Do Rovuma ao Maputo Antologia de Autores Africanos



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Do Rovuma ao Maputo - Antologia de Autores Africanos


Poesia Autores Africanos



Do Rovuma ao Maputo

Antologia de Autores Africanos

Organizada por
Carlos Pinto Pereira


Introdução a esta edição

Entre Brasil e os países africanos de língua portuguesa, "apenas um mar nos separa"...e isto é muito pouco nos dias de hoje. O leitor desta RocketEdition TM da eBooksBrasil vai notar, pelos escritos de seus poetas e escritores, que a língua, o coração e a história nos une.

Resultado da correspondência entre amigos, infelizmente este exemplar não pode reproduzir a correspondência entre eles, que se trata de literatura epistolar...e das boas.

Ela, entretanto, está disponível em "Autores Africanos - Do Rovuma ao Maputo" [http://nicewww.cern.ch/~pintopc/www/africa/africa] coordenado por Carlos Pinto Pereira [Carlos.Pinto-Pereira@cern.ch], obra que mantém em conjunto, entre outros, com Mario Vaz [mario.vaz@sympatico.ca], Joaquim Fale [Joaquim Fale: joaquim@joafal.uem.mz], Vicenzo Barca [Vincenzo Barca: mc8717@mclink.it], Abdul Cadre [abdulcadre@mail.telepac.pt], Eduardo M.L. Paes Mamede [e.p.mamede@mail.telepac.pt], Paulo Lemos: [lemoszp@super.com.br], Margarida: [guidasc@ldc.com.br].

Ao corresponder-me com ele sobre esta edição, recebi este e-mail que, por si só, vale por uma apresentação, e por isso aqui vai transcrito:

Viva Teotonio


Aqui estou a responder-lhe como prometi ontem.
Como deve imaginar não tenho quaisquer direitos de autor sobre os poemas publicado na WEB e faço-o (fazemo-lo) pois achamos que é uma maneira de os fazer conhecer.
Se o seu objectivo é o mesmo então ficaremos muito gratos que lhe dêem ainda mais possibilidades de se fazerem conhecer.
Um abraço para si também.
               Carlos

Sim, leitor, queremos que você os conheça. Por isso, sem mais, a eles.



ÍNDICE

A - B - C - D - E - F - G - J - K - L - M - N - O - P - R - S - T - V - W - Z

- A -


ABRANCHES, Henrique (Ago)
Ao Bater da Chuva
ALBA, Sebastião(Moz)
A Pomba para o Cheina
ALCÂNTARA, Adriamo (Moz)
A Utopia dos Olhos Escancarados
ALCÂNTARA, Oswaldo (Cpv)
Filho
ANAHORY, Terêncio (Cpv)
Nha Codê
ANDRADE, Costa (Ago)
Contratados
ANTÓNIO, Mário (Ago)
Uma Negra Convertida
Rua da Maianga
ARTUR, J.Armando (Moz)
Arte de Viver
Divagações
AZEVEDO, Lícinio (Moz)
O Comboio de Sal e Açúcar
AZEVEDO, Pedro Corsino (Cpv)
Conquista
Galinha Branca
Terra Longe

- B -
BARBEITOS, Arlindo (Ago)


Em Teus Dentes
Esperança
Mão Frágil
Saudade
Vem Ver
BARBOSA, Jorge (Cpv)
Canção de Embalar
Prelúdio
BARCA, Alberto da (Moz)
Um Cão em Maputo
BUCUANE, Juvena (Moz)
O Húmus do Homem Novo

- C -
CACHAMBA, Simeão (Moz)


