Duas palavras entre dois amores: o autor e o leitor



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Duas palavras entre dois amores: o autor e o leitor










Duas palavras entre dois amores: o autor e o leitor
A falsa modéstia é o último requinte da vaidade.

(La Bruyère)



1. Um público leitor em formação.
O movimento literário do século XIX brasileiro foi fundamental para a evolução histórica e cultural do país. Dentre os acontecimentos mais marcantes, a produção e circulação de romances nacionais é um fato digno de atenção em um país onde até 1808 não eram permitidos os direitos de impressão e, após essa data, esta atividade era admitida somente à Imprensa Régia1. Pode-se dizer que este século marca a história do livro no Brasil e o aumento substancial da população leitora e consumidora de livros, tendo em vista que, durante o período entre 1801 e 1890, o número de livrarias, somente na cidade do Rio de Janeiro, cresce de duas para quarenta e cinco2.

Nesse cenário, a produção de folhetins, novelas e romances assinados por brasileiros é substancial e surpreende a partir da segunda metade do século XIX. Neste período, a publicação de prosa ficcional aponta que sete escritores publicaram mais do que quatro romances3, fato curioso para um país a respeito do qual muitos afirmavam haver “pouca gente

que lê”, pensamento expresso no relato dos viajantes que visitaram o Brasil no decorrer do século, permanecendo entre muitos estudiosos até os tempos atuais, como se constata na afirmação de Luis Felipe Ribeiro, a partir de dados colhidos na sua obra Mulheres de Papel:

Levando em consideração que a população do Rio de Janeiro era, em 1830, de aproximadamente 125.000 habitantes, os 400 exemplares do Jornal do Commercio de 1827 compreendiam 0,32% das pessoas da cidade, se cada uma adquirisse um exemplar do jornal. Ou seja, um exemplar para 312,5 habitantes. Já em 1840, a situação melhora bastante: para 137.078 habitantes, 4.000 exemplares; ou seja, um exemplar para cada 34,26 habitantes, perfazendo um total de 2,9% da população.4


Apoiado nesses dados, Luis Felipe Ribeiro comenta:
Estes números todos apenas confirmam que se lia muito pouco no Brasil da época.5
A referência de Ribeiro, contudo, não parece completamente exata, pois o que se observa é que a situação entre 1827 e 1840 “melhora bastante”6, segundo a informação extraída da própria enciclopédia, quando esta menciona que boa parte da população tem acesso ao Jornal do Commercio. Se em treze anos o jornal multiplica em dez vezes sua tiragem e passa a atender mais do dobro de leitores do que atendia quando iniciou a publicação. Pode-se considerar este um fato positivo, diante de um panorama social em que o ensino das escolas tinha um alcance limitado e o povo que a ela tinha acesso estava à mercê de dirigentes mais preocupados em ordenar e disciplinar, do que propriamente instruir7. Neste período, boa parte da população masculina ainda era escrava, o que marcava uma grande desigualdade social.

Muitos estudiosos compartilham da opinião de Luiz Felipe Ribeiro e coroam seus discursos com a célebre frase que “se lia muito pouco no Brasil da época”. Entre os discursos que advogam nesse sentido, ecoam algumas afirmações pouco positivas em torno da leitura e da educação:

Quem entre nós escreve e quem entre nós lê? (...) Somente as classes acadêmicas e alguns empregados públicos saídos dessa classe. É a regra geral8.
***

(...) da distribuição das escolas na província, resultava um ensino primário precário composto por escolas assistidas por professores despreparados, incluindo muitas escolas fantasmas que só existiam nos relatórios anuais de ensino.9

***

(...) Mesmo essas moças privilegiadas tinham reduzido acesso à leitura, pouco ou nada sabiam de história ou geografia, possuíam vagas noções de literatura ou cálculo (...) vivendo nos limitados horizontes domésticos, aguardando o casamento que deveria ser sua suprema aspiração.10


Os trechos acima, embora não sejam equivalentes, descrevem imagens que se complementam, apontando para o reflexo de um país que tinha escolas com um ensino precário e que a leitura era restrita a uma pequena parte da população, sendo privilégio somente dos acadêmicos, de acordo com Silvio Romero. Às mulheres era reservada somente a aspiração do casamento e o acesso que elas tinham à leitura, ainda que “reduzida”, não é levado em conta como um processo de evolução e conhecimento.

Uma outra voz que evidencia a pouca produção de livros e menor ainda a leitura entre os brasileiros, era Machado de Assis quando escrevia no Diário do Rio de Janeiro em 1862 e citou o movimento literário brasileiro como “dos mais insignificantes possíveis.11 Embora Machado tenha considerado o movimento literário, em 1862, como um dos mais insignificantes, com poucos livros sendo publicados, comprovei com as pesquisas realizadas para compor a cronologia do romance do século XIX (em anexo) que os números apontam para uma significante produção literária. Entre 1822 e 1862 foram publicados, aproximadamente 138 obras de ficção, entre novelas, romances, contos ou folhetins.

