Dr Justinus Kerner a vidente de Prevost



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Dr. Justinus Kerner
A Vidente de Prevost
Do original Alemão

Die Seherin Von Prevost

1830
Tradução: Dr. Carlos Imbassahy




Giotto

Lamentação



Conteúdo resumido


O Dr. Justinus Kerner é famoso em todo o mundo por este intrigante caso. Quando era médico de sua cidade, Kerner estudou as faculdades mediúnicas de Friedrike Hauffe, conhecida como “A Vidente de Prévorst”. Suas observações foram reunidas no conhecido livro que leva este nome.

Kerner acompanhou cuidadosamente o estado de sua paciente, documentando fenômenos conhecidos hoje como “mãos de fogo” (combustão espontânea nas mãos), “telecinesia” (movimento de objetos à distância), e o permanente sonambulismo da vidente. Tudo isso hoje em dia é analisado extensamente por psiquiatras, parapsicólogos e religiosos, cada qual com seu ponto de vista.

Por esses estudos, Kerner é considerado hoje, pelos que professam a Doutrina Espírita, como um dos grandes predecessores de Hyppolite Rivail, o Allan Kardec, que em 1857 lançou as bases do Espiritismo moderno codificando o “Livro dos Espíritos”.

Sumário
Notas Biográficas sobre o Dr. Justinus kerner

Carta aos Videntes – Cegos

Prefácio da tradução inglesa

Prefácio da edição francesa

Prefácio à tradução em português

Introdução

Primeira Parte

I - A vida e as faculdades da Vidente

II - No recesso da vida interior

III - Conseqüências de seu estado magnético; esboço de novo período de sofrimento

IV - Aumentam os sofrimentos e o sonambulismo torna-se mais completo

V - Chegada a Weinsberg

VI - O retrato da Vidente

VII - Funções nervosas externas da Vidente e suas relações com o mundo físico

VIII - Efeitos da água. - Modificação do peso

IX - Efeitos das substâncias imponderáveis

X - O que a Vidente percebia nos olhos humanos

XI - Visão pelo epigástrio

XII - O Espírito Protetor

XIII - Sonhos proféticos

XIV - Segunda Vista

XV - Exteriorização do corpo fluídico

XVI - As fórmulas mágicas da Vidente

XVII - Manipulação magnética e prescrições contra as doenças

XVIII - Cura da Condessa Von Maldeghem por intermédio da Vidente

XIX - Os diversos graus do magnetismo. Opiniões da Vidente sobre cada um

XX - A esfera solar e a vida da esfera. Estados da Vidente quando essas esferas se desenvolvem nela

XXI - A linguagem interior

XXII - A sétima esfera solar

Segunda Parte

I - O homem magnético em suas relações com o mundo dos Espíritos

II - Alguns reparos da Vidente sobre a visão dos Espíritos

III - Ultimas explicações sobre a faculdade de ver os Espíritos apresentados pela Vidente

IV - A crença nos Espíritos é baseada na natureza

V - Algumas palavras a propósito dos fatos que aqui se relatam

VI - Fatos sobrevindos em Oberstenfeld

Primeiro Fato

VII - Fatos sobrevindos em Oberstenfeld

O primeiro caso

O segundo caso

O terceiro caso

O quarto caso

O quinto caso

O sexto Caso

O sétimo caso

Oitavo caso

Nono caso

Décimo caso

Décimo primeiro caso

Décimo segundo caso

Décimo terceiro caso

Décimo quarto caso

Décimo quinto caso

Décimo sexto caso

Décimo sétimo caso

Décimo oitavo caso

Décimo nono caso

Vigésimo caso

Vigésimo primeiro caso

Vigésimo segundo caso

O Poder dos Amuletos da Vidente

Primeiro caso

Segundo caso

Terceiro caso

Quarto caso

I - Casos diversos observados em Weinsberg

II - O caso da prisão

III - Segue

A - Extratos do diário da Vidente

B - Conclusões a tirar desses fatos

C - Últimos dias e morte, da Vidente

D - Nota da Editora

Nota da Editora

Este é, pensamos, o último livro no qual se encontram os recursos da cultura e inteligência de um dos maiores dentre os tradutores e escritores que o Espiritismo teve no Brasil e no mundo. Ele é pois, uma homenagem a um homem notável e que a Revista Internacional de Espiritismo teve a honra de apresentar em suas páginas até que, findo o derradeiro esforço, a pena caiu-lhe das mãos de trabalhador exemplar posto na primeira falange de Cristo e de Allan Kardec. Queremos nos referir ao DR. CARLOS IMBASSAHY

Notas Biográficas sobre o Dr. Justinus kerner

Justinus Kerner nasceu em Ludwigsburg, no Wurtemberg, a 18 de setembro de 1786. Era o mais moço dos cinco filhos do Bailio superior da cidade. O pai morrera, sem deixar bens, em 1799, e a mãe colocou-o a principio numa loja de marceneiro, tencionando fazê-lo confeiteiro mais tarde. Por felicidade, um amigo da família, o Pastor Konz, poeta, e a quem Justinus mostrara os seus primeiros versos, conseguiu que o encaminhassem à Universidade de Tübingen, onde escolheria depois a carreira que devia seguir.

Kerner estava nos seus dezoito anos; partira a pé, com o saco nas costas e chegou, em bela noite de lua, às portas da cidade; fatigado, deitou-se num banco e adormeceu. Quando acordou - diz Karl du Prel - os choupos vergavam por violento furação e o vento lhe traz, através das janelas do Hospital dos Pobres, uma folha de papel: era uma receita assinada pelo Dr. Uhland, médico chefe do Bailio. O jovem viu nisso um aviso da Previdência e, com a resolução de formar-se em Medicina, entrou em Tubingem em 1804.

Ligou-se intimamente ao filho do Dr. Uhland (1) e a outros estudantes, Schwab (2). Varnhagen Von Ense, (3) que se tornaram poetas mais ou menos célebres.



