Domingo, 28 de julho de 2013



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Uma estrela em
forma de flor

Arthur Bernardes de Oliveira

2014

UMA ESTRELA EM FORMA DE FLOR
Arthur Bernardes de Oliveira
Data da publicação: 28 de julho de 2014
CAPA: Cláudia Rezende Barbeiro

REVISÃO: Astolfo Olegário de Oliveira Filho

PUBLICAÇÃO: EVOC – Editora Virtual O Consolador

Rua Senador Souza Naves, 2245

CEP 86015-430

Fone: (43) 3343-2000

www.oconsolador.com

Londrina – Estado do Paraná


Observação: A foto da capa foi feita no dia do casamento
do autor, em 28 de julho de 1957.

Dados internacionais de catalogação na publicação

Bibliotecária responsável Maria Luiza Perez CRB9/703




Oliveira, Arthur Bernardes de, 1931-.



O45e


Uma estrela em forma de flor / Arthur Bernardes de Oliveira ; revisão de Astolfo O. de Oliveira Filho ; capa Cláudia Rezende Barbeiro . - Londrina, PR : EVOC, 2014.

186 p.























1. Espiritismo. 2. Oliveira, Arthur Bernardes de, 1931- memórias. 3. Literatura espírita. I. Astolfo O. de Oliveira Filho. II. Barbeiro, Cláudia Rezende. III. Título.











CDD 133.9

19.ed.



Sumário
Explicação preliminar, 5

Dedicatória, 7

À guisa de prefácio, 8

Abrindo a sessão, 10

I - Vaivém incessante, 12

II - A primeira visão, 14

III - O primeiro vexame, 16

IV - A armadilha está pronta!, 18

V - Mas o bote falhou, 20

VI - O baile e a cerveja, 22

VII - Na dança do fogo, 24

VIII - Nem homem, nem fera, 26

IX - Singelo detalhe, 28

X - Aqui me defino, 31

XI - Vem ver a família, 33

XII - Entenda-se o termo, 41

XIII - Retrato de santa, 44

XIV - O pai é o exemplo, 57

XV - O escândalo e a fé, 62

XVI - O emprego e o Estado, 66

XVII - Nasci pra ser livre!, 73

XVIII - O impulso e a flor, 76

XIX - Não vi nada mais!, 79

XX - Guarani e os fantasmas, 82

XXI - Jarbinhas na cena, 89

XXII - O resto que humilha, 93

XXIII - Enfim, me casei!, 95

XXIV - Na lua de mel, 100

XXV - Um pouco de mim, 105

XXVI - Zé Teixa, o ator, 112

XXVII – Luiz e Borela, 118

XXVIII - Seca-bofe, o cruel, 127

XXIX - Na noite primeira, 130

XXX - Na casa marrom, 134

XXXI - Ricardo, o notável, 138

XXXII - Denise, a teimosa, 145

XXXIII - Ronaldo, o caçula, 149

XXXIV - Um médico chora, 152

XXXV - O “coitado” da Lila, 156

XXXVI - O soneto e o poeta, 161

XXXVII - A carta que não seguiu, 165

XXXVIII - Ama teus inimigos, 169

XXXIX - Retrato três por quatro, 172

XL - Peço paz para mim, 174

XLI - Boa noite, afinal!, 176

Apêndice, 177

1 - Minha mãe, 178

2 - Meu pai, 180

3 - Uma história para minhas netas, 184

Explicação preliminar
Este novo lançamento da EVOC – Editora Virtual O Consolador, de autoria de Arthur Bernardes de Oliveira, membro do Conselho Editorial da revista “O Consolador”, radicado na cidade de Guarani (MG), é uma linda história de amor e, ao mesmo tempo, um livro de memórias em que o autor relembra seus primeiros passos no campo da divulgação espírita e narra em detalhes como conheceu a jovem Elizabeth, com quem se casou em julho de 1957.

Escrito quando o autor morava na cidade de Santa Rita de Caldas (MG), o livro foi concluído há exatamente 50 anos, em 28 de julho de 1964, dia em que Arthur Bernardes de Oliveira comemorava 33 anos de idade.

Na obra, inédita até esta data, o autor traça o perfil de seus pais, Astolfo Olegário de Oliveira e Anita Borela de Oliveira, de seus irmãos e de inúmeros amigos, e menciona alguns fatos importantes do movimento espírita de sua cidade natal, a pequena Porto de Santo Antônio, hoje Astolfo Dutra (MG).

