Domingo, 28 de julho de 2013



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IX – Singelo detalhe
Esqueci-me de um detalhe, cuja influência na realização do meu objetivo até hoje não pude analisar bem.

Mas eu explico.

Pela primeira vez na vida, eu sentia dificuldades sérias em começar a conversa. Já afirmei que a minha técnica primitiva fora abandonada. Aquela indiferença disfarçada de que falei, aliada a uma prosa irresistível, já não funcionava com a mesma capacidade de antes. Desarvorado, porque não conhecia outro processo senão aquele, fiquei no ar. Mudo e quedo na solidão do infinito como, poeticamente, sentenciaria o inigualável poeta português.

E a minha mudez se transformou, parece-me, em bobice.

Só isso explicaria os sorrisos e deboches que depois ouvi da Lila e, até hoje, ouço de minha esposa.

É certo que fosse bobice, nascida de uma timidez sem controle.

Eu compreendo. Estava entre duas espadas. Ou melhor, entre uma certeza e uma dúvida.

A certeza de que não poderia perder aquela mulher. Perdê-la seria para mim a última derrota. Era isso o que eu pensava então. E não mudei de ideia, neste dia, em que comemoramos o nosso sétimo aniversário de casamento.

A dúvida: Não tinha muita confiança no meu sucesso.

Creio que todos os homens, quando precisam de uma vitória, passam por isso. O medo de perder, inevitavelmente, perturba a confiança.

Aí entra o detalhe.

Eu tinha um retratinho de que até hoje gosto muito.

Como toda gente, ao se julgar, eu me achava um rapaz bonito. Hoje, não tenho mais muitas ilusões a esse respeito. Mas na época, eu tinha.

É interessante esse problema da beleza. Nunca vi ninguém que, realmente, se julgasse feio. No fundo, todos descobrem em si traços que encantam, ou que agradam.

Nada mais natural, porque o conceito de beleza não é universal. A beleza, segundo entendo, não está nas coisas, mas nos olhos que as observam. Só isso justificaria a grande diversidade de gosto. Só por isso se diz que, em matéria de gosto e de cores, não se discute.

E a sabedoria popular acrescentou: “Quem ama o feio, bonito lhe parece.”

É evidente que este conceito não anula certas belezas que eu reputo universais. Sei que existem, mas são poucas.

O que não é pouco é que o conceito de belo é bastante pessoal.

Mas eu me achava bonito. E estava em boa companhia, porque minha mãe também achava.

Então, que fiz? Pedi à minha irmã Anita que entregasse à mocinha aquele meu retrato. Pensei cá comigo: – Ela vai analisar, vai me achar bonito, e o trabalho fica facilitado.

De qualquer forma isso que me parece bobice, ou ingenuidade, sei lá, serviu para me dar mais força.

Tanto que, algumas horas depois, cheguei a ela e disse:

– Preciso falar com você. Se você quiser nós subiremos juntos!

X – Aqui me defino
A subida seria para o reabastecimento espiritual.

Os habituados às semanas espíritas conhecem este tipo de reunião. São reuniões matinais, que realizamos, quase sempre, ao ar livre, para, aberto o evangelho ao acaso, estudarmos e meditarmos sobre a mensagem do dia.

Os que desejarem poderão, em tempo curto, em geral três a cinco minutos, emitir sua opinião e tecer comentários sobre o ponto lido.

Terminados os comentários, um espírita mais experimentado faz o que nós chamamos de reajustamento, coordenando as opiniões, desbastando as arestas ocasionais e resumindo a essência da lição.

Seguem-se números de cantos e de poesias, e logo após a prece de encerramento.

Subimos para o reabastecimento espiritual.

E no caminho eu lhe disse mais ou menos isto:

“Não sei se você já me conhece bem. É provável que já me conheça mal.

Tenho sido até aqui, Elizabeth, um moço marcado por desvios.

Embora seja bom, no fundo, a vida me tem obrigado a inúmeros papelões.

De mim se pode dizer com justiça ser o próprio vício que não cede.

Todos os pais se atemorizam quando me aproximo de suas filhas.

Não pelo que lhes possa fazer, quanto à dignidade ou quanto à honra, mas pela minha absoluta incapacidade para o amor.

Tenho, talvez, uma única virtude: embora não me preocupe muito em que me façam feliz, tenho capacidade plena de fazer felizes aqueles a quem amo.

Acho que a farei feliz, por isso.

Pois bem, analisando profundamente a minha vida, nesse ano e meio de meditações em Astolfo Dutra, cheguei a uma conclusão inevitável: preciso de alguém para viver comigo; preciso casar-me, e casar-me logo.

De modo que você foi a escolhida: aceita casar-se comigo?”

Uma pergunta assim, de supetão, para uma menina é um caso muito sério. Sobretudo nessa fase em que a menina só pensa em coisas fúteis. Bailes, esportes, diversões, gozar a beleza da juventude mal surgida.

Ela emudeceu compenetrada.

E apenas disse: “Vamos tentar, não é?”