(1) Uhland nasceu em Tübingen em 1787 e morreu na mesma cidade; foi magistrado, professor de literatura e deputado do Wuhtemberg; mas o seu nome celebrizou-se como poeta. Principiou nessa arte em 1812, em Tübingen, com seu amigo Kerner na estréia do almanaque Poético.

(2) Schwab, nascido em Stuttgart, em 1792, morreu em 1847; ocupou, na cidade natal, a cadeira de literatura antiga; é autor de numerosas poesias e traduziu para o alemão as Meditações de Lamartine.

(3) Varnhagen Von Ense, Carlos Augusto - Diplomata e literato alemão nascido em 1785 e desencarnado em 1858. Estudou medicina em Berlim, mas consagrou-se à Literatura e à Filosofia. Ingressou no Exército austríaco em 1809, servindo na Rússia em 1913. Dedicando-se à diplomacia, foi nomeado ministro da Prússia, em Carlsrube. Obras: "Deutsche Erzahlungen", 1815; "Goethe in den Zen Zeugnissen der Mitlebenden", 1824-1830; "Denkw urdigkein", 1837- 46, etc. (Nota do Tradutor).

Quatro anos mais tarde recebeu o grau de doutor, e deixou Tübingen para completar os estudos por algum tempo na Áustria e em parte na Alemanha. As cartas que escrevia em viagem aos amigos tornaram-se o assunto de sua primeira produção literária, impressa em Heidelberg., no ano de 1811, com o titulo - Reiseschatten Von dem Schattenspieler Lux - Esboço da Viagem do Fantástico, Lux.

Estabeleceu-se como médico na pequena cidade de Welheim. "Tornou-se cada vez mais conhecido - diz Karl du Prel - não só como poeta senão como consciencioso facultativo. Muito procurado, tinha um único defeito e bem grave num médico, o de sentir como se fossem seus os males dos doentes: Seus insucessos na prática médica tiravam-lhe o sono".

Casou-se em 1813 com uma jovem de Tübingen, Frederica Ehman, de, quem ficara noivo desde o tempo da Universidade. De começo, a vida do casal era modesta. Só havia um albergue para alugar em Welheim: tinha dois compartimentos com uma pequena cozinha. E o seu quarto de dormir deveria ser cedido para a sala de dança, de festas, nos dias de feira, para casamentos, enfim para o que dele tivesse necessidade o dono do albergue.

Em 1816 é Kerner investido no cargo de médico-chefe do distrito de Gaildorff, e no ano de 1819, em Weinsberg, encantadora cidadezinha, célebre pelo assédio que lhe pôs em 1525 o imperador Conrado durante a guerra entre guelfos e gibelinos.

Diz à tradição que quando a praça foi obrigada a render-se, a capitulação dera direito às mulheres de levarem o que tivessem de mais precioso, e ei-las que saem levando o marido às costas. O vencedor não quis discutir essa inesperada interpretação e a colina, que se estendia pelo povoado, tomou o nome de Weibertreue (Fidelidade das mulheres).

Quando o médico chegou a Weinsberg a colina se achava em estado selvagem. Ele comprou um terreno, transformou-o em parque (1) e ai construiu uma casa de que ele e a consorte faziam as honras com tal simplicidade que, muitas vezes, soldados e bufarinheiros, de passagem, ali entravam Ingenuamente, supondo tratar-se de um albergue.

(1) Nesse parque, numa pedra talhada, colocou esta inscrição dedicada à esposa: - não amparei minha mulher - ela me amparou; e eu era um fardo mais pesado do que se poderia supor. (Nota do Tradutor).

Ali eram acolhidos ao mesmo tempo e com a mesma singeleza os admiradores do poeta, os clientes do médico e os amigos particulares do homem. Certa vez um negociante de luvas do Tyrol, que parava todos os anos na casa de Kerner, encontrou-se com Adalberto de la Riviera. O bom doutor apresentou-o ao Príncipe como um velho amigo e pediu-lhe autorização para assentá-lo à mesa.

Sua primeira coleção de poesias data de 1817; foi publicada em Carlsruhe com o título de Poesias Românticas. Nelas se nota o bom senso e a clareza, assim no pensamento como na expressão.. Dessa forma se distinguia a escola de Suábia, de que ele foi com seu amigo Uhland um dos mais ilustres representantes, das escolas poéticas mais ou menos nebulosas do resto da Alemanha.

Por essa ocasião iniciava-se ele nos estudos psíquicos, e em 1824 publicava em Stuttgart a História de Duas Sonâmbulas, (1) que ainda não pude encontrar.



(1) - No dia 2 de maio de 1829, a senhora, Hauffe deixou Weinsberg para regressar a Lowenstein, onde nascera e onde desencarnou a 5 de agosto do mesmo ano. O Dr. Hoff foi encarregado de fazer a autópsia do cadáver. Escreveu que o cérebro era admiravelmente perfeito e bem conformado. Declarou jamais ter deparado com outro tão são e bem desenvolvido. Alguns instantes antes de sua morte ela compusera os seguintes versos;

Adeus, obrigado pela afeição e pelos socorros que me prestaram nesta minha triste vida que vai findar. Adeus! Adeus!.



Chamarei amigos os que foram enviados com sábios fins para aumentar minhas penas? Sim, foram amigos como os outros. Adeus! Adeus!

Adeus a todos os que amo. Enquanto meu espírito já adeja no alto meu corpo ainda ai jaz como testemunha de minha vida de misérias. Adeus! Adeus!

Não lamentem tenha chegado ao descanso. Adeus a todos que mais amei. Breve estaremos reunidos em lugar onde os pesares e as dores são desconhecidos Adeus! Adeus!”

