Do assassinato como uma das belas artes



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DO ASSASSINATO COMO UMA DAS BELAS ARTES

Thomas De Quincey
ISBN – 8525400149

Capa: Caulos

revisão: Márcia Camargo e Daniel Lara de Oliveira

Tradução: Henrique de Araujo Mesquita

Composição em poliéster


AGE Assessoria Gráfica e Editorial Ltda.

L & PM Editores, 1985


Todos os direitos desta edição reservados à

L & PM Editores Ltda., Rua Nova lorque, 306

90.000 — Porto Alegre

Rio Grande do Sul

Impresso no Brasil



Verão de 1985
Advertência de um homem morbidamente virtuoso
A maioria dentre nós, que lê livros, ouviu provavelmente falar numa Sociedade para a Promoção do Vício, no Clube do Fogo do Inferno, fundado no século passado por Sir Francis Dashwood, etc... Creio que foi em Brighton que se fundou uma Sociedade para a Supressão da Virtude. Tal sociedade foi, ela própria, suprimida; mas lamento dizer que uma outra sociedade existe em Londres, de um caráter ainda mais atroz. De acordo com a
sua tendência, pode ser denominada de Sociedade para o Encorajamento do Assassinato; mas, de acordo com o próprio delicado eufemismo de que lançam mão os seus membros, designa-se a Sociedade de Connaisseurs em Assassinato (1). Declaram-se sutis em matéria de homicídios; amadores e diletantes nos vários modos de carnificina; e, em resumo, aficcionados fissurados em Assassinatos. Reúnem-se para criticar cada nova atrocidade do gênero que os anais policiais da Europa registram, como o fariam para comentar um quadro, uma estátua, ou outra obra de arte. Mas não necessito dar-me ao trabalho de caracterizar o espírito do que fazem, porque o leitor o apreenderá muito melhor do estudo de uma das conferências pronunciadas diante daquela sociedade no ano passado. O texto caiu-me nas mãos por acaso, a despeito de toda a vigilância que os membros exercem para que as transações da sociedade permaneçam ocultas aos olhos do público. A presente publicação os alarmará, e é meu propósito que isso aconteça. Pois para mim é muito preferível terminar com eles quietamente, mediante um apelo à opinião pública, à divulgação de nomes que se seguiria a um apelo à polícia. Devo, no entanto, dizer que recorrerei àquela autoridade, se o que faço no momento fracassar. Pois a minha intensa virtude não permitirá tais coisas num país cristão. Mesmo num país pagão, a tolerância do assassinato — a saber, nos horríveis espetáculos do anfiteatro — pareceu a um escritor cristão a mais clamorosa reprovação à moral pública. O escritor era Lactâncio; e com suas palavras, como singularmente aplicáveis a esta ocasião, concluirei: “Quid tam horrible”, diz ele, “tam tetrum, quam hominis trucidatio? Ideo severissimis legibus vita nostra munitur; ideo bella execrabilia sunt. Invenit tamen consuetudo quatenus homicidium sine bello ac sine legibus faciat: et hoc sibi voluptas quod scelus vindicavit. Quod si interesse homicidio sceleris conscientia est et eidem facinori spectator obstrictus est cui et admissor; ergo et in his gladiatorum caedibus non minus
cruore profunditur qui spectat, quam ille qui facit: nec potest esse immunis à sanguine qui voluit effundi; aut videri non interfecisse, qui interfectori et favit et proemium postulavit.”
“Que é tão horrível”, diz Lactâncio, “tão espantoso e revoltante quanto o assassinato de uma criatura humana? Ë por isso que a nossa vida é protegida por leis rigorosíssimas; é por isso que as guerras são execradas. Contudo, a tradição romana descobriu uma maneira de autorizar o homicídio sem guerra e a despeito das leis: e a volúpia reivindica para si o que é crime.” Que a Sociedade de Cavalheiros Connaisseurs considere isso; e que me permita requerer-lhe especial atenção para as frases finais, tão ponderáveis que tentarei exprimi-las na nossa língua: “Agora, se meramente presenciar um assassinato estampa num homem o caráter de cúmplice; se ser apenas espectador nos faz participar da culpa do que perpetra, segue-se, necessariamente, que, nos assassinatos no anfiteatro, a mão que inflinge o golpe fatal não mergulha mais profundamente no sangue do que a daquele que se limita a assistir, passivamente; nem pode estar limpo de sangue aquele que favoreceu o seu derramamento; nem pode ser outra coisa do que um participante no assassinato o homem que aplaude o assassino e pede que ele seja premiado” Ainda não ouvi acusar os Cavalheiros Connaisseurs de Londres do proemia posrulavit, embora indubitavelmente a isso tendam os seus trabalhos; mas o interfectori favit (2) está implícito no próprio título da sociedade, e expresso em cada linha da conferência que segue.

X.Y.Z.
(1) Em francês, no original; connaisseur quer dizer amador, conhecedor; diz-se, por exemplo, de um homem que conhece supremamente e aprecia os bons vinhos, que é um connaisseur de vinhos (N. do T.).

(2) Proemia postulavit: pede prêmios; interfectori favit: aplaude o assassino (N. do T).

Conferência

CAVALHEIROS: Tive a honra de ser designado por vosso comitê para a árdua tarefa de pronunciar a conferência Williams sobre o assassinato considerado como uma das belas artes; tarefa essa que teria sido bastante fácil três ou quatro séculos atrás, quando pouco se entendia da arte, e poucos grandes modelos haviam sido exibidos; mas em nossa época, quando obras-primas de excelência foram executadas por profissionais, deve ser evidente que, na qualidade da crítica que se lhes aplica, o público buscará um aprimoramento correspondente. A prática e a teoria devem progredir pari passu. O público começa a discernir que é necessário alguma coisa mais para que se componha um assassinato requintado do que dois homens estúpidos, para matar e ser morto, do que uma faca, uma bolsa, e uma alameda escura. Cavalheiros: projetos, conluios, luz e sombra, poesia, sentimento são agora coisas consideradas indispensáveis para tentativas dessa natureza. O Senhor Williams exaltou o ideal do assassinato diante de todos nós; e para mim, em particular, portanto, aprofundou a dificuldade da tarefa. Como Ésquilo ou Milton, em poesia, como Miguel Ângelo, em pintura, levou a sua arte a um ponto de sublimidade colossal; e, como o Senhor Wordsworth observa, de certa maneira “criou o gosto que o apreciará”. Esboçar a história da arte e examinar-lhe os princípios, criticamente, constitui agora um dever para o connaisseur, e para juízes de uma têmpera muito diferente daqueles que sentam nos tribunais de Sua Majestade.

Antes de iniciar, que me seja permitido dizer uma ou duas palavras de determinados hipócritas que fingem falar de nossa sociedade como se de alguma maneira fosse imoral em sua tendência. Imoral! Que Júpiter me proteja, cavalheiros, que querem dizer essas pessoas? Sou a favor da moralidade, e sempre o serei, e a favor da virtude, e de todo o resto; e afirmo em alto e bom som, e sempre o farei (sejam quais forem as conseqüências), que o assassinato é uma linha de comportamento inconveniente, altamente inconveniente; e não hesito em declarar que qualquer homem que se envolve em assassinatos deve seguir maneiras de pensar muito incorretas e princípios muito errôneos; e, em vez de ajudá-lo e instigá-lo, indicando-lhe o esconderijo de sua vítima, como um grande moralista da Alemanha (1) proclamou que era o dever de todo homem bom fazer, eu entraria numa subscrição com um shilling e seis pences para que ele fosse preso, o que representa dezoito pences mais do que os mais eminentes moralistas já subscreveram para um tal propósito. Mas então? Tudo neste mundo apresenta duas asas. O assassinato, por exemplo, pode ser segurado por sua asa moral (como acontece, geralmente, no púlpito e no Old Bailey (2); e esse, confesso, é o seu lado fraco; ou pode ser tratado esteticamente, como os alemães o dizem — ou seja, com relação ao bom gosto.

Para exemplificar isso recorrerei à autoridade de três eminentes personalidades; a saber, Samuel Taylor Coleridge, Aristóteles e o Senhor Howship, o cirurgião. Começarei com S.T.C. Uma noite, faz muitos anos, eu estava tomando chá com ele na Rua Berners (a qual, aliás, apesar de tão curta foi invulgarmente prolífica em homens de gênio). Havia outros ali, além de mim; e, entre algumas considerações materiais de chá com torradas, estávamos todos absorvendo uma dissertação sobre Plotino, dos lábios áticos de S.T.C. De repente, levantou-se um grito de “Fogo!”, ao som do qual, todos nós, mestre e discípulos, Platão e oi periton Platona (3) precipitamo-nos para fora, famintos do espetáculo. O incêndio localizava-se na Rua Oxford, no estabelecimento de um fabricante de pianos e, como prometia ser uma conflagração de alto gabarito, lamentei que meus compromissos me afastassem do grupo do Senhor Coleridge, antes que as coisas houvessem atingido o seu clímax. Poucos dias depois, encontrando o meu platônico anfitrião lembrei-lhe o caso e pedi-lhe que me contasse como terminara aquela muito promissora exibição. “Senhor”, disse-me ele, “deu em tão pouco que a mandamos para o inferno, unanimemente”. Agora, será que alguém supõe que o Senhor Coleridge — que, embora seja demasiado gordo para ser uma pessoa de virtude ativa, é sem dúvida um digno cristão —, que esse bom Samuel Taylor Coleridge era um incendiário, ou capaz de desejar algum mal ao pobre homem e seus pianos (muitos dos quais, indubitavelmente, com claves adicionais)? Pelo contrário, conheço-o como homem de tal qualidade que (nisso eu apostaria a minha vida) em caso de necessidade teria ele próprio operado uma bomba d’água, embora um tanto volumoso para tão ardentes provas de sua virtude. Mas como a coisa se passou? Não houve necessidade de virtude. À chegada dos bombeiros, toda a moralidade se concentrou na companhia de seguros. Sendo essa a situação, assistia-lhe o direito de gratificar o gosto. Deixara seu chá. Não teria nada em compensação?