Em desacordo com os discursos acima citados encontram-se registros que observam a evolução da prática de leitura entre os brasileiros nos anos oitocentos, resumindo a trajetória do leitor daquela época a partir de uma outra ótica:
Quem se esforça em considerar com mesquinharia tudo o que o Brasil possue, não deve entrar na Biblioteca Nacional, pois nela se encontra um estabelecimento com que o Brasil se aproxima dos maiores países da Europa.12
***
É verdadeiramente notável o desenvolvimento que em nossa província vai tendo o gosto pela instrução.13

***


(...) a primeira edição do Livro do Povo, de Antônio Marques Rodrigues, em 1861 (...) com mais de duzentas páginas compactamente impressas, mas bem ilustradas. Ele foi tão lido por sucessivas gerações de crianças brasileiras, principalmente no Nordeste, que se tornou uma raridade bibliográfica apesar do grande número de exemplares impressos. (...) No total, parece que foram impressos trinta ou quarenta mil exemplares, tendo o autor doado mais de cinco mil a escolas.14

***


Crescem então as oportunidades de leitura a partir dos aumentos dos negócios de imprensa e de livros, através de várias tipografias que surgem. (...)15.
***

Os livros escolares também atraíam os lojistas. (...) Na Notícia do catálogo de livros, de 1811, o livreiro Manuel Antônio da Silva anuncia seu estoque, em que encontram-se livros destinados ao ensino de retórica, gramática e matemática (...) Sem dúvida, a expectativa de público, sugerida por essa bibliografia, aponta um horizonte cultural em que a mocidade se alfabetiza, (...) É esta escola elemento essencial para, através da difusão do ensino e do patrocínio da familiaridade com os livros, favorecer o estabelecimento e o fortalecimento de práticas correntes de leitura.16


***

Examinada desde a perspectiva dos escritores românticos, não é assim tão irremediável, grave, precária e culturalmente insatisfatória –como se poderia crer, a partir da leitura de viajantes e cronistas – a condição da leitura feminina.17


***

(...) não podemos considerar que apenas aqueles, ou aquelas, que freqüentavam uma escola fora do ambiente doméstico tinham acesso às primeiras letras. (...) temos indícios de que a rede de escolarização doméstica, ou seja, o ensino aprendizagem da leitura, da escrita e do cálculo, mas sobretudo daquela primeira, atendia a um número de pessoas bem superior ao da rede pública estatal.18


Contrariamente às afirmações que negam a existência de um público leitor, percebe-se que um ponto que muito colaborou para ampliar o número do leitorado brasileiro nos anos oitocentos eram os estudos realizados no espaço doméstico. O ensinamento das primeiras letras não era feito exclusivamente nas escolas; mas também em casa e o ensino da leitura ampliava o número de pessoas que entravam em contato com livros.

Neste sentido, a narrativa ficcional colabora para ilustrar o quadro que reproduz cenas com a presença de práticas de leituras diversificadas. Há referências à presença dos jornais entre o público, como é descrito numa cena do romance A Moreninha (1844):

Seriam pouco mais ou menos onze da manhã, quando o batelão de Augusto abordou à ilha de... Embarcando às dez horas, ele designou ao seu palinuro o lugar a que se destinava, e deitou-se para ler mais à vontade o Jornal do Comércio.19
Os progressos da educação e a existência de leitores são sugeridos, da mesma forma, pelo narrador de Inocência, romance de 1872 que, num tom irritadiço comenta sobre a evolução da alfabetização feminina:

Contaram me que hoje lá nas cidades... arrenego!... não há menina, por pobrezinha que seja, que não saiba ler livros de letra de forma e garatujar no papel...20


Os livros são referidos como parte da vida cotidiana das pessoas. Assim aparece descrito no romance Cinco Minutos (1856) de José de Alencar:

Criamos assim um pequeno mundo, unicamente nosso (...) Quando nos sentimos fatigados de tanta felicidade, ela arvora-se em dona de casa ou vai cuidar de suas flores; eu fecho-me com os meus livros e passo o dia a trabalhar. São os únicos momentos em que não nos vemos. (...) Ela tem ciúmes de meus livros, como eu tenho de suas flores. Ela diz que a esqueço para trabalhar; eu queixo-me de que ela ama as suas violetas mais do que a mim.21


Os registros da leitura como uma atividade corriqueira da família, aparecem também descritos no romance Helena (1876), de Machado de Assis, em diversas passagens. A leitura é mencionada entre os passatempos que entretinham D. Úrsula enquanto estava convalescente:

A convalescença de D. Úrsula foi lenta, e não a houve mais rodeada de cuidados e atenções. Os dois sobrinhos não a deixaram um instante sozinha, e inventavam toda a sorte de recreio com que pudessem distraí-la: jogos de família ou leitura, música ou simples palestra íntima. 22


A leitura pode significar um desenfado para o leitor, como é citado no romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, editado em 1881, mas que recria uma sociedade da primeira metade do século XIX:

A partida de Virgília deu-me uma amostra da viuvez. Nos primeiros dias meti-me em casa, a fisgar moscas, como Domiciano, se não mente o Suetônio, mas a fisgá-las de um modo particular: com os olhos. Fisgava-as uma a uma, no fundo de uma sala grande, estirado na rede, com um livro aberto entre as mãos. Era tudo: saudades, ambições, um pouco de tédio, e muito devaneio solto.23

As situações em que a leitura se insere são cotidianas eee e podem ilustrar que tipos de livros eram comuns entre os leitores daquela época, expondo à vista do leitor contemporâneo quais exemplares compunham, possivelmente, as estantes das bibliotecas das residências familiares. Na ficção, o romance Helena descreve este exemplo:

Estácio fez aqui um panegírico do amigo, intercalado com observações da tia, e ouvido silenciosamente pela irmã. Vieram chamar para o chá. D. Úrsula largou definitivamente o seu romance, e Helena guardou o crochet na cestinha de costura.

