E outros ensaios sobre religião e assuntos correlatos



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Bertrand Russell


Porque não sou cristão

E outros ensaios sobre religião

e assuntos correlatos



© 1957

Com um apêndice sobre o


Caso Bertrand Russell


Tradução:


Brenno Silveira

Título original:


Why I am not a Christian

and other essays on religion and related subjects


Livraria exposição do livro



© 1972
Índice

Introdução 3

Prefácio 7
1. Porque não sou cristão 9

2. Trouxe a religião contribuições úteis a civilização? 20

3. Aquilo em que creio 33

4. Sobrevivemos à morte? 54

5. Parece, madame? Não, é 57

6. Dos céticos católicos e protestantes 63

7. A vida na idade média 68

8. O destino de Thomas Paine 71

9. As pessoas distintas 79

10. A nova geração 84

11. A nossa ética sexual 90

12. A liberdade e os ‘colleges’ 96

13. ‘A existência de Deus’: um debate entre B. Russell & P.F.C. Compleston 103

14. Pode a religião curar nossas preocupações? 122

15. Religião e moral 128
Apêndice (como B. Russell foi impedido de ensinar no City College de N.Y.) 129
Introdução

Bertrand Russell tem sido, durante toda a sua vida, um escritor fecundo, e alguns de seus melhores trabalhos se encontram em pequenos opúsculos e em artigos publicados em diversos periódicos. Isto é particularmente verdade quanto ao que se refere às suas discussões acerca da religião, muitas das quais pouco conhecidas, fora de certos círculos racionalistas. Neste volume, reuni vários desses ensaios sobre religião, bem como outros escritos, entre eles “A Liberdade e os Colleges” e “A Nossa Ética Sexual”, temas que ainda hoje apresentam grande interesse.

Embora sumamente acatado pelas suas contribuições a assuntos puramente abstratos, tais como a lógica e a teoria do conhecimento, pode-se bem supor que Russell será igualmente lembrado, em anos vindouros, como um dos maiores heréticos em questões de moral e de religião. Jamais foi filósofo puramente técnico. Interessou-se sempre profundamente pelas questões fundamentais a que as religiões deram suas respectivas respostas: questões relativas ao lugar do homem no universo e à vida virtuosa. Tratou dessas questões com a penetração, a graça e a eloqüência de sempre, exprimindo-se na mesma prosa cintilante que tomou famosos os seus outros trabalhos. Tais qualidades transformam, talvez, os ensaios incluídos neste livro na mais comovente e encantadora exposição do ponto de vista do livre-pensador, desde os tempos de Hume e Voltaire.

Um livro de Bertrand Russell sobre religião seria, em qualquer ocasião, digno de ser publicado. No momento atual, em que presenciamos uma campanha em favor do renascimento da religião, efetuada com todas as facilidades proporcionadas pelas modernas técnicas de propaganda, uma nova exposição do caso dos incrédulos parece-nos particularmente desejável. De todos os lados e em todos os níveis intelectuais, altos, baixos e médios, vimos sendo bombardeados, há muitos anos, pela propaganda ideológica. A revista Life assegura-nos, num de seus editoriais, que, “salvo quanto ao que se refere a materialistas e fundamentalistas dogmáticos”, a guerra entre a evolução e a fé cristã “já terminou há muitos anos”, e que a própria ciência... “desaprova a idéia de que o universo, a vida ou o homem pudessem haver evoluído por puro acaso”. O Prof. Toynbee, um de seus mais dignos apologistas, diz-nos que “não podemos enfrentar o desafio comunista numa base secular”. Norman Vincent Peale, Monsenhor Sheen e outros professores de psiquiatria religiosa, exaltam as bênçãos da fé em colunas de jornais lidas por milhões de pessoas, em livros que são best-sellers e em programas semanais de rádio e televisão de âmbito nacional. Políticos de todos os partidos, muitos dos quais não se distinguiam de modo algum por sua piedade antes de concorrer a cargos públicos, fazem questão de ser conhecidos como zelosos freqüentadores de igreja e não deixam jamais de referir-se a Deus em seus eruditos discursos. Fora das salas de aula dos melhores colégios, o lado negativo desta questão quase nunca é apresentado.

Um livro como este, com sua inflexível afirmação do ponto de vista secularista, é hoje tanto mais oportuno quanto é verdade que a ofensiva religiosa não se restringiu à propaganda em grande escala. Nos Estados Unidos, assumiu também a forma de numerosas tentativas, muitas das quais bem sucedidas, no sentido de solapar a separação existente entre a Igreja e o Estado, como o prevê a Constituição. Tais tentativas são em número demasiado elevado para que aqui as pormenorizemos; mas talvez duas ou três ilustrações indiquem suficientemente tal tendência perturbadora, que, caso não seja refreada, converterá em cidadãos de segunda classe aqueles que se opõem à religião tradicional. Há poucos meses, por exemplo, um subcomitê do Congresso incluiu, numa Resolução Conjunta, a surpreendente proposição de que a “lealdade a Deus” seja qualificação essencial para um melhor serviço governamental. “O serviço de qualquer pessoa, em qualquer capacidade, no governo ou sob as ordens do mesmo”, afirmam, oficialmente, os legisladores, “deveria caracterizar-se por devoção a Deus”. Esta resolução não é ainda lei, mas poderá vir a sê-lo dentro em pouco, se não encontrar enérgica oposição. Outra resolução, fazendo de “In God We Trust” o lema nacional dos Estados Unidos, foi aprovada por ambas as Câmaras e hoje vigora no país por força de lei. O Prof. George Axtelle, da Universidade de Nova York, um dos poucos críticos a abordar sem rebuços esses e outros atos semelhantes, referiu-se muito justamente a eles, ao depor perante um comitê do Senado, como constituindo “diminutas, mas significativas erosões” no princípio de separação entre a Igreja e o Estado.

As tentativas no sentido de introduzir a religião onde a Constituição expressamente o proíbe, não se limitam, de modo algum, apenas à legislação federal. Assim, na cidade de Nova York, para tomarmos apenas um exemplo particularmente manifesto, a Junta de Superintendentes do Conselho de Educação preparou, em 1952, um “Guiding Statement for Supervisors and Teachers”, em que afirmava, sem meias palavras, que “as escolas públicas deviam encorajar a crença em Deus, reconhecendo o simples fato de que o nosso país é uma nação religiosa”, e, ainda, que as escolas públicas “identificassem Deus como sendo a origem suprema da lei natural e moral”. Se tal declaração houvesse sido adotada, dificilmente qualquer uma das matérias do curriculum escolar da cidade de Nova York teria permanecido livre de intrusão teológica. Mesmo estudos aparentemente seculares, como ciência e matemática, deveriam ser ensinados numa linguagem sugestivamente rica de significado religioso. “Cientistas e matemáticos”, afirmava a declaração, “concebem o universo como sendo um lugar predizível, bem ordenado, lógico. Suas considerações sobre a vastidão e o esplendor dos céus, as maravilhas do corpo e do espírito humano, a beleza da natureza, o mistério da fotossíntese, a estrutura matemática do universo ou a idéia de infinito,. não podem senão levar à humildade ante a obra de Deus”. Não nos resta senão dizer: “Quando penso nos Céus, obra de Tuas Mãos!”. Nem sequer um assunto tão inofensivo como as “Artes Industriais” foi deixado em paz. “Nas artes industriais”, afirmaram os filósofos da Junta de Superintendentes, “a observação das maravilhas da composição dos metais, o trigo e a beleza das matas, as utilizações da eletricidade e as propriedades características dos materiais empregados suscitam, invariavelmente, reflexões quanto ao planejamento e organização do mundo natural, bem como acerca da maravilhosa obra de um Poder Supremo”. Esse relatório despertou tal indignação por parte de grupos cívicos e de vários círculos religiosos mais liberais, que se tomou impossível a sua adoção pelo Conselho de Educação. Uma versão modificada, na qual foram eliminados os trechos mais contestáveis. foi, posteriormente, adotada. Todavia, mesmo a versão revista contém linguagem teológica suficiente para fazer com que um secularista estremeça – e é de esperar-se que a sua constitucionalidade seja impugnada perante os tribunais.

É de surpreender que tenha havido tão pouca oposição contra os abusos praticados a favor de interesses eclesiásticos. Uma das razões para isso parece ser a crença generalizada de que a religião, hoje em dia, é suave e tolerante e que as perseguições são coisa do passado. Esta é uma ilusão perigosa. Embora muitos líderes religiosos sejam, indubitavelmente, amigos verdadeiros da liberdade e da tolerância e, ainda, partidários comprovados da separação entre a Igreja e o Estado, há, infelizmente, muitos outros que, se pudessem, se entregariam a perseguições e que, de fato, o fazem, quando podem.

Na Grã-Bretanha, a situação é um tanto diferente. Há igrejas estabelecidas e a instrução religiosa é legalmente sancionada em todas as escolas públicas. Não obstante, a índole do país é muito mais tolerante e os homens, em sua vida pública, hesitam menos em ser abertamente conhecidos como incrédulos. Mas também na Grã-Bretanha a propaganda vulgar a favor da religião é desabusada, e os grupos religiosos mais agressivos estão fazendo todo o possível para impedir que os livre-pensadores exponham as suas razões. O recente relatório Beveridge, por exemplo, recomendou que a B.B.C. desse aos representantes do ponto de vista racionalista uma oportunidade de expor suas opiniões. A B.B.C. aceitou oficialmente essa recomendação, mas quase nada fez para pô-la em prática. As palestras de Margaret Knight, sobre “Moral Sem Religião”, foram apenas uma das pouquíssimas tentativas no sentido de apresentar a opinião dos incrédulos sobre tão importante tema. As palestras de Mrs. Knight despertaram violentas explosões de indignação por parte de toda a sorte de fanáticos, os quais, parece, assustaram tanto a B.B.C. a ponto de fazer com que a mesma voltasse à sua antiga subserviência ante interesses religiosos.

A fim de ajudar a dissipar a complacência sobre este assunto, incluí neste livro, como apêndice, amplo relato da maneira pela qual Bertrand Russell foi impedido de tomar-se professor de filosofia do Colégio da Cidade de Nova York. Os fatos referentes a esse caso merecem ser mais amplamente conhecidos, quando mais não seja para mostrar as incríveis deturpações e os abusos de poder que os fanáticos estão dispostos a empregar quando se dispõem a derrotar um inimigo. As pessoas que conseguiram anular a designação de Russell são as mesmas que agora destruiriam de bom grado o caráter secular dos Estados Unidos. Esses indivíduos e os seus sósias britânicos são hoje, de um modo geral, mais poderosos do que em 1940.

O caso do “City College” deveria ser exposto pormenorizadamente, ao menos como simples ato de justiça para com Bertrand Russell, que, na ocasião, teve sua reputação perversamente denegrida, não só pelo juiz encarregado da petição, como por grande parte da imprensa. As opiniões e a conduta de Russell foram alvo de desenfreadas deturpações, e as pessoas que não estavam familiarizadas com os seus livros devem ter tido uma impressão inteiramente errônea quanto às suas verdadeiras convicções. Espero que a história, aqui repetida, bem como a reprodução da verdadeira maneira pela qual Russell tratou dos temas “ofensivos”, ajudem a colocar as coisas em seu devido lugar.

Vários dos ensaios incluídos neste volume são reimpressos coma amável permissão de seus editores originais. Gostaria, pois, de agradecer à firma Watts and Co., que é a editora de Porque Não Sou Cristão e de Fez a Religião Contribuições úteis à Civilização?; aos senhores Routledge e Kegan Paul, que publicaram Aquilo Em Que Creio; à editora Hutchinson and Co., que publicou Sobrevivemos à Morte?; aos senhores Nicholson e Watson, que são os editores originais de O Destino de Thomas Paine, e ao American Mercury, em cujas páginas A Nossa Ética Sexual e A Liberdade e os “Colleges” primeiro apareceram. Desejo, ainda, agradecer aos meus amigos Prof. Antony Flew, Ruth Hoffman, Sheila Meyer e aos meus alunos Marilyn Chamey, Sara Kilian e John Viscide, que me ajudaram de muitas maneiras na preparação deste livro.

Finalmente, desejo expressar minha gratidão ao próprio Bertrand Russell, que, desde o começo, favoreceu este plano e cujo vivo interesse foi para mim, de todos os modos, grande fonte de inspiração.


Cidade de Nova York, outubro de 1956.



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