E pois a eternidade no coração do homem



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Encontro15.04.2018
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E POIS A ETERNIDADE NO CORAÇÃO DO HOMEM
João Carlos Bernardo Machado

Orientador Luiz Antonio Gomes Senna


...E pois a eternidade no coração do homem”

( Eclesiastes 3:11)
Resumo: evidências humanas desenvolvidas cognitivamente, que se mostram capazes de desconstruir uma verdade fechada em si - termo definido ou personificação -, transformando em significância ativa ( expressões humanas para interagir entre os mundos) os temas inanimados.
I- Introdução
Em meio a todo esse progresso que a contemporaneidade nos participa, percebe-se uma aproximação considerada entre ciência e religião, entre o orgânico e a máquina, entre a tecnologia e a biologia. Isto porque, com os novos experimentos da física quântica, chega-se a idéia de que a máquina quântica sempre existiu, haja vista, que a vida humana é um grande complexo eterno-temporal – em momentos definidos ou não, o χρόνος cede lugar ao καίρός-. Assim, o corpo experimenta o tempo, o espírito o transcende e a alma é o elo entre as várias formas de saberes da dimensão física, psicofísica e metafísica que não podem ser medidas ou mesmos assumidas, pelo menos por enquanto, no mundo concreto. Sendo assim, fomenta-se a idéia de não determinar saber. Isto porque, se a personificação de um texto é uma verdade fechada, tal qual nos revela a gramática 1+1 =2, como explicar o infinito entre o algarismo 1 e o algarismo 2 se houver desprezo a essas energias sutis ou revelações epistemológicas , que, com permisão, batizo como significância ativa?

Talvez as evidências humanas desenvolvidas cognitivamente se mostrem capazes de desconstruir uma verdade fechada em si, transformando-a em significância ativa. Essa visão denuncia que o modelo escolar se preparou num mundo pelo qual a verdade se estabelecera pela lógica dos mundos científcos. No entanto, pode-se dizer que essa verdade contribuiu, significativamente, com essa modalidade sentencial de se aprender pela caracterização, ou seja, a escola forma o indivíduo científico que forma o cidadão e a realidade imediata de convivência. Sugestivamente entende-se que ensinar pelo saber margeou ao conhecimento uma aprendizagem interpretada . Isto porque, os fatos, o poder, o acontecer se estabelecem pela capacidade transferida e não pela capacidade desenvolvida pelo ser epistemológico, assim a personificação de um texto qualquer, se potencializa para reprovar a interpretação pluralizada.- Lév Vigotysk teoriza a construção do saber sem considerar a idéia da permanência. Não pode haver modelo para se chegar ao conhecimento. Assim como o texto se mostra completo e com suas próprias significações, aguarda--se que essas não percam o sentido dado. Um outro exemplo: Numa aula de geografia, supõe-se a necessidade dos alunos identificarem vegetação e solo de uma região qualquer em um mapa por extenso. Caso consigam, seus graus deverão recompensar a memorização. No entanto, se entre esses alunos houver um que se utilize da sua inteligência pictoricográfica para identificar essas mesmas características, talvez sua recompensa seja a não promoção – entende-se que a escola trabalha, no seu exercício acadêmico, diretamente com a avaliação. Nestes termos, o porquê tem significado, haja vista, que o saber não se percebe, por esse modelo, a capacidade de transferência .


II - A Ciência conscientizada
O que é a vida? É consciência, existência, expressões do inato, é criação, evolução, produto químico, uma energia? Erwin Schrödinger – físico austríaco ( 1887-1961 ), fez essa mesma pergunta a 53 anos atrás: o que é a vida?. Naquela época, os organismos vivos se apresentavam aos pesquisadores como máquinas elaboradas, no entanto microscópicas, que poderiam ser observadas pela física experimental, como se fosse possível encontrar ou construir um manual de montagem. É perceptível que explicações mecânicas têm sua importância para a compreensão da vida, mas seriam insuficientes. Dentro da contemporaneidade, que reconhece o dinamismo dialético da natureza, – não só da sociedade- a realidade não é mais vista como inerte. A marca da autonomia, autodeterminação, parece tocar o enigmático que distingue coisas vivas das demais coisas. No entanto, saber de onde vem a vida é difícil, isto porque, esvazia a noção de auto-organização, porque apenas indica que ela é dinâmica e funciona, mas não como se torna e funciona. Seria como conectar um ferro elétrico a energia. Ele aquece, a lâmpada sinaliza esse aquecimento, mas o processo fica conhecido apenas pela ação da energia elétrica na resistência. Isto é ciência. Será?

É sabido que a ciência, na concepção “clássica” que ainda perdura em nossos dias, é tendenciosa à separar, em princípio, fato e valor, ou seja, postula a eliminação da competência ética, baseando-se de objetividade na anulação do sujeito do conhecimento científico. Ela não fornece nenhum meio de conhecimento para saber o que é um sujeito. – falo aqui do método-. O que se apresenta atualmente é uma ciência sem consciência. Isto porque se houver uma questão, que interpele a ciência sobre quem ela seja, não haverá resposta científica à essa questão. Isso quer dizer que não existe nenhum método objetivo que considere a ciência objeto da ciência, e o cientista, sujeito. A epistemologia parece sugerir que é preciso restituir a idéia de razão à multiplicabilidade de oportunidades que ela concebe em si e a si na recuperação da fluidez e na concepção do conhecimento para que o mundo físico seja experimentado por meio de novas vias. Isto é, compreender de modo diferente e sentir de modo diferente. Estabelecer uma razão experimental saliente.

Gaston Bachelard ( 1884-1962 ), sinalizava a necessidade de uma nova razão, dotada de liberdade análoga. Isto nos esclarece quando desenvolve um ensaio sobre conhecimento aproximado ( Essai sur la connaissance approché ), no qual elucida o aproximacionalismo, ou seja, a idéia de que a abordagem do objeto científico deve ser feita através do uso sucessivo de diversos métodos, tendo em vista que cada um seria destinado a se tornar primeiro obsoleto e depois nocivo, isto é, a idéia de descontinuidade temporal.

Ao examinar as grandes conquistas da ciência a partir do final do século XIX e sobretudo, no decorrer do século XX, Bachelard assinala, nos campos da Matemática, Física e Química, não só um avanço, mas a instauração de um novo espírito científico, que a partir de novos pressupostos epistemológicos que é exercitado numa atividade que se mostra simples, ou seja, ele é. Na Física, há reconhecimento de que com a ciência Einsteiniana inicia-se uma sistemática revolução das noções de base. Por exemplo: a luz, segundo a visão quântica, tem significado diferente da visão estabelecida pelos experimentos de Descartes. Para este, a luz caminhava em linha reta. Essa idéia é relativa. Isto porque, esse fato só acontece num ambiente homogêneo, que os físicos chamam de índice de refração ou plano de incidência. Os experimentos quânticos, estabelece a idéia de que a luz é uma onda eletromagnética transversal, ou seja, ela se comporta analogamente à uma ou a outra realidade. Nestes termos, chega-se a conclusão de que a linguagem quântica proclama a idéia da probabilidade. Para se entender melhor é preciso verificar a idéia da polarização da luz. Por exemplo: A idéia da racionalidade para concepção da propagação da luz é que sua polarização deveria ser linear numa determinada direção. Seria um observável com valores prováveis. No entanto, se olharmos os cubos abaixo, por grupo, verificaremos que cada grupo  oito (8) quadrados observados por qualquer ângulo, ou seja, o estado mais geral de polarização da luz( elíptica ) é a superposição. No caso dos cubos abaixo, a polarização linear numa determinada direção é um observável incompatível com valores prováveis. Isto quer dizer que a ordem dos fatores não altera o produto.


Exemplo 1.
 




Em outro experimento, pode-se considerar a idéia de se alinhar três (3) lentes polaróides e colocar em uma extremidade uma tela e na outra, uma fonte de luz, pode-se observar o seguinte: as ondas eletromagnéticas ( luz ) chegam ao seu destino ( tela ) sem qualquer alteração.


Exemplo 2.




Tela Lente 3 Lente 2 Lente 1 Fonte de luz

Num outro experimento, com os mesmos elementos, pode-se observar que a luz em direção linear através das lentes polaróides, chega a tela com um percentual quase que total , ou seja, é um observável com valores prováveis se a lente 2 for girada em 45º. A luz, ou intensidade de ondas eletromagnéticas, diminuirá.




Exemplo 3



Tela Lente 3 Lente 2 Lente 1 Fonte de luz

45º

Em um novo experimento, pode-se observar que, ao girar a lente 2 em 90º, a luz não mais chegará ao seu destino ( tela ).



Exemplo 4.



Tela Lente 3 Lente 2 Lente 1 Fonte de luz

90º


Entende-se assim, que o que permite a passagem da luz é a relação que há entre as realidades. Neste caso a ordem dos fatores altera o produto. Então, a superposição quântica é: está vivo ou morto. Isto porque, o mundo clássico é uma espécie de ocorrência do mundo quântico. Que, em princípio, se mostra estranho a todos nós. Portanto, pode-se compreender o que Nietzsch chamou de Tremor de Conceitos, ou seja, as coisas adquiriram outra estrutura desde que se coloque uma explicação sobre novas bases. Daí pode-se chegar a idéia de que a ciência, na contemporaneidade, se eticiza no momento em que se aclara a hiperespecialização dos saberes disciplinares – o saber científico unifica em níveis de elevada e abstrata formalização-. Ademais, nas chamadas ciências antropossociais, que têm todos os vícios da sobre-especialização sem ter suas vantagens. Portanto, todos os conceitos que abrangem várias disciplinas ficam inoperantes entre essas disciplinas e não são reconstituídos, mesmo que haja tentativas desesperadas da interdisciplinaridade.

Apesar das ciências se desenvolverem durante todos esses anos, não se chegou à idéia de que a vida não consegue ser explicada, mas a sua existência humana sim. Ainda que máquinas sejam construídas a partir de células, criando um mundo de comunicação instantânea por aparatos magnéticos e não elétricos, não poderão ser consideradas avançadas porque o desejo, a descoberta, a lucidez, a cogitação, a idéia, a verificação, a indução, a intuição e o pensamento são sui generis a alma ( psiquê). Há um potencial, todavia, ainda distante de ser observado. Isto porque há um componente no ser, que a física quântica chamaria de matéria escura – é o que não tem denominação; energia escura que se manifesta mas sem possibilidade de verificação. Daí a idéia contemporânea de que a modernidade conduziu a sociedade à uma espécie de saber que expressa dimensões para que o conhecimento aconteça quer por categorias ou métodos que se mostrem relevantes. Isto porque, seu fundamento educacional se detinha à civilização do indivíduo. Para tanto a ação da ciência objetivava reproduzir a ação de Deus a suas descobertas para que fossem legitimadas. Pode-se perceber que a ciência, nesse período, não se mostra disposta a ser vista de forma fragmentada. No entanto, age como se ovacionasse o divino.

Uma das grandes revoluções científicas desse século iniciou-se pela Termodinâmica ( Beltzmann ) e deflagrada quando se descobre a QuantasExpressão pluralizada que quantun – A teoria dos quantas criada em 1900 por Max Planck 1858-1947; afirma que a energia radiante tem, como a matéria, uma estrutura descontinuada.- acompanhada pela desintegração do Universo de Pierre Simon Laplace ( Hipotetiza que o sistema solar proviria de uma nebulosa primitiva constituída de um núcleo condensado que gira em torno de um eixo que passasse por seu centro ), teve um papel fundamental para o estabelecimento de uma nova concepção de mundo. A ciência teve, por mais que houvesse covivido com a idéia da verdade absoluta, não pôde sustentar a validade do princípio determinista. A ordem do mundo, percebe-se com graça, foi subvertida e cedeu à relação do diálogo ( quando antagônico ou complementar )entre o conhecido e o desconhecido. No entanto, explicitou os limites dos axiomas identificativos da lógica clássica; delimitou o mensurável; provocou um festival pelo qual o indivíduo e objeto pudessem explicitar seus contextos e sentidos; incentivou um questionamento da racionalidade científica sugerida e exemplificada por Piaget, Bachelard, Popper e outros pensadores. Deduz-se então, que tudo que existe deve Ter sua origem no caos e precisa resistir as pressões advindas da conceituação. Isto porque, o Universo se mostra como uma aventura marcada, desde o início, pelo quase aniquilamento da anti-matéria pela matéria, do analógico pelo lógica, da incerteza pela certeza, da subjetividade pelo palpável, acentuada pela desintegração seguida da autodestruição de galáxias e estrelas. Aventura pela qual metamoforses se evidenciaram na constituição da vida.

Uma outra idéia que superou o racionalismo científico foi a incerteza da Biologia. Assim, se o surgimento da vida corresponde à transformação de inúmeras macromoléculas em uma organização de um novo tipo, pode-se dizer que a vida seja capaz de se auto-organizar e retirar de seu meio ambiente a organização, a energia e a informação. Portanto, se mostra desobediente a qualquer espécie de necessidade inevitável. Deduz-se assim, que a vida continua sendo um mistério sobre o qual sempre se debruçará métodos e roteiros. O que é a vida? Talvez tenha surgido pela mistura do acaso com a necessidade. Será? Se há de convir uma insegurança quanto ao seu caráter, ou seja, não se consegue estabelecer parâmetros que apontem para necessidade, ação miraculosa para o inevitável ou pretensão fortuita que dê sentido a ela.



III- O Pensamento
As expressões - verbais ou não verbais - deverão carregar a idéia de vinculação entre o significante ( matéria ) e o imaginário. Nestes termos, pode-se entender com facilidade, que a fala é um pensamento que se decodifica por signos ( representação ) em categorias gramaticais. Quando conseguimos associar esses universos, ainda que sejam expressamente definições convencionadas, se cria uma instância que deve ser estabelecida como denominação representada. Por exemplo: quando se diz cadeira, esse objeto se mostra significante ao mundo independente de mim ( há um conceito dessa matéria ). No entanto, o mundo que existe dentro de mim pode representar esse mesmo verbo com características próprias, todavia, com equivalências que permitirão representá-lo de acordo com modelo atribuído. Percebe-se, sem dúvida, que a concepção do pensamento a partir desse ponto é edificante, pois venera a verdade sugerida que representa esse verbo e dissocia, com apoio da escola que abriga a forma a qual o exercício da lógica nomeou, a discussão desse verbo negociado no espaço mental do indivíduo, obrigando que seja potencializada pela escrita, sem permitir a descontextualização do universo científico, que define esse verbo com objeto. Por mais que haja uma idéia, ela, pela escola, será aceita se estiver em plena comunhão com os parâmetros gramaticais e significativamente com os padrões estabelecidos. A questão que se estabelece, de forma consciente, é a seguinte: o que é ciência ? Seria uma expressão cientificamente pura ? Se essa idéia é verdadeira, como então se mostra monóstrofe quando precisa esclarecer seu surgimento ? Embora a cientificização do conhecimento tenha a capacidade de eliminar a competência ética, a praxis do cientista suscita uma ética própria. Não é uma moral esterior imposta, trata-se de mais do que consciência profissional inerente a toda profissionalização; de ética própria do conhecimento, dinamiza todo e qualquer cientista que não se vê como um funcionário simples e desprovido de valor. É imperativo: Tem de saber para conhecer, que deve sobrepujar as proibições que o limitem. Desta forma, o conhecimento científico, desde Galileu, venceu interdições religiosas, mas não conseguiu explicar sua origem. Para tanto, é preciso entender que a responsabilidade do cientista ou investigador perante o objeto de estudo é, portanto, uma catástrofe histórica mesmo que seja capaz -ou incapaz- de considerar o ilapso e seu terrível atraso em relação à urgência torna-a mais urgente.

Minha consideração se prende à idéia de ser inteiramente ilusório crer que se pode encontrar uma solução sobrenatural. Pelo contrário, há que insistir no contra-efeito de duas ilusões, a saber:


1- a ilusão de que existe uma consciência de base científica que pode guiar o investigador: toda teoria que se pretende científica tende a monopolizar a qualidade;

2- a ilusão de que uma consciência moral é suficiente para que a ação que desencadeia tome sentido de seu objetivo.

Não se pode esquecer que a ação mostra nossas acões, que uma vez entradas no mundo, são arrastadas numa espécie de jogo de interações/retroações em que são desviadas de seu sentido, tomando por vezes sentido contrário. É preciso tentar ultrapassar o isolamento esplêndido e o ativismo limitado e, para tanto, se usa caminhos, isto porque não há solucões.

Há pelo menos dois caminhos a considerar: quando se fala das ilusões, se pretende elucidar que elas abrem novos caminhos e que vitalizam a consciência crítica a ponto de tornar claro que o homem é livre, dotado de vontade e responsabilidade e que age conscientemente – constituintes do campo ético- e não um miserável. Embora os pesos burocráticos sejam quase gigantescos nas instituições científicas a ponto de considerá-lo assim. E o outro é aquele que aconselha ao conhecimento científico uma dimensão reflexiva assumida sem transferência de responsabilidade à Filosofia; que deve, fazer parte dos ensaios. Isto porque, apesar das teorias da ciência revelarem parte importante da realidade, esconde enormes partes – alguns, como Popper, chamam-na de parte cega da ciência-. É preciso que se caminhe para uma concepção científica que estabeleça comunicação entre objeto e sujeito. Mas porque chegamos até esse ponto? O diagnóstico surgiu aproximadamente a cinqüenta anos, quando Edmund Husserl ( 1859-1938 , teorico da fenomenologia e da ciência da essência ) mostrou que havia uma ruptura no método científico ( objetivismo do) , ou seja, a ciência não tinha consciência de si mesmo. Isto porque, de um lado ocorrera a disjunção da subjetividade humana reservada à Filosofia e, do outro, a disjunção da objetividade do saber que é próprio da ciência. Entende-se então, que o conhecimento científico desenvolveu as etiquetas para conhecer todos os objetivos possíveis, mas se tornou cego quanto a subjetividade humana; ele ficou sem enxergar e incontemplativo, por isso a ciência não pode se conhecer, não pode se pensar com os métodos que dispõe.


IV- A Transdisciplinaridade
Atualmente não se pode negar que o sujeito se tornou fundamental e é o ponto de equilíbrio discutível da ciência. Apesar de haver uma necessidade de desmonopolizar a idéia de sujeito da Filosofia. É preciso que se pense e repense o conhecimento, não como uma pequena quantidade de saberes, como nos séculos XVII e XVIII, mas no estado de atual proliferação, dispersão e parcelamento dos conhecimentos. Portanto, a transdisciplinaridade que formatou a ciência, também a denuncia. Isto porque toda a transdisciplinaridade demanda de paradigmas ou princípios que determinam e controlam o conhecimento. É sabido que o desenvolvimento da ciência não se efetua por acumulação dos conhecimentos, mas por transformação dos princípios que organizam o conhecimento. A ciência não se limita a crescer. Por isso , pode-se dizer, como dizia Alfred North Whitehead (1861-1947 – Fundador dos princípios matemáticos – 1910-1913 ), a ciência é mais mutável do que a teologia. Precisa-se crer.

Após a revolução científica do século XVII formulada por Descartes, o sujeito é dissociado do objeto e remetido à metafísica. Essa exclusão efetuou-se na base de que a concordância entre experimentações e observações permitisse se chegar ao conhecimento objetivo. Mas assim, ignorou-se que as teorias científicas não o puro e simples reflexo das realidades objetivas, mas co-produtos das estruturas do espírito humano e das condições socioculturais do conhecimento. E assim pode-se contemplar a atual situação na qual a lógica científica se tornou incapaz de assumir seu lugar, seu papel em sua sociedade; tornou-se incapaz da emancipação. Há uma transdisciplinaridade a ser feita. É preciso considerar o saber e respeitá-lo; ele está vivo. Portanto, ele precisa ser analisado, passar pelo divã dos espíritos humanos. Isto porque o saber, na tradição clássica da antiga Grécia até a Era das Luzes se prolongando ao final do século XIX era efetivamente para ser compreendido, pensado e ovacionado, privando o indivíduo – até os dias de hoje – da reflexão. Portanto, como ressituar o saber na contemporaneidade? Em princípio, pode-se dizer que faz-se necessário uma transdisciplinaridade de um paradigma que permita distinguir os domínios científicos (1) ; aquele que denota complexidade e que, ao mesmo tempo, separe e associe, que conceba às realidades, unidades elementares dos saberes e suas leis gerais.

Para tanto, precisa-se considerar três grandes domínios científicos – estes sugeridos por Edgar Morin – Física, Biologia e Antropossociologia. A pergunta é: como fazê-los comunicarem-se? A sugestão é que se comuniquem por circuito, ou seja, arraigar a esfera antropossocial na esfera biológica, porque não é sem problema e nem sem conseqüência que os humanos vivos são seres vivos, animados, sexuados, vertebrados, mamíferos. De igual modo, há necessidade de se arraigar a esfera viva na Física. Isto porque, se a organização viva é original em relação a toda organização físico-química, é uma organização físico-química, oriunda do mundo físico, todavia, dependente dele. No entanto, operar arraigamento não significa operar redução, ou seja, não é limitar o humano a interações físico-químicas, mas reconhecer os níveis de realidades. Além dessa observação, faz-se necessário repensar o papel da ciência física. Ela não pode continuar a ser vista como o puro reflexo do mundo físico; tem de ser vista como uma produção intelectual, cultural, cujos desenvolvimentos dependam dos de uma sociedade e das observações/ experimentação produzidas. Há de se lembrar que a energia não é um objeto visível; é um conceito produzido para dar conta de transformações e invariâncias físicas – até então desconhecidas no século XIX-. Portanto, pode-se dizer, que é possível caminhar do conhecimento físico ao social e chegar ao antropológico, porque todo conhecimento depende das condições, das possibilidades e limites do entendimento humano, isto é, do elemento alma – cérebro. Mas lembrando que isso não é uma receita é apenas uma viabilização da comunicação dos pensamentos complexos.

Hoje, pode-se dizer, que a ordem científica sinaliza uma incapacidade em lidar com a subjetividade, no entanto, a Lingüistica introduz, na metodologia da ciência, um discurso que daria voz a subjetividade. Se a modernidade diz que o real era descoberto e não constituído, seria a ciência capaz de decifrar porque a mente da criança, que em princípio, não se mostra lógico-científica e lógico-social, sinalizar a sede, a fome e a necessidade de se viver em comunidade?


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