente não perdia a linha por qualquer coisa.

— Confesso, foi um erro de minha parte fazer-lhe tal proposta desse modo. Vou ser franco para você. Minha família também é, meu amigo, tão antiga quanto a sua. De todos os meus parentes, minha sobrinha é a única pessoa que me resta no mundo. Gostaria de vê-la casada com um inglês… gostaria que ela o desposasse, com preferência a todos os ingleses, porque eu o aprecio e tenho em elevada estima as qualidades que possui. Creia-me — e Markrute levantou o dedo, como que protestando contra qualquer interrupção — há alguns anos que vivo a estudá-lo, de modo que nada existe pessoalmente a seu respeito, ou a respeito dos seus negócios, que me seja estranho.

lorde Tancred, riu-se.

— Markrute, meu velho: somos amigos ha muito tempo, e uma vez que estamos falando nessas coisas de família, devo confessar-lhe que aprecio imenso o seu endemoniado, natural e frio ponto de vista em tudo. Aprecio o seu conhecimento sobre vinhos, charutos e pinturas, e você é o mais interessante dos meus amigos. Mas, palavra de honra, em absoluto desejo sua sobrinha por esposa, se ela seguir o seu exemplo.

— Pensa que também ela possua este meu sangue frio?

— Sem sombra de dúvida. E isto tudo é simplesmente absurdo. A meu ver, você não pesou sequer uma palavra do que me disse… dessa espécie de piada.

— Acaso desde que nos conhecemos, Tancred, já lhe disse eu alguma piada? — perguntou Markrute, com toda a calma.

— Não. Nunca. E isso é que acho esquisito. Que diabo realmente você pretende, Francis?

— Pretendo o que já lhe disse: pagar-lhe todas as dívidas e dar-lhe uma encantadora e riquíssima esposa.

lorde Tancred levantou-se, pôs-se a andar de um lado e de outro no aposento. Ele era um homem perfeitamente normal, impassível e calmo como os de sua raça, disciplinado e deliberado nos momentos de perigo ou de dificuldades, e jamais perdia o domínio de si mesmo como sucedera ao financista. Estava palestrando com um amigo e a ocasião não lhe pareceu propicia para aborrecer-se ou ocultar os seus sentimentos.

— O que você me propõe, Francis, é um contra-senso, e não o cometerei. Como sabe, fui um estroina de marca, e já que afirmou estar a par de tudo o que me diz respeito, provavelmente há-de conhecer meus gostos e os meus desgostos. Nunca ando atrás de mulher que não me seduza, e jamais casarei com qualquer delas, a não ser que realmente me apaixone. Pouco importa que tenha dinheiro ou não, embora eu acredite que em qualquer circunstância detestaria uma esposa rica, porquanto fácil lhe seria dizer-me, como aquela lady americana ao pobre Darrowood: "O automóvel é meu e você hoje não pôde ocupá-lo".

— Então, você se casaria com uma mulher a quem realmente amasse, a despeito de tudo? — indagou Francis Markrute.

— Provavelmente. Mas a verdade é que ainda não me apaixonei por nenhuma. De mais a mais, paixões profundas só se encontram em meras criações literárias, a meu ver. Mulheres que se importem muito com isso não mais existem, não acha, meu amigo?

— Ao contrário, penso que ainda ha mulheres capazes de tal paixão — retorquiu o financista, franzindo os lábios.

— Bem, mas ainda não as encontrei. E oxalá esteja bem distante o dia em que com elas me esbarre em meu caminho. Até então, estarei em segurança.

Um estranho, um misterioso sorriso alumiou o rosto de Mr. Markrute.

— A propósito, Francis , como é que você sabe que a sua sobrinha deseja casar-se comigo? Do modo por que você fala, é como se eu fosse o único a ser consultado.

— De fato, assim é. Posso responder por minha sobrinha. Ela está pelo que eu quero e, como disse antes, você consubstancia o tipo perfeito de um nobre inglês, Tancred. Até hoje, geralmente, não se lhe deparou mulheres voluntariosas, hein?

lorde Tancred, muito embora fosse homem, não era muito vaidoso, e possuía o seu tanto ou quanto de humor. Riu-se, pois.

— Palavra de honra, acho divertido você ter virado agente casamenteiro, Francis. Não acha isso engraçado?