Sustento que o homem mais virtuoso, dadas as premissas acima mencionadas, tinha todos os títulos para gozar o incêndio, e para vaiá-lo, como vaiaria qualquer outro espetáculo que fizesse surgir expectativas no espírito público para desapontá-las, posteriormente. Agora, para citar uma outra grande autoridade, que diz o Estagirita? Ele (creio que no quinto livro de sua “Metafísica”) descreve o que chama de kyooyen yeetoq ou seja, o perfeito ladrão; e, quanto ao Senhor Howship, em sua obra sobre a Indigestão, este não tem escrúpulos em falar com admiração de uma úlcera que vira, e que ele classifica como uma “bela úlcera”. Ora, será que alguém pretenderá que, consideradas as coisas abstratamente, um ladrão poderia parecer a Aristóteles um caráter perfeito, ou que o Senhor Howship pudesse enamorar-se de uma úlcera? Aristóteles, é bem sabido, era de um caráter tão moral que, não contente de escrever a Ética a Nicômaco, em um volume in octavo, escreveu também outro sistema chamado Magna Moralia ou Grande Ética. Ora, é impossível que um homem que compõe qualquer ética, grande ou pequena, possa admirar um ladrão per se, e, quanto ao Senhor Howship, é fato bem conhecido que ele guerreia as úlceras, e, sem se deixar seduzir pelos encantos que elas têm, procura bani-las do condado de Middlesex. Mas a verdade consiste em que, por mais que sejam reprováveis per se, ainda assim tanto um ladrão como uma úlcera, relativamente a outros espécimes da mesma classe, podem ter uma infinita variedade de graus de mérito. Ambos são imperfeições, mas, como ser imperfeito constitui-lhes a essência, a própria grandeza da imperfeição torna-se a sua perfeição. Spartam nactus es, hanc exorna (4). Um ladrão como Autólico (5) ou George Barrington, que teve os seus dias de fama e uma sinistra úlcera fagedânia soberbamente definida e que atravessa com regularidade todos os seus estágios naturais, podem com não menos justiça ser encarados como ideais de sua espécie do que a mais imaculada rosa musgosa entre as flores, em seu progresso de botão a “flor brilhante e consumada”; ou, entre as flores humanas, a mais magnificente jovem fêmea, ornada em toda a pompa da feminilidade. E, assim, não apenas se pode imaginar o ideal de um tinteiro (como o Senhor Coleridge o ilustrou em sua celebrada correspondência com o Senhor Blackwod), coisa que, aliás, não é assim tão de admirar, porque um tinteiro é algo de louvável e um membro valioso da sociedade; mas a própria imperfeição pode ter o seu ideal ou estado perfeito.

De fato, cavalheiros, peço-vos perdão por tanta filosofia de uma só vez; deixai-me agora aplicá-la. Quando um assassinato está no tempo paulo-post-futurum (6) — não executado, nem sequer (segundo o purismo moderno) sendo executado, mas apenas prestes a ser executado — e um rumor dele nos chega aos ouvidos, tratêmo-lo moralmente. Mas suponhamos que terminou, foi executado, e que se possa dizer dele, Tetélestai, está acabado, ou (no molosso (7) duro como diamante, de Medéia) eirgastai, feito está: é um fato consumado; suponhamos que o pobre homem assassinado já não sofre mais e que o vilão que praticou o ato partiu como uma flecha, ninguém sabe para onde; suponhamos, finalmente, que fizemos o melhor que podíamos, esticando as pernas para fazer tropeçar o ladrão em sua fuga, mas tudo em vão — “abiit, evasit, excessit, erupit”, etc... (8) Qual será então, passado tal momento, a utilidade de qualquer dispêndio de virtude? Já bastante foi dado à moralidade; chegou a vez do Gosto e das Belas Artes. Passou-se um acontecimento triste, muito triste, sem dúvida; mas não podemos remediá-lo. Portanto, que nos seja permitido tirar o melhor partido de um mau assunto; e, se é impossível extrair dele alguma coisa para propósitos morais, que o tratemos esteticamente, e verifiquemos se o podemos aproveitar dessa maneira. Tal é a lógica de um homem sensato, e o que se segue? Secamos as nossas lágrimas, e gozamos talvez da satisfação de descobrir que uma transação que, considerada moralmente, era chocante, e de tal forma perneta que não podia ficar de pé, se for julgada pelos princípios do Gosto, revela-se uma obra muito meritória. Assim, todo mundo fica contente e justifica-se o velho provérbio de que “para bom mestre não há má ferramenta”; o amador, de parecer muito bilioso e carrancudo, por prestar uma atenção muito grande à virtude, começa a colher as migalhas; e prevalece uma geral hilariedade. A virtude teve o seu momento; e de então em diante, Virtù, palavra tão aparentada que da outra não difere mais do que por duas letras (9) (coisa a respeito da qual não vale a pena regatear ou disputar) — Virtù, repito, e a arte do Connaisseur podem entrar em cena. Segundo esse princípio, cavalheiros, proponho-me a guiar-vos os estudos, desde Cain até o Senhor Thurtel. Através dessa grande galeria do assassinato, portanto, que nos seja permitido vagar, de mãos dadas, juntos, em admiração deliciada, enquanto eu procuro chamar-vos a atenção para os objetos de crítica proveitosa.

O primeiro assassinato é conhecido de todos. Como o inventor do assassinato e pai da arte, Cain deve ter sido um gênio de primeira grandeza. Todos os Cains foram homens de gênio. Cain Tubal inventou os tubos, creio eu, ou alguma coisa semelhante. Mas, qualquer que tenha sido a originalidade e o gênio do artista, as obras que saíam de cada um dos vários studios devem ser comentadas tendo-se em mente esse fato. A própria obra de Tubal despertaria provavelmente pouca aprovação, hoje em dia, em Sheffield (10); e, portanto, de Cain (quero referir-me ao velho Cain) nada o diminui se eu disser que o seu desempenho, seu trabalho, não passou de medíocre. Pensa-se, no entanto, que Milton foi de outra opinião. Por seu modo de relatar o caso, pareceria que se tratava para ele de um assassinato de estimação, pois ele o retoca com uma ansiedade evidente de alcançar efeito pitoresco:


“Whereat he inly raged; and, as they talk’d,

Smote him into the midriff a stone

That beat out life; and, deadly pale,

Groan’d out his sou! with gushing blood effused.” (11)

Sobre esse texto, o pintor Richardson, que tinha olho para efeitos, observa o que se segue, em suas “Notas sobre o Paraíso Perdido”, p. 497: — “Já se pensou”, diz ele, “que Cain apagou (como se diz comumente) o espírito do corpo de seu irmão com uma grande pedra; Milton aceita isso, com o acréscimo, no entanto, de uma enorme ferida”. Onde foi colocado, foi um judicioso acréscimo. Pois a coloração sanguinária possui muito da aparência nua e crua da escola selvagem; como se o ato houvesse sido cometido por um Poliferno, sem ciência ou premeditação, ou qualquer coisa a não ser um osso de carneiro. Contudo, o que mais me agrada no aprimoramento é que ele indica que Milton era um amador. Quanto a Shakespeare, nunca houve melhor do que ele; em testemunho disso ofereço a sua descrição dos assassinados Duncan, Banquo, etc... ; e, acima de tudo, ofereço o testemunho da incomparável miniatura, em Henrique VI, do assassinado Gloucester. (12)

Os fundamentos da arte tendo sido colocados, é lamentável que ela tenha permanecido adormecida, sem progresso, por séculos. De fato, serei agora obrigado a saltar por cima de todos os assassinatos, sagrados ou profanos, como inteiramente indignos de nossa atenção, até muito depois da era cristã. A Grécia, mesmo na idade de Péricles, não produziu assassinato, ou pelo menos nenhum registrado, de qualquer mérito; Roma possuía muito pouca originalidade de gênio em qualquer das artes para ter êxito onde seu modelo a abandonava (13). De fato, a própria língua latina sucumbe diante da idéia do assassinato. “O homem foi assassinado” — como soará isso em latim? Interfectus est, iteremptus est — frase que expressa simplesmente um homicídio. E, por isso, a latinidade cristã na Idade Média foi obrigada a introduzir uma nova palavra, de tal alcance que a fraqueza das concepções clássicas nunca atingiu. Murdratus est, diz o dialeto mais sublime das idades góticas. Entrementes, a escola judia de assassinatos manteve vivo o que ainda se sabia da arte, e, gradualmente, o transferiu para o mundo ocidental. De fato, a escola judia sempre foi respeitável mesmo em suas fases medievais, como o demonstra o caso de Hugo de Lincoln, que foi honrado com a aprovação de Chaucer, na execução de outra proeza da mesma escola, a qual, em seus Canterbury Tales, ele põe na boca da Senhora Abadessa.

