Divaldo Pereira Franco Otília Gonçalves Além da Morte



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Divaldo Pereira Franco

(Otília Gonçalves)

Além da Morte
Intróito
Além da Morte chegam, sem solução de continui­dade, as imensas caravanas de emigrantes da Terra. Procedentes dos mais variados rincões do Orbe, trazem estampados no espírito os sinais vigorosos que lhes refletem os últimos instantes no veículo ce­lular.
Aportam no grande continente da Erraticidade, conduzindo a bagagem dos feitos acumulados duran­te o trânsito pelo mundo das expressões físicas. Nem anjos nem demônios, mas homens que eram, homens que continuam. A desencarnação não lhes modificou hábitos nem costumes, não lhes outorgou títulos nem conquistas, não lhes retirou méritos nem realizações. Cada um se apresenta como sempre viveu. Não ocor­re milagre de transformação para os que atingem o grande porto...
Raros despertam com a consciência livre, após a inevitável travessia. A incontável maioria, vinculada atrozmente às sensações animalizantes, se jugula às lembranças daquilo em que se comprazia, e se de­mora, desditosa, em bandos, quais salteadores en­louquecidos, pervagando em volta do domicílio car­nal, até que a Lei Excelsa os recambie ao renascimen­to.

Muitos, quais doentes em processo de convales­cença de longo curso, são recolhidos a Colônias Espi­rituais, que abnegados missionários do amor e da ca­ridade ergueram nas proximidades do planeta, onde se refazem e retemperam as forças gastas, para re­começar, reaprender e exercitar a ascensão aos pla­nos mais felizes.


Da mesma forma que na Terra enxameiam as afei­ções intercessórias, além da morte não cessam as ma­nifestações do amor em intercâmbio contínuo, esta­belecendo os fortes laços da proteção e do socorro. O amor em todo lugar é a alma do Universo — ma­nifestação de Deus.
Mesmo os Espíritos calcetas, inveterados perse­guidores da paz de muitos outros Espíritos — infeli­zes que são em si próprios, espalhando, por isso, a infelicidade de que se encontram possuidos — não estão esquecidos do auxílio divino pelos mensagei­ros abnegados que por eles velam, que os assistem e amparam. Em toda parte e sem cessar, o devotamento dos bons reflete a paternal providência divina. Morrer, longe de ser o descansar nas mansões celestes ou o expurgar sem remissão nas zonas in­fernais, é, pura e simplesmente, começar a viver...
Evidentemente que as dimensões do céu, ou do inferno sem o caráter ad aeternitatem, encontram o seu correspondente em regiões aflitivas onde as cons­ciências empedernidas se depuram para futuros re­nascimentos na organização física em que se reajus­tam e se recompõem; ou estâncias de luz onde se comprazem e se reúnem os heróis anônimos do de­ver, os missionários dos labores humildes que passa­ram ignorados, os sacerdotes do trabalho aparente­mente desvalioso, os pais, irmãos e amigos ricos de abnegação desinteressada, os mantenedores do bem e da ordem, prosseguindo no programa de incessan­te evolução...
Após a disjunção celular, a consciência comanda o Espírito e o peso específico das vibrações, por afini­dade, se encarrega de fixar cada um no quadro das necessidades evolutivas.

Não faltam, todavia, aqueles que, na Terra, obje­tam e recalcitram em torno de tais afirmações. Não temos, porém, a pretensão de convencer este ou aquele aprendiz da vida em experiência liber­tadora. Todos os que se demoram no plano físico defron­tarão agora ou mais tarde as realidades espirituais e aprenderão de visu pelo processus da própria evolu­ção, retificando opiniões, disciplinando observações, experimentando...

A morte a todos os aguarda e a vida é a grande resposta a todos os enigmas. Preparar-se para esses imperiosos acontecimen­tos é tarefa inadiável, que ninguém pode desconsi­derar.

Pensando nisso, a nossa irmã Otília, em páginas que endereça à sua filha, ainda envolta nos tecidos da carruagem física, reúne apontamentos da sua ex­periência pessoal, que agora apresentamos em letra de forma, guardando a esperança de, com essas nar­rativas, oferecer advertências e considerações — con­siderações e advertências, aliás, que vêm sendo re­petidas desde os primórdios dos tempos e que, no Evangelho como na Codificação Kardequiana, atin­gem sua mais vigorosa expressão — aos que trafegam desatentos ou àqueles que buscam consolação e alen­to na Doutrina dos Espíritos.