— Não, parece-me natural. Você possui todas as vantagens sociais para oferecer a uma mulher, e é um rapaz bem apessoado. De outro lado, minha sobrinha é moça, possui atrativos e uma grande fortuna. Mas, não falemos mais nisto. Terei grande satisfação em colocar-me ao seu dispor naquilo em que lhe possa ser útil quanto à sua ida ao Canadá. Venha jantar comigo, logo à noite, e aqui se encontrará com dois magnatas de estradas de ferro, que têm interesses no Canadá, os quais lhe poderão prestar algumas informações.

lorde Tancred aquiesceu ao convite. Levantou-se para sair, e ao alcançar a porta voltou-se e indagou, sorrindo:

— E verei a sobrinha?

O financista estava de costas para o amigo, de sorte que não cuidou de ocultar o sorriso que lhe aflorara aos lábios, e respondeu:

— Pode ser. Mas… não pusemos de parte esse assunto? — e despediram-se.

Ao ruído da porta que se fechava atrás de lorde Tancred, Markrute apertou um botão, na sua escrivaninha. Imediatamente ali apareceu um criado, que caminhava sem fazer bulha.

— Vá dizer à condessa Shulski que desejo falar-lhe imediatamente. Peça-lhe para descer já.

Entretanto, Francis Markrute teve que andar e desandar o aposento várias vezes, cada vez mais impaciente, até que a porta abriu e, com o andar vagaroso, ali surgiu uma mulher.

CAPÍTULO II

NÃO DAREI ESSE PASSO …

O FINANCISTA, que andava e desandava pela biblioteca, parou ao ouvir a porta abrir-se, e ficou inteiramente imóvel onde se achava, com as costas voltadas para a luz. A recém-chegada adiantou-se e postou-se à sua frente, sem dizer palavra. Entreolharam-se, mas o olhar de ambos não revelava grande afeição de um pelo outro, embora a mulher que acabava de entrar merecesse ser contemplada, sob vários pontos de vista. Em primeiro lugar porque possuía aquela atração natural, aquele ímã que não se derivava quer dos seus traços ou das suas cores, quer das linhas suaves do seu corpo ou de sua própria formosura. Era uma força sutil emanada de seu caráter, um como fulgurante magnetismo que se irradiava de toda sua pessoa. Quando Zara Shulski penetrava em qualquer roda, cessava desde logo toda e qualquer palestra, e todo o mundo se punha a fazer conjeturas a seu respeito.

Zara Shulski era mais alta do que baixa, e de compleição fina. Em cada voluptuosa curva do seu delgado corpo ressaltava a ideia de delicadeza. Tinha pequena a cabeça, e rosto pequeno, breve e oval, sem que os seus traços fossem finamente cinzelados. Somente a pele, imaculada na sua brancura, tinha um quê de excepcional. Não era a pureza do leite, mas a deliciosa pureza do veludo branco, ou das pétalas da gardênia. O talho da boca, um tanto encurvado, e vermelhos os lábios. Os dentes, miúdos e iguaizinhos. Quando sorria — coisa que se verificava raramente — aqueles dentes sugeriam a ideia de força, embora miudinhos e brancos. E agora nos achegamos às duas maravilhas que possuía: cabelos e olhos. Ao vermos aqueles olhos pela primeira vez, juraríamos que eram negros, negros como duas manchas de nanquim, ou como discos de veludo preto encravados sob suas largas sobrancelhas, e sombreados com o azeviche das pestanas. Entretanto, se lográssemos neles atentar em plena luz, notaríamos que eram da cor da ardósia, sem o mais leve matiz de castanho ou verde, e que o todo da iris formava uma sombra uniforme. Estranhos olhos, olhos sonhadores, olhos ressentidos, sob espessas e negras sobrancelhas, com a expressão cheia de toda espécie de significações, mas nenhuma delas pacifica ou tranquila. Provavelmente de um antepassado judeu-espanhol, há muito desaparecido do mundo, herdara aquela soberba cabeça de cabelos vermelhos, cor da cereja madura quando se desprende do seu invólucro, ou do lustroso e bem tratado pelo de um cavalo baio. As pesadas tranças, enrodilhadas e bem apertadas em redor da cabeça, por certo lhe cairiam aos joelhos quando soltas. O modo por que se penteava dava a impressão de que Zara não se preocupava com a moda, ou que lhe mudasse o estilo de ano para ano. Mas precisamente aquela porção de cabelo, plantado pouco acima da linha da testa, e a ondear-se em largos lanços, é que lhe comunicava ao corpo a perfeição e a simplicidade próprias de uma dama grega. Nada que dizia respeito à sua pessoa nela aparecia, como se produto de conscienciosa arte. O vestido, feito de um tecido preto e aderente, era pobre. No entanto, trazia-o com os ares tradicionais de uma princesa. Na verdade, Zara Shulski parecia uma princesa genuína, desde as pontas dos seus dedos aristocráticos até aos pequeninos e arqueados pés.

