Duas vinculações possíveis entre personalidades e acontecimentos



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II COLÓQUIO SOBRE IMAGEM E SOCIABILIDADE

Acontecimento: Reverberações

II COLOQUE SUR IMAGE ET SOCIABILITÉ

Événements: réverbérations



Duas vinculações possíveis entre personalidades e acontecimentos: diferentes modos de atuação na vida pública
Lígia Lana e Paula Guimarães Simões
Resumo: Esta comunicação tem como objetivo refletir sobre a relação entre as pessoas públicas e os acontecimentos a elas ligados. Dois tipos de personalidades são identificados: de um lado, essas personagens (em virtude de seu desempenho e seu talento profissionais) correspondem ao próprio acontecimento, ou seja, qualquer atividade desenvolvida por elas acaba se tornando um acontecimento; por outro lado, os indivíduos podem ganhar a notoriedade depois que se envolvem em um acontecimento, lançando-se ao estatuto do reconhecimento em razão de um evento público. Nosso argumento é de que se trata de personalidades de naturezas distintas e que se vinculam aos acontecimentos de modo igualmente diferente. Entretanto, acreditamos que, em ambos os casos, o que mantém o estatuto célebre de tais personalidades é o seu modo de atuação na vida pública, que deve estar em sintonia com o contexto social em que se inscrevem.
Palavras-chave: personalidades públicas; experiência; acontecimento.
1. Introdução

O ponto de partida para nossa reflexão nesta comunicação é a associação que pode ser percebida entre pessoas públicas e acontecimentos. Partimos do pressuposto de que a vida de tais personalidades (como a de cada um/a de nós) é permeada e construída por um conjunto de ocorrências, de natureza e amplitude distintas: micro ou macro, ligadas à vida pessoal ou profissional, que ocupam o cenário de visibilidade por um curto ou um longo período. Ora como protagonistas, ora como agentes secundários, tais indivíduos se relacionam de modos distintos com os acontecimentos, a partir de seu modo de atuação na vida pública.

Assim, iniciamos com uma breve abordagem desses dois eixos conceituais – pessoa pública e acontecimento –, procurando perceber o lugar da experiência nessa articulação. Em seguida, situamos dois estatutos de pessoas públicas: personalidades que podem ser vistas como acontecimento e personalidades que se constroem a partir do acontecimento. Procuramos mostrar os movimentos distintos que tais indivíduos constróem na cena social e o modo como sua inserção no cenário de visibilidade e reconhecimento dialoga com o contexto social em que se inscrevem.
2. As pessoas públicas vistas sob o prisma do acontecimento

Quando dizemos “ali está uma personalidade pública”, estamos fazendo referência a um rosto específico, a uma pessoa individual passível de ser identificada entre as demais. Ao falar sobre uma estrela de cinema, por exemplo, estamos distinguindo alguém, apontando nominalmente a existência de um indivíduo. A pessoa pública pode ser identificada por meio de enredos e imagens de um “eu” específico, que ficam disponíveis de maneira publicizada para um grande número de indivíduos.

Na vida contemporânea, as narrativas sobre as personalidades estão cada vez mais abundantes.1 A visibilidade da mídia nos oferece, cotidianamente, personagens para todos os gostos, manequins, esportistas, participantes de reality shows, chefs de cozinha, especialistas, que coexistem com as tradicionais figuras públicas, chefes de estado, líderes religiosos e porta-vozes. Em todos os diferentes casos, uma pessoa pública é reconhecida por um conjunto de ações e de imagens individuais, um “eu” singular.

Apesar de identificarmos um indivíduo específico quando nos remetemos a uma pessoa pública, nossa proposta de abordagem tem o objetivo de ultrapassar uma perspectiva subjetivista,2 a partir da articulação entre esses personagens, dotados de um rosto único, e todos aqueles que os reconhecem. A leitura é orientada pelo conceito de experiência, desenvolvido por John Dewey (2010).

Para Dewey, a experiência é uma transação entre criaturas vivas e ambiente, igualmente importantes para a sua configuração. O conceito de experiência busca amalgamar os papéis de todos aqueles que sofrem uma experiência, mesmo nos casos em que a cooperação entre as partes seja diferente. A impessoalidade da experiência, como explica Louis Quéré (2010), situa-se nesse conjunto de transações efetuadas na experiência, que não podem ser particularizadas em direção a um ou outro participante. Quando sofrem uma experiência, os indivíduos precisam “abandonar seu estatuto de elemento e se extrair do agente integrado produzido, colocando-se como um sujeito individual capaz de responder à experiência.” (QUÉRÉ, 2010, citação a conferir). No processo de transação da experiência, as responsabilidades de cada uma das partes envolvidas podem ser atribuídas apenas em um momento posterior, por meio da linguagem. Quando se faz uma experiência, todos aqueles que se envolvem na ocorrência participam globalmente do processo. Há a constituição de um todo, o que implica que os participantes sofrem e constituem juntos a experiência.

O conceito de experiência sugere que, ainda que os personagens públicos sejam identificados de maneira individual, não existem fronteiras estanques entre o rosto público e aqueles que sofrem junto sua atuação. A face publicizada desses indivíduos faz com que o alcance de suas narrativas seja vasto, atingindo um grande número de indivíduos que, conjuntamente, constituem uma cooperação que torna possível o reconhecimento daquela figura como personalidade.

Os diferentes estatutos das pessoas públicas mostram que a experiência com as personalidades pode variar muito – incidindo, assim, no tipo de reconhecimento estabelecido. O impacto ou o mecanismo de afetação de cada personalidade é modulável. Alguns personagens suscitam muita comoção, permanecem por muitos anos como figuras reconhecidas por todos, possuem uma grande força de mobilização. Outros ocupam o espaço da visibilidade por menos tempo, causam um impacto menor e são pouco reconhecidos.

