Domingo, 28 de julho de 2013



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XIV – O pai é o exemplo
Meu pai é um homem impressionante. Nascido em 1908, filho de José Basílio e de D. Rita.(1) Não conheci a vovó Ritinha e do meu avô só tenho uma recordação bastante desagradável. A dos seus últimos momentos de vida, estirado numa cama, nos estertores dos últimos suspiros. Aquele homem magro, cadavérico, com a língua enroscada, assistindo, sem nenhuma possibilidade de luta, à chegada do fim.

Inteligência aguda, nos cursos que fez, quase todos particulares, e com o esforço próprio, foi o primeiro da sala. Pobre, tendo como mãe uma mulher um pouco debilitada mentalmente, sofreu como cachorro, na infância, na mocidade e nos primeiros anos de casado.

Estudou por correspondência e concluiu um curso de Contabilidade, tendo defendido alguns pedaços de pão, suplementando durante a noite o pouco ganho do dia.

Parece-me que as dificuldades o levaram a uma vida um pouco desregrada nos seus primeiros anos, até que a presença de Abel Gomes mudou o rumo de sua vida. Ingressando no Espiritismo, desenvolveu enormemente a sua cultura, através da literatura espírita, sem favor nenhum das melhores que o mundo conhece. Melhores e maiores.

Fundou o jornal “Arauto da Fé”, em companhia do Mário Vitoriano e Amadeu Santos, e conseguiu, creio que por correspondência, uma carteira de jornalista.

Durante muitos anos foi assim uma espécie de a grande cabeça da cidade. Escrevia quase que sozinho dois jornais: “Arauto da Fé”, publicação espírita, e “A Tribuna”, publicação da Prefeitura Municipal de Astolfo Dutra.

No Espiritismo, cedo começou a sua faina de pregador, transformando-se num dos maiores oradores espíritas que eu conheço.

Dono de uma facilidade de expressão admirável e possuidor de um estilo claro e correto, produziu páginas admiráveis. Polemista, dele se tornou célebre a participação contra o Professor José Schiavo, da cidade de Ponte Nova, a respeito de problemas e assuntos religiosos.

Tem viajado por inúmeros estados e em toda a parte por onde passa deixa uma legião de amigos e de admiradores sinceros.

Não conheço ninguém com tanta capacidade de fazer novos amigos. É um homem bastante experimentado e de tudo conhece um pouco. Embora haja assuntos dos quais ele conheça muito.

Difícil escrever sobre ele. Dono de um coração admirável, não distingue pessoas. Pobres e ricos à sua presença sentem-se absolutamente à vontade.

Dono de uma prosa cativante, com ele se passa horas e mais horas, sem que o relógio nos desperte.

Sua grande virtude é não medir dificuldades para ajudar seus semelhantes. Patrão excelente, todos os seus viajantes tornaram-se mais ricos do que ele.

Dinâmico, sua vida toda tem sido encaminhada no sentido de construir. Tem o hábito da construção. Não fica sossegado, se não estiver edificando alguma coisa.

Politicamente divergimos quase sempre. Quando na Revolução de 1932 esteve na iminência de ser preso, parece que o seu espírito se inclinou para o terreno da oposição. E como oposicionista ferrenho, tem acentuadas simpatias pela UDN. Ora, como eu sou fundamentalmente avesso ao sistema político-partidário udenista, é natural que os nossos pontos de vista não se encontrem, o que, sinceramente, lamento.

Eu entendo que, embora mais moço, esteja em melhor situação para analisar determinados problemas do que ele. Sobretudo porque em meu espírito ainda não chegou aquela marca da perseguição que ele conheceu, duramente, de perto, e que culminou por lhe dar uma visão muito pessoal das coisas, subordinando-se a uma filosofia que eu não consigo aceitar.

É natural que ele me suponha enganado, não só pela consciência que tem da própria inteligência, indiscutível aliás, como pelo número de anos que leva de vantagem sobre o filho.

É o tipo do homem justo. Sua justiça só sofre distorções quando em debate certos fatos políticos, e aí consolido milha posição, porque sou justo em todas as situações, inclusive na política.

Como pai, talvez motivado pela dureza de sua vida e de seus problemas iniciais, nunca permitiu que nos aproximássemos muito dele, razão por que havia, e até hoje ainda há, um certo temor dos filhos no debate de algumas ideias na sua presença. Por isso mesmo, entre-gava à esposa a tarefa de nos encaminhar mais de perto. É evidente que dele temos recebido sempre as mais preciosas orientações, mas entendo que levamos vantagem, quando confrontamos a influência dele e de minha mãe.