XI – Vem ver a família
Já estávamos chegando ao Asilo(1). Meu cunhado Walter veio ao nosso encontro. Esse cunhado, pela identidade que nos aproxima, é mais do que um irmão. Casado com a Edna, às vezes eu me surpreendo na dúvida: quem é o irmão, quem é o cunhado? Penso que a natureza enganou-se. Na hora de nascer, trocou as crianças.

Não é que eu não goste de minha irmã. Absolutamente. É das irmãs a de quem gosto mais enternecidamente.

E aqui, por justiça, abro um parêntese. Talvez desnecessário. Mas já que estamos conversando, e a noite ainda é nova, não custa dizer.

Somos, ao todo, onze irmãos: cinco homens e seis mulheres. As irmãs-mulheres já estão casadas. Todas. A mais velha, a Lila, casou-se com o vereador mais novo do País: Waldemiro Correa de Faria.

O Waldemiro é um tipo caladão, mas bom sujeito. Talvez um pouco posudo demais. Por princípio. Metido na política desde cedo, apurou seu senso de apresentação e dele não se afastou jamais.

Não tem nenhum curso. Interrompeu o ginasial, na segunda série, mas continuou estudando sozinho. Leitor paciente, muito observador, conseguiu acumular cultura e representa bem na vida o seu papel. Lecionou francês e taquigrafia na Escola Comercial de Astolfo Dutra e é uma bela pena. Talvez morosa demais. Muito presa à perfeição da forma, o que o impede de produzir muito. Nascido para a literatura ou para a burocracia, que no fundo se assemelham, não tem tido muito sucesso no comércio. O que o leva a dizer, de vez em quando, brincando, é certo: “Cunhado, todo bom artista é péssimo comerciante”.

A segunda irmã é a Edna, casada com o Walter. Walter de Oliveira: o mais simpático dos oito filhos do velho Pedro Relojoeiro. O mais simpático e o melhor. Coração intensamente amoroso. Eu diria que o Walter é um imenso coração em forma de homem.

Alegre, brincalhão, jovial, amigo, o que ele tem é dos outros. E é justamente esse desprendimento que não lhe permitiu fazer fortuna para dispor de melhor conforto. Sempre preocupado com os outros, o que ganha como viajante vai se dissolvendo em favor dos outros. Não reclama, não recrimina, não discute, não acusa ninguém. Continua imperturbável sua marcha em torno de bem.

A terceira irmã é a Marly, casada com um moço de Guiricema (MG), que apareceu em Astolfo Dutra com um botequim nas costas: o Braz Parreira. Também bom, mas um pouco viciado no jogo de cartas. Têm os dois passado momentos de muita dificuldade. Seja pelas dificuldades financeiras, seja pelos sucessivos casos de doença nos filhos e nos dois.

A quarta irmã, a morena da família, a mais compenetrada de todas, no dizer do pai Astolfo, é a Anita, que herdou o nome e, alguns dizem, as virtudes da mãe.

Casou-se com um moço de Astolfo Dutra, José Jésus Cazetta, e, ambos muito novinhos, foram assentar praça na longínqua cidade de São José do Rio Preto. Não sei bem o que andam fazendo por lá. Mas a julgar-se pelo que se ouve e pelas virtudes de ambos, conquistaram a grande cidade, e seguem uma vida de felicidade capitalizada. São ambos excelentes. Particularmente, acho o marido um pouco melhor que a esposa. E se disse que a esposa é excelente, estarei fazendo justiça ao grande cunhado que é o Jésus. Filho amoroso e pai exemplar. Viajante excelente e cidadão ainda melhor. Vai vivendo uma bela vida.

As duas últimas irmãs, Eunice e Icléa, que considero as mais bonitas da família, casaram-se há pouco, quase no mesmo dia, respectivamente, com Adilson Antônio Cazetta, irmão de outro cunhado, o Jésus, e Francisco Schettini – mais conhecido pelo apelido de Pantera.

O primeiro casal está em Astolfo Dutra, no gozo de sua lua de mel, e o segundo localizou-se em Leopoldina, onde os ventos de Cupido, parece, lhe fizeram bem. Levam vida modesta, apertada, mas feliz, que é o que interessa.

Ah, meus irmãos! Você nem queira saber o que são eles! Para resumir: não conheço nem dentro, nem fora da família, gente melhor. Eu quero que você também os conheça. Não faltará oportunidade. Verá, por você mesmo, que tudo o que digo é pouco, embora absolutamente correto.

Tenho, até hoje, dificuldades em dizer, dos quatro, quem é o melhor; qual deles, o mais inteligente.

Creio que os que não pertencem à família não têm dificuldades nessa indicação. Sobretudo, quanto à inteligência, porque confundem maior soma de conhecimentos ou de cultura com inteligência pura, inteligência isolada. Nem sempre a cultura maior ou menor representa maior ou menor inteligência. A cultura depende mais de oportunidade e esforço do que de inteligência em si.

Acho que os de fora, por isso mesmo, me apontariam como o mais inteligente, porque na realidade sou o que leu mais. Nem mesmo a vaidade me permitiria concordar com isso. Nem se trata de falsa modéstia.