Só a leitura do capítulo XIII – Retrato de santa –, em que fala sobre a vida e a obra de sua mãe, vale pelo livro todo. Nesse capítulo, o autor lembra também um dos momentos mais comoventes desta obra, que foi a desencarnação de Anita Borela de Oliveira.

Na abertura do livro, explicando por que o escreveu, o autor fez este importante registro: “Estou fazendo hoje trinta e três anos de nascimento e sete anos de casado. É a primeira vez que passo essas datas sozinho. Minha mulher e meus filhos estão em Guarani, onde, há quarenta dias, matam a saudade dos pais, parentes e amigos. Não puderam voltar antes, apesar de quererem e eu cá fiquei só. Enquanto espero, resolvi prestar uma homenagem a quem me tem feito tão feliz. Daí estas páginas. São todas para ela. Páginas íntimas até.”

A capa do livro foi gentilmente concebida e elaborada pela artista plástica Cláudia Rezende Barbeiro, que aproveitou, para compô-la, uma foto do casamento de Arthur e Elizabeth, a “estrela em forma de flor” que Deus lhe deu para esposa.


A Direção da EVOC
Londrina, 28 de julho de 2014



Dedicatória
À Elizabeth, estrela em forma de flor que Deus me deu para esposa.
Gratidão à família:
Anita Borela de Oliveira

Astolfo Olegário de Oliveira

Marília de Dirceu de Oliveira Faria

Amaury de Oliveira

Edna de Oliveira

Marly de Oliveira

Ayres de Oliveira

Anita de Oliveira

Eunice de Oliveira

Icléa de Oliveira

Astolfo Olegário de Oliveira Filho

Ali de Oliveira


Carinho especialíssimo:
Ao irmão Amaury de Oliveira e aos filhos Ricardo, Denise e Ronaldo.



À guisa de prefácio
Leitor amigo.

No dia que a nossa EVOC lançou ao mundo o livro “Uma estrela em forma de flor”, de Arthur Bernardes de Oliveira, comecei a lê-lo e vi-me absolutamente cativo da envolvente prosa que nele desfila.(1)

Dizer que cativou-me o texto é pouco: apaixonei-me pela narração, de forma que adentrei na noite e fui até a página 74, vencido pelo sono e por meu estado de saúde, em tratamento pós-cirúrgico.

Desde então não me saíam da memória os ditos, os feitos, os fatos, as pessoas, as horas, as singularidades da vida tão simples e rica da sua família, sob a pena mágica de alguém que os descreveu com o coração.

Romântico por natureza, entendi e mentalmente vivenciei muitas das peripécias e das emoções do Arthur, o que é até normal para aqueles que aos oitenta anos, como eu, Deus permite lembranças...

E a especialidade da saudade é justamente fabricar lembranças...

É que eu também nasci e vivi até os 14 anos numa cidadezinha. Fiquei órfão de pai aos dois anos, eu caçula, e mais 6 irmãos, o mais velho com dezesseis...

Mas, o que me encantou foi o jeito tão gostoso de escrever do Arthur, que tem sabor inconfundível de verdade para quem lê.

Meu tratamento médico impediu-me de continuar a leitura. Hoje completei-a e as emoções se redobraram.

Não sei o que mais falou alto em minha alma, nesse belo livro, por sinal uma narração da Vida, real, pujante, bela e maravilhosa: se a forma como Arthur fala do pai, da mãe, dos irmãos/irmãs, mas principalmente de sua esposa — amor que iluminou-lhe a vida.

Tudo muito belo, tudo muito profundo, com a simplicidade das almas que respeitam a Deus, ao próximo e à Natureza.

Paro por aqui, porque já tomei muito do seu tempo.

Fique com Deus.
Eurípedes Kühl
Ribeirão Preto, 10 de agosto de 2014





Abrindo a sessão
Estou fazendo hoje trinta e três anos de nascimento e sete anos de casado. É a primeira vez que passo essas datas sozinho. Minha mulher e meus filhos estão em Guarani, onde, há quarenta dias, matam a saudade dos pais, parentes e amigos. Não puderam voltar antes, apesar de quererem e eu cá fiquei só.

Enquanto espero, resolvi prestar uma homenagem a quem me tem feito tão feliz. Daí estas páginas. São todas para ela. Páginas íntimas até.