Voltando, no entanto, por um momento, à antiguidade clássica, não posso deixar de pensar que Catilina, Clódio, e algumas pessoas do mesmo grupo, teriam dado artistas de primeira classe; e, de todas as maneiras, é de lamentar-se que a hipocrisia de Cícero roubou seu país da única oportunidade que teve para distinguir-se nessa linha. Como vítima de um assassinato nenhuma pessoa poderia ter servido melhor do que ele. Ó Deuses! Como ele teria urrado de pânico se, debaixo de sua cama, lhe proviessem ruídos de Cetegus (14). Teria sido verdadeiramente divertido escutar tais urros; e estou certo, cavalheiros, de que ele teria preferido o utile de meter-se num armário, ou mesmo numa cloaca, ao honestum de enfrentar o ousado artista.



Para chegar agora às idades escuras — (termo pelo qual nós, que falamos com precisão, significamos, por excelência, o século décimo como uma linha meridiana, e os dois séculos imediatamente antes e depois, completando-se à meia-noite entre 888 A.D. e l111 A.D.) — tais idades deveriam naturalmente ser favoráveis à arte do assassinato, como o foram para a arquitetura eclesiástica, para a arte dos vitrais, etc... Assim, na altura do último quarto desse período, surgiu um grande personagem em nossa arte; quero referir-me ao Velho Homem da Montanha. Ele foi uma luz brilhante, e não preciso dizer-vos que a própria palavra “assassino” decorre dele. Era um amante tão apaixonado que, numa ocasião, quando sua própria vida foi posta em perigo por um assassino seu favorito, tão satisfeito ficou com o talento demonstrado que, não obstante o fracasso do artista, ele o elevou a duque na mesma hora, com transmissão do título pela linha feminina, e lhe concedeu urna pensão por três gerações. O assassinato (15) é um ramo da arte que exige um estudo a parte; e é possível que eu dedique uma conferência inteira a tal assunto. Entrementes, limitar-me-ei a observar que esse ramo da arte floresceu de maneira intermitente. Não há chuva que não molhe. Nossa própria época pode orgulhar-se de alguns espécimes requintados, tais como, por exemplo, o caso Bellingham com o Primeiro Ministro Percival, o caso do Duque de Berri na Ópera de Paris, o caso do Marechal Bessiêre em Avignon; e, cerca de dois e meio séculos atrás, houve uma brilhante constelação de homicídios dessa classe. Quase não preciso lembrar que tenho em vista, especialmente, as sete seguintes esplêndidas obras — o assassinato de Guilherme I de Orange; dos três Henriques franceses, a saber, Henrique, Duque de Guise, que ambicionava o trono da França; de Henrique III, último príncipe da linha dos Valois, que então ocupava o trono; e, finalmente, de Henrique IV, seu cunhado, que sucedeu ao trono como primeiro príncipe da casa dos Bourbon; não decorridos dezoito anos, aconteceu o quinto da relação, a saber, o assassinato de nosso Duque de Buckingham (que vós encontrareis muito bem descrito nas cartas publicadas por Sir Henry Eilis, do Museu Britânico); o sexto foi o de Gustavo Adolfo, e o sétimo, o de Wallenstein. Que gloriosa Plêiade de assassinatos! E aumenta a nossa admiração verificar que essa luminosa constelação de exibiç&s artísticas, que compreende o caso de três Majestades, três Altezas serenas, e uma Excelência, todas se passaram num espaço de tempo tão curto quanto o que separa o ano de 1588 do ano de 1635. Muitos escritores, aliás, entre os quais Harte, duvidam do assassinato do Rei da Suécia, mas incidem em erro. Ele foi assassinado, e considero seu assassinato único em sua excelência; pois foi assassinado ao meio-dia, e no campo de batalha — um traço de concepção original que não ocorre em qualquer outra obra de arte de que me recordo. Conceber a idéia de um assassinato secreto, por motivo privado, como encerrado num pequeno parêntese no interior do vasto cenário de uma carnificina bélica, é alguma coisa que se compara à sutil artimanha de Hamlet, de uma tragédia no interior de outra tragédia. Na verdade, todas essas mortes podem ser estudadas com proveito pelo connaisseur adiantado na ciência. São todos exemplaria, assassinatos modelo, assassinatos padrão, dos quais se pode dizer
“Nocturna versate manu, versate diurna”;
especialmente nocturna (16).

Nesses homicídios de príncipes e estadistas não há nada que nos crie espanto; de suas mortes dependem muitas vezes mudanças importantes; e, por causa da eminência em que estão situados, são singularmente expostos aos objetivos de qualquer artista acaso devorado pela ambição de efeito cênico. Mas há uma outra classe de assassinatos, que prevaleceu a partir de um período precoce do século dezessete, que realmente me surpreende; refiro-me ao assassinato de filósofos. Pois, cavalheiros, é um fato que todo filósofo eminente dos dois últimos séculos ou foi morto, ou, pelo menos, esteve muito perto de sê-lo; isso a tal ponto que, se um homem reinvindica para si o título de filósofo, e nunca sofreu tentativa contra a sua vida, podeis estar seguros de que não há grande coisa nele; e contra a filosofia de Locke, em particular, penso que se ergue como objeção irrespondível (se alguma tal objeção fosse necessária) que, embora carregasse sua garganta com ele, neste mundo, por setenta e dois anos, nenhum homem condescendeu em cortá-la. Como esses casos de filósofos não são muito conhecidos, e gozam geralmente de circunstâncias boas e bem compostas, farei aqui uma digressão sobre o assunto, principalmente para mostrar a minha própria sabedoria.



O primeiro grande filósofo do século dezessete (se excetuarmos Bacon e Galileu) foi Descartes; e se de algum homem podemos dizer que ele foi quase assassinado — que esteve a um centímetro de morrer assassinado — tal homem foi Descartes. O caso foi o seguinte, tal como relatado por Baillet em sua Vie de M Descartes, tomo 1, pgs. 102-3. No ano de 1621, quando Descartes podia contar cerca de vinte e seis anos de idade, estava viajando como de costume (pois era tão inquieto quanto uma hiena); e, chegando ao Elba, seja em Gluckstadt ou em Hamburgo, embarcou para a Frizlândia oriental, O que ele podia desejar na Frizlândia oriental nenhum homem jamais descobriu; e talvez isso mesmo lhe tenha ocorrido; porque, ao atingir Embden, resolveu partir de imediato para a Frizlândia ocidental, e, não suportando atrasos, alugou um barco, com uns poucos marinheiros para fazê-lo navegar. Apenas se fizera ao mar, fez uma agradável descoberta, a saber, que estava encerrado num antro de assassinos. Diz o Senhor Baillet que Descartes logo descobriu que os tripulantes eram “desscélérats”, celerados — não amadores, amateurs, cavalheiros, como nós somos, mas profissionais — cuja maior ambição naquele momento era cortar-lhe a garganta. Mas a história é muito agradável para que a abreviemos; traduzi-la-ei, portanto, fielmente, do francês de seu biógrafo: “O Senhor Descartes não contava com outra companhia a não ser a de seu empregado, com o qual conversava em francês. Os marinheiros, que o julgavam um mercador estrangeiro, e não um cavalheiro, concluíram que ele deveria ser portador de dinheiro. Dessa forma, chegaram a uma resolução que de nenhuma maneira era vantajosa para sua bolsa. Há, no entanto, essa diferença entre ladrões marítimos e ladrões na floresta, que os últimos podem, sem perigo, poupar a vida das vítimas, enquanto os primeiros não podem desembarcar um passageiro em tais circunstâncias sem correr o risco de serem presos. A tripulação do Senhor Descartes combinou medidas com o objetivo de escapar a qualquer perigo de tal natureza. Repararam em que era um forasteiro, provindo de terra distante, sem nenhum conhecimento no país, e que ninguém se daria ao trabalho de perguntar por ele caso ele desaparecesse (quand ii viendrait à man quer)’ Pensai, cavalheiros, nesses velhacos da Frizlândia a discutir um filósofo como se fosse uma barrica de rum consignada a algum corretor marítimo. “Seu temperamento, observaram, era muito pacífico e paciente; e, a julgar pela gentileza de seu comportamento e pela cortesia com que os tratava, pensaram que não podia ser mais do que algum jovem inexperiente, sem posição ou raiz no mundo e chegaram à conclusão que seria para eles coisa fácil tirar-lhe a vida. Não tiveram escrúpulos em discutir o assunto todo na presença dele, supondo que ele não entendia qualquer outra língua que não fosse aquela em que conversava com seu empregado; e o resultado das deliberações que tomaram foi: — assassiná-lo e então jogá-lo ao mar, e dividir os seus despojos.”.

Desculpai o meu riso, cavalheiros, mas a verdade consiste em que sempre rio quando penso nesse caso — duas coisas nele parecem-me tão hilariantes. Uma dessas coisas é o pânico horrível ou funk (como dizem os alunos de Eton) que deve ter assaltado Descartes, quando ouviu a trama desse drama projetado para a sua própria morte — funeral — sucessão — e divisão do que possuía. Mas a outra coisa que me parece ainda mais engraçada nesse assunto consiste em que, se tais cães da Frizlândia tivessem sido homens para valer, não teríamos filosofia cartesiana; e como poderíamos viver sem isso, considerando o mundo de livros que tal Filosofia produziu, é uma questão que deixo a qualquer respeitável fabricante de estantes decidir.