E foi com uma altivez própria de imperatriz, que ela perguntou, em voz baixa e estudada, sem nenhuma entonação:

— Que deseja de mim? Por que mandou chamar-me tão peremptoriamente?

O financista examinou-a durante alguns segundos. Parecia esquadrinhá-la em todos os pontos, com o olhar vivo e penetrante. Era como se intimamente Markrute se desse conta daquele exame, tanto que se pôs a pensar: "Você, minha sobrinha, é maravilhosa e diabolicamente sedutora. Você possui todo o orgulho de meu pai, o Imperador. E como meu pai havia de rejubilar-se revendo-se na sua pessoa! Você é capaz de enlouquecer um homem, e vai servir de penhor na partida em que estou empenhado, em benefício daquela a quem amo. E há-de encontrar a sua própria felicidade. No fim de tudo, se Elinka, do lugar em que se encontra, puder voltar as suas vistas para este mundo, não poderá dizer que fui cruel para com minha sobrinha".

— Pedi-lhe para descer a fim de tratarmos de assunto de grande importância. Quer ter a bondade de sentar-se, minha sobrinha? — disse-lhe o financista, elevando a voz num tom polido e cerimonioso, enquanto oferecia uma cadeira em que Zara prontamente se sentou. Depois, cruzando os braços esperou que ele continuasse.

A sua calma era aparente, como aparente era a calma de Markrute. Mas ao passo que o tio sentia uma tensão nervosa, conscientemente recalcada, a serenidade da sobrinha se derivava de uma força latente e inativa. O pai de Zara era inglês, mas ambos — tio e sobrinha — por vezes davam ideia de duas taciturnas panteras, prontas para saltarem.

— Bem… — foi tudo quanto ela disse. Francis Markrute prosseguiu:

— A sua situação é precaríssima. Segundo ouvi, por vezes, mal consegue o necessário para alimentar-se. Por certo você não há-de pensar que mandei chamá-la em Paris, a semana passada, pelo simples prazer de tê-la aqui, não é verdade? Naturalmente já imaginou que fiz um plano a seu respeito.

— Naturalmente — aquiesceu Zara, um tanto irônica — Nem por sombras me passou pela ideia que se tratasse de pura filantropia.

— Perfeitamente. E já chegamos ao ponto que nos interessa. Lamento ter sido obrigado a ausentar-me, desde a sua chegada até ontem. No entanto, creio que os meus criados lhe tornaram bem confortável a sua permanência em minha casa.

— Bem confortável — concordou friamente a sobrinha.

— Muito bem. Agora, vamos ao que importa. Você não tem a menor duvida que seu marido, o conde Ladislau Shulski, morreu, não é assim? Não é possível um engano quanto à sua identidade? Creio que o rosto dele ficou irreconhecível, não acha? Tomei a precaução de pessoalmente colher informações das autoridades de Monte Carlo. Todavia, desejo-lhe o testemunho final, Zara.

— Ladislau Shulski morreu — afirmou serenamente a sobrinha num tom de voz que denunciava uma certa alegria na afirmativa — Aquela mulher, de nome Feto, foi a causadora do incidente, e Ivan Larski descarregou a sua arma quando Ladislau estava nos braços dela. Ivan Larski é que arcava com as despesas de Feto, e na ocasião Ladislau era o amant du coeur. Ela caiu sobre o corpo de Ladislau como um animal inconsolável com a perda do filho. Quando me chamaram, encontrei-a lamentando os lindos olhos de Ladislau. Aqueles olhos se fecharam para sempre, mas a gente jamais se esquecerá dos seus cabelos ondeados e das suas cruéis mãos brancas. Ah! foi um espetáculo odioso. Tenho presenciado inúmeras cenas desagradáveis, mas aquela foi a pior de todas. Não quero mais lembrar-me disso. Já se passou um ano. Feto cobriu de flores o túmulo de Ladislau, e de novo se juntou ao herói Larski, que conseguiu livrar-se do embaraço. De sorte que tudo caminhou bem.