Não parece que tivesse então grande fé na eficácia do magnetismo, porque declara que em 1826, fora chamado para tratar de uma jovem, Frederica Hauffe; os extraordinários fenômenos de sua doença deram curso a malévolos ruídos e a princípio procurou apenas usar dos processos médicos comuns. Como piorasse o estado da enferma, consentiu que ela fosse morar na sua residência em Weinsberg. Lá, durante três anos, de 25 de novembro de 1826 a 2 de maio de 1829 pôde estudá-la à vontade e reunir os elementos de um livro que produziu a maior sensação na Alemanha, porque em alguns anos se esgotaram cinco edições. Foi traduzido em inglês pela Senhora Crowe e em francês pelo Dr. Dusart.

Os fenômenos relatados tornaram-se naturalmente objeto de violentas polemicas. Disseram que o Dr. Kerner fora vitima de uma simuladora: é esta uma explicação que nunca falta quando não é possível duvidar da boa fé do observador, mas sem valor nenhum quando há, como no caso, testemunhas concordantes de homens notáveis por sua ciência e sua prudência.

Eis como Strauss, o célebre autor da Vida de Jesus, conta uma visita que fez a Kerner:

“Kerner recebeu-me, como é de seu costume, com bondade paterna e não tardou a apresentar-me à visionária que repousava num quarto, no andar térreo. Pouco depois caía ela em sono magnético. Presenciei pela primeira vez o espetáculo desse estado maravilhoso e posso dizê-lo, na sua mais pura e bela manifestação. Era um rosto com expressão sofredora, mas elevado e terno e como inundado por irradiação celeste; tinha uma linguagem pura, mensurada, solene, musical, espécie de recitativo (1); havia uma abundância de sentimentos que transbordava e que se poderia comparar a uma faixa de nuvens, ora luminosas, ora sombrias, deslizando por sobre a alma, ou ainda brisas melancólicas e serenas engolfando-se nas cordas de maravilhosa harpa eólia”.

(1) - A Vidente por vezes escrevia poesias. Eis um exemplar de seus versos que me foram dados pelo Barão Kart du Prel.

- “Deus, só tu conheces o meu coração; sabes se minto e se os segredos que revelo são verdadeiros ou falsos.

Ah! Posto que me tenhas dado o terrível poder de desvendar os segredos do tumulo, é com alegria que renunciarei a esse dom e fecharei meus olhos a vida interior; mas que se cumpra a tua vontade e não a minha”

Por essa aparência sobrenatural, assim como por suas longas palestras com espíritos invisíveis, bem-aventuradas ou infelizes, não havia duvidar que estávamos em presença de verdadeira vidente; tínhamos diante de nós um ser que se comunicava com um mundo superior.

Kerner, entretanto, propôs colocar-me em relação magnética com ela.

Não me lembro, desde que existo. ter tido jamais a semelhante impressão. Persuadido como estava de que, ao tocar minha mão na sua, todo o meu pensamento, toda o meu ser lhe seria franqueado, ainda que houvesse o que lhe ocultar, pareceu-me, quando lhe estendi a destra, que se me retirava uma tâbua de sabre os pés e que ia cair no vazio".

O retrato da vidente que nos foi enviado por Theobaldo Kerner, fìlho do Doutor kerner, nos chama a atenção para a extraordinária semelhança que apresenta com a de Dante, pelo pintor Rafael.

Eschenmayer (1), doutor em Filosofia e Medicina pela Universidade de Tübingen estudaram meticulosamente as faculdades da vidente e publicou sobre o assunto, em colaboração com Kerner, de 1831 a 1834, cinco volumes intitulados - "Jornal de Prevorst".



(1) Nasceu em Neuenburg, em 1768 e faleceu em 1854. Discípulo de Kant e de Schilling estudara espontaneamente os fenômenos magnéticos quando exercia a Medicina, 1800-1812. Após haver abandonado esta arte para ocupar a cadeira de Filosofia na Universidade de Tübingen, compusera um livro publicado em 1816, com o título - "Ensaios de uma explicação da magia aparente do magnetismo por meio das leis fisiológicas e psíquicas".

Em 1830 publicou, na mesma cidade - "Mistérios da vida interior explicados pela história da Vidente de Prevorst".

A Senhora Maria Nicthammer, filha de Kerner, escreveu a biografia de seu pai, onde combatia a opinião dos que, nada tendo visto, pretendiam fazer dele um visionário, um melancólico, perdido nas nuvens do misticismo, quando ao contrário ele possuía uma natureza jovial; era bom, mas positivo e afastado, tanto por suas disposições naturais como por seus estudos médicos, da crença em Espíritos (2).



(2) O dicionário de Larousse foi obrigado a convir, mas cheio de restrições, como se pode verificar do seguinte tópico:

"Kerner era um homem profundamente amável, doce, sonhador. Uns tons melancólicos, bem pronunciados, não excluíam nele certa alegria. O tratamento magnético ao qual foi submetido na mocidade, deixou-lhe uma espécie de super-excitação no cérebro; tornou-se supersticioso, cria nos Espíritos, no maravilhoso. Fizera mesmo pesquisas, nesse terreno e publicou observações ou narrativas, de fortes cores fantásticas. Tais foram às obras intituladas: História de duas sonâmbulas (Karlsruhe, 1824); A Visionária de Prevorst (Stuttgart, 1829, 2 vols.) ; História de alguns possessos de nossa época, 1834; Fenômenos do domínio noturno da natureza (1836); Da possessão, mal demoníaco magnético (1836).

Quanto as Folhas de Prevost, trata-se de uma serie de observações Filosóficas-Cientificas, publicadas em colaboração com Eschenmayer karlsruhe, 1831-1834, 5 Vol.

Os que acreditam - diz ela que meu pai procedeu a experiências nesse terreno, de maneira fantasiada, embalando-se nessa ilusão, a si e aos outros, estão em erro grave. O que ele descreveu foram casos nítidos, observados com limpidez por ele e por homens de qualquer idade ou condição.