Contudo, prossigamos: apesar de seu enorme pânico, Descartes deu prova de ânimo, e por esse meio apavorou aqueles mariolas anti-cartesianos. Continua o Senhor Baillet: “Vendo que não se tratava de brincadeira, o Senhor Descartes pôs-se de pé num segundo, assumiu uma atitude severa com que não contavam aqueles covardes, e a eles se dirigindo na própria língua que falavam, ameaçou atravessá-los com a espada se ousassem assaltá-lo”. Certamente, cavalheiros, teria sido uma honra muito acima dos méritos de tão desprezíveis canalhas — serem espetados como estorninhos numa espada cartesiana; e, portanto, fico contente de que o Senhor Descartes não tenha roubado pacientes à forca, executando a ameaça, especialmente porque ele não poderia de maneira alguma levar a barca a bom porto, depois de matar os tripulantes, o que o obrigaria a seguir navegando para sempre no Zuider Zee, e teria sido tomado pelos marinheiros pelo “Holandês Voador”, a caminho de casa. “A bravura que o Senhor Descartes manifestou,” diz o biógrafo, “teve um efeito mágico em tais miseráveis. O caráter repentino da consternação em que caíram de tal forma lhes confundiu a mente que ficaram cegos para a vantagem que possuíam, e o conduziram ao destino com tanta paz como ele podia desejar”.

Possivelmente, Senhores, pode ocorrer-vos que, seguindo o modelo do que disse César a seu pobre barqueiro — Caesarem vehis et fortunas ejus (17) —, o Senhor Descartes não precisaria mais do que dizer: “Cães, vocês não podem cortar-me a garganta, pois transportam Descartes e a sua filosofia”. Poderia, depois, com toda a segurança, desafiá-los a fazer o pior que ousassem. Um imperador alemão teve a mesma idéia, quando, ao lhe aconselharem que se precatasse e saísse do alcance dos canhões, replicou: “Caro


homem, você já ouviu falar numa bala de canhão que tenha matado um imperador? (18)” Quanto ao imperador nada posso dizer, mas coisa muito menor foi suficiente para acabar com um filósofo; e o seguinte grande filósofo da Europa foi sem dúvida assassinado. Este foi Spinoza.

Sei muito bem que a opinião comum a seu respeito diz que ele morreu na cama. Talvez assim tenha sido, mas ainda assim foi assassinado; e isso eu o provarei mediante um livro publicado em Bruxelas no ano de 1731, intitulado La vie de Spinosa, par M. Jean Colerus (19), com muitos acréscimos, de uma biografia manuscrita, por um de seus amigos. Spinoza faleceu em 21 de fevereiro de 1677, não contando então com mais de quarenta e quatro anos de idade. Tal circunstância, ela própria, desperta suspeitas; e o próprio Senhor Jean admite que uma certa expressão no manuscrito permitiria a conclusão de que “sa mort n ‘a pas dté tout à fait naturelle (20). Vivendo num país úmido como a Holanda pode-se pensar que ele abusou do grog, especialmente do ponche (21) que então havia sido recém-descoberto. Não há dúvida que ele poderia ter feito isso; mas o fato é que ele não o fez. O Senhor Jean diz dele que era “extrêment sobre en son boire et manger”(22) embora corressem rumores de que usava o sumo da mandrágora (pág. 140) e de que tomava ópio (pág. 144), nenhum desses artigos se encontra nas contas de seu farmacêutico. Vivendo, portanto, com tal sobriedade, como é possível que falecesse de morte natural com a idade de quarenta e quatro anos? Ouvi o que conta o seu biógrafo: — “Domingo de manhã, no dia 21 de fevereiro, antes que fosse momento de ofício na Igreja, Spinoza desceu e conversou com o dono e a dona da casa”. Nessa altura, por conseguinte, talvez às dez horas da manhã de domingo, vê-se que Spinoza estava vivo e muito bem. Mas parece que “tinha convocado de Amsterdam um certo médico que”, diz o biógrafo, “não indicarei a não ser pelas letras L.M..” Este L.M. tinha dado ordens ao pessoal da casa de que comprassem “um velho galo”, e de que o cozinhassem imediatamente para que Spinoza pudesse ingerir algum caldo cerca do meio-dia; o que, de fato, ele fez; e comeu partes do velho galo com bom apetite, depois que o proprietário e sua mulher haviam regressado da Igreja.

“De tarde, LM. permaneceu sozinho com Spinoza, porque o pessoal da casa tinha regressado à Igreja; ao sair da mesma, souberam, com grande surpresa, que Spinoza morrera cerca das três horas da tarde, na presença de L.M., que partiu para Amsterdam à boca da noite, pelo barco noturno, sem prestar a menor atenção ao morto”, e provavelmente sem prestar muita atenção ao pagamento do pouco que lhe era devido. “Não há dúvida de que lhe foi muito fácil dispensar esses deveres, porque se tinha apossado de um ducatão (23), de uma pequena quantidade de prata, e de uma faca de punho de prata, e escapara com o que tinha pilhado.” Aqui vós podeis ver, cavalheiros, que o assassinato é claro, e também a maneira pela qual foi praticado. Foi L.M. quem assassinou Spinoza por causa de dinheiro. O pobre Spinoza era um inválido, magro e fraco: como não se observou sangue, L.M. sem dúvida jogou-o no chão, e o sufocou com travesseiros, já estando o pobre homem meio sufocado por seu almoço infernal. Depois de mastigar o “velho galo”, que eu entendo ser um galo do século precedente, em que condição podia o pobre inválido achar-se para suportar uma luta com L.M.? Certamente não foi Lindlay Murray, pois eu o vi em York em 1825; e, além disso, não penso que ele seria capaz de fazer uma tal coisa pelo menos, não a um outro gramático: pois vós sabeis, cavalheiros, que Spinoza escreveu uma muito respeitável gramática do hebraico.

Hobbes — nunca fui capaz de compreender porque, ou em virtude de qual princípio — não foi assassinado. Isso foi uma inadvertência capital dos profissionais do século dezessete, porque, à qualquer luz, ele se prestava magnificamente ao assassinato, exceto pelo fato de que era magro e pelancudo; pois posso provar que possuía dinheiro e (o que é muito engraçado) não tinha direito de opor a menor resistência; pois, segundo ele próprio, o poder irresistível cria a maior espécie de direito, constituindo rebelião das mais sujas recusar-se a ser assassinado, quando uma força competente aparece para assassinar uma pessoa. No entanto, cavalheiros, embora ele não tivesse sido assassinado, tenho o prazer de assegurar-vos que (de acordo com o que ele próprio conta) esteve, por três vezes, muito próximo de ser morto, o que nos consola. A primeira vez ocorreu na primavéra de 1640, quando ele pretende ter feito circular um curto manuscrito a favor do rei e contra o Parlamento; aliás, ele nunca pôde apresentar tal manuscrito; mas ele diz que: “se Sua Majestade não houvesse dissolvido o Parlamento” (em maio) “o manuscrito o teria posto em perigo de vida”. A dissolução do Parlamento, no entanto, não foi bastante; pois, em novembro do mesmo ano, reuniu-se o Longo Parlamento e Hobbes, temendo por uma segunda vez ser assassinado, fugiu para a França. Isso lembra a loucura de John Dennis, que pensou que Luis XIV nunca faria a paz com a Rainha Ana, a menos que ele (a saber, Dennis) fosse entregue à vingança francesa; e, realmente, fugiu das proximidades da costa, por acreditar nisso. Na França, Hobbes logrou muito bem cuidar de sua garganta, por dez anos; mas, ao fim de tal tempo, como forma de fazer a corte a Cromwell, publicou o seu “Leviatã”. O velho covarde entrou então em pânico pela terceira vez; imaginou que as espadas dos partidários do rei contra Cromwell estavam constantemente à sua espreita, recordando o que tinham feito aos Embaixadores do Parlamento na Haia e em Madri. “Tum’ diz ele na autobiografia em latim ma carrônic que escreveu:


Tum venit in mentem mihi Dorislaus et Ascham;

Tanquam proscripto terror ubique aderat.” (24)

E, conseqüentemente, ele fugiu para a Inglaterra. Ora, é certo que o homem merecia uma boa sova por ter escrito o viatã”; e duas ou três sovas por escrever um pentâmetro com um final tão horroroso quanto “terror ubique aderat’ Mas ninguém jamais o julgou digno de alguma coisa maior do que uma sova. E, de fato, toda a história não passa, da parte de Hobbes, de uma jactância. Pois, numa carta muito grosseira que ele escreveu a “uma pessoa erudita” (com o que ele queria aludir a Wallis, o matemático), ele relata a questão de maneira muito diferente, e diz (pg. 8) que fugiu para casa “porque não confiava sua segurança às mãos do clero francês”; com o que queria insinuar que era provável que fosse assassinado por causa de sua religião, o que teria sido realmente uma grande piada — o nosso velho Tomás Hobbes levado à fogueira por causa de religião.