Diz o Amaury que o melhor é o Ayres. Amaury é o mais velho. Eu sou o segundo. O Ayres é o terceiro. Seguem depois o Astolfinho e o Ali, que é o caçula.(2) A caçulíssima não chegou a nascer. No oitavo mês acompanhou minha mãe naquela dura segunda-feira de maio (dia 8) de 1950.

Já o Ayres e o Astolfinho votariam no Amaury. E eu também. Não nos preocupamos com esse tipo de comparação. Cito-o, apenas, porque por diversas vezes tenho ouvido opiniões a esse respeito.

Para ver bem como são os meus irmãos, eu que me julgo bom, por nenhum deles sou considerado nem mesmo o terceiro. Porque há um, o Astolfinho, que vem logo depois dos dois primeiros, ou vem na cabeceira com eles.

E é aqui que eu lamento demais a minha incapacidade. Gostaria de escrever detalhadamente sobre cada um deles. Capacidade não me faltasse e surgiriam desta pobre máquina quatro grossos volumes aos quais se poderia dar o mesmo título: “De como ser bom vivendo--se apenas para o bem”.

O ideal seria que você nos visse conversando. Para nós não há nem hora, nem lugar. Nem assunto preestabelecido. Quase sempre o assunto é um só: os problemas da família, do Asilo, dos amigos, com leves infiltrações no terreno da política.

Na política nós nos dividimos: eu e Astolfinho, mocinho de inteligência fulgurante, segundo quase todos nós, o mais inteligente da família, com decidida posição nacionalista. Nacionalismo que alguns costumam confundir com extremismo. O Amaury, acompanhando meu pai, do lado oposto. Não creio na sinceridade da sua posição. Acho-o mais preocupado com o debate do que com a política em si. O Ayres não tem lá uma posição bem definida. Começa agora a se orientar melhor e luta entre dois caminhos: seguir, como bom filho, a orientação do pai ou acompanhar os dois irmãos que não veem nos partidos dominantes a solução para os nossos problemas. O Ali, novinho ainda, não se mete nessa cumbuca. Está se formando ainda. Terminando este ano o curso de contabilidade, já com excelente bagagem literária, porque lê muito.

Quando os irmãos se juntam a vida se renova.

Quantas noites passamos juntos sem perceber, em recordações e debates memoráveis.

Os planos do Amaury... Qual! Só encostando estas teclas. Falaria a vida inteira sobre os planos do Amaury. Planos fabulosos e irrealizáveis, quase todos, mas sempre belos, puros, fulgurantes.

A pureza de seus ideais! A preocupação obsessiva com todos, indagando, perquirindo, analisando, bisbilhotando, para descobrir necessidades, e supri-las com a sua bondade.

A ingenuidade do Ayres. Ingenuidade que lhe deu o título de “o exagerado”. Uma carta do Ayres é um monte de exageros. Uma notícia simples assume caráter de catástrofe. A sala treme, as cadeiras se assustam quando ele traz uma notícia nova. Ele todo é circunspeção. Os olhos se esbugalham. O coração para. O rosto se comprime. E lá vem o tufão.

Não me esqueço nunca de nosso reencontro em Caldas. O Ayres quase me matou na hora. Ao vir para o Sul, tinha deixado no hospital minha irmã Lila, com a segunda ou terceira operação de cesariana. Lá passei na manhã do dia 5, vindo para cá, e com os olhos molhados, fazendo força para sorrir, ela me deu um abraço e não disse mais nada. Se a emoção lhe deixasse, ela me teria dito: “Boa viagem, e seja feliz!”

O nó na garganta que a despedida me pôs só se foi dissipar duas horas depois, quando o cafezinho de Areal empurrou-o para baixo.

Pois bem, lá tinha ficado a Lila, curtindo as amarguras de um restabelecimento já difícil. De modo que, ao ver o Ayres entrar pela porta do Hotel Magalhães, minha primeira pergunta foi sobre ela.

E ele:


– Aconteceu uma coisa horrível!

Quase caí. A garfada que tinha posto na boca (eu estava almoçando) cresceu estupidamente e formou o maior bolo que até hoje comi.

– Uma coisa horrível!

Aquele horrível estourou como uma bomba na minha cabeça. O coração disparou. Todos pararam. Luizinho e Dr. Paulo, Juiz de Direito, que conosco comia, ficaram estupefatos. Aguardando a notícia terrível.

E o Ayres respirou fundo. Mastigou uma golfada de ar. E serenamente, naquela fisionomia de trágico, deu a notícia.

O horrível é que o Waldemiro a tinha levado para casa, antes mesmo de uma melhor recuperação, e alguns pontos se haviam rompido. Mas já estava melhor e fora de perigo. Graças a Deus! Mas quase morri!

Não, não pense que, por vivermos juntos, já nos devíamos ter acostumado com o Ayres. O Ayres é como o frio desta região. A gente não se acostuma com ele nunca. Por mais prevenidos que estejamos, por mais força que façamos, por maior que seja o desinteresse com que o ouvimos, tudo se desboroa ante as suas notícias. O homem é o próprio trágico ao nos contar uma coisa.

Já incluí nas minhas preces noturnas um pedido pessoal: “Livra-me, Senhor, das notícias do Ayres!”

O Astolfinho é a responsabilidade em pessoa. Desde cedo, desde novinho, notamos isso. Nunca tivemos com ele o menor problema. Do grupo escolar à faculdade foi sempre o primeiro da classe. Responsabilidade e personalidade. De pontos de vista muito firmes. Por isso pensa bem. Pensa bem para não precisar mudar. Nada o segura quando o coração lhe ordena alguma coisa. De empregos ótimos tem saído, sem se esquecer nunca do inevitável aviso-prévio, a fim de seguir o seu destino.

Dono de inteligência fantástica, no início deste mesmo ano enfrentou o concurso do Banco do Brasil e foi aprovado com extrema facilidade.

Certa vez, estudante em Astolfo Dutra, fundou, a expensas dele mesmo, um jornalzinho de crítica social – “O Veneno”, periódico mensal do Grêmio Literário por ele presidido. Astolfo Dutra quase lhe caiu sobre a cabeça.

Não me esqueço de seu entrevero com D. Zica e D. Isinha. “O Veneno” tinha publicado algumas coisas sobre Sueli e Ana, filhas das duas cidadãs acima nomeadas. Foi um “Deus nos acuda!” E as mães se dirigiram até o Colégio para acertar as contas com ele. E ao clamor de tantas vozes e de tantas ameaças, uma coisa ele disse que eu jamais esquecerei:

– O problema é de suas filhas. Elas dão o assunto. Eu relato. Façam com que elas não deem motivo. Porque, senão continuarei escrevendo.

Do Ali, pouco ainda se pode dizer. É inteligente, mas meio malandrão. É verdade que o emprego o sacrifica muito. Quase não lhe sobram horas para o estudo. E a par disso a sua inevitável queda pelo twist e outras barbaridades que a mocidade deste país passou a copiar dos jovens americanos, a título de juventude transviada.

É leitor assíduo e bom frequentador de cinema. Gosta de música clássica e não se dá bem com os esportes. Escreve corretamente e tem bastante inspiração. Do que poderão surgir bons trabalhos quando sua vida estiver estabilizada.

Já sei. Você quer saber um pouco do meu pai. Então vamos até a figura curiosa de meu pai.




XII – Entenda-se o termo

Não vou falar de meu pai sem antes lhe dizer um pouco sobre a minha mãe. Mas antes disso, é preciso que justifique uma expressão, corrigindo o que poderia parecer uma injustiça.

Referindo-me à Lila, minha irmã mais velha, parece-me que eu disse “irmã-jararaca”. E é aí que eu preciso explicar.

Particularmente, acho que a Lila gosta muito de mim. E que por muito gostar ela se deixou dominar um pouco pelo ciúme. Não sei se minha observação estará certa. Ninguém conhece ninguém. Sobretudo ninguém tem o poder de sondar os refolhos das almas alheias. Mas, de qualquer modo, é uma observação.

Por gostar muito de mim, quase nunca gostava de minhas namoradas. Às vezes, ela tinha uma grande amiga. Eu passava a namorar a sua amiga. Então a amiga deixava de ser. E uma infinidade de defeitos eram apontados. Brigávamos. A amizade antiga voltava a florescer, para não se desfazer jamais.

Já fui noivo de outra moça. Quando noivos, não eram bons os olhos da mana a observar minha noiva. Rompemos. Hoje a minha ex-noiva é a mais virtuosa e boa das mulheres, para ela, é claro.

Com a minha própria esposa o caso se repetiu. Você sabe que foi em sua casa que começamos a namorar. Pois bem: como com ela me casei, até hoje as duas não se dão lá muito bem.

A Lila foi assim uma segunda mãe que eu tive. Era quem cuidava de minhas roupas, de minhas amizades, de minha comida. Até dinheiro por diversas vezes chegou a colocar em meu bolso. Lembro-me de que em Garça recebi pelo correio num envelope lacrado uma nota de mil cruzeiros. Ela soubera que as coisas não iam muito bem para o meu lado e me mandou o dinheiro da passagem.

Foi sempre assim. Mas por muito nos amarmos, muito nos encrencamos. De modo que dos trinta e tantos anos de convivência, creio que por uns quinze ficamos sem conversar. Não assim continuamente. Intercaladamente. Dois meses de bem, dois meses de mal. E assim sucessivamente.

Mas é dona de um coração admirável. Boa como uma pomba, embora brava como uma onça. E um pouco mal-educada. Embora digam alguns tratar-se de franqueza.

Como eu não distingo a franqueza da falta de educação, fico com o meu ponto de vista.

É voluntariosa. E tremendamente impulsiva. É desses tipos que não pode deixar para o minuto seguinte o que entendeu de fazer agora. E doa a quem doer.

Não pode ser contrariada. Seus pontos de vista não admitem contestação. É ela quem está sempre certa. E pronto!