Xikalamidade
Xirico
CANCIONEIRO - Vamos Cantar, Crianças
Cantos 1-4
CARDOSO, António (Ago)
Árvore de Frutos
Um dia
CARDOSO, Carlos (Moz)
Cidade 1985
CARVALHO, Ruy Duarte de (Ago)
Chagas de Salitre
Dias Claros
Diogo Cão às Portas do Zaire
Novembrina Solene
Venho de um Sul
CASSAMO, Suleiman (Moz)
Nyeleti, Conto
Amor de Baoba
CHIZIANE, Paulina (Moz)
Balada de Amor ao Vento
COUTO, Fernando (Moz)
Feições Para um Retrato
COUTO, Mia (Moz)
A Adivinha
A Confissão de Nhonhoso
A Multiplicação dos Filhos
Estréia nos Viventes
Cartas dos Primos Ladrões
Governado Pelos Mortos
Mar Me Quer
Nas Águas do Tempo
Venho Aqui Brincar no Português
CRAVEIRINHA, José (Moz)
A Nossa Casa
Aldeia Queimada
Barbearia
A Boca
Cela 1
Depoimento Autobiográfico
Eles Foram Lá
Fábula
Gente a Trouxe-Mouxe
Gula
Outra Beleza
Reza Maria
Sementeira
Terra de Canaã
CRUZ, Viriato (Ago)
Makèzú
Namoro
Serão de Menino

- D -
DÁSKALOS, Alexandre (Ago)


A Sombra das Galeras
Carta
Manhã
No Temporal da Revolução
O Meu Amor
Poesias
Porto
E Agora Só Me Restam
DICK, Stefan Florana
Um Epidécio ao Escritor Maconde

- E -
ESPÍRITO SANTO, Alda (Stp)


Em Torno da Minha Baia
Onde Estão os Homens...

- F -
FALÉ, Joaquim


Filhos da Miséria
FEIJOÓ, Lopito (Ago)
Meditando
FILIMONE, Manuel Meigos (Moz)
Arremessos
FILIPE, Daniel (Cpv)
A Ilha e a Solidão - Morna
FONSECA, Mário (Cpv)
Viagem na Noite Longa
FORTES, Corsino (Cpv)
De Boca a Barlavento
Girassol
Pecado Original
FUCHS, Elisa (coord)
O Macaco e o Cágado

- G -
GEDEÃO, António (Prt)


A Pedra Filosofal
GONÇALVES, Carneiro
A Guerra dos 100 Anos
A Lua do Advogado
GONÇALVES, Zeto Cunha (Ago)
Escorraçados da Morte
Os Ombros Modulam o Vento
GUERRA, Henrique (Ago)
Vem, Cacimbo
GUITA Jr. (Ago)
Por uma Sereia de Treva
Psicoalteração do Rato
No Jardim da Noite com Estrelas

- J -
JACINTO, António - (Ago)


Carta Dum Contratado
Castigo Pró Comboio Malandro
Declaração
Era Uma Vez
Monangamba
Vadiagem

- K -
KHAN, Gulamo (Moz)


Moçambicanto I
KNEPE, Grandal (Moz)
Casa da Justiça
KNOPFLI, Rui (Prt)
Aeroporto
Mangas Verdes com Sal
Matinés do Scala
Miradouro
Naturalidade
A Pedra no Caminho

- L -
LANGA, Hortencio (Moz)


Mabogue ya M'bizwa
Topas-ou-viras
LARA, Alda (Ago)
Noite
Prelúdio
Presença Africana
Regresso
Rumo
LEMOS, Gouvea (Moz)
Canção da Angonia
LOBO, Manuel Sousa (Moz)
Menir Barroco