— E desde então você tem vivido do seu trabalho, e sustentado os outros — observou Francis Markrute, com a voz um tanto sombria e repassada de frio ódio.

— Tenho vivido em companhia de meu irmãozinho Mirko e de Mimo. Como poderia abandoná-los? Por vezes, passamos por pedacinhos bem tristes, principalmente ao chegar ao fim do trimestre. Mas isto nem sempre sucedia, mormente quando Mimo vendia um quadro…

— Não quero ouvir esse nome! — exclamou Francis, um tanto excitado — Nos primeiros dias, se eu o encontrasse em meu caminho, matá-lo-ia, como você sabe. Mas agora o patife pode viver sossegado. A partir do instante em que minha irmã fechou os olhos, risquei-o de minha lembrança, e ele não vale uma bala do meu revólver.

A condessa Shulski sacudiu levemente os ombros, enquanto os olhos se tornavam mais negros de ressentimento. Todavia, não pronunciou palavra. Francis Markrute estava perto da lareira e acendeu um charuto antes de continuar na sua conversa com a sobrinha. Bem sabia ser-lhe necessário escolher palavras, porquanto não estava tratando com uma criatura qualquer.

— Você está com vinte e três anos, Zara, e casou-se aos dezesseis. Até aos treze, pelo menos, eu soube que a educação que teve era aprimorada. Já deve ter algum conhecimento da vida, não é assim?

— Da vida! — ecoou a voz da sobrinha, com acento de indisfarçável amargura — Meu Deus! Da vida e dos homens!

— Sim, provavelmente, acredita que conhece os homens — Zara Shulski levantou um bocadinho o seu lábio superior e deixou à mostra os dentes miudinhos e iguaizinhos, num gesto que parecia o de um animal quando está rosnando.

— O que sei é que são uns fracos e ambiciosos, ou uns brutamontes cruéis e odiosos, como Ladislau, ou uns hábeis e afortunados financistas como o meu tio. É o quanto me basta! Para qualquer deles, nós, as mulheres, devemos sempre ser sacrificadas.

— Bem, mas você não conhece os ingleses…

— Conheço-os, sim. E lembro-me perfeitamente de meu pai. Frio e severo com minha mãe… — ao dizer isto, a voz de Zara tornou-se um tanto trêmula. — Meu pai somente pensava em si, e nas suas viagens a Londres, para entregar-se a passatempos. Durante meses e meses, deixava-a sozinha. Egoístas e vis todos eles!

— Não obstante, encontrei um inglês que lhe serve para marido, e a quem você vai fazer-me o favor de acolher como tal — comunicou-lhe autoritariamente Francis Markrute.

A condessa deu uma risadinha, se é que se pôde chamar de risada àquilo que ressumbrava tanta melancolia.

— O senhor, meu tio, não tem nenhuma autoridade sobre mim. Não darei esse passo.

— Creio que dará, se bem a conheço — retorquiu o financista com toda a calma — Mesmo porque, há condições…

Zara olhou-o fundamente. A expressão daqueles sombrios olhos estava sempre alerta, como a das feras prestes a serem atacadas. Mas com esta diferença: graças a continuado treino, geralmente ela trazia meio abaixadas as pálpebras.

— Que condições? — indagou.

Enquanto a ouvia, Francis Markrute pensava numa pantera negra, que nas manhãs de domingo gostava de ver no Jardim Zoológico. Naquele instante, a sobrinha lhe lembrava o felino.

Até então, o financista estava um tanto constrangido na palestra. Mas daqui por diante o assunto se transformara em simples questão de negócio, e sentia-se bem à vontade para levá-lo a bom termo. Sentou-se defronte da sobrinha, e continuou a soltar aos ares, em forma de anéis, a fumaça aspirada do seu charuto.

— As condições são que o pequeno Mirko, meio-irmão seu, necessita de cuidados. Viverá num meio decente, e terá recursos para desenvolver, pelo estudo, o seu talento…

O financista parou abruptamente, e ficou silencioso.

De seu lado, a condessa Shulski apertava convulsamente as mãos no colo e, mau grado todo o seu orgulho e domínio de si mesma, na entonação de sua voz havia uma nota de angústia, capaz de sensibilizar qualquer coração, exceto o de Francis Markrute, sempre prevenido para tais ocorrências.

— Meu Deus — exclamou Zara, em voz tão baixa que o tio mal podia escutá-la — Já uma vez paguei com o meu corpo e com a minha alma o preço do bem estar dos outros. É crueldade exigirem de mim um segundo e idêntico sacrifício…

— Está na sua vontade — observou-lhe o tio.