— Pensa que gastei toda a tarde em fazer crochet? perguntou ela ao irmão, caminhando para a sala de jantar.

— Não?


— Não, senhor; fiz um furto.

— Um furto!

— Fui procurar um livro na sua estante.

— E que livro foi?

— Um romance.

Paulo e Virgínia?

Manon Lescaut.

— Oh! exclamou Estácio. Esse livro...

— Esquisito, não é? Quando percebi que o era, fechei-o e lá o pus outra vez.

— Não é livro para moças solteiras...

— Não creio mesmo que seja para moças casadas, replicou Helena rindo e sentando-se à mesa. Em todo o caso, li apenas algumas páginas. Depois abri um livro de geometria... e confesso que tive um desejo...24

Se a ficção recria a realidade, observa-se que a leitura preencheu a mocidade de alguns dos nossos escritores, quando consideramos os relatos memorialistas de alguns escritores que viveram sua juventude durante o século XIX. No livro Longos Serões do Campo, obra autobiográfica da escritora baiana Anna Ribeiro de Góes Bittencourt, (1843-1930), há o registro da prática de leitura corriqueira na família:

Mostrei grande facilidade para a leitura, e meus pais ficaram encantados, atribuindo aquilo a excepcional inteligência, sem levarem em conta o meu desejo de ler (...) O meu desideratum era ler histórias (...) Assim, foi para mim um motivo de verdadeira alegria quando me deram para ler um livro, O tesouro das meninas – o Livro de Bonna, como era chamado. (...) Depois passei a ler O tesouro das adultas, da mesma autora, Mme.Leprince de Beaumont. (...) Quando terminei os quatro tomos do Tesouro das adultas, tive imenso desejo de ler Flos Sanctorum; não ousei, porém, pedi-lo à noviça. Um dia folheando-o para ver as vinhetas que encimavam cada história de santo, disse-me ela:

— Não estrague o livro!

Foi o bastante para que me retraísse. Passei a ler outros livros.25
As memórias de leitura foram narradas também por Graça Aranha, no seu livro Meu próprio romance, no qual relata quais as obras que mais o atraíam, o forte encantamento que a magia da leitura lhe causava e a influência dos livros na sua vida:

O meu desvio foi para os livros das estantes de meu pai. Eu os carregava comigo para o telhado da casa, para onde eu passava pela janela do meu quarto de estudos no mirante. Fechava por fora cautelosamente a janela e sentado nas telhas lia desbragadamente. (...) Era a hora, em que eu seguia, na tradução portuguesa, Dom Quixote e Sancho e vivia no mundo picaresco e tenebroso de Gil Blas.26 (...) Para mim, que vinha alimentado de fábulas, de magias, de prosa poética e que tinha sede de realidade, Gil Blas foi regalo substancial, que me nutriu para sempre. O meu espírito ficou perpetuamente atraído pela fantasia e pelo realismo.27


O repertório de leituras mencionado por José de Alencar, como aquelas que preencheram sua juventude, acrescenta mais informações acerca das obras que circulavam entre os leitores oitocentistas:

Li nesse discurso muita coisa mais: o que me faltava de Alexandre Dumas e Balzac, o que encontrei de Arlincourt, Frederico Soulié, Eugênio Sue e outros. Mas nada valia para mim as grandiosas marinhas de Scott e Cooper e os combates heróicos de Marryat. 28


As criações de imagens de leituras ficcionais, ou ainda as práticas de leituras apresentadas nos depoimentos memorialistas podem não reproduzir a realidade, mas ratificam a idéia de que esses quadros foram compostos a partir de referências que podem ser consideradas verossímeis à realidade da época. Os registros expõem as diversas formas de leituras individuais, indicando a significativa presença da leitura de prosa de ficção que fazia parte do hábito particular dos leitores do século XIX.

As descrições de cenas supostamente cotidianas em que a leitura está incluída, representada no enredo dos romances, juntamente com o os registros memorialistas dos escritores da época, mostram que a leitura era uma prática comum na vida cotidiana de alguns brasileiros que viveram nos anos oitocentos.

O crescimento do leitorado brasileiro teve início no século XVIII e, com o passar do tempo, passou a ter importância essencial para a consagração do gênero romanesco. A divulgação da leitura no século XIX brasileiro, bem como sua prática, deve-se principalmente à expansão dos espaços onde são promovidos os hábitos de leituras silenciosas, como o surgimento de bibliotecas29, os gabinetes de leitura30 e a abertura de livrarias. Ao lado disso, inauguram-se as tipografias e editoras. Esses fatores influenciaram diretamente na história da leitura dos anos oitocentos no Brasil, culminando na expansão da leitura de jornais, revistas e da prosa de ficção (novela, folhetins, romance, crônicas), sejam em forma de livro impresso ou em folhetins publicados em jornais e revistas. Além das tipografias e editoras31; as tiragens de jornais e revistas, também contribuíram para a divulgação e veiculação das narrativas ficcionais (novelas, folhetins, contos, romance)32 que entretinham o público.