Jactância ou não jactância, o que é certo é que Hobbes, até o fim de sua vida, temeu que alguém o assassinasse. Provarei isto com a história que passarei a contar: não provém de um manuscrito, mas (como diz o Senhor Coleridge) vale tanto como um manuscrito, pois provém de um livro agora inteiramente esquecido, a saber, O Credo do Senhor Hobbes examinado: numa Conversação entre ele e um Estudante de Teologia (publicado cerca de dez anos antes da morte do Senhor Hobbes). O livro é anônimo, mas foi escrito por Tennison, o mesmo que cerca de trinta anos depois sucedeu Tillotson como Arcebispo de Canterbury. A anedota introdutória é a seguinte: — “Um certo teólogo (sem dúvida o próprio Tennison) fazia todos os anos uma viagem de um mês a diferentes partes da ilha. Numa dessas excursões (1670), visitou o Pico em Derbyshire, em parte em conseqüência da descrição de Hobbes do mesmo. Estando na vizinhança, não podia deixar de visitar Buxton; e, no momento mesmo em que ali chegou, teve a felicidade de encontrar um grupo de cavalheiros que desmontavam à porta da hospedaria, entre os quais estava um camarada alto e magro, que se revelou não ser nem mais nem menos do que o Senhor Hobbes, o qual provavelmente tinha chegado a cavalo de Chatsworth (25). Encontrando uma tal fera, um turista, em busca do pitoresco, não podia fazer menos do que a ela se apresentar como mais um importuno. E, felizmente para seus planos, dois dos companheiros do Senhor Hobbes foram subitamente convocados por um mensageiro; assim, pelo resto do tempo que permaneceu em Buxton, Tennison gozou inteiramente do Leviatã, e teve a honra de com ele embebedar-se à boca da noite. Hobbes, ao que parece, mostrou de início uma certa reserva, pois temia os teólogos; mas essa reserva passou e ele se tomou muito sociável e engraçado e concordaram em tomar banho juntos. Não posso explicar como Tennison se aventurou a fazer estrepolias na água junto com Leviatã (26); mas assim aconteceu: brincaram como dois delfms, embora Hobbes devesse ser tão velho como as colinas; e “nos intervalos quando se abstinham de nadar e mergulhar discorreram sobre muitas coisas relativas aos banhos dos antigos e à origem das fontes. Quando assim tinham passado uma hora, safram do banho; e, se tendo secado e vestido, sentaram à espera do jantar que a hospedaria lhes poderia proporcionar; planejando revigorarem-se como os Deipnosophistae (27), e antes discutir e raciocinar profundamente do que beber da mesma maneira. Mas, na execução de tal inocente projeto, foram interrompidos pelo tumulto gerado por uma pequena disputa em que, por pequeno espaço de um pouco tempo, algumas das pessoas mais grosseiras da casa estiveram empenhadas. Isso pareceu preocupar bastante o Senhor Hobbes, embora ele estivesse bem longe de tais pessoas”. E porque se preocupou, cavalheiros? Sem dúvida, conforme imaginais, por causa de algum amor benigno e desinteressado pela paz, digno de um velho e de um filósofo. Mas escutai: — “Por algum tempo, não se acalmou, mas relatou, uma ou duas vezes, como se fosse coisa relacionada com ele próprio, num tom baixo e cuidadoso, isto é, ansioso, como Sextus Roscius foi assassinado, depois do jantar, perto dos Banhos Palatinos. Tal é o alcance da observação de Cícero, com relação a Epicuro, o ateu, de quem observou que ele, entre todos os homens, temia mais aquelas coisas que desprezava — a Morte e os Deuses”. Simplesmente porque era hora de jantar, e, na vizinhança de um estabelecimento de banhos, o Senhor Hobbes tinha de ter o mesmo destino de Sextus Roscius. Ele tinha de ser assassinado, porque Sextus Roscius fora assassinado. Que lógica havia em tudo isso, a não ser para um homem que estava sempre sonhando com o assassinato? Ali estava Leviatã, não mais temeroso das adagas dos realistas ingleses ou do clero francês, mas “posto, pelo terror, fora de seu decoro” por uma briga numa cervejaria entre alguns honestos rústicos do Derbyshire, os quais o próprio espantalho esquisito da pessoa de Hobbes, que pertencia a um outro século, teria feito tremer de medo.

Dar-vos-á prazer escutar que Malebranche foi assassinado. O homem que o assassinou é muito conhecido: foi o Bispo Berkeley. A história é familiar, embora até o momento não tenha sido contada como o deve ser. Berkeley, quando jovem, foi a Paris e fez uma visita ao Padre Malebranche. Encontrou-o na sua célula a cozinhar. Os cozinheiros sempre foram uma espécie de gente irritável; os autores ainda o são mais: Malebranche era cozinheiro e autor; surgiu uma disputa; o velho Padre, já quente, esquentou-se ainda mais; irritações culinárias e metafísicas se reuniram para perturbar-lhe o fígado: deitou-se na cama e morreu. Tal é a versão comum da história. “Assim engana-se todo o ouvido da Dinamarca” (28). A verdade é que o assunto foi abafado, por consideração a Berkeley, que (como Pope observa, com muita justiça) possuía “todas as virtudes baixo o céu”: era bem sabido, aliás, que Berkeley, sentindo-se picado pela impertinência do velho francês, com ele se desaviu; a conseqüência foi uma reviravolta: Malebranche foi ao chão no primeiro round; toda a sua presunção lhe foi retirada; e ele talvez tivesse cedido; mas o sangue de Berkeley esquentara, e ele insistiu em que o velho francês retratasse a sua doutrina das Causas Originais. A vaidade do homem era excessiva para isso; e ele sucumbiu, sacrificado pela impetuosidade da juventude irlandesa, combinada com a sua própria absurda obstinação.

Poder-se-ia contar com que Leibnitz sendo de todas as formas superior a Malebranche fosse, portanto, assassinado; o que, no entanto, não foi o caso. Acredito que se irritou por causa dessa negligência e se sentiu insultado pela segurança com que passou seus dias. De nenhuma outra maneira posso eu explicar sua conduta na última parte da vida quando resolveu tornar-se muito avarento e armazenar grandes importâncias de ouro, que guardava em sua própria casa. Isso passava-se em Viena, onde morreu. E ainda existem cartas que descrevem a incomensurável ansiedade que sentia pela integridade da pr6pria garganta. Ainda assim, sua ambição de ser pelo menos vítima de uma tentativa era tão grande que não renunciava ao perigo. Um recente pedagogo inglês, fabricado em Birmingham — a saber, o Doutor Parr —, adotou um procedimento mais egoísta, nas mesmas circunstâncias. Havia juntado uma considerável quantidade de peças de baixela de ouro e de prata, que foram durante certo tempo depositadas em seu quarto de dormir na casa paroquial, em Hatton. Mas, sentindo cada vez mais medo de ser assassinado, coisa que ele sabia que não poderia suportar (e à qual de fato nunca teve a menor pretensão), transferiu todas as peças para o ferreiro de Hatton, pensando, sem dúvida, que o assassinato de um ferreiro pesaria muito menos ao bem da república do que o de um pedagogo. Mas esse assunto já foi, em minha presença, objeto de dúvidas e de debate; e parece que se concordou geralmente em que uma boa ferradura vale cerca de dois e um quarto sermões Spital (29).

Embora de Leibnitz possa ser dito que morreu, se bem que não assassinado, em parte, do medo de que o fosse, e em parte da vergonha de não o ter sido, Kant, por outro lado — que não manifestou qualquer intenção nesse sentido — escapou por uma unha negra, como dizem os portugueses, menor de um assassinato do que qualquer homem de quem já falamos exceto Descartes! O caso é relatado, penso eu, numa biografia anônima desse homem muito considerável. Por uma questão de saúde, Kant impôs-se durante algum tempo uma caminhada diária de seis milhas por uma estrada. Sendo conhecido esse fato de um homem que tinha as suas razões particulares para cometer assassinato, este aguardou no terceiro marco de milha a partir de Knigsberg o seu “alvo. que chegou pontualmente como uma mala-postal.



Se não fosse por causa de um acidente, Kant teria perecido. Esse acidente consistiu na escrupulosa, ou naquilo que o Senhor Quickly chamaria de hipocondríaca moralidade do assassino. Ele imaginou que um velho professor estaria, com toda a probabilidade, carregado de pecados. Por causa dessa consideração, desviou- se de Kant, no momento crítico, e, pouco depois, assassinou uma criança de cinco anos de idade. Tal é a versão germânica do assunto; mas na minha opinião o assassino era um amateur, um connaisseur, que sentiu que muito pouco lucraria a causa do bom gosto pelo assassinato de um metafísico, velho, árido e adusto; nada haveria a exibir porque o velho Kant não teria mais ar de múmia depois de morto, do que o tinha quando vivo.