Independente das características que singularizam os vários tipos de pessoas públicas, é inegável que seu processo de constituição foi alterado a partir do desenvolvimento da modernidade - com o declínio dos poderes da Igreja e de líderes políticos - e dos meios de comunicação - que impulsionam o valor da visibilidade naquele contexto. De acordo com Leo Braudy (1997), em sua retrospectiva histórica da fama, durante o século XVIII, a democratização das sociedades ocidentais modifica a maneira clássica de atribuir reputação aos indivíduos. Segundo o autor, “uma enorme variedade de novos grupos sociais, econômicos e políticos usam os poderes expandidos da mídia para arregimentar seus membros no contexto de vácuo da autoridade cultural, desafiando as monarquias e as aristocracias”3 (BRAUDY, 1997, p. 371). A consolidação desse processo ocorreu ao longo dos dois últimos séculos, quando as tradicionais figuras famosas passam a conviver com outros personagens, indivíduos comuns que não se relacionavam aos universos políticos ou religiosos – os dois grandes âmbitos nos quais predominava a atribuição da fama antes da modernidade.

Assim, a fama não é uma invenção moderna: sempre existiram pessoas e realizações importantes, a publicidade imediata de seus feitos e aquilo que a posteridade leva sobre elas. A modernidade transforma a maneira como os integrantes de uma coletividade se definem enquanto indivíduos, orientados pelos valores da igualdade e da liberdade. Assim, as atitudes que podem representar conquistas relevantes para todos também são modificadas.

Todo esse processo é influenciado e acelerado pelo desenvolvimento dos meios técnicos de comunicação, que tornam mais próxima dos indivíduos comuns a transação com as personalidades. Com isso, o estatuto célebre se constrói, se mantém, se altera e não se destina somente a uma fração específica de indivíduos de uma dada coletividade, visto que diferentes tipos de atuação podem ser consideradas relevantes para todos.

No processo de constituição da fama e das várias personalidades públicas ao longo dos séculos, entendemos que uma característica é marcante em todos os períodos: a experiência de (e com) tais personalidades é estruturada e ordenada a partir de acontecimentos. Pequenas e grandes, de âmbitos público e privado, inúmeras são as ocorrências que constroem a vida de tais sujeitos. A modulação da experiência com as personalidades constitui-se a partir dos acontecimentos vinculados às suas trajetórias. Tais acontecimentos se inserem em determinado contexto social ao mesmo tempo em que atuam em sua constituição. Os acontecimentos que envolvem tais pessoas públicas também devem ser pensados a partir da dinâmica entre o agir e o suportar que constrói a experiência.

Isso significa refletir sobre as ações que são desencadeadas por e/ou envolvem as personalidades de diferentes maneiras. Além disso, significa pensar no modo como essa atuação delas na cena pública afeta a experiência dos sujeitos que se configuram como públicos dos acontecimentos que as envolvem. O poder de afetação dos acontecimentos que estruturam a vida das personalidades públicas está relacionado ao contexto da experiência em que irrompem. Ao ocupar o espaço da visibilidade pública, os acontecimentos envolvendo pessoas específicas convocam os indivíduos comuns a assumir posicionamentos diante da interrupção da vivência de todos os dias.

2.1. O conceito de acontecimento

A fim de refletir sobre a relação entre acontecimento e a construção de personalidades públicas, gostaríamos de partir de uma citação de Louis Quéré (no texto Entre o facto e o sentido: a dualidade do acontecimento).


Para evidenciar o lugar do acontecimento na organização da experiência, seja esta individual ou colectiva, é preciso, por um lado, conseguir situá-lo correctamente na ordem do sentido – “correctamente” significando: sem ser em termos de atribuição, a posteriori, de valores e de significações a factos, por sujeitos individuais ou colectivos -, por outro lado, inscrever a acção numa dinâmica em que a passibilidade do acontecimento e o seu poder hermenêutico desempenhem um papel mais importante do que a motivação dos sujeitos (QUÉRÉ, 2005, p. 60).
Nessa perspectiva, o acontecimento é visto como estruturador de nossa experiência no mundo, que não pode ser explicado simplesmente a partir de ume esquema de causalidades. Ele irrompe na vida dos sujeitos e atua na ordenação dessa vivência, a partir dos sentidos que o próprio acontecimento instaura e que movimentam e constroem o contexto social. É dessa forma que podemos falar, como o faz Isabel Babo-Lança, de uma “elaboração recíproca” entre contexto e acontecimento (2006, p. 83), na medida em que, ao mesmo tempo em que o acontecimento se inscreve naquele, ele também o institui. Nesse processo, o acontecimento cria um passado para si, ao mesmo tempo em que projeta futuros, abrindo um novo campo de possíveis (ARENDT, 1993). Além disso, devemos pensar na transação entre o agir e o sofrer que relaciona sujeitos e acontecimentos em determinado contexto.

Essa é uma dinâmica central na compreensão do acontecimento: a ação e a passibilidade configuradoras da experiência do acontecimento. De acordo com Quéré,


[o] verdadeiro acontecimento não é unicamente da ordem do que ocorre, do que se passa ou se produz, mas também do que acontece a alguém. Se ele acontece a alguém, isso quer dizer que é suportado por alguém. Feliz ou infelizmente. Quer dizer que ele afecta alguém, de uma maneira ou de outra, e que suscita reacções e respostas mais ou menos apropriadas (QUÉRÉ, 2005, p. 61).
O acontecimento envolve, assim, um agir e um suportar: ele é construído por ações realizadas pelos sujeitos e desencadeia outras ações em seus desdobramentos. Além disso, ele afeta os sujeitos: estes se sentem tocados e sensibilizados pelo acontecimento, sofrendo e suportando as ações desencadeadas por ele. É, assim, nessa mútua afetação que sujeitos e acontecimentos são “tecidos em conjunto”, como afirma Quéré (2005, p. 70). Na perspectiva do autor, é através da apropriação “por indivíduos ou por colectivos que o acontecimento adquire a sua identidade e a sua significação próprias” (QUÉRÉ, 2005, p. 70). Essa dinâmica de afetação dos sujeitos como marca do acontecimento é também sugerida pelo filósofo Jacques Rancière, ao afirmar que “não há acontecimento sem sentido de acontecimento, sem subjetivação de acontecimento. [...] não há acontecimento [...] sem um alguém por quem e para quem ele tem sentido de acontecimento” (RANCIÈRE, 1995, p. 239).

Ainda que os sujeitos sejam centrais na apropriação do acontecimento, é preciso salientar que não são eles que, a partir de suas crenças e motivações individuais, atribuem sentidos aos acontecimentos. É por isso que Quéré fala do “poder hermenêutico” dos acontecimentos. Conforme o autor,


os acontecimentos se tornam, eles próprios, fonte de sentido, fonte de compreensão e fonte de redefinição da identidade daqueles que afetam. Nessa perspectiva, em que o acontecimento vem antes dos sujeitos e das situações, é o que ele se torna através de seu percurso, e os efeitos de sentido que produz, que contribuem para individualizá-lo. É nesse sentido que se pode falar de um poder hermenêutico do acontecimento (QUÉRÉ, 2010, p. 35).
Assim, são os sentidos instaurados e projetados pelos acontecimentos que irrigam o contexto social e são apropriados, subjetivados e ressignificados pelos sujeitos em uma transação que relaciona os sujeitos, os acontecimentos e a vida social que se efetiva nesse processo. Nessa interação, existem alguns agentes que são protagonistas dos acontecimentos, que participam ativamente de sua configuração narrativa e da dinâmica de ações que movimentam as ocorrências. Ao mesmo tempo, existem aqueles sujeitos que, afetados pelos acontecimentos, se configuram como públicos destes, reagindo e respondendo à afetação sofrida através dos acontecimentos.

Em nossa perspectiva, os acontecimentos que marcam a vida das personalidades públicas, chamando e sustentando a atenção do público, afetando a experiência deste e conquistando ampla visibilidade, são acontecimentos que, de alguma maneira, dialogam com o universo de valores de uma sociedade em determinado momento. Ou seja, as personalidades (e os acontecimentos a elas ligados) se vinculam aos indivíduos ordinários a partir de valores que elas personificam ou que de alguma maneira corrompem e que suscitam a atenção pública.

Essa vinculação entre pessoas públicas, experiência e acontecimentos será discutida aqui a partir de dois estatutos de personalidade que configuram modos distintos de associação com o acontecimento e de atuação na cena pública, como discutiremos a seguir.
3. Dois estatutos de personalidade pública
3.1. Pessoas públicas como acontecimento

Um primeiro estatuto de personalidade pública se refere àquelas celebridades que correspondem ao próprio acontecimento. Em linhas gerais, isso significa que as múltiplas ocorrências que marcam a vida de tais personalidades ocupam a cena pública, alimentam a mídia e as discussões entre os sujeitos ordinários, sustentando o estatuto célebre das mesmas. Isso faz com que possamos pensar a própria celebridade como acontecimento.

Temos em mente aqui aquelas personalidades que se destacam publicamente em virtude de seu desempenho profissional em diferentes campos. Elas podem desenvolver atividades de interesse público, como políticos, porta-vozes e líderes religiosos, ou serem competentes em ramos mais diretamente ligados à esfera de visibilidade da mídia, como esportistas, atores, atrizes, músicos ou manequins. São pessoas públicas que alcançam visibilidade e reconhecimento por sua atuação na vida social e cujas trajetórias participam da organização da experiência coletiva da sociedade em que se inscrevem.

Em virtude da visibilidade que conquistam, tais celebridades despertam a atenção e o interesse do público. Isso faz com que os acontecimentos vinculados à vida de tais personalidades estejam sempre no foco de atenção da mídia e da sociedade em que elas se inserem. Acontecimentos pequenos e grandes, esperados e surpreendentes que permeiam e constroem a sua trajetória passam sucessivamente a dialogar com os indivíduos comuns. Independente da natureza de tais ocorrências, elas são destacadas na cena pública tanto nos dispositivos midiáticos como nas conversas cotidianas dos sujeitos ordinários. É assim que o nascimento de um filho, o lançamento de um novo disco, o escândalo de uma traição ou a simples caminhada na praia que envolve esse tipo de personalidade ocupam o cenário de visibilidade pública.

É certo que a duração de tais acontecimentos pode variar muito em função da natureza e do tamanho dos mesmos: o casamento de uma celebridade pode pautar as discussões durante semanas (ou até meses, se lembrarmos do recente casamento real4), diferentemente de um passeio no shopping de um casal célebre. De qualquer forma, nesse primeiro estatuto de celebridade, esses diferentes tipos de ocorrências (micro ou macro) mobilizam a atenção pública e se convertem, muitas vezes, em acontecimentos.

Além disso, em virtude de todo o espaço de fama e reconhecimento conquistado por tais personalidades na cena pública, podemos pensá-las como acontecimento. Isso implica atentar para o modo de emergência desse tipo de personalidade, para o seu poder hermenêutico, para a elaboração recíproca que estabelece com o contexto social e, sobretudo, para a passibilidade e o poder de afetação dessas celebridades.

A emergência dessas personalidades na cena pública é certamente marcada por certos talentos que efetivam um desempenho digno de louvor em diferentes campos. Entretanto, tais habilidades não devem ser vistas como causas determinantes que condicionam a construção do estatuto célebre desses sujeitos. Se o acontecimento não pode ser explicado a partir do esquema da causalidade (QUÉRÉ, 2005), então, não podemos supor que o surgimento desse tipo de celebridade no cenário social possa ser unicamente explicado pela natureza dos dons que ela apresenta. É preciso atentar para o reconhecimento social desses talentos, além do modo como eles se situam no contexto em que se inserem.

Esse tipo de celebridade pode ser visto como fonte de sentido e de compreensão de certas coisas do mundo. Elas revelam algo desse mundo e podem impulsionar reflexões sobre determinadas atitudes, bem como sobre os valores que as orientam, na sociedade em que se inscrevem. Ao mesmo tempo em que revelam algo da vida social, tais personalidades atuam na própria constituição da mesma. É por isso que podemos pensar em uma elaboração recíproca entre esse tipo de personalidade e o contexto social. Afinal, não temos em mente aqui uma perspectiva individualista para a compreensão dessas celebridades, na medida em que elas não são fruto de motivações individuais, mas sim de uma complexa interação entre tais pessoas públicas e o contexto social em que se situam.

Ao refletir sobre as personalidades como acontecimento, é fundamental levar em conta o modo como elas afetam a vida das pessoas, configurando públicos em relação a elas. Geralmente, tais celebridades impulsionam a formação de fãs-clubes que acompanham avidamente a vida de seus ídolos famosos. A vida de tais personalidades desencadeia sentidos que, de alguma maneira, tocam a experiência dos sujeitos ligados a elas - por simpatia e admiração ou até mesmo por crítica e hostilidade em relação à conduta dessas pessoas públicas.

Esse poder de afetação das celebridades aqui discutidas se vincula ao modo como elas dialogam com certos valores do contexto social em que se situam e que atuam na consolidação da imagem pública5 que a personalidade mantém junto aos sujeitos ordinários. Nesse sentido, a percepção do poder de afetação desse tipo de pessoa pública pode revelar traços do contexto social em que ela se inscreve – o que aponta para o poder hermenêutico dessas celebridades evidenciado anteriormente.

É, assim, nessa circularidade entre pessoa pública, acontecimentos, valores e contexto social que se constrói e se efetiva a força de certas celebridades no cenário contemporâneo. E é justamente essa circularidade que nos permite pensá-las como acontecimento.

Para esclarecer a nossa compreensão desse tipo de personalidade, bem como sua atuação na cena pública, tomamos como exemplo a trajetória do jogador de futebol Ronaldo Nazário de Lima, mundialmente conhecido como Fenômeno.6 Para demonstrar nosso argumento, é preciso refletir sobre os dois aspectos levantados acima: 1) como as diferentes ocorrências ligadas à vida do jogador mobilizam a atenção pública e são tratadas como acontecimentos; 2) como pensar o próprio Ronaldo como acontecimento.

O Fenômeno despontou na cena pública a partir de seu desempenho como jogador de futebol: seus arranques fulminantes, seus dribles, seu preciso domínio da bola encantaram o Brasil e o mundo. Sua consagração ocorre na segunda metade da década de 1990, quando ele é eleito o melhor jogador de futebol do mundo em 1996 (o que se repete em 1997 e 2002). A partir daí, a trajetória de Ronaldo suscita a atenção do público, que passa a acompanhar os diferentes acontecimentos que constroem sua narrativa biográfica.7

Ronaldo chega à Copa da França, em 1998, como um grande ídolo internacional. Ele jogava pelo Inter de Milão e ganhara o título de melhor jogador do mundo nos dois anos anteriores. Entretanto, ele passa por problemas de saúde (até hoje, não completamente explicados) às vésperas da final contra a França. O jogador decepciona, o time joga mal, e o Brasil perde o título. Esse acontecimento evidencia a fraqueza do herói: Ronaldo, o então melhor jogador do mundo, é derrotado por problemas de saúde na final, o que ajuda a colocar fim ao sonho do pentacampeonato brasileiro.

Entre as Copas de 1998 e 2002, o mundo continua acompanhando sua carreira, marcada por lesões sérias nos joelhos que o tiraram de campo durante vários meses. Ele chega à Copa do Japão e da Coréia desacreditado por muitos analistas, por grande parte da imprensa e da torcida. E é nesse contexto que o jogador fornece um dos grandes exemplos de superação: Ronaldo é o grande protagonista da conquista do título mundial pelo Brasil em 2002, consagrando-se como um herói nacional. Desde então, Ronaldo passa por diferentes clubes, por sucessivas contusões e cirurgias, enfrentando um longo processo de recuperação. Na Copa de 2006, ele não tem o mesmo desempenho que na anterior, mas faz três gols e se consagra como o maior artilheiro de todas as Copas, com 15 gols – título que mantém até hoje.

A partir dali, sua carreira entra em declínio até que ele retorna ao Brasil para jogar pelo Corinthians. Em 2009, ele ajuda o time a ganhar dois títulos: o Campeonato Paulista e a Copa do Brasil, realizando alguns lances que o colocaram de novo na lista dos grandes jogadores. Em 14 de fevereiro de 2011, Ronaldo anuncia sua aposentadoria como jogador profissional de futebol, evento que foi acompanhado pela imprensa e por torcedores e fãs em todo o mundo. Como outros acontecimentos, a aposentadoria marca o fim de um ciclo (a despedida dos gramados do maior artilheiro de todas as Copas), ao mesmo tempo em que aponta para o futuro a ser construído a partir dali: Ronaldo diz que vai se dedicar à sua empresa de marketing esportivo (a 9ine), vai criar a fundação Criando Fenômenos e, dois dias depois de sua aposentadoria, é nomeado membro do Comitê Paulista para a Copa do Mundo de 2014, a ser realizada no Brasil.

Mas não foram só os acontecimentos ligados à sua atividade profissional que colocaram Ronaldo no foco da atenção pública ao longo de sua trajetória. Afinal, como lembra Graeme Turner (2004), é justamente a sustentação do interesse por sua vida privada que ajuda a configurar uma celebridade. A biografia do jogador (construída e comentada em diferentes espaços midiáticos e extra-midiáticos) é marcada, entre outras ocorrências, por três casamentos (incluindo uma festa majestosa em um castelo francês), quatro filhos8 e por um incidente com travestis em um motel do Rio de Janeiro. Tais acontecimentos, ainda que digam respeito à vida privada do jogador, estiveram no foco da atenção pública e ocuparam o espaço de visibilidade da mídia em diferentes momentos.

Todos esses (entre outros) acontecimentos foram amplamente trabalhados pela mídia e permearam as conversar cotidianas dos sujeitos ordinários. Tais ocorrências mantiveram Ronaldo na cena pública, ajudando a sustentá-lo no espaço de visibilidade, de modo que podemos pensar no próprio jogador como um acontecimento.

Nesse sentido, é preciso atentar para o modo de emergência de Ronaldo: é certo que, a princípio, ele se coloca na cena social a partir das qualidades que apresenta como jogador de futebol. Ele apresenta certos “dons específicos do corpo e do espírito [...], não acessíveis a todos” (WEBER, 1982, p. 171), para retomar a clássica definição de carisma Max Weber. Entretanto, não entendemos o carisma como propriedade intrínseca aos sujeitos. Partindo da apropriação que Clifford Geertz (1997) faz do conceito weberiano, entendemos o carisma como um fenômeno social e cultural, construído na relação entre esse sujeito e as esferas de poder do contexto social. O carisma é visto como um conjunto de traços que são reconhecidos como dignos de valor por todos aqueles que se submetem à autoridade carismática e mantêm, portanto, uma devoção afetiva em relação a ela. Assim, o dom de Ronaldo como jogador de futebol não pode ser visto como a causa determinante de sua constituição como acontecimento. Afinal, este não pode ser explicado simplesmente a partir de uma lógica de causalidades, mas deve ser compreendido a partir das complexas relações que estabelece com a experiência dos sujeitos.

Se refletimos sobre Ronaldo como acontecimento, é fundamental pensar em seu poder hermenêutico, ou seja, no modo como ele faz compreender aspectos do mundo em que se insere. A trajetória do Fenômeno revela traços do futebol e das transformações pelas quais o esporte passou nos últimos anos.9 Ronaldo construiu uma lucrativa imagem, a partir dos inúmeros patrocínios que conseguiu agregar a ela. Para dar alguns exemplos, ele assinou um contrato vitalício com a Nike, quando tinha apenas 17 anos, e tem seu Twitter patrocinado pela empresa de telefonia celular Claro (contando hoje com mais de 1,2 milhão de seguidores). Ronaldo pode ser visto como marco de uma era de mudanças no futebol, em que lucrativos contratos comerciais colaboram na solidificação da imagem de um jogador.

Além disso, ele revela algo do modo ser brasileiro. Podemos lembrar, por exemplo, que Ronaldo foi um dos garotos-propaganda da campanha promovida pelo governo federal, a partir de 2005, que tinha como slogan “Sou brasileiro e não desisto nunca”. A campanha procurou mostrar exemplos de superação de diferentes celebridades e apresentou Ronaldo como uma delas: depois de inúmeras lesões que o afastaram dos gramados, o jogador deu a volta por cima porque “é brasileiro e não desiste nunca”.

Com isso, Ronaldo é visto ao mesmo tempo como um herói (cheio de talentos e virtudes, capaz de genialidades ilimitadas, que promovem identificações e projeções) e como um ser mortal (que sofre, enfrenta obstáculos, comete erros, podendo ser alvo da crítica e da hostilidade do público). Ele revela, assim, traços dos ídolos contemporâneos, cada vez mais humanizados, como destaca Vera França (2010). Para a pesquisadora, no contexto contemporâneo, marcado por insegurança e fragilidade, os ídolos se situam como mediadores tanto de nossa busca do êxito como de nosso drible do fracasso.

Além de refletir sobre seu poder hermenêutico, é preciso pensar na afetação promovida por Ronaldo: a quem ele afeta e de onde vem esse poder de afetação? Acreditamos que isso está diretamente ligado aos valores que são agregados à imagem pública do jogador que, de alguma forma, tocam a experiência dos públicos que se configuram em relação a ele (torcedore/as, fãs, familiares, amigo/as, personalidades, jornalistas, entre outros atores sociais).

Em uma análise ainda preliminar10 desse processo de construção da imagem pública de Ronaldo, pudemos perceber que valores como a simpatia, a inteligência, a lealdade, a sinceridade e a transparência são associados ao jogador. Sua imagem é também vinculada à humildade (ele é capaz de reconhecer seus erros e pedir desculpas) e à solidariedade, em virtude das causas honrosas que defende (como a luta pela paz), e dos jogos beneficentes dos quais participa. Ronaldo é posicionado como um bom moço, às vezes ingênuo, às vezes astuto, que inspira confiança no público. Em manifestações do público (fãs, torcedores, outros jogadores), o Fenômeno é visto como um exemplo de superação e luta, como um jogador brilhante, motivo de orgulho e reconhecimento.

A partir desses valores que engendra na construção de sua personalidade, Ronaldo afeta, de diferentes maneiras, a vida dos sujeitos que a ele se veem ligados (muito mais por admiração, ainda que, em alguns momentos, também pela crítica). Seu poder de afetação, bem como de garantir a devoção afetiva dos públicos, vem justamente dessa complexa interação que se estabelece entre a própria celebridade, os públicos e o contexto – e que movimenta e atualiza o universo de valores que rege a vida social. E é justamente esse poder de afetação, associado a seu poder hermenêutico, que constroem a força de sua figura pública e que permite que pensemos o próprio Ronaldo como acontecimento.
3.2. Pessoas públicas a partir do acontecimento

Um segundo estatuto de pessoa pública se refere àqueles personagens que ganham notoriedade a partir de acontecimentos. Essas personalidades se destacam publicamente no momento de grande visibilidade de um acontecimento e se tornam protagonistas da condução da experiência com o evento. Esses indivíduos, anônimos até o momento em que o acontecimento irrompe na cena pública, encontram-se no centro das atenções de todos em função da situação de exposição em que se envolvem.

Dizer que esse tipo de personagem é derivado do próprio acontecimento significa afirmar que seu estatuto de reconhecimento e de fama não pode ser dissociado da experiência com esses eventos. Uma catástrofe natural, por exemplo, cria suas próprias personalidades em pessoas como um bombeiro que salva vidas (tornando-se o herói emblemático do acontecimento trágico) ou um sobrevivente do acidente (personificando a resistência ao acontecimento).

Geralmente, esse tipo de personalidade permanece na experiência pública somente durante o acontecimento. Como no caso das catástrofes naturais, heróis e sobreviventes se mantêm como personagens para todos na medida em que apelam para sentidos específicos, trazidos por aquele acontecimento singular. Com o desfecho do evento, esses indivíduos não são mais considerados relevantes para a atenção de todos e desaparecem do espaço público de visibilidade. O tempo de permanência desses personagens é proporcionalmente perecível à duração do acontecimento em que se inserem. A mobilização que gera junto ao público não ultrapassa os limites interpostos pelo próprio acontecimento.

Alguns desses personagens, no entanto, apropriam-se da situação favorável (ou desfavorável, como no caso de escândalos) da visibilidade do acontecimento e se estabelecem como personalidades para além daquele momento especial. Nesses casos, a notoriedade e a fama vinculam-se inteiramente ao acontecimento em que emergem. A astúcia desse tipo de personalidade refere-se ao prolongamento da extensão de seu estatuto de reconhecimento público para além da duração do acontecimento. Apesar de a motivação inicial para o acesso à visibilidade ser o acontecimento, eles se tornam pessoas para todos na medida em que conseguem manter a mobilização dos indivíduos comuns.

Quando permanecem no espaço da visibilidade despertando o interesse de todos, esses personagens são iluminados pelo acontecimento ao encarnar sentidos que dialogam com o contexto da experiência em que emergem. O acontecimento originário se encerra, mas suas reverberações permanecem empiricamente nesse tipo de personalidade. Essas reverberações ecoam os sentidos responsáveis por reorganizar a experiência depois da ruptura trazida pelo acontecimento, já que “não se compreende o acontecimento porque não podemos ainda inseri-lo num contexto nem considerá-lo como resultado de um encadeamento serial” (QUÉRÉ, 2005, p. 63).

O corte na continuidade implica a reinserção da ordem através da busca por sentidos possíveis dentro do contexto em que o acontecimento surge. Isso indica que a transação estabelecida entre o acontecimento e a experiência dos indivíduos comuns se estende no protagonista de maneira mais ampla do que o prescrito na duração do evento original. Além de início, meio e fim, o acontecimento também possui um poder hermenêutico, não definido previamente, que o organiza dentro de parâmetros relacionados ao contexto serial em que irrompe. A astúcia desse tipo de personalidade refere-se à habilidade de prolongar publicamente esses sentidos (mais estáveis) trazidos pelo acontecimento.

Duas linhas de desempenho se complementam para a manutenção desses personagens na experiência pública a partir do acontecimento. De um lado, eles captam e personificam posicionamentos sobre sentidos e valores em diálogo com o contexto em que se localizam. A face hermenêutica do acontecimento suscita a criação de campos problemáticos que se tornam alvos de enquetes pelos indivíduos concernidos na experiência. Buscando reorganizar o curso ordinário dos eventos, as informações apresentadas nas enquetes dizem respeito ao universo compartilhado de referências por meio de operações que dão forma e modulam a experiência com o acontecimento – a partir do próprio contexto iluminado. Essas personalidades devem buscar conteúdos ligados às reverberações de um pano de fundo reconhecido por todos, que foi iluminado pelo acontecimento.

De outro lado, para que se mantenham como personagens para todos, os conteúdos da reverberação do acontecimento precisam continuar sendo desempenhados em público. Mais que uma questão de conteúdo, para se manter na experiência pública, a personalidade precisa de uma destreza para desempenhar seu papel de acordo com formatos específicos de performance, que dizem respeito às características da visibilidade midiática. Assim como a instituição de sentidos do acontecimento é situada, a competência exigida para a elaboração de um papel em público varia em cada caso. Pode-se demandar, por exemplo, a boa articulação da fala, o uso de ferramentas na internet, a beleza, a simpatia ou outros atributos. São atributos que colaboram no bom desempenho dessas personalidades na cena pública.

Com o objetivo de ilustrar esse segundo tipo de personalidade, tomamos como exemplo o comentarista de segurança pública da Rede Globo Rodrigo Pimentel, ex-funcionário da Polícia Militar do Rio de Janeiro que se destacou, em 2007, durante a estreia do filme Tropa de Elite (dirigido por José Padilha). O longa-metragem de ficção trata do cotidiano de oficiais do Bope, batalhão especial da polícia carioca. Tropa de Elite foi um acontecimento público brasileiro que mobilizou os indivíduos em enquetes sobre o tráfico de drogas, a atuação da polícia e a segurança pública no país. O sucesso do filme levou à produção do Tropa de Elite 2, em 2009, uma continuação do primeiro lançamento.

O personagem principal, capitão Nascimento (interpretado pelo ator Wagner Moura), encarnou grande parte da mobilização do público, tornando-se, segundo os meios de comunicação, o “maior ícone pop da cultura brasileira”.11 Capitão Nascimento possui um desempenho controverso como policial: apesar de atuar contra a corrupção da polícia, ele usa métodos de tortura e comete atos ilegais e violentos no combate ao crime organizado, especialmente ao tráfico de drogas. O personagem se popularizou amplamente entre os indivíduos comuns, que criaram, por exemplo, inúmeras paródias e piadas na internet a partir da atuação controversa do personagem no filme. Nos meios de comunicação, capitão Nascimento também foi parodiado, como no programa de Show do Tom, sua imagem foi capa de diferentes revistas semanais (Veja, Istoé e Carta Capital) e passou a ser um agente catalisador da discussão pública, como no texto de Luciano Huck a respeito do roubo de seu relógio Rolex12. Ainda hoje, capitão Nascimento reverbera ecos do acontecimento: ele foi anunciado neste mês como o protagonista da campanha de desarmamento no Brasil, que voltou a ser debatida depois da chacina de Realengo.

O ex-policial Rodrigo Pimentel emergiu como personalidade pública no contexto de ascensão do personagem fictício capitão Nascimento. Três aspectos contribuíram para isso. Em primeiro lugar, Pimentel foi co-roteirista do filme13 e co-autor de Elite da Tropa14, livro que deu origem ao longa-metragem. Ambas narrativas, apesar de ficcionais, apresentavam características de sua experiência empírica como policial. A assinatura de Pimentel assegurava que não se tratava somente de uma história de ficção, mas de realidades próximas daquelas experimentadas por policiais, ou seja, o fato de ser ex-funcionário do Bope trouxe autenticidade ao filme.15 Em segundo lugar, Pimentel se posicionou publicamente durante o acontecimento. A associação entre o roteirista e o personagem era constantemente feita nos momentos em que ele tomava publicamente a palavra. Mesmo que Pimentel insistisse que “não era o capitão Nascimento”, sua fala pública aparecia sempre em relação ao desempenho do personagem. Em terceiro lugar, Wagner Moura, ator que interpretou o personagem, possui semelhanças físicas com Rodrigo Pimentel, o que aumentava a contiguidade entre as duas imagens públicas.

O acontecimento que fez emergir capitão Nascimento teve início muito antes do lançamento oficial do filme Tropa de Elite no Brasil, em outubro de 2007, pois, em agosto daquele ano, já era possível ter acesso às cópias piratas no comércio popular e na internet.16 Tropa de Elite suscitou a discussão em torno do comércio ilegal de obras autorais. Diversos porta-vozes, como integrantes do Ministério da Justiça, da Agência Nacional de Cinema e da Columbia Pictures, posicionaram-se a respeito do tema. Da mobilização sobre a pirataria, seguiu-se o debate sobre a atuação da polícia e da violência, temas centrais trazido pelo filme. Revistas e jornais de grande circulação repercutiram a temática do filme por meio de articulistas, críticos de cinema e especialistas em diversas áreas. Indivíduos comuns replicaram o acontecimento na internet sob a forma de paródias e piadas. O país parou para discutir o assunto; uma pesquisa mostrou, por exemplo, que 77 % dos moradores de São Paulo já tinham ouvido falar sobre o filme mesmo antes de sua estreia.17

Antes de sua emergência pública, Rodrigo Pimentel já havia participado de outros eventos do espaço da visibilidade midiática, sobretudo relacionados a filmes-documentários sobre a violência no Rio de Janeiro. Em 1999, foi um dos especialistas entrevistados em Notícias de uma guerra particular (João Moreira Salles e Katia Lund). Em 2002, atuou novamente como entrevistado de Ônibus 174 (José Padilha). Apesar desses momentos anteriores, Rodrigo Pimentel não possuía espaço nos meios de comunicação, sendo o lançamento do filme Tropa de Elite o acontecimento que o trouxe à cena pública de amplo alcance.

Rodrigo Pimentel entrou para a Polícia Militar do Rio de Janeiro em 1990 e tornou-se capitão do Bope em 1995. Em 2000, ele participou de um programa de debates da Rede Globo sobre o episódio do sequestro do ônibus 174. Pimentel criticou o despreparo da polícia, o que lhe rendeu à expulsão da instituição.18 José Padilha interessou-se pela intervenção de Pimentel e o convidou para participar do filme documentário que produzia, Ônibus 174, em 2002. Depois dessa época, Pimentel foi articulista do Jornal do Brasil e realizou pós-graduação em sociologia urbana na UERJ. Em 2006, lançou com André Batista e Luis Eduardo Soares o livro Elite da Tropa. Em 2007, participou da produção do filme Tropa de Elite e, dois anos depois, permaneceu na sequência das filmagens. Em novembro de 2009, logo depois da estreia de Tropa de Elie 2, tornou-se comentarista de segurança pública da Rede Globo, fazendo intervenções em inúmeros programas como RJ TV, Jornal Nacional, Jornal Hoje e Domingão do Faustão. Normalmente, o ex-policial Pimentel participa das emissões nacionais quando algum acontecimento violento ocorre, como na invasão do complexo do Alemão ou na chacina na escola de Realengo.19

Mesmo que Rodrigo Pimentel não tenha tanta notoriedade como o personagem capitão Nascimento ou o ator Wagner Moura, o movimento que ele realizou para alcançar o espaço da visibilidade pública revela as maneiras como uma pessoa se torna reconhecida, ganhando relevância para todos, no curso de um acontecimento público. Rodrigo Pimentel alcançou um espaço de destaque em uma grande emissora de televisão, atingindo com suas intervenções uma enorme quantidade de indivíduos. Os caminhos que o levaram até esta posição de pessoa para todos sugerem que os sentidos da constituição do acontecimento Tropa de Elite permanecem como reverberações em sua figura pública. Desde a primeira estreia do filme, em 2007, Rodrigo Pimentel demonstrava um desempenho participativo na cena pública, de engajamento no debate em torno do personagem que ajudou a criar, capitão Nascimento. Antes mesmo dessa época, a biografia de Pimentel indica que ele já participava, ainda de maneira tímida, da experiência pública. Sua contratação pela Rede Globo, em 2009, mostra a continuidade de aspectos do acontecimento Tropa de Elite e, da mesma maneira, do personagem capitão Nascimento. O sucesso do personagem fictício e sua relação com o comentarista especializado borram os limites entre ficção e realidade, mas, sobretudo, revelam ecos dos sentidos socialmente compartilhados a respeito da violência urbana e do papel da polícia.

Por um lado, o conteúdo trazido pelos posicionamentos de Rodrigo Pimental refere-se à “verdadeira experiência” do combate ao crime e da atuação da polícia. Apesar de o personagem capitão Nascimento ser controverso, Pimentel se associa à disseminação dessa imagem pública a partir de uma perspectiva não-ficicional. Ainda que haja críticas ao personagem da ficção, Pimentel se situa sob o ponto de vista da descrição de temas que interessam a todos, até mesmo daqueles que não concordam com a atuação de capitão Nascimento. O personagem foi considerado um herói para muitos (para a revista Veja, ele é o primeiro superherói brasileiro20; os momentos de violência foram aplaudidos em algumas salas de exibição21), mas também sofreu inúmeras críticas por sua atuação truculenta. A controvérsia do personagem materializa o problema público da segurança no Brasil, que não possui um ponto de vista unânime ou uma solução incontestável. O comentarista personifica na cena pública esse conteúdo de difícil abordagem

Por outro lado, o formato utilizado em suas intervenções na Rede Globo busca gerar um quadro de objetividade na opinião do especialista. Rodrigo Pimentel não usa fardas como capitão Nascimento. Ele aparece com roupas típicas aos apresentadores dos programas que participa: paletó e gravata no Jornal Nacional ou camisa pólo no Domingão do Faustão. Isso aproxima Pimentel da própria televisão. A formatação de seus comentários – inseridos em programas de grande audiência – procura configurar a clareza de seus posicionamentos, que devem obedecer ao padrão televisivo.

Rodrigo Pimentel enquanto personagem para todos se apropria do acontecimento como um herói-especialista. Para aqueles que aplaudiram capitão Nascimento, ele personifica o heroísmo da luta contra o crime. Para os demais, pessoas que não distinguem especificamente seu rosto ou o reconhecem, mas não concordam com sua perspectiva, Pimentel é o especialista, que possui um lugar de fala autorizado da experiência pública, que é passível de discordância por se encontrar na prolixidade do ambiente televisivo.

O exemplo de Rodrigo Pimentel revela que ficção e realidade se misturam na experiência pública. Distinguir personagens que surgem a partir de um acontecimento para além de sua duração depende do diálogo com os sentidos mais estáveis do evento, bem como da vinculação pessoal, do reconhecimento individual daquela pessoa específica. Dessa maneira, a condução do acontecimento incide na formação da pessoa pública, que ganha uma imagem própria, específica, para ser reconhecida por todos. No caso da constituição da imagem pública de Rodrigo Pimentel, o acontecimento criou capitão Nascimento, personagem de ficção que mobilizou o debate na experiência pública a respeito da atuação da polícia. O ex-policial, enquanto personagem importante do acontecimento (co-roteirista do filme), apropriou-se do personagem fictício para alcançar a cena pública, ganhando um lugar de fala importante, em que compartilha suas experiências e sua perspectiva “real” sobre o assunto.

O problema público da segurança é complexo, não possui consenso, e Rodrigo Pimentel personifica uma das perspectivas sobre o tema em um lugar importante: na vida pública, em uma emissora de televisão de grande audiência. Nós gostaríamos, “bem no fundo”, como afirma Paulo Leminski, que nossos problemas fossem “resolvidos por decreto”. No entanto, “problemas não se resolvem, problemas têm família grande, e aos domingos saem todos a passear: o problema, sua senhora e outros pequenos probleminhas” (LEMINSKI, 1995, p.44). Rodrigo Pimentel compõe essa grande família do problema público da segurança no Brasil, que se materializou na figura de capitão Nascimento e também possibilitou a emergência do comentarista como pessoa pública.



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