Conheço todas, ou, pelo menos, quase todas as minhas deficiências. Principalmente as do estilo. Minha pena não anda, arrasta-se. O cérebro não raciocina, confunde-se. A frase não agrada, cansa. Mas, para ela, eu sou “o” escritor. E vai adorar estas coisas. Ela e meu pai. Vejo-o como a vaca de Homero a lamber sua cria.

Além da história, tentei um gesto de gratidão aos irmãos. Fica clara, em especial, minha predileção pelo Amaury, nosso caro Dico, a melhor pessoa que conheci nesta vida.

Creio que ele também gostará destas páginas.

Provavelmente o Ayres as achará o máximo, para não fugir ao exagero. O Astolfinho vai sorrir desconfiado. Aquele rapaz adora sorrir. As manas, creio, não verão muita graça nisso. E o Zé Teixa (Zé Pretinho), invejoso como é, vai censurar muita coisa. No fundo, no fundo, é por não poder fazer o que eu fiz.

Os amigos, se as lessem, provavelmente gostariam do que disse sobre eles. Os que não nos conhecem as achariam desconexas, sem gosto.

Não importa. Não foi para eles que eu disse essas coisas.

Basta-me o consolo de saber que atingi o que quis. Deliciar minha esposa e dar-lhe subsídios para as histórias que conta aos meus filhos. E cumprir um dever. O de mostrar que também sei ser grato.
Arthur Bernardes de Oliveira
Santa Rita de Caldas, 28 de julho de 1964

I – Vaivém incessante
Em 1955, eu já era um moço cansado. Cansado e insatisfeito. Sentia-me um ser à procura de alguma coisa. É provável que eu não soubesse bem, então, a coisa que eu procurava.

Saído do colégio de Cataguases, no segundo ano do curso clássico em 1950, enfrentei o Rio de Janeiro para concluir o curso e cumprir um contrato como jogador de futebol do América F. C.

Já pelos tropeços da carreira, já pelos apertos na grande cidade, o ano de 1951 foi de muito desgaste. Não tive outra alternativa senão voltar para Astolfo Dutra em 1952, com uma aliança no dedo.

De Astolfo Dutra para Garça, no Estado de São Paulo, depois de um ano de algumas decepções.

Em Garça tentaria, ainda como profissional de futebol, refazer meus planos e recuperar energias para iniciar a reconstrução de minha vida.

Amigado com uma prostituta, de quem guardo as melhores recordações, vi escoar mais um ano, 1953, sem se confirmarem as esperanças que eu tanto acalentara.

O ano seguinte me leva de volta a Astolfo Dutra. Estava fundado o Ginásio Municipal Astolfo Dutra e, como professor, talvez pudesse estabilizar-me afinal.

O ginásio fora um conto do vigário Ernane Rodrigues.

Os aborrecimentos que o nefasto estabelecimento nos trouxe, sabemos bem Deus, o Sr. Jarbas e eu.

Chegara o fim do ano de 1954 e apesar da colocação estadual, que fazia pressupor um princípio de estabilidade, eu, na verdade, continuava instável.

Minha diversão eram os livros e confesso que em nenhuma outra fase da vida pude aprender tanto.

A entrada de 1955 se deu como tantas outras: melancolicamente. Mal poderia eu supor que aquele ano iria definir, realmente, o rumo de minha vida.



II – A primeira visão
Em 13 de maio de 1955, acompanhei uma caravana de espíritas à cidade de Guarani.

Íamos abrir, com a palestra do Astolfo Olegário, mais uma semana da mocidade espírita daquela terra.

Antes da reunião (nós chegáramos bem cedo, a fim de passar lá o dia todo) Laerte me fala de uma poesia apresentada no programa “Balança, mas não cai”, sobre as mães, e que fizera muito sucesso. Tratava-se de “Homenagem ao Dia das Mães”, de Ghiaroni, lida pelo radioator Paulo Gracindo, na sexta-feira última.

Pedi-lhe a cópia e ambos fomos aproveitar uma máquina de escrever de D. Elza Baesso, líder do movimento espírita de Guarani.

Ao entrarmos, fui apresentado ligeiramente a uma mocinha, filha da casa, na sala de visitas. Lembro-me como se fosse hoje. Estava vestida com uma roupa modesta, de listinhas suaves. Vestido caseiro.