Como eu sou um mau psicólogo e, mais que isso, um distraído, quase sempre fugia de suas graças. Uma palavra mal dita, um gesto suspeito, uma opinião escapulida, e pronto. Estava consumada a tragédia. E lá ficava eu dois ou três meses sem o sorriso da irmã.

Quando cruzávamos um pelo outro era o Everest em face do Bandeira. Uma atmosfera pesada a se tornar mais compacta. Sobre o chão que pisávamos nos nossos encontros ocasionais, diziam os observadores mais jocosos, não nasceria capim.

Claro que eram só aparências de ira. No fundo os dois corações, moles como manteiga, se trocavam ternuras.

E a vida continuava. De modo que a expressão usada não define a mulher. Trata-se apenas de uma brincadeira em família, sem maiores preocupações no definir.

Feito o remendo, veja quem foi minha mãe.



XIII – Retrato de santa
Ali está o retrato. Dependurado sobre a cama de meus filhinhos para proteger o encantamento de seus sonhos. Não sei se você a acha bonita. Sou suspeito neste caso. Porque quando olho seu rosto eu não vejo a mulher. É a santa que se desprende do quadro e vem me dizer:

– “Como vai, meu filho? Cansado da vida? Venha cá, vamos conversar um pouco.”

E eu me aproximo dela para receber o beijo mais puro, o abraço mais doce, o sorriso mais belo.

E suas mãos, acariciando meus cabelos, vão me fazendo deitar no seu colo, para ouvir a mensagem mais linda:

– “Não se preocupe, meu bem. Eu estou ao seu lado. E se você for bom, como eu desejo, Jesus o amparará também. Porque ele não esquece os bons que dele precisam. As doenças dos filhos são avisos para os pais. As ingratidões dos amigos são reconfortadoras lições de humildade. Exercite o perdão. Não se curve ante a dor. Ela é o instrumento reparador de nossas imperfeições. É a dor, meu filho, que nos impulsiona para Deus. Fique tranquilo, você é bom, embora precise melhorar ainda mais. Seja amigo de seus irmãos. E de seu pai. Ele precisa de você. Começa a cansar-se, coitado, e confia em que você e os manos o substituam na jornada. Você não pode esquecer-se de seu destino. Nós esperamos muito de seus passos. E estamos sempre atentos ao seu chamado. Não se acanhe. Pode chamar-nos à vontade. É sempre com prazer que eu venho adormecer seus filhos e beijar suas frontes, aliviando uma dor, afugentando uma febre, eliminando uma inquietação, destruindo uma perseguição, velando pelas suas noites. Quando você se sentir amargurado, não se comprima, e chore. As lágrimas fazem muito bem. Elas lavam a nossa alma e nos ajudam a amaciar os nossos sentimentos. Mas chore alegremente. Receba as lágrimas como quem sorri. Como quem agradece a divina influência que elas exercem no nosso aprimoramento. Não chore com tristeza. Eu não quero que você fique triste. Vocês não têm razão para ficarem tristes. Dei-lhes um pai excelente. Dei-lhes onze irmãos inigualáveis. Deus lhes deu uma mãe que pode não ter sido a melhor, mas que os amou demais. Acima de tudo, eu e seu pai lhe demos o maior bem, o bem supremo, o bem dos bens: a crença nessa doutrina admirável que há de redimir os homens e reconduzi-los a Deus. Lembre-se de mim, sempre, porque não o esqueço nunca. Mas sobretudo lembre-se disso: Eu preciso de você, e confio em você! Não decepcione a mamãe! Adeus!”

Você pode não achá-la bonita. Mas para mim é a mulher mais linda que o mundo já viu.

Anita Borela nasceu em Leopoldina, filha de italianos.

Não conheci meu avô materno, mas de minha avó tenho as melhores recordações.

Minha avó, a vó Justina, como a chamávamos com a ternura de netos amorosíssimos, era uma menina. Nunca chegou a se tornar madura. Nasceu menina e morreu menina. Morreu como uma menina pura, cândida, meiga, acariciada pelo filho que mais amou, o tio Geraldo, em sua casa, na Fazenda da Bela Vista, em Pirajuí, no Estado de São Paulo.

Lembro-me de seu enterro e de um fato que jamais o Amaury esquecerá.

Espírita convicta e médium de vidência com uma limitação natural pela idade com que principiou a desenvolver-se, entendíamos eu e o mano que seria um desrespeito à sua convicção deixarmos que o seu corpo passasse pela encomendação da Igreja.

Nessa época, 1953, eu estava em Garça, a 34 quilômetros de Pirajuí, onde moravam o Amaury, o tio Geraldo e uma outra filha da “vó Justina”, a tia Genebra, com a sua prole.

Os netos pirajuienses entendiam que seria uma profanação não passar com o corpo da velha pelos sacramentos da Igreja.

Como, no dizer de Emmanuel, cabe ao mais esclarecido ceder, nós cedemos e lá foi o féretro a caminho da igreja. Nós, um pouco atrás, como convinha à nossa posição.

Eis senão quando o Amaury é chamado à sacristia. Lá estavam o padre e os netos de lá no acerto de contas. O vigário não encomendaria o corpo sem que, antes, o cobre lhe fosse pago. E os desprevenidos ou malandros netos de Pirajuí tiveram que tomar da bolsa do Amaury o salário da encomenda que eles fizeram contra a nossa aprovação.

Mas como eu ia dizendo, minha mãe nasceu em Leopoldina e casou-se creio que com 18 anos. Meu pai tinha 19. Sei disso porque há um fato interessante que não me deixa esquecer. Ele é exatamente 20 anos mais velho do que minha primeira irmã.

Casou-se e veio para Astolfo Dutra.

Não lhes direi aqui os sofrimentos por que passaram, nessa primeira quadra de sua nova vida. Ainda hoje podemos observar sofrimentos idênticos por parte de casais pobres que resolvem, sem nenhuma reserva e sem nenhum temor, construir o seu lar.

Digo apenas que sofreram demais. Meu pai, nessa época, pelo que dele próprio eu ouvi dizer, não era lá uma boa bisca, e agravava ainda mais a situação com o vício do jogo.

A máquina de costura é que era a garantia do pão. E aos trancos e barrancos a vida foi se seguindo, com os filhos se sucedendo. Para resumir, basta dizer que minha mãe, morrendo jovem, deixou onze filhos, e não foram doze, porque o 12°, no oitavo mês de gestação, acompanhou-a para o túmulo.

Dificuldades sobre dificuldades sem que a santa se perturbasse. Católica fervorosa – não se esquecia do terço e das preces. Até que Deus a ouviu em forma de um emissário: Abel Gomes(1), o paralítico-missionário, que tantos destinos endireitou. O homem que da sua cadeira de rodas iluminou toda uma região.

O alfaiate humilde que com a tesoura na mão reconstruiu lares, encaminhou gerações, esclareceu consciências, reedificou ideais, soergueu decaídos e apontou para uma infinidade de cidadãos o caminho da esperança e da verdade.

Com um livro na mão – O Livro dos Espíritos – fez do viciado de ontem a fulgurante inteligência de hoje, salvando um lar, um homem e uma família.

E meu pai embrenhou-se pela maravilhosa estrada do Espiritismo.

Minha mãe continuou católica. Mas, observadora, sentiu respeito por aquela doutrina que tinha revolucionado a sua vida, entregando-lhe um marido novo, com ideias novas, vibrações novas, palpitares novos.

Até que uma perseguição violenta, movida pelo clero, em que ela acreditava, contra seu marido e contra os amigos de seu marido, precipitou os acontecimentos.

Viu ela que, se na alegria da fé, não pôde acompanhar os primeiros passos do marido, na tristeza da zombaria e das perseguições, só um podia ser o seu lugar: ao lado dele, para, sofrendo com ele, testemunhar-lhe que ele não se enganara quando a fora buscar em Leopoldina, para tornar-se a sua companheira.

E como se tornou grande em face das amarguras! Como se agigantou aquela mulher serena na defesa do companheiro e da fé que ainda não era a dela, mas cujos efeitos admiráveis sentira nas próprias paredes do lar!

Contar o que foram essas perseguições seria escrever um libelo contra a intolerância, a maldade, a ignorância, a estupidez, a vilania, a traição, a ira, o ódio de uma casta de gente que se intitula “única depositária da verdade cristã”! E eu não sou homem de ataques a ninguém, muito menos à fé e à crença alheias.

Entendo que os homens, pela diversidade de conhecimentos e, sobretudo, pelo desnível espiritual em que se situam, não têm condições para se abrigarem sob o mesmo templo, e sentirem e entenderem as mesmas verdades.

Os homens se situam em escalas diferentes de evolução, cabendo a cada escala uma maneira própria de sentir Deus, nas suas manifestações e nos seus ensinamentos.

A cada escala corresponde uma religião, um sistema próprio de crer. As religiões não são desnecessárias, porque correspondem às próprias necessidades humanas. Todas, por isso mesmo, são dignas e representam importante função social.

É evidente que umas dizem menos verdades e abrigam maior número de erros, mas satisfazem a um certo número de pessoas. Outras, mais próximas de Deus e da Verdade, destinam-se aos homens que já subiram mais no caminho da evolução e do progresso.

Mas todas são dignas de respeito. Se Deus nos deu a consciência, que ninguém pode tocar e cuja liberdade só Ele poderia cercear, é para que nós a usássemos de acordo com as nossas necessidades, abrigando as convicções que nos satisfazem e nos ajudam.

Por isso deixo de dizer as inúmeras vezes em que procissões incalculáveis paravam diante de nossa casa, para cantar hinos e emitir provocações, na mais infame de todas as humilhações. Eu era pequeno, mas não me esqueço de uma em que, levados por minha mãe, fomos para a varanda, a fim de receber na face os apodos e os achincalhes.

Minha mãe, tranquila como o céu, serena como um lago, pura como um lírio, a olhar aquela multidão enfurecida, e olhos para o Alto, pedindo a Deus perdão para aqueles infelizes.

Nem direi que por causa de campanha clerical ficaram os espíritas sem patrões para quem trabalhar, e alimentos de quem comprar, ou para quem vender.