Por vezes, Markrute cometia um engano nos seus métodos de lidar com as pessoas. Não confiava nem um pouco na sorte, e conduzia a conversação até o ponto em que desejava, punha fogo na mecha da bomba e depois se mostrava de uma indiferença absoluta. Para despertar o interesse alheio, quando realmente ele é que estava interessado, Markrute mostrava o seu "jogo" para o adversário. A seu ver, o interesse podia ser simulado quando fosse preciso, mas nunca exteriorizado quando real. De modo que não quebrou o silencio da sobrinha, enquanto ela ponderava sobre a transação em vista. Aliás, de antemão ele sabia qual o resultado daquilo tudo.

Zara Shulski levantou-se e se apoiou no espaldar da cadeira em que estivera sentada. O seu rosto estava branco, branco como a morte à luz de uma tarde agonizante.

— Acaso o senhor faz ideia do que foi minha vida ao lado de Ladislau? — sibilou a sobrinha — Antes de mais nada, um títere para os seus prazeres brutais, e um chamariz para apanhar os outros homens, conforme descobri mais tarde. Torturada e insultada, desde manhã até a noite. Sempre o odiei. Entretanto, antes de nos casarmos ele me pareceu gentil, e sempre se mostrou bondoso para minha querida mãe, a quem o senhor deixou que morresse.

A estas palavras, Francis Markrute franziu o sobrecenho, e uma nuvem de pesar cobriu-lhe o austero semblante, ao mesmo tempo que erguia a mão num aceno de protesto, e depois a abaixara, quando a sobrinha prosseguiu:

— Foi quando minha mãe caiu enferma. Éramos tão pobres que não relutei em casar-me com Ladislau.

Abruptamente a condessa Zara se encaminhou na direção da porta, com aquele seu ar de princesa. O vestido negro e já cocado pelo uso como que lhe serpeava atrás. Quando a alcançou, antes de abri-la voltou-se e dirigiu-se ao tio, inconsciente da cena altamente dramática a que dera origem. É que um inesperado e derradeiro raio do sol agonizante ali penetrou e caiu sobre aqueles cabelos cor de fogo, acima da linha da testa, e transformou-os numa como resplendente chama.

— Afirmo-lhe, meu tio, que isso vai além das minhas forças — disse ela, quase que soluçando — Não darei esse passo…

Depois saiu e fechou a porta.

Francis Markrute, agora sozinho na biblioteca, recostou-se em sua poltrona, e continuou tranquilamente com o seu charuto, imerso em profunda meditação.

Que seres estranhos, as mulheres! Qualquer homem poderia dirigi-las a seu talante, bastando para isso que se ajustasse ao temperamento de cada uma quando com elas tratasse, e não desse a minima atenção ao que estivessem dizendo. Francis Markrute era um filósofo. Grande parte das estantes da biblioteca estava atulhada de obras sobre filosofia, e um volume com indícios de manuseio contínuo, encerrando fragmentos de Epicuro, descansava sobre a mesa, a seu lado. Tomou-o entre as mãos e leu: "Aquele que desperdiça sua mocidade com alimentação custosa, excedendo-se em vinhos e em mulheres, se esquece de que é como o homem que gasta o seu sobretudo vestindo-o no verão". Francis Markrute não desperdiçava sua mocidade com vinhos ou com mulheres, e se limitara a estudar a ambos — mulheres e vinhos — e os seus efeitos sobre aquilo que até o momento mais o interessara no mundo: a sua própria pessoa. E chegou à conclusão de que mulheres e vinhos podiam ser utilizados, com a maior vantagem e deleite, por um homem que soubesse dosar as coisas.

Depois, substituiu o livro pelo Morning Post, que estava perto, numa mesinha, e releu a noticia que tanto lhe agradara no desjejum:



O duque de Glastonbury e lady Ethelrida Montfichet ofereceram, ontem, no Palácio de Glastonbury, um banquete às seguintes pessoas…

E seguia-se uma lista de títulos altamente sonantes, até que os olhos do financista se deleitaram na leitura do próprio nome — Mr. Francis Markrute.

Francis Markrute sorriu, e voltou o olhar para o fogo na lareira. Naquele instante, ninguém lhe reconheceria aquele olhar severo dos seus olhos azuis, ao murmurar docemente:

— Ethelrida! belle et blonde!




Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   20


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal