Dolores j. W. Rochester Vera Ivanovna Kryzhanovskaia



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Dolores

J.W.Rochester

Obra psicografada pela médium russa

Vera Kryzhanovskaia








editora do conhecimento

Copyright © 2001 by Conhecimento Editorial Ltda. DOLORES

J. W. Rochester - Vera Ivanovna Kryzhanovskaia

Todos os direitos desta edição reservados à CONHECIMENTO EDITORIAL LTDA.

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Tradução: Klara Gourianova

Revisão de originais e adaptação à língua portuguesa: Margareth Ro­se Fonseca Carvalho

Ilustração da capa: Cláudio Gianfardoni Projeto gráfico: Sérgio F. Carvalho Colaboraram nesta edição: Paulo Gontijo de Almeida

e Antonio Rolando Júnior

ISBN 85-87619-55-8 1a EDIÇÃO - 2001

Impresso no Brasil • Printed in Brazil • Presta en Brazilo

FICHA CATALOGRÁFICA

R676d

Rochester, John Wilmot, Conde de (Espirito) Dolores / John Wilmot Rochester. Obra psicografada por Vera Ivanovna Kryzhanovskaia, tradução de Klara Gourianova - 1a edição - , Limeira, SP: Ed. do Conhecimento, 2001.



160 p. 21 cm.

  1. Obras psicografadas. 2. Romance mediúnico. 3. Kryzhanovskaia,Vera Ivanovna (1861-1924). I

Há certas tramas habilmente colocadas em nossas vidas pela Providência Divina, numa inteligente oportunidade para resgate de débitos passados, que são dignas de novela! Frutos da Lei que nos impulsiona ao progresso espiritual, as razões dessas situações inusitadas, ofuscadas pela vestimenta car­nal, são sempre questionadas por nós, resultando numa ine­vitável cobrança à Justiça Divina.

Assim se sente Dolores, personagem principal desta nova obra de Rochester, agora trazida ao público. Nossa bela hero­ina, filha mais nova da aristocrática familia de Mornos, é uma altiva jovem de futuro promissor, que após infrutíferas tenta­tivas de livrar a famí1ia da falência financeira, através do ma­trimônio, se vê obrigada a abdicar de seu grande amor, Alfon­so, em favor de uma união indesejada que interessava apenas aos seus familiares.

A história se passa na Espanha e em Cuba no final do sé­culo XVIII em tempos de exploração do trabalho escravo, on­de predomina o desprezo pela raça negra, tratada a chi­batadas pelos senhores das fazendas. Esse racismo custou caro à familia de Mornos: as leis da Ação e Reação propor­cionaram ao mulato José, filho ilegitimo e herdeiro de dom Fernando, tio de Dolores, a oportunidade de se vingar do pe­sado preconceito a que fora submetido.

Entretanto, num voluntarioso sacrificio, Dolores concorda em suportar as novas provações que lhe são impostas pela vida. A partir dai, revolta e resignação, desespero e tolerância, ódio e amizade são os sentimentos que passam a se revezar no coração da linda moça, presenteando-nos com belas lições de amor e de justiça que se contrastam com as armações e as baixezas de seu irmão, dom Ramiro, intolerante, vingativo, orgulhoso, racista e um dos grandes responsáveis pelo desti­no de Dolores.

A doutrina espírita sabiamente nos esclarece sobre a ori­gem de todos esses dissabores, oriundos de nossos próprios atos. Assim, os fatídicos encontros entre "Josés" e "Dolores", de vida em vida, freqüentemente são programados pela Espi­ritualidade. E que lutas íntimas esses espíritos terão que tra­var para se unirem pelos laços do afeto!...

Sabemos que muitos livros de Rochester são seqüências de vidas pregressas que narram, através dos dramas secula­res, as histórias de um grupo de personagens que acompa­nhou o autor durante várias jornadas de experiências encar- natórias e do qual ele se fez tutor num importante compro­misso firmado com a Espiritualidade.

A obra "Dolores", segundo afirma o prefaciador francês de "A Vingança do Judeu", estaria inclusa neste contexto e retra­taria a última encarnação de Rochester, voltando a reunir es­ses mesmos personagens que constantemente preservaram seus instintos e atributos pessoais, ora ascendendo na escala evolucional, ora permanecendo estacionários, mediante as quedas probatórias às quais eram submetidos.

Infelizmente esta nova obra de Rochester, originalmente editada em Riga, na Letônia, anos após o desencarne da mé­dium Vera Kryzhanovskaia foi reproduzida sem prefácio ou notas de rodapé que permitam identificar os conhecidos per­sonagens dos livros anteriores. Entretanto, é possível tentar identificá-los pela análise dos perfis e de comportamentos pessoais, inerentes à personalidade de cada ser encarnado.

Tomando Rochester como exemplo, percebemos clara­mente seu orgulho e sua impetuosidade no personagem José, da obra "O Chanceler de Ferro do Antigo Egito", ou em Mer- nephtah, de "O Faraó Mernephtah", características comuns nos antigos soberanos. Como o gladiador Astartos, da obra "Episódio da Vida de Tibério", e como o patrício Caius Lucili- us, de "Herculanum", na Roma Imperial, destacam-se a vai­dade e o orgulho que sentia por sua beleza e por suas con­quistas pessoais, tendo ele inclusive se convertido e depois renegado a doutrina cristã. Já a inteligência, a perspicácia, o espírito de vingança e, mais uma vez, o orgulho, são atributos do autor espiritual no papel do personagem Lotário de Rabe­nau, fundador de uma irmandade secreta, na obra "A Abadia dos Beneditinos". Exatamente como o poeta John Wilmot, desperdiçou a vida em intrigas amorosas e se entregou à lu­xúria, desencarnando aindajovem.

Entretanto, em todas as suas etapas reencarnatórias Ro­chester sempre procurou ter senso de justiça e nunca foi perverso ou cruel. Tal era o perfil do estimado autor espiri­tual quando se dedicou à divulgação da doutrina espirita, auxiliando a tarefa de Kardec que esteve presente junto a ele em várias etapas existenciais.

Sobre a médium Vera Kryzhanovskaia também notamos traços caracteristicos e comportamentais explicitos em al­guns personagens. Extremamente orgulhosa e corajosa, mas de certa forma justa e honesta, preferiu várias vezes a morte à submissão, a exemplo do que dizia a Tibério: "Mata-me, tu não poderás fazê-lo duas vezes!"

Reencarnando como Asnath, na obra "O Chanceler de Fer­ro do Antigo Egito", como Smaragda, em "O Faraó Mer- nephtah", no papel de Lélia, em "Episódio da Vida de Tibé­rio", como Virgilia, em "Herculanum", ou Rosalinda, em "A Abadia dos Beneditinos", sempre despertou paixão em mais de um personagem, compondo um triângulo amoroso que via de regra contou com a participação de Rochester e de outro espirito considerado o verdadeiro amor de sua existência - integro, virtuoso e compreensivo conquistou sua confiança e seu coração em várias etapas evolutivas como, por exemplo, no papel de Marcus Fábius em "Herculanum". É quase certo que em "Dolores" esta sua alma gêmea tenha retornado na figura de Alfonso.

Já dentre os vilões, destacamos Tibério, personagem prin­cipal da obra "Episódio da Vida de Tibério", e Kurt de Rabe­nau, de "A Abadia dos Beneditinos". O primeiro teve uma vida repleta de conhecimentos cientificos na pele do egipcio Pine- has, de "O Faraó Mernephtah", os quais eram utilizados para satisfazer seus caprichos pessoais e sua louca paixão por Smaragda. Retornando cerca de vinte e cinco séculos depois como o Conde Hugo de Mauffen, em "A Abadia dos Benediti­nos", sua vida continuou dedicada ao prazer com requintes de crueldade, aliás, resquicios pregressos do cruel Imperador Romano.

E o segundo, espirito vil, infiel e perjuro, além de ter reen­carnado como Kurt de Rabenau, da obra "Abadia dos Benedi­tinos", também aparece como Mena, na obra "Romance de

Uma Rainha", Radamés, em "O Faraó Mernephtah" e Dafné, em "Herculanum", mostrando-se, continuamente, preguiçoso, egoísta, interesseiro e, por vezes, cruel, confiando sempre no perdão de Rochester, por cujos laços de amor está ligado, a­pesar da diferença de caráter e da distância evolutiva que os separam.

Bem, a estes "atores", cujas sucessivas vidas formaram o palco dessas grandes obras espíritas e confortaram o coração de inúmeros leitores, confessando penosamente seus erros, expondo seus mais íntimos sentimentos e retornando até hoje às experiências materiais em busca da Luz, rogamos a Deus que os ilumine nos caminhos da evolução espiritual e que tri­lhem na Paz, no Amor e em constante progresso moral.

É a eles que agradecemos e dedicamos esta edição de "Do­lores".

Antonio Rolando Lopes Júnior








Ocastelo dos condes de Mornos situava-se numa das aristo­cráticas ruas de ToledoI. Embora tivesse sido construido luxuo­samente, o palacete já apresentava lamentáveis sinais de aban­dono e depreciação, o que, aliás, era amenizado em parte pela exuberância do belo parque que se estendia por detrás dele.

Numa linda manhã primaveril de mil setecentos e setenta e dois, um grupo de crianças buliçosas brincava na areia diante de um amplo terraço sob os cuidados de um preceptor e de uma governanta. Eram quatro meninos de seis a doze anos e uma linda menina de três anos, que era o centro das brincadeiras de seus agitados coleguinhas.

Os meninos carregavam-na num carrinho; depois viravam o brinquedo de ponta-cabeça e colocavam a menina em cima dele, como se fosse num trono. Agora, ela passava a representar o papel de árbitro de um duelo e colocaria na cabeça do vencedor uma coroa de grama com flores que segurava nas mãozinhas numa cena muito engraçada.

A pequena rainha das brincadeiras infantis era Dolores, a única filha do Conde Pedro de Mornos. Ela e sua mãe eram os seus idolos, mas ele ainda tinha mais três meninos de seis, oito e dez anos que brincavam no grupo. O mais velho de todos, no entanto, era Alfonso Vasconcellos, de doze anos, filho de um amigo do Conde. As graves desavenças em farrn1ia obrigaram o pai a se separar do filho. O senhor Vasconcellos decidira se di­vorciar da mulher, que o traía sem nenhum constrangimento, o que chocava toda a sociedade, mesmo numa época de total imo­ralidade. Para livrar o menino do desagradável drama familiar, ele o deixou na casa do padrinho, o Conde de Mornos, que o es­tava criando junto com os seus há mais de dois anos.

Alfonso Vasconcellos era um menino muito bonito, sério e um tanto melancólico. Tinha atração por ciências e pela leitura e era muito amigo de Ramiro, o filho mais velho do Conde de Mornos, embora os dois tivessem temperamentos totalmente opostos. Ramiro era impulsivo, voluntarioso, irritadiço e pregui­çoso, enquanto seu amigo era assíduo, calmo e modesto.

Na brincadeira, os dois amigos duelavam com entusiasmo, usando todas as técnicas que o professor de esgrima lhes ensi­nara. Alfonso atacava segundo as regras e rebatia as investi das sem perder a calma por um só instante. Já Ramiro, estava mui­to exarcebado, desprezava todas as regras estabeleci das e logo conseguiu das armar o adversário.

Triunfante, Ramiro dirigiu-se a Dolores e, ajoelhando-se, e­xigiu seu prêmio. No entanto, a menina não se apressou em co­roar o verdadeiro vencedor. Apertando a coroa contra o peito, ela declarou que gostaria de entregá-la a Alfonso. Ramiro, en­tão, tentou arrancar a coroa das mãos de Dolores, que protes­tou gritando, mas Alfonso lançou-se em sua defesa. A briga tor­nou-se tão ruidosa, que o preceptor e a governanta tiveram de interferir.

Naquele momento, apareceu no terraço um homem ainda jo­vem, alto e bem-vestido e perguntou, descontente, o que signifi­cava aquele barulho. Ao vê-lo, as crianças ficaram quietas. Al­fonso, como o mais velho, contou o que tinha acontecido entre eles.

- Vocês não têm vergonha de fazer tanta confusão sabendo que sua mãe está com dor de cabeça? - disse o homem, que era o próprio Conde. - E você, Ramiro? É assim que segue as lições do senhor Gomez? Você luta como um bárbaro, não como um fidalgo!

Ao estabelecer a ordem, o Conde de Mornos beijou todos os filhos e, deixando o terraço, dirigiu-se ao "boudoir"I da esposa.



Algo sério preocupava dom Pedro. Ele parou, tirou do bolso uma carta e correu os olhos por ela; depois, pensativo, colocou- a de volta no bolso. Com passos leves, entrou numa pequena sala forrada com cetim cor-de-rosa. Num pequeno sofá, revesti­do de seda com estampa de flores douradas, estava deitada uma jovem mulher de penhoar branco de seda. Era uma criatu­ra maravilhosa, tenra como criança. Seus grandes olhos azuis, orlados de cilios negros, pareciam duas safiras cintilantes. Ape­nas uma terrivel palidez e uma expressão doentia ofuscavam um pouco a beleza daquele rosto.

  • Como se sente, minha querida? Passou sua dor de cabeça? - perguntou o Conde, beijando a mão da esposa com ternura e sentando-se na poltrona ao lado dela.

  • Obrigada, Pedro! Agora estou bem. A carta que recebi hoje de manhã me deixou um tanto perturbada, apenas. Por isso, quero lhe fazer um pedido.

  • Se o meu consentimento lhe satisfaz, já o tem de boa von­tade. Conte-me de que se trata - disse o marido, sorrindo ao ver que nos olhos azuis de sua mulher brilhara uma expressão de alegria e reconhecimento.

  • Oh!... meu querido, muito obrigada! - exclamou contente a Condessa. - Recebi uma carta de minha boa amiga Ximena. Seu marido faleceu sem lhe deixar nenhum meio de vida. Parentes ela também não tem. Por isso, resolveu entrar para o convento, mesmo não tendo vontade nenhuma. Pois bem, gostaria de pro­por a ela que viesse morar conosco. Apesar de ser mais velha que eu, sempre tive grande afinidade por Ximena e como agora fico doente e cansada com freqüência, ela poderia me ajudar nos cuidados da casa e na educação de Dolores. Você mesmo sabe como Ximena é inteligente e como são rigorosos os seus principios.

  • Aprovo totalmente sua intenção, minha querida, e peço que escreva a dona Ximena. O dia de hoje está realmente muito es­tranho. Também recebi uma carta, na qual me pedem para a­ceitar um novo membro em nossa familia.

  • Quem fez o pedido? - perguntou, surpresa, a Condessa.

  • Fernando. Como sabe, ele tem um filho ilegitimo que sim­plesmente idolatra e gostaria de dar-lhe uma educação decente. Enfim, ele suplica que aceitemos seu filho José, de doze anos, e que o eduquemos durante alguns anos junto com os nossos meninos.

A Condessa ergueu-se rapidamente. Um rubor cobriu seu pálido rosto.

  • Está ele em sã consciência?! Ousa pedir que eu admita o fi­lho ilegítimo de uma escrava, um negro, em companhia de mi­nhas crianças?! Não! Isso realmente ultrapassa todas as fron­teiras. Primeiro, ele nos ofendeu, recusando a mão de minha irmã; agora, quer nos impor como um igual o filho de sua con­cubina. Ouça, Pedro, me revolto e me oponho a isso categori­camente!

Uma profunda ira e verdadeiro desprezo soaram na voz da Condessa.

  • Não se altere tanto! Novamente vai lhe doer a cabeça - dis­se o Conde com um tom conciliador. - Já que isso é tão desa­gradável para você, não insisto na admissão de José em nossa família. Reconheço que é penoso para mim ofender Fernando. Pensando nele, sempre sinto remorso. Não fui eu quem lhe rou­bou a felicidade de sua vida?

Com aquelas palavras, dom Pedro apertou contra seus lábios a mão da Condessa com ternura.

  • Cada um tem de ficar no lugar que Deus lhe destinou. O lugar do pequeno mulato José é na cozinha do Conde de Mor­nos, não na sala.

O Conde não fez nenhuma objeção, conversou mais um pou­co sobre outros assuntos e saiu. Taciturno e preocupado, en­trou em seu gabinete e sentou-se ao "bureau"I.

Ao terminar de redigir, foi até a janela e entregou-se aos pensamentos. A carta do irmão trouxera-lhe mil lembranças: todo o passado, quase esquecido, avivou-se novamente. O pai de dom Pedro, Conde Rodrigo de Mornos, era um homem muito bonito e apreciava a boa vida. Louco pelo jogo e pelas aventuras amorosas, abalou bastante a grande fortuna deixada por seus antepassados; quase indo à ruína, mas um acaso o ajudou: co­nheceu uma jovem mestiça, muito rica, viúva de um fazendeiro cubano.

Dom Rodrigo era solteiro e ainda muito bonito, apesar de seus quarenta e dois anos. Sendo assim, conquistou facilmente o coração da jovem mulher e casou-se com ela.

Dona Elvira Martinez era parente distante da família de Mornos e tinha um filho de quatro anos do primeiro casamento. Seu falecido marido possuía muitas terras nas redondezas de Toledo, na Espanha, para onde ela viajou pretendendo tratar de assuntos de herança e, então, conheceu o Conde Rodrigo.

A maior parte da enorme fortuna de Martinez passara para as mãos de seu filho, o pequeno Fernando, mas a própria dona Elvira era rica o suficiente para tirar o novo marido dos apuros. Se dom Rodrigo fosse capaz de se conter, bastaria alguns anos para apagar as seqüelas de suas loucuras, mas ele continuava jogando e levando uma vida luxuosa, que excedia seus meios.

O nascimento do filho deixou o Conde muito feliz, mas não mudou seus hábitos. Os pais adoravam o pequeno Pedro e o mimavam muito. Quando ele completou vinte e um anos e Fer­nando vinte e cinco, o Conde Rodrigo contraiu tifo e faleceu. A esposa, que cuidava dele com abnegação, contagiou-se também e, alguns dias depois, seguiu o caminho do marido.

O jovem Pedro de Mornos, que adorava os pais, ficou tão a­balado que se rendeu totalmente à sua desgraça. Mas, quando a vida obrigou-o a ocupar-se dos negócios e das propriedades do pai, soube, com pavor, que em lugar de uma grande fortuna sobraram-lhe apenas terras inférteis e dividas enormes.

Ao saber das dificuldades financeiras do irmão, Fernando o­fereceu-lhe ajuda, mas Pedro a recusou.

Os irmãos sempre foram amigos, mas o amor pela mesma moça esfriou seu relacionamento. Os dois se apaixonaram por Dolores, filha de um rico fidalgo. Mas, ela preferiu Pedro, o mais bonito. Este golpe afetou fortemente Martinez, que teve uma crise nervosa e, ao se recuperar, decidiu ir morar em Cuba.

Depois da partida de Fernando, os contatos entre os irmãos tornaram-se cada vez mais raros e esfriaram completamente quando dom Pedro soube que Martinez havia se envolvido com uma de suas escravas, com quem tivera um filho, dando aos dois uma posição muito superior à condição deles. O aristocrata orgulhoso achava muito natural que Fernando tivesse uma es­crava como concubina, mas indignava-lhe a idéia de que ele tratasse aquela criatura de igual para igual e olhasse para o fi­lho dela como seu legitimo herdeiro.