A missivista não teve em mente apresentar novi­dade, considerando mesmo que novidade é tudo aqui­lo que alguém ignora, já que, “nada há de novo sob a luz do sol”, sendo a revelação sempre a mesma atra­vés das idades, surgindo hoje e ressurgindo amanhã, com aspecto, caráter e roupagens novas. Existem aqui e além-mar, em letras portuguesas e estrangeiras, excelentes informações sobre a vida além da morte. Muito se disse e muito se dirá ainda. Faz-se necessário, no entanto, repetir, divulgar, acos­tumar os homens às questões espirituais. A experiência da nossa mensageira desencarna­da foi individual, e a colheita que é sempre pessoal, pode, entretanto, sugerir lições e ensejar abençoa­das meditações ao leitor interessado. Em um momento sequer desejou a amiga espiri­tual fazer obra de literatura, por motivos facilmente compreensíveis. Ditou estas páginas nas sessões hebdomadárias do Centro Espírita Caminho da Reden­ção, entre os meses de março de 1958 e agosto de 1959, na sua quase totalidade em presença daquela a quem foram dirigidas.

Ao trazer o presente livro à divulgação fazemo-lo, também, homenageando o mestre lionês Allan Kardec, por ocasião do próximo centenário de A Gênese, em a qual se estudam questões transcenden­tes, palpitantes e atuais à luz clara e meridiana da razão e da ciência. Nossa homenagem singela reflete, mais que ou­tro sentimento, o da gratidão mais profunda, e do res­peito mais acendrado ao vaso escolhido, que se fez missionário do CONSOLADOR, no justo instante em que o espírito humano se desgoverna e se amesqui­nha ante as notáveis conquistas do engenho técnico, sem, contudo, os seus correspondentes morais.

A mensagem consoladora e clara das Vozes do Céu tem regime de urgência e, ante as perspectivas atraentes do amanhã com Jesus, formulamos votos de paz com as nossas sinceras escusas àqueles Espí­ritos valorosos, perspicazes e estudiosos que, certa­mente, não encontrarão aqui o de que necessitam para sedimentação da cultura ou ampliação do conhe­cimento. Exorando ao Senhor que nos abençoe a todos, dis­cípulos sinceros que buscamos ser de Jesus Cristo, sou a servidora,

Joanna de Ângelis

Salvador, 17 de julho de 1967.

ESCLARECIMENTOS OPORTUNOS
“Vi logo que cada Espírito, em virtude de sua posição pessoal e de seus conheci­mentos, me desvendava uma face daquele mundo, do mesmo modo que se chega a co­nhecer o estado de um país, interrogando ha­bit antes seus de todas as classes, não poden­do um só, individualmente, informar-nos de tudo

(Allan Kardec — Obras Póstumas — 11ª Edição da FEB — Página 241.)


À medida que recuperava a tranqüilidade Além da Morte, quando as vibrações da carne se diluíam no grande mar do esquecimento, longe das impres­sões mais fortes do plano físico, desejei retornar aos seres queridos que ficaram na retaguarda, para nar­rar-lhes a minha experiência.
Examinando, porém, as limitações que me incapacitam, compreendi, de cedo, a impossibilidade que dificultava a realização do meu desejo. Sem cultura intelectual acadêmica, habituada apenas aos proble­mas do lar humilde, sempre distante das belas letras, não fui aquinhoada, quando na Terra, com as dádivas do Saber. Desejava, entretanto, falar aos companhei­ros de luta, adverti-los, mostrar-lhes as surpresas da vida espírita, oferecer-lhes as impressões pessoais, concitando-os ao trabalho renovador que o Espiritis­mo oferece a todos, no abençoado campo das reali­zações imperecíveis.
Embora informada pela Doutrina Espírita de que a vida continuava, esclarecida pela Obra de André Luiz, a que me afeiçoara quando encarnada, esbar­rei, assim mesmo, com surpresas e inquietações, à semelhança de turista confuso que, em visita à gran­de cidade, embora conduza no bolso o livro-guia, pro­cura insistente e desarvoradamente endereços que não sabe onde se encontram...

