Ecos na Grammatica Expositiva (Curso Superior)



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Ecos na Grammatica Expositiva (Curso Superior)

MOLINA, Márcia Antonia Guedes (UNISA)*

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Este trabalho objetiva analisar a Gramática Expositiva1 (de Curso Superior) de Eduardo Carlos Pereira, cuja primeira edição data de 1907, à luz da História das Idéias Lingüísticas.

Lembremo-nos, primeiramente, de que essa linha de pesquisa permite estudarem-se não somente as antigas gramáticas portuguesas anteriores à de Adolfo Coelho (2ª metade do século XIX), como as primeiras escritas por brasileiros (as de Moraes Silva e de Frei Caneca, por exemplo), como qualquer outro saber fundado na ciência lingüística(obras gramaticais surgidas a partir do compêndio de Júlio Ribeiro (1881)2.

Em segundo lugar, como a História das Idéias Lingüísticas se filia à História Cultural, ao estudarmos um objeto metalingüístico sob essa luz, podemos vislumbrar o que permeava o saber dos estudiosos que fizeram aquela época, como era essa época, como eram os homens que constituíam aquele momento histórico, como pensavam, como agiam.

O estudo faz-se importante porque pretende descortinar, na obra, os estudiosos que auxiliaram a constituição do saber de Eduardo Carlos Pereira.

Não podemos nos esquecer de que, como porta-voz de uma época, o texto pode ser entendido como discurso, ou seja como um conjunto de enunciados advindos de várias formações discursivas que remete a uma outra formação discursiva. Isto porque:


todo discurso se estabelece na relação com um discurso anterior e aponta para outro. Não há discurso fechado em si mesmo mas um processo discursivo do qual se podem recortar e analisar estados diferentes.(ORLANDI,1988, p. 62)

E o texto, resultado concreto desse discurso, se faz através de um entrelaçamento perpétuo, através do qual o sujeito se constitui, se faz e desfaz, como uma aranha que se dissolvesse ela mesma nas secreções construtivas de sua teia. (BARTHES, 1973, p.83).

Verificaremos, pois, quais são os outros que constituem o discurso de Pereira, como ecoam suas vozes no capítulo introdutório de sua gramática, momento em que expõe as noções preliminares de seu trabalho e na parte em que se dedica à fonética, morfologia e sintaxe, para, assim, melhor compreendermos sua concepção de gramática.
1.0 O período gramatical

ELIA (1975), baseado em NASCENTES (1939), divide os estudos filológicos aqui no Brasil em dois grandes períodos: o vernaculista e o científico. O primeiro vai de 1820, quando ocorre nossa independência política, até 18803, com o surgimento da gramática de Júlio Ribeiro e caracteriza-se por contradições entre as preocupações puristas, de estudiosos conservadores, com os representantes da nova geração.

Já o segundo período, que vai de 1880 a 1960, chamado por ele de científico, compreende duas fases: a primeira, de 1880 a 1900, tem como principal característica a transição, melhor dizendo, é a instância em que a renovação prevalece sobre o conservadorismo da época anterior. Seus principais representantes são, entre outros, o já citado Júlio Ribeiro, Antonio Pereira Coruja e João Ribeiro. Não podemos esquecer também que foi esse o momento da implantação do Programa de Língua Portuguesa do Colégio Pedro II, idealizado por Fausto Barreto, a pedido do então Diretor Geral da Instrução, cujo conteúdo norteou a elaboração de inúmeras gramáticas que o sucederam.

A segunda fase desse segundo período, que vai de 1900 a 1960, possui, de acordo com Elia, três gerações: a primeira, de 1900 a 1920, inicia-se com o combate à base normativa de direção vernaculista; a segunda geração, de 1920 a 1940, é formada pelos estudiosos que aprenderam nas lições dos grandes nomes da filologia portuguesa; e a última geração, de 1940 a 1960, contemporânea de Sílvio Elia, representa a transição entre o autodidatismo das gerações anteriores para a formação universitária.


Como a obra de Eduardo Carlos Pereira foi escrita em 1907 e reformulada algumas vezes, podemos inscrevê-la nessa segunda fase que, embora de transição, foi o momento em que a renovação prevaleceu sobre o conservadorismo. Foi essa a época, na qual, ficou “acordado” que

o papel do gramático é observar e registrar imparcialmente os fatos, sem os louvar ou censurar, e muito menos procurar influenciá-los, na pretensão de corrigir e aperfeiçoar a linguagem, segundo regras que eles imaginaram, e filosofias que arquitetaram na sua fantasia. (Barreto: 1911)


E Eduardo Carlos Pereira, mineiro, de Caldas, pastor da Igreja Presbiteriana de São Paulo, escritor, professor concursado do então Colégio Estadual e um dos metodizadores do ensino da Língua Portuguesa, foi um dos filólogos dessa fase que mais estudou e registrou a Língua Portuguesa.