O Conde, então, escreveu uma carta ao irmão cheia de cen­suras e tentava convencê-lo a criar juizo e contrair um matri­mônio decente. Com esse intuito, lhe propôs que se casasse com Bianca, a irmã mais nova de Dolores, muito parecida com ela.

Para grande surpresa do Conde e profunda indignação de sua esposa, dom Fernando recusou, terminantemente, a pro­posta, declarando que queria ficar livre, pois na pessoa do pe­queno José ele tinha um herdeiro a quem resolvera, irrevoga­velmente, dar o seu nome e a sua herança, adotando-o como filho.

Aquela carta esfriou definitivamente o relacionamento entre os irmãos. A correspondência ficou mais rara ainda; por isso, a carta com o pedido para que aceitasse o pequeno José em sua família, que chegou três anos depois de um silêncio absoluto, foi uma verdadeira surpresa para dom Pedro.

Tal resposta àquela carta não restabeleceria, é claro, o bom relacionamento. Então, a ligação entre os dois irmãos foi corta­da, definitivamente.


£

Era um dia de outono de mil setecentos e oitenta e quatro. No gabinete, onde outrora havia escrito ao irmão que se recusa­va a aceitar o pequeno José, estava recostado na poltrona o triste e meditativo Conde Pedro de Mornos. Ele acabara de fo­lhear um volumoso pacote de correspondências e de outros do­cumentos, e a leitura daqueles papéis provavelmente o havia irritado. Estava a tal ponto mergulhado em seus pensamentos, que não ouviu os passos rápidos e o tilintar de esporas. Só quando uma voz sonora disse: "Bom dia, papai!" é que ele es­tremeceu e respondeu num tom cansado:



  • É você, Ramiro? Por que voltou tão cedo?

  • Não quis mais ficar para jogar. Dei a desculpa de que não estava me sentindo bem e vim embora logo que acabaram as negociações sobre a recepção do Duque.

  • Quando chega Suzá?

  • Na próxima segunda-feira. No dia seguinte vão lhe oferecer um almoço de boas-vindas e, à noite, um grande baile. Você, é claro, participará dos festejos, papai, pois Suzá é seu amigo.

  • Na juventude, durante minha estada em Madri, eu era muito próximo do Duque. Depois, nosso relacionamento esfriou um pouco, porque Suzá também se apaixonou por sua falecida mãe. Mas, depois do casamento, nós fizemos as pazes. Desde então, nos perdemos de vista. Sei que ele é viúvo e tem um filho quase de sua idade.



  • Hoje nada se falou do filho dele. Nem sei se também viria.




  • Provavelmente não. Ouvi falar que o jovem Duque é feio e vive isolado num castelo perto de GranadaI.

De repente, instalou-se um silêncio. O jovem Conde andava pelo quarto, escrutando o pálido e sombrio rosto do pai que, novamente, mergulhara em seus pensamentos.

Ramiro de Mornos agora era um jovem de vinte e três anos, esbelto, de corpo bonito como o pai.

O silêncio do Conde o oprimia. Finalmente, Ramiro parou na frente dele e disse com irritação mal contida:


  • Diga-me, pai, que notícias você recebeu? Não estaria tão triste sem motivo.

  • O motivo é o mesmo, meu filho, exigências que não posso satisfazer. Sempre o mesmo jogo. Empréstimo para pagar a dí­vida, nova dívida para pagar o empréstimo. Só Deus sabe como poderei sair dessa miséria, à qual nos levou seu infortunado noivado.

  • Sim. A morte de Isabela foi um golpe, tanto para o meu co­ração quanto para nossos planos. Mas, não se aflija, pai! Sinto que tudo se arranjará. Agora, ouça o que quero lhe propor a respeito de Dolores.

  • Fale, o que quer dizer sobre sua irmã?

  • Está na hora de tirá-la da reclusão em que vive. Lembre-se, pai, que Dolores já tem quase dezesseis anos e já é tempo de mostrá-la à sociedade. Ela é bonita e talvez consiga um bom partido.



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