Quantas aflições e remorsos, receios e ansieda­des visitaram minha alma, depois do túmulo, não sei dizer. Constatei que a vida prossegue sem grandes mo­dificações, oferecendo a cada alma, no cadinho evo­lutivo, as bênçãos ou punições de que se faz credora.


Atormentados do sexo continuam ansiosos. Escravos do prazer prosseguem inquietos. Servos do ódio demoram-se em aflição. Companheiros da ilusão permanecem engana­dos. Aficionados da mentira dementam-se sob ima­gens desordenadas. Amigos da ignorância caminham perturbados.

Somente as almas esclarecidas e experimenta­das, na batalha redentora, caminham em liberdade, desfrutando a dádiva da esperança entre sorrisos e realizações.


Verifiquei o significado real da Fé. Ao invés de ser aceitação passiva de crença religiosa é, antes, pro­grama de ascensão e renovação interior. Conduzir a claridade pura do Cristianismo, na mente e no coração, é alta concessão do Céu que nin­guém desrespeitará impunemente.
E afirmei a convicção de escrever algumas pági­nas sem a preocupação de fazer literatura nem apre­sentar soluções de transcendência metafísica aos velhos problemas da alma, tão bem estudados e debatidos desde há muito, nas Escolas que se preocu­pam com o assunto.
Objetivei, apenas, dar mais um grito de alerta, dirigindo à minha própria filha os apontamentos que agora vêm a lume. Deixei que a mente evocasse as cenas que vivi Além da Morte, amparada pelas irmãs Liebe e Zélia, benfeitoras incansáveis que se encar­regaram, desde as primeiras horas, de me sustentar a alma atribulada, ensej ando-me a longa caminhada de restabelecimento. Não me inspirou, uma só vez, a idéia de escrever um livro, considerando-me, conforme já o disse, inca­paz de o fazer. Amparada pelo meu Guia Espiritual, foi-me pos­sível, entretanto, realizar o mínimo que agora ofere­ço ao caro leitor para a sua meditação, rogando-lhe desculpas. São anotações de um coração para outro coração que se encaminha para o túmulo. São expres­sões que você mesmo encontrará mais tarde, queira ou não, acredite ou não. São referências escritas com lágrimas e sob terríveis acúleos de dor.
Não acalento outro anseio, senão despertar alguém na carne para a responsabilidade da vida, durante a travessia física no barco da existência planetária. Perdoe-me, pois, o leitor interessado em aprofun­dar conhecimentos, se pouco lhe pude oferecer. Conservo a alegria de trazer as minhas páginas a você, animada pelas expressões do Codificador do Es­piritismo quando afirma “que se chega a conhecer o estado de um país, interrogando habitantes seus de todas as classes...
Esse é o país da minha atual residência, relatado pelo amor de uma mãe que na vanguarda adverte a filha em caminho da Eternidade, apontando o velho roteiro evangélico, sempre atual: “FAZER A OUTREM O QUE SE DESEJA QUE OUTREM LHE FAÇA”. Agradecendo a Jesus e à Mãe Santíssima, sou a irmã humílima e reconhecida. Otília Gonçalves. Salvador, 15 de janeiro de 1960.
Além da Morte
Todos os dias chegam corações atormentados, alem da morte. E apezar do horizonte aberto, jazem no chão como pássaros mutilados... Loucos, sob a hipnose da ilusão. Suicidas, descrentes dos proprios méritos. Criminosos sentenciados no tribunal da consciencia. Malfeitores que furtaram de si mesmos. Doentes que procuraram a enfermidade. Infelizes a se imobilizarem nas Trevas.
Alcançando a Grande Luz assemelham-se a cegos da razão ante a sabedoria da natureza. Por mais se lhes mostre a harmonia do Universo e por muito se lhes fale dos objetivos da vida, continuam desdito­sos e dementados.
Ha quem diga que os chamados mortos nada tem a ver com os chamados vivos, entretanto, como os chamados vivos de hoje, serão os chamados mortos, de amanhã, com possibilidade de se perturbarem uns aos outros caso per­severem na ignorancia —, cultivemos na Doutrina Espírita o instituto mundial de esclarecimento da alma, a fim de que o pensamento regenerado consiga redimir as suas proprias cri­ações que substancializam a experiencia da Humanidade nas várias nações da Terra.
É por isso que saudamos neste livro mais um brado de renovação e esperança, concitando-nos ao aproveitamento das horas. Fixemos a atenção. O médium é o braço do semeador. A emissária é a mão que semeia. A mensagem é a semente de encarnados e desencarnados, a palavra de amor e exortação que nos é trazida ao entendimento, assimilando-lhe os valores impereciveis porque, em verdade, andam sempre avisados e felizes os que trazem consigo “os olhos de ver” e “os ouvidos de ouvir.”

