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Marcia de Paula Gregorio Razzini

O ESPELHO DA NAÇÃO: A ANTOLOGIA NACIONAL E O ENSINO DE PORTUGUÊS E DE LITERATURA

(1838-1971)

Tese apresentada ao Curso de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas como requisito parcial para a obtenção do título de Doutor em Letras na Área de Teoria Literária

Orientadora: Profa. Dra. Marisa Philbert Lajolo - Unicamp
UNICAMP

Instituto de Estudos da Linguagem

2000

_________________________________________________________

Profa. Dra. Marisa Philbert Lajolo - Orientadora - UNICAMP

__________________________________________________________

Prof. Dr. Eduardo Guimarães - UNICAMP

__________________________________________________________

Profa. Dra. Orna Messer Levin - UNICAMP

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Profa. Dra. Magda Becker Soares - UFMG

__________________________________________________________

Profa. Dra. Regina Zilberman - PUCRS

Para o Fábio,

Para nossos filhos, Beatriz e Felipe

E para as avós de nossos filhos, Alminda e Egle



Agradecimentos

Agradeço ao Sr. Antonio Gomes da Costa, à Profa. Gilda da Conceição Santos, ao Sr. Francisco Luiz Borges Silveira, ao Sr. Artur Soares Pinho, à Vera Lúcia de Almeida e à Carla Rosa Martins Gonçalves, do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, pela permissão e pelo tratamento atencioso e cordial para que eu fotografasse diversos livros estudados na tese; agradeço à Profa. Vera Lúcia Cabana de Andrade, ao prof. Geraldo Pinto Vieira, à Elizabeth Monteiro da Silva e ao Hélio de Oliveira Fonseca do NUDOM - Núcleo de Documentação do Colégio Pedro II, que me facilitaram ao máximo a pesquisa nos Programas de Ensino e na biblioteca; agradeço à Sra. Giacomina Faldini, à Maria Lúcia Beffa e à Luciana Maria Napoleone da Biblioteca da Faculdade de Direito da USP pela permissão para que eu fotografasse três compêndios; agradeço à Marita e aos funcionários do IEB - Instituto de Estudos Brasileiros da USP, sempre eficientes e muito gentis; agradeço ao gentilíssimo prof. Aníbal Bragança da Universidade Federal Fluminense, pelas valiosas informações sobre a Antologia Nacional garimpadas em seu acervo sobre a Livraria Francisco Alves; agradeço à Maria Paula Parisi por ter me apresentado e me emprestado a 5ª edição da Antologia; agradeço aos Profs. Eduardo Guimarães e Orna Messer Levin pelas importantes sugestões no Exame de Qualificação; agradeço especialmente à Profa. Marisa Lajolo pela orientação e por ter plantado em mim a semente da pesquisa em seu curso "Leituras Infanto-Juvenis", de 1988 na ECA-USP; agradeço aos meus amigos Bárbara Heller, Cilza Carla Bignoto, Luís Camargo e Maílde Trípoli, pelo companheirismo, sugestões, incentivo e empréstimos; agradeço ao meu sobrinho Sacha, um grande fotógrafo amador (por enquanto), o empréstimo de seu equipamento fotográfico; e finalmente agradeço ao CNPQ Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, pelo apoio financeiro concedido no período de março de 1993 a fevereiro de 1997.

Pour une large part, cet enjeu renvoie à la définition du "peuple" pris à la fois comme auteur collectif et comme public destinataire de la littérature nationale dont l'anthologie a la prétention de donner le reflet. [...]

Cette affirmation de l'identité littéraire de la nation ou du groupe - souvent en relation avec le monde de l'école - est pour partie une des causes du développement, mais aussi de la critique opérée face à la forme anthologique.

Emmanuel Fraisse 1

O hábito das antologias - tão característico do nosso tempo - parece ter sido uma das vias por que se estabeleceram a análise e o estudo da literatura portuguesa e brasileira.