Muitas pessoas despidas de crença em geral e principalmente da crença em Espíritos, vieram com a firme decisão de não acreditar em nada, de penetrar a fundo na matéria, e retiraram-se abalados por essa fraca mulher, e forçados a comprovar fatos indiscutíveis; nada conseguiram explicar, apesar de suas frias e refletidas investigações.

A maior parte dos contemporâneos de Kerner não viam com bons olhos sua feição mística; esta será ainda por muito tempo a opinião dominante, segundo o prognóstico do próprio Kerner, nestes versos: "Meu nome será esquecido como poeta. E coma médico também o será. Mas quando se falar de Espíritos pensar-se-á muito tempo em mim e a grita será forte".

Apesar das polemicas, Kerner viveu muito tempo feliz em Weinsberg, onde construiu encantadora morada nos flancos de uma colina da velha aldeia, e aí compartia o tempo entre os deveres profissionais e a poesia (1).

(1) Além das citadas, suas principais obras literárias são Gedichte (Poesias) Stuttgart, 1826 – Der Letzte Blutenstrauss (O ultimo ramo de flores), Stuttgart e Tübingen, 1853. – Die Bestuernang der Stadt Weinsberg en Jahre 1525 (O Assédio da Cidade de Weinsberg em 1525), Heidelberg, 1848. Bilderbuch aus meiner Knabenzeit (Recordações de Minha Mocidade). - Brunswick, 1839. (Nota do Tradutor)

Por um contraste muitas vezes observado é a nota melancólica dominante nas obras desse escritor, espírito aliás muito alegre.

Veja-se como exemplo a tradução de dois poemetos seus, muito populares em toda a Alemanha:

OS DOIS ATAÚDES

Lá estão ao alto na velha Catedral, dois ataúdes. Num dorme o rei Othar, no outro repousa o cantor. Outrora, o rei, poderoso, assentava num trono elevado; sua espada ainda está ao lado, a coroa na cabeça.

Perto do rei altivo jaz agora deitado o doce cantor; acha-se ainda em sua mão a piedosa harpa.

E eis que, em torno, desmoronam as fortalezas; através do país ressoam o apelo as armas. Nunca mais, porém, as mãos do rei brandirão a espada.

Quando o perfume das flores e o doce zéfiro se derramam pelo vale, a harpa do poeta ressoa harmoniosamente num cântico eterno.

O VIAJANTE NA SERRALHARIA

Lá, em baixo na serralharia, eu estava sentado em doce repouso. E contemplava o movimento das águas, o rolar das rodas. Olhava a serra brilhante, traçando longos sulcos num pinheiro. Pouco a pouco mergulhei como em um sonho.

O pinheiro parecia animar-se sob a ação de melodia fúnebre, e tremendo em todas as fibras cantou:

“Chegas a propósito, ó viajante; é por ti que, a ferida penetra em meu coração. É por ti que, bem cedo, essa madeira se tornará em caixão para um longo repouso após curta viagem”.

Vi caírem quatro tábuas. Apertou-se-me o coração. Quis falar, mas já a roda não se movia mais.

Em 1851, grave doença de olhos obrigou-o a demitir-se das funções de médico do governo. O rei de Wurtemberg concedeu-lhe uma pensão de 300 florins e o rei da Baviera uma de quatrocentos.

Três anos depois, a 16 de abril, de 1854, perdia, após curta enfermidade, sua esposa Frederica, a companheira dedicada e inteligente de sua vida durante quarenta anos.

A partir desse momento, Kerner desejou também a morte. Enfraquecendo-se-lhe a vista cada vez mais, fechou-se no quarto, onde continuou a receber os amigos com a mesma cordialidade; seu espírito mantinha-se vive apesar da debilidade do corpo. A 22 de fevereiro de 1862 foi arrebatado pela gripe e enterrado no cemitério de Weinsberg, ao lado da mulher. Na lápide, conforme seu desejo, havia esta simples inscrição: Frederica Kerner e seu Justinus.

Mais tarde os admiradores de Kerner erigiriam-lhe um monumento em Weinsberg, onde esculpiram o medalhão que reproduzimos nessas páginas.

ALBERT DE ROCHAS



Carta aos Videntes – Cegos

J. Herculano Pires

Não posso dirigir-me especialmente a um, porque os videntes-cegos são legião. Sirvo-me desta forma usual de carta-aberta para dirigir-me a todos. Quando o editor me solicitou um prefácio para esta edição brasileira de "A Vidente de Prevorst", fiquei em dúvida se devia ou não fazê-lo. Porque o livro de Kerner já está de tal maneira prefaciado, que o leitor terá de vencer muitas explicações antes de chegar ao texto. Mas os editores sabem o que fazem. Resolvi atender o corajoso editor, não para aumentar os prefácios, mas para acrescentar ao volume esta carta que me parece necessária. A hora de falarmos com franqueza aos cegos que não querem ver, e este livro oferece a melhor ocasião para isso.

Na linguagem dos cegos são videntes os que possuem a visão comum. Mas na linguagem dos videntes as coisas se modificam: são videntes os que vêem além da visão comum e são videntes-cegos os que, possuindo a visão comum, não querem acreditar na visão incomum, hoje chamada - "paranormal" . E a estes que me dirijo, escolhendo assim um público especial, que certamente não gostará deste livro. Goste ou não goste, esse publico necessita mais deste livro do que o público em geral. Solicito às pessoas de boa vontade que leiam esta carta para os videntes-cegos, que podem lê-la apesar da cegueira mas certamente não a querem ler. Os doentes precisam de médico e os teimosos precisam de ajuda.