André Luiz


(Página psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier na reunião mediúnica do Centro Espírita Uberabense, na noite de 13 de janeiro de 1960, em Uberaba, M”A GÊNESE”) (*) Ortografia conforme o original.

1 - A VIDA CONTINUA
Minha filha, que a paz do Senhor seja conosco!
Desde o momento em que o anjo da morte me dirigiu seu pensamento, enviando-me a lú­gubre mensagem da “angina-pectoris”, umtur­bilhão indescritível tomou conta do meu Espírito.

A princípio, com as carnes sacudidas pe­los estertores do coração que não mais podia cooperar com a vida física, inenarrável sofri­mento tomou-me todas as fibras, do peito ao cérebro e deste aos pés, fazendo-me enlouque­cer. Atormentada entre as idéias da “morte” apavorante que eu temia e a ansiedade da “vida” que escapava ao peso cruel do sangue que se negava a irrigar artérias, veias e vasos, senti que ia tombar.


Reuni as forças que desapareciam céleres, abandonando-me impiedosamente, tentando resistir à violência da dor que me despedaçava toda, e mais não consegui senão emitir gritos de­sesperados, semilouca. Tinha a impressão de que vi­gorosa mão de ferro me estraçalhava o coração e, a par da agonia que não posso descrever, sentia que a vida fugia rápida, fazendo-me desmaiar, sem que, con­tudo desaparecesse a dor superlativa que durante muito tempo iria conservar-me envolta em angústia sombria e inquietante.
Não poderei dizer o tempo em que demorei des­falecida. Guardo, ainda hoje, a impressão de que, em volta, um torvelinho me arrastava, dando-me a sen­sação de queda, em profundo abismo sem fim.
Subitamente, como se me chocasse de encontro ao solo, despertei agonizante, tateando em trevas aos gritos de lamentável perturbação. O peito conti­nuava a doer desesperadamente como se estivesse estilhaçado por violento projétil que o varasse, rom­pendo carne e ossos e deixando-o a sangrar... Oh! Jesus, o sofrimento daquela hora!...
O tempo passava sem que eu tivesse notícia, se­não através da agonia que parecia não ter fim.

Como a dor não cessasse, simultaneamente im­pressões diferentes me acudiram ao cérebro turbilho­nado, agigantando meu desespero. Frio glacial apo­derou-se lentamente dos membros inferiores, amea­çando imobilizar-me. Ante essa inesperada sensação, tive a impressão de que pesadelo muito cruel me tor­turava, mas do qual me libertaria em breve. Aquietei-me um pouco, acarinhando a expectativa do agradá­vel despertar... porque tudo aquilo não passaria cer­tamente de um sonho mau.