Confesso que não a achei bonita, mas uma coisa a marcou lá dentro de mim, gostando daquela apresentação.

Fomos para o armazém, onde estaria a máquina, e lá voltei a ver aquela menina, rapidamente, já que ela nos fora levar o caderno em que estava copiada a poesia que queríamos.

Depois... não me lembro de mais nada. Sei que voltamos para casa, depois de um dia feliz, levando conosco a boa impressão produzida pela palestra do Sr. Astolfo e a satisfação das boas horas passadas com aquela gente amiga.

De nada mais me lembro daquele domingo distante. Lembro-me, no entanto, muito bem, do que se passou, ainda em Guarani, quinze dias depois.

III – O primeiro vexame
Meu pai fizera em Guarani propaganda de minha “habilidade” oratória! Eu estava começando a falar nas reuniões espíritas e não podia, como reconheço não poder até hoje, assumir compromissos de palestras espíritas com ninguém.

Mas ele tanto falou que não houve outro jeito para os diretores espíritas de Guarani senão me convidarem para falar lá também.

O Lilito (Miguel Guércio Filho) estava iniciando, com muito entusiasmo, carreira de fotógrafo amador. Grande amigo meu, e aluno bastante amigo do professor, quis acompanhar-me, de máquina a tiracolo, até lá, a fim de tirar daquela cidade algumas fotos.

A mocinha do vestido caseiro, na presidência dos trabalhos, estava linda.

Não sei se conseguiria reproduzir o que vi. Sempre fui péssimo observador. Principalmente no que se refere à roupa. Mas eu me lembro de um casaco curto, branco. A saia, parece-me que era preta. O cabelo, rabo-de-cavalo. Não vi mais nada. Apenas aquele rabo-de-cavalo bailando à minha frente.

Nem sei o que, afinal, andei falando por lá. Provavelmente terei decepcionado, já que me assentei muito antes do que deveria, em face do que eu havia preparado para falar.

Tinha programado falar sobre a educação do jovem, em face das infelicidades sociais. Ou melhor: a influência da educação na construção da felicidade.

A ideia surgira da leitura de um livrinho interessante de Arthur Riedel.

Esse professor fundara a célebre escola do “Hei de Vencer” (título do livrinho) cujos ensinamentos, ressalvados os exageros, produziam bons resultados.

Lembro-me de que a minha participação naquela tarde fora desnorteadora, pelo que deduzi das palavras de tia Elza:

“O Arthur falou tão pouco que nossa reunião acabará mais cedo. Na esperança de que ele preenchesse o horário, não tínhamos organizado outros números para o programa”.

Lá fora, a buzina insistente do carro do Chiquinho (Francisco Defilippo) insistia em dizer que eu estava demorando.

Cá dentro, aquele imenso rabo-de-cavalo bailando na minha frente e confundindo as minhas ideias.

IV – A armadilha está pronta!
Terminada a reunião, na qual ouvira uma prece muito longa do seu Juca, e uma fala muito curta de minha mãe (espírito), pela D. Cotinha, saí suando do centro.

Não sei se os ouvidos estavam suando também. Não tive tempo para reparar nisso. Mas senti que estavam todos desafogados. Finalmente eu tinha parado de falar.

Os moços, mais rápidos, deixaram a casa e rumaram para o cinema ou para as namoradas. Os velhos, aos poucos, calmos, se levantavam vagarosamente das cadeiras e respiravam aliviados.

Entrei no carro, mas senti que estava amarrado. Fios de cabelo envolviam-me todo o corpo. Uma mecha mais grossa, tipo trança, enforcava o pescoço.

No dia seguinte, acordei mais tranquilo. Até pude pensar um pouco sobre o vexame da véspera. Censurara meu pai pela propaganda indevida, censurara o Chiquinho pela buzina insistente, censurara ter aceitado o convite, tão fora de tempo ainda, censurara por fim aquele imenso rabo-de-cavalo que puseram na mesa, justamente ao meu lado.

Levantei-me decidido a uma coisa: Vou namorar aquela moça!

No domingo seguinte, creio que 15 de junho, voltei a Guarani. Estava disputando o campeonato regional por um dos times de lá, o Guarani F. C.

Ao me dirigir para a mesa a fim de assinar a súmula do jogo, passei pela moça e com uma indiferença mal disfarçada cumprimentei-a educadamente.

E, pensei cá comigo, está dado o primeiro passo.