Este livro, meus caros videntes-cegos, é uma das provas mais alarmantes do imenso malefício que a cegueira espiritual tem causado aos homens. O Dr. Justinus Kerner o escreveu, há um século e meio, para mostrar aos homens a realidade de certas faculdades humanas que sempre existiram, mas que sempre foram negadas pelo que pensavam não possuí-la. Por ter realizado este gesto de amor, tentando auxiliar os semelhantes, O Dr. Kerner foi desprezado e injuriado através de um século. Mais eis que agora, nesta fase rápida evolução da terra, as investigações cientificas vieram dar inteira razão, ap malsinado autor. Como os principais responsáveis pelo suplicio moral do Dr. Kerner (e de tantos suplícios morais e físicos de criaturas inocentes) são os videntes cegos, acho necessário chamá-los a responsabilidade.

E é o que faço nesta carta, sem o menor desejo de ofender. Deus me livre disso! Todos vocês, os videntes-cegos a quem me dirijo, são meus irmãos perante Deus e desejo apenas socorrê-los fraternalmente, para que não continuem incidindo nos enganos a que se entregaram até agora. Peço-lhe, pois, que ouçam estas palavras amigas, ditadas por um coração que ardentemente lhes que ajudar.

As estórias fantásticas deste livro estão hoje confirmadas pela investigação cientifica. A Vidência “esse dom Maravilhoso”, foi à primeira faculdade paranormal do homem a ser comprovada em pesquisas de laboratório. Desde 1940, como se pode ver em qualquer livro bem informativo de Parapsicologia, a vidência ficou definitivamente provadas através das pesquisas do Professor Joseph Banks Rhine e sua equipe da Universidade de Duke, na Carolina do Norte, Estados Unidos. A prova foi feita com o devido rigor, sob o nome de "clarividência". O rigor científico exigia que fossem afastadas as visões espirituais. Os pesquisadores aceitaram a exigência e provaram, sob controle matemático dos resultados das experiências, que a criatura humana pode ver sem os olhos, e isso no próprio plano material.

Provada, de maneira irrevogável, a existência dessa faculdade, nada mais deteve o avanço das pesquisas. A seguir, provou-se também a telepatia ou transmissão do pensamento, esta investigada hoje intensamente pelos norte-americanos e os russos, para aplicação na conquista do Cosmos. Nem mesmo o materialismo oficial da União Soviética pode menosprezar essa descoberta científica. Mas na Europa e nos Estados Unidos às pesquisas se intensificaram de tal moda que atualmente já estão provadas cientificamente mais estas faculdades humanas: a precognição (ou profecia) e a retrocognição (ou adivinhação de coisas passadas).

Não se trata mais de superstição, de excessos de imaginação, de misticismo ou coisas semelhantes. Trata-se de uma verdade cientifica universalmente aceita. A pessoa que hoje diz, torcendo o nariz ou enfunando o peito: Eu não creio nisso! "dá provas de ignorância e de mentalidade estreita. Porque ia não se trata de crer, mas de saber. "A Vidente de Prevorst" não é mais um livro imaginoso ou tolo, mas um documento cientifico, relato de um homem extremamente culto e digno, de um médico sério, de um cérebro privilegiado sobre a ocorrência de fenômenos de clarividência através de uma sensitiva de faculdades excepcionais. Ler este livro é expor-se aos perigos da superstição, mas livrar-se dos perigos da ignorância, vacinar-se contra a cegueira assassina dos videntes que não querem ver.

Nada existe de pior nem mais perigoso do que uma criatura fechada em suas próprias idéias, convicta de possuir a verdade absoluta, de saber mais que todas as outras ou de estar iluminada pela luz divina, que só a ela e a mais ninguém foi dada. Essas criaturas "cheias de si mesmas", satisfeitas consigo próprias, envaidecidas com a própria ignorância têm produzido mais dores, mais sofrimentos e mortes cruéis do que as pragas e as pestes, as doenças sem cura e as guerras. Mas um livro como este pode ser excelente remédio para essas criaturas, abrindo-lhes os olhos para a realidade e aliviando-lhes para o futuro a peso da consciência.

Se os meus prezados destinatários, os videntes-cegos, não quiserem acreditar no que lhes escrevo, se teimarem em fechar os olhos ainda mais duramente, aconselho-os a consultar algumas obras de ciência sobre os fenômenos aqui relatados. Aconselho-os sobretudo a lerem um trabalho da professora Louise Rhine, da Universidade de Duke, intitulado: "Os Canais Ocultos da Mente".

Trata-se de uma questão de extrema urgência; pois estamos numa hora decisiva do mundo em que a rápida evolução do conhecimento não permite mais as posições petulantes do passado, com pessoas que se consideravam espíritos-fortes justamente por não terem espírito. Os tempos mudaram, amigos! E o mundo está mudando cada vez mais depressa. Aceitem o convite que lhes faço: acertem o passo com o mundo, lendo este livro sem prevenções.


Prefácio da tradução inglesa


Como, apresentando este curioso trabalho ao público, tinha em vista fazer um livro acessível ao maior número, não podia pensar numa tradução literal. O original, com efeito, além de prolixo, caia em várias repetições. Certas passagens se tornariam áridas a muitos leitores, enquanto outras pareceriam místicas. Julguei, portanto, mais racional fazer uma tradução livre, que dissesse realmente o que se achava no livro, mas sob uma forma tão condensada quanto possível. Só me afastei desse plano quando era indispensável adstringir-me ao texto do autor.

Penso que muitos fenômenos extraordinários contados por Kerner não merecerão fé na Inglaterra. Mas este livro despertará profundo interesse aos que admitem a clarividência, enquanto os que, bem mais numerosos, não aceitarem suas maravilhas, poderão, eu espero, considerar os fatos como dignos de atenção, tanta sob o ponto de vista fisiológico coma sob o da Psicologia. Digo os fatos, porque não posso admitir que após a leitura deste livro, algum espírito leal duvide da maior parte deles ou suponha haver uma burla do médico ou da doente:

O caráter bem conhecido de Kerner bastará para afastar as suspeitas desse gênero. Por minha parte repilo com indignação a idéia de que nessa criatura sofredora, que estava constantemente à beira do túmulo, todos os sinais de inocência e piedade mais não fossem que a máscara acobertadora de uma velhacaria tão excepcional como persistente.

Nada é mais fácil do que a acusação de impostura. É um modo cômodo de evitar os empeços de um inquérito e suprimir os fatos que molestaram as idéias preconcebidas. Trata-se, porém, de um expediente tão vulgar quanto tímido; e é com pesar que o digo, poucos países como o nosso se acham nesse caso.

O ridículo é ainda uma arma de uso fácil, mas há tantos homens instruídos; sensatos e honestos nos países vizinhos, e que acreditam na veracidade dos fatos, que o recurso a tais expedientes já estão fora da moda.

Se acreditarmos neles, devemos, pelo menos, dar certa atenção ao que nas dizem. Os homens sinceros, desejosos de aprender, hão de acolher tais ensinos com certa consideração, se não puderem chegar à convicção.

A sinceridade e boa fé do Dr. Kerner nesse assunto, cremos que nunca foram postas em dúvida, ainda pelos mais cépticos e mais emperrados. Ele é por demais conhecido na Alemanha como homem sensato, amável, religioso, e do mesmo passo distinto poeta lírico. O único ponto de que poderiam duvidar seria o da segurança do seu senso critico; mas enquanto os cépticos não tiverem como ele as mesmas ocasiões de observar e experimentar, não poderão acolher com as maiores reservas as imputações inteiramente gratuitas de credulidade.

Por outra parte declaro que me sentiria penalizada se me visse inscrita entre eles, bem, numerosos, o sei, e para os quais o atestado de tais fatos só merecem desprezo e irrisão; reconheço, entretanto, que a questão de saber se os fenômenos devem ser considerados como objetivos ou simplesmente subjetivos, projeções do sistema nervoso ou aparições externas reais, não pode der definitivamente resolvida e só o será pela verificação repetida de fenômenos da mesma ordem.

Embora acabasse plenamente convencido, Kerner duvidou por muito tempo. Verificou, sem hesitar, a impossibilidade da convicção absoluta para os que não tiveram ocasião de assegurar-se pelo testemunho de que tais aparições se podem produzir.

Como quer que seja, poucos leitores, - e disto estou convencida, - percorrerão este livro com indiferença; o espírito de sinceridade com que foi escrito será a melhor defesa do autor contra o ridículo e a má fé. Esse mesmo caráter será aceito como a justificação da tradutora que pretendeu apresentar esta obra ao público inglês sob uma forma acessível.
MRS. CROWE

Prefácio da edição francesa


A Senhora Crowe, como se acaba de ler, achou melhor eliminar na edição inglesa numerosas repetições e certo número de dissertações metafísicas, áridas e enubladas, que se continham na edição alemã. Conservara, entretanto, muitas páginas que não eram mais que exortações piedosas, com muitas passagens bíblicas, que os leitores franceses não deixariam de considerar como verdadeiras obras-primas em trabalhos desse gênero. Cremos que não nos levarão a mal tê-los posto de lado e resumido em algumas linhas a longa e obscura descrição das esferas que só contem as idéias da Vidente, sem qualquer fiscalização. Não procuramos também reproduzir a exposição de suas teorias sobre a virtude dos números e o papel importante que eles representariam em nossos destinos e do planeta.

Lendo-se as páginas que se vão seguir, ficaremos, entretanto, surpreendidos por ver que todos os Fenômenos físicos assinalados no Relatório da Sociedade Dialética de Londres e em numerosas obras aparecidas há uns 50 anos sobre Espiritismo, assim como os mais importantes ensinos recebidos de toda à parte nos grupos espíritas, tenham sido objeto das manifestações produzidas diante da Vidente de Prevorst e outras personagens que hoje chamaríamos médiuns, mais de 20 anos antes das manifestações de Rochester. Elas passaram, entretanto, despercebidas, enquanto as segundas foram o ponto de partida desse movimento universal, cujo desenvolvimento estamos hoje acompanhando em suas fases diversas.

A cada página, quase, assinalamos a produção de ruídos, tão variados no caráter como na intensidade, produzindo-se em todas as partes de um compartimento ou na casa inteira. Eram ouvidos por grande número de pessoas e não se lhes percebia qualquer causa visível, Objetos de várias dimensões eram deslocados, flutuavam no ar ou desapareciam subitamente. A própria Vidente e muitas pessoas elevavam-se sem nenhuma intervenção humana. Algumas vezes o corpo ficava flutuando acima d'água e resistia aos esforços para que imergisse. Pedras, cascalhos, areias, fragmentos de cal são projetados sem causa visível.

Luares, bolas de sabão, chamas são vistos por ela e por muitas testemunhas;

A Vidente fornece numerosas provas de clarividência; vê cenas que se desenvolvem num copo d'água, à superfície de uma bolha de sabão.

Tem sonhos proféticos, anuncia a morte ou a cura de certas pessoas;

Indica a natureza e o tratamento de doenças;

Desde criança descobre nascentes por meio da vara de aveleira e fica, durante toda a vida, sensível aos eflúvios de diversas substâncias minerais;

Por várias ocasiões vê ela fantasmas de moribundos;

Entra rapidamente em relações quase ininterruptas com os espíritos dos mortos; uns, felizes, de elevada categoria, guiam-na, protegem-na; outros, sofredores, imploram socorro. Não é ela a única a percebê-los; essas aparições apresentam os diversos graus de materialização; umas, só ela as vê, mas produzem estranhas impressões nos presentes; outras são vistas e ouvidas por pessoas que velam perto dela; outras enfim são notadas por todos e até por animais;

Muitos casos de animais são assinalados nesta narrativa.

Não teve ela, entretanto, a seu dispor, os dois processos de comunicação muito espalhados hoje - a tiptologia e a psicografia.

