Do sistema agrário colonial ao processo de modernizaçÃo na agricultura familiar do município de lajeado – rs: as permanências e rupturas1 from the colonial agrarian system to the modernization process in agriculture family in lajeado rs



Baixar 76.47 Kb.
Encontro11.03.2018
Tamanho76.47 Kb.



DO SISTEMA AGRÁRIO COLONIAL AO PROCESSO DE MODERNIZAÇÃO NA AGRICULTURA FAMILIAR DO MUNICÍPIO DE LAJEADO – RS: AS PERMANÊNCIAS E RUPTURAS1

FROM THE COLONIAL AGRARIAN SYSTEM TO THE MODERNIZATION PROCESS IN AGRICULTURE FAMILY IN LAJEADO - RS CITY: PERMANENCIES AND RUPTURES
Juliana Cristina Franz

Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Maria

Grupo de Pesquisa: Laboratório de Estudos Agrários e Ambientais

julianafranz@gmail.com
Giancarla Salamoni

Professora do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Pelotas

Grupo de Pesquisa: Laboratório de Estudos Agrários e Ambientais

gi.salamoni@yahoo.com.br
RESUMO

O presente trabalho busca compreender quais são os elementos do sistema colonial que persistem mesmo com o avanço do processo de modernização na agricultura familiar do município de Lajeado – RS. Para tanto, foi adotada a pesquisa qualitativa e o estudo de caso no referido município, a fim de compreender os elementos socioculturais, de produção e técnicos presentes nas propriedades estudadas. Identificou-se permanências relacionadas ao sistema agrário colonial, principalmente, na dimensão sociocultural, a centralidade da família e da propriedade da terra, ligada ao processo de herança que é marcadamente um elemento de continuidade na organização da agricultura familiar. Em relação aos elementos da modernização da agricultura, que caracterizam as rupturas em relação ao passado colonial, cabe destaque às dimensões técnicas e de produção.



PALAVRAS-CHAVE: Agricultura Familiar; Sistema Agrário Colonial; Modernização.
ABSTRACT

This study seeks to understand what are the elements of the colonial system that persist even with the progress of the modernization process in family agriculture of Lajeado - RS. For this purpose, it was adopted qualitative research and case study in that city in order to understand the socio-cultural elements, production and technical present in the studied properties. It was identified continuities related to the colonial agricultural system, especially in the socio-cultural dimension, the centrality of the family and land ownership, linked to the inheritance process is markedly a continuity element in the organization of family farming. In relation to agricultural modernization of the elements that characterize the colonial past ruptures, it highlighted the technical dimensions and production.



KEY WORDS: Family farming; Colonial Agrarian System; Modernization.

1 INTRODUÇÃO

Em um contexto atual, sabe-se da importância que a categoria social da agricultura familiar ocupa no cenário social e econômico no Brasil, principalmente na produção de alimentos para os mercados locais e regionais, sendo responsável por garantir a segurança alimentar tanto para as populações do campo quanto da cidade. Diante disso, justifica-se esse estudo no sentido de compreender o processo histórico de formação do sistema colonial da agricultura familiar na escala local e regional, bem como, as transformações e a permanências desse sistema em um contexto de profundas mudanças que ocorrem no rural na sua inter-relação com o urbano.

Considerando o sistema agrário estabelecido pelos imigrantes alemães no território gaúcho, ou seja, a agricultura colonial caracterizada por propriedades familiares policultoras, busca-se neste trabalho compreender quais são os elementos desse sistema que persistem mesmo com o avanço do processo de modernização da agricultura na agricultura familiar no município de Lajeado – RS.

A fim de aprofundar o entendimento sobre a realidade da agricultura familiar neste município, a presente pesquisa se configura em um estudo de caso que considera as propriedades familiares de origem colonial alemã do município como objeto de investigação. Realizou-se revisão da literatura a cerca das temáticas da colonização alemã e da modernização da agricultura, mais especificamente no âmbito da agricultura familiar, e após foi realizada a coleta de dados da realidade empírica. Esta coleta ocorreu por meio de fontes de dados secundários, como Prefeitura Municipal – Secretaria de Cultura, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e Fundação de Economia e Estatística Siegfried Emanuel Heuser (FEE). E, também de fontes primárias, através de entrevistas com base em roteiros semi-estruturados realizadas com os agricultores familiares de Lajeado.

No município de Lajeado, as peculiaridades no que concerne à normatização da área urbana geram uma restrição no contorno físico da área rural. Os espaços, urbano e rural, passam a se confundir de certa maneira no município, pois com a restrição normativa da delimitação do espaço rural, algumas propriedades passam a se reproduzir no espaço definido normativamente como urbano. Diante destas especificidades municipais, objetiva-se compreender a organização e reprodução da agricultura familiar no município, a partir das continuidades e rupturas.

O município de Lajeado, recorte territorial em análise, esta situado na Mesorregião Centro-Oriental do Rio Grande do Sul, isto é, na porção centro-leste deste estado. E, faz parte da microrregião do Vale do Taquari, conforme figura 1. (Prefeitura Municipal de Lajeado, 2012). O município configura parte da área denominada de “Colônia Velha”. A terminologia Colônia Velha refere-se à região que foi primeiramente colonizada pelos imigrantes europeus, mais especificamente pelos alemães no Rio Grande do Sul. Essa região representa a chamada zona pioneira2 na constituição da agricultura familiar por colonos imigrantes alemães no Rio Grande do Sul, a qual imprimiu características específicas no espaço, como a configuração de pequenas propriedades policultoras com o uso de mão de obra familiar (ROCHE, 1969a; SCHNEIDER, 1996).


Figura 1: Mapa de Localização do Estado do Rio Grande do Sul e do município de Lajeado



Fonte: Hasenack; Weber (2006); IBGE (2010), Organizado por Ândrea Lopes (2016).
A dimensão territorial do município de Lajeado, na época de sua emancipação (1891) era de aproximadamente 3.500 Km² (FALEIRO, 1996), muito superior a área atual que é de 90,4 km², ou seja, atualmente o município é 3% do território original (FEE, 2011) e a densidade demográfica é elevada (797,7 hab/km²) em relação aos demais municípios do estado, sendo um município predominantemente urbano, possuindo uma área rural restrita a uma localidade (IBGE, 2013; FEE, 2011). A área rural vem sendo urbanizada por meio de decisões político-administrativas da câmara de vereadores, corroboradas pelo poder executivo municipal, a fim de regularizar os loteamentos urbanos que já vinham se implantando, de maneira irregular, nestes locais, e também, como forma de prever um crescimento estrutural da cidade de forma mais ordenada. Além disso, cabe ressaltar que as medidas adotadas pelo poder público municipal representam uma forma de garantir a integridade do território, tendo em vista os muitos distritos que já se emanciparam do referido município.

Segundo os dados apresentados pelo IBGE (2010), com base no Censo Demográfico, é possível verificar que de 1970 até o ano de 2010 o município de Lajeado apresentou uma significativa redução na população considerada rural. Enquanto que em 1970, 68,34% da população municipal era considerada rural, nos dias atuais apenas 0,37% da população é considerada rural, tendo 99,63% dos habitantes classificados como população urbana. Esses dados percentuais tomam como parâmetro metodológico para definição de população rural e urbana a localização do domicílio, adotado pelo IBGE (2003).


2 A FORMAÇÃO DO SISTEMA AGRÁRIO COLONIAL: AS PERMANÊNCIAS NA AGRICULTURA FAMILIAR

Neste estudo considera-se fundamental o entendimento sobre as formas de produzir e trabalhar, as práticas de sociabilidade e os traços culturais dos imigrantes alemães no Rio Grande do Sul, constituídos pelo processo de colonização3 alemã. Centrando a análise ao ponto de vista geográfico, ressaltando as relações dos colonos imigrantes com o espaço, ao longo do tempo. Este processo de colonização teve entre os principais fatores o interesse do governo imperial e provincial no povoamento das áreas meridionais, garantindo assim a posse do território ao sul do Brasil, que era constantemente ameaçado pelos espanhóis. Os imigrantes alemães desembarcaram vindos da Europa, em diversos períodos, os primeiros chegaram em 1824 no Vale do Rio dos Sinos, quando ainda não se tinha uma legislação especifica para a imigração. (ROCHE, 1969a)

Os imigrantes alemães que se estabeleceram na Província do Rio Grande do Sul no século XIX localizaram-se nas áreas de florestas entre o litoral e o planalto, acompanhando os vales dos principais rios, como por exemplo, Sinos, Jacuí, Taquari e Caí, muitas vezes, desde o curso inferior até as nascentes. E, foram imprimindo nestas regiões de colonização alemã a característica de pequenas propriedades policultoras. Ainda, pelo fato de estarem isoladas passaram a desenvolver um comércio de pequena escala local. (SEYFERTH, 1974) Segundo Lando e Barros (1996), foi a decadência do sistema escravista que permitiu a expansão do fluxo migratório. No Rio Grande do Sul e Santa Catarina a mão de obra do imigrante destinou-se a locais onde a participação da mão de obra escrava era muito pequena ou inexistente.

O colono imigrante vindo para o Brasil, mais especificamente ao Sul do país, é destinado a ocupar as áreas de mata virgem, adentrando nesse meio para desbravar e cultivar a terra. Waibel (1979) considera que este colono desempenha um papel de “pioneiro” por ser o primeiro homem a penetrar na mata, tornando-a acessível ao processo civilizatório, nos moldes europeus.

A zona pioneira no Sul do Brasil está intimamente relacionada à colonização europeia, representada pelo avanço da ocupação agrícola sobre áreas de matas a fim de produzir gêneros alimentícios para o autoconsumo e para abastecimento do mercado interno, constituindo a pequena propriedade de base familiar. Mas, nem toda região habitada por colonos tem o caráter de zona pioneira, é necessário também a constituição de um sistema de circulação/transporte dos produtos excedentes para o mercado. Outro fator essencial para configurar uma zona pioneira é a disponibilidade de terra para receber novos colonos, a fim de a área ter um caráter dinâmico. (WAIBEL, 1979)

A colonização no Rio Grande do Sul é considerada como um caso peculiar por ter ocorrido pela motivação de ocupar áreas menos povoadas e por ter incitado a formação da pequena propriedade com mão de obra livre. (LANDO; BARROS, 1996)

Os colonos, durante muitos anos, continuaram cultivando da forma que seus antepassados aprenderam com os primeiros ocupantes, e esta prática é denominada de “roça”. A roça basicamente consiste na preparação da terra a partir das seguintes operações: a derrubada: corte da capoeira e das plantas lenhosas que se desenvolveram entre duas fases de cultura, e estas ramas ficam no chão onde secam; a queimada4: consiste na incineração na própria clareira na estação própria; a plantação ou sementeiras ocorre na camada de cinzas ou em pouca profundidade no solo; e por fim, o capinar: é a preparação da terra, ou a preparação de uma segunda cava às culturas, trabalho bastante penoso no verão (ROCHE, 1969a). O lote colonial – a pequena propriedade familiar – sofreu várias restrições seja pelo uso de técnicas rudimentares, ou pelo esgotamento do solo, ou pela compartimentação por herança, levando alguns dos membros do grupo familiar a buscar o assalariamento no campo, ou nas cidades próximas, ou migrar para outras regiões do Brasil. No quadro 1 é apresentada a síntese das causas que levaram ao esgotamento do solo nos lotes coloniais. (MOURE, 1996)
Quadro 1: Síntese das causas do desgaste do solo nos lotes coloniais



Fonte: Organizado pela autora, 2016.
Waibel (1979) expõe que a agricultura praticada pelos colonos imigrantes alemães no Sul do Brasil é reconhecida pela literatura nacional e internacional pelo êxito que obteve. Entretanto, o autor ressalta que ao se analisar mais de perto, observa-se que, inicialmente, os colonos utilizaram o mais primitivo dos sistemas agrícolas, ou seja, o sistema chamado de “roça”, assim denominado pelo colono, na literatura geográfica ele é conhecido como agricultura nômade ou itinerante, e na linguagem dos economistas rurais é chamado de sistema de rotação de terras. (WAIBEL, 1979)

O sistema agrário colonial é conformado pela forma de produzir e pela forma de sociabilidade, e segundo Schneider (1996, p.299):


A forma de produzir refere-se a organização do trabalho num processo produtivo que seja capaz de assegurar a subsistência da família, é a maneira pela qual os indivíduos que trabalham organizam os meios de produção para garantir a sua reprodução. A forma de sociabilidade refere-se ao modo pelo qual estruturam-se as relações sociais que a família do colono-camponês estabelece com os elementos exteriores.
A sociabilidade pode ser estabelecida por meio de laços de parentesco, pelas relações entre vizinhos, pela religião, ou pelas atividades de lazer, podendo ocorrer em diferentes graus dependendo das relações estabelecidas pela família com o seu exterior. A ajuda mútua é uma característica fundamental na sociabilidade do colono imigrante.

O povoamento rural disperso, que ocorreu desde a chegada dos colonos no Rio Grande do Sul caracteriza a forma de ocupação do espaço rural, em que ao longo das picadas os colonos iam estabelecendo suas moradias. Além dessa forma de ocupação do espaço, a etnia, a língua e a dificuldade de comunicações, principalmente pela falta de estradas, induziram a formação de uma sociedade com um alto grau de endogamia até 1950. “O caráter quase autárquico do modo de vida teuto-colonial era reforçado pelas intensas relações de parentesco e de religiosidade”. (SCHNEIDER, 1996, p. 306)

Por fim, pode-se sucintamente definir que os aspectos essenciais, presentes na agricultura familiar e herdados do sistema agrário colonial são: a pequena propriedade com base na mão de obra familiar, o sistema de produção fundamentado na policultura e nesta está inclusa a pecuária de pequeno porte, especialmente a pecuária leiteira. E, o excedente da produção destina-se ao mercado. No caso dos colonos alemães, estes especificamente dedicaram-se à produção de milho e suínos (produção de banha). (MERTZ, 2004)

Através dos dados coletados em campo no município de Lajeado a partir das entrevistas nas unidades familiares de produção, foi perceptível o envelhecimento da população residente, aproximadamente 45% das pessoas que compõem os grupos familiares entrevistados possuem idade acima dos 55 anos, e também foi perceptível uma redução na composição do grupo familiar (em média 4 pessoas por propriedade). Menasche e Schmitz (2007) constatam que nas regiões de agricultura colonial do Sul do país, a migração de jovens, bem como a diminuição do número de filhos por família, gerou, nas últimas décadas, envelhecimento e redução da população do campo.

No perfil do grupo familiar, são apresentadas as respostas majoritárias de cada uma das variáveis analisadas (Tabela 01).
Tabela 1: Perfil do Grupo Familiar


Perfil do Grupo Familiar

Gênero

Idade

Escolaridade

PEA

PEI

Feminino

(53%)

Acima dos 65 anos (23%)

Ensino Fundamental Incompleto (62%)

Monoativos (33%)

Aposentados (40%)

Fonte: Elaborado pela autora, 2016.
Através destes dados é perceptível a predominância de pessoas com idade avançada, o que corrobora para o fenômeno do envelhecimento da população do campo, e são estas pessoas com idade mais avançada que possuem uma escolaridade mais baixa, e dentro da População Economicamente Ativa (PEA) desempenham atividades agrícolas somente (monoativas). Já entre a População Economicamente Inativa (PEI) a grande parcela corresponde aos aposentados.

No que se refere aos aspectos socioculturais percebem-se novos hábitos combinados com práticas e saberes herdados dos antepassados, tanto na agricultura, quanto no artesanato, na alimentação, ou ainda nas atividades de socialização entre os grupos familiares. Aspectos do sistema agrário colonial continuam sendo reproduzidos na atualidade, entretanto, estão associados aos elementos que caracterizam o sistema agrário moderno, percebe-se assim, a presença dos dois sistemas agrários no mesmo espaço.


[...] o processo colonizador, a vida cotidiana nas colônias e os grupos sociais que as compõem constituem-se também por saberes que vão se reproduzindo, migrando com os grupos sociais, produzindo demandas e necessidades que vão sendo preenchidas pelas ações e inventividades de seus elementos. (TEDESCO, 2009, p.232)
A continuidade da comunicação no dialeto alemão, a frequência nas atividades ligadas à Igreja, os saberes culinários, as atividades de artesanato, são exemplos de aspectos socioculturais que os agricultores familiares herdaram dos seus antepassados e buscam repassar para a geração mais jovem, mesmo com ressignificações e adaptações.

As atividades de artesanato também são preservadas, em alguma medida, nas propriedades rurais estudadas, com destaque ao crochê e tricô que são atividades femininas, e a confecção de balaios que é uma atividade masculina nas propriedades. A família é um espaço de aprendizagem e de socialização de saberes, de fazeres e de afazeres, caracterizando geralmente um aprender fazendo ou, então, um fazer aprendendo, mesmo com alterações e interferências (TEDESCO, 2009).

Nas propriedades rurais visitadas, a herança dos antepassados também está presente na preservação dos costumes5 relacionados à culinária, o “saber fazer” no preparo dos alimentos. “A comida, ao mesmo tempo em que está alicerçada em razões práticas – é necessária para atender ao estômago –, também constrói seu universo simbólico – é necessária para atender à mente” (WOORTMANN, 2007, p.178). A comida tradicional alemã sofreu adaptações, devido ao impacto do turismo e da migração para áreas urbanas de descendentes dos colonos.

Na consciência étnica dos teuto-brasileiros a comida aparece como um dos marcadores culturais da identidade. Seyferth (2015) ressalta que os hábitos alimentares surgiram da conciliação de uma imaginada tradição nacional com a produção que era obtida nas roças da colônia. E, o mais marcante é a policultura, que até hoje é valorizada, mesmo nas propriedades pluriativas.

Entre os produtos em destaque tem-se o pão e a cuca6 que são feitos artesanalmente para o consumo próprio das famílias. As conservas e compotas também são típicas entre os agricultores, com elas eles buscam armazenar e conservar as frutas e legumes da época para serem consumidos posteriormente, geralmente durante o ano todo, seguindo a lógica de aprovisionamento dos colonos pioneiros.
Figura 2: Mosaico das produções artesanais relativas à culinária presentes nas propriedades familiares

Linguiça; pão; conservas de pepino e milho; massa de pastel; bolachas de manteiga; pomada a base de ervas medicinais; conservas de cenoura e compotas de figo.



Fonte: A autora, 2016.
3 A MODERNIZAÇÃO NA AGRICULTURA FAMILIAR: AS RUPTURAS COM O PASSADO COLONIAL

Schneider (1999) realiza uma digressão sobre as origens do padrão agrícola moderno na agricultura familiar no Rio Grande do Sul através da introdução da sojicultura. E, no que concerne a região da Colônia Velha, ele considera que houve uma estagnação no que se refere à tecnificação e especialização num primeiro momento, pois o que prevaleceu com a expansão da modernização e da industrialização foi a intensificação da pluriatividade, ou seja, mudanças nas relações sociais de trabalho na agricultura, a partir da combinação de atividades agrícolas e não agrícolas.

Ao longo do tempo, muitas das dinâmicas internas relacionadas a organização das famílias rurais foram alteradas, entretanto, práticas sociais, técnicas e produtivas vêm se mantendo como estratégias de reprodução desses agricultores. A modernização da agricultura no Brasil ganhou força entre os agricultores familiares nos anos de 1970, e como decorrência possibilitou a formação de relações interssetoriais, representadas pelos complexos agroindustriais (CAI’s). Esta interdependência das atividades agrárias em relação à indústria, responsável pelo progresso técnico que define o padrão tecnológico da agricultura, e também à agroindústria e aos supermercados que são responsáveis pela absorção da produção, acabam por impor exigências quanto a qualidade do produto e a escala de produção. (GRANDO; MERTZ, 2010)
No Rio Grande do Sul significativa parcela de pequenos produtores aderiu à integração agroindustrial (quer sejam empresas privadas, quer cooperativas), com destaque para os produtores de aves, suínos e leite, além dos [...] produtores de fumo, uva e de grãos, sobretudo trigo e soja. (GRANDO; MERTZ, 2010, p.104)
A integração aos complexos agroindustriais desencadeia certa especialização produtiva por parte dos agricultores – “[...] a agricultura de diversificada tende à especializada” (GRANDO; MERTZ, 2010, p.102). A integração é um processo seletivo, consequentemente, excludente, pois requer que a produção agrícola absorva as inovações tecnológicas voltadas à agricultura e, de certa forma, desarticula o sistema tradicional dos agricultores que consistia em associar a policultura à pequena produção de animais. Dessa forma, a produção passa do sistema simples de mercadoria para a integração e submissão ao modo de produção capitalista dominante. E, os agricultores familiares mostraram grande capacidade de se adaptar as diferentes situações. (GRANDO; MERTZ, 2010)

Grando e Mertz (2010) também apontam a especulação fundiária como outra face perversa do modelo de modernização implantado, em que as terras mais aptas à mecanização valorizaram e induziram os pequenos proprietários a se desfazer das suas propriedades. Por outro lado, Marafon (2015) considera que o desenvolvimento tecnológico permitiu melhoria nos meios de comunicação, como, nas estradas, na telefonia e meios de transporte e isso resultou no meio rural no crescimento de atividades não agrícolas, tornando o espaço rural mais complexo.

A modernização da agricultura e o avanço industrial nas zonas rurais gaúchas foram os elementos que imprimiram transformações na agricultura familiar, gerando alterações: na estrutura social através da integração de uns e exclusão de outros agricultores ao modelo de desenvolvimento dominante; no modo de produzir através da imposição tecnológica da agroindústria; no modo de vida pelo acesso à sociedade do consumo; e na paisagem rural pelas novas formas de ocupação do espaço, pelas estradas, indústrias, turismo rural, entre outras. (GRANDO; MERTZ, 2010)

De posse das informações coletadas em campo e em consonância com a revisão teórica, entende-se que a reprodução das propriedades familiares do município de Lajeado ocorre combinando continuidades e rupturas, presentes no cotidiano, nas práticas sociais e no manejo de técnicas da modernização.

As respostas dos agricultores familiares em relação à modernização ativeram-se, principalmente, na questão da mecanização, como o uso de trator, rotativa, debulhador elétrico de milho, prensadora de cana, ordenhadeira, resfriador de leite, plantadeira, colheitadeira e pulverizador. Mas, em alguns casos, as respostas também consideraram a mudança no método de manejo do solo, através da introdução do plantio direto e da rotação de culturas, pela conservação do milho através da silagem para o trato animal. A plasticultura, a irrigação e as estufas foram outros elementos da modernização absorvidos pelos agricultores, alguns exemplos podem ser evidenciados na figura 3.
Figura 3: Mosaico da modernização técnica presente nas propriedades rurais

Produção de tomate em estufa; silagem de milho; trator com plantadeira, resfriador de leite; pulverizador e trator.



Fonte: A autora, 2016.

A fim de sintetizar as informações coletadas nas propriedades visitadas, traçou-se um perfil (Tabela 2) onde são apresentadas as respostas predominantes nas entrevistas sobre os elementos produtivos, técnicos e as relações com o estado.


Tabela 2: Perfil das Propriedades entrevistadas (Fatores técnicos, produtivos e relações com o Estado)

Perfil da Propriedade

Principal Fonte de Renda

Agricultura (80%)

Produto (maior produção)

Milho (27%)

Produto (maior rentabilidade)

Leite (40%)

Imposto Territorial

ITR (80%)

Aquisição da Propriedade

Herança (50%)

Assistência Técnica

EMATER (90%)

Crédito Rural

PRONAF (100%)

Transgênicos

Sim (80%)

Melhoramento Genético Animal

Sim (90%)

Método de Plantio

Moderno (40%)

Método de Preparo

Mecânico (70%)

Método de Colheita

Mecânico (60%)

Método de Adubagem

Químico (50%)

Fonte: Elaborado pela autora, 2016.
Assim, através deste estudo de caso, o sistema agrário que se conforma na realidade local pode ser denominado de “híbrido”, caracterizado principalmente pelas permanências nas questões socioculturais, as quais se mantêm na atualidade, mesmo que muitas vezes com seus valores ressignificados. Quanto aos fatores técnicos e produtivos, é possível perceber uma prevalência dos fatores modernos sobre os tradicionais.
4 CONCLUSÕES

Entende-se que o sistema agrário colonial persiste combinado com o sistema agrário moderno na conformação do espaço da agricultura familiar no município de Lajeado - RS. Da combinação de elementos do sistema agrário colonial (SAC) com outros do sistema agrário moderno (SAM) emerge o sistema agrário híbrido (SAH), este último entendido a partir da identificação das continuidades (permanências) e das rupturas (transformações) na conformação do sistema agrário atual.

As principais continuidades identificadas no estudo de caso correspondem aos aspectos socioculturais. A continuidade do dialeto da língua alemã foi resposta unânime entre as propriedades entrevistadas, da mesma forma que a participação nas comunidades religiosas (católica e luterana). Desde a chegada dos imigrantes ao Brasil, estes são os fatores de coesão social considerados como importantes e que permanecem na atualidade difundidos em todas as propriedades estudadas. No que se refere à sociabilidade, as festas da igreja e a participação em corais foram destacadas pelos entrevistados.

No que se refere à culinária, muitos costumes do saber fazer relacionados à alimentação ainda são preservados e repassados aos jovens. O pão, a cuca, as conservas e compotas, o queijo, a linguiça e as bolachas artesanais foram os principais produtos produzidos pelos agricultores familiares entrevistados, repercutindo a lógica do aprovisionamento de alimentos herdada dos colonos pioneiros, mesmo que atualmente seja em menor frequência e intensidade. A tradição não foi abandonada e as mudanças parecem constituir mais adaptações à modernidade do que alterações nos hábitos alimentares e que resultam da combinação seletiva entre distintas memórias gastronômicas, ou seja: as existentes no Rio Grande do Sul e aquelas trazidas pelos imigrantes.

A ajuda mútua entre parentes e vizinhos é uma das expressões que conforma o ethos camponês, e ainda está presente em grande parcela das propriedades estudadas, mesmo com o relato de que esta prática diminuiu muito com o passar dos anos.

A policultura, representada pela criação diversificada de animais e pela manutenção da horta e do pomar para o autoconsumo, o trabalho manual, o uso da tração animal, o uso do esterco como fertilizante, o trabalho familiar, o cultivo de flores no entorno da casa e o plantio e a conservação de ervas medicinais para o consumo próprio, são as principais heranças culturais presentes nas propriedades. A transmissão do patrimônio fundiário (terra) é considerada uma continuidade, sendo entendida como uma herança cultural, considerando que a maior parte dos colonos projeta a permanência, de pelo menos um dos filhos na agricultura, associando o futuro à manutenção da propriedade e à produção de alimentos.

Os elementos apontados são expressões concretas de continuidades no caso estudado. Mesmo que algumas heranças remanescentes dos antepassados e que ainda são reproduzidas nas propriedades rurais de colonos de origem alemã, não necessariamente são originárias de uma herança étnica alemã, mas produto da confluência de diversas tradições camponesas.

Em relação aos aspectos técnicos e produtivos das propriedades entrevistadas a preponderância recaiu sobre a absorção da modernização, principalmente no quesito das inovações mecânicas, nas diferentes fases da cultura (plantio, preparo do solo, adubação e colheita), bem como, no uso de insumos bioquímicos. Entretanto, ressalta-se que as propriedades absorveram a modernização em diferentes graus de intensidade.

Em síntese, compreende-se que o sistema agrário presente na agricultura familiar estudada é constituído de continuidades, principalmente no sistema sociocultural, e também é permeado por rupturas, com destaque ao sistema técnico e produtivo, conforme pôde ser averiguado com os dados de campo. Dessa forma, o sistema agrário híbrido pode ser caracterizado pela pequena propriedade, com base na mão de obra familiar; pelo sistema de produção fundamentado na policultura e na pecuária de pequeno porte, especialmente a pecuária leiteira; pelo excedente da produção destinado ao mercado; e pela manutenção do artesanato rural.
5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FALEIRO, Silvana R. Lajeado Perfil Histórico Étnico-Social (do período indígena à colonização). Lajeado: Prefeitura Municipal de Lajeado; Secretaria de Cultura e Turismo de Lajeado, 1996.