- M -
MABUNDA, Emído


Moçambique
Vozes do Sangue
MAIMONA, João (Ago)
Arte Poética
As Muralhas da Noite
Memória
Poema para Carlos Drummond de Andrade
MARGARIDO, Maria Manuela (Stp)
Alto Como o Silêncio
Paisagem
Serviçais
Socopé
Vós Que Ocupais a Nossa Terra
MARIANO, Gabriel (Cpv)
Caminho Longe
Única Dádiva
MATUSSE, Hilário M. E.
Candongas
A Viagem do Adalfredo
MAZUZE, Simeão
Calças Molhadas
Picasso
MEIGOS, Filimone (Ago)
Morte
MELO, João (Ago)
Dunas
MENDES, Orlando (Moz)
Exortação
História
Noiva
Para um Fabulário
MENDONÇA, José Luís (Ago)
De Asas Sob a Terra
MESTRE, David (Ago)
África
Espera
O Sol Nasce a Oriente
MOMPLÉ, Líla
Os Olhos da Cobra Verde
Stress
MORAZZO, Yolanda (Cpv)
Barcos
MOSSE, Marcelo (Moz)
Chão de Pátria
MUIANGA, Aldino (Ago)
A Noiva de Kebera
Maria, Minh'amor
MUTEIA, Helder (Moz)
Ai o Mar
Ensaio de Lágrimas
Reflexão

- N -
NETO, Agostinho (Ago)


Antigamente Era
Com os Olhos Secos
Confiança
Lá no Horizonte ou 'Poesia Africana'
O Choro de África
NETO, Eugénia (Prt/Ago)
Poema à Mãe Angolana
NEVES e SOUSA (Ago)
Angolano
Ilha de Moçambique
NGWENYA Malagatana Valente e N. Mutxhini (Moz)
A Coruja
Amor Verde
Double Trouble
Mamã Preocupada
Pensar Alto

- O -
OSÓRIO, Oswaldo (Cpv)


O Cântico do Habitante
Cavalos de Silex
Holanda
Manhã Inflor

- P -
PANGUANA, Marcelo (Moz)


A Lua e a Morte
PINDULA, Mauro
Morte em Dois Actos
PINTO DE ABREU, António (Moz)
Milagre Obstéctrico
PIRES, Virgilio - (Cpv)
Mané Fú
Reminiscência

- R -
ROCHA, Jofre (Ago)


Paisagem do Nordeste
Quando a Manhã Vier
ROMANO, Luis (Cpv)
Símbolo
Vida
RUI, Manuel (Ago)
O Jogo
Museu

- S -
SANTANA, Ana de (Ago)


A Abóbora Menina
Núpcias
Rapariga
SANTOS, Aires de Almeida (Ago)
Mulemba
Meu Amor da Rua Onze
SANTOS, Arnaldo (Ago)
A Vigília do Pescador
SANTOS, Marcelino ou Lilinho Micaia Kalungano (Moz)
Ódio
Sonho de Mãe Negra
SANTOS, Monteiro (Ago)
Tudo Treme
SAUTE, Nelson
A Pátria Dividida
Ignorância
SILVA, M. Correia da (Ago)
Canção do Silêncio
SILVEIRA, Onesimo (Cpv)
As Águas
Quadro
SOUSA, Julião Soares (Gwb)
Cantos de Meu País
SOUSA, Noémia (Moz)
Magaíça
SUKRATO (Cpv)
Não me Lavem o Rosto

- T -
TAVARES, José Luís (Cpv)


Curvo-me
TAVARES, Paula (Ago)
Cerimónia de Passagem
TENREIRO, Francisco José (Stp)
Coração em África
Romance de San Martinho
TOMÉ, António (Moz)
O Coleccionador de Quimeras
Nunca é Tarde

- V -
VARIO, João (Cpv)


Exemplo
Fragmento
VASCONCELOS, Leite (Moz)
Canto do Verbo em Busca da Forma
Declaração
Ladaínha
VENTURA, Reis (Ago)
Baião de Luanda
VELHA, Cândido da (Ago)
As Idades da Pedra
VICTOR, Geraldo Bessa (Ago)
Chove
Não Venhas Mais ao Cais
O Menino Negro Não Entrou na Roda
O Feitiço do Batuque
VIEGAS, Alberto (Ago)
Camaleão
VIEGAS, Jorge (Moz)
Nirvana
VIEIRA, Armério (Cpv)
Isto é Que Fazem de Nós
Mar
VIEIRA, Carlos-Edmilson M. (Gwb)
Sofrimento
VIEIRA da CRUZ, Tomáz (Ago)
Coqueiro
Fruta
N'gola
Quissange - Saudade Negra
Rebita
Romance de Luanda
VIEIRA, Luandino (Ago)
Canção para Luanda
Sons
VILANOVA, João Maria (Ago)
Canção para Joana Maluca
Canção na Morte de Nga-Caxombo
VIMARO, Tomas (Moz)
Lei do Passe
VIRGÍNIO, Teobaldo (Cpv)
Rota Longa