O jornal foi particularmente uma das formas de circulação impressas que mais difundiu a leitura. Material de fácil acesso e baixo custo33 possibilitava que os leitores tivessem acesso a este material, diversificando a leitura entre leitura erudita e material popular34, contribuindo efetivamente para uma multiplicação de leitores e alcançando diferentes faixas etárias em diversas camadas sociais. Regina Zilberman assinala a importância das edições de jornais possibilitada pelos avanços tecnológicos:

A tipografia deixou de ser um ofício artesanal, para se alinhar ao modelo em curso da população anônima e em série, raiz da massificação. Conseqüência dessas novidades foi a expansão de um meio de comunicação de desempenho até então discreto: o jornal. Graças à aceleração do processo de impressão, ele teve condições de se tornar diário, acompanhando o desenrolar dos fatos enquanto estes aconteciam e fazendo deles sua matéria; em virtude das novas disponibilidades tecnológicas, pôde ser produzido em grande quantidade, o que reduziu seu custo e facilitou a integração ao cotidiano burguês.35
A importância da circulação dos jornais e revistas no século XIX é também referida por Ubiratan Machado:
(...) jornais e revistas estavam cada vez mais presentes e indispensáveis na vida cotidiana das pessoas letradas. A força da imprensa ia assumindo, como veículo ideal de expressão moderna.36
A circulação dos textos impressos e sua divulgação por meio do aparecimento dos estabelecimentos laicos de instrução são componentes históricos fundamentais que auxiliam a construir uma história de livros e leitores. A inserção desses elementos (jornais e revistas) no meio literário favoreceu uma dinamização da leitura.

Neste panorama de expansão da leitura, coube aos gabinetes de leitura, a introdução de uma nova prática de locação de livros, processo inovador no Brasil. Os gabinetes de leitura se estabeleceram primeiramente na Europa no século XVIII e influenciaram diretamente no Brasil oitocentista. As circunstâncias históricas e sociais em que floresceram os gabinetes de leitura indicam, entre outros fatores, a expansão do mercado livreiro, culminando no crescimento do público leitor.

A diversidade dos ambientes, como os Gabinetes de Leitura, que possuíam salas de leitura ou proporcionavam a leitura domiciliar por meio do empréstimo do livro37, permite comprovar a existência de uma sociedade leitora efetiva no século XIX, como assegura Ana Luiza Martins:

Coube aos Gabinetes de Leitura, o papel de consagrar a prática da locação de livros. O caráter mercantil da instituição cultural denota de início sua inserção em sociedades que prenunciavam ou confirmavam a existência de um comércio livreiro, de um público consumidor e de uma produção literária.38


O aparecimento destes espaços que favoreciam o encontro do público com os livros tem início logo nos primeiros anos do século XIX. De acordo com o trabalho de pesquisa realizado por Nelson Schapochnik verificou-se, no período entre 1844 e 1861, a existência de oito gabinetes de leitura somente na cidade do Rio de Janeiro.39

Ana Luiza Martins ocupou-se de investigar a existência e a proliferação dos gabinetes de leitura no Estado de São Paulo40. Esse tipo de trabalho de investigação de catálogos e livros de assinantes permite vislumbrar algumas das preferência s do público, ou ainda, usando os termos de Robert Darnton, tem a vantagem de unir “o quê” com o “quem” da leitura41, pois verifica as preferências do público leitor da época.

O hábito de ler nos anos oitocentos pode ser confirmado à medida que os gabinetes de leitura espalham-se de Norte ao Sul do país. Há registros da fundação do Gabinete de Leitura Rio-Grandense a 15 de agosto de 184642. No ano de 1867 há a inauguração de mais dois novos gabinetes, no dia 29 de setembro de 1867 na cidade de Belém (PA) é inaugurado o Grémio Literário e Recreativo Português de Belém43 e no Nordeste do país há notícias do Gabinete Português de Leitura no Maranhão, também em 186744 e do Gabinete de Pernambuco (1871)45. Em 1875 surge na cidade de Avaré o Gabinete de Leitura de Avaré, conhecido como a primeira instituição cultural da cidade46.

A existência de gabinetes de leitura pelo território nacional nos anos oitocentos tem grande representação para a história do leitor da época e não apenas imaginário ou hipotético. Ademais, os gabinetes de leitura foram instituições de expressiva importância num país marcado pelas absurdas desigualdades sociais, pois funcionaram como espaços de democratização da leitura, como confirma Ana Luiza Martins:


No Gabinete de Leitura encontramos todos reunidos. Lá então são identificados os agentes sociais que, não obstante transitarem por espaços diferenciados, tinham projetos comuns. A educação popular era uma delas...47
Os trabalhos de investigação em torno dos espaços da leitura, realizados pelos pesquisadores Nelson Schapochinic e Ana Luiza Martins, abrem — não apenas para o historiador, mas também para o estudioso de literatura — a possibilidade de vislumbrar uma das maneiras como foi veiculada a leitura nos anos oitocentos no Brasil, percebendo principalmente que se lia com uma freqüência maior que aquela que é freqüentemente conhecida pelo senso comum. Perfazer esses caminhos possibilita comprovar a existência de leitores no Brasil do século XIX.