Antonio Candido 2

SUMÁRIO

I . INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 15


  1. Modelo europeu e herança colonial ................................................................................ 19

  2. O ensino superior e o ensino secundário no Brasil ........................................................... 23

  3. O Colégio Pedro II ........................................................................................................... 31

II . BREVE HISTÓRICO DO PORTUGUÊS E DA LITERATURA NO ENSINO SECUNDÁRIO:

"a ascensão do Português e da Literatura Brasileira" ...................................................................... 35

III . APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DA ANTOLOGIA NACIONAL ................................................. 113

  1. Século XIX (e Século XX): "Yes, nós temos literatura" .................................................................. 143

  2. Século XVIII: "Tupi or not tupi ... e a pena brasileira escreve mais que a portuguesa" .................. 187

  3. Século XVII: "A hora e a vez do púlpito" ........................................................................................ 215

  4. Século XVI: "Navegar é preciso" ..................................................................................................... 229

IV . CONCLUSÃO: A implantação da cultura brasileira na escola .................................................... 237

V . CRONOLOGIA DO ENSINO DE PORTUGUÊS E DE LITERATURA .................................... 247

VI . REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................................................. 271

VII . ANEXOS

  1. ANEXO I - Programas de português e de literatura do Colégio Pedro II .............................. 279

  2. ANEXO II - Legislação sobre programas de português e de literatura .................................. 339

  3. ANEXO III - Tabelas de horário do curso secundário ............................................................. 373

  4. ANEXO IV - Quadro de carga horária das disciplinas do curso secundário (1838-1961)....... 411

  5. ANEXO V - Gráfico das aulas de Português, Latim, Retórica e Literatura (1838-1961)...... 415

  6. ANEXO VI - LISTA GERAL e TABELAS (de 1 a 15) da Antologia Nacional .................... 419

  7. ANEXO VII - Xerocópia da carta da Livraria Francisco Alves a Carlos de Laet ................... 439


LISTA DAS ILUSTRAÇÕES

Fig. 1 Jerônimo Soares Barbosa, 1807 ...........................................................................................pág. 39

Fig. 2 Jerônimo Soares Barbosa, 1830 ...........................................................................................pág. 40

Fig. 3 Francisco de Paula Menezes, 1856 ......................................................................................pág. 43

Fig. 4 Frei Francisco de São Luiz, 1840 ........................................................................................pág. 45

Fig. 5 Francisco Freire de Carvalho, 1834 .....................................................................................pág. 47

Fig. 6 Francisco Freire de Carvalho, 1840 .....................................................................................pág. 48
Fig. 7 José Feliciano de Castilho, 1868 ..........................................................................................pág. 51

Fig. 8 Antonio Marciano da Silva Pontes, 1860 .............................................................................pág. 53

Fig. 9 Francisco Júlio Caldas Aulete, 1866 ....................................................................................pág. 57

Fig. 10 José Ignácio Roquette, 1849 ................................................................................................pág. 60

Fig. 11 Vergueiro e Pertence, 1861 ..................................................................................................pág. 61

Fig. 12 Francisco Sotero dos Reis, 1870 ..........................................................................................pág. 62

Fig. 13 Francisco Júlio Caldas Aulete, 1873 ....................................................................................pág. 65

Fig. 14 Francisco Júlio Caldas Aulete, 1882 ....................................................................................pág. 67

Fig. 15 José Manuel Garcia, 1877 ....................................................................................................pág. 68

Fig. 16 Aprendei a Língua Vernácula, 1893 ....................................................................................pág. 69

Fig. 17 Bento José de Oliveira, 1879 ................................................................................................pág. 77

Fig. 18 Antonio Cardoso Borges de Fiqueiredo, 1845 ......................................................................pág. 78

Fig. 19 José da Fonseca, 1837 ...........................................................................................................pág. 80

Fig. 20 Júlio Ribeiro, 1881 ................................................................................................................pág. 81