- W -
WHITE, Eduardo (Moz)


O país de Mim
Poemas da Ciência de Voar

- Z -
ZIMBA, Carlos (Moz)


Sorrisos Mutilados
ZITA, Isaac (Moz)
Os Molwenes

Alguns Dados Biográficos

Esta edição


Ao Bater da Chuva

Autor: Henrique Abranches
(Angola)

A porta fechada é uma obsessão.


As vozes caladas em torno de nós,
as pausas alongadas em silêncios de uma angústia
nova,
são a descontinuidade do tempo interrompido
dentro da casa que arrombaram ontem,
no coração da aldeia do Mazozo.
A chuva cai em bátegas doces, a chuva bate o capim
molhado,
e soa...
A humanidade é fria.

As mulheres já choraram tudo


- A Mãe Gonga comandou o coro.
Esvaem-se agora em surdina muda,
que agudiza o bater da chuva.
Os homens dizem de quando em quando
um nome obstinado.

Chamava-se Infeliz


aquele rapaz
que levaram ontem
do coração da aldeia.

A chuva matraqueia ainda e sempre


na porta fechada como uma obsessão.
Como ela nos lembra o som odiado
que dia após dia
nos sobressalta!
Como ela recorda o som da metralha,
que dia após dia
desce o morro da Calomboloca
e bate naquela porta fechada,
obsecada de protecção!

A gente conhece o som da metralha


quando ela vem no fim do dia.
Quando ela vem, silencia a aldeia,
então, em sobressalto, o povo diz:
- Foram fuzilados...

E ninguém sabe do Infeliz,


aquele rapaz que levaram ontem...

A Pomba Para o Cheina



Autor: Sebastião Alba
Moçambique


Do livro "A noite Dividida", Edições 70, Lisboa 1981

Pontos de vista


entrecruzam as balas
e nós ensaiamos a pomba
desenhando-a encurvando-lhe
o dorso antes do voo
largando-a no prisma puro
dos olhares da multidão
Logo uma estrela fugaz
se lhe cola ao bico
Rodopiará no céu entre colunas
colossais de cogumelos
e sóis que a inflectem
mas bem aninhada no oco
habitáculo de penas
com a chave em nossa mão.

A Utopia dos Olhos Escancarados



Autor: Adriano Alcântara

Nos Cadernos "Diálogo" alguns autores desconhecidos do grande público tiveram a oportunidade de ver trabalhos seus publicados. É o caso de Adriano Alcântara. - Joaquim Falé

Se num momento de loucura


acaso arriscares acima do tédio
e afoito sozinho dobrares
a agreste solidão da esquina dos dias,
poderás então entrever
por entre as brumas do tempo
a imensa multidão e o verde prazer
das tuas mais urgentes utopias.

Se depois com ardor escreveres


- ridícula como o poeta a dizia -
uma simples carta de amor
cuja verdade ofereça fogosa o seu pudor
sinceros significados tão prementes
que a ouro fiquem bordados
no seio nu das palavras inexistentes,
imune farás tombar do muro os pecados
com que este presente impune
procura sarcástico esconder-nos o futuro.

Se porém impossível te for


a sangria das palavras a sério
e ao cansaço sem outra saída
com fúria não conseguires opor
a beleza dum punho bem apertado,
arrepia caminho e não ouses.
Nunca ouses monstro malfadado
dobrar a esquina deste tempo
de cobardias prenhe e silêncios cheio.

Porque só o amor mata a hipocrisia


e reconhece os homens iguais
porque para além deste dia
só de olhos escancarados se sonha a utopia.

Filho



Autor: Oswaldo Alcântara
(Cabo Verde)

Nicolau, menino, entra.


Onde estiveste, Nicolau,
que trazes a arrastar
o teu brinquedo morto?

Nicolau, menino, entra.


Vem dizer-me onde foi que tu estiveste
e a estrela fugiu das tuas mãos.

Tens comigo o teu catre de lona velha.


Deita-te, Nicolau, o fantasma ficou lá longe.

Dorme sem medo.


Porão, roça, medos imediatos,
tudo ficou lá longe.

Quando acordares a jornada será mais longa.

Nicolau, menino,
onde foi que deixaste
o corpo que te conheci?
Deus há-de querer que o sono te venha depressa
no meu catre.

Nha Codê



Autor: Terêncio Anahory
(Cabo Verde)


in "Caminho longe", 1962

Tiraram o lume dos teus olhos


e fizeram braseiro
para aquecer a noite fria;
noite de qualquer dia.
Roubaram o teu riso
e encheram de gargalhadas
de luz e de música
as suas reuniões frustradas.
Da tua pele fizeram tambor
para nos ajuntar no terreiro!
Dondê nha Codê?
Não
não mataram o meu filho
que eu sei que o meu filho não morre.

(Se choro


são saudades de nha Codê...)

Nha Codê vive


na evocação de um mundo distante
no riso e no choro das ervas rasteiras
na solidão dos campos
nas pândegas de marinheiros
na vida que nasce e morre
em cada dia que passa!

... E em mim


essa saudade de nha Codê!

Contratados



Autor:Costa Andrade
(Angola)
(1959)

A hora do sol posto


as rolas traçam
          desenhos de feitiços sinuosos

caminhos sob a calma das mulembas

e abraços de segredos e silêncios.

          ...longe...muito longe


          um risco brando
          acorda os ecos dos quissanjes
          vermelho como o fogo das queimadas
com imagens de mucuisses e luar.

          Canções que os velhos cantam


          murmurando.

e nos homens cansados de lembrar


          a distância vai calando mágoas.

renasce em cada braço


          a força de um secreto entendimento.

Uma Negra Convertida



Autor: Mário Antonio
(Angola)

Minha avó negra, de panos escuros,


da cor do carvão...
Minha avó negra de panos escuros
que nunca mais deixou...

Andas de luto,


toda és tristeza...
Heroína de idéias,
rompeste com a velha tradição
dos cazumbis, dos quimbandas...

Não xinguilas, no óbito.


Tuas mãos de dedos encarquilhados,
tuas mãos calosas da enxada,
tuas mãos que preparam mimos da Nossa Terra,
quitabas e quifufutilas - ,
tuas mãos, ora tranquilas,
desfilam as contas gastas de um rosário já velho...
Teus olhos perderam o brilho;
e da tua mocidade
só te ficou a saudade
e um colar de missangas...
Avózinha,
às vezes, ouço vozes que te segredam
saudades da tua velha sanzala,
da cubata onde nasceste,
das algazarras dos óbitos,
das tentadoras mentiras do quimbanda,
dos sonhos de alambamento
que supunhas merecer...
E penso que... se pudesses,
talvez revivesses
as velhas tradições!

Rua da Maianga



Autor: Mário Antonio
Angola

Rua da Maianga


que traz o nome de um qualquer missionário
mas para nós somente
a rua da Maianga

Rua da Maianga às duas horas da tarde


lembrança das minhas idas para a escola
e depois para o liceu
Rua da Maianga dos meus surdos rancores
que sentiste os meus passos alterados
e os ardores da minha mocidade
e a ânsia dos meus choros desabalados!