É claro que ele não se sente diminuído com isso. Fã número um da esposa, sabe o tipo de mulher e de santa, a quem ele transferiu, em grande parte, a tarefa da educação dos filhos.

Nós, em casa, nos nossos momentos de desânimo, algumas vezes, o culpávamos, achando-o melhor para os estranhos do que para nós. No fundo, estávamos enganados, porque ele em outra coisa não pensa senão na felicidade dos filhos.

Como avô, talvez porque o tenha sido muito cedo, não é dos mais amorosos. Mas faz lá de vez em quando a sua média com os netos. Todos nós o adoramos. Mesmo quando o censuramos muito, naquilo em que não nos atende, fazemo-lo por amor.

Bastante acomodado, raramente escreve aos filhos. Mas, quando o faz, apaga de uma só vez todos os aborrecimentos provocados pelo silêncio tão longo.

Enfim, é preciso uma boa análise para que o entendamos melhor.

Extremamente caridoso, construiu, com outros irmãos, a Fundação Espírita Abel Gomes, para abrigar menores desamparadas. Vive para aquela casa. Todos os seus sonhos se orientam para a sua Fundação e tudo o que faz é visando ao desenvolvimento maior daquela casa, com maior conforto e melhor educação para as meninas que lá se abrigam.

Pai de onze filhos, muito cedo ficou sozinho. Casou todas as filhas, e três dos cinco filhos.

Em matéria de planos, foi dele que herdou nosso mano Amaury. Ele faz planos fabulosos, mas logo após acomoda-se, e os abandona, por comodismo, para ficar em paz.

Solicitado por toda parte, como orador espírita, quase sempre arranja uma “dor de cabeça” para afastá-lo do ônibus.

É das pessoas que conheço a que mais admiro e a quem mais afeição eu dedico. Confidente de muitos anos, e companheiro de todas as horas, fizemos jornadas memoráveis e debatemos ideias e problemas importantíssimos.

Sei que a minha saída representou em sua vida uma lacuna, tão grande quanto a que a sua ausência provocou no meu caminho.

Alegre, jovial, prazenteiro, junto dele não se conhece tristeza. Amigo de seus amigos, muitos apertos sérios tem enfrentado em sua vida, por não saber deixar de atender a quem o procura.

Correto em seus negócios, honesto até a sublimação, é um homem completo. Culto e inteligente, bom e amigo, dinâmico e feliz.

É assim o meu pai, como lhe disse, um homem impressionante. Que está construindo uma obra que há de dignificar o seu futuro e abençoar o seu passado.


XV – O escândalo e a fé
Mas, como eu lá ia dizendo, quando chegamos à Fundação, para a reunião matinal, o meu cunhadíssimo Walter veio ao nosso encontro. E foi com essas palavras que lhe apresentei a Elizabeth.

– Walter, apresento-lhe aqui a minha futura esposa.

Walter, sorridente, com aquele jeitão de quem está sempre brincando, engrossou a voz:

– Olha lá, cunhado, vê lá o que está fazendo.

E perguntou a ela se ela achava que daria certo, dizendo, antes da resposta, que eu era o tipo consumado de “embrulhão”, mas um bom sujeito.

Elizabeth respondeu timidamente:

– Vamos ver, não é? Vamos tentar. Se der certo, bem. Se não, que fazer?

Estava quebrada a barreira inicial. A timidez da primeira hora passara com uma velocidade que estava fora de todos os meus cálculos. Dali para a frente, a grande caminhada.

Confesso que nada ouvi daquele reabastecimento. Estava eu restabelecido com outra espécie de vigor, que não é apenas “o” espiritual, mas que é profundamente espiritual.

É provável até que eu tenha falado alguma coisa sobre o ponto, pois estava atravessando a fase do entusiasmo, aquela em que por qualquer coisa estamos nos levantando e deitando a nossa falação.

Disso não me lembro bem. Só me lembro que naquela manhã só tinha olhos para vê-la. E o pior, sinceramente o digo, é que a via com um pouco de audácia. Olhando-a, procurava despi-la, para descobrir por trás dos panos aquele corpo que me aparecera na véspera, inteiramente nu.

Eu era todo olhos. Olhos maus, impudentes, mas sinceros. Isso sempre fui. Costumava dizer, ao definir-me, que era sincero até nos momentos de insinceridade.

Um dia parei para analisar essa frase, e verifiquei que ela não tinha nenhum sentido. Mas me agradou, porque me pareceu definir bem a sinceridade que eu procuro imprimir em todas as minhas ações. Cheguei a gostar dela. E não a risquei jamais das minhas elucubrações.

Dos meus trezentos vícios e das minhas duas virtudes, posso dizer, com certa ênfase, que sou feliz dentro da minha sinceridade.

Tenho observado nos meus anos de vida e nas andanças que tenho feito que a sinceridade é uma das aves mais raras no convívio dos homens. Vejo que há, entre as criaturas, uma verdadeira obsessão pela insinceridade, como se ela fosse a própria essência da vida.

Em parte entendo essa maneira de pensar. Para vencer na vida, a insinceridade é o caminho mais curto. Na política, então, chega a ser uma virtude. Sobretudo nessa política que no Brasil, segundo Rui Barbosa, virou politicalha.

Foi por vê-la tão difícil que me tornei amigo dela. É claro que no princípio tive que passar por seriíssimas ginásticas mentais. Depois fui me acostumando. De modo que hoje ela funciona com uma naturalidade impressionante em minha vida.

Mas, para exemplificar como a sinceridade é difícil, vou citar um exemplo.

Antônio Siqueira de Carvalho é uma das mais adoráveis criaturas que tenho conhecido. Bom como a água, simples como as pombas, encantador como as flores, puro como o sol. Pois bem, lendo as primeiras páginas desta conversa, apressou-se a me aconselhar uma perífrase. Justamente para substituir o que eu disse, quando vi a Elizabeth pela primeira vez. Lá está, com palavras textuais: “Confesso que não a achei bonita”. Profundo psicólogo e marido exemplar, temia ele que aquelas palavras, ditas assim de maneira tão sincera, pudessem não digo desgostar, mas amarelecer o sorriso de minha esposa ao dar-se com elas.

Retruquei com todo o respeito que me merece essa admirável figura de homem e de artista:

Substituir, não substituo. Ou eu conto o que aconteceu ou não conto. O que não posso fazer é fugir à sinceridade que me norteia a vida.

É por isso que não me acanho ao reproduzir agora as impressões daquela manhã feliz.

Sei que muitos espíritas, principalmente os mais velhos, ficarão escandalizados, ou melhor, ficariam escandalizados se fossem ouvir essas confidências.

Diriam, doutoralmente:

– Isso é um absurdo! Uma profanação! Uma afronta aos amigos do espaço!

E apresentariam o remédio:

– Fizesse uma prece, para afugentar os maus pensamentos. Pedisse passes magnéticos aos protetores e tudo estaria resolvido.

Mas eu lhes retrucaria:

– E quem disse que eram maus os pensamentos? A maldade está nas coisas, ou está em nós? E ademais nós só buscamos a prece para afugentar de nós o que nos desagrada. E aqueles pensamentos me agradavam mais do que tudo. E eu era feliz com eles.

Desculpem-me o escândalo que eu possa, com estas palavras, provocar.

Mas lembrem-se de que estava diante da mulher que há muitos anos vinha procurando. Afigurava-se-me aquele encontro como o reencontro comigo mesmo. Era o ressurgir de uma emoção já quase morta. Pelo amor de Deus, compreendam isso!

Eu achara finalmente o tesouro por que procurava ansiosamente. Então, eu que chego aos vinte e cinco anos, numa procura insistente e sempre inútil, acumulando decepções sobre decepções; alimentando insatisfações continuadas, enredando-me nos mais fragorosos e sucessivos fracassos; chegando mesmo a perder o sentido da vida, em face de uma procura tão malsucedida; agora que a encontro, posso dar-me ao capricho de afugentar de mim aqueles pensamentos, que já estavam mortos? Para lá. Espera aí!

Ademais o pensamento de que se gosta é incontrolável. Na vida só há uma liberdade realmente positiva. Aquela que nos permite pensar.

Mas a reunião terminou e fomos seguindo os nossos destinos. Ela para o repouso da tarde. Eu para os talões burocráticos da fazenda estadual.



XVI – O emprego e o Estado
Eu lhe disse que trabalhava no Estado? Trabalhava. Tinham cavado, politicamente, para mim, um cargo público. Naturalmente tinham pensado lá com os seus botões:

– Esse camarada só vai pra frente se lhe dermos um emprego público.

Ainda não pude me ater a essa filosofia do “vai pra frente” que tão comumente se ouve. Confesso que de qualquer maneira eu tinha que ir pra frente, já que a vida não para. Não sei se iria bem ou mal. Mas iria. Inevitavelmente iria para a frente.

Dizem os Nélsons Rodrigues deste país que só há uma verdade eterna: “É que ao dia de hoje sucederá, inevitavelmente, o dia de amanhã”.

Às vezes nós não o apanhamos na vida. Mas ele sempre nos apanha.

Mas arranjaram-me um emprego. Coisas de política mineira. Eu era um eleitor. E o pessoal em quem eu votava resolveu me presentear. Fui ser “auxiliar técnico de arrecadação”. Pomposo nome, não acha? Coisas de Minas Gerais.

Até hoje não entendi bem por que “auxiliar” e “auxiliar técnico”. Da arrecadação estava claro. Nós arrecadávamos os tributos do Estado. Em contraprestação o Estado nos pagava também um tributo. Minguado, sempre curto, mas dava pro pão.

Mas auxiliar de quê? Ou de quem? Nós não auxiliávamos nada. Quem auxilia, auxilia a alguém! Nós é que fazíamos o serviço sozinhos. Como auxiliar?

E o técnico? A técnica pressupõe um preparo, um adestramento, um estágio, um estudo, uma adaptação.

Comigo não houve nada disso. Pegaram-me pelo laço e me jogaram lá dentro.

Depois eu vi que o negócio era mais ou menos assim mesmo. Que os menos capazes é que eram os favorecidos, desde que a política dominante os indicasse.

Vi isso, não em contato com os meus colegas, que são os mais eficientes nos respectivos cargos. Vi, depois que estava lá dentro, através de observações efetivas.

Meus colegas, repito, eram excelentes. Honestos, trabalhadores, cumpridores de seus deveres. Todos muito bons e muito compenetrados de suas obrigações.

Junto deles passei os bons anos de minha vida.

O chefe era o Paulo Linhares. Coletor. Muitos anos a serviço do Estado; tendo entrado para a administração fazendária muito cedo, cedo também chegou ao padrão Z, o último da carreira.

O chefe era um moço simpático, louro, alegre e bastante cordato. Tinha um defeito de dicção que nos botava um pouco perturbados no início de nossa carreira. Depois, com o tempo, fomo-nos acostumando, e adivinhávamos de pronto a ordem que ele emitia. Ele resmungava no fundo, e o papel, de imediato, era posto em sua mesa.

Tinha um vício. Não era muito expedito no assinar os talões. De modo que era comum acumularem-se papéis sobre a sua mesa, de tal modo que a Nina a apelidou de “secção do encalhe”. Quanto tempo perdíamos à espera de que o Sr. Lery, nome que depois lhe pusemos, porque ele fez uma porta de duzentos quilos cair em cima de um visitante, chamado Sr. Lery, e que lá havia ido, incumbido de uma revisão nos valores imobiliários rurais. Contribuintes se avolumando na sala de espera, o calor apertando cada vez mais, e os talões dormindo serenamente na secção do encalhe.

A Nina de que lhe falei há pouco era o encanto da repartição. Admirável figura de mulher que todos nós amávamos com o respeito e a veneração que se devem a uma santa.

Jamais a vimos triste ou desanimada. Nos quase nove anos de convivência diária, vi-a sempre com o mesmo sorriso de compreensão e de amizade. Mesmo depois de casada, com o colega Ulisses Linhares, enfrentando agora as dificuldades de mãe e de dona de casa, foi sempre a mesma. Afável, meiga, atenciosa, sorridente, eficiente, tranquila.

Dificilmente encontrarei em minha nova carreira uma mulher tão completa, e tão perfeita em tudo que faz. Com ela aprendi a admirável lição de servir a todos com o sorriso nos lábios.

O subchefe, isto é, o Escrivão, é a veneranda figura do Sr. José Simonini, que Viçosa exportou para Astolfo Dutra. Homem absolutamente tranquilo. Ao vê-lo poder-se-ia dizer: “Está aí um homem com a vida que pediu a Deus”. Católico fervoroso, jamais teve para com os dois espíritas que baixaram na sua repartição a menor palavra de censura ou de desapreço.

Espírito jovem, tinha sempre uma anedota para amenizar o cansaço dos números, nas horas das nossas obrigações.

Sua letra era um desenho. E o caixa geral da repartição lá está guardado como uma relíquia muito bem guardada.

Vivia para a repartição. De manhã à tarde, seu habitat preferido era lá. Às vezes nos perguntávamos, bisbilhoteiros de sempre: O que será que o Sr. Simonini vem fazer aqui, toda manhã? Há tanto serviço assim?

Provavelmente lá iria desenhar no seu Caixa Geral, caixa que eu andei enfeando com o balancete de dois meses.

Seu amor predileto era o que ele chamava de “a preciosa”. A preciosa era a fita da máquina em que estavam relacionados todos os valores da despesa e receita ocorridas no mês. A preciosa, segundo ele, era a bússola do Balancete. Se ela jogasse, tudo estava certo. Se algum erro, porventura, houvesse, a preciosa inevitavelmente acusaria.

Depois eu acabei desmoralizando a preciosa adotando um processo mais rápido. A princípio ele não gostou da ideia. Diabo, vinha eu com minhas inovações matar-lhe um amor tão antigo. Depois, acabou concordando e ficou sepultada para sempre a sua divina “preciosa”.

De Simonini trouxe, além de outras, uma feliz recordação. Eu que esperava dar-lhe alguma coisa, pela atenção com que sempre me distinguiu em todos os meus dias, fui surpreendido com um necessário presente: deu-me um terno, cortado e costurado, por ele próprio, com toda a arte e perícia. Antes do emprego público ele se notabilizara em sua terra como um excelente alfaiate.

Coitado, viu que eu não tinha lá boas roupas e apressou-se, comprando do mascate Zezinho um lindo corte de casimira inglesa que transformou num belíssimo e moderno terno. Parece que ele estava adivinhando que pouco tempo depois nos separaríamos para sempre.

Esse mascate de que falei há pouco é o outro auxiliar da repartição, o ilustre cidadão José Espíndola Filho, brasileiro, vacinado, casado e pai de seis filhos.

Nós o chamávamos nosso “Consultor Jurídico”. Muito eficiente na sua função, tinha um hobby: ler, religiosamente, as revistas de “O Fisco em Minas”, para estar em dia com a legislação fazendária.

Creio que esse amor à legislação nasceu em Cataguases, em contato com o Coletor Estadual, Sr. Humberto Henriques, numas aulas que lhe andou ministrando, com vistas ao concurso que teríamos de fazer em busca da estabilidade. Das aulas do Sr. Humberto para cá, o homem se doutorou e, quando ele fala, todos nós murchamos as orelhas.

É um cabra que está sempre nervoso. Está, não. Parece estar, porque, no fundo, é um coração de passarinho. Pintávamos o sete com ele, e a todas as nossas brincadeiras respondia com um sorriso satisfeito.

É um camarada bravo. Com ele não se pode abusar, porque é malcriado como o Iracytho, embora nele predomine o sentimento dominante do amor às boas causas e à caridade. Nunca se esqueceu de entregar-me, mensalmente, a contribuição que ele próprio se fixou, em favor do nosso asilo de órfãs.

De vez em quando ia a São Paulo, para onde foi obrigado a transferir a família, com vistas à educação de seus filhos, e de lá voltava com uma mala nas costas, cheia de bugigangas. Da calça de mulher ao brinco, tudo se achava lá dentro. E eu morria de rir vendo o Zezinho com aquelas peças íntimas para vender.

O outro auxiliar era o Sr. Mário Vitoriano, excelente orador e grande violonista, que com sua voz sempre alta dava à repartição uma aparência de hospício. Não perdoava ao Paulo, com quem discutia sempre a propósito dos lucros das terras do Jacaré. O Paulo argumentava, fazia cálculos, escrevia números, mas o Mário, imperturbável, o encostava à parede. Muito brincalhão, memoráveis debates tivemos a oportunidade de ver, mas o de que mais me lembro foi de uma questão levantada, por ele, a respeito de um filho louro de uma mocinha morena que tinha trabalhado na casa do Paulo e que casara com um moço também moreno.

Não sei se já se encontrou uma explicação mais viável para o caso. Mas dessa discussão rimo-nos a valer.

Esses foram os companheiros que me receberam naquele dia de trabalho, após o célebre reabastecimento espiritual. Com eles convivi, de perto, quase nove anos e de nenhum, durante todo esse tempo, tive a menor razão de queixa.

É provável que para eles eu não tenha sido tão bom quanto o foram para mim. O certo é que de todos me lembro com saudade, deles guardando as melhores recordações.

Depois surgiu o Arnaldo, garoto contratado pelo Simonini, nas férias do Paulo, e cuja permanência, como contínuo, foi confirmada pelo titular da chefia.

E bem depois, já ao apagar das minhas luzes, junto deles, lá chegou o Roberto Garoni, em período de estágio, enquanto aguardava uma nomeação prometida .

Naquele porão da casa do Sr. Alberto Pereira Menezes, junto de gente tão amiga, vi passar um pedaço muito importante de minha vida. E só uma coisa me tiraria de lá. Uma coisa presa à origem de meu ingresso e que me tolhia, demasiadamente: a liberdade.

Nasci para ser livre. Todos os homens nascem para ser livres. Não há bem maior que a liberdade, principalmente a liberdade de pensar. E foi por buscá-la que troquei uma carreira por outra.

XVII – Nasci pra ser livre!
Eu já explico.

Foi uma manobra política que me deu aquele emprego. E eu fiquei inevitavelmente preso, grato que sou, aos que me distinguiram com a nomeação.

Penso, com Rui Barbosa, que só não muda o homem que não evolui. E quanto mais o homem muda, maior é o sinal de que ele procura acertar.

Tenho dito diversas vezes que o importante, em nossa vida, não é acertarmos sempre, mas errar menos, procurando sempre agir melhor.

Um homem que estaciona é um cérebro que se enferruja. Um homem cristalizado dentro de determinados princípios é uma massa sem cor e sem vida. O homem, para dignificar a sua posição, tem que ser dinâmico. Dinamismo significa evolução. Principalmente dinamismo nas ideias.

Tudo muda na vida. Se as árvores permanecessem imutáveis, jamais chegariam à divina explosão dos frutos. É por mudar que a mocinha de hoje se faz mãe amanhã. É mudando, e mudando sempre, que se passa da infância para a juventude, para a maturidade, para a velhice e se atinge a eternidade.

A mudança é tão fundamental em nossa vida que Alexis Carrel afirmara que nenhum homem é o mesmo em dois segundos sucessivos. Tudo se transforma em nós. As células se substituem, os tecidos se modificam, os átomos se renovam, porque vida é sinônimo de renovação e de mudança.

Há quem diga que devemos mudar nem que seja para pior. Não vou a tanto, embora compreenda e aceite o ponto-de-vista. O que digo é que devemos sempre mudar, claro que para o melhor, ou para aquilo que supomos o melhor.

Na minha posição de servidor público, lá posto da maneira que fui, eu era um homem amargurado, triste, abatido. Injustiças e mais injustiças desfilavam-se ante meus olhos, sem que eu pudesse, ao menos, levantar o clamor da desaprovação.

Mesmo o concurso, a que depois me submeti e que me deu a estabilidade funcional, não conseguiu apagar em mim aquelas reações desagradáveis; e meu irresistível desejo de mudar chocava-se sempre com o meu sentimento de gratidão.

Meu mal era irreversível. Eu me consumia, a cada novo dia, no mais lamentável de todos os tédios. Vi-me afastar de meu pai e de meus irmãos e seguir um caminho que eu sentia não ser o melhor, para, através do voto, pagar aquela dívida que me consumia.

Eu estava sufocado. Parece-me que só duas pessoas sabiam dessa angústia. Duas não, três: minha mulher, o Jarbinhas Scher e o Zezinho.

Eis senão quando surge no horizonte do DASP um concurso para escrivão federal. Cá disse comigo mesmo: “Nesta eu me embarco e adeus Astolfo Dutra. Vou readquirir lá fora a liberdade que perdi aqui dentro”.

Para trás fiquem meus amores e minhas amizades. As árvores em que tantas vezes subi nas minhas brincadeiras juvenis, as águas em que tantas vezes me banhei, as ruas em que ficaram, palmo a palmo, as minhas emoções mais fortes, os olhares que me fitaram com tanta simpatia nos dias de festas, as casas em que eu aprendi a ver um prolongamento da minha, tudo isso que representa o baú das minhas mais caras recordações vale menos do que a liberdade que eu procuro.

Nasci para ser livre. Todos os homens nasceram para ser livres. Quero a liberdade dos pássaros para conhecer outros céus e amar outras estrelas e apertar nas minhas mãos as mãos de outros seres, mas sobretudo para ser eu, sozinho, o verdadeiro dono de mim mesmo. Sei que durante muito tempo fui “o filho do Astolfo”, de que, na realidade, me orgulho. Só muito tempo depois acabei sendo reconhecido como eu mesmo, Arthur Bernardes, construindo sua história. A gente sabe quão importante é a influência dos pais nos caminhos do filho. Vezes há em que essa influência é tão forte que o filho dela não se liberta, atravessando uma existência inteira sem marcar sua passagem na Terra.



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