Assim, cavalheiros, tracei a ligação entre a filosofia e a nossa arte, até que, insensivelmente, descobri que chegara, por muitos meandros, à nossa própria época. Não me darei ao trabalho de caracterizar a presente época diferentemente das que a precederam, porque elas não possuem um caráter distinto. Os séculos dezessete e dezoito, juntamente com o que já vivemos do século dezenove, compõem, em conjunto, a idade de Augusto do assassinato. A obta-prma do século dezessete é, inquestionavelmente, o assassinato de Sir Edmonbury Godfrey, que conta com minha inteira aprovação. No aspecto importantíssimo do mistério, o qual, de uma maneira ou de outra deveria colorir qualquer tentativa judiciosa de assassinato, é excelente; pois, até hoje, não se esclareceu o mistério. Exorto a sociedade a desencorajar as tentativas de atribuir aquele assassinato aos papistas, o que o prejudicaria da mesma forma que alguns bem conhecidos quadros de Corrégio foram prejudicados por alguns técnicos de limpeza de quadros, ou mesmo arruinados, incluindo-o na classe espúria dos assassinatos meramente políticos ou partidários, aos quais falta inteiramente o animus assassino. De fato, tal idéia carece completamente de base, e teve origem no puro fanatismo protestante. Não se pode dizer que Sir Edmondbury se haja distinguido, entre os magistrados de Londres, por qualquer severidade contra os católicos romanos, ou por favorecer as tentativas que empreendiam os fanáticos para fazer vigorar a lei em casos individuais. Não armara contra a sua própria pessoa a animosidade de qualquer seita religiosa. E, quanto às manchas de cera de vela em sua vestimenta, quando o corpo foi descoberto numa vala, das quais se tirou, na época, a conclusão de que os padres vinculados à Capela da Rainha tinham tido algo a ver com o assassinato, ou tais manchas constituíram um mero artifício fraudulento inventado por aqueles que desejavam atribuir a suspeita aos papistas, ou toda a alegação — manchas de vela e a causa atribuída a tais manchas — não passava de uma jactância ou de urna mentira do Bispo Burnett, o qual, como costumava dizer a Duquesa de Portsmouth, era o grande mestre de mentir e de inventar histórias do século dezessete. Ao mesmo tempo, deve-se observar que a quantidade de assassinatos não foi grande no século de Sir Edmondbury, pelo menos entre os nossos próprios artistas; o que, talvez, possa ser atribuído à falta de patronos esclarecidos. Sint Maecenates, non deerunt, Flacce, Marones (30). Consultando o livro de Grant, “Observações sobre as Relações de Mortalidade” (quarta edição, Oxford, 1655), verifico que, entre 299, 250 pessoas que morreram em Londres, durante um período de vinte anos, no século dezessete, apenas oitenta e seis foram assassinadas; o que representa cerca de quatro — três décimos por ano. Pequeno número este, cavalheiros, para que sobre ele se fundasse uma academia; e, certamente, quando a quantidade é tão reduzida, temos o direito de esperar que a qualidade seja de primeira classe. Talvez o fosse; contudo, sou de opinião que o melhor artista naquele século não igualou o melhor do século que se seguiu. Por exemplo, por mais meritório que possa ser o caso de Sir Edmondbury Godfrey (e ninguém pode ser mais sensível às qualidades daquele assassinato do que sou), ainda assim, não o posso colocar no mesmo plano do da Senhora Ruscombe, de Bristol, quer quanto à originalidade do projeto, quer quanto à audácia e amplidão do estilo. O assassinato de tal boa senhora ocorreu durante o Reinado de George III — um reinado que foi reconhecidamente favorável ao florescimento das artes em geral. Ela vivia em College Green, em companhia de uma só empregada solteira, nenhuma das duas com pretensão de despertar a curiosidade da História, a não ser pelo que lucraram do grande artista, cujo trabalho estou relatando. Uma certa manhã, quando toda a cidade de Bristol estava de pé e em atividade, levantou-se alguma suspeita, e os vizinhos forçaram a entrada da casa, e deram com a Senhora Ruscombe assassinada em seu quarto, e com a empregada assassinada na escada; isso passou-se ao meio-dia; e, não mais do que duas horas antes, tanto a senhora como a empregada tinham sido vistas com vida. Ao que posso recordar-me, isso ocorreu em 1764; já se passaram, portanto, mais de sessenta anos e, contudo, ainda não se descobriu o artista. As suspeitas da posteridade recaíram em dois pretendentes — um padeiro e um limpador de chaminés. Mas a posteridade se engana; nenhum artista sem prática poderia ter concebido a idéia tão audaciosa de um assassinato em pleno meio-dia no coração de uma grande cidade. Não foi nenhum obscuro padeiro, cavalheiros, ou anônimo limpador de chaminés, podeis estar certos, que executou a obra. Eu sei quëm foi. (Neste ponto, registrou-se um nmor geral que se transformou em aplauso franco; isso fez com que o conferencista corasse, e prosseguisse com muita pressa). Pelo amor de Deus, cavalheiros, não vos enganeis a meu respeito; não fui eu quem o fiz. Não alimento a vaidade de julgar-me capaz de uma tal façanha; ficai certos de que grandemente superestimais os meus pobres talentos; o caso da Senhora Ruscombe ultrapassou de muito as minhas pequenas habilidades. Mas eu vim a conhecer quem foi o artista, por um célebre cirurgião que auxiliou a sua autópsia. Tal cavalheiro possuía um museu particular de objetos de sua profissão, um dos cujos quantos estava ocupado por um molde de um homem de propor. ções notavelmente belas.
“Aquele”, disse o cirurgião, “é um molde do célebre salteador do Lancashire, que ocultou por algum tempo a profissão que exercia, dos vizinhos, vestindo com meias de lã as pernas de seu cavalo, para abafar o ruído que de outra forma teria feito ao cavalgar pela aléia lajeada que conduzia a seu estábulo. Quando foi executado por saltear nas estradas eu estava estudando com Cruickshank: e a aparência do homem era tão excelente que não se poupou tempo ou dinheiro para entrar em posse dele, no mais breve tempo possível. Com a conivência do subdelegado, ele foi reduzido dentro do prazo legal, e colocado no mesmo momento numa carruagem; o que fez com que, quando chegou ao estabelecimento de Cruickshank, ele positivamente não estivesse morto. O Senhor, um jovem estudante na época, teve a honra de dar-lhe o coup de grare. e terminar a sentença da lei.” Esta notável anedota, que parecia implicar que todos os cavalheiros na sala de dissecação eram desportistas de nossa classe, muito me impressionou; e eu a estava repetindo um dia para uma senhora do L.ancashire, a qual então me informou de que ela vivera na vizinhança daquele salteador, e se lembrava bem de duas circunstâncias, que se combinavam, na opinião de todos os vizinhos dele, para conferir-lhe o mérito do caso da Senhora Ruscombe. Uma dessas circunstâncias consistia no fato de que ele se ausentou de casa por toda uma quinzena de dias, no período do assassinato; a outra residia em que, dentro de muito pouco tempo depois do assassinato, a vizinhança de tal salteador foi inundada de dólares: ora, sabia-se que a Senhora Ruscombe guardara cerca de dois milhares de tal moeda. Seja quem for o artista, no entanto, o caso permanece um monumento duradouro a seu gênio; pois tal foi a impressão de pavor, e o sentimento de poder despertados pelo vigor da concepção manifestada nesse assassinato, que nenhum locatário havia sido encontrado (como me foi dito em 1810), até aquele momento, para a casa da Senhora Ruscombe.

Mas, enquanto eu assim elogio o caso ruscombiniano, não se suponha que esqueço os muitos outros espécimes de extraordinário mérito disseminados pelo decorrer do século. Tais casos, na verdade, como o da Senhorita Bland, ou o do Comandante Donnellan, e Sir Theophilus Boughton, nunca receberão o meu apoio. Que se envergonhem tais praticantes do veneno, digo eu: será que não se podem ater ao velho meio honesto de cortar gargantas, sem introduzirem tais abomináveis inovações italianas? Considero esses casos de envenenamento, comparados com o estilo legítimo, como não superiores a trabalhos em cera em comparação com esculturas, ou litografias em contraste com uma bela obra de Volpato (31). Mas, pondo de lado tais casos, outras excelentes obras de arte num puro estilo permanecem, tais que ninguém necessita envergonhar-se de confessar; e este muito imparcial connaisseur o admitirá. Imparcial, lusto, leal, observai, é o que eu digo; pois devem ser feitas grandes concessões em tais casos; nenhum artista pode jamais estar seguro de levar a termo seus próprios belos planos. Surgirão complicações desastrosas; as pessoas negam-se a submeter-se a ter as gargantas cortadas, tranqüilamente; correrão, darão pontapés, morderão; e, enquanto o pintor de retratos muitas vezes tem de se queixar de excessivo torpor em seu modelo, o artista de nosso gênero fica geralmente embaraçado por um excesso de animação. Ao mesmo tempo, por mais que seja desagradável ao artista, essa tendência no assassinato de excitar e irritar a vítima é certamente uma de suas vantagens para o mundo em geral, que não devemos desprezar, pois favorece o desenvolvimento dos mais recentes talentos. Jeremy Taylor observa, com admiração, os saltos extraordinários que as pessoas dão, sob a influência do medo. Houve um exemplo impressionante disso no recente caso dos M’Keans: o menino saltou a uma altura tal como ele nunca atingirá mais até o dia de sua morte. Talentos também da qualidade mais brilhante para espancar, e, na verdade, para todos os exercícios de ginástica, foram algumas vezes desenvolvidos pelo pânico que acompanha os nossos artistas; talentos que, se não fosse por tal pânico, permaneceriam ocultos debaixo de um véu, a seus próprios possuidores, e aos amigos deles. Lembro-me de um interessante exemplo desse fato, num caso que me foi contado na Alemanha.