Fig. 21 Maximino de Araújo Maciel, 1887 .......................................................................................pág. 84

Fig. 22 Seleção Literária, 1887 ..........................................................................................................pág. 85

Fig. 23 Seleção Literária, 1891 ..........................................................................................................pág. 87

Fig. 24 Alfredo Gomes, 1895 ............................................................................................................pág. 91

Fig. 25 Antologia Nacional, 1ª ed., 1895 ...........................................................................................pág. 92

Fig. 26 Antologia Nacional, 1ª ed., 1895, "zoom" ............................................................................pág. 115

Fig. 27 Antologia Nacional, 2ª ed., 1896 ..........................................................................................pág. 123

Fig. 28 Antologia Nacional, 3ª ed., 1901 ..........................................................................................pág. 125

Fig. 29 Antologia Nacional, 4ª ed., 1903 ..........................................................................................pág. 126

Fig. 30 Antologia Nacional, 5ª ed., 1909, capa .................................................................................pág. 127

Fig. 31 Antologia Nacional, 5ª ed., 1909, rosto .................................................................................pág. 128

Fig. 32 Antologia Nacional, 6ª ed., 1913 ...........................................................................................pág. 130

Fig. 33 Antologia Nacional, 12ª ed., 1927 .........................................................................................pág. 132

Fig. 34 Antologia Nacional, 20ª ed., 1936 .........................................................................................pág. 134

Fig. 35 Antologia Nacional, 25ª ed., 1945 .........................................................................................pág. 136

Fig. 36 Antologia Nacional, 33ª ed., 1956 .........................................................................................pág. 139

Fig. 37 Antologia Nacional, 43ª ed., 1969 .........................................................................................pág. 140

Resumo

Para entender a Antologia Nacional (1895-1969) de Fausto Barreto e Carlos de Laet, uma seleta escolar usada durante mais de setenta anos, foi feito um histórico do ensino de Português e de Literatura na escola secundária brasileira, tomando como referência os Programas de Ensino do Colégio Pedro II (escola secundária padrão) e a legislação vigente.

Até 1931, a conclusão do curso secundário não era obrigatória para entrar nos cursos superiores, cuja seleção era feita pelos "Exames Preparatórios". Isto fez com que, na prática, o currículo do curso secundário ficasse dependente destes exames.

Assim, até 1869 o ensino de Português era insignificante no currículo da escola secundária, onde predominavam as disciplinas clássicas, sobretudo o Latim. Depois de 1869, quando o exame de Português foi incluído entre os Preparatórios, houve a ascensão desta disciplina no Colégio Pedro II, cujo desenvolvimento, ainda que sujeito a variações, foi sempre crescente.

A literatura nacional era ensinada no currículo de Retórica e Poética, disciplina exigida nos Preparatórios das faculdades de Direito até 1890, quando foi excluída dos exames e do curso secundário. Em seu lugar era ensinada a História da Literatura Nacional, cuja ausência dos Exames Preparatórios tirou-a também do curso secundário (1911).

A Antologia Nacional (1895) nasceu logo após a Proclamação da República, quando novos ventos sopravam a favor da implantação de uma cultura nacional na escola brasileira, reservando ao ensino de Português e de Literatura o papel de representar a pátria.

A organização da Antologia Nacional (oficialmente adotada nas aulas de Português) e seu sucesso editorial refletem o momento nacionalista e a centralização do ensino secundário a partir do Colégio Pedro II, cujos programas e compêndios tornaram-se referência legal para as demais escolas secundárias, públicas e privadas.

Os autores e excertos (brasileiros e portugueses) selecionados na Antologia Nacional eram apresentados de forma moderna, divididos por períodos históricos (e não mais por gêneros), dispostos na ordem cronológica inversa, "do 19º ao 16º Século", privilegiando os brasileiros contemporâneos (já separados dos portugueses), por onde o estudo do vernáculo começava.