Robert Darton, descrevendo os estudos franceses em torno da investigação de leitores no ensaio “História da leitura”, ressalta a importância de avaliar o ambiente em que as pessoas liam, enriquecendo o debate com a valiosa consideração:

O “onde” da leitura é mais importante do que se poderia pensar, pois a colocação do leitor em seu ambiente pode dar sugestões sobre a natureza de sua experiência.48
Por meio do acesso público aos gabinetes foi possível identificar o perfil do leitor que freqüentava aqueles ambientes, apontando suas preferências, diferenças e proximidades com a leitura:

(...) o expressivo número de “obras literárias” também confirmava a predileção dos freqüentadores por um tipo de leitura recreativa, afastando o perfil desta instituição de uma sociedade de estudos ou corporação de sábios e eruditos. (...) A grande procura por revistas e jornais denota uma tendência mais imediatista de obter informação e recreação. (...) Dentre os periódicos destacam-se aqueles denominados “recreativos, scientificos e litterários”.49


As associações literárias multiplicaram-se, prestando atendimento a programas diversos que consistiam em local de lazer e no espaço de exercício literário propriamente dito e como propósito de atividade pedagógica, como fora proposto no Gabinete de Leitura de Rio Claro que se propunha a ministrar aulas no período noturno.50 No Grémio Literário e Recreativo Português de Belém, também houve o início do ensino avulso de diversas disciplinas e, posteriormente, os cursos comerciais e o ensino primário gratuito, atividades que foram uma constante nesta instituição, permanecendo até à segunda metade do século XIX.51

A existência de um número significativo de gabinetes como núcleos de difusão cultural comprova a existência de leitores reais . Nesse sentido, identificar o surgimento das escolas públicas e particulares auxilia a identificar uma população instruída e, possivelmente, consumidora de livros.

Os gabinetes de leitura funcionaram como uma das instâncias mais importantes para a divulgação e a propagação da leitura na sociedade dos anos oitocentos, justamente porque democratizam e socializam a prática da leitura. NaNNaN Na narração autobiográfica “Como e porque sou romancista”, de José de Alencar, o romancista resssalta a importância dos gabinetes de leitura na vida dos estudantes daquela época:

Nessas férias, enquanto se desenrolava a rebelião de que eu vira o assomo e cuja catástrofe chorei com os meus olhos, refugiei-me da tristeza que envolvia nossa casa, na literatura amena.

Com as minhas bem parcas sobras, tomei uma assinatura em um gabinete de leitura que então havia à Rua da Alfândega, e que possuía copiosa coleção das melhores novelas e romances até então saídos dos prelos franceses e belgas.52
As bibliotecas, ao lado dos gabinetes, eram outro tipo de espaço para o desenvolvimento e prática da leitura no século XIX brasileiro. Conta-se com a existência de várias bibliotecas surgidas nesse século, como espaço laico de saber.53 Eram estabelecimentos que, embora oferecessem a gratuidade do seu acervo, eram notadamente freqüentados por um público limitado, circunscritos a uma elite de intelectuais e eruditos54. O acesso aos livros de grande parte das bibliotecas era restrito aos membros acionistas o que predispõe um regulamento estabelecido. O exemplo dessas restrições é descrito por Valéria Augusti, que cita o artigo I das Disposições Orgânicas do Regulamento para a Leitura da Biblioteca do Gabinete Português de Leitura:
A Biblioteca do Gabinete Portugues de Leitura estará patente aos accionistas e subscriptores todos os dias de trabalho das 8 horas da manhã até as duas horas da tarde, e das 4 horas da tarde até as 9 da noite; e nos domingos e dias santos de guarda das 8 da manhã até o meio dia. No dia de natal, Domingos da Paschoa da Ressureição e do Espirito Santo, e no dia de Corpus-Christi não se abrirá o Gabinete.55
Não obstante haver restrições de horários que poderiam dificultar a aproximação do leitor das salas das bibliotecas deve-se considerar que entre os espaços de uso e desenvolvimento da leitura, as bibliotecas funcionaram como uma extensão para o desenvolvimento do público leitor, como ressalta Valéria Augusti:

Vimos que o Rio de Janeiro assistiu, ao longo do século XIX, à proliferação de bibliotecas que não pertenciam a particulares, e que, mesmo estabelecendo restrições de acesso aos seus acervos, via de regra, pretendiam atingir uma coletividade de leitores. (...) Entretanto, dentre todos os aspectos referentes a tais instituições, interessa-nos, em particular, aquele que diz respeito mais especificamente às práticas de leitura que ali se efetivaram. Os catálogos de livrarias informam-nos sobre alguns aspectos da circulação de livros. Por meio deles, entretanto, não somos capazes de saber o que acontecia com os leitores depois de adquirirem uma obra. Não sabemos se liam sós, acompanhados, em silêncio ou em voz alta. Os catálogos de bibliotecas são, por sua vez, uma fonte privilegiada para a investigação das práticas de leitura em espaços sociais de uso coletivo, pois permitem o acesso às regras a que tais práticas foram submetidas.56