Além do frio, dores generalizadas paralisaram-me os movimentos, enquanto o enregelamento me tornara­ rígida, O pavor rondava-me, implacável. Sem poder mais raciocinar, sacudida nas ondas crispadas desse mar de desconhecidos sofrimentos, vislum­brei tênue claridade, como se a alva tocasse meus olhos. Tive, então, as primeiras noções do lugar em que me encontrava, permanecendo, entretanto, imóvel.
De início, turvas e embaçadas, as imagens não se tornavam reconhecíveis. Inquieta, percebi-me dei­tada no leito costumeiro, hirta e pálida. Desejei levantar-me, andar, correr, suplicar auxí­lio; estava paralisada, atada a cadeias poderosas. A língua já não se articulava. O cérebro parecia-me de­vorado por labaredas crepitantes. Os olhos, fechados, negavam-me fitar a luz, embora eu “visses tudo e acompanhasse os movimentos exteriores. Escorria-me o pranto incessante, queimando-me a face, e o pensamento se me afigurava qual incandescida cal­deira, cheia de desesperos a destruir-me. Não tinha idéia das horas.
Indagava mentalmente, no martírio, o que me acontecera. Onde estava o companheiro de tantos anos? Os irmãos de fé espírita, onde se encontravam eles que me não socorriam? Os cooperadores dedi­cados do nosso programa de assistência social, para onde fugiram? Para onde conduziram as criancinhas a que me acostumara a amar; por que não me fala­vam? E lembrei-me do Mestre bondoso que se fizera a segurança de todos os infelizes.
No tumulto do meu cérebro, a figura incompará­vel de Jesus tomou vulto, amenizando lentamente meus sofrimentos. Embora não cessassem de todo, as dores diminuiram e uma quietação momentânea aplacou-me o incêndio interior. Respirei algo facilmente.

De longe, pareciam-me chegar aos ouvidos sons e vozes abafados. Embora de olhos fechados, “vi” que algumas pessoas choravam.