Cavalgando certo dia na vizinhança de Munich, alcancei um distinto membro de nossa sociedade, cujo nome, por motivos óbvios, não mencionarei. Tal cavalheiro informou-me de que, achando-se cansado dos prazeres frígidos (assim os estimava) do puro amadorismo, deixara a Inglaterra pelo continente — com a intenção de praticar um pouco, profissionalmente. Para tal propósito, recorreu à Alemanha, tendo a idéia de que a polícia naquela parte da Europa era mais pesada e sonolenta do que em outras partes. Seu début como um prático ocorreu em Mannheim; e sabendo-me um membro da sociedade, ele comunicou-me livremente o conjunto da aventura em que perdeu a virgindade nesse terreno. Do lado oposto à minha moradia, disse ele, vivia um padeiro: ele era um tanto avarento, e morava sozinho. Não sei se foi por causa da grande extensão branca, como cal, de sua cara, ou por que outra razão, mas a verdade é que ele me agradou, e resolvi entrar em atividade, cortando-lhe o pescoço, o qual, aliás, ele sempre trazia raspado — uma moda que muito me excita os desejos. Observei que, praticamente às oito horas da noite, ele, de forma pontual, fechava as janelas. Uma determinada noite, eu o olhava quando nisso ele estava empenhado — entrei por trás dele, tranquei as portas — e dirigindo-me a ele com grande suavidade, dei-lhe conhecimento da natureza de meu propósito; advertindo-o ao mesmo tempo de que não oferecesse resistencia, o que sena desagradável para ambos os lados. Assim falando, retirei as minhas ferramentas; e preparei-me para pôr mãos à obra. Mas, diante desse espetáculo, o padeiro, que parecia ter sucumbido a uma catalepsia quando lhe disse o meu propósito, despertou em tremenda agitação. “Eu não quero ser assassinado!”, guinchou em voz muito alta; “por que motivo quererei eu” (significando deverei eu) “perder a minha preciosa garganta?”—”Por que motivo?’ disse eu;”se por nenhum outro motivo, pelo seguinte — você põe alume no seu pão. Mas, não importa, alume ou não alume (pois eu estava disposto a prevenir qualquer discussão sobre esse ponto), saiba que eu sou um virtuose na arte do assassinato, e estou enamorado da vasta superfície de sua garganta, da qual estou decidido a tornar-me cliente.” “Ë assim?” disse ele, “eu lhe darei um cliente em outra especialidade;” e, dizendo isso, tomou uma atitude de boxeador. A própria idéia de vê-lo boxear pareceu-me hilariante. Ë verdade que um padeiro de Londres se distinguira no ringue, e se tornara famoso com o título de Mestre da Farinha, mas ele era jovem e estava em forma; enquanto aquele homem era a personificação de um monstruoso leito de penas, e completamente fora de condições. A despeito de tudo isso, no entanto, e lutando contra mim, que sou um mestre na arte, ele fez uma defesa tão desesperada que muitas vezes temi ficar por baixo; e que eu, um amador, um connaisseur, pudesse ser assassinado por um padeiro muito ordinário. Que situação! Os espíritos sensíveis simpatizarão com a minha ansiedade. Você compreenderá como as coisas foram duras se eu lhe disser que, durante os primeiros treze rounds, o padeiro positivamente levou vantagem. No décimo-quarto round, eu recebi um golpe no olho que o fechou; no final das contas, penso que isso me salvou; pois me inspirou uma raiva tão grande, que no round seguinte, e em cada um dos três outros, eu o fiz cair no chão.

No décimo-nono round, o padeiro veio resfolegando e evidentemente cansado. Suas proezas geométricas nos últimos quatro rounds não lhe tinham feito bem. Contudo, demonstrou certa habilidade em deter um soco que eu lhe estava enviando ao nariz cadavérico; ao dar esse soco, meu pé escorregou, e eu caí no chão. No vigésimo round, olhando para o padeiro, senti-me envergonhado de ter sido tão incomodado por uma disforme massa de farinha, avancei com ferocidade, e administrei-lhe alguns golpes severos. Houve um corpo a corpo — os dois foram para o chão — o padeiro por baixo — dez a três para o amador.

No vigésimo-primeiro round, o padeiro saltou com uma agilidade surpreendente, e recorreu ao que lhe restava de ânimo, admiravelmente, lutando de maneira maravilhosa, tendo em vista que estava banhado em suor; mas já o brilho o abandonara, e o que fazia era mero efeito do pânico. Era claro agora que não podia durar muito tempo. No curso desse round, experimentamos o sistema de entrelaçar-nos, no qual obtive grande vantagem, e o atingi repetidamente no nariz. Meu motivo para isso era o seguinte, que seu nariz estava coberto de carbúnculos; e me passou pela cabeça que eu o aborreceria tomando tais liberdades com seu nariz, o que, de fatc, aconteceu.

Nos três rounds seguintes, o mestre da farinha titubeou como uma vaca em cima de gelo. Vendo como iam as coisas, no vigésimo-quarto round sussurrei-lhe alguma coisa no ouvido, que o botou no chão com a rapidez de um tiro. Nada era mais do que minha opinião particular do que valia a sua garganta num escritório de anuidades. Esse pequeno sussuro confidencial grandemente o afetou; a própria transpiração gelou-se no seu rosto, e nos dois seguintes rounds fiz com ele o que eu quis. E quando eu disse “pique”, no vigésimo-sétimo round, ele jazia no chão como um pedaço de pau.

Depois disso, disse eu ao connaisseur: “Devo presumir que você cumpriu o seu objetivo”. “Você está certo”, disse ele, suave- mente, “eu o cumpri; e foi para mim uma grande satisfação, porque matei dois pássaros de uma só cajadada”, querendo dizer que ele tinha tanto espancado o padeiro como o assassinado. Ora, por minha vida, eu não era da mesma opinião; pois, a meu ver, pelo contrário, ele tinha necessitado de duas pedras para matar um pássaro só, tendo, primeiro, sido obrigado a retirar-lhe a presunção com os punhos, para então usar as suas ferramentas. Mas não importa a lógica do narrador. A moral da história era sólida porque demonstrava que espantoso estímulo para talentos latentes reside em qualquer perspectiva razoável de ser assassinado. Um padeiro de Mannheim, asmático, pesado, meio cataléptico havia lutado vinte e sete rounds com um mestre inglês na arte de boxear, apenas por essa inspiração; de tal forma foi o gênio natural exaltado e sublimado pela presença genial do assassino.

Realmente, cavalheiros, quando se ouvem tais coisas, torna- se um dever, talvez, amenizar um pouco a grande asperidade com que a maioria dos homens fala do assassinato. Ao ouvir as pessoas falarem, vós suporíeis que todas as desvantagens e inconveniências ficam do lado do assassinado, e que não existe nenhum do lado de não ser assassinado. “Certamente”, diz Jeremy Taylor, “é um mal menor sucumbir à dureza de uma espada do que à violência de uma febre: e o machado (que ele poderia ter acrescentado o martelo do carpinteiro naval e a alavanca) “é uma aflição muito menor do que uma estranguria”. É muito verdadeiro; o bispo fala como um sábio e um connaisseur, como, estou certo, ele era; e um outro grande filósofo, Marco Aurélio, estava igualmente acima dos preconceitos vulgares quanto ao assunto. Ele declara constituir uma “das mais nobres funções da razão saber se é ou não o momento de sair deste mundo.” (Livro III, tradução Coller’s). Nenhuma espécie de conhecimento é mais rara do que esse, e, certamente, deve ser do tipo mais filantrópico de caráter o homem que nele instrui as pessoas grátis, e correndo grande risco. Tudo isso, no entanto, não coloco aqui a não ser para dar matéria de especulação a futuros moralistas; declarando, nesse meio tempo, a minha própria convicção particular de que poucos homens cometem assassinato por princípios filantrópicos ou patrióticos, e repetindo o que já disse pelo menos uma vez — que, na grande maioria dos casos, os assassinos são caráteres muito incorretos.

Com relação aos assassinatos Williams, os mais inteiros em sua excelência e os mais sublimes que jamais foram cometidos, não me permitirei deles falar incidentalmente. Nada menos do que uma conferência inteira, ou mesmo um curso inteiro de conferências, seria bastante para expor os méritos de tais assassinatos (32). Mas mencionarei um fato curioso relacionado com esses casos, porque me parece implicar que o gênio daquele homem ofuscou inteiramente o olho da justiça criminal. Vós todos vos recordais, não tenho dúvida, de que os instrumentos com que executou sua primeira grande obra (o assassinato dos Marrs) foram um malho de um carpinteiro naval e uma faca. Ora, o malho pertencia a um velho sueco, um certo John Peterson, e trazia suas iniciais. Tal instrumento Wjlliams deixou atrás de si na residência dos Marrs, e caiu nas mãos dos magistrados. Mas, cavalheiros, é um fato que a publicação das circunstâncias das iniciais conduziu imediatamente
à prisão de Williams, e, se houvesse sido feita mais cedo, teria impedido sua segunda grande obra (o assassinato dos Williamsons) que ocorreu precisamente doze dias depois. Contudo, os magistrados mantiveram esse fato oculto ao público por todos aqueles doze dias, e até que a segunda obra fosse executada. Terminada esta, os magistrados fizeram a publicação, sentindo evidentemente que Wiffiams tinha feito o bastante para sua fama, e que sua glória estava agora assegurada além do risco de qualquer acidente.