Para que existissem leitores, fator fundamental seria a educação da sociedade, ou seja, a existência de um público alfabetizado. Neste sentido, as escolas foram um importante espaço para a educação e divulgação da leitura. Os estudos a respeito da educação brasileira no século XIX atestam que havia uma preocupação em criar leis que institucionalizassem o ensino. Luciano Mendes de Faria Lima analisa os caminhos da educação brasileira no século XIX , incluindo em sua discussão as questões relativas à necessidade de instrução de “negros (livres, libertos ou escravos), índios e mulheres”, fragmentos da sociedade em torno dos quais se acirravam os debates nas Assembléias das Províncias, na tentativa de ordenar a educação escolar.57 Diante de tais preocupações, a quinze de novembro de 1827, foi criada a primeira lei sobre instrução primária no período do império. A lei assegurava em seu artigo 1o.:

Em todas as escolas, vilas e lugares mais populosos haverá escolas de primeiras letras que forem necessárias.58


Ainda segundo Faria Lima, a lei de 1827 e todas as que a sucederam nesse período tinham como objetivo ampliar a instrução alcançando as “classes inferiores”, pois esta seria uma condição básica para a existência da nação.59

Meu objetivo não é discutir ou entender a forma como a educação brasileira se institucionalizou nos anos oitocentos. Os dados aqui apontados são úteis somente para assegurar a existência de uma população alfabetizada, que constitui um dos fatores fundamentais para a existência de leitores. Ana Luiza Martins também avalia a importância do surgimento de escolas nas províncias de São Paulo:

(...) ser alfabetizado possibilitava a freqüência à sociedade literária, reduto de um grupo intermediário, de haveres indefinidos, mas que se fazia representar, através de uma associação própria; finalmente os desfavorecidos de bens de fortuna, sem atributos sociais que lhe conferissem qualquer representação (...).60
O cenário cultural brasileiro começa a evidenciar mudanças logo no Império. Dentre os progressos sociais mais importantes está a abertura das escolas que funcionaram primeiramente como estabelecimentos públicos61. A criação de escolas permite mudar o panorama social dos leitores, principalmente no que diz respeito ao público feminino que surge “suficientemente numeroso”, para usar as palavras de Hallewell62.

A presença de moças nas escolas é descrita nas memórias de Graça Aranha, quando se refere ao momento em que freqüentou uma escola de meninas que recebia também matrícula dedede de meninos:

Quando minha mãe, sobrecarregada com a criação de novos filhos, que anualmente ia tendo, não pôde se ocupar exclusivamente de mim, resolveram mandar-me como externo a um colégio de meninas. (...) As meninas eram numerosas e os meninos, por exceção, apenas quatro.63
O cotidiano escolar em que desfilavam meninos e meninas esteve da mesma forma presente na escola freqüentada por Silvio Romero na sua infância, conforme expõe Carlos Sussëkind no livro Silvio Romero de corpo inteiro:

Mas não havia só meninos no colégio. E entre as meninas.....

“Entre as meninas meigas e inocentes,

Que douraram ali aquele meio,

Havia três que a todas excediam

A filha do juiz lá da Comarca,

A do tabelião e...quem diria?

A filha do mestre-escola!”

A criançada dividiu-se em três partes, “disputando a beleza das pequenas” (...) Dela fazia, nos versos e na vida, o centro dos seus “amores infantis”.64
A educação feminina foi decorrente de uma evolução social e histórica no país que passava por diversas transformações políticas e culturais. Neste momento, consolidava-se uma prosperidade urbana em que as festas, os prazeres da arte, a proliferação dos saraus – todos esses movimentos sociais foram importantes para despertar o interesse para a leitura. Nesse panorama, aumenta o trânsito social feminino entre os saraus; as mulheres já podiam sair à rua, ainda que acompanhadas, para visitas às amigas ou parentes.65

A partir dessa reunião de acontecimentos, vislumbra-se o aumento dos colégios femininos que passa a ser confiada às escolas particulares destinadas exclusivamente às moças, conforme aponta Ubiratan Machado:

Na Corte, aumenta o número de colégios femininos, não mais privilégio de aristocracias endinheiradas. (...) Preparavam as moças para a vida dos salões, despertavam o interesse pela poesia e a curiosidade pelo romance (...).66
Assim, sabe-se que a primeira escola para moças na cidade do Rio de Janeiro é inaugurada em 1816.67 E, convém salientar que, em alguns casos, não raros, era no próprio domicílio que as moças recebiam a educação que vinha por parte das “professoras particulares”, as preceptoras, conforme Jane Soares de Almeida e Marly Gonçalves Bicalho Ritzkat:

Nas casas abastadas as jovens recebiam de professores particulares algumas noções elementares. 68

Ainda nessa temática que envolve o ensino feminino efetuado por professoras particulares, considera-se a seguinte reflexão:

As crescentes exigências de educação feminina levaram à contratação de educadoras particulares (...) exercem dentro da família uma influência quase incondicional sobre as crianças a elas confiadas, concedendo à mãe um papel apenas secundário na educação doméstica de suas filhas. O papel principal passa a ser assumido pela “expert pedagógica”: a preceptora.69


Anna Ribeiro (Bahia, 1844-1930) também foi educada em casa, com uma professora particular, segundo relata em suas memórias, por volta do ano de 1853:

Tinha eu entrado nos dez anos, e um desejo ardente de aprender a ler invadiu-me. Vendo minha mãe e sua amiga Sinfronia lerem histórias, parecia-me que, nada mais almejaria. Como eu apresentasse sensível melhora na vista, escreveu minha mãe um alfabeto com letras grandes e bem vivas para ensinar-me. Uma mulatinha de minha idade, destinada a ser minha ama de quarto, foi minha companheira de estudo por julgarem que assim eu não me aborreceria.70


No contexto da educação informal funcionavam ainda e eram muito comuns as aulas executadas em espaços improvisados, geralmente na casa dos professores, espaços de educação de meninas e meninos, como relata Luciano Mendes de Faria Filho:

Os alunos e alunas dirigiam-se para a casa do mestre ou da mestra, e lá permaneciam por algumas horas.71


As escolas multiplicavam-se com o passar dos anos. Em 1867 funcionavam 111 escolas para o sexo feminino somente na província de São Paulo e 165 destinadas ao sexo masculino72, número este que não aponta uma desproporção grande.