Atraída, desejei erguer o corpo; senti-me sair de dentro do casulo carnal, que então pude ver. En­contrava-me deitada, no esquife mortuário, e de pé, ao seu lado, simultaneamente. Apalpei-me apres­sada e senti-me físicamente. Tudo em mim vibrava com a mesma intensidade doutrora, avolumando-se às impressões da carne a agressão da dor.
Procurei alargar os movimentos e percebi que o frio terrível desaparecia, desatando-me do porto da rigidez. Andei um pouco vacilante e, de súbito, na mi­nha mente brilhou inesperada idéia: eu não estaria morta, porventura! — indagava-me. Atirei-me apres­sadamente ao corpo, tentando erguê-lo para fugir a esse pensamento “tenebroso” e libertar-me das afli­ções. Não consegui, entretanto, o meu intento. As lá­grimas voltaram a romper as represas e corriam volu­mosas.
Não, não era possível, afirmava intimamente, ten­tando aquietar-me. Tudo aquilo não passava certa­mente de um sonho fantástico ou de um desdobra­mento mediúnico, no Reino da Morte. Não era crível que eu tivesse morrido. Sentia-me viva, não obstante as dores que me cruciavam. Encontrava-me lúcida, raciocinava, sofria... Não podia estar morta. Quando acordasse, oraria e procuraria apagar das lembran­ças aqueles momentos de pavor. Estive quase aliviada com esses raciocínios. No entanto, a realidade era outra.
Ao abraçar-me ao corpo, senti-lhe a frieza e ve­rifiquei, apesar de deitar-me sobre ele, que não me conseguia ajustar qual ocorre à mão calçada em luva apropriada. Esforçando-me “vesti-lo” outra vez, verifiquei, atribulada, que minha vontade não mais o acionava. Compreendi, embora relutante: estava “morta”.
Ao admitir esta idéia, fui acometida de profundo terror. Voltaram-me à mente as explanações do nos­so Diretor Espiritual, ouvidas em nosso Cenáculo de orações. Antes de refazer-me da surpresa, descobri-me profundamente ignorante em Doutrina Espírita, que é abençoado roteiro no país dos “mortos”. Ten­tei recapitular os ensinamentos ouvidos antes; toda­via, o inesperado daquela hora descontrolava-me, prostrando-me abatida, mais uma vez. O torpor, que, antes me invadira, retornou, dei­xando-me livre somente o pensamento que, agora, percorria célere as sendas das recordações mistura­das às lutas da existência, fazendo-me defrontar o corredor da loucura.
Surpreendi-me novamente fora do corpo, apesar de a ele estar atada por fortes cordões que não im­pediam que me distanciasse. Passei, então, a experi­mentar alívio novo e ouvi, emocionada, o murmúrio de preces intercessórias. Nossas crianças e com­panheiros, em volta do caixão funerário, oravam pela minha alma, que se iniciava na grande viagem. Pro­curei ajoelhar-me acompanhando aquele culto de sau­dade, mas, antes que pudesse coordenar os pensa­mentos, leve sono venceu-me, vagarosamente, as fi­bras cansadas, convidando-me ao repouso. Perdendo-me em remoinho, eu sentia afrouxarem-se-me os músculos, ao mesmo tempo em que meus pensamentos mergulhavam nas águas escuras do es­quecimento. Embora desejasse acompanhar o desen­rolar dos acontecimentos daquele instante máximo de minha vida, deixei-me arrastar pelo cansaço, ex­perimentando invencível torpor mental, enquanto re­cordava que a vida continua...
2 - A CAMINHO DO SEPULCRO
Não tive noção do tempo em que perma­necera em agitado sono, vencida por emo­çoes violentas e complexas. Ao despertar, guardava a sensação do intenso frio que me envolvia, enquanto as células de todos os ór­gãos continuavam a negar-se a atender ao comando do cérebro paralisado. Todo o meu corpo estava aniquilado ao impacto de for­ças desconhecidas.
Abri os olhos e, em verdadeiro pandemô­nio emocional, encontrei-me no salão da nos­sa Casa de Orações, com o corpo deitado no ataúde, visão essa que aumentava o meu so­frimento. A dor no peito ampliava-se, constringin­do-me a garganta sedenta. Desejei desespe­radamente um copo de água fresca, inutil­mente. Enquanto a sede me escaldava os lá­bios, ardiam-me os olhos, doía-me o corpo e o cérebro era devorado por inquietações crescentes. Ante a evidência da desencarnação, procurava orar, sem o conseguir, atormentada pela inconforma­ção. Portadora de alguns conhecimentos da Doutrina dos Espíritos — caminho de luz no mundo de trevas —, recusava-me, contudo, a aceitar a realidade inelutá­vel.
É certo que eu sabia, através de noções doutri­nárias do Espiritismo, que a morte não representa o fim, mas o princípio de uma vida imperecível, e acre­ditava-o de coração. No entanto, meditava, acomo­dando a Superior Vontade aos meus próprios capri­chos: eu não podia morrer ainda. Necessitava da ge­nerosidade do tempo para desincumbir-me das tare­fas a que ultimamente me entregara, no santificante serviço do amor. Recordava o passado próximo, as lutas mal sofridas, revia a taça de ilusões onde tantas vezes me embriagara, e compreendia a inadiável ur­gência de recuperação, no labor das horas novas, li­bertando-me, então, das pesadas algemas.
Em meio a esse conjunto de anseios e interpela­ções, entre evocações de enganos sofridos e receios dos efeitos que chegariam, vi-me, de súbito, diante do grande painel, ligado à minha mente, para o qual fui poderosamente atraida. Pude ver, como numa grande tela cinematográfica, o desenrolar dos fatos que representavam a minha existência, em miraculo­so retrospecto, repetindo-se em vertiginosa celerida­de, sem omissão de qualquer detalhe.