Joguei, jogamos, todos jogaram. Voltei, voltamos, todos voltaram. Só que não me senti muito perto da vitória.

Passei a achar que a minha técnica estava ultrapassada. Só que eu já não poderia aprender técnica nova. Foi aí que surgiu a ideia. No domingo seguinte, minto, dois domingos depois, dia 7 de julho, haveria um grande baile no Clube dos Repentinos.

A armadilha estava pronta. Bastava o bote.



V - Mas o bote falhou
Mas o bote redundou no mais desastroso fracasso.

E é bom que se analise bem o que isso representava. Porque outra coisa não tenho feito, nesta vida, senão colecionar fracassos.

Eu provaria, facilmente, isso, não fosse fugir ao espírito dessa brincadeira narrada. Mas vale a sinceridade da afirmação: – Tenho sido, pelo menos fui, durante muito tempo, o mais completo colecionador de fracassos pessoais, nestas terras das Alterosas.

Mas continuemos.

Aluguei um carro, vesti o meu terno, o único, o solitário, nem muito bom, nem muito novo, mas com a grande vantagem de ser o único.

Aqui eu interrompo para uma divagação importante.

Vesti meu primeiro terno quando terminei o curso ginasial, em 1948. Estava com 17 anos. O primeiro sapato também não fazia muito tempo. Basta dizer que o calçado que me levou ao colégio em 1945 era uma chuteira velha, dada não sei por quem.

É tão importante isso que o primeiro depois foi substituído pelo único. Quando, em 1953, fui estabelecer-me em Garça, meu mano Amaury, acho que acanhado com a apresentação do irmão, e com o frio da terra, mandou-me fazer dois ternos. Para não fugir à predestinação, só um serviu. O outro ficou curto demais.

De lá para cá, não sei se por capricho ou por preguiça, o certo é que não me importei mais com roupa.

Basta dizer que, estando hoje em melhor situação do que antes, os dois ternos que tenho me foram dados: um pelo Ayres, outro pelo Simonini.

Mas vesti o meu terno, e lá fomos, Jadinha (Jáder Pacheco) e eu, rumo ao baile de Guarani. Estava absolutamente certo de que o pássaro estaria na mão. Daquele rabo, alguns fios voltariam comigo, presos na palma de minha mão.

Entramos e fomos para uma mesa lá no fundo do salão, à direita de quem entra. Parece-me que era a última mesa. Atrás de nós, apenas a porta que conduz as garotas para o reservado que foi feito para os retoques de maquilagem, mas que elas transformaram em sala de fumar.



VI – O baile e a cerveja
O garçom nos viera anunciar que, sem saber por quê, a geladeira tinha parado de funcionar e que as bebidas, portanto, não estavam geladas.

A noite estava fria e resolvemos arriscar a cerveja quente mesmo. Nada mais desagradável... Aquela coisa choca engrossando na garganta e deixando um pigarro que até hoje não desapareceu.

A mão no copo e os olhos na sala. Eu tinha dezesseis olhos cravados no salão. Com os dois do colega, que sabia do meu plano, eram dezoito olhos à procura de alguém.

A orquestra tocava um bolero. Mais outro. Outro mais. E a turma dançando. E a noite passando. E eu sem ver nada.

Carminha (Maria Carmem, futura cunhada) não perdia uma volta, mas e a irmã? João Velho me tinha dito que ambas não perdiam os bailes. Que dançavam por instinto e vocação. Mas a irmã não veio!

Finalmente a orquestra parou. Os pares se separaram e o salão ficou vazio.

Foi aí que o choque me pegou. Lá no canto oposto, em diagonal com a minha mesa estava ela. Mas não estava só.

Iniciara justamente naquele dia o namoro agourento. E o cabra não dançava. E ambos, compenetrados, do canto da sala, dominando o mundo e o tempo.

– Garçom, outra cerveja!

E bebemos a noite inteira. Cerveja quente, mas que ficou gostosa.

Na volta para casa, lembro-me bem do Jadinha sorrindo e gozando sem parar. E perguntava, para ele mesmo responder, em meio a gargalhadas:

– Que fomos fazer em Guarani?

– Beber cerveja quente. Pra isso não precisávamos ter ido a baile, e a baile fora. Bastava o bar do Zoroastro.

E eu mudo, também sorrindo, tecia novos planos para o assalto final.