Fundamental para a educação feminina foi o surgimento de escolas normais, que apareceram como uma necessidade e proposta na formação de professores:

O General Abreu e Lima, interessado nos problemas nacionais, publica, em 1835, o Bosquejo histórico, político e literário do Brasil. Depois de elogiar o projeto educacional de outros países da América Latina, (...) refere-se à absoluta inexistência de qualquer programa de formação de professores. (...) A noção de que professores precisavam ser formados por escolas especializadas era nova no horizonte do século XIX, especialmente nas primeiras décadas, quando Abreu e Lima escreveu o Bosquejo.73
No entanto, a intenção de formar professores, embora não tenha se concretizado, já estava prevista na Lei Geral do Ensino de 1827, que outorgava a cada província a responsabilidade pela “organização e administração de seus sistemas de ensino primário e secundário”.74 As notícias do início do funcionamento dessas escolas para formação de professores, conhecidas até hoje como escolas normais, são várias e foram registradas desde os discursos dos viajantes, como aparece citado por Debret, que confirma o ano de 1823 como início dessas escolas:

Em 1823 o govêrno estabeleceu no Rio de Janeiro uma escola Normal.75


Heloisa Villela informa que a primeira escola normal a iniciar suas atividades teria sido a de Niterói, no ano de 183576, seguidas das escolas normais de Minas Gerais e São Paulo77, que começam a funcionar em 1840 e da escola normal da Bahia, que inicia suas atividades no ano de 1842, após o decreto de 1834 que instituiu o funcionamento dos estabelecimentos. Nos anos 70 do século XIX foram criadas mais duas escolas normais: a Escola Normal de Porto Alegre (1870) e a Escola Normal do Rio Grande do Norte (1874)78. Embora já existissem diversas escolas normais funcionando nas províncias, a primeira Escola Normal pública na Corte Imperial foi inaugurada somente no ano de 1881.79

A abertura dessas escolas funcionou como uma via de acesso das mulheres à instrução, o que possibilitava um investimento feminino na educação e na realização de uma profissão.80

O público das escolas, públicas, particulares ou da educação informal ministrada em casa era composto também pelo sexo masculino, fatia significativa da porção de leitores oitocentistas. Parte dos nossos intelectuais registraram suas iniciações no mundo das letras longe das escolas, tiveram sua educação preliminar da maneira menos convencional, aprenderam a ler e escrever em casa, geralmente com a mãe ou com o pai.

Um exemplo da iniciação da leitura fora do ambiente da escola está registrado no livro de memórias de Medeiros e Albuquerque, quando descreve sua iniciação à leitura, e em outro momento da vida, aparece a figura de mais um professor particular:

Eu não fui, de modo algum, menino prodígio. Nem menino, nem homem. Mas aos quatro anos de idade sabia ler perfeitamente bem. Isso provava, não meu talento, mas o talento e o carinho de minha mãe, que, com cubos e cartões, em que havia letras e sílabas, brincando, ensinou-me alegre e rapidamente (...) Dizia-se de mim aos quatro anos, quando me queriam elogiar, que eu já lia o Jornal do Commercio. (...) Nessa época Silvio Romero foi meu professor de Filosofia. Dava-me aulas particulares. Meu pai lhe pedira isso (...) Fui a primeira vez. Era em Santa Teresa, na casa de Silvio.81

Graça Aranha também se refere à educação que recebera em casa:

O meu pendor para o estudo revelou-se muito cedo. Aos três anos perseguia minha mãe para me ensinar a ler. Meu pai mandou organizar na tipografia uma espécie de cartilha alfabética especialmente para mim. A professora era minha mãe. Assim como tive que aprender um ofício, também a minha primeira instrução devia ser maternal.82
Concomitantemente às escolas públicas, surgiram as instituições particulares, na sua maioria católicas e outras de origem protestante83, contribuições sociais necessárias para a construção do conhecimento e construção de uma história da leitura.