Vejamos agora o fado moral e dogmático dessas tão curiosas páginas, Verificamos a solidariedade entre os dois mundos, o visível e o invisível; o socorro visível que se prestam; sua imiscuição em todos os instantes na vida um do outro. Resumiremos em algumas linhas os ensinos colhidos nas manifestações íntimas.

O homem é composto de um corpo material, dum Espírito material e de uma alma semi-fiuidica, que serve de intermediária entre os dois primeiros e se destina a fornecer ao Espírito um invólucro etéreo, quando ele se desprende do corpo, quer momentaneamente, quer à hora da morte. Segundo a Vidente, esse invólucro, constituído por espessa e pesada substância nos seres pouco desenvolvidos, tornar-se-ia cada vez mais leve, luminosa e fluídica, na medida em que o Espírito se purifica: acabaria por desaparecer inteiramente quando este atinge certo grau de perfeição. Seria esta alma ou invólucro que permitiria ao Espírito produzir fenômenos físicos.

Existiria ainda um fluido nervoso ou torça vital de que a alma se serve para agir sobre o corpo durante a vida e que, não desaparecendo logo após a morte, permite ao Espírito condensar certos elementos da atmosfera para tornar-se visível.

O Espírito não se transforma com a morte; conserva as paixões, boas ou más, suas afeições, seus ódios e suas opiniões, justas ou erradas; destarte, o mundo invisível é a exata reprodução do mundo visível. As penas não são eternas; as faltas se podem resgatar pela expiação. Os pagãos e os que não acreditaram na Redenção, mas se conduziram bem, não sofrem, e só serão admitidos nas esferas superiores depois dos ensinos que certos Espíritos Superiores são encarregados de ministrar-lhes.

O culpado permanece em presença do crime cometido; por exemplo, a mãe que matou o filho traz, sem tréguas, o cadáver nos braços até completa expiação.

A Vidente crê no pecado original e na redenção pelo Cristo. Admite a influência dos números, a virtude dos amuletos e de umas tantas substâncias contra as doenças e determinados Espíritos. Serve-se de um idioma especial que denomina a linguagem interior, e desenvolve a teoria das esferas, morada de Espíritos, conforme seu grau de desenvolvimento.

Vê-se que suas opiniões constituem curioso amálgama de Cristianismo, Ocultismo e sobretudo Espiritismo. Estamos convencidos de que o leitor acompanhará com interesse a exposição dessas idéias e as narrativas sugeridas à Vidente de Prevorst.

Dr. O. DUSART

Prefácio à tradução em português


Já um escritor intenso às doutrinas espíritas, René Sudre, notava que, vinte anos antes de Allan Kardec, aquelas doutrinas e os fenômenos descritos nos livros do Codificador se apresentavam nas manifestações da Vidente de Prevorst.

Os mais entendidos em matéria histórica verão ainda que os casos do chamado Psiquismo supranormal verificaram-se em todos os fastos da Humanidade. O que admira é que, tratando-se de fenômenos comprovados por infindável série de testemunhos, através dos séculos e em toda a parte, ainda haja quem os negue, chegando muitos a supor que demonstram extraordinária argúcia no riso de mofa com que os acolhem.

O que não se havia coligido num corpo de doutrina era a moral que estas manifestações nos traziam. E o que se deve ao nosso século é o interesse que uma plêiade de sábios tomou pelo assunto, com sacrifício de tempo, de interesses particulares e muitas vezes do renome, visto que aquilo que diz com "as almas do outro mundo" sempre foi encarado como superstição, e os estudiosos no assunto, como pessoas de pouco equilíbrio mental.

A insistência, à perseverança, à coragem de um pugilo de desbravadores se deve haver passado do domínio da lenda para o campo da Ciência a fenomenologia de ordem psíquica extranormal, da qual os acadêmicos até hoje não puderam tomar conhecimento.

Já se sabe que o fato existe; ¡á se conhece que a História o registra; muitos, porém, pensam ainda que a parte teórica é lucubração de Allan Kardec. As variadas narrações deste livro desmentem, de maneira categórica aquele último refúgio onde se encantonam os negadores.

E bem de ver que, mescladas aos ensinos que os Espíritos davam aVidente, há as idéias ancestrais que ela armazenara nas profundezas do ser, no decorrer dos séculos; há ainda as teorias explicativas do Autor, que ignorava a matéria-só agora espalhada pelo Mundo: haja visto que se refere às noções sobre as moradas no Espaço, as esferas, os diversos planos, a hierarquia espiritual, até então encobertos por um véu que está aos poucos sendo levantado. A revelação não poderia vir de chofre. E há as suas inferências.

E de crer também que os próprios Espíritos só pudessem apresentar o que sabiam, o de que eram testemunha, o que tinham verificado. Não se vendo nas três estâncias assinaladas pelas religiões ocidentais; não conhecendo ninguém votado às penas eternas; sabendo por experiência própria e alheia que o sofrimento corresponde às faltas e que a dor é a sua remissão; notando já em si, já nos vizinhos, que não há reforma imediata, mas que cada qual conserva suas idéias, hábitos e pendores, proclamaram o que lhes estava a entrar pelos olhos. Mas os velhos ensinos, que durante muitos séculos lhes foram incutidos no cérebro com a cartilha religiosa, enfronharam-se-lhes no espírito. E os menos adiantados, não fendo provas em contrário por fugirem ao domínio dos fatos observáveis, como a Redenção, ou se perderem na escuridão dos tempos, come o pecado original, esses ensinos seriam ministrados tácita ou expressamente; ou estariam no subconsciente da própria médium e a ela cabe a responsabilidade deles.