A adoção compulsória (até 1930) e as sucessivas reedições (a última, a 43ª edição, é de 1969) indicam que a Antologia Nacional foi um livro de leitura "intensiva" de várias gerações de brasileiros que passaram pela escola secundária.

A pouca importância da literatura nacional no currículo secundário, resultado de sua ausência nos Exames Preparatórios, maximizou o papel da Antologia Nacional na transmissão e conservação da literatura brasileira, tornando-a representante da nação. As inclusões maciças de brasileiros contemporâneos e o deslocamento da Antologia Nacional para as séries finais do curso secundário, reforçaram seus laços com a literatura nacional, inserida no currículo de Português e nos exames vestibulares em 1943.

A legislação de 1971 trocou o "bem falar e bem escrever" dos textos literários antológicos por uma profusão de textos de origens diversas que transmitissem a eficácia da comunicação e a compreensão da "Cultura Brasileira", sucateando a Antologia Nacional, até então difusora e reprodutora da "vernaculidade" brasi-lusa.

Palavras-chave: 1. Antologias. 2. Ensino secundário - Brasil - História. 3. Língua portuguesa - Livros de leitura. 4. Literatura e história. I. Lajolo, Marisa Philbert. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Estudos da Linguagem. III. Título.

I - INTRODUÇÃO

A Antologia Nacional (1895-1969) de Fausto Barreto e Carlos de Laet, objeto de minha dissertação de mestrado3, foi uma das compilações literárias mais lidas pelos brasileiros que passaram pela escola secundária até a década de 1960.

Adotada oficialmente em colégios tradicionais do Rio de Janeiro (capital brasileira até 1960), tais como o Colégio Militar, a Escola Normal do Distrito Federal, e sobretudo, o Colégio Pedro II, instituição modelo durante décadas, teve seu consumo disseminado em outras escolas, contribuindo para a formação de inúmeras gerações ao longo de seus 74 anos e 43 edições. Manuel Bandeira e Pedro Nava, por exemplo, citam a Antologia Nacional em suas memórias e comentam a função formadora que ela representou. 4

No mestrado, absolutamente encantada com meu objeto de estudo e suas relações históricas, enfatizei os aspectos externos da Antologia Nacional, suas circunstâncias de produção, edição e circulação, e suas relações com a história literária, área de minha formação.

Assim, tentei descrever e traçar o percurso histórico da Antologia Nacional, comparando suas edições e tentando estabelecer um parâmetro de comparação para analisar o quadro de autores e excertos selecionados. As alterações mais significativas, extraídas a partir da comparação interna entre as várias edições da Antologia, revelaram, além da mudança de editora em 19135, o acréscimo maciço de autores contemporâneos (dos séculos XIX e XX), a exclusão de 6 autores e alguns cortes nos excertos.

Com o intuito de esclarecer os pressupostos de seleção da Antologia Nacional, a título de comparação externa, elaborei um BANCO DE DADOS, com o qual foi possível confrontar o corpus de autores e excertos compilados na Antologia com o corpus de autores e excertos estabelecido em três antologias do século XIX, que historiaram a literatura brasileira (Parnaso Brasileiro de João Manoel Pereira da Silva, Florilégio da Poesia Brasileira de Francisco de Varnhagen e Le Brésil Littéraire de Ferdinand Wolf) e em dois manuais adotados no Colégio Pedro II, também no século XIX, um de história literária, usado nas aulas de retórica (Curso Elementar de Literatura Nacional do Cônego Fernandes Pinheiro), e outro, uma seleta de textos para leitura nas aulas de português (Seleção Literária de Fausto Barreto e Vicente de Souza), única obra que não tinha informações históricas como as outras, mas que foi escolhida porque tinha dado origem à Antologia Nacional.

