Dossiê orfeu despedaçado



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DOSSIÊ ORFEU DESPEDAÇADO

ROTEIRO DE PESQUISA: OBRA EM ANDAMENTO


In memoriam

sra. Albertina Ribeiro

e

sr. Hermínio Faraco.

De rutilantes vestes adornado



Himeneu rompe o ar, e à Trácia voa,

Lá onde o chama Orfeu, porém debalde.”

(Ovídio. Metamorfoses)


A cidade é uma paisagem mágica, labiríntica; uma floresta de signos, a cartilha do homem moderno. A cidade é um livro em “neon-barroco”. Uma explosão colorida: a cidade com suas múltiplas facetas de sonho e de des-encantamento.

Maio de 1999

Entro na cidade de Mococa/SP.

Local: Museu Histórico e Pedagógico “Marquês de Três Rios”.
Nas dezenas de fotos e de retratos em preto e branco, contemplo a cidade e as criaturas do passado. Tudo me aparece como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais. Contemplo o longínquo cotidiano e traço anotações. Em meio a dezenas de fotos, tomando alguns papéis, ponho-me a registrar:
Tombo 0293: Cine Teatro Central. 1/01/1927...

Tombo 0312: PIC-NIC. Operariado Mocoquense. 1/05/1929...

Tombo 0364: Radium F.C., Guaxupé. 27/09/1931...

Tombo 0432: Musical Recreativa Mocoquense – Inauguração da Capella N.S.Aparecida...

Pasta 11 (Tombos 0384 a 00418): 1º Centenário de Mococa 1856/1956 – Cartão Comemorativo – Foto Radium....

Tombo 2367: Alfaiataria F. Perrone [s.d]...

Tombo 0908: Dia do Alfaiate – Banquete na Paulicéia. 1953...

Tombo 0546: Lipi – operador da máquina de projeção do Cine Mococa. [s.d]...


Passo, então, aos retratos, e assim contemplo cenas do antigo oeste paulista: existências singulares, relíquias dos mortos; região povoada por uma vasta legião de vivos e mortos. Mas, o que significam os traços que insistem em permanecer? Registros em meus papéis. Na escritura vou retalhando fantasmas. Vivência da escritura, jogos de cenas, simulacro: constelações de dedicatórias liberam o passado:
Tombo 2650: Photographia Carvalho. José Euclydes de Carvalho. Mococa – E. de São Paulo [dedicatória] “À sua querida Madrinha offerece Maria Antonieta...”

Tombo 2635: Photographia Ferreira. Mococa [contemplo três crianças]...

Tombo 2652: F. Vollsacks – São Paulo [dedicatória] “Aos 44 anos. Ao Maneco, como prova de amizade, Dr. Silveira Cintra – São Paulo 1899...”

Tombo 2649: Nickelsen e Ferreira. Campinas. Rua Direita, 48. Casa fundada em 1862. Casas Filiais: Santos, Piracicaba, Casa Branca, Amparo, Rio Claro, Limeira, Mogy-Mirim...

Tombo 2654: Pieper – E. São Paulo [dedicatória] “Ao bom amigo dos antigos tempos mocoquenses e dedicado parente Dr. Manoel Leite de Camargo, offerece esta lembrança o retratado – Mococa, 23 de Agosto de 1898...”

Fins de Maio de 1999

Acervo fotográfico catalogado.

Quero incluir diferentes aspectos na pesquisa histórica. Recordo trechos do belo ensaio “Experiência e Pobreza”, no qual Walter Benjamin propõe a tarefa de não só encontrar, mas também de renovar a história mediante o estoque de fragmentos de experiências e de memórias, visando fomentar uma nova escritura da história. Busco confirmar tal procedimento proposto pela historiografia benjaminiana. Flânerie...

Junho de 1999

Entro no Museu de Artes Plásticas “Quirino da Silva” da cidade de Mococa.

Recordo queridas leituras. Saber escolar e sabedoria de vida. Eclode um fragmentado debate interior de idéias: o mundo dos objetos e o algarismo obsessivo do homem. Apropriar-se é fragmentar o mundo. Com a linha oculta que liga o filósofo e o historiador, reflito: a filosofia pergunta pelo conceito, cumprindo tal indagação, não raramente, um sentido metafórico: a caverna de Platão; a união de Eros e da Paidéia resulta na intelectualização da paixão...

A história procura a uniformização das ruínas do passado, emprestando-lhes um sentido, em virtude de terem sido fatos, dispersos...

A era moderna quebrou o antigo elo que unia poesia e mito. Lições de Benjamin: a tradição tem um caráter destrutivo, ela é inautêntica e identifica-se com a destruição. Experiência e pobreza acompanham o desenvolvimento da técnica. Os fatos perderam qualquer significado “a priori”. O homem deve enfrentar o mundo a cada instante como se fosse o primeiro. Não há nenhuma ordem prévia que estruture o real, nem as experiências vividas. Não há mais a possibilidade de transmissão da experiência já que não é mais possível a constituição de uma tradição. Experiência e pobreza, pobreza de experiências: “a informação jornalística afasta-se diametralmente da informação fornecida por uma história contada de acordo com a narrativa tradicional” - insiste Benjamin.

Rodopios da linguagem nos mares do tempo perdido. Maresia, lições hegelianas: “Pensar a vida, eis a tarefa.”

A irrupção do cotidiano nas páginas do centenário jornal “A Mococa”... A linguagem parece esteira rolante (lembro Barthes: desde Aristóteles, a retórica edificara um sistema de vigilância; esse código agoniza no século XIX...) na liberdade da escritura do poeta, do escritor, do jornalista. Mar de palavras: crônicas, notícias, anúncios... a trama evocativa de imagens do passado, no presente em que as transcrevo, parece se fazer na própria tessitura do tempo. Colho, então, fragmentos de histórias esquecidas. E, com roupagens de outras épocas, chegam os personagens, que ensaiam a segredar-me os sentidos dos fatos, e estes começam a assumir o tamanho do exato assombro que o presente me provoca:
1896: Alfaiataria Queiroz; Inauguração da Matriz Nova; Obras do Collegio; Pharmacia Confiança; Alla Colonia Italiana di Mococa; Parteira italiana; Os alemães no Brazil. Photographia Luzo-Alemã; Gymnasio Mocoquense; Humberto de Queiroz é professor...
Carnaval de 1897. Basta de Spleen!; Festa de São Sebastião...
1899: Lindos Chromos; Photographia Allemã...

Numa derradeira noite de Julho de 1999:
Noite baixa, noite velha. Casa retangular encimada por um ângulo de telhas. Casa de quatro quartos, para os rapazes professores, para os exilados. O céu baixo declina sobre as terras do povoado de São Sebastião da Boa Vista (atual cidade de Mococa/SP). Cerração, nevoeiro, tudo é silêncio. Abro os meus olhos insones para um céu sem estrelas. Céu de nuvens, qual campo invertido, como castelos tenebrosos. Caminho vagaroso para o leito. As palavras do literato Plínio Salgado riscadas em minha mente: “As cidades têm uma alma, que paira sobre o panorama urbano: a projeção de todas as almas que lutam, sofrem e sonham no seu bojo”.
Melancólicas lembranças: recordo os meus mortos, imigrados da Itália, de Portugal e da Rússia. Adormeço a repassar anúncios, crônicas... releio mentalmente velhos artigos.

A província e o mundo correm diante dos meus olhos; ciranda de imagens, de palavras, escrituras...

Sedimentação de caracteres civilizadores sobre os rastros dos indígenas, dos bandeirantes, dos colonos estrangeiros...

Outrora, nesse pedaço do velho oeste paulista era tudo café e italianos...

Estado d’alma no ambiente: triste, qual exílios...

O remate das cantigas roceiras desdobra-se. “Como ferro de bater, grita a araponga, repercutindo os ecos do sertão” (B.Lopes). Cantiga cabocla, toada sereia que falava aos nautas de Ulisses sobre os mistérios do mar...

“Festa da Epifania” em minhas re-lembranças. Uma cantiga:

“Mão de Nossa Senhora

vem ajudá fazer esse encontro

pros Três Reis,

chegaram agora.

No Belém nasceu uma estrela,

ela veio fazendo uma guia,

enviar aos Três Reis Santos

o caminho que eles seguiam...

A estrela que os guiava

de novo deu um sinal...” (Domingos de Moraes. Oração de Folia de Reis)
Súbito... fogo-fátuo, fosforescência, brilho, repentina manifestação: “epiphaneia”, aparição, o ver... epifania em meus olhos:
A minha musa, a minha pobre musa,

De riso á bocca e flores na cabeça,

Morena virgem, rustica e travessa,

Que um vestidinho dos mais simples usa;...”
Por um momento apenas, e não mais. Momento de êxtase, luz instantânea. Em foco exato, o meu olhar procura ajustar as feições dos seres, feições sujeitas a inúmeras combinações.

Por um momento apenas, e depois tudo se dissolve sob os meus passos rumo a Campinas.

Ao longo da estrada deserta, a madrugada deita escuridão sobre planaltos e planícies. Céu sem estrelas. Nas trevas, lanternas vermelhas ziguezagueiam. O noturno passou Casa Branca. “As cidades têm uma alma...”: Mogi-Guaçu... Mogi-Mirim! Cidade banhada na aurora, frio na manhã brumosa... Jaguariúna. Meu pensamento em turbilhão re-volta a digerir quilômetros nas auras vespertinas das campinas.

A claridade nascente me traz de volta à vida.

A minha casa branca, onde vivem meus pais, meus irmãos, minhas sobrinhas. Corredor um pouco escuro e, lá no fundo, a porta estreita da biblioteca. Entro em meu labirinto de papel. Recordo palavras do filósofo dos devaneios, da imaginação: “O sonhador tem por esteira um labirinto”, diz Bachelard. Eu me interrogo e me questiono. Antigas lições riscam minha memória. O jogo das palavras: o fio de Ariadne é o fio da escritura. Eu me debruço sobre os meus papéis de pesquisa, sobre meus apontamentos. Meu olhar desorientado tateia, em olhadelas, os rabiscos das minhas anotações, a teia-textual dos meus originais; epifanias:
Cia. Illusionista Ítalo-Franceza
A Nossa Estação (Mogyana)

Benjamin Filho é Pae


o Pae de Mococa, “Filho de peixe sabe nadar”
Theatro S. Sebastião - 1º espetáculo Grupo Dramático Benjamin Magalhães
Salão High-Life. Barbearia bem montada. Junto à popular “Casa Feliz”
Gremio Litterario-Recreativo de Mococa, dirigido pelo Coronel Manoel Caetano de Figueiredo
Arraial Novo das Canoas
Ao Chic mocoquense” – Alfaiataria Perrone
Collegio Rosa, Estação Jaguary, linha Mogiana
1899! Lindos Chromos
Chromo. B.Lopes

Súbito... visão reveladora, e a escritura assume um brilho especial aos meus olhos: “1899! Lindos Chromos”. Jóia que cintila no papel, o esplendor vem do manuscrito, do conjunto de anúncios, das manchetes da centenária “A Mococa”:


Os alemães no Brazil

Photographia Luzo-Allemã



Photographia Allemã

Fio de Ariadne e os segredos do labirinto-sertão. Abre-se uma sucessão de cenários e de enredos sobre a larga estrada. E eu? de volta a Mococa, sol a pino...



Agosto de 1999

Entro no Museu de Artes Plásticas “Quirino da Silva” da cidade de Mococa.

Eu me limito a repertoriar as minhas leituras extraídas das antigas edições d’ “A Mococa”. A minha imaginação, ancorada em epifanias, escolhe, circunscreve, retalha e evidencia o objeto. E o objeto, ou melhor, a escritura realiza sua própria epifania. “A Mococa” – 1896:

PHOTOGRAPHIA LUZO-ALLEMÃ

De


Teixeira e Pieper

Tiram retratos em photographia simples

pelo systema mais apefeiçoado

Photographias coloridas pela nova invenção


photo-pintura
Largo da Matriz Velha

(em frente ao Mercado)

Mococa




OFFICINA ELECTROTECHNICA

  • de –

Pieper e Eggers...

R:27, Rua do Triumpho. nº 27

S.Paulo

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CESURA

Retorno às páginas do já clássico levantamento de fotógrafos atuantes no Brasil no século XIX, elaborado pelo professor Boris Kossoy (o referido texto foi localizado, em finais de 1999, na cidade de Rio Claro/SP, mediante o auxílio do meu amigo, historiador e economista, Márcio José Ferreira). Revisito a relação de fotógrafos na página 113. Releio:


Nome do fotógrafo Local Década

B.Lopes Rua do Hospício, 104 1870


Rua do Ouvidor, 62


Rua 1º de Março, 27

Rio de Janeiro - RJ

Na página 117, re-localizo:
Nome do fotógrafo Local Década

B.Pieper Rua do Rozario,77 – Jundiahy-SP 1900

Observações

Photographia Allemã

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Setembro e Outubro de 1999

Local: Redação do jornal “A Mococa”.

Atividades: consultas à hemeroteca localizada nos internos do prédio que é sede d’ “A Mococa”. Releio e confiro, nas páginas d’ “A Mococa” (edição 105, p.3), as anotações já registradas em meus papéis desde julho de 1999:

PHOTOGRAPHIA BRAZILEIRA



Miguel José de Souza e Silva, photographo residente nesta cidade e já bastante conhecido, tendo feito uma excursão pelas principais cidades deste Estado e Minas, comunica a seus amigos que em breve de novo aqui se achará.

Durante a sua ausência, aperfeiçou-se com grandes vantagens na arte photographica, tendo feito uns estudos com um hábil professor do Rio de Janeiro, de forma que não teme a competencia em trabalhos congeneres.

São preços bastante modicos, porque aqui reside. Espera, portanto, a frequencia de seus amigos, experimentando seus trabalhos.

Miguel José de Souza e Silva.
Em seguida, releio:
PHOTOGRAPHIA ALLEMÃ

de B. PIEPER
52. Rua Cel. Diogo, 52

(em fte a casa do Major Benjamin de Magalhães)

O proprietário desta PHOTOGRAPHIA, com longos anos de pratica na casa HENCHEL (J. Vollsack) S. Paulo, garante perfeição em seus trabalhos e em preços. Casa especial em retratos de creanças, grupos e augmentos de retratos antigos. Tira-se retratos todos os dias. Trabalhos garantidos – iguaes as das primeiras casas da capital.

Prossigo na leitura dos jornais, procurando acrescentar novos dados encontrados em algumas edições d’ “A Mococa” (período de 1896 a 1899) ausentes na hemeroteca do Museu de Artes Plásticas “Quirino da Silva”...


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CESURA
Novos cenários da pesquisa.
Quem encontra ainda pessoas que saibam contar histórias como elas devem ser contadas? Que moribundos dizem hoje palavras tão duráveis que possam ser transmitidas como um anel, de geração em geração?”

(Walter Benjamin. Experiência e pobreza)

Trechos da história da sra. Maria Ângela Óca:
_ A vinda, a vinda deles, posso começar pela vinda dos meus pais, são Manoel Óca e Orlanda Óca (...) Eu nasci em 29 de agosto de 1929... Eu me lembro da minha infância, meu pai tinha uma fábrica de brinquedos (...) Meu pai tinha uma farmácia, uma farmácia grande (...) Nos sábados, naquela época, o pessoal ali da roça, da zona rural, era muito povoada... eles vinham, aos sábados, pra comprar na cidade...”
Local da entrevista: Prédio da Prefeitura Municipal de Mococa, entre o Teatro Municipal de Mococa e o Museu de Artes Plásticas “Quirino da Silva”.

Período da entrevista: de 23.07 a 13.08.1999

Atividade profissional da entrevistada no referido período: professora de artes musicais.

Cenário do local em 1999: sala de aula, instrumentos musicais, piano!

Cenário do local em 1899 (vim a descobrir meses após a entrevista!): PHOTOGRAPHIA ALLEMÃ, de B. Pieper (o referido fotógrafo alemão manteve atelier fotográfico noutros endereços da cidade de Mococa, como por exemplo: Largo da Matriz Velha (em frente ao Mercado) ou Largo do Mercado, num. 6.
A força de Glück! Deposito nas mãos da sra. Maria Ângela Óca a partitura da ópera “Orphée et Eurydice”, do compositor alemão Christoph Willibald Glück (1714-1787). Ao piano, a sra. Maria Ângela Óca ensaia o prelúdio do Ato IV, e a melodia expressa a dor da perda:

J’ai perdu mon Eurydice



rien n’égale mon malheur;

sort cruel! quelle rigueur!...”

Trechos da história do entrevistado sr. Hermínio Faraco:


Nasci em Três Barras, em Mococa. Três Barras era uma fazenda (...) Eu nasci em 19 de abril de 1913 (...) Nós mudamos pra cidade. Lembro daquela casa, que hoje é sorveteria, do lado do Teatro Municipal, tudo aquilo era do meu avô, tudo aquilo foi vendido, era um patrimônio do Miguel Garófalo, avô materno; o paterno eu não conheci, porque ele morava na Itália. A casa... eu vou recordar... eu recordo: naquele casarão, aquele casarão velho lá, que eu atravessei... era um casarão velho, muito grande. Aquele [casarão] velho reformou, passou por diversas reformas o casarão (...) Era chão de tijolo e cimento. Usavam muito cimento naquele tempo, só que o cimentado era perfeito, porque não tinha cimento nacional, o cimento vinha da Alemanha. Era cimento especial. Da Alemanha vinha o cimento, em barricas...”

(Nota: o sr. Hermínio Faraco refere-se ao conjunto de prédios, local onde foram colhidas as entrevistas da sra. Maria Ângela Óca!)


Local da entrevista: residência do depoente, em Mococa (em frente à antiga residência dos fotógrafos Irmãos Bonora).

Período da entrevista: de 10.02 a 25.02.2000.

Sr. Hermínio Faraco:


...Nossa Senhora! Aqui nesta esquina! Ele era fotógrafo, parece que ele tinha uma vista, era cego, de um olho. Eu sei que ele tinha um problema na vista. Ele morou nessa esquina, aqui. Nossa Senhora! Eu era moleque! Olha, ele veio da Itália, o velho. Não me lembro... eu sei que nós ‘chamava’ de Bonora, os filhos dele. Ele era fotógrafo. Aí, na esquina, essa casa foi dele... aí em frente, na Visconde do Rio Branco [deixo o sr. Hermínio no leito e sigo até a janela]. Aí em frente, de lado, é de lado, vê? Nossa Senhora! Mococa era uma família só...”


Outubro de 1999
Na casa retangular, casa de quatro quartos, revisito as minhas anotações e, na edição 682 d’ “A Mococa”, de 10/10/1909, leio na página 2:
O sr. Manoel Óca mudou a sua officina de alfaitaria para a rua Visconde do Rio Branco, junto a esta typographia (d’ “A Mococa).”
Passo para as anotações da edição 684, página 2, e leio:
CINEMATOGRAPHO – A excellente empreza cinematographica MALIOCA, Bonora e Magalhães, reserva hoje, aos seus freqüentadores, um programma em que figuram fitas de grande novidade.”
Nas anotações da edição 849, página 4, de 24.11.1912:
Irmãos Bonora (fotógrafos)...

José Euclydes de Carvalho (letreiro e tipografia)...”

Trechos da história da sra. Ophelia Baston Bonora (tia da jornalista, entrevistadora e atriz Marília Gabriela – sobrinha de Virgínio Bonora):


Meu nome é Ophelia Baston Bonora. Nasci em 30 de março de 1908. Meu marido, Virgínio Bonora, era de 16 de maio de 1901. Ele tinha uma irmã que foi morar... ele foi morar em Mococa, tinha um hotel em Mococa, “Hotel dos Viajantes”, lá em Mococa. E eu fui... Era ver a minha mãe brava comigo, sabe.

_ Vamos deixar ela ir pra Mococa?!

Fui, uma vez.

Cheguei lá, e eles tomavam conta do cinema, os Bonora, os irmãos Bonora. Delfino Primo e os filhos: Íride, Virgínio, Ernesta, Alzira. Eles tomavam conta do cinema. Então, eu, quando fui ao cinema... não tinha intervalo antigamente no cinema, né? Tinha música. Assim, fui passear em Mococa...”
Local da entrevista: residência da depoente.

Período da entrevista: entre 02.12.1999 e 02.06.2000

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CESURA
Sucessivas propagandas aparecem nas páginas de “A Mococa”, alcançando o ano de 1899. Par a par: PHOTOGRAPHIA ALLEMÃ, de B. Pieper, e PHOTOGRAPHIA BRAZILEIRA, de Miguel José de Souza e Silva.

PHOTOGRAPHIA BRAZILEIRA

De

Miguel José de Souza e Silva


Tendo fixado de novo sua residência nesta cidade e estando o seu Atelier Photographico perfeitamente montado, em condições de satesfazer as exigencias do publico, tira retratos desde o menor formato, ao formato salão.”

Mococa. Rua Alferes Pedrosa, nº 1”

Na edição de setembro de 1898 d’ “A Mococa”, na página 2, leio:

Photographia Allemã de B. Pieper. O proprietário desta conhecida photographia pede aos seus fregueses e amigos que (...) visto pretender retirar-se desta cidade...”

N’ “A Mococa”, nº 134, página 4, edição de 1899, leio:


PHOTOGRAPHIA ALLEMÃ

Largo do Mercado


Num. 6
Ainda, na página 4, os versos da poética de B. Lopes:
CHROMO
Na alcova sombria e quente

Pobre de mais, se não erro

Repousa um moço doente,

Sobre uma cama de ferro.

Pede lhe baixo, inclinada


Sua mulher – que adormeça

Em cuja perna curvada

Elle reclina a cabeça...
Vem uma loura figura

Com a colher da tintura

Que elle recusa, n’ um-ai!
Mas o solicito anjinho

Diz-lhe com riso e carinho

_ “Bebe que é doce, papae.”

(B.Lopes)

Eis o quadro: poéticas, fotógrafos e retratistas, narradores...
A história da fotografia na cidade de Mococa e região reconstruída por meio de imagens: B.Pieper, João Teixeira, Prioli (Photographia Italiana), Miguel José de Souza e Silva, Antonio Preto (Antonio Joaquim Teixeira), Delfino e Virgínio Bonora (Irmãos Bonora), José Euclydes de Carvalho, Fernando Garcia, Germano Eyber, Honório Ferreira Pinto, Francisco Matheus Filho, Lauro D’Angelo...

E por meio de relatos de vida* dos senhores: Mário Zamarian, Álvaro de Barros Cautela (seu Tuta), Saulo Pereira Lima, José Dias de Andrade, Francisco Célio Matheus (filho do fotógrafo e retratista Francisco Matheus Filho ou “Chiquinho Retratista”), Hermínio Faraco, Domingos de Moraes, Lysia Paulino Luz, Paulo Afonso Boarati (enteado do fotógrafo e jornalista Lauro D’Angelo);


e das senhoras: Maria Ângela Óca, Julieta Cautela, Rosa Maria Ferreira (filha do fotógrafo e retratista Honório Ferreira), Rosa Mancuso, Ophelia Baston Bonora e Norma Baston Bonora (mulher e filha, respectivamente, do fotógrafo Virgínio Bonora), Mariquinha Matheus (mulher do fotógrafo e retratista Francisco Matheus Filho), Bárbara Elias (D. Borbora), Sofia Lima Dias, Lígia Pereira Lima da Costa, Aurélia Guidorizi e Ermelinda Guidorizi (primas do fotógrafo Afonso Guidorizi, cuja profissão aprendeu mediante as lições de Tufi Sabá, fotógrafo estabelecido na cidade de Arceburgo/MG), Benedita Helena Coelho Marcelino e Palmira Avelino Boarati (mulher do fotógrafo e jornalista Lauro D’Angelo).

(* os depoimentos acima – que, no total, somam 25 horas de gravação - foram colhidos junto aos entrevistados entre maio de 1999 e julho de 2000.)



2º semestre de 1999 e 1º semestre de 2000

Alinhavo os dados empíricos recolhidos para a pesquisa. Novo levantamento bibliográfico. “Flanêrie” em meio aos labirintos de papéis: bibliotecas da Unicamp, da USP, da PUC-Campinas; aquisição de livros (Editora e Livraria Pontes-Campinas). Temas revisitados/estudados: história, narrativa, análise do discurso, semiótica, fotografia, estética, literatura, movimento simbolista brasileiro...

Obra rara: “CHROMOS”, de B. Lopes. 2ª edição, augmentada. Rio de Janeiro: Fauchon & Cª - Editores: 1896 (Só me resta uma alternativa: transcrever manualmente todo o conteúdo do livro. Período: 3 meses).
A chamada “Nova História”: historiografia moderna, paradigma do “saber indiciário” - Carlo Ginzburg. Sinais: a observação dos pormenores, uma assinatura: B.Pieper... como localizar toda a história, a trajetória do referido fotógrafo?

Tornei-me, então, “andarilho” pelas ruas de Mococa. Localização do acervo fotográfico de Lauro d’Angelo... milhares de negativos; trabalhos de catalogação de fotos (no negativo) da década de 50 = 5 meses. Pistas de B.Pieper ?!

Entro em Jundiaí/SP; retorno a Jundiaí... destino: Rua do Rozario, 77: ruínas. Visita a museus, confiro documentos, hemerotecas, cartórios. Em busca de rastros... B. Pieper.

Releio as teses de Benjamin “Sobre o conceito de história”. Tese 3:


O cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história”.
Levantamento bibliográfico de crônicas de cidades paulistas. Releio o estudo de Humberto de Queiroz intitulado “A Mococa, de sua fundação até 1900”...

Retorno às minhas anotações. “A Mococa”, edição 606, de 26.04.1908:

MAJOR BENJAMIN MOREIRA COELHO DE MAGALHÃES (escrivão do segundo cartório de nossa Comarca). Natural de Portugal. Um dos 1º povoadores desta cidade (inteligência e habilidade no trato dos negócios). Coração generoso, protegeu os órphãos (...) Sobre o féretro foram depostas coroas por parte de seu compadre e amigo João Teixeira, do dr. Aureliano Duarte e da sociedade Nuova Itália...”

Na edição 115, de 1898, leio:



“Exposição de Quadros


do sr. Agnello Corrêa residente em Campinas (...) abrio uma excelente explendida exposição na “PHOTOGRAPHIA PIEPER” (...) figuram na exposição retratos do capitão Antonio José Dias de Lima e esposa (...) Cel. Pereira dos Santos, D. Messias Candida Ribeiro, major Antonio Xavier de Sousa, Dna Adelaide Correa Dias (...) retratos de D.Pedro II, Campos Sales, Floriano Peixoto...

Sr. Agnello recebe encomendas...”

2º semestre de 2000
Encontro-me envolvido na organização e preparativos da inauguração da “I Exposição de Fotografias Lauro D’Angelo”.
Na edição d’ “A Mococa”, de 14 de outubro de 2000, figura a seguinte manchete:

Exposição de fotografias de Lauro D’Angelo na ‘Semana do Instituto’



De segunda a sexta-feira da próxima semana estará acontecendo a ‘Semana do Instituto’, realização do Instituto de Ensino Superior de Mococa. A exposição de fotografias de Lauro D’Angelo – falecido em 1979 – é um dos destaques (...) A mostra de fotografias foi organizada pelo professor Sílvio Medeiros, coordenador do CePAC – Centro de Pesquisa e Ação Comunitária, que descobriu centenas de negativos em poder da família de Lauro D’Angelo. As fotos são do período compreendido entre 1951 (quando Lauro D’Angelo chegou a Mococa) e 1970 (...).”
Na edição de “O Destaque de Mococa”, de 20 de outubro de 2000, lemos:

Com um alto investimento, total habilidade e criatividade cultural, o Centro de Pesquisa e Ação Comunitária, o CePAC do Instituto de Ensino Superior de Mococa promove até este sábado, no prédio da faculdade, a 1ª Exposição de Fotos do arquivo fotográfico de Lauro D’Angelo.



A Exposição, contendo 300 fotos, retrata em preto e branco fatos sociais, culturais, esportivos e políticos das décadas de 50 e 60 (...).”


Finais de 2000

Entro em recesso escolar: são as férias escolares. Deixo Mococa. Retorno para o meu labirinto de papel. Epifanias: várias imagens e a formação de uma unidade diversificada. É impossível lembrar de tudo. Recordo e busco anotações das lições transmitidas pela professora Jeanne Maria Gagnebin (estudiosa do pensamento benjaminiano): a pesquisa histórica não trabalha com a totalidade histórica. História é acontecimento e narrações. É unidade de experiência vivida. Compreender algo é reviver a experiência do Outro, do morto. O embate entre “Erlebnis” (mera experiência vivida) e “Erfahrung” (experiência adquirida durante a travessia, durante “a viagem”). O nosso presente parece uma estátua que vem de muito longe, e que foi quebrada. Resta-nos tão-somente o torso. O que nos sobrou nesse processo de quebra? A imagem do passado é frágil. O historiador é trapeiro, ele recolhe aquilo que foi deixado de lado pelo desenvolvimento da civilização (Carlo Ginzburg). Diálogo com os mortos... Recolher os trapos de uma história que ainda não foi contada. O historiador deve buscar o detalhe naquilo que foi “deixado” de lado ou preterido ao longo do processo histórico. O historiador é aquele que recolhe os panos velhos (Walter Benjamin). Ulisses, herói da “Odisséia”, é aquele que viajou muito, e sofreu, muito! A idéia de sofrimento (da viagem) e a idéia de formação andam juntas. “Sentir na pele” é experiência adquirida na viagem. O narrador é aquele que viajou, ou aquele que tem estreitas relações com o seu lugar. O passado histórico está impregnado de subjetividades. Reflito sobre a historicidade do passado, porém nunca chego ao conhecimento absoluto dos fatos. Concluo: não existem fatos, mas interpretações, várias versões do mesmo acontecimento. E qual a razão das diferentes versões?! Releio “Sobre o conceito de história”, de Benjamin: o vocabulário é difícil! Texto labiríntico: pano sobre pano, rolo de papiro. Texto sobre texto: palimpsesto benjaminiano.



Necrológio do Final de Milênio (à memória do sr. Hermínio Faraco, que veio a falecer no decorrer das entrevistas)

Da morte de um velho:


A perda com que esta morte possa afetar alguém muito mais jovem dirige seu olhar, talvez pela primeira vez, para aquilo que pode reinar entre duas pessoas separadas por uma diferença de idade muito grande e, apesar disso, ligadas por afeição. O morto fazia as vezes de um interlocutor com quem, certamente, não se podia tocar na maior parte dos assuntos, nas coisas mais importantes, que dissessem respeito à pessoa. Em compensação, a conversa com ele era cheia de um frescor e de uma paz que nunca seria possível com um coetâneo. Isso, porém, tinha suas razões distintas. Primeiramente, todas as confirmações, mesmo as mais insignificantes, aproximaram-nos por sobre o abismo entre gerações de modo mais categórico do que se fosse entre iguais. Em seguida, contudo, o mais jovem encontrou aquilo que depois – quando os velhos o terão abandonado – desaparece totalmente, até que ele mesmo se torne velho; o diálogo que se mantém completamente afastado de todo e qualquer cálculo e de toda consideração exterior, porque um nada tem a esperar o outro, ninguém se depara com os outros sentimentos senão aquela rara benevolência sem qualquer mistura.” (Walter Benjamin)

Sr. Hermínio Faraco:


Hotel Terraço! Tradicional, famoso. Tem muita gente que quis conhecer o Hotel Terraço, do começo, de luxo... um quarteirão (...) Ah, eu me lembro! Faz muitos anos. Naquela época, eu não estava em Mococa. Passei muitos anos fora... lá ficava o Lauro D’Angelo (...) O Lauro D’Angelo vendia jornais, revistas. Ele era fotógrafo (...) O Lauro D’Angelo era o repórter da cidade. Qualquer acontecimento, ele tava lá com a máquina...”

Início de 2001- O CHAMAMENTO

A minha musa, a minha pobre musa,



De riso á bocca e flores na cabeça,

Morena virgem, rustica e travessa,

Que um vestidinho dos mais simples usa;”

Atribuição de aulas na Faculdade Cenecista de Capivari.

Curso de Pedagogia

Disciplina: História da Educação

Docente: Prof. Dr. Sílvio Medeiros
Entro na cidade de Capivari/SP.

Recordo que “as cidades têm uma alma, que paira sobre o panorama urbano: a projeção de todas as almas que lutam, sofrem e sonham no seu bojo”.

Antes de me dirigir à faculdade, procuro o Museu Histórico da cidade de Capivari. Próximo da rodoviária...?! Enfim, é experimentar. Lá chegando, solicito à atendente a coleção de fotos do Museu. Ei-la!... O sol atravessava uma das frestas da janela e batia nas fotos. Sob o sol de legenda desdobra-se, diante dos meus olhos, o cenário da Capivari antiga...

Contudo, meu relógio gritou, anunciando a campainha da faculdade. Compro jornais do lugar. E prossigo falando, em pensamento, de cor, as lições que eu vinha ensaiando (Sófocles, Platão, São Tomás de Aquino, Shakespeare, Umberto Eco, Marx...). Rumo à sala de aula...

Sigo a marcha do cotidiano... À margem da Mogiana, à margem da Sorocabana... silêncios picados de enxada, árias na boca, deuses à cabeça, e “através da folhagem miúda bordava o sol, ao pino. Policromia musical da mata” (B. Lopes). CAMPINAS-MOCOCA-CAMPINAS-CAPIVARI...

Dois personagens alemães: um fotógrafo e uma professora
Há poucos meses, um conjunto de cartas desaba sobre as minhas mãos. Concerto epistolar: “Leid und Freund einer Erzieherin in Brasilien”. Autoria: Ina von Binzer - professora alemã. Inicio a leitura:

29 de maio de 1882


Minha querida e boa Grete.

Meus discípulos romanos são realmente muito mal educados e preciso recorrer a variados recursos pedagógicos para tratar com eles...
Professora ambulante.”

Prossigo a leitura do livro:

São Sebastião, 11 de julho de 1882.
Minha querida Grete.

Não há dúvida que São Francisco era um santo muito mais elegante, aqui somos bastante primitivos — apesar disso entendo-me melhor com São Sebastião...
Sua florestal Ulla”

Ina von Binzer — assinando cartas com o pseudônimo literário de Ulla, era professora alemã em casas de ricas famílias brasileiras, em finais do século XIX. A fazenda São Sebastião chamava-se realmente São Luís, e ficava nas proximidades da cidade de Americana/SP. Outra era a fazenda Bela Vista, em Capivari/SP.

CAMPINAS- MOCOCA- CAMPINAS- CAPIVARI... noites tropicais, o vento sopra nas matas, alvoroçando as ninfas peninsulares...

Minhas tarefas, na qualidade de professor-pesquisador, tendem a se avolumar: participar como membro titular em banca examinadora de tese. Pensar o Curso Normal Superior. Encaminhar Projeto Foto Radium (1ª Exposição de Fotografias em CD-ROM). Ministrar aulas em cursos de graduação e de pós-graduação. Adquirir acervo fotográfico de Lauro D’Angelo: ausência de capital, dificuldade em obter financiamento (55 mil negativos!!). Proferir palestras. Inaugurar congresso de educação. Preparar projeto de curso “lato sensu”. Orientar projetos de pesquisa. Reorganizar dados empíricos da pesquisa histórica e encerrrar pesquisa bibliográfica...

Outubro de 2001

Sigo trilhas... CAMPINAS- CAPIVARI


Antes do início da aula, entro na Biblioteca da Faculdade de Capivari.

Procuro pelas crônicas da cidade. Havia uma que dizia poesias. Outra sobre a imigração italiana. Súbito, uma tela de Antígona percorre meu pensamento... No labirinto de papel, leio títulos de livros, de revistas. Busco crônicas. O carinho do filho pelo pai: Hamlet... Em pensamento, abri os braços e gritei : _ Ina! esperei... silêncio. Italianos, negros, caboclos, alemães... Caminhos dos bandeirantes. O ideal de italianidade na pátria nova... Recordo-me de Bertolt Brecht e evoco: Alemanha mãe-pátria, apareça!

Solicito à bibliotecária, a sra. Eneida, outras sugestões sobre livros de crônicas do lugar. Próximo, o diretor da faculdade, o sr. Luiz Donisete Campaci, acompanha o meu pedido. Ele me sugere, então, a leitura de um livro que eu ainda não visualizara, cujo título é “O Menino de Capivari”, de Vinício Stein Campos. Três volumes! Agradeço e me dirijo à mesa mais próxima. Começo a folhear o primeiro volume, buscando no índice os sub-títulos sugestivos. Percorro o volume II. Em seguida, abro o volume III. Leio no índice “Cap.XV – Servidores da memória da cidade”. Abro o referido volume na página 99. Leio, então, o seguinte:

Dentre os memorialistas que concorreram, direta e indiretamente, para a preservação das imagens de Capivari de outrora, seus vultos ilustres e populares, aspectos da cidade, reportagens fotográficas de acontecimentos locais, retratos de elementos da vida social, política, religiosa, militar, artística, escolar, etc., queremos recolher, nestes apontamentos, os nomes dos fotógrafos aos quais devemos inúmeros retratos desses velhos tempos (...) [p.100]. Anotamos, entre os profissionais que nos deixaram os retratos mais antigos da cidade e dos seus habitantes, o famoso Militão, estabelecido com atelier fotográfico em S.Paulo, à rua da Imperatriz, 58; Carlos Hoenen, com sua Photografia Allemã, à rua do Carmo, 74; Bernardo Kohring, rua de S. Caetano, 83; J.B.Queiroz de Assunção, Iglesias e Bredif, Bernardo Pieper, Lobenwein e João Pompe, de Piracicaba, Augusto Pinto, de Santos, Antonio de Capdevila, Francisco Bauth, Teodoro Alemão, Antonio Maccari e sobretudo, Julio Giaxa, de Capivari...”



BERNARDO PIEPER! Após dois anos de procura, de pesquisa, encontro o novo local que, há dois séculos atrás (século XIX, em 1899), o fotógrafo Bernardo Pieper escolheu para se estabelecer ao deixar a cidade de Mococa! A cidade de Capivari! Momento epifânico! Eu, o professor, refazendo, um século depois, o mesmo trajeto do fotógrafo B. Pieper!! Na minha mente cintilam, em bela constelação, os versos do poeta Bernardino Lopes:

A minha musa, a minha pobre musa,



De riso á bocca e flores na cabeça,

Morena virgem, rustica e travessa,

Que um vestidinho dos mais simples usa;”

(B.Lopes. Chromos)

MOCOCA-CAPIVARI-PIRACICABA-JUNDIAÍ... B.Pieper. Rua do Rozario, 77 – Jundiahy – SP/ Década: 1900/ Observações: Photographia Allemã.


Mococa, 14 de Agosto de 1999
Trechos da história da sra. Albertina Ribeiro (D. Benzuca) narrados pelo sr. Saulo Pereira Lima:
Meu avô ia, de vez em quando, na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Brasil (...). Numa dessas idas para o Rio de Janeiro, ele acabou conhecendo um grande político da época, Benjamin Constant. E foi realizado, nessa ocasião, na cidade de Petrópolis, um leilão de todos os móveis do então Imperador do Brasil, D. Pedro II; e o Benjamin convidou o vovô para esse leilão. Vovô, ali presente, arrematou todos os móveis de sala do então Imperador; arrematou inclusive a cama do casal e arrematou, finalmente, o próprio retrato do Imperador (...). Em Mococa, parte desses móveis, principalmente a cama do casal, ficou para o seu filho Antônio José Dias Lima Sobrinho, o tio Tonóca, marido da tia Argentina e pai da Albertina, a Benzuca...”

Campinas, madrugada de 05.12.2001
Abro o meu correio eletrônico e visualizo um e-mail enviado pelo meu amigo, professor e filósofo, Rodrigo Ortiz Salema (que acompanha, desde o início, todas as histórias registradas no presente dossiê), cujo conteúdo aponta para um livro recém lançado no mercado editorial brasileiro. Trata-se de “Fotógrafos Alemães no Brasil do Século XIX”, de autoria de Pedro Vazquez.

Passo à leitura do anúncio:


...a publicação apresenta, pela primeira vez, o pitoresco olhar de fotógrafos alemães oitocentistas sobre o Brasil (...). Estes fotógrafos migraram para o Brasil em uma época em que aqui havia um ambiente extremamente receptivo à sua chegada. Além do colorido, da beleza local e da geografia tão peculiar, no Brasil Imperial existia um bom núcleo de imigração alemã e até um jornal destinado a eles. Ao longo dos anos, a presença destes artistas contribuiu para a profissionalização da atividade, e, principalmente, para a melhoria técnica e estética do que era produzido neste país. “A influência destes fotógrafos foi tão profunda que não é de forma alguma exagero afirmar que a fotografia brasileira seria muito menos criativa sem sua presença.” - justifica o autor.

Vinício Stein Campos (professor, historiador, escritor, conferencista, museólogo) nasceu em Capivari em 24.10.1908. “Semeador de Museus”, vigoroso defensor da memória nacional (...) tal como um bandeirante de melhor estirpe, levou aos mais longínquos rincões, sua palavra vibrante, cheia do mais sadio patriotismo, sempre realçando a importância dos Museus como autênticos laboratórios de cultura aos valores maiores dos fastos e da gente brasileira. (...) Honra e glória ao paulista de Capivari, símbolo do caráter e nobreza da gente bandeirante. O admirável protetor dos Museus...”

Relação dos Museus que nasceram e se implantaram com o concurso de VINÍCIO STEIN CAMPOS (entre 1957 e 1978). Museus — Conselheiro Carrão, de Americana, Bernardino de Campos, de Amparo (...) Cesário Mota, de Capivari (...) Marquês de Três Rios, de Mococa...*



O cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta que a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história. Sem dúvida, somente a humanidade redimida poderá apropriar-se totalmente do seu passado. Isso quer dizer: somente para a humanidade redimida o passado é citável, em cada um dos seus momentos. Cada momento vivido transforma-se numa “citation à l’ordre du jour” — e esse dia é justamente o do juízo final.” (Walter Benjamin. Sobre o conceito de história).

Nota: * Sobre os dados há pouco referidos: foram recolhidos junto a minha ex-aluna Maria Lúcia Mader de Mello, do curso de Pedagogia da CNEC de Capivari, em 2001.
OBS: Uma vez finalizados os trabalhos de conclusão das propostas apresentadas no presente projeto de pesquisa – o que implica em coligir todo o material empírico que escolhi e recolhi -, fato que resultará na edição de dois volumes, os dados empíricos até o momento colhidos serão doados, para futuras consultas, à Universidade Estadual de Campinas – Unicamp - Núcleo: Centro de Memória.

PROF.DR. SÍLVIO MEDEIROS


Ex-docente e coordenador do Centro de Pesquisa e Ação Comunitária (CePAC) do Instituto de Ensino Superior de Mococa/SP — IESMoc e da Faculdade Cenecista de Capivari/SP.

MOCOCA- CAMPINAS – CAPIVARI

Primavera de 2001

NOTAS/ julho de 2006:
1) O presente roteiro de pesquisa foi editado e distribuído - em livro - pela FACULDADE CENECISTA DE CAPIVARI, em dez/2001.

Primeira edição: 500 exemplares.

Capa: “Uma Virgem Trácia com a Cabeça de Orfeu”, de Gustave Moreau.

Arte final de André Stenico.

Impressão: Editora Opinião E. Ltda. Capivari/SP.
2) Ficha Catalográfica:

MEDEIROS, Sílvio

Dossiê Orfeu Despedaçado/ Sílvio Medeiros.

Capivari, SP: CNEC, 2001.

  1. História da Fotografia

  2. Historiografia e Oralidade


3) O presente roteiro de pesquisa (livro completo), com prefácio e conclusão, pode ser encontrado nas bibliotecas das faculdades acima citadas, além de bibliotecas da Universidade Estadual de Campinas - Unicamp; PUC-Campinas; Biblioteca Nacional etc.
4) Após um período relativamente longo, em JULHO de 2006, os trabalhos atinentes a esta pesquisa foram retomados pelo autor do presente projeto: PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS.
CAMPINAS, é inverno de 2006

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