Outros há que se encontram na obra da Codificação e formam a maioria, tornando-se admiráveis pela perfeita concordância existente entre ela e eles. Isto nos mostra o método a seguir no descobrimento da verdade, nesse gênero de revelação. E já nas obras de Allan Kardec se estabelece que uma doutrina espírita para ser aceita deverá provir de várias fontes, por diferentes médiuns, em diversas épocas e lugares. A vidente de Prevorst é uma dessas fontes probantes.

E interessante também mostrar como certos casos se ajustam com o que observamos em nossas pesquisas e em nossa prática. Daremos um exemplo.

Relatam os Espíritos, como se vêem, em Kardec, que o ser no Espaço conserva, de maneira completa, as suas características intelectuais e morais.

Tínhamos um amigo, de nome Américo, que uma vez nos presenteou com uma camisa de lã magnífica: E como lhe perguntássemos mais tarde como a adquirira, respondeu:

- Apanhei-a na loja.

- Mas apanhou, como?

Era ele empregado numa casa comercial. E entre risadas nos disse:

- O patrão é um patife; ladrão como ele só; e quando me trata mal, vindo ralhar-me aos berros, um grosseiro que é, já que não lhe posso partir a cara, multo-o, trazendo-lhe a mercadoria.

E achava naquilo uma graça imensa. Cremos que o fazia por pilhéria, mais por pregar uma peça ao patrão; verdadeira garotada, tanto que distribuía o produto da fraude com os amigos.

O que aqui queremos mostrar é o seu espírito irreverente, brincalhão, alheio ás convenções, ao respeito social, despreocupado com o juízo do mundo, inconsciente da falta cometida.

Faleceu o Américo, e numa sessão, quando já não nos lembrávamos dele e muito menos do incidente, ele se manifesta. Ocorreu-nos então o caso, e para identificá-lo a aludir à sua "dádiva". Ele para logo atalhou:

- Você quer falar daquela camisa furtada?... - E riu-se muito.

Estava ali o Américo com a demonstração irrefutável de sua presença, pois que se apresentava qual fora em vida. Esqueceu-nos perguntar-lhe se aquelas multas não lhe teriam causado alguns dissabores no Espaço. O caso é que ele tinha o furto como uma boa e excelente facécia.

Fatos que tais, constantemente reproduzidos vêm trazer-nos, pelo testemunho universal, a prova daquilo que os Espíritos ditaram ao mestre lionês.

Esta obra, portanto, é um trabalho prestado de grande valor para os estudos metapsiquicos, já por ser clássico, já porque é um reforço ao ensino espírita, já porque vem demonstrar na persistência e ancianidade do fenômeno, na interação de suas causas e efeitos, a autenticidade do que está condensado atualmente sob o nome de Espiritismo.

A sua tradução para o vernáculo fazia-se necessária. As traduções em outros idiomas que tivemos à vista pareceram-nos acertadas em não reproduzir literalmente o compacto trabalho do Dr. Kerner, com as minúcias e rigores próprios da índole alemã. Ativemo-nos, portanto, à versão francesa, mais clara, mais concisa, conforme o estilo e o espírito gaulês.

Não nos foi possível, por vários motivos, valer-nos do original alemão. Que nos perdoem os leitores. As razões são multas, e entre elas a de que ad impossibilia nemo tenetur.
CARLOS IMBASSAHY

INTRODUÇÃO


A vidente selou com sua morte a sinceridade de suas revelações. Sua história não deve ser confundida com a das pessoas em transes magnéticos fracos, imperfeitos, e menos ainda com a dos impostores, muitos dos quais, recentemente desmascarados; os adversários da Vidente não tiveram escrúpulos, porém, no verem em suas manifestações aquele mesmo fenômeno e coisas daquele gênero. Ora, a existência de uma única pérola autentica não pode ser posta em dúvida pela descoberta de um milhão de falsas.

Tem-se afirmado muitas vezes que as faculdades magnéticas da Vidente deveriam ser atribuídas à influência dos que a cercavam. Como poderemos refutar tão absurda concepção?

Para os que seguirem e observarem o desenvolvimento destes fenômenos, tal asserção é não somente falsa senão ainda ridícula.

Não é preciso julgar estas revelações como se fizessem parte de um sistema filosófico imaginado por um Espírito iluminado. Elas surgem da contemplação íntima da natureza e acham-se freqüentemente em concordância com as crenças populares, com as opiniões de Platão, ambas provenientes da mesma fonte. O caso é por certo embaraçoso e não nos espantará a aversão provocada por ver-se uma fraca e simples mulher abalar os sistemas admitidos pelos sábios e fazer reviver as convicções que há muito eles pretendem desarraigar.

Em tal embaraço só me consolam as palavras de Paulo aos Coríntios: - "Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e as coisas fracas do mundo para envergonhar os fortes."

Se chegássemos a isolar-nos do toverlinho da vida exterior acharíamos que ela e a consciência exterior se encontram em contradição absoluta. O que o ser exterior acha conveniente, o interior muitas vezes o condena, e no tumulto do mundo somos inquietados por uma vozinha que murmura em nosso ser interior.

Sente-se que, por efeito dessa vida intensa, o homem se mantém em contato com a natureza, e que a existência imperfeita exterior só se lhe revela em aparência. esta relação invisível e secreta com a natureza que liga o homem ao outro mundo e ao caminho que a ele conduz.

Achei-me um dia à cabeceira de um desses homens que consagraram suas melhores faculdades ao desenvolvimento dos bens materiais, e ouvi-o dizer, já quando o estertor da morte lhe invadia o peito: - Sinto que a vida me abandona o cérebro e se concentra na região epigástrica; não tenho mais consciência do meu cérebro; não sinto mais as mãos e os pés, mas vejo o que não poderia descrever e no que não se acreditaria: é um outro mundo.

E assim falando expirou.

A história de certos homens mostra que nos momentos de aflição as preocupações mundanas se afastam: eles descem às regiões íntimas da consciência e aí encontram a relação das maravilhas domo os sonâmbulos não as revelaram. (1)



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