Fechou-se o ciclo do bloqueio econômico. A miséria se agravava, mas a fé se robustecia. E como “nada é impossível àquele que crê”, vencemos aquela parada. Sabem Deus e os antigos moradores de Astolfo Dutra com que lágrimas e com que dores.

Certa vez, um italiano de lá, Sr. Próspero, anunciou que invadiria com o seu caminhão o nosso centro na hora de reuniões.

A cidade se alarmou. Todos iam ver o “divino massacre”. Sr. Próspero conquistaria o céu com a beleza daquele gesto vandálico. A data foi marcada. E aos que o aconselhavam para não ir ao centro, devido à sua paralisia, o velho Abel Gomes deu esta admirável lição de fé e de coragem:

– Hoje ninguém me segura. Poderia faltar a todas as reuniões. Mas a esta de hoje, jamais eu me permitiria isso. Tenho que ir e quero ficar na porta. As rodas do caminhão hão de apanhar-me primeiro. Depois morrerão vocês. Mas o primeiro hei de ser eu.

Dessa atitude, ninguém conseguiu demovê-lo. E às sete horas em ponto, com o caminhão descendo e subindo as ruas da cidade, para aumentar ainda mais o interesse pelo espetáculo, lá estava no meio da porta aquele vulto extraordinário com os cabelos branquinhos, pronto a morrer pela Causa.

Devemos a essa decisão do velho Abel Gomes todas as vitórias que vieram depois. Não se tivesse comportado dessa maneira e talvez estivesse morta para sempre, em Astolfo Dutra, a semente esplendorosa do Espiritismo.

Daquele dia em diante passou-se a respeitar-se aquele pugilo de homens que, honestos e trabalhadores em todas as horas do dia, sacrificavam noites inteiras à procura de doentes que lhes pediam preces e trabalhos.

E os loucos se foram curando, e os desenganados pela medicina tradicional eram devolvidos sãos e perfeitos à alegria do lar e da família.

E a mediunidade de minha mãe foi brotando em borbotões sucessivos. Incorporação, audição, clarividência, intuição, psicografia, desdobramento, enfim uma infinidade de faculdades que ela passou a exercer com a responsabilidade de quem entendia a sua missão.

Legiões de enfermos de todas as partes pro-curavam-na à busca de conforto e de alívio. Loucos de todos os matizes foram por ela desamarrados para estupefação dos expectantes. Crianças e mais crianças, morrendo, eram levadas até ela, para que lhes desse, quando nada mais pudesse, pelo menos o conforto de suas preces e suas orações.

E os pobrezinhos, tocados pelas suas mãos, recuperavam forças e retornavam à vida.

Lembro-me de um caso que a cidade até hoje comenta. Vale, sobretudo, pelo testemunho dos que o presenciaram, quase todos alheios à nossa família e à nossa fé.

Brincavam no fundo de nosso quintal, na beira do rio, o Ayres, com quatro anos, o Domingos Laroca, da mesma idade, e a Eunice, com menos de dois anos.

De nossa casa ao fundo do quintal, onde eles brincavam, há sessenta e cinco metros de distância.

Pois bem: eis senão quando a Eunice cai no rio. Justamente num dos lugares mais fundos, na época, do velho Rio Pomba. Devido ao aterro providenciado por meu pai, não existe uma margem em declive. As estacas que seguravam a terra acabaram por construir um muro natural de tal modo que não se podia descer pela margem até o rio. E se descer, através de um pulo, era possível, subir era impossível. Sair do rio e atingir o quintal por ali era impossível.

A Eunice cai no rio e o Ayres corre velozmente para a casa a fim de chamar a mamãe. Com os gritos do garoto e da mãe em desespero, de pronto a vizinhança acorre ao local. E todos viram: minha mãe atirou-se n'água e apanhou a criança que estava amparada por uma rodinha solta de cipó e de lá saiu voando, para espanto de todos.

Só através da levitação seria isso possível. E isso foi possível. Um milagre com o testemunho de toda uma população!

Mas no que mais era solicitada era nos casos de desaparecimentos. Desaparecia alguma coisa ou alguma pessoa, e minha mãe, fechando os olhos, descrevia o local ou pessoa sumida.

Antes de procurar os corpos afogados no Rio Pomba, o Sr. Durval, canoeiro velho, vinha encontrar-se com a minha mãe, e ela descrevia minuciosamente a posição e o local do corpo.

Enfim, eu ficaria aqui a noite inteira relatando casos curiosos saídos da mediunidade de D. Anita e que assombraram toda uma região.

Mas, sobretudo, o que definiu melhor o seu caráter e o seu espírito era a sua simplicidade e indescritível amor que ela tinha pelas pessoas mais humildes.

Humilde como a noite e boa como o dia, semeou benefícios, em forma de carinho, em todas as horas de sua vida.

Mais tarde, quando os ventos da prosperidade começaram a bafejar o marido, agora comerciante estabilizado, a mulher continuou a mesma. Vestindo-se com a simplicidade de antes, cada vez mais próxima dos humildes e dos sofredores.