Rua da Maiaga às seis horas e meia


apito do comboio estremecendo os muros
Rua antiga de pedra incerta
que feriu meus pezitos de criança
e onde depois o alcatrão veio lembrar
velocidades aos carros
e foi luto na minha infância passada!

(Nene foi levado pró hospital


meus olhos encontraram Nene morto
meu companheiro de infância de olhos vivos
seu corpo morto numa pedra fria!)

Rua da Maianga a qualquer hora do dia


as mesmas caras nos muros
(As caras da minha infância
nos muros inacabados!)
as moças nas janelas fingindo costurar
a velha gorda faladeira
e a pequena moeda na mão do menino
e a goiaba chamando dos cestos
à porta das casas!
(Tão parecido comigo esse menino!)

Rua da Maianga a qualquer hora


o liso alcatrão e as suas casas
as eternas moças de muro
Rua da Maianga me lembrando
meu passado inutilmente belo
inutilmente cheio de saudade!

A Arte de Viver



Autor: Armando Artur
Moçambique

Habito no halo


dos meus versos
onde incansavelmente
rimo palavras sem rima
e seco lágrimas sem pranto

é a arte de viver...

como lacrar a vida e o amor
sem cantar?
como vencer o tédio e o temor
sem bailar?
eis a razão
porque sonho sem sono
porque voo sem asas
porque vivo sem vida

no avesso dos versos escondo


o tesouro da minha contrariedade
o mistério da minha enfermidade
e o feitiço da minha eternidade

Divagações



Autor: Armando Artur
Moçambique


Capítulo de "Estrangeiros de Nós Próprios"
Publicado pela AEMO, Associação dos Escritores Moçambicanos, nº 15 da colecção Timbila (outubro de 1996)

Pelo dever


de resistir e caminhar
pelos destroços da nossa utopia,
eis-nos aqui de novo, acocorados,
aqui onde o tempo pára
e as coisas mudam.

E para que o nosso sonho renasça


com a levitação do vento e do grão,
eis-nos aqui de novo,
passivos como os espelhos,
no tear da nossa existência.

Este sempre será


O nosso amanhecer.
E a nossa perseverança
é como a da erva daninha
que lentamente desponta na pedra nua."

O Comboio de Sal e Açúcar



Autor: Licínio de Azevedo
Moçambique


Trechos do livro "O comboio de sal e açúcar", editado em 1997

"- Vocês não podem fazer isto! - diz Omar, com gravidade.