Quanto ao caso do Senhor Thurtell, não sei o que dizer. Naturalmente, tenho toda disposição para muito estimar o meu predecessor na presidência desta sociedade; e reconheço que suas conferências não são passíveis de crítica. Mas, para falar francamente, penso que sua principal atuação, como um artista, foi muito superestimada. Confesso que, de início, eu próprio fui levado pelo entusiasmo geral. Na manhã em que se divulgou o assassinato em Londres, houve a maior reunião de connaisseurs de que já tive conhecimento, desde os dias de Wiffiams; alguns velhos amadores que dificilmente abandonavam a cama, e que tinham adotado um estilo de chacotear e de se queixar de que “nada se fazia mais”, coxearam para a nossa sala de reuniões: raramente fui testemunha de tal hilariedade, de tal benigna expressão de satisfação geral. Por todos os lados, viam-se pessoas que se apertavam as mãos, se congratulavam umas às outras, e formavam grupos para comemorar em jantares; e nada se ouvia a não ser gritos triunfantes de — “Basta isso?”, “É isso o que se quer?”, “Por fim, você está satisfeito?” Mas, no meio do tumulto, lembro-me, todos caímos em silêncio, ao ouvir o velho e cético connaisseur L.S. entrar na sala batendo com sua perna de pau; penetrou no recinto com sua carranca de costume; e, enquanto avançava, persistiu em resmungar e gaguejar o caminho todo — “Mero plágio — baixo plágio de dicas que eu dei! Além disso, o seu estilo é tão duro quanto o de Albert Dürer, e tão grosseiro quanto o de Fuseli.” Muitos pensaram que não se tratava de mais do que ciúme, e de impertinência geral; mas confesso que, quando esfriou o primeiro calor de entusiasmo, verifiquei que os críticos mais judiciosos concordaram em que havia alguma coisa de falsetto no estilo de Thurtell. A verdade reside em que era um membro de nossa sociedade, o que naturalmente comunicou um colorido amistoso a nosso julgamento. E sua pessoa caía bem com a “moda”, o que lhe conferia, com todo o público londrino, uma popularidade temporária que suas pretensões não eram capazes de suportar; pois opiniunum commenta delet dies, naturae judicia confirmat (33). Houve, no entanto, um projeto não executado de Thurtell para o assassinato de um homem com um par de halteres, que eu muito admirei; foi um mero esquema, que ele nunca preencheu; mas, a meu ver, parecia muito superior à sua principal obra. Lembro-me de que alguns connaisseurs multo lamentaram que tenha deixado esse plano em condição inacabada: mas nisso não posso concordar com eles; pois os fragmentos e audaciosos esboços de artistas originais contêm algumas vezes uma felicidade de traço que pode desaparecer quando se preenchem os detalhes.

Considero o caso dos M’Keans (34) muito superior à elogiada proeza de Thurtell — eu o considero, na verdade, acima de qualquer elogio; e que ocupa, com relação às obras imortais de Williams, a mesma posição que a Eneida tem para com a ilíada.

Mas chegou agora o momento de dizer algumas palavras sobre os princípios do assassinato, não com a intenção de regular-vos a prática, mas o julgamento: quanto às senhoras de idade e à malta de leitores de jornais qualquer coisa os contenta, desde que seja bastante sangrento. Mas o espírito sensível, requintado, exige alguma coisa mais. Em primeiro lugar, falemos da espécie de pessoa que se adapta ao propósito do assassino; em segundo, do lugar apropriado ao objetivo do assassino; e, em terceiro, do momento oportuno, e de outras circunstâncias.

Quanto à pessoa, suponho evidente que deve tratar-se de um homem bom; porque, se não for esse o caso, ele poderá estar, ao mesmo tempo, contemplando a possibilidade de cometer assassinato; e tais conflitos de “diamante corta diamante”, embora bastante agradáveis quando não há mais nada para se ver, não constituem realmente aquilo que um crítico se pode permitir de chamar assassinatos. Posso mencionar algumas pessoas (não digo nomes) que foram assassinadas por outras pessoas numa viela escura; e tudo até esse ponto parecia bastante correto; mas, aprofundando-se o conhecimento do assunto, o público tomou consciência de que a pessoa assassinada estava, ela própria, no momento, planejando roubar o assassino, pelo menos, e possivelmente assassiná-lo, se tivesse forças para tanto. Sempre que isso for o caso, ou que se possa pensar que foi o caso, digamos adeus a todos os genuínos efeitos da arte. Pois o propósito final do assassinato, considerado como uma das belas artes, é precisamente o mesmo que tem a tragédia, no que diz Aristóteles a respeito, a saber “purgar o coração por meio da piedade e do terror”. Ora, pode haver terror, mas como pode haver qualquer piedade por um tigre destruído por outro tigre?

Também é evidente que a pessoa escolhida não deve ser uma personalidade do conhecimento público. Por exemplo, nenhum artista judicioso teria tentado assassinar Abraham Newland (35). Pois o caso era o seguinte: todo mundo lera tanto sobre Abraham Newland, e tão pouca gente jamais o vira, que, para a opinião geral, ele era uma simples idéia abstrata. E lembro-me de que uma vez, quando me aconteceu mencionar que havia almoçado num restaurante em companhia de Abraham Newland, todos me olharam com escárnio, como se eu houvesse pretendido ter jogado bilhar com o Prestes João, ou ter tido um duelo com o Papa. Aliás, o Papa é uma pessoa muito imprópria para ser assassinada, pois possui uma tal ubiqüidade virtual como o pai do mundo cristão, e, como o cuco, é tão freqüentemente ouvido, mas nunca visto, que suspeito de que a maior parte das pessoas também o encara como uma idéia abstrata. Quando, de fato, um homem público tem o hábito de oferecer almoços, com todas as guloseimas da estação, o caso é muito diferente: todos verificam que não se trata de uma idéia abstrata; e, portanto, não pode haver qualquer impropriedade em matá-lo; apenas, sua morte entrará numa classe de assassinatos de que ainda não tratei.

Em terceiro lugar, o indivíduo escolhido deve gozar de saúde: pois é absolutamente bárbaro matar uma pessoa enferma, que usualmente é muito incapaz de suportar as circunstâncias. Por esse princípio, nenhum alfaiate deveria ser escolhido com mais de vinte cinco anos de idade, pois em tal altura da vida ele é certamente dispéptico. Ou, pelo menos, se um homem quiser caçar em tal coelheira naturalmente terá como um dever, de acordo com a velha e estabelecida equação, assassinar algum múltiplo de 9 — digamos, 18, 27 ou 36. E aqui, nessa benigna atenção prestada ao conforto das pessoas enfermas, vós observareis o efeito costumeiro de uma bela arte para suavizar e refinar os sentimentos. O mundo em geral, cavalheiros, é muito sanguinário: e tudo o que as pessoas requerem num assassinato é uma copiosa efusão de sangue; para eles, uma faustosa exibição nesse ponto é bastante. Mas o connaisseur esclarecido é mais requintado em seu gosto; e o resultado de nossa arte, como o de todas as outras artes liberais, quando inteiramente dominadas, é humanizar o coração; isso é tão verdade que:


Ingenuas didicesse fideliter artes.

Emolit mores, nec sinit esse feros. (36)

Um amigo filosófico, bem conhecido por sua filantropia e benignidade geral, sugere que a vítima escolhida deve também possuir uma família de crianças inteiramente dependentes de seus esforços, de modo a aprofundar o patos. E, sem dúvida, essa é uma precaução judiciosa. Ainda assim, não insistiria demais em tal condição. O bom gosto severo a sugere inquestionavelmente, mas, no entanto, desde que o homem se revele não passível de críticas sob o aspecto da moral e o da saúde, eu não faria uma exigência excessiva de uma restrição que pode ter como efeito reduzir a esfera de atividade do artista.


Que isso seja suficiente, quanto à vítima. Quanto à oportunidade, ao lugar, e às ferramentas, muito tenho a dizer, mesmo coisas em tal número que não me resta, no momento, mais lugar para elas. O bom senso do praticante o tem geralmente guiado para a escolha da noite e da intimidade. Contudo, não tem havido falta de casos em que essa regra foi abandonada com excelentes efeitos. Quanto ao momento, o caso da Senhora Ruscombe é urna bela exceção, de que já falei; e, quanto tanto à oportunidade quanto ao lugar, há uma bela exceção nos anais de Edimburgo (ano de 1805), familiar a cada criança daquela cidade, mas a qual foi estranhamente roubada de sua devida porção de fama entre os connaisseurs britânicos. O caso a que me refiro é o de um estafeta de um dos bancos, que foi assassinado quando carregava um saco de dinheiro, em plena luz do dia, saindo da High Street, uma das ruas mais freqüentadas da Europa; e o assassino até hoje não foi descoberto.


Sedfugit intereae, fisgit irreparabile tempus,

Singula dum capti circumvectamur amore. (37)

E agora, cavalheiros, para encerrar, que me seja permitido novamente declinar quaisquer pretensões de minha parte à qualidade de profissional. Nunca tentei qualquer assassinato em minha vida, exceto no ano de 1801, no corpo de um gato. E a tentativa não coroou minha intenção. Meu objetivo confesso era assassiná-lo. Semper ego auditor tantum? disse eu, nunquamne reponam? (38) E eu desci para o andar de baixo em busca do gato à uma hora de uma noite escura, com o animus e, sem dúvida, com o aspecto diabólico de um assassino. Mas, quando o encontrei, ele estava pilhando a despensa de pão e de outras coisas. Ora, isso conferiu um novo aspecto ao assunto; pois, sendo tempo de grande escassez de gêneros, era pura e simples traição da parte de um gato desperdiçar bom pão de trigo como ele estava fazendo. Tomou-se, no mesmo momento, um dever patriótico matá-lo; e, quando elevei e balancei o aço brilhante, imaginei-me surgindo, como Brutas, resplandecente do meio de um grupo de patriotas, e, quando eu o apunhalei, eu




Cail ‘d aloud on Tully ‘s name

And bade the father of his country hail! (39)


Desde então, as ilusões que eu possa ter alimentado de tentar contra a vida de uma antiga ovelha, de uma galinha em idade de aposentadoria, e outras caças de pouca importância, estão encerradas nos segredos de meu próprio coração; mas, quanto aos departamentos mais elevados da arte, confesso ser inteiramente inadequado. A minha ambição não vai até lá. Não, cavalheiros, nas palavras de Horácio:


Fungar vice cotis, acutum

Reddere quae ferrum valet, exsors ipsa secandi (40)



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