Sua vida foi doação permanente. Dividiu-se para entregar-se aos outros. Nunca vi ninguém com tanta capacidade para o amor. Amava a tudo e a todos. Até aos que traíram a confiança de seu lar.

Nunca ouvimos dela uma palavra de censura a ninguém. Sua palavra só se fazia ouvir para enaltecer as boas ações e as boas qualidades. Foi a orientadora de todos.

Confidente de todos os portuenses, ao seu encontro as dores se aliviavam, as perturbações desapareciam, as intranquilidades esvaneciam, e os dissabores se eliminavam.

Gerações e gerações de moços, crianças e velhos buscavam-na para ouvir de sua boca, sempre limpa, uma palavra de orientação, um conselho em forma de carinho, um sorriso em forma de amor.

Boa como a água, tranquila como o silêncio, atravessou uma existência inteira disseminando o bem e consolando os aflitos.

Homens e mulheres choraram a sua morte.

Não me esqueço nunca das lágrimas do nosso querido Dr. Grossi, quando, depois de uma luta desesperada para impedir o impossível, sentindo-a morta, abandonou o quarto em prantos e soluços, dizendo ter perdido a maior amiga de sua vida. E as palavras dele se repetiam de boca em boca. Todos tinham perdido naquele instante a maior amiga da vida de todos.

Eu, chamado às pressas de Cataguases, onde estudava, em companhia do Ayres, menino ainda, em regime de internato, me lembro de uma passagem que se deu na viagem.

Era o Niquito o chofer. Meu pai lhe pedira que me fosse buscar e não me tapeasse na notícia. Que me dissesse abruptamente que minha mãe tinha morrido, que eu resistiria à notícia.(2)

Papai sabia que eu aprendera com a minha mãe a enfrentar as duras notícias. De resto, a vida dela fora um exemplo permanente de encorajamento em face do trágico.

O Niquito chegou ao Colégio às nove horas da noite. Eu estava, já de pijama, escovando os dentes, quando fui procurado.

Sr. Lyses, meu velho mestre de matemática, e mais que isso, o grande orientador de minha vida, amigo surgido na fase de minha infância, que é quando as amizades nascem mais sólidas, prontificou-se a me dar a notícia, mas seus lábios tremeram e a voz não saía. Foi quando o Niquito, com aquela rudeza que o caracterizava, tomou a dianteira:

– Seu pai falou para não mentir. Você não tem mais mãe. Morreu hoje às 19 horas e meia.

Lembro-me de que disse apenas o seguinte:

Espere-me um minuto, que eu vou trocar a roupa.

Chamei o Ayres, disse-lhe que trocasse também a roupa, porque iríamos até a nossa casa. Ele, satisfeito, me perguntou:

– Nasceu o nosso irmãozinho? Que bom!

Coitado, mal podia ele esperar que a notícia que eu lhe daria depois fosse a mais dura que ele já ouviu.

No caminho eu preparei o Ayres.

– Ayres, vou lhe dizer uma coisa, mas você vai me prometer uma outra: proceder como homem.

– Prometo!

– Mamãe morreu e nós não vamos chegar lá chorando, não, ouviu? Ela nos ensinou que a morte não existe. Que o espírito permanece junto dos que ama. Logo, não há razões para nós chorarmos, não é?

Ele engoliu em seco e concordou comigo, mas cinco minutos depois ele me falou com voz trêmula:

– Tuca, mas se eu não aguentar, você não fica zangado comigo não?

Não pude responder, porque eu já chorava também.

Às 9 e meia da noite, estávamos com os pés dentro de casa.

Nunca se apagou da minha mente a visão daquele corpo estendido na sala. Lá estava parado aquele coração que tantos benefícios espalhou. Aquela boca, que tantas bênçãos distribuiu, aqueles braços que tantos doentes amparou, aquelas mãos que tantos carinhos teceu, estavam inertes. No canto da boca, um sorriso interrompido.

Morreu sorrindo na contemplação dos inúmeros amigos espirituais que a vieram buscar.

Ninguém da família estava ao seu lado no momento agudo. Tinha encaminhado a todos para o centro, aquele centro a que nunca faltara, e ao qual só deixou de ir naquela noite, porque sabia que o fim havia chegado.

Seu enterro foi a apoteose do amor. A cidade inteira acorreu para levar, no caixão, aquela a quem tanto devia e amara.

Ricos e pobres, negros e brancos, homens e mulheres, crianças e velhos, toda uma multidão de seres e de sentimentos ali estava chorando a perda irreparável.

E por muitos anos depois, continuou a legião imensa de torturados a procurar a velha casa da D. Anita, para buscar na água que ela lhes dava o remédio de que necessitavam.

Foi uma grande vida. Minha mãe foi um poema de amor.

A sua partida abriu, de fato, em nossos corações, cicatrizes profundas, mas amenizadas pelo conhecimento da divina filosofia que ela neles soube incutir.

Hoje dela lembramo-nos com profunda saudade. E com a esperança sempre renovada do nosso reencontro feliz no reino da eterna vida.



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