Os soldados espantam-se.
- Eu conheço os regulamentos militares. Vocês estão aqui para defender o comboio e o que ele transporta, não podem tocar na carga - afirma.
- Cuidado, velhote - diz um dos soldados. No próximo combate, a primeira bala é para ti.
Omar não se intimida.
- Eu sou o condutor coordenador destes três comboios. Vocês põem nos vossos relatórios que o vagão foi assaltado mas nós, nos nossos, temos que escrever a verdade, pois respondemos pela carga perante os CFM.
- Não digas que não te avisámos, velhote - fala o soldado que parece liderar os outros e se afasta, levando os companheiros consigo. - Este velho é maluco, quer confusão com a tropa.
- Vamos dar-te chamboco - diz outro soldado, ameaçando Omar com a mão fechada, como se agarrasse um pau.
- Um tiro. Basta um tiro - defende o primeiro.
A tentativa de saque obriga Omar a permanecer no seu furgão, com atenção redobrada aos vagões de carga.
Informados de que vão ficar ali até o dia seguinte, os viajantes instalam-se nos arredores dos comboios, com as suas cozinhas improvisadas, esteiras e mantas que nem todos têm. Surge logo um pequeno mercado de lenha, junto à estação. Muitos "passageiros" percorrem as cantinas, mas não há nada à venda. Elas continuam abertas apenas por formalidade, há muito que não são abastecidas."
.........
"No 1103, com uma atitude agressiva, indiferente aos olhares das pessoas que circulam por ali, o alferes Salomão está parado diante de uma jovem de pouco mais de vinte anos, grande e bonita, vestida com modéstia, mas gente de cidade.
- Não vou - diz a jovem, com firmeza.
- Eu dou-te um tiro - ameaça Salomão.
- Não sou sua mulher. Não vou cozinhar para si - ela grita, aperta os lábios e bate com o pé direito no chão.
As pessoas que estão por perto fingem nada ver ou ouvir e afastam-se, é melhor não se envolver em assuntos de militar com mulher. Mesmo assim, Salomão lhes grita:
- Saiam daqui! O que querem?
Ele agarra a jovem por um braço e começa a arrastá-la para o "ferro" onde está o barco. Ela resiste, determinada a não ceder, mas as suas forças são insuficientes contra os músculos bem treinados e a habilidade do corpo seco do alferes. Ela não pára de gritar.
- Largue-me! Largue-me!
Soldados que assistem à cena sorriem, como se fosse algo tão natural como marido bater em mulher que não obedece.
- Esta gaja tem que levar porrada - comenta um deles.
- O alferes vai dar-lhe porrada é na esteira - diz um outro. - Vai pilar esta gaja!
Salomão arrasta a jovem para junto do "ferro", mas não consegue fazê-la subir. Para isto precisa de mais do que a sua força física e leva a mão ao coldre.
- Quer ajuda, Salomão? - pergunta o tenente Taiar, parando ao seu lado.
Surpreendido, o alferes olha para Taiar sem sacar a pistola nem largar a jovem, que acredita estar, agora, completamente perdida.
- Largue-a! - Taiar ordena, mansamente.
A sua ordem espalha electricidade no ar. Os soldados mais próximos, todos eles da escolta de Salomão, param de sorrir e observam a cena, com manifesta antipatia pelo tenente. Os civis demonstram agora que vêem e ouvem, como se alguém tivesse tocado na corda adormecida da sua coragem.
- Tenente, capitão, ninguém me dá ordens a respeito de mulher - declara Salomão, exaltado. - Ganhei a minha patente a combater. Dez anos! Tenho direito à mulher que quero!
Ao responder ao tenente, no entanto, ele larga o braço da jovem que se afasta uns metros, com dignidade, e fica a assistir ao desfecho do confronto. Taiar permanece calmo, enfrentando em silêncio o olhar ameaçador de Salomão.
- Aqui a conversa é de homem para homem e quem manda no meu comboio sou eu - continua o alferes.
- Não me provoques, Salomão - diz Taiar, sem erguer a voz, seguro de si.
Dois soldados do alferes aproximam-se, querendo intimidar Taiar com as suas AKM. Sem lhes dar atenção, indiferente à expressão de desprezo de Salomão, o tenente segue em direcção ao seu comboio. A jovem segue atrás dele e emparelha com a sua marcha.
- Obrigada por me ter ajudado. O meu nome é Rosa, gostaria de ir para o seu comboio, pois aqui já não me sinto segura. Sou enfermeira, posso...
- Faça o que quiser - diz Taiar, sem se deter, mal olhando para ela.
Ela corre até o "ferro" onde tem a sua bagagem, duas sacolas de tamanho médio e um estojo branco com uma cruz vermelha, pega nela e vai atrás dele, andando com dificuldade devido ao peso. Sem voltar a olhar para ela, Taiar dirige-se ao furgão do 1101, para dormir um pouco.
Rosa percorre a composição e decide-se, sem nenhum motivo especial, por ficar no meio dela, no "ferro" em que está Mariamu.
Um casal que viaja no 1103, testemunha do ocorrido com Rosa, procura também mudar-se para o 1101. Salomão impede-o, como quem pronuncia uma condenação:
- Ninguém muda de comboio durante a viagem. De agora em diante, cada um tem lugar marcado."

Licínio de Azevedo é um cineasta brasileiro radicado em Moçambique.

Conquista



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