2.0 Uma visão geral das páginas iniciais da Grammatica Expositiva (Curso Superior).


A edição analisada da gramática de Pereira4 inicia-se com a apresentação do “Prólogo da 1 ª edição” datado de 14 de fevereiro de 1907, no qual o autor justifica o porquê da obra, questiona o “novo modelo” e fala das incertezas que permeiam o Ensino de Língua, especificando ainda a orientação pedagógica que segue:

em primeiro lugar, procuramos a resultante das duas correntes – da corrente moderna, que dá ênfase ao elemento histórico da língua, e da corrente tradicional. Que se preocupa com o elemento lógico na expressão do pensamento (...) (p.7).


Completa o autor: há verdade nas duas correntes: o erro está no exclusivismo de uma e de outra, ou melhor, na confusão de ambas(p.7)

Já no começo da obra, percebemos a preocupação do autor em diferenciar o “modelo novo” do “antigo”. Por modelo novo, deixa claro que entende a descrição da língua, baseada, aqui no Brasil, em Júlio Ribeiro, um dos principais estudiosos do final do século XIX e início do XX.

Parece-nos, contudo, que acredita no estudo da língua baseado tanto no seu caráter histórico, quanto no da lógica aristotélica (modelo “antigo”), mas quer adaptar seu trabalho aos novos estudos (àquela época) expositivos da língua.
Ninguém contesta, certamente que os fatos atuais da língua têm sua explicação racional nos antecedentes históricos da mesma língua. É na fonologia, morfologia ou sintaxe históricas que encontramos razão de ser das regras atuais da gramática expositiva (...) (p.7)

A seguir, especifica que seu trabalho está amparado na autoridade de mestres de reconhecida competência como: Diez, Darmesteter, Ayer, Mason, Bain, Brachet, Bello, Zambaldi, além de gramáticos nacionais e portugueses, antigos e modernos. Salienta ainda que cita exemplos clássicos, como Herculano e Castilho, para firmar a “doutrina”.

Notamos que Eduardo Carlos Pereira chama a voz da competência, a voz da autoridade, para ratificar sua posição. O “outro” é inserido em seu discurso, logo no prólogo da obra para dar credibilidade ao que será exposto.

Além de ratificado por grandes nomes, diz que, por sugestão do programa oficial de português, enriquece seu humilde trabalho com dezenas de provérbios, máximas e ditos sentenciosos a fim de aclarar e fixar as regras (p.9). Ou seja, o outro agora terá a função de atestar suas afirmações.

Dando continuidade a esse prólogo, especifica como está organizada a obra:

não partir a gramática em pequeninos, multiplicando ao extremo as divisões e subdivisões, com grave detrimento da clareza; b) classificar os fatos e prendê-los na unidade de um todo harmônico.(p. 9).


Podemos ouvir aqui uma voz que crítica os demais gramáticos que, ao partirem seu trabalho em item e subitens, prejudicariam a clareza do que se está ensinando.

Finalizando o prólogo, afirma que em sua obra deve haver erros e que ficará grato à crítica que os apontar.

Destacamos aqui o valor semântico do modal “dever”, indicando possibilidade. O autor, ao empregar esse verbo, pretende deixar clara a hipótese da existência de “erros” e invoca o leitor para que ele os detecte e aponte. Recordemo-nos aqui as palavras de BAKHTIN (1929):
toda a essência da apreensão apreciativa da enunciação de outrem, tudo o que pode ser ideologicamente significativo tem sua expressão no discurso interior. Aquele que apreende a enunciação de outrem não é um ser mudo, privado da palavras, mas ao contrário, um ser cheio de palavras interiores...

A seguir, a gramática apresenta o “Prólogo da 2 ª edição”, datado de 13 de dezembro de 1909, no qual o autor afirma ter ampliado a matéria e a sua exemplificação clássica, retocando aqui e ali a doutrina e sua disposição metódica (p.11) tendo ainda alargado o trabalho com um esboço histórico e geográfico da língua, um breve estudo sobre a Sintaxe e a Estilística, e com Índice alfabético; e o “Prólogo da 8 ª edição”, datado de 25 de abril de 1918, no qual assevera: sai expurgada e bastante melhorada (p. 12) tal edição.