Entre as instituições de formação educacional e erudita, contamos também com algumas de ensino superior que começaram a surgir logo no século XIX, a partir de 1808, em estabelecimentos isolados84. Entre os estabelecimentos de ensino superior que surgiram nos anos oitocentos, destacam-se a Faculdade de Direito de Olinda (1827)85, a Faculdade de Direito de São Francisco (1828)86 em São Paulo, e a Faculdade de Direito de Recife (1827).87

De acordo com Ana Luiza Martins, no primeiro recenseamento feito no Brasil, em 1872, o país contava com 160.000 alunos matriculados em escolas primárias e no ano de 1874 foi computado em 28.271 o número de leitores que freqüentavam bibliotecas e gabinetes.88 Contudo, se por um lado pode-se confiar nos números que quantificam os leitores que eram assinantes potenciais dos gabinetes e garantidos leitores porque faziam a locação do livro, por outro, podemos concordar com a afirmativa de Schapochnik quando comenta a possibilidade de uma leitura compartilhada:

(...) convém insistir que o fato de ser assinante de um gabinete não excluía a possibilidade de um número maior de pessoas se beneficiar do acesso aos livros e participarem da experiência da leitura. Esta assimetria viabiliza a hipótese de que, para além da leitura individualizada, silenciosa e do isolamento solicitado pela forma do romance, a locação de livros junto a um gabinete possibilitava a prática oralizada da leitura no ambiente doméstico, que circulava em meio a uma audiência formada por sinhás e varões, mucamas e escravos, crianças e velhos.89


O assinante que retirava o livro na biblioteca ou gabinete poderia ser o mediador para uma leitura compartilhada, em que o leitor não seria necessariamente apenas aquele que corre os olhos pelas páginas da obra, mas também o que pode ouvir, entender e viver as emoções da história que lhe é contada. Fato este que pode ser comprovado no relato de José de Alencar, no texto Como e porque sou romancista:

(...) Essa prenda que a educação deu-me para tomá-la pouco depois, valeu-me em casa o honroso cargo de ledor, com que me eu desvanecia, como nunca me sucedeu ao depois do magistério ou no parlamento.

Era eu quem lia para minha boa mãe não somente as cartas e os jornais, como os volumes de uma diminuta livraria romântica formada ao gosto e ao tempo. (...) a sala do fundo era a estação habitual da família.

Não havendo visitas de cerimônia, sentava-se minha boa mãe e sua irmã D. Florinda com os amigos que compareciam, ao redor de uma mesa redonda de jacarandá, no centro da qual havia um candeeiro.

Minha mãe e minha tia se ocupavam com trabalhos de costuras, e as amigas para não ficarem ociosas ajudavam. Dados os primeiros momentos à conversação, passava-se à leitura e era eu chamado ao lugar de honra.

(...) Lia-se até a hora do chá, e tópicos havia tão interessantes que eu era obrigado à repetição. Compensavam esse excesso, as pausas para dar lugar às expansões do auditório , o qual desfazia-se em recriminações contra algum mau personagem, ou acompanhava de seus votos e simpatias o herói perseguido.

Uma noite daquelas em que eu estava mais possuído do livro, lia com expressão uma das páginas mais comoventes da nossa biblioteca. As senhoras, de cabeça baixa, levavam o lenço ao rosto, e poucos momentos depois não puderam conter os soluços que rompiam-lhe o seio.

Com a voz afogada pela comoção e a vista empanada pelas lágrimas, eu também cerrando ao peito o livro aberto, disparei em pranto e respondia com palavras de consolo às lamentações de minha mãe e suas amigas.90


A leitura dividida proporcionava encanto coletivo, para quem ouvia e para quem lia. Cenas desta prática de leitura feita em grupo são também descritas no livro autobiográfico de Anna Ribeiro, quando ela relata o prazer em dividir com sua mãe uma leitura que muito lhe agradasse e quando ouvia curiosa a leitura de jornais:

Quando uma história de um santo mais me interessava, lia em voz alta para minha mãe, e então ficava eu encantada. (...) Também ouvia com prazer a leitura, feita por Emília, de uma gazeta enviada do Rio pelo Monsenhor, A Tribuna católica. Apreciava sobretudo os folhetins, historietas repletas de princípios morais e religiosos.91


Exemplos de compartilhamento do texto em grupo familiar aparecem em cenas de romances, como em A Mão e a Luva (1874), de Machado de Assis e Senhora (1875), de José de Alencar. E, embora a prosa de ficção não estabeleça uma informação documental, são vários os fragmentos que retratam um mundo de leitura onde não só é leitor aquele que lê, mas todos os que ali escutam e partilham do andamento da história:

De noite foi à casa da tia. Achou as senhoras à volta de uma mesa; Guiomar lia, para a madrinha ouvir, um romance francês, recentemente publicado em Paris e trazido pelo último paquete. Mrs. Oswald lia também, mas para si, um grosso volume de Sir Walter Scott, edição Constable, de Edimburgo.

Jorge veio interrompê-las um pouco, mas só interromper, porque a leitura continuou logo depois, ajudando ele próprio a Guiomar naquela filial tarefa. Veio o chá, veio depois a hora de recolher, e a baronesa deu por findo o serão, ainda que o livro estava quase findo.

Um capítulo mais, aventurou Jorge com o livro aberto nas mãos.

A baronesa sorriu e voltou os olhos para Guiomar, a cuja conta lançou aquela dedicação do sobrinho; recusou contudo, por estar a cair de sono.

— Eu é que não me deito sem saber o resto, declarou Guiomar; levo o livro comigo.



  • Ah! disse Jorge com um gesto de satisfação.92

***


A noite havendo visitas passavam no salão; quando estavam sós, ficavam na saleta; Seixas abria um livro; Aurélia fingia escutar os trechos que o marido lia em voz alta.93
A recriação do ambiente doméstico nas citações registra práticas corriqueiras da época e assinala os momentos de leitura, ocorridos geralmente à noite, proporcionando o encontro de duas ou mais pessoas, momento em que a fantasia que a leitura do romance proporcionava era democratizada.

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