Revi-me na infância, programando os jogos do fu­turo no tabuleiro da inocência. Coisas e acontecimen­tos mortos em minhas lembranças surgiam-me com seus contornos e nitidez impressionantes, gritando-me à memória em brasa os erros e gravames das ati­tudes nem sempre dignas de antes.
E o incrível é que, para cada compromisso com o erro daquele tempo, surgiram-me agora as soluções que antes não me ocorreram, patenteando a Sabe­doria de Nosso Pai ao alcance de nossas mãos, mas nem sempre utilizada. Raciocinando, esquecida por um momento de todas as dores, reencontrava o Evan­gelho Redentor a apontar diretrizes para a alma ju­venil e que eu ouvira nas aulas de Catecismo ou junto ao coração materno. Retornei, por esse processo, às ruas do passado, revivendo as lágrimas e os sorrisos da existência.
Conservava a impressão de que todos os meus atos foram cuidadosamente anotados por criterioso e vigilante amanuense a quem nada escapara, regis­trando inclusive as idéias más que, um dia ou outro, me visitaram a tela mental. A perfeição dos escritos era tal que estes tomavam forma, movimentando-se à minha vista, cobrindo-me de vergonha e horror.
Quanta coisa negativa construíra nos meus dias, sem o perceber. Sabia não ser um anjo em viagem turística na Terra. Todavia, jamais supusera ter sido tão negligente no cumprimento do dever. Algo interi­or desejava protestar contra muitas cenas, agora em revisão. Mas a consciência, liberta das algemas da acomodação, impedia-me de mentir, ampliando ain­da mais as responsabilidades do momento.
Aterrada, cheguei à conclusão de que os pensa­mentos e atos da criatura se fixam no Além, por pro­cessos que me escapavam ao entendimento, perma­necendo vivos, mesmo quando deles nos esquece­mos.
Antes que pudesse alongar-me em meditações proveitosas, na inquietação que me sacudia, retornei à sala onde outra realidade me fazia mais desencan­tada e aflita... Não podia agora contestar a realidade da minha “morte”.
Observei que todos oravam, e, ouvindo alguém chamar-me com veemência, fui arrastada e deparei-me contigo, minha filha. Pude ver que recordavas os dias em que vivemos juntas, porqüanto os teus pen­samentos formavam quadros vivos onde eu me en­contrava também. Desejei abraçar-te, mas, quando me dispunha a isso, erguiam o caixão que me conduzia o corpo. O pavor do momento foi-me superior à capacida­de de calma e confiança. Procurei, no meu desespe­ro, correr para longe daquela cena pungente que me feria e amargurava; todavia, cordões espessos e es­curos ligavam-me aos despojos, arrastando-me com eles...
Reconheci as ruas por onde seguia o féretro, em­bora as notasse escuras e movimentadas, como se pesada sombra se abatesse sobre as casas, e multi­dão desvairada tivesse saído às calçadas. Escutei a voz dos transeuntes que pareciam revoltados, bran­dindo pedaços de madeira, como armas improvisa­das. Alguns me ameaçavam e, vendo-me a expres­são de horror, recuavam gargalhando, como loucos libertos de sanatório nefando.
Chegando ao Cemitério, ouvi gritos e lamenta­ções que me despedaçavam a alma. As vozes, que mais se assemelhavam a emissões animalescas, com­punham musicalidade infernal, indescritível. Massa humana, de grotesca forma, cercava-me o ataúde, comentando, zombeteira, a situação da recém-chega­da:
— Será discípula do Cordeiro ou irá engrossar nos­sas fileiras? — disse alguém com sarcasmo.
— Examinemos-lhe as emanações — retorquiu ou­tro.
— Cuidado com os vigilantes “miseráveis” — ad­vertiu um terceiro.
— Deve ser alguma “pobre ovelha do Rebanho”! —exclamou mais alguém. E com a mesma voz: — Olhem as defesas que a envolvem...
— Não nos impacientemos — gritou o primeiro. —Saibamos esperar e aguardemos os acontecimentos. Deixemos que os “comparsas de fé” lamuriem os ape­los ao Chefe e seus “sequazes”.
Tudo aquilo era um fenômeno novo e horripilan­te. Aconcheguei-me ao caixão, desejando arrebatá­lo e fugir dali com o fardo das minhas carnes. Não me pude demorar na contemplação daque­las cenas terríveis. Força incoercível detinha-me atenta no esquife que era depositado no fundo da sepultu­ra.
Escutei o som da laje a cobrir-me os despojos e o dos instrumentos que eram usados para o lacramen­to da campa. Apavorada, encontrei-me ligada às vís­ceras mortas, estando viva. Gritei desesperadamen­te, em lamentável estado, e caí desmaiada. Até o momento, não sei quanto tempo ali estive, em delírio. Despertei lentamente, conservando a cabeça atordoada, demorando-me a recompor os pensamen­tos que pareciam perdidos em brumas espessas. Doía-me o corpo, sacudido de quando em quando por terríveis arrepios.
A dor agudíssima do coração demorava a esmagar-me de uma vez. Verifiquei que, embora o corpo estivesse morto e começasse a avolumar-se, tomando aspecto horren­do, eu me sentia em um corpo gêmeo àquele que ca­minhava para a putrefação e, em tudo, idêntico a ele, inclusive no vestuário. Mas não dispunha de serenidade para meditar. Vagarosamente rememorei os últimos aconteci­mentos e, quando ao recordá-los, cheguei à certeza de que estava na sepultura, fui acometida de convul­sivo pranto.

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