Continuando, elenca as autoridades clássicas que amplamente autorizam as teorias da Gramática, chamando novamente a voz do “outro” para ratificar a sua. Finalizando a parte introdutória, em Explanações, orienta como deverá ser o trabalho do professor nas séries, travando então um diálogo com esse “outro”, seu interlocutor virtual.
3.0 A Lexeologia e a Sintaxe

O autor divide os estudos gramaticais em duas partes: Lexeologia e Sintaxe, inspirado em autores como BAIN (1894) e MASON (1877).


A primeira parte Lexeologia ou estudo das palavras isoladas é subdivida em outras duas: fonologia e morfologia. Por fonologia entende o estudo dos elementos materiais da palavra (p. 4) e compreende, para ele, a fonética, a prosódia e a ortografia. Urge lembrarmos que, nessa ocasião, os estudos fonético-fonológicos ainda estavam engatinhando aqui no Brasil, pelas mãos de Franco de Sá, então, a referência mais utilizada por Eduardo Carlos Pereira, nessa parte, é ao Dicionário Contemporâneo:

Manda o Dicionário Contemporâneo pronunciar-se o c em facto, factura, factor. (...) (p. 12)


Manda o Dicionário Contemporâneo pronunciar-se o m em gymnastica, amnistia (...) Em nosso meio já sofreram essas palavras a ação simplificadora (p. 14).
Embora não deixe de fazer referência à tradição:
A quantidade das sílabas não tem em nossa língua, bem como nas outras línguas derivadas do latim, chamadas neo-latinas, a importância que teve no período clássico do latim e do grego (p. 21)

E a autores seus antecessores:


Tritongo – são três vogais sucessivas, no corpo do vocábulo, pronunciadas em uma emissão de voz. Opinam Duarte Nunes Leão e F. Diez pela existência de tritongos contra a opinião de J. Soares Barbosa e outros. De fato, os supostos tritongos são simitritongos uns e hiatos outros.....(p.11)

Lavra confusão entre os gramáticos sobre o número dos nossos ditongos orais: Fernão Lopes de Oliveira, dá-nos 15; Duarte Nunes Leão, 16, Roboredo, 16; João Franco Barreto, 19; (...)

E, nos exemplos, o autor mais chamado para ratificar a doutrina é Alexandre Herculano:
Escrever-se-ão com maiúscula no caso da regra 3ª:

Os nomes de nacionalidades, raça ou língua:

Os judeus não se haviam afastado da lei de Moysés (A.H.)

(...)


Os nomes de dias, meses, estações do ano, como:

A lei de 14 de junho era como um facho de luz sinistra (A.H.)

(p. 36)
Devido talvez a esta confusão eventual, generalizou-se o uso de acentuar-se a preposição em muitas locuções adverbiais: à mão, à uma, à pata, etc.

Os seus valentes postos à espada (A.H.)

(p.40)

Quanto à morfologia, assim a compreende o autor: é a parte da Lexeologia que estuda a palavra em seu elemento imaterial, isto é, em sua idéia ou significação, e também está bipartida em taxeonomia e etimologia. A primeira estuda as diversas classes de palavras e as suas propriedades em relação à idéia que expressam (p.42) e a segunda é a parte da gramática que estuda a origem e a formação do léxico, isto é, do vocabulário da língua. Em ambas, uma gama de autores de obras gramaticais (nacionais e estrangeiras) é chamada ao texto para assegurar suas afirmações:

Considera Grivet, e com ele muitos gramáticos, como pronome todo o adjetivo determinativo que não tem na frase o seu substantivo claro(...0
Obs. Observa ainda o ilustre prof. Da Academia de Neuchatel, C. Ayer, que os antigos gramáticos já se serviam da palavra predicado para designar o que geralmente se chama hoje o atributo. A palavra predicado (predicatum = enunciado) significa etimologicamente, continua o mesmo ilustre gramático, o que se diz do sujeito, e é este o seu verdadeiro sentido na análise do pensamento..... (...) (p.199)
Os fatos sintáticos são extremamente móveis, e difícil é, como nota Darmesteter, traçar em seu estudo uma ordem rigorosamente sistemática. A divisão em três partes – sintaxe de concordância, regência e colocação (Soares Barbosa, Bento de Oliveira, Monteiro Leite), é deficiente. A divisão em duas partes – sintaxe léxica e lógica ( Júlio Ribeiro, Leopoldo da Silva) é defeituosa visto que..... (....) Melhor se nos afigura a divisão em sintaxe de palavras e sintaxe de preposição (Brachet & Dessouchet, Dr. A. Freire, João Ribeiro, Pacheco Junior e Lameira de Andrade).. (p.198)

Nesse momento, rompendo com a época, Eduardo Carlos Pereira destaca, inclusive, do uso popular:

O interrogativo - o quê ? Embora muito condenado por ilustres gramáticos como Júlio Ribeiro, Dr. Augusto Freire e outros, tem sido modernamente autorizado por escritores de bom quilate, como A. Castilho, Garrett, Herculano, L. Coelho, Rabelo da Silva. Coincide com essas autoridades o uso popular.(Grifos nossos, p.97)

E, em oposição e em defesa do bom uso, cita inúmeros autores da literatura principalmente extraídos de autores do Romantismo:


Quem não conhecesse a V.Exc..... (A.H.)

Somente ao tronco, que devassa os ares, o raio ofende (G.D.)

São contemplados também, dentre outros:

Camões :

Lia Alexandre a Homero de maneira

Que sempre se lhe sabe à cabeceira
Vieira:

Os homens perseguiam a Antonio, porque lhes repreendia seus vícios

Esclarecemos que a obra toma como exemplos, da teoria exposta, inúmeros autores clássicos da literatura, porque, apesar de ter mudado a definição de gramática da primeira para a segunda edição5 , para ele, sublinearmente percebe-se que comunga mesmo com a conceituação do termo expressa nas observações da página 3 de sua obra:
Da antiga Roma nos veio esta definição: A gramática é a arte de escrever e falar corretamente. Existe uma boa tradição: a gramática tem o dever de a tornar conhecida e defendê-la contra qualquer alteração (p.3)

Ou seja, apesar de escrever num período em que os conhecimentos gramaticais de base cientificista já se haviam consolidados, como homem de formação clássica, dela não conseguira desvencilhar-se.



Considerações finais

A análise da obra permitiu-nos verificar que Pereira se vale de vozes de autoridades em vários momentos (quando as há) para ratificar a teoria, necessitando até da força do “Programa oficial de Português” para “firmar a doutrina”, já que:


a) pretendia inovar e citar obras de autores que rompiam com a tradição, ajudar-lhe-iam a mostrar o caráter inovador de seu trabalho;

b) era um professor de São Paulo, pouco conhecido, quando a força dos estudos gramaticais vinham, sobretudo, do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro e, para posicionar-se e ocupar seu lugar social, necessitava mostrar seu saber lingüístico;

c) precisava, pois, demonstrar tanto esse saber quanto modernidade para ganhar reconhecimento e credibilidade.

Talvez tenha sido a seriedade de seu trabalho e, como visto, o registro dos fatos ancorados em autores de referência que o tenham auxiliado no sucesso alcançado pela obra, uma vez que, em cinqüenta anos, teve ela cento e quatorze edições6 e foi, num momento de muitas crises econômicas aqui no Brasil, um sucesso de vendas, tornando seu autor uma referência dos estudos gramaticais brasileiros.



REFERÊNCIAS

BAIN, A. Higher English Grammar. London: Longman & Co., 1874.



BAKHTIN, M. (1929) Marxismo e Filosofia da Linguagem (Trad). São Paulo: Hucitec,1988.
BARRETO, M. Novos Estudos de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1911.
BARTHES, R. (1973) O Prazer do Texto (Trad). São Paulo: Editora Perspectiva, 1977
ELIA, S. Ensaios de Filologia. Rio de Janeiro: Livraria Acadêmica, 1975
FÁVERO, L.L. & MOLINA, M.A.G. As concepções Lingüísticas no Século XIX: A gramática no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 2006.
MASON, C.P. English Grammar (Including the Principles of Grammatical Analysis). Toronto: Adam Miller and Co., 1877.
MOLINA, M.A.G. Estudo Descritivo-analítico da “Gramática Expositiva de Curso Superior” , de Eduardo Carlos Pereira. Tese de Doutoramento. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2004.
ORLANDI, E.P. (1988) Discurso e Leitura. São Paulo, Cortez Editora.
NASCENTES, A. Estudos Filológicos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1939.
PEREIRA, C.E. (1907) Gramática Expositiva( Curso Superior). São Paulo: Companhia Editora Nacional 1959.


1* Doutora em Lingüística pela Universidade de São Paulo; Professora Titular de Língua Portuguesa e Coordenadora do Curso de Letras (Presencial e a Distância) da Universidade de Santo Amaro, São Paulo, Brasil.

 Para facilitar a leitura, procedemos à atualização ortográfica.

2 Cf. Fávero,L.L. & Molina, M.A.G. (2006)

3 O autor traz 1880 como data aproximada da escritura da Gramática.


4 A de 1959.

5 Na primeira a apresentada é a da tradição greco-latina, já na segunda, a de ciência das palavras, cf. Molina, 2004.

6 Cf. MOLINA, M.A.G. (2004)


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