Os dados estatísticos mostraram pequenos, mas importantes, resultados, como a presença de Basílio da Gama, Santa Rita Durão e Tomás Antonio Gonzaga em todas as obras consultadas. Foi apurada, também, a repetição de dois excertos em todas as obras elencadas no BANCO DE DADOS: um dO Uraguai de Basílio da Gama, que conta a "morte de Lindóia", e outro do Caramurú de Santa Rita Durão, que narra a "morte de Moema".

No caso do Caramurú o efeito da repetição é particularmente curioso, pois o trecho da "morte de Moema" tornou-se "clássico", reproduzido em histórias literárias, antologias e manuais escolares, e sua presença isolada do contexto da obra fez com que Moema, uma personagem secundária (retratada, aliás, no quadro de Victor Meireles em 1866) parecesse a heroína do poema épico de Santa Rita Durão, em detrimento de Paraguaçu.

A repetição dos trechos de Lindóia e de Moema, no século XIX e depois no século XX, até nossos dias 6, indica que o ensino de literatura, no que diz respeito a José Basílio e a Santa Rita Durão, vem reproduzindo até hoje a receita da crítica romântica, preocupada com a construção de mitos que representassem o caráter nacional. De certa forma, tal reprodução determinou também o gosto dos leitores de antologias e livros didáticos, privilegiando uma recepção "romântica" para estas duas epopéias do século XVIII.

Neste sentido, notei que boa parte dos excertos da Antologia Nacional davam preferência aos assuntos nacionais, fomentados pela crítica romântica: descrições da terra e de seus habitantes, biografias e trechos históricos. Ao patriotismo nacionalista juntavam-se vários excertos que privilegiavam uma visão mais tradicional da literatura e da língua, com a predominância da oratória moralista e dos autores do período clássico português, sobretudo Camões.

Assim, terminei o mestrado (1992) concluindo que a Antologia Nacional, apesar de concebida no final do século XIX, ofereceu a seus pupilos uma formação literária e lingüística que mesclava o gosto romântico com o clássico, ignorando a literatura brasileira pós-1922 e os autores vivos. O trabalho apresentava ainda algumas hipóteses tanto para a longevidade do livro quanto para seu desaparecimento no final da década de 1960. Entretanto, muitas perguntas sobre a Antologia Nacional ficaram sem respostas, o que me moveu a continuar o trabalho no doutorado.

Quando prestei o Exame de Qualificação do doutorado (1996) havia desenvolvido sumariamente as hipóteses do mestrado, delineando um modelo cultural (humanista de extração francesa) e um modelo educacional (determinado por alguns programas de ensino do Colégio Pedro II), que serviriam de pano de fundo para a análise que pretendia fazer dos excertos da Antologia Nacional, análise, aliás, que ficara prometida à banca na defesa do mestrado. Para esta análise tinha adiantado a apuração exaustiva do número de autores e de excertos da Antologia divididos conforme a nacionalidade, o gênero e a época, organizando os dados em tabelas. Da análise dos excertos tinha me limitado a apenas alguns autores do século XIX. Incluí, ainda, no texto da qualificação, um capítulo sobre Tomás Antonio Gonzaga, onde mostrava a discrepância da tímida acolhida que ele teve na Antologia comparada ao esforço contínuo dos historiadores literários para lhe construir uma imagem de grande poeta nacional.

A banca examinadora da qualificação me apontou dois caminhos: ou escolhia estudar o modelo educacional como ponto de partida para a análise do corpus de autores e excertos da Antologia, ou aprofundava e desenvolvia o capítulo sobre Tomás Antonio Gonzaga. A segunda opção era sedutora, pois sua conclusão tinha horizontes previsíveis, aliados ao conforto de não sair dos domínios literários.

Entretanto, fiel às minhas promessas do mestrado, de analisar os textos da Antologia Nacional, escolhi o primeiro caminho e tratei de fazer o levantamento dos programas de ensino do curso secundário e da respectiva legislação educacional. No princípio, limitei o período de estudo, entre 1850 (ano do primeiro Programa de Ensino do Colégio Pedro II) e 1930 (final da República Velha), mas, no decorrer da pesquisa e da análise da Antologia, este período foi sendo dilatado, e passou a abranger desde o primeiro Regulamento do Colégio Pedro II, que é de 1838, até a Lei 5.692 de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1971.

Com o propósito de fazer um breve histórico das transformações que o ensino de português e de literatura brasileira sofreram ao longo dos séculos XIX e XX, reuni, no final de 1996, o maior número que pude de Programas de Ensino do Colégio Pedro II, localizados em sua biblioteca no centro do Rio de Janeiro, e comecei a pesquisar e analisar a bibliografia sobre história da educação no Brasil e a legislação educacional, que é quase interminável.

Como os Programas de Ensino do Colégio Pedro II constituem um material raro, mas não cobrem todo o período estudado, reproduzi, no ANEXO I (folhas verdes), os currículos de português e de literatura do Pedro II, e juntei a estes, no ANEXO II (folhas amarelas), alguns currículos de português e de literatura publicados em decretos e leis, procurando preencher as lacunas dos primeiros. Incluí, ainda, no ANEXO I, dois Ofícios encontrados com os Programas de 1865 e de 1877 (cf. p. 287-88 e p. 294).

Levando em conta as observações de Jorge Nagle sobre a importância, nas análises escolares, da "divisão e distribuição do tempo dedicado ao desenvolvimento de cada matéria do currículo" 7, fiz também o levantamento da carga horária das disciplinas do curso secundário, usando como base de informação os próprios programas de ensino e a bibliografia de história da educação. Transcrevi no ANEXO III (folhas azuis) as tabelas de horário das disciplinas do curso secundário que encontrei, reproduzindo-as da forma como apareceram na fonte.

Para se ter idéia da distribuição e do peso de cada matéria no currículo do curso secundário durante o período estudado, elaborei um QUADRO DO NÚMERO DE AULAS SEMANAIS, com a carga horária semanal (somadas todas as séries) das disciplinas do curso secundário nos anos em que foi possível obter estas informações, reunindo-as no ANEXO IV (folhas brancas). Desta maneira, é possível visualizar no ANEXO IV através da quantidade de aulas semanais (em todas as séries), a decadência do ensino humanista clássico, com o desaparecimento do grego, da retórica, do latim; e a implantação da cultura nacional, com a ascensão do português (aí embutida a ascensão da literatura brasileira).

Partindo das informações do ANEXO IV, elaborei ainda um Gráfico para comparar a carga horária de português, literatura, retórica e latim, em cada ano letivo, onde ficou patente a ascensão do português (e da literatura correspondente) e o declínio e desaparecimento do latim e da retórica.

A quantidade de informações começou a se avolumar de uma tal maneira que foi preciso elaborar uma CRONOLOGIA para que eu não me perdesse no mar de programas, carga horária, leis e decretos, viabilizando a identificação e a análise das variações (e permanências) no ensino de português e de literatura. Incluí nesta CRONOLOGIA as informações que pude localizar sobre a legislação que regulamentava as aulas de português e de literatura, a distribuição destas disciplinas nas séries do curso secundário com a respectiva carga horária, os professores encarregados de lecioná-las no Colégio Pedro II e os respectivos compêndios adotados. Confiante na utilidade da CRONOLOGIA como guia de leitura deste trabalho, resolvi incorporá-la no final do texto.

Toda a documentação exposta acima deu origem ao primeiro capítulo da tese, o qual procura construir, mesmo que de forma incompleta, a história do ensino das disciplinas português e literatura na escola secundária brasileira durante o período 1838-1971. E é neste cenário educacional que, em seguida, desenvolvo a apresentação e a análise da Antologia Nacional de Fausto Barreto e Carlos de Laet.

Entretanto, para entender a história do ensino destas disciplinas, é necessário contextualizar alguns aspectos culturais e educacionais de nossa sociedade neste período.




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