VII – Na dança do fogo
A nossa Semana Espírita de 1955 começaria no dia 14 de julho, isto é, exatamente sete dias depois da cerveja quente de Guarani.

Já ouvira, pela Lila, que de Guarani viriam umas mocinhas ajudar na programação noturna. E que passariam conosco toda a semana. E que chegariam no domingo. E que entre elas estava Elizabeth.

Pensei cá comigo: aqui acertaremos as contas.

Eu tinha contra mim sete dias de namoro. Mas tinha a meu favor sete dias de reuniões. O negócio era matar nos meus sete dias a influência dos outros sete.

E isso foi fácil.

No domingo inicial, dia 14, uma brincadeira no nosso clube. Lá estivemos e eu comecei o meu jogo. Na segunda já estávamos namorando.

É bem verdade que houve por parte de algumas venerandas irmãs uma intromissão um pouco perturbadora. Definiam-me como um embrulhão e, embora de mim gostassem, temiam pelo namoro.

De meu lado o poeta Sebastião Lasneau e sua esposa D. Olívia.

E mais que todos a minha decidida vontade de construir uma vida.

Foram dias e noites de agradáveis recordações.

Lembra-me muito o Armando Falconi com a sua clarineta. No fundo do palco, ele fez a proposta:

– Se eu agradar, vocês serão felizes. Se eu tocar mal, o namoro de vocês não dará certo.

E tocou como nunca. Depois ele mesmo me confessou que pusera na execução toda a perícia e a alma do artista.

Supersticioso, temia que por imperícia dele morresse tão cedo uma afeição tão fortemente nascida.

Lamento não ter a minha memória fixado com nitidez todas aquelas horas – as nossas primeiras horas –, as horas decisivas que serviriam para selar, definitivamente, o rumo dos nossos destinos.

É que, para provar uma vez mais a validade da sabedoria popular, nós só nos lembramos das horas em que sofremos. As boas horas, as horas felizes, quase não deixam marcas na nossa lembrança.




VIII – Nem homem, nem fera
Terminara a reunião da terça-feira. Deviam ser dez horas da noite. Todos pegaram o caminho de casa.

Descemos juntos para o repouso final. Elizabeth estava hospedada na casa da Lila e nós tínhamos seguramente um quilômetro de caminhada.

Mãos unidas timidamente, ameaçados pelos olhares bisbilhoteiros de sempre, lá íamos descendo a rua, esquecidos de tudo.

Lembro-me de que eu era apenas silêncio. Nada dizia, porque só uma coisa pensava. Agarrá-la freneticamente e apertá-la estupidamente, apertá-la até que seu corpo entrasse para dentro do meu e se misturassem as células, e o sangue, e as almas.

Os passos surdos marcavam na poeira da estrada a agitação dos meus sentimentos.

Era aquele corpo o que, na agitação de minhas noites indormidas, eu idealizara para mim. Aqueles seios, aqueles olhos, aquela boca, aqueles cabelos, aquelas pernas que eu sonhara possuir um dia.

Até hoje não sei o que segurou meu impulso. Às vezes, assaltava-me um súbito desejo de agarrá-la e com ela fugir, correndo de todos, para, no silêncio de nossa solidão, afogarmo-nos um nos carinhos do outro e, beijando, morrer.

– Chegamos!

– Interessante, disse eu, nem tinha notado.

E realmente não tinha notado que já atra-vessáramos o fundão e tínhamos os pés na entrada da porta.

Eu era um possesso.

Ela, na ingenuidade de seus dezessete anos, nem parou para nos despedirmos. Deu boa-noite e sumiu pela casa adentro.

E eu, fervendo de desejos, me deixei arrastar até minha casa.

Foi a noite mais intranquila que já passei.

O sono não vinha. Porque em mim só havia uma presença, que a tudo afugentava. A daquele corpo, que eu quis beijar, apertar, triturar, amassar, e que não pude.

Rolei na cama até a madrugada. Uma legião de serpentes me enroscavam o corpo. E no ferver de meus olhos acesos, vi surgir, desligando-se do teto e se pondo bem ao alcance de minhas mãos, um vulto de mulher. Firmei os olhos. Estava nua. Linda! Era ela. Avancei para agarrá-la. A visão sumiu. Abri bem os olhos.

Na sala o relógio bateu duas horas.

Sobressaltado, voltei a deitar-me e dormi.




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