FEE – Fundação de Economia e Estatística. Resumo Estatístico município de Lajeado RS, 2011. Disponível em: Acesso em: 20 jan. 2013.
GRANDO, Marinêz Z.; MERTZ, Marli M. De colonos a agricultores familiares: uma trajetória de resistência. In: O movimento da Produção (Três décadas de Economia Gaúcha). V.2, 2010. p.93-127.
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Cidades Infográficos, Lajeado, 2013. Disponível em: Acesso em: 18 maio 2013.
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Metodologia do Censo Demográfico 2000. Rio de Janeiro, v.25, 2003. Disponível em: Acesso em: 29 abr. 2015
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Primeiros Dados do Censo, 2010. Disponível em: Acesso em: 13 abr. 2015.
LANDO, Aldair M.; BARROS, E. C. Capitalismo e Colonização – os alemães no Rio Grande do Sul. In: LANDO, Aldair M. et al. (Orgs) RS: imigração & colonização. 3. ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1996, p.9-46.
MENASCHE, Renata; SCHMITZ, Leila C. Agricultores de origem alemã, trabalho e vida: saberes e práticas em mudança em uma comunidade rural gaúcha. In: MENASCHE, Renata (Org.). A Agricultura Familiar à Mesa: saberes e práticas da alimentação no Vale do Taquari. Porto Alegre: UFRGS, 2007. p. 78-99.
MERTZ, Marli. A agricultura familiar no Rio Grande do Sul: um sistema agrário colonial. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 25, n. 1, p. 277-298, abr. 2004.
MOURE, Telmo. A inserção da economia imigrante na economia gaúcha. In: LANDO, Aldair M. et al. (Orgs) RS: imigração & colonização. 3. ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1996, p.91-113.
PREFEITURA Municipal de Lajeado. O meio Natural em que vivemos, 2012. Disponível em: Acesso em: 22 mar. 2013.
ROCHE, Jean. A Colonização Alemã e o Rio Grande do Sul. V.1 Porto Alegre: Ed. Globo, 1969a.
SCHNEIDER, Sergio. Agricultura Familiar e Industrialização: Pluriatividade e descentralização industrial no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 1999.
SCHNEIDER, Sergio. Os Colonos da Indústria Calçadista: Expansão Industrial e as Transformações da Agricultura Familiar no Rio Grande do Sul. REVISTA ENSAIOS FEE, Porto Alegre, v.17, n.1, p.298-323, 1996.
SEYFERTH, Giralda. A Colonização alemã em Santa Catarina: hábitos alimentares e etnicidade. In: MENASCHE, Renta (Org.) Saberes e Sabores da Colônia: Alimentação e cultura como abordagem para o estudo do rural. Porto Alegre: UFRGS, 2015. p.133-160.
SEYFERTH, Giralda. A Colonização Alemã no Vale do Itajaí-Mirim. Porto Alegre: Ed. Movimento, 1974.
TEDESCO, João C. Os Saberes da Mão e a Autarcia Econômica Familiar: dimensões camponesas da vida nas colônias. In: TEDESCO, João C.; HEINSFELD, Adelar. Colonos, colônias & colonizadores: Aspectos da territorialização agrária no Sul do Brasil. Erechim: Habilis, 2009. p. 231-250
WAIBEL, Leo. Capítulos de Geografia Tropical e do Brasil. 2 ed. Rio de Janeiro: IBGE, 1979.
WOORTMANN, Ellen F. Padrões Tradicionais e Modernização: comida e trabalho entre camponeses teuto-brasileiros. In: MENASCHE, Renata (Org.) Agricultura Familiar à Mesa: Saberes e práticas da alimentação no Vale do Taquari. Porto Alegre: UFRGS, 2007. p.177-196.


1 Este trabalho faz parte da dissertação de mestrado defendida em março de 2016, junto ao programa de Pós-graduação em Geografia, na Universidade Federal de Pelotas.

2 Segundo Waibel (1979) a zona pioneira é definida como sendo não apenas a expansão do povoamento espacialmente, mas também pela intensificação e criação de novos e mais elevados padrões de vida.

3 “O emprego da palavra colonização pelos brasileiros não provém, pois, de uma confusão, mas de uma subordinação do imigrante à colonização, que é o fim dela. Falando de colonização alemã, entende-se a exploração de uma região, sob a direção do Governo Brasileiro, por mão de obra originária da Alemanha.” (ROCHE, 1969a, p.3, grifos do autor)

4 Esta técnica agrícola da queimada também é conhecida como coivara, tradicionalmente já utilizada nas comunidades indígenas no Brasil.


5 Costumes: “sugere práticas e comportamentos aceitos pelo grupo, associados a uma tradição, aprendidos no curso da socialização” (SEYFERTH, 2015, p. 138).

6 Cuca é uma massa feita com fermento biológico, trigo, açúcar, manteiga e ovos, aberta num tabuleiro e coberta com pedaços de frutas e Streusel (mistura esfarelada de açúcar, trigo e manteiga. E daí derivam variações, geralmente usa-se a fruta da época. (SEYFERTH, 2015).


Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal