Doutorado/ qualificaçÃO



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Universidade federal de santa catarina

centro de comunicação e expressão

PROGRAMA DE PÓS-gRADUAÇÃO EM LITERATURA





Nome do curso: Muito além da biblioteca: Borges e os meios massivos

Disciplina: Rastros das histórias Coloniais Código: PGL410106

Ministrante: Dr. Claudio Celso Alano da Cruz E-mail: cacruz@cce.ufsc.br


EMENTA:

Gayatri Spivak e os estudos subalternos: uma introdução. O subalternismo latino-americano. A questão da cultura popular e da cultura de massa em Borges. Cosmopolitismo e criollismo. Poesia e ensaísmo dos anos 20: da biblioteca ao armazém da esquina. O fator Evaristo Carriego. As “classes perigosas” e os primórdios de uma poética borgeseana do conto. A passagem de Borges pela imprensa massiva na década de 30: Revista Multicolor de los Sábados e El Hogar. A parceria com Bioy Casares e a narrativa policial nos anos 40 e 50. La invasión (1969): a vanguarda criolla chega ao cinema. Para las seis cuerdas e a recriação da milonga por Borges e Piazzolla. Anos 70 e 80 e a época de ouro das entrevistas: um “Borges para milhões”.


PROPOSTA TEÓRICA FUNDAMENTAL:

O curso propõe-se a realizar uma leitura da obra de Borges pondo-a em um diálogo inicial com os estudos subalternos, tomando como ponto de partida o seminal “Pode o subalterno falar?”, da teórica indiana Gayatri Spivak, cuja tese central é tão clara e verdadeiramente revolucionária quanto é denso e complexo o discurso argumentativo que a sustenta. De fato, com tal tese, a autora tornou-se figura destacada dessa que pode ser considerada uma das mais instigantes correntes críticas surgidas nas últimas décadas. “Can the subaltern speak?” foi escrito em 1982/1983 e publicado pela revista Wedge em 1985, mas só iria ganhar uma repercussão maior a partir de sua republicação em 1998. O impacto que vem causando desde então é compreensível, se pensarmos que pôs em xeque toda uma perspectiva que, herdeira da “descoberta” da cultura popular pelos românticos (mais precisamente pelos chamados pré-românticos alemães), pouco havia se questionado sobre a legitimidade e as consequências dessa operação de “ida ao povo”, dessa busca pela “voz do povo”. Ou seja, ao perguntar se seria possível o subalterno falar, Spivak punha em questão uma determinada “ordem discursiva” que até então havia mantido intocável um de seus princípios, na verdade, mais frágeis. Refiro-me ao princípio de que determinados sujeitos teriam o direito de falar por outros sujeitos, mesmo quando tais sujeitos se configurassem, no plano social, como seu verdadeiro Outro. De uma maneira que poderíamos chamar de algo “fetichista”, para lembrar o conhecido conceito de Marx aplicado à mercadoria, esse “direito”, frequentemente, era internalizado mais como um “dever” moral, carregado de “boas intenções” (burguesas, naturalmente) e não poucas vezes chegou a adquirir quase que um caráter religioso no ambiente letrado. Seria instrutivo pensarmos aqui no livro A hora da estrela, de Clarice Lispector, que, já em 1977, instaurava um “ambiente” narrativo que, inequivocamente, se antecipava em alguns aspectos ao que de essencial seria logo em seguida problematizado teoricamente por Spivak. Por fim, cabe lembrar que em torno à questão explícita no título do ensaio em questão – pode o subalterno falar? – vão se reunindo muitas outras perguntas ao leitor, em especial esta: pode o subalterno “ser falado”? Mais particularmente ainda: pode o Outro do subalterno falar por esse subalterno? Não é difícil perceber que tal ensaio questiona de forma radical algumas das mais “invisíveis”, até então, “regras do jogo” que organizam o campo intelectual, para nos aproximarmos do Bordieu de As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. Caberia juntar ao sociólogo francês alguns outros pensadores como Bakhtín, Benjamin, Foucault e, principalmente, Derrida, todos direta ou indiretamente presentes na base das formulações de Spivak. E que, um pouco ao modo do ensaio “Kafka e seus precursores”, de Borges, poderiam agora ser relidos e ressignificados por nós a partir desse texto verdadeiramente fundante da pensadora indiana. E fundante porque rearranja as “prateleiras” da teoria, obriga-nos a repensar uma determinada “ordem das coisas” no campo da cultura e particularmente no âmbito da representação. Ora, somente se não nos desvincularmos de uma visão da obra de Borges como apolítica e insensível à história deixaremos de perceber o quanto um diálogo entre tal obra e as ideias de Spivak e dos estudos subalternos em geral pode ser produtivo. Quando, mais para o final do século XX, críticos como Davi Arrigucci, Beatriz Sarlo, Daniel Balderston, Olea Franco e Víctor Farias romperam com uma perspectiva crítica em grande parte já cristalizada da obra de Borges, que vinha se mantendo por décadas, ficou evidente o caráter “político”, não poucas vezes até “anarquista”, de sua obra. Expressões postas entre aspas para que não esqueçamos do caráter sempre singularíssimo e peculiar de sua obra e figura, que dificulta qualquer tipo de enquadramento e simplificação. Em termos muito próprios ao ambiente cultural argentino, a obra de Borges nunca deixou de trazer, por sob uma superfície “unitária”, europeizante e “civilizada”, a sua face “federal”, criolla e “bárbara”, por mais que ele próprio, na maturidade, parecesse resistir a isso. Para o que nos interessa mais diretamente: não poucas vezes sob a “alta” cultura, não é difícil percebermos hoje em vários textos de Borges a latência da “baixa” cultura. Ou, se quisermos uma imagem mais propriamente borgeseana: sob a biblioteca, o pampa, ou, mais frequentemente, o arrabal. Em síntese, aqueles críticos acima citados punham à mostra inúmeras fissuras e aporias presentes em seus textos, aquém e além do que uma crítica “oficial”, e mesmo o próprio Borges, muitas vezes permitia que enxergássemos. Essas tensões e contradições, na verdade, acabaram dando à obra de Borges uma ainda maior e extraordinária riqueza. Na perspectiva que nos interessa, ou seja, das questões levantadas por Spivak e pelos subalternistas, Borges pode não ter chegado no mesmo nível de consciência, ou pelo menos de explicitação literária dessa consciência, demonstrado por Clarice Lispector em A hora da estrela, mas talvez até por isso sua obra se torne ainda mais instigante para se pensar essas questões. Principalmente se nos reportarmos ao Borges dos anos de 1920 e 1930, esse agora “novo autor”, como acertadamente o definiu a crítica argentina Graciela Montaldo em artigo de 1999. Isso porque só foi possível às novas gerações conhecê-lo melhor a partir das volumosas recompilações de seus textos realizadas, marcadamente, em torno da década de 1990. Foi naqueles anos de 1920 e 1930, em especial, que Borges dedicou-se a por em diálogo a “alta” e a “baixa” cultura, então ainda consideradas pela maioria dos intelectuais como constituindo duas esferas absolutamente distintas. É nesse diálogo a partir daí estabelecido, e que não se restringe a essas décadas onde ele se deu de forma mais intensa no interior da obra de Borges, que o curso buscará centrar suas atenções. Assim, num primeiro momento será disponibilizado um corpus borgeano selecionado entre os vários gêneros escriturais que o autor praticou, e que será motivo de leitura, análise e debate. Num segundo momento, buscar-se-á estabelecer um cruzamento desse trabalho desenvolvido com alguns conceitos centrais do subalternismo em geral e da obra de Spivak em particular. Por fim, num terceiro momento, a intenção é buscar um diálogo com aqueles pensadores mais representativos dos estudos subalternos latino-